Mulher representando Ekeko, divindade andina da abundância e da prosperidade, na região do Lago Titicaca, na Bolívia
Um menino veio do céu
Fotógrafo boliviano reinventa O Pequeno Príncipe nos Andes, com indígenas aimarás
River Claure | Edição 200, Maio 2023
Apresentação de Diego Mondaca
Tradução de Rubia Goldoni e Sérgio Molina
O fotógrafo boliviano River Claure é neto de camponeses aimarás que migraram para centros de mineração e depois se estabeleceram na cidade de Cochabamba, onde ele nasceu há 25 anos. Em suas fotos, Claure reinventa aspectos tradicionais de seu povo – que habita os Andes argentinos, chilenos, peruanos e, sobretudo, bolivianos –, combinando-os com elementos atuais, como tecidos sintéticos ou objetos de plástico. A presença desses novos elementos está longe de implicar uma crise de identidade para os aimarás: é muito mais um modo de eles afirmarem seu lugar e sua cultura mestiça nos tempos atuais. Embora ameaçado há séculos, esse povo soube atravessar espaços entre o campo e a cidade, e assim sobreviver, se renovar e participar do mundo contemporâneo globalizado.
Em 2020, Claure publicou seu primeiro livro de fotos, Warawar Wawa (Filho das Estrelas), que o confirmou como um dos artistas mais relevantes da Bolívia. Na obra – da qual foram extraídas as fotos que a piauí publica nesta edição –, ele cruza a cultura aimará com a história de O Pequeno Príncipe, numa ousada reescrita do clássico de Antoine de Saint-Exupéry (1900-44). Buscando recompor e recodificar a imagem desse povo dos Andes, Claure especula muito livremente a partir de personagens, planetas, desertos e situações imaginadas por Saint-Exupéry, localizando-os agora na imensidão do altiplano boliviano.
Em seu trabalho para entender como os aimarás nomeiam as coisas, Claure se deparou com um fato paradoxal e bonito: eles não têm a palavra “rei”. Portanto, não é possível encontrar em sua língua um termo equivalente para “príncipe”. Foi assim que nasceu o nome do projeto, Warawar Wawa – em vez de um príncipe, um menino que veio do céu, ungido com algum tipo de nobreza. Nesse choque de contrários, com uma criança aimará transformada em “pequeno príncipe”, o fotógrafo gera espaços de ficção e jogo que iluminam todo um contexto social e oferecem novas perspectivas de compreensão das diferentes realidades que atravessam nossas culturas. As fotos cristalizam a crítica aos essencialismos culturais feita por Claure, que prefere abraçar a ideia de “miscigenação ch’ixi” (cinza, em aimará). Esse conceito cunhado pela socióloga e ativista boliviana Silvia Rivera Cusicanqui propõe a possibilidade de as culturas habitarem variados mundos ao mesmo tempo, libertando-se da tentação de negar o contemporâneo.
Claure dedicou mais de três anos a pensar e delinear a nova contextualização e a ressignificação de O Pequeno Príncipe nos Andes bolivianos, afastando o personagem dos clichês e do desdém colonialista. “O que meu livro traz são questões como ‘quem sou eu’ e ‘com o que me identifico’. O dilema e o problema de pensar sobre a nossa identidade é que devemos enfrentar o outro. Não enfrentarmos de forma violenta, mas nos atrevermos a olhar e sermos olhados”, diz o fotógrafo.
No livro, o Pequeno Príncipe, natural do asteroide B-612, viaja por espaços áridos e infindáveis planícies, em meio a cristais de sal e minérios acobreados, tijolos e telhas, lagos violáceos e enormes monólitos entalhados por gigantes, construindo uma história cujo código está no amor, na solidão e na passagem do tempo. Aos poucos, as relações entre o personagem de Saint-Exupéry e o de Claure se aprofundam e começam a construir metáforas mais complexas, incorporando, por exemplo, personagens da cultura andina urbana boliviana, como o Aparapita, um camponês indígena que vai para a cidade e não encontra outro destino senão o de ser carregador nos mercados populares. “O Aparapita é um homem livre, tanto quanto um homem como ele pode ser”, observou o escritor boliviano Jaime Sáenz (1921-86). O trabalho do fotógrafo também acena a obras fundamentais da história boliviana, como A Virgem do Cerro, uma pintura do século XVIII, de autoria anônima, representando a padroeira dos mineiros.
Antes de apertar o disparador da câmera, Claure desenha a lápis tudo que almeja obter em cada fotografia. Nesses esboços podemos ver algumas das ideias que serão fixadas posteriormente nas fotos, que vão se cristalizar na encenação. Em suas criações visuais, o fotógrafo procura colocar de lado as imagens folclóricas de seu país, ampliando e exagerando dimensões e permitindo-se assim subverter a hierarquia das visões oficiais e hegemônicas.
O trabalho de Claure se empenha em formular uma proposta estética que acompanhe e molde um novo espírito andino e exponha as maneiras que existem na Bolívia de habitar e atravessar o atual espaço aimará, bem como as diversas contradições que o constroem, constituem e renovam. Suas imagens são um mergulho no tecido de complexas relações sociais, culturais e familiares acumuladas no país. São também uma tela aberta para a infância, a fim de que possamos sonhar e criar nossa própria materialidade cultural, descolonizando assim a imaginação.
As fotos integram o livro Warawar Wawa (Raya Editorial)
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