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    De golpe em golpe: Ernesto Geisel (de óculos) recebe em Brasília, em 1974, os presidentes Hugo Banzer, da Bolívia, Juan Maria Bordaberry, do Uruguai, e Augusto Pinochet, do Chile CRÉDITO: AGÊNCIA O GLOBO

arquivos do golpismo

Uma solução rápida e satisfatória

Como os militares brasileiros ajudaram seus colegas bolivianos no golpe de 1971

Walter Sotomayor | Edição 197, Fevereiro 2023

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Em março de 1971, Cláudio Garcia de Souza, recém-nomeado embaixador na Bolívia, chegou a La Paz com um importante desafio: estabelecer relações com o governo de esquerda, visto pelo regime militar brasileiro como uma ameaça à segurança do Brasil. No dia 18 daquele mês, Garcia de Souza entregou suas credenciais na chancelaria boliviana, em um encontro com o novo ministro de Assuntos Exteriores, Huáscar Taborga – e não com o general Emilio Molina Pizarro, como previsto. Na véspera, em decorrência de uma tentativa de golpe contra o presidente, o general Juan José Torres, ocorrera a mudança de gabinete, e Taborga passara a ocupar o lugar de Pizarro, enquanto o governo se inclinava ainda mais para a esquerda.

O embaixador brasileiro disse a Taborga que, de acordo com as instruções recebidas no Brasil, procuraria “explorar todas as possibilidades de aumento do intercâmbio econômico, comercial e cultural”,[1] mas o chanceler boliviano, previsivelmente, se absteve de uma resposta. Preferiu lembrar, saudoso, de uma viagem que fizera na juventude ao Brasil. No dia seguinte, Garcia de Souza usou os canais diplomáticos para enviar a Brasília um balanço da nova composição do gabinete de Torres, destacando a sua debilidade em razão da dispersão e heterogeneidade dos diversos grupos de esquerda que o apoiavam.

O governo boliviano também era foco de atenção do adido militar brasileiro, o então coronel Newton Cruz, que havia iniciado suas funções em La Paz em novembro de 1970, um mês após o golpe que levou Torres ao poder com o apoio da esquerda e dos sindicatos.

 

Em 22 de março de 1971, Garcia de Souza foi recebido com simpatia por Torres, durante a entrega formal de credenciais. O presidente boliviano havia atuado como adido militar no Rio de Janeiro em 1964 e, durante o encontro, se referiu ao Brasil como hermano mayor. Garcia de Souza achou por bem não concordar com a descrição, respondendo que o Brasil permanecia fiel ao princípio da igualdade soberana dos Estados. Em telegrama confidencial enviado a Brasília, em 22 de março, o embaixador escreveu a respeito da reunião com Torres:

Sua Excelência, na conversa que teve comigo, me pareceu realmente interessado na manutenção de um diálogo profícuo entre autoridades e representantes da Bolívia e do Brasil. Sua Excelência demonstrou especial interesse na colaboração econômica e comercial com o Brasil.

Apesar da cordialidade dos encontros com as autoridades bolivianas e das manifestações de aproximação entre os dois países, os diplomatas brasileiros concentraram sua atenção nos rumos que o governo Torres tomava e também na vigilância sobre os exilados brasileiros na Bolívia. Seguir os passos dos antigos líderes do governo João Goulart, deposto em 1964, bem como de um grande número de exilados políticos, era uma das prioridades das missões diplomáticas na América Latina: na Bolívia, mas também no Chile e Peru, ambos com governos de orientação de esquerda, na Argentina e no Uruguai – país onde o regime militar brasileiro temia o avanço eleitoral da Frente Ampla, uma coalização de esquerda.

 

Como todas essas embaixadas brasileiras, a da Bolívia, além de exercer a representação diplomática e a série de tarefas burocráticas, trabalhava no intuito de livrar o regime brasileiro da incômoda e insegura existência de um governo de esquerda neste país com o qual o Brasil compartilhava sua maior fronteira territorial.

