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Nos arquivos do coração sensível

    Afonso Arinos em 1987, durante a Constituinte Foto: Arquivo/Senado Federal

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Nos arquivos do coração sensível

As memórias de Afonso Arinos de Melo Franco, um tesouro literário e histórico

Rogério Faria Tavares, especial para piauí | 22 mar 2026_09h04
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Penosa mas irresistível tarefa, a de escrever.

Afonso Arinos de Melo Franco, Diário de bolso

 

 

Afonso Arinos de Melo Franco logrou algo raro: continuar escrevendo e publicando livros mesmo durante o exercício de mandatos parlamentares ou de outras funções que tanto o absorviam, como o cargo de ministro das Relações Exteriores (em 1961) ou a chefia da delegação brasileira à Assembleia Geral da onu (em 1961 e 1962). Como deputado federal, foi o primeiro a propor uma lei para punir penalmente a discriminação racial. Aprovada em 1951, a lei acabou levando o nome desse político, historiador, ensaísta e memorialista notável, nascido há 120 anos.

É possível creditar esse verdadeiro milagre da multiplicação do tempo a algumas de suas mais conhecidas qualidades: a obstinação, a disciplina, a incrível capacidade de trabalho e a recusa em cumprir agenda social noturna, somente quebrada quando inevitável. Afonso Arinos escreveu mais de uma dezena de livros, entre eles alguns clássicos, como O índio brasileiro e a Revolução Francesa – As origens brasileiras da teoria da bondade natural (1937) e Rodrigues Alves – Apogeu e declínio do presidencialismo (1973, em dois volumes). Dedicou-se também a obras sobre direito, principalmente constitucional, e à crítica literária, em livros como Espelho de três faces (1937), Ideia e tempo (1939) e Mar de sargaços (1944).

A obra memorialística – uma das mais extraordinárias e relevantes do país – é mais uma comprovação de seu vigor intelectual. A maior parte dos cinco volumes que a compõem foi redigida em meio a intensas atividades profissionais. Ao cabo de longa jornada, Afonso Arinos entregou aos leitores A alma do tempo (formação e mocidade), em 1961, A escalada, em 1965, Planalto, em 1968, Alto-mar maralto, em 1977, e Diário de bolso, em 1979. Os quatro primeiros foram publicados pela Livraria José Olympio Editora, o último pela Nova Fronteira, junto com Retrato de noiva, reunião das cartas que o político trocou com Ana Guilhermina da Silva Pereira, a Anah, então sua noiva, entre 1927 e 1928, e depois sua esposa. Em 2018, a pentalogia memorialística foi reunida em um só volume sob o título A alma do tempo e relançada pela Topbooks.

O registro de suas lembranças não começou por esses livros. Já aparece com toda força em trabalhos anteriores, como na biografia de seu pai, Um estadista da República, lançada em 1955, em três volumes. Afrânio de Melo Franco (1870-1943) foi advogado, promotor público e diplomata, deputado estadual e federal por Minas Gerais e embaixador do Brasil junto à Liga das Nações, em Genebra. Ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Delfim Moreira, foi praticamente quem governou o país quando o presidente adoeceu. Com a ascensão de Getúlio, tornou-se ministro das Relações Exteriores, entre 1930 e o final de 1933.

Apesar dessa obra, Afonso Arinos somente passou a ser visto como memorialista a partir de 1961, com A alma do tempo. Nesse ano, em texto delicioso na época de lançamento do livro, o escritor José Cândido de Carvalho foi entusiástico, na revista A Cigarra:

Digo sem receio de acabar de cartola e fraque em alguma república africana ou asiática: nunca pensei que o sr. Afonso Arinos de Melo Franco fosse memorialista tão saboroso. Tinha certas reservas em relação ao mineirão de Paracatu. Aquele seu sotaque udenista, sempre pronto a salvar a pátria à beira do barranco, era demais para este seu José da Baixada Fluminense. E foi assim de dedo no gatilho (“Arraso o Afonso logo no primeiro capítulo”) que entrei pelas alamedas desse civilizadíssimo jardim que é A alma do tempo. Foi como coçar coceira gostosa: não parei mais. Sim, senhor, seu Afonso, venha de lá um abraço. Que livrão, homem de Deus! Tem tudo que a gente gosta de encontrar em obra de tal calibre: casarões, fatias de infância, noites de luar, conversas à sombra de gameleiras, nome feio, bom humor, talento. E principalmente gente, que respira e anda.

