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O REENCONTRO

Dilma será sabatinada no Senado por parlamentar que a chamou de mentirosa
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Oito anos depois do embate que travou com o senador José Agripino Maia (DEM-RN) na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado, Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil e hoje presidente afastada, voltará a estar cara a cara com um de seus principais opositores. No próximo dia 29, ela será ouvida pelo Senado antes da votação final do impeachment e se submeterá ao interrogatório dos parlamentares.

Em 2008, durante uma sabatina sobre as obras do Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC), Maia resgatou uma entrevista em que Dilma dizia “ter mentido muito para sobreviver ao regime de exceção” e obteve da então ministra uma resposta dura, aplaudida pelos presentes: “Eu me orgulho imensamente de ter mentido, porque eu salvei companheiros, da mesma tortura e da morte.” Ela integrou duas organizações de esquerda durante a ditadura – o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) – e foi torturada no período em que esteve presa, dos 22 aos 25 anos.

“Naquele momento [a sabatina no Senado], Dilma era uma virgem imaculada, guerrilheira torturada, uma vítima. Hoje é outro momento. Já sabemos quem ela é, ela já foi virada e revirada. Agora, é um cururu morto”, me disse o senador. Ele acredita que a presidente afastada tenha se preparado para lhe responder oito anos atrás. “A pergunta foi antecipada a ela, hoje eu sei até por quem.” O senador defenderá, entre os parlamentares da antiga oposição, atuais aliados do presidente interino, Michel Temer, que as perguntas a Dilma sejam curtas e poucas no dia 29. “Não tem o que bater nela. Ela está vivendo suas últimas horas.” Outros senadores adversários do governo petista também defendem deixar para as senadoras, como Simone Tebet (PMDB-MS) e Ana Amélia (PP-RS), as perguntas mais duras a serem feitas à presidente afastada, descartando, assim, possíveis acusações de machismo por parte dos parlamentares.

Já os aliados de Dilma Rousseff consideram que, na adversidade, ela cresce. O episódio em que deixou Maia sem palavras é usado como exemplo. De fato, a presidente afastada costuma ter um desempenho melhor em situações de confronto do que quando precisa discursar em inaugurações de obras e outros eventos. Poucas vezes, porém, repetiu o feito de responder, em situações de improviso, de maneira tão loquaz como no confronto com o senador. Em debates eleitorais, no exercício da presidência e durante seu processo de impeachment, Dilma jamais abandonou os discursos atabalhoados, a sintaxe invertida, a fala em elipses.

“Ela está muito bem preparada psicologicamente e em temos de conteúdo para ir ao Senado. Pretende mostrar a quem serve esse golpe e o que os golpistas querem fazer com o estado brasileiro e os diretos dos trabalhadores. Temer e seus asseclas representam um perigo democrático e social”, me disse Ricardo Berzoini, ex-ministro da Secretaria de Governo, hoje auxiliar informal da presidente afastada. Sobre a carta que Dilma enviou aos senadores na terça-feira da semana passada, tida como inócua e fora de timing por muitos parlamentares, Berzoini afirmou que o objetivo da missiva era acabar com especulações a respeito do processo de impeachment.

A carta que Dilma Rousseff leu à imprensa e mandou aos senadores não contemplava boa parte do texto original, que vinha sendo escrito, havia meses, pela presidente e seus assessores. A missiva, enviada ao Senado na tentativa de angariar votos conta o impeachment, chegou a ter cinco páginas e abarcava sugestões do PT, PCdoB, PDT e de movimentos sociais. Sem que todos conseguissem chegar a um acordo sobre a redação final, Dilma foi orientada a escrever ela mesma a carta, em tom mais pessoal.

Na terça-feira da semana passada, a presidente afastada convocou um repórter de cada veículo no Palácio da Alvorada, sua residência oficial, para ler o conteúdo da missiva. Queixou-se da política do “quanto pior, melhor”, praticada pela oposição. Disse que seu impeachment será um golpe. E prometeu, caso retorne ao cargo, mais diálogo com o Congresso, os movimentos sociais e a sociedade. Não deixou, no entanto, que a imprensa lhe fizesse perguntas.


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É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016