Aos 44 anos, Garcia de Souza havia sido escolhido para o cargo em La Paz pelo chanceler Mario Gibson Barboza. Deveria manter uma relação estreita com o governo boliviano e, assim, transmitir a Brasília um quadro preciso da situação. A correspondência secreta entre a embaixada brasileira em La Paz e o Ministério das Relações Exteriores – compartilhada com o Centro de Informações do Exército (CIE) e outros órgãos de inteligência militar – descreveu diariamente a conjuntura política boliviana, cuja forte instabilidade era um obstáculo para qualquer iniciativa mais profunda no relacionamento bilateral.

 

Em abril de 1971, o presidente Torres nacionalizou a maior mineradora da Bolívia, a Mina Matilde, cancelando unilateralmente a concessão de vinte anos feita em 1966 às empresas norte-americanas Minerals & Chemical Philips Corporation e United States Steel. A medida somava mais um elemento à intensa hostilidade do governo boliviano em relação aos Estados Unidos, que já se manifestara na ocupação das sedes de agências norte-­americanas no país e na expulsão de membros do Corpo da Paz – a agência criada pelo presidente John Kennedy em 1961 com o objetivo de ajudar países em desenvolvimento.

 

Em vista dos atritos, o governo dos Estados Unidos resolveu prestar seu apoio a militares bolivianos dispostos a derrubar o governo de Torres, como se depreende de uma conversa ocorrida em 11 de junho de 1971, sexta-feira, entre o então presidente Richard Nixon e Henry Kissinger, na época assessor de Assuntos para a Segurança Nacional da Casa Branca:

Kissinger: Nós também temos um grande problema na Bolívia e…

Nixon: Eu sei. [O secretário do Tesouro John] Connally falou comigo sobre isso. O que você acha que devemos fazer?

Kissinger: Eu disse ao [vice-diretor de planejamento da CIA Thomas] Karamessines para intensificar rapidamente uma operação. Até o embaixador lá, que tem sido brando, disse agora que devemos começar a lidar com os militares [bolivianos] ou as coisas vão desmoronar.

Nixon: Sim.

Kissinger: Temos que fazer isso na segunda-feira.

Nixon: O que Karamessines acha que precisamos? Um golpe?

Kissinger: Vamos ver o que podemos fazer e de que forma. Eles vão nos apertar mais dois meses. Já se livraram do Corpo de Paz, o que é um trunfo, e agora querem se livrar da Usia[2] e dos militares [norte-americanos trabalhando na Bolívia]. E não sei se podemos até pensar em um golpe, mas é necessário ver o que há por lá. Quero dizer, antes que eles deem um golpe, nós podemos dar.

Nixon: Lembre-se que fomos nós que demos o estanho[3] a esses malditos bolivianos.

Kissinger: Bem, sempre podemos reverter isso. Então nós…

Nixon: Reverta isso.[4]

As chamadas “ações encobertas” promovidas pelos Estados Unidos por meio da CIA consistiam basicamente no uso de recursos para fomentar qualquer ação desestabilizadora, desde o apoio a greves até o vazamento de informações negativas para a imprensa, mas podia patrocinar também ações violentas. O cenário político boliviano estava se polarizando rapidamente, com o governo de Torres precariamente apoiado em dois pilares: uma fração do Exército e o apoio popular difuso, como aponta Mariano Baptista Gumucio, no livro Breve Historia Contemporánea de Bolivia.

O presidente Torres se esforçava para transmitir sinais amistosos ao governo brasileiro e mostrar contenção, enviando emissários ao presidente Emílio Garrastazu Médici e estabelecendo contatos pessoais com funcionários na embaixada em La Paz. Em um telegrama enviado a Brasília em 1º de julho de 1971, o encarregado de negócios brasileiro em La Paz, Brian Michael Fraser Neele, contou sobre seu encontro com Torres:

Ao se despedir ontem, o presidente Torres pediu-me que transmitisse ao presidente Médici uma renovada expressão de agradecimento pela acolhida aos dois emissários que enviou ao Brasil em março e que lhe assegurasse sua disposição com o Brasil, no sincero desejo de promover a crescente aproximação entre os dois países. Ele me disse que lamenta muito a imagem distorcida da Bolívia no exterior, a começar pela ideia de que o país está se tornando socialista. Assegurou-­me que tal objetivo não existe em seu governo e que tem plena consciência de que o povo boliviano, especialmente os camponeses, não querem esse destino.