Manuel Bandeira não deixou por menos, ao comentar o mesmo livro, no mesmo ano, no Jornal do Brasil:

A alma do tempo está cheio de bons retratos, alguns excelentes […]. Digo excelentes não pela possível verdade das feições, mas por aquelas qualidades que, diante de um retrato executado por um artista plástico, nos fazem dizer: é boa pintura ou boa escultura. Os retratos de Arinos vivem na plenitude da verdade do mundo próprio de Arinos. E o retrato mais completo é o do mesmo Arinos. Na realidade, todo o livro é o seu retrato.

As avaliações da crítica continuaram favoráveis em relação aos volumes seguintes das memórias. Mas, se Afonso Arinos atingiu com êxito a linha de chegada, cabe lembrar que ele não decolou de solo inóspito. Pelo contrário. Esteve, desde sempre, imerso em ambiente propício. Antes mesmo de abrir a sua série de reminiscências, a produção memorialística revelara-se um verdadeiro manancial para figuras públicas, intelectuais e escritores mineiros.

Em 1949, o jornalista, poeta e professor Cícero Arpino Caldeira Brant publicou (sob o pseudônimo de Ciro Arno) Memórias dum estudante (1885-1906), com passagens de sua juventude em Diamantina, Ouro Preto, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1951, apareceram as Memórias de uma república de estudantes, do historiador Salomão de Vasconcelos, um retrato da Belo Horizonte em seus primórdios, entre os anos de 1898 e 1901. Em 1956, foi publicado Capítulos de memórias, do político Daniel de Carvalho.

O que há de comum às três obras é a dicção literária, da qual Afonso Arinos igualmente não abre mão, pois a literatura o acompanhava desde que integrou a primeira geração modernista mineira, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Emilio Moura, entre outros. Essa mesma geração foi igualmente afetada pela vocação memorialística. Em 1963, apenas dois anos depois de Afonso Arinos publicar A alma do tempo, Cyro dos Anjos lançou Explorações no tempo, em que confessava as influências recebidas de H. G. Wells e de Marcel Proust (Afonso Arinos, por sua vez, jamais escondeu a força que exerceu sobre sua escrita o estilo do francês François-René de Chateaubriand, autor de Memórias de ultratumba).

O próprio Drummond deu vazão ao seu “memorialismo poético”, publicando Boitempo & A falta que ama (1968), O menino antigo (1973) e Esquecer para lembrar (1979). Também do ano de 1968 é A idade do serrote, de outro mineiro, o poeta Murilo Mendes. Finalmente, e para restringir essas menções ao grupo de companheiros mais próximos a Afonso Arinos, foi ainda em 1968 que Pedro Nava começou a escrever Baú de ossos (lançado em 1972), o primeiro volume de suas memórias, seguido por Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978), Galo das trevas (1981), O círio perfeito (1983) e Cera das almas (2006, lançado postumamente).

 

 

Tão bom em intitular livros como Pedro Nava, seu amigo, Afonso Arinos extrai o nome do primeiro volume de suas memórias de um trecho de Os heróis, obra do ensaísta escocês Thomas Carlyle: “Nos livros reside a alma do tempo que passou; a articulada e audível voz do passado, depois que o seu corpo e a sua substância material dele já se esvaíram de todo, como um sonho.”

As recordações de Afonso Arinos são organizadas como num diário – em que cada entrada traz a data em que foi escrita. A primeira em A alma do tempo é a data de 16 de outubro de 1959, quando ele já estava com 53 anos e era senador, eleito um ano antes pela União Democrática Nacional (udn), partido ao qual deu o nome. O que descortina nesse volume, porém, não são os debates políticos febris do fim da década de 1950 e depois (que se farão cada vez mais presentes nos demais livros). São sobretudo suas reminiscências da infância e juventude em Belo Horizonte, onde nasceu em 1905, oito anos depois da inauguração da capital, como nessa passagem:

O mundo era para mim Belo Horizonte, as casas de meu avô e de meu pai; os passarinhos do viveiro e as frutas do quintal; o mês de Maria na matriz setecentista da Boa Viagem, com as meninas vestidas de branco, cantando; os círios acesos e a nave coberta de folhas de mangueira; os passeios de carro pelas alamedas do parque; os poentes estupendos, num desatino rubro-dourado, que íamos admirar nos altos da Avenida Alvares Cabral.

