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TIÃO VOADOR

O encontro do fotógrafo com o drone ao retratar o Instituto Terra, em Minas Gerais
Imagem Tião voador

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Texto de Fernando Meirelles

No começo de 2023, pouco depois de completar 79 anos, Sebastião Salgado se defrontava com um dilema: iniciar uma nova empreitada de fôlego, que lhe exigiria muito esforço físico e emocional, ou mergulhar em seu extenso arquivo para organizar imagens e tirar dali exposições inéditas. Estava mais tentado a virar editor do acervo, mas concluiu que ainda devia a si mesmo uma série sobre o Instituto Terra – o projeto de restauração ambiental que fundou há quase três décadas na fazenda onde cresceu, em Aimorés (MG), a partir de uma ideia da arquiteta e produtora Lélia Wanick Salgado. Casados desde 1967, Tião e Lelinha, apelidos carinhosos que gostavam de usar, moravam em Paris e trabalhavam juntos.

De início, o Instituto Terra abrangia somente os 710 hectares da antiga fazenda. A propriedade, que pertencia à família de Tião, fica na Bacia Hidrográfica do Rio Doce e havia se degradado por causa da pecuária tradicional. O instituto reflorestou a fazenda e, depois, incorporou quatro propriedades vizinhas, que agora se encontram em diferentes estágios de recuperação. Hoje, o Terra ocupa mais de 2,3 mil hectares. Para fotografar aqueles morros, só voando. Por isso, Tião me ligou da França. Não éramos amigos íntimos, mas nos falávamos com regularidade. Ele queria ajuda, pois nunca tinha mexido com drone. Respondi sem pensar: “Você precisa do Alexandre Ermel.” Excelente fotógrafo, Alê é também um dos melhores pilotos brasileiros de drone. Eu sabia que daria certo. Uns dias depois, Tião me telefonou de novo, fascinado pelas conversas com o futuro parceiro. Alê, por sua vez, estava nas nuvens diante da possibilidade de auxiliar o mestre dos mestres.

Primeiro, Alê cogitou utilizar um drone grande, com os equipamentos que Tião pedira: câmera Canon 5D e lentes 28mm e 35mm. No entanto, para operar a estrutura, seria necessária uma equipe. Alê propôs, então, uma alternativa mais ágil: o drone Inspire 3, com câmera DJI e lente Hasselblad. Como não conhecia essa câmera, Tião quis checar sua qualidade. Alê fotografou a Represa de Guarapiranga, em São Paulo, e mandou os registros para Paris. Tião os ampliou em papel fotográfico com 2 metros de comprimento. Gostou do resultado e tomou a decisão: pela primeira vez em cinquenta anos de carreira, usaria uma câmera que não lhe era familiar e um drone.

A dupla reservou doze dias de trabalho em dezembro de 2023. Fui até o Instituto Terra com a intenção de apresentá-los pessoalmente. Eles, porém, já se mostravam tão entrosados que só servi para carregar mochilas e equipamentos. Permaneci em Aimorés nos primeiros dias e fui embora. Claro que me arrependi de ter ido…

Os doze dias se tornaram vinte. Alê pilotava o drone, Tião movimentava a câmera com um joystick, acionava o disparador e se sentia em casa quando ouvia o clique que o colega teve o cuidado de programar para soar como o da velha Canon. Pelo intercomunicador, o fotógrafo veterano ia dirigindo o parceiro: “Sobe… Mais à esquerda… Consegue entrar por baixo daquele galho?” Foi lindo ver o Tião encantado com o brinquedinho. Ele preferia empregar o drone até para fotografar na altura dos próprios olhos.

Alê contou que, durante os vinte dias, Tião não parou de mencionar as inúmeras possibilidades que o aparelho inaugurava. “Se eu tivesse um drone desses quando retratei os nenets…”, dizia, referindo-se ao povo nômade da Sibéria. Não raro, mirava o futuro e descrevia cenários que sonhava registrar dessa nova maneira. Chegou, inclusive, a marcar passagem para Alê viajar até Paris em outubro de 2024. Pretendia fotografar a capital francesa do alto, mas as datas foram mudando, e o reencontro dos dois nunca aconteceu.

Depois das jornadas de trabalho no instituto, Tião fazia sauna, jantava apenas frutas e exibia as imagens do dia na tela enorme da casa onde se hospedava. Ótimo contador de histórias, transformava aquelas sessões em causos e aulas de fotografia. Folheava os livros que já lançou e relembrava os perrengues enfrentados para conseguir as fotos. Tinha bastante clareza de como cada projeto se conectava a seus movimentos internos – da militância de esquerda a uma visão de mundo mais holística.

Morto em maio passado, aos 81 anos, Tião pré-selecionou 200 das 4 mil imagens captadas no Terra com Alê. A série inédita – que a piauí reproduz em parte neste portfólio – é a síntese de uma vida extraordinária. Marca o retorno do mineiro à pequena cidade de onde saiu e expressa o seu profundo respeito pela natureza, além do amor por Lelinha, já que ele também fotografou com muito esmero o jardim de plantas ornamentais que a companheira projetou no instituto.

Com 2,3 mil hectares, o Instituto Terra fica em Aimorés: produz milhões de mudas para restaurar a Mata Atlântica que cobria todo o espaço antes de a agropecuária devastá-la

Cinquenta e dois lavradores compõem a equipe de restauradores florestais: um motorista, um gerente ambiental e um coordenador também fazem parte do grupo

De início, a área do instituto abarcava somente a antiga fazenda de 710 hectares onde Sebastião Salgado cresceu: mais tarde, o Terra incorporou quatro propriedades vizinhas, que hoje também estão em processo de recuperação ecológica

Os 710 hectares originais do instituto abrigam agora uma jovem floresta com 3,3 milhões de árvores nativas da Mata Atlântica: o bioma é um dos mais ameaçados do planeta

O viveiro do instituto já produziu 7,5 milhões de mudas: parte delas foi para agricultores da redondeza que integram o Terra Doce, programa de desenvolvimento rural sustentável

Lélia Salgado projetou um jardim de plantas ornamentais no instituto: a área reúne espécies de diferentes partes do planeta, que a arquiteta e o marido trouxeram de suas viagens

A jovem floresta do Terra faz divisa com a Fazenda Cantinho do Céu, uma das quatro propriedades incorporadas: ninguém mora no território sob controle do instituto

A Fundação Príncipe Alberto II de Mônaco, a seguradora suíça Zurich Insurance Group e o governo alemão estão entre as entidades que ajudam a remunerar os trabalhadores e a restauração das propriedades incorporadas pelo Terra: na floresta já recuperada, vivem pelo menos 235 espécies de animais, incluindo aves, répteis, anfíbios e mamíferos como onças-pardas


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