O telegrama também registra que Torres expressou apreço pelo Brasil e gratidão pela colaboração que recebeu quando era comandante das Forças Armadas e confrontou a guerrilha de Che Guevara, que foi morto na Bolívia em 1967. Antes de encerrar a conversa, Torres aproveitou para criticar a ação de alguns brasileiros, como o general da reserva Hugo Bethlem, que havia sido adido militar e embaixador em La Paz entre 1952 e 1954, e era suspeito de conspirar com militares bolivianos golpistas. Em 5 de maio, durante um almoço em homenagem ao embaixador argentino Osiris Villegas, em São Paulo, Bethlem havia proposto a criação de uma espécie de tutela para a Bolívia:

Uma espécie de protetorado para nações como a Bolívia, por determinado tempo; uma espécie de tutela de seus irmãos mais velhos, para que a integração avance, com as nações do mesmo continente e não com os governantes do supermundo, sejam eles de esquerda ou de direita, ambos materialistas.[5]

O Ministério das Relações Exteriores em Brasília fez uma nota para esclarecer que as opiniões de Bethlem tinham caráter pessoal e não expressavam a posição do governo brasileiro. A nota foi emitida após protestos de Taborga, o chanceler boliviano, e deixou claro o descontentamento com que Brasília enfrentou as manifestações de Bethlem. Em 30 de maio, com o título Brasil Veta Tese de Protetorado ao Governo Boliviano, o Jornal do Brasil publicou uma matéria em que dizia ter o Itamaraty considerado absolutamente necessário deixar claro, por meio de um porta-voz, que as declarações de Bethlem expressavam “apenas o pensamento de quem as emitiu”.

 

Apesar do clima de intenso ativismo político em La Paz, teria sido muito difícil para qualquer diplomata estrangeiro, inclusive Garcia de Souza, se dar conta de que um golpe estava sendo gestado na Bolívia, pela simples razão de que os líderes políticos com a capacidade de derrubar o governo se encontravam exilados no exterior. Os dois partidos políticos com capacidade de mobilização, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e a Falange Socialista Boliviana (FSB) uniram-se para apoiar uma ação militar da direita contra Torres. Seus líderes, o ex-presidente Víctor Paz Estenssoro, do MNR, e o ex-senador Mario Gutiérrez, do FSB, ambos no exílio, decidiram esquecer velhas brigas para voltar ao poder – e se uniriam ao coronel Hugo Banzer, que desencadearia o golpe em 21 de agosto.

O golpe foi iniciado com o ingresso de Banzer e outros militares na Bolívia, a partir do Paraguai. As ações armadas começaram no dia 19 em Santa Cruz e rapidamente atingiram outras cidades importantes. Em La Paz, a Força Aérea Boliviana bombardeou o prédio da universidade e outros locais, a fim de eliminar focos armados de resistência. A chegada de Banzer ao Palácio Queimado, sede do governo boliviano, em companhia dos líderes dos partidos que o apoiaram, deixou um saldo de 98 mortos e 560 feridos.

Nas semanas que antecederam o golpe, Garcia de Souza enfrentou com ousadia a tarefa de se manter atualizado a respeito das notícias políticas em um clima de desconfiança mútua, não apenas entre o governo boliviano e os agentes diplomáticos, mas entre os próprios grupos que participaram do golpe e se enfrentavam em uma disputa de poder que incluía os chefes militares. O contato do embaixador e do adido militar, Newton Cruz, com as autoridades bolivianas permitiu, entretanto, vislumbrar algo da situação e do golpe iminente. Em 19 de agosto, Garcia de Souza enviou a Brasília um telegrama secreto “urgentíssimo”, no qual dizia:

Esse clima não é incomum neste país, mas o fato é que na madrugada de ontem houve um tiroteio em La Paz, onde foram presos pelo governo três militares da ativa, e a rádio anuncia que acaba de ocorrer um tiroteio em Santa Cruz, onde um avião militar com presos políticos foi impedido de decolar, e seus passageiros foram postos em liberdade.