Todo o texto dos cinco volumes de memórias foi manuscrito em cadernos. Ao longo da narração, Afonso Arinos vai partilhando com os leitores aspectos fundamentais de seu processo criativo, sem um plano previamente estabelecido, como ele conta. “A escrita é corredia e dá ideia de uma composição espontânea. De resto são sempre assim os meus trabalhos”, escreve. “O plano vai-se desenvolvendo à medida da composição. O que não quer dizer que sejam improvisados.” É o que reitera mais adiante, quando reafirma não possuir roteiro, mas não dispensar a bússola: “Quero navegar pelas ideias e recordações sem destino, mas sabendo a minha direção.”

Se, por um lado, a tarefa o cansa, por outro, ela o atrai. A decisão de prosseguir vence o duelo entre as sensações, fiada na perspectiva de refazer, mais belo, o mundo que não existe mais. É pela possibilidade de tornar “literárias” as suas lembranças que o autor avança na execução do projeto por tanto tempo acalentado: “Este livro [A escalada] é mais narrativo do que justificativo; mais literário que político ou jurídico.”

Afonso Arinos também vê a necessidade de explicitar, em vários pontos, que o que escreve são “memórias”, não “história”, ainda que relatos de valor histórico se façam presentes ao longo de todos os volumes, sobretudo quando o autor se volta para sua atuação na vida pública, sempre pautada pela postura liberal e rigorosamente democrática. É a natureza de seu texto a responsável pela forma de escolher as fontes de que vai se servir:

Em livro como este [A escalada], que é mais uma reconquista sentimental do passado do que, propriamente, um testemunho dele, a seleção de documentos há de ser orientada mais pelo seu significado literário do que pelo histórico; não se devendo esquecer, porém, de que, entre os gêneros literários, o ensaio interpretativo é mais autêntico do que a narrativa histórica, a qual entra, com maiores títulos, no quadro das ciências sociais.

No modelo empregado por Afonso Arinos, os leitores viajam com ele ao seu passado, em longos trechos destinados a recuperá-lo, mas também têm acesso ao que o memorialista vive enquanto escreve, o que confere especial complexidade ao seu texto, atravessado por temporalidades distintas. Em A alma do tempo, por exemplo, obra redigida entre os anos de 1959 e 1960, é possível ler a respeito da inauguração de Brasília apenas um dia após o fato, na entrada de 22 de abril de 1960:

Felicito-me por não ter ido à inauguração de Brasília. Sem negar a grandeza do empreendimento histórico, cuja responsabilidade e influência só a posteridade poderá testemunhar, sente-se a mesquinharia e o ridículo dos aspectos próximos, manchas que o tempo apagará, e que serão capítulo de crônica, mas não de história.

Exercendo seu primeiro mandato de senador, Afonso Arinos muda-se para a nova capital a contragosto, mas nunca se adapta a ela, sempre saudoso do Rio, para onde retorna, em definitivo, em 1966. Mas ele acaba se deixando impressionar pela construção épica de Brasília:

A noite passada, insone, levantei-me por volta de quatro horas e fui até à sala cujas janelas abrem sobre a larguíssima avenida. O espetáculo era imponente. Na meia-luz da madrugada, os blocos iluminados ardiam ao longe, e os caminhões cruzavam-se farolando na treva. Fiquei absorto no espetáculo, meditando no estranho contraste, na incógnita que é o Brasil.

Ele se atém ainda sobre a campanha de Jânio Quadros para a Presidência, aí incluídos os lances políticos e eleitorais que marcaram aquela disputa, especialmente no âmbito da udn, partido que apoiou o político de São Paulo e indicou Afonso Arinos para o Ministério das Relações Exteriores (de que ele foi titular por sete meses, até a renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961). Mesmo sem ser próximo do presidente, a quem tratava com certa cerimônia, o chanceler foi testemunha de como o governo rapidamente naufragou: “Começou o país a assistir, então, confuso e apreensivo, ao espetáculo estranho de um presidente que exigia cada vez mais poder para fazer cada vez menos com ele.”

