anais da República

EM ÁGUAS PROFUNDAS

A guerra entre uma empreiteira e um aliado de Eduardo Cunha expõe as entranhas da CPI da Petrobras
Imagem Em águas profundas

38 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

“O senhor acha que vocês estão acima da lei, que podem fazer o que bem entendem, desde que paguem propina a agentes públicos?” A primeira pergunta endereçada ao depoente que comparecia à Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobras na tarde de 27 de maio caiu no vazio. Sentado num dos cantos da longa mesa da comissão, junto aos dois advogados que o acompanhavam, o empresário Carlos Eduardo Schahin limitou-se a responder o que havia ensaiado: “Por orientação dos nossos advogados, eu vou ficar em silêncio.” Seria assim diante de todas as outras indagações que lhe seriam feitas.

Assistindo a tudo dos bastidores, outros quatro membros do clã aguardavam a vez de falar. Entre eles, o pai e o tio de Carlos Eduardo, Salim e Milton Taufic Schahin, os irmãos fundadores de um conglomerado empresarial que chegou a ter 10 mil funcionários e hoje amarga um complexo processo de recuperação judicial.

Semanas antes, sentado àquela mesma mesa da CPI, o delator Pedro Barusco havia contado que, em 2008, a Schahin pagara propina para ganhar o contrato de construção de um gasoduto entre as cidades de Caraguatatuba e Taubaté, no interior paulista. Segundo o ex-gerente da Petrobras, a comissão, de 2,2 milhões de reais, correspondia a 2% do valor do contrato, de 223 milhões. O próprio Barusco entregou aos parlamentares um comprovante de depósito de 59 mil dólares em uma conta no Panamá, feito por uma offshore dos Schahin nas Ilhas Virgens Britânicas. E ainda revelou um inusitado acerto de compensação de créditos envolvendo a Schahin e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto: Barusco enfrentava problemas para receber a propina combinada com a Schahin pela obra do centro de pesquisas da Petrobras, ao passo que Vaccari passava pela mesma dificuldade com a MPE, empresa de montagem de módulos para plataformas. “O Vaccari falou: ‘Olha, eu tenho mais facilidade de receber da Schahin. Você me passa essa dívida da Schahin e recebe a dívida que a MPE tem  comigo. E nós fizemos essa troca”, declarou o homem que confessou ter amealhado em suas contas bancárias mais de 100 milhões de dólares em propinas enquanto trabalhava na estatal.

“Qual a relação que a empresa tinha com o senhor Pedro Barusco?”, prosseguiu o deputado Arnaldo Faria de Sá, do PTB de São Paulo, lendo mais uma das muitas perguntas que trouxera por escrito. A fisionomia do executivo não se alterou: “Por orientação dos meus advogados, vou ficar em silêncio.” “Com quem mais a Schahin tratou de assuntos relacionados a contratos, recebimentos, pagamentos de propinas e corrupção? Algum agente político, ministro, governador, prefeito? Com quem?”, continuou o parlamentar. A resposta parecia sair de um gravador: “Por orientação dos meus advogados…”

Depois de Carlos Eduardo, seu tio, Milton, responsável pela área de óleo e gás do grupo, foi o mais bombardeado. “O senhor não tem medo de ser preso, não?”, foi uma das 115 perguntas que lhe fizeram, respondidas invariavelmente com a mesma frase decorada. Até que a tarde virasse noite, os Schahin a repetiriam 190 vezes, com leves variações de tom e de vocabulário.

Ancoravam-se num habeas corpus concedido na véspera pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, que lhes assegurava “o direito de exercerem a prerrogativa constitucional contra a autoincriminação” e de serem acompanhados por seus advogados, assim como se comunicarem com eles durante o depoimento. Salvaguardas desse tipo são frequentes em CPIs. O próprio Vaccari se beneficiara do mesmo instrumento diante daquela comissão. Ainda assim, respondeu a uma ou outra pergunta. Já os Schahin foram intransigentes. “Eu queria saber se Carlos, Milton, Salim e Rubens são irmãos”, solicitou o deputado Izalci Lucas, do PSDB do Distrito Federal. “Por orientação dos meus advogados, eu vou ficar em silêncio.”

A lenga-lenga foi irritando os parlamentares. O petista Luiz Sérgio, do Rio de Janeiro, sugeriu que dispensassem a família logo no início da sessão, mas o resto da CPI queria partir para cima dos empreiteiros. “Nós já tivemos depoentes aqui que se recusaram a falar, e na semana seguinte estavam na cadeia”, provocou Celso Pansera, do PMDB do Rio. “Vamos fazer perguntas com cujas respostas ele possa querer contribuir. De repente, baixa nele o espírito dos homens de bem”, ironizou André Moura, do PSC de Sergipe. Inconformada com o comportamento dos depoentes, a maranhense Eliziane Gama, do PPS, solicitou uma operação de busca e apreensão nos escritórios da Schahin em São Paulo. Uma celeuma se instalou quando ela percebeu que, enquanto arguia, os advogados se concentravam mais nas mensagens que trocavam pelo WhatsApp do que na fala dos deputados.

No meio da sessão, o delegado Waldir, do PSDB de Goiás, deixou o plenário abanando a cabeça, contrariado: “Vou embora, vou fazer o quê? Papel de palhaço? Não tem mais o que fazer…” Ao final de horas de interrogatório e de uma fieira de intervenções nervosas, os Schahin foram liberados.

Quatro semanas depois, Milton Schahin ainda tinha o dia da CPI entalado na garganta. Trajava um pulôver azul-marinho por cima da gravata azul quando me recebeu em seu escritório, na avenida Paulista. Sentou-se à cabeceira da mesa de reuniões, ladeado pelo assessor de imprensa, Marcio Chaer, e pelo diretor jurídico do grupo, João Alves Meira Neto, e desandou a falar: “Eu tenho 70 anos, comecei aos 22. Trabalho feito um condenado, para chegar ao final da vida e ser chamado para uma CPI da Petrobras… E aqueles ladrões me chamarem de quadrilheiro! Perguntaram se eu não tinha vergonha de chegar em casa e encarar minha mulher e meus filhos sendo um mau-caráter, um cara sujo, um sem-vergonha que joga contra o Brasil. E eu ali dizendo que não tinha nada a declarar. Foi uma humilhação”, disse arregalando os olhos azuis.

Poucos anos atrás, no auge do governo Lula, o Grupo Schahin ocupava um edifício inteiro nas proximidades da mesma avenida Paulista. Agora, estavam concentrados no único andar em que se instalava o escritório onde Milton – um homem