Um informe secreto de um agente boliviano, Oscar F. Barrientos y Pereyra, descreve gestões feitas em Brasília, dias antes do golpe, para obter ajuda em armas e dinheiro do governo brasileiro. O informe, enviado a Banzer apenas em 14 de setembro e que faz parte dos arquivos do Serviço Nacional de Informações (SNI), sugere uma relação próxima entre Barrientos e Bethlem. O general brasileiro defendia abertamente um golpe e tinha ligações com o coronel Mario Adett Zamora, um dos militares mais próximos de Banzer. Diz o informe de Barrientos:

Com a colaboração do general Hugo Bethlem, aproveitaram-se de canais completamente diferentes dos anteriores para iniciar novas negociações diretas com o próprio chefe de Estado, gestões que em poucos dias culminaram com minha entrevista em Brasília no dia 12 de agosto às 19h30.

Barrientos informa que, naquele dia, expôs ao presidente Médici “a angustiante situação da Bolívia” e alertou sobre “o perigo comunista para o Brasil”, além de apelar à responsabilidade dos brasileiros para com o seu país. Após um intervalo, a audiência foi retomada com a presença de outras pessoas:

O próprio presidente, assim como alguns dos presentes, abundaram nos melhores conceitos sobre o coronel Banzer e, por fim, manifestaram sua confiança no cumprimento dos objetivos. Como o resultado final estava prestes a ficar pendente, sem prazo, insisti na urgência das decisões; assim, a reunião foi adiada para o dia seguinte às 11 horas.

No dia 13 de agosto, sexta-feira, foi realizada a reunião, sem a presença de Médici. Dali, se saiu com o compromisso de que uma palavra final seria transmitida por telefone em dois dias a Barrientos, que residia em São Paulo. Ele acrescenta no relatório:

Ao meio-dia de segunda-feira, dia 16, foi-me dito que a concentração de todos os materiais necessários havia sido providenciada para seu conveniente embarque à Bolívia.

Para a entrega das armas na Bolívia foram adotados todos os cuidados de uma operação encoberta. Em 25 de agosto, quatro dias depois, Barrientos assinou na divisão paulista do SNI o compromisso de checar todo o material – fuzis, munições e botas – que seria destinado ao Comando do Exército ou ao Ministério do Interior boliviano. Tudo foi transportado em um avião com matrícula boliviana, como consta de outro documento assinado por Barrientos:

Registro expressamente que todo o equipamento de guerra fornecido pelo Supremo Governo do Brasil em gesto de fraternidade democrática continental, ao longo da presente oportunidade, será transportado por via aérea e desembarcado na cidade de La Paz, para entrega direta ao Comando do Exército ou ao Ministério do Interior do Governo boliviano, com o compromisso expresso de apagar as marcas e outros símbolos de identificação de todo o material antes de seu uso.[6]

Segundo um relatório do SNI, o material foi enviado em um avião DC-6 de carga, com matrícula CP-927, da companhia Servicios Aéreos Virgen de Copacabana (Savco), especializada no transporte de carnes. Outros embarques posteriores foram feitos em aviões da Força Aérea Brasileira, como se verá mais adiante.

 

O golpe comandado por Banzer deixou eufóricos os membros do governo brasileiro. Em 25 de agosto de 1971, o noticiário da Rede Globo entrevistou o chanceler Mario Gibson Barboza para saber sua opinião sobre o que ocorrera na Bolívia. Gibson foi econômico, mas eloquente, nas palavras. “Agora temos um governo na Bolívia”, disse ele.