Algumas datas especiais ensejam recordações do memorialista, a ele permitindo certas digressões temporais, a despeito da linha cronológica que geralmente segue para reconstituir a sua trajetória. É o caso da entrada de 29 de outubro de 1959, também de A alma do tempo, na qual se dedica a relembrar a queda do Estado Novo varguista, em favor da qual ele e seu irmão, Virgílio de Melo Franco, tanto se empenharam. Virgílio foi assassinado em 1948, em circunstâncias nunca devidamente esclarecidas, episódio que ganha atenção neste trecho do livro A escalada, em que Afonso Arinos acusa o “submundo getulista” pela morte do irmão:

Hoje, com a serenidade trazida pelo tempo, fortaleço-me na hipótese de que meu irmão foi morto por uma trama política. Não atribuo nenhuma responsabilidade direta a Getúlio, mas os indícios foram se acumulando. Parece certo que eram dois assaltantes, duas as armas usadas por eles. Fatos conhecidos, ocorridos há muito com parentes de Getúlio: o atentado que vitimou o Major Vaz; outras razões que não preciso lembrar, me convencem da responsabilidade do submundo getulista no assassínio de meu irmão. Ele morreu como um bravo e eu, mais tarde, pude completar sua obra.

 

 

O motivo de Afonso Arinos para iniciar a empreitada memorialista é explicado na evocação de um pensamento atribuído aos romanos, que consideravam a “curva dos 50” como o limite inicial da velhice. Ele decide escrever e publicar suas reminiscências por considerar sua vida “cheia” o suficiente, tanto por causa do meio em que nasceu e se criou quanto pelos acontecimentos que presenciou ou por aqueles nos quais se envolveu.

De fato. Ao longo dos cinco volumes de memória, o que o leitor encontra é o testemunho privilegiado de alguém que esteve em grande parte no centro de alguns dos principais acontecimentos políticos brasileiros do século xx: a Revolução de 1930; a sucessão de Olegário Maciel, em Minas; a ditadura de Getúlio Vargas; o Manifesto dos mineiros (1943), pedindo a redemocratização do país e do qual ele foi um dos idealizadores; a queda de Getúlio, dois anos depois; a fundação da udn; a volta de Getúlio ao poder central, em 1950, e o suicídio do presidente, em 1954; a eleição e o governo de Juscelino Kubitschek; a sua própria nomeação para o Ministério das Relações Exteriores no governo Jânio Quadros, quando elaborou a chamada “política externa independente”; a renúncia de Jânio – até a implantação da solução parlamentarista, que ele apoiou, a fim de garantir, contra uma ala dos militares, a constitucionalidade e a posse de João Goulart, que, no entanto, não era seu aliado político.

Nesse ponto, vale incluir mais um aspecto: a vida do autor é rica também pelas estreitas relações com algumas das personalidades mais importantes para a compreensão de certo período da história do Brasil (notadamente o que vai de 1930 a 1964). Sobre essas figuras, ele compôs impressionantes retratos, como o de seu principal adversário, Getúlio, depois de seu retorno ao poder em 1950:

Getúlio Vargas “nada esquecera e nada aprendera” no seu longo exílio pampeiro. Homem de grandes e inegáveis virtudes pessoais, mas de insanáveis defeitos de formação, voltava ao poder, como sempre, disposto a aplicar as suas virtudes na satisfação dos seus defeitos. Esta a causa principal da tragédia do segundo governo Vargas. Porque, se as virtudes da habilidade, paciência, finura, coragem e ausência de ódios, que eram dele – sem falar no incontestável patriotismo –, continuavam a ser atuais e a corresponder à psicologia brasileira, os defeitos de formação (que podem ser sintetizados na falta de escrúpulos políticos e no amor pelo poder pessoal despido de quaisquer convicções e compromissos) não mais se compunham com a atualidade brasileira de então, muito diversa daquela anterior à Segunda Guerra Mundial.

Apoiador de Getúlio em 1930 – seguindo o pai e o irmão Virgílio –, Afonso Arinos e sua família em pouco tempo se distanciaram do político gaúcho, sobretudo depois que ele preteriu o nome de Virgílio para o governo de Minas, preferindo Benedito Valadares, empossado em dezembro de 1933. A oposição a Getúlio cresceu ainda mais durante o seu segundo período na chefia do Executivo federal (1951-54), quando Afonso Arinos liderava a bancada da udn. É do mineiro um dos mais contundentes discursos contra Getúlio, feito quinze dias antes do suicídio do presidente:

Tenha a coragem de perceber que o seu governo é hoje um estuário de lama e um estuário de sangue; observe que os porões do seu palácio chegaram a ser um vasculhadouro da sociedade; verifique que os desvãos de sua guarda pessoal são como subsolos de uma sociedade em podridão.

Foram tensas também as relações entre Afonso Arinos e Carlos Lacerda, mesmo que ambos tenham sido da udn e igualmente antigetulistas, mas com diferenças cruciais de temperamento e atitude, o que levou o memorialista a pintar um retrato implacável do antigo governador da Guanabara. Vale reproduzir o longo trecho, pois sua força literária, agudeza psicológica e alcance político são qualidades que se perderam no meio parlamentar brasileiro:

Curioso esse destino de Carlos Lacerda. Ele nunca exprimiu, autenticamente, pelas suas ideias ou pela sua vida, as causas com que se confunde e em torno das quais mobiliza os homens para a luta. Ele é, as mais das vezes, a negação dessas causas, mas, se não se confunde com elas, tem sempre a aptidão necessária para fazer com que elas se confundam com ele. Tirânico, encarna a liberdade; hedonista, condena o gozo do poder; faltoso a todos os compromissos, levanta contra tudo e todos a pecha de traição; sem peias na escolha dos métodos administrativos, estigmatiza a corrupção alheia. […] Estranha figura intelectual e humana. Seu dom principal é o de despertar fanatismos. Para isto, ninguém o supera no nosso tempo, nem Getúlio, nem Prestes, nem Jânio. Este atributo indiscutível lhe vem da eloquência; da oratória cálida, dramática, engraçada, opulenta, fascinante. […] Aos poucos, o que me separou de Carlos Lacerda foi, exatamente, o dom que o faz sempre centro de campanhas contrárias ao que ele é: esse terrível dom de congregar fanáticos. Porque não existe nada no mundo que repugne tanto à minha sensibilidade, que choque tanto a minha inteligência, como o fanatismo.

Observador atento e rigoroso do tempo histórico que lhe coube viver, Afonso Arinos surpreendeu-se com a renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, perplexo com o abrupto fim de um governo no qual acreditou. Dois dias depois, já formulava a hipótese que afinal garantiria a posse do vice-presidente João Goulart:

Corriam notícias de que os ministros militares negariam a posse a Goulart; ali mesmo, no aeroporto, eu ouvira conversas segundo as quais patrulhas da Aeronáutica estavam vigiando os campos para impedir o desembarque do vice-presidente, ou detê-lo, mesmo, caso insistisse em entrar no país. À vista de tudo isso, concluí, a solução viável seria a reforma da Constituição, com a implantação do Parlamentarismo, que, mantendo a ordem jurídica, inclusive quanto à posse de Jango, tranquilizaria as Forças Armadas, porque retirava ao chefe de Estado grande soma de poderes.

A solução parlamentarista, no entanto, teve vida curta, bem como o governo de Jango. Sobre sua atuação política no segundo semestre de 1963, Afonso Arinos escreveu:

A redução da minha atividade parlamentar se explicava pela situação de isolamento político em que me encontrei naquele ano. Não podia apoiar a ação demagógica e insensata do governo, mas não podia me filiar, tampouco, à linha reacionária e antidemocrática da oposição representada pelo lacerdismo, o militarismo ditatorial, os latifundiários, a Igreja conservadora, a imprensa ligada ao poder econômico e as correntes direitistas do Congresso; em suma, tudo aquilo que me repugnava. Entre o radicalismo demagógico e o radicalismo reacionário, procurei traçar uma linha de moderação e de progresso.