Em um telegrama secreto enviado em 26 de agosto ao general João Figueiredo, então chefe do Gabinete Militar, o adido militar Newton Cruz fala da urgência de aproximação com as Forças Armadas da Bolívia, citando um encontro que tivera com o próprio presidente Médici um mês antes. Até então, os adidos militares se reportavam exclusivamente ao Estado-­Maior das Forças Armadas e seus relatórios eram distribuídos ao Exército, Marinha e Aeronáutica:

Através de amplas informações, apresentei meus pontos de vista às autoridades militares brasileiras sobre a situação atual da Bolívia. As sugestões apresentadas durante a entrevista com o sr. presidente da República e testemunhadas por Vossa Excelência, no sentido de ampla aproximação com as Forças Armadas Bolivianas, a meu ver, hoje têm um caráter imponente e exigem soluções urgentes.

Alguns dias depois, em 1º de setembro, Cruz envia um relatório aos órgãos de informação militar descrevendo em detalhes todo o movimento de tropas que levou à vitória de Banzer, bem como sua expectativa de uma mudança na situação política:

Para que seja possível e conveniente normalizar os entendimentos com as novas autoridades militares, este adido pretende retomar todos os assuntos que havia tratado em sua última viagem ao Brasil. Uma solução rápida e satisfatória será o início de uma nova etapa que visa aproximar as Forças Armadas do Brasil e da Bolívia.

O relatório de Cruz concluiu que o novo governo estava consolidado e que atendia aos interesses brasileiros, razão pela qual recomendou o pronto reconhecimento do novo governo – o que o Brasil fez quatro dias depois do golpe, quando ainda se contavam os mortos e feridos do embate entre militares e civis.

Cruz exorta também seus superiores a enviar uma equipe médica para lidar com a situação causada pelos confrontos armados e solicita a transferência dos feridos graves para um hospital da Marinha, próximo à fronteira com a Bolívia. O adido militar também foi o intermediário do governo Banzer em pedidos de equipamentos militares.

Em conversa telefônica no dia 2 de setembro com o coronel Túlio (o sobrenome não é citado), da Agência Central do SNI, Cruz afirma que a necessidade de equipamentos cirúrgicos era menor do que havia previsto inicialmente. Na mesma comunicação, anuncia que os oficiais do SNI e do CIE que estavam em La Paz retornariam ao Rio de Janeiro com amplas informações sobre os acontecimentos dos últimos dias na capital boliviana.

 

A primeira viagem de militares brasileiros das agências de inteligência à Bolívia ocorreu em 27 de agosto. A missão foi comandada pelo tenente-coronel Mauricio Velloso, chefe da agência do SNI no Rio de Janeiro, e integrada pe­lo coronel Gersen Terval Barbosa, do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa). Velloso foi recebido pelo líder do golpe. “A impressão que tivemos é que Banzer é um elemento fervorosamente anticomunista e patriota”, avaliou o tenente-coronel em um relatório datado de 3 de setembro.

Mensagens do SNI em São Paulo à Agência Central, no Rio, informaram que um avião Hércules, da Força Aérea Brasileira, chegou à base aérea de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo, ao meio-dia de 7 de setembro para carregar 20 toneladas de material militar, decolou no dia seguinte, às oito da manhã, rumo a Campo Grande, em Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul), de onde seguiu para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, no mesmo dia.

Após a operação, a agência do SNI em São Paulo notificou Brasília de que o material bélico havia sido entregue às autoridades militares bolivianas, conforme programado, detalhando suas características: 5 mil botas militares e mais de 100 mil fuzis e munições. Nesses mesmos dias, o governo brasileiro pediu a seus representantes em La Paz que sugerissem sutilmente às novas autoridades bolivianas que passassem a fazer suas solicitações pelos canais institucionais normais, de governo para governo.

O coronel Velloso fez uma segunda viagem à Bolívia em 22 de setembro. Partiu do Rio de Janeiro, fez escala em Santa Cruz de la Sierra e desembarcou em La Paz. De acordo com o seu relatório, datado do mesmo dia, a viagem de informação serviu também para firmar o compromisso de enviar oficiais bolivianos a Brasília para treinamento na Escola Nacional de Informações (EsNI).