Com o golpe de 64, a cuja deflagração não se opôs, Afonso Arinos viu formar-se um movimento integrado por alguns civis e militares propondo a cassação de seu mandato de senador e de seus direitos políticos, sobretudo por causa de sua atuação no Itamaraty durante o governo Jânio. Tal movimento, no entanto, não prosperou, e o mineiro conseguiu encerrar o seu mandato no Senado em 1966, abstendo-se, naquele ano, na votação congressual que definiu o nome do general Artur da Costa e Silva como sucessor de Humberto de Alencar Castelo Branco, e só retornando ao parlamento em 1987, eleito senador constituinte pelo estado do Rio de Janeiro.

 

 

Ainda que Afonso Arinos confira generoso espaço às suas memórias políticas e àqueles que desempenham papéis relevantes nos episódios históricos, é necessário ressaltar que A alma do tempo não se resume a elas. É mais abrangente. Oferece ao público, também, amplo e minucioso painel da chamada “vida privada” do autor, desde suas origens familiares até as lembranças de estudante, desde a paixão arrebatadora e o casamento com Anah até as suas frágeis condições de saúde – marcadas, na juventude, pela tuberculose e, na maturidade, pela depressão.

O retratista se mostra em plena forma, levantando argutos perfis de amigos ou de parentes. Os que redige sobre a mãe, Silvia Alvim de Melo Franco, e as irmãs ajudam bastante a entender o quadro em que se movem seus afetos. Vitimada pela gripe espanhola de 1917, Sílvia é relembrada na entrada de 22 de dezembro de 1963:

Hoje seria aniversário de minha mãe. Muito pouco representou ela na minha vida. Perdendo-a aos 12 anos, quase nenhuma influência tive dela na minha formação. Casando-se menina, morta pouco depois dos 40 anos, sua existência foi uma obscura luta, criando filhos numerosos. Morreu ao ter o último, que seria o décimo primeiro se tivesse nascido vivo. Não a vejo bem como mãe, mas como irmã mais moça, quase como filha, e me enterneço pensando no que não pude fazer por ela. Disse que pouco influiu na minha formação, e é verdade. Mas creio que muito do que sou, intrinsecamente, é dela, ou antes, é ela. Como forma de espírito, sensibilidade, gostos e inclinações, pareço-me muito mais com minha mãe que com meu pai. Minha vida se parece com a dele. Suspeito que minha alma, com a dela.

Ainda sobre sua família, Afonso Arinos desenha minucioso retrato dos avós e de outros antepassados, rechaçando qualquer tipo de “orgulho linhagista” para afirmar, logo no primeiro dos livros de memórias:

Nunca aceitei os estudos genealógicos no Brasil, senão como elemento subsidiário daquela mesma história social: fator necessário ao esclarecimento da complexa formação do povo e da cultura brasileiros. A pesquisa genealógica, se feita aqui com preocupação nobiliárquica ou aristocrática, parece-me a mim tão ridícula como aqueles críticos que às vezes me acusam, neste particular, injustamente.

O pai – a quem biografou em Um estadista da República – foi a sua principal referência de homem público:

Ele [Afrânio] sentiu e participou sem resistências de todos os problemas da sua época. Não foi um precursor nem um saudosista. Foi um contemporâneo, um homem da hora própria. Desde o estudante republicano, até o internacionalista preocupado com a guerra mundial, o presente foi seu reino, seu domínio e o campo exclusivo de aplicação de sua vida. Nunca velho falou tão pouco do próprio passado. Nunca homem se preocupou menos com o próprio futuro.

Se os deslocamentos de Afonso Arinos pelo tempo fixam o eixo central de sua narração, suas andanças pelo mundo dão a medida de seu caráter cosmopolita e de seu espírito aberto. Seus gostos e preferências como viajante ajudam o leitor a entender o seu universo de afetos e a penetrar mais fundo nos mistérios de sua identidade.[1]

Sua descoberta de lugares como Genebra, Bruxelas e Paris é descrita com vivacidade. Curioso, sempre interessado pelo mundo histórico que o circunda, seu encontro com Roma é o mais marcante, e resultará em longa e afetuosa convivência, além de gerar um dos clássicos de sua imponente bibliografia, Amor a Roma, lançado em 1982, em que ele escreve:

Roma somos todos nós, latinos e cristãos. Pela sua amplitude imaterial, ela é a única cidade que não desnacionaliza a quem com ela se identifica, porque, como a casa referida no Evangelho, tem muitas moradas. Meu amor a Roma provém dessa amplitude que não contraria, em nenhum pormenor, minha formação brasileira. A imagem de Roma se integrou na minha vida espiritual, cultural e sentimental, sem conflitos nem condicionamentos, com referência a qualquer outro aspecto da minha trajetória existencial.

Sua afeição pela capital italiana se acentua ainda mais quando a compara com Nova York, onde passa o Natal de 1961:

A majestosa, indizível grandeza de Nova York me isola, impede-me de participar da sua vida, que, no entanto, admiro. Cidade internacional, enquanto Roma é universal, sinto que o que me falta em Nova York é o contato mais fácil, mais acessível com as coisas do espírito.

Em Manhattan, se incomoda com o que nomeia de “uma espécie de propriedade privada da cultura”, algo frontalmente oposto às suas impressões do Velho Continente:

Na Europa, a passagem dos séculos criou na rua, na estrada, uma vivência socializada da cultura, uma democratização do que é belo, grande e nobre. Avalio bem a significação cultural de Nova York. Mas nós é que temos de subir até ela; ela não desce até nós. Culturalmente, este centro da maior democracia do mundo é uma cidade aristocrática, ao contrário das velhas capitais da aristocrática Europa que democratizam a cultura. Percebo com satisfação que não sou um homem de gabinete, de biblioteca, de museu. Em Ouro Preto, em São João del-Rei, o que me comove é bem isto: a proximidade entre o povo e a cultura. A igreja aberta, a ponte de cantaria lavrada, o chafariz barroco, o passo de procissão. É a cultura absorvida diretamente pelo povo, na arquitetura, no conjunto urbanístico, na paisagem.

Outro traço que percorre as memórias de Afonso Arinos é o da continuada indagação a respeito da identidade do “eu” e dos caminhos que trilhou ao longo do tempo, num gesto que avalia as opções feitas e que, em alguns momentos, faz contas de perdas e ganhos:

Que sou? Quem sou? eu me pergunto. Que fiz da vida, ou melhor, o que a vida fez de mim? […] O que sou é o resultado do que fui, menos a angústia, mais a serenidade. O fogo do tempo consumiu tudo que era escória: angústia, ambição, cálculo – ódios nunca tive – e trouxe-me novas dimensões para o amor. Ou melhor, para o entendimento do que pode ser o amor.

Corajoso, o autor não foge do confronto com suas verdades mais íntimas nem do registro das situações mais difíceis que enfrentou, aí incluídas as questões de natureza pessoal.[2]  Na entrada a que intitula “Zurique, 12 a 15 de maio de 1974”, revela que seu caderno de memórias ficou esquecido na gaveta por mais de dois anos, devido a terrível estado psíquico.

Na abertura de Alto-mar, maralto, refere-se à estafa que o levou, em março de 1968, a uma ausência (de cerca de um minuto), seguida de sucessivos acessos de depressão e de melancolia: “Depois de uma crise de saúde, que então me atingiu, passei a experimentar, não propriamente o medo da morte, mas um sentimento talvez pior, que poderia ser chamado o medo da vida”. E continua: “Durou desde 1968, com altos e baixos, a travessia do lúgubre túnel. Sua escuridão chegou a ser tão grande em certas semanas que, hoje, por mais que me esforce, quase não me lembro de nada, nenhum fato, nenhuma pessoa, daquele estranho mês de julho de 1972, que passei dormindo na Casa de Saúde São Vicente.” A internação, que durou todo o mês de julho de 1972, ocorreu aos seus 67 anos. Seu ostracismo político já durava seis anos, desde 1966. A volta para casa, depois do tratamento, é também referida como um período duríssimo:

Depois que retomei a consciência, ao sair do sanatório, meu sofrimento físico e moral foi muito maior. Antes eu estava como um morto-vivo, e os mortos não sentem. Agora não, sentia-me como que flutuando numa realidade vaga e hostil. Para começar não conseguia ler nem duas páginas, nem dez minutos. Os que vivem, como eu, praticamente só para o mundo da cultura, podem imaginar o sofrimento que isso representava.