Durante os seis meses em que Garcia de Souza acompanhou a situação boliviana, ele teve acesso frequente ao presidente Torres, segundo as informações enviadas a Brasília. Essas relações contrastavam fortemente com as que o governo tinha com os diplomatas norte-americanos.

Em 6 de julho, uma reunião do comitê secreto chamado 40,[7] havia discutido na Casa Branca as possibilidades de realizar uma ação na Bolívia para ajudar potenciais opositores do governo Torres, mas havia dificuldades para identificar um líder boliviano em quem apostar. Durante a discussão, o subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, Charles A. Meyer, usou uma imagem dramática: “O que temos agora é um carro caindo ladeira abaixo; estamos procurando um motorista.” Meyer acrescentou um comentário sobre a atitude dos países sul-americanos que depois se revelou equivocada:

Os argentinos [estão] muito preocupados, mas impotentes; os paraguaios dispostos a intervir no saliente de Santa Cruz; e o Brasil, grande demais para se preocupar com seu pequeno vizinho.[8]

Essa falta de informação é evidente em uma mensagem enviada a Washington pela embaixada norte-americana em La Paz, em 3 de agosto de 1971:

O único obstáculo à implementação de um golpe na Bolívia é a eleição de um presidente para chefiar o novo governo. Uma reunião para resolver esse problema foi agendada para 1º de agosto, mas seus resultados são desconhecidos. No entanto, o governo informou que está preparando uma prisão em massa dos conspiradores.[9]

O governo dos Estados Unidos também identificou em seus relatórios um avanço da influência soviética na Bolívia, que estaria preenchendo o vazio deixado pelos funcionários norte-americanos. Em um esforço para apoiar qualquer iniciativa consistente para derrubar Torres, as autoridades norte-­americanas ainda discutiam, no dia em que o golpe começou, se deveriam ou não fornecer fundos para a oposição a Torres.[10] Temendo ser acusado de intervencionismo, Kissinger observou no memorando: “Vamos relaxar e esperar para ver o que acontece.” Três dias após o golpe, o diretor da CIA, Richard M. Helms, informou a Kissinger que os fundos para a ação secreta na Bolívia haviam sido finalmente aprovados.[11]

Duas semanas após o golpe, o embaixador do Brasil em La Paz pôde avaliar a mudança nas relações com o governo boliviano durante a recepção que ofereceu nos jardins da residência oficial por ocasião do feriado nacional de Sete de Setembro. “O dia de ontem proporcionou a grande alegria de constatar a profundidade do sentimento pró-brasileiro que anima o atual governo boliviano”, informou Garcia de Souza ao Itamaraty, em 8 de setembro, destacando a presença, na recepção da embaixada, de ministros de Estado, altos funcionários, chefes militares e líderes da coalizão de governo, entre eles o ex-presidente Estenssoro e o ex-senador Gutiérrez.

Dois meses após a instalação do governo de Banzer, o carregamento de material militar continuava a chegar à Bolívia. Uma informação confidencial do SNI em Campo Grande enviada à sede do órgão em Brasília, em 19 de novembro de 1971, diz que “uma caravana de veículos e outros materiais passou por Corumbá (Mato Grosso), a caminho da Bolívia, que se sabe ser uma doação do Brasil para aquele país vizinho”.

O medo do novo governo boliviano era enfrentar um contragolpe a partir do Chile, onde se concentravam militantes de organizações de esquerda – o que nunca ocorreu. A primeira tentativa de derrubar o governo Banzer partiu das próprias Forças Armadas, nas quais havia um sentimento de rejeição ao comando político de um coronel por parte dos generais de Exército.

Banzer manteve relação estreita com o general Médici, com quem acertou acordos de complementação econômica. Com o presidente brasileiro seguinte, Ernesto Geisel, teve uma conversa na posse em Brasília que rapidamente evoluiu para o acordo de compra e venda de gás natural, em maio de 1974. Antes mesmo de tomar posse, em março de 1974, Antônio Azeredo da Silveira, o ministro das Relações Exteriores do governo Geisel, já havia traçado os limites dessa negociação. Em 1978, Banzer foi deposto por um golpe. A venda de gás só se efetivou em 1999, dois anos depois que Banzer retornou à Presidência, agora pelo voto, e sua contraparte no Brasil era Fernando Henrique Cardoso.


Trecho adaptado do livro Relaciones Brasil-Bolivia: La Construcción de Vínculos, publicado na Bolívia por Plural Editores/Ceres e inédito no Brasil.

[1] Telegrama confidencial de Garcia de Souza a Brasília, em 18 de março de 1971. Catálogo da Correspondência Interna (1809-1972). Arquivo Histórico do Itamaraty (AHI), Rio de Janeiro.

[2] A Agência de Informação dos Estados Unidos (Usia, na sigla em inglês), criada em 1953, no auge da Guerra Fria, era uma agência de propaganda do governo norte-americano. Foi extinta em 1999.

[3] Em 9 de abril de 1971, Nixon havia decidido adiar a venda das reservas estratégicas de estanho dos Estados Unidos, a pedido do governo boliviano, que temia os efeitos devastadores que isso poderia causar em sua economia, dependente de um único produto – o estanho.

[4] Conversa entre o assistente do presidente para Assuntos de Segurança Nacional (Kissinger) e o presidente Nixon, Washington, 11 de junho de 1971. Foreign Relations of the United States (Frus), 1969-1976, Vol. E-10: Documents on American Republics, 1969-1972, Doc. 101. Publicação do State Department Office of the Historian, Washington, D.C.

[5] Jornal do Brasil, 30 de maio de 1971, p. 12.

[6] Documento assinado em São Paulo por Oscar F. Barrientos y Pereyra, em 25 de agosto de 1971. Arquivos do Conselho de Segurança Nacional, 1969 a 1973, Arquivo Nacional, Washington, D.C.

[7] O Comitê 40 era um grupo informal constituído exclusivamente por altas autoridades militares e de inteligência norte-americanas com a responsabilidade de aprovar planos de ação secretos destinados a derrubar governos. Teve nomes diferentes e sua criação remonta a 1948. Ao grupo é atribuída a responsabilidade pela aprovação de operações como a invasão da Baía dos Porcos em Cuba ou o golpe contra o presidente Salvador Allende no Chile, segundo artigo de David Wise, The Secret Committee Called “40”, publicado no jornal The New York Times em 19 de janeiro de 1975.

[8] Memorando para registro, Washington, 6 de julho de 1971. Foreign Relations of the United States (Frus) 1969-1976, Vol. E-10, Documents on American Republics, 1969-1972, Doc. 105. Publicado pelo State Department Office of the Historian, Washington, d.c. “Saliente”, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é a “parte mais avançada de uma obra de fortificação de um entrincheiramento ou linha de entrincheiramento”. Na citação, se refere à parte mais a leste do estado boliviano de Santa Cruz, encravada entre o Brasil e o Paraguai.

[9] Memorando enviado por Dell Bragan, Resumo da mensagem da Sala de Situação de 1º de agosto a 30 de setembro de 1971, Vol. VIII, Box 387. Arquivos do Conselho de Segurança Nacional, 1969 a 1973, Arquivo Nacional, Washington, D.C.

[10] Memorando de Arnold Nachmanoff da equipe do Conselho de Segurança Nacional para o assistente do presidente para Assuntos de Segurança Nacional (Kissinger), Washington, 19 de agosto de 1971, 10h15. Foreign Relations of the United States (Frus), 1969-1976, Vol. E-10, op. cit., Doc. 107.

[11] Carta do diretor da CIA, Helms, ao assistente do presidente para Assuntos de Segurança Nacional (Kissinger), Washington, 24 de agosto de 1971. Vol. E-10, Doc. 108, na mesma obra.

Walter Sotomayor

Jornalista e escritor, é autor de Relações Brasil-Bolívia: A Definição das Fronteiras (Verbena Editora) e Relaciones Brasil Bolivia: La Construcción de Vínculos (Plural)

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