É de alta voltagem dramática a cena em que pensou em tirar a própria vida, na esperança de livrar-se do terrível estado depressivo:

Matar-me só não me parecia uma solução, por causa dela [Anah]. Mas uma certa noite senti o risco sério de chegar até aí. Estava sozinho no meu quarto e com o crucifixo vindo de Jerusalém agarrado inutilmente. Então chamei Pedro Nava pelo telefone. Ele acudiu logo; deviam ser duas horas da madrugada. Recebi-o afetuosamente, mas sem demonstrações, e logo, sem meias palavras, abri o armário e entreguei-lhe o meu revólver: “Leve isto com você, pelo amor de Deus!” “Você está louco, Afonso!” “Não, meu caro, infelizmente não estou e é por isto que te peço que leves a arma daqui.” Nava tirou as balas do tambor, devagar, meteu-as num bolso e o revólver no outro, sem falar nada, a cabeça baixa, a poderosa inteligência em visível movimento. Eu também, calado, observava o meu amigo. De repente ele disse: “Por enquanto, nada a fazer, nem mesmo te receitar calmantes. Por causa do excesso deles você ficou assim. Receito a você coragem, Afonso.”

Sua reflexão sobre a morte aparece mais adiante, quando medita sobre a velhice, já com os ânimos pacificados:

Li, certa vez, que a morte é quase sempre um processo de suave anestesia, de calmo declive para o não ser. Talvez esta posição atual do meu espírito seja uma antecipação do processo, quanto à alma; uma etapa preparatória para a resignação final de desaparecimento.

Em suas memórias, Nava dedica várias linhas a Afonso Arinos, mas não menciona o episódio acima.

 

 

Concluída cerca de 12 anos antes de sua morte, ocorrida em 27 de agosto de 1990, no Rio de Janeiro, a escrita das memórias de Afonso Arinos não registrou o último lance de sua vida pública, também notável, como tantos outros: a sua eleição para o Senado Federal pelo Partido da Frente Liberal (pfl) do Rio de Janeiro, em 1986.

No ano seguinte, com a abertura dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, foi escolhido por seus pares para a presidência da Comissão de Sistematização. Ali, desempenhou papel central nos trabalhos que levaram à promulgação da nova Constituição Federal, em 1988. Sendo o mais idoso dos constituintes, com 82 anos, a ele coube falar em nome de todos, na solenidade de 5 de outubro de 1988, essas palavras que soam, no presente, tão relevantes quanto em sua época:

Nosso dever é fazer política, isto é, defender e praticar a Constituição brasileira em vigor, acreditar nela, convocar a nação para defendê-la, se estiver em risco, reagir contra esses riscos disfarçados. Em suma, praticar e defender a liberdade. Fazer política é honrar nosso mandato, sustentar nosso trabalho, enobrecer a memória do nosso tempo.

A memória aí referida, Afonso Arinos soube honrá-la muito bem. Sobretudo por meio da palavra, falada ou escrita. Foi certamente com o fundamental auxílio dela que ele celebrou a sua existência, enganando o esquecimento e a morte, fazendo dela a seiva vital, até o fim.

 

*Este texto foi adaptado de um ensaio do livro Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco (Editora Miguilim), organizado por Arno Wehing e Rogério Faria Tavares. A obra será lançada no dia 9 de abril, às 17h30, na Academia Brasileira de Letras.


 

[1]  A esse propósito, escreveu Berenice Cavalcante: “Nos relatos sobre sua estadia pelo mundo afora, Arinos introduz no roteiro espacial um circuito afetivo, percorrendo uma espécie de périplo paralelo, no qual seu deslocamento segue uma dupla direção, aquela que o conduz pelos lugares que visita e aquela da introspecção, realizando, simultaneamente, uma viagem pelo entorno e para dentro de si mesmo.”

[2] Em resposta à pergunta do amigo Pedro Nava, publicada em O intelectual e o político: encontros com Afonso Arinos, o político e memorialista disse: “O meu livro predileto é A alma do tempo, tomado como um ciclo, incluindo Diário de bolso, porque o conjunto foi escrito em momentos muito felizes e momentos muito infelizes, alguns dos quais você conhece, e deles participou. Períodos de alegria e períodos de doença, de depressão. É toda a minha vida. Você fala em momentos felizes, mas na minha maneira de pensar, o livro não agrada só quando é escrito nesses momentos. Livro também é depositário de muitas horas de infelicidade, de desespero, e isso constitui um atrativo a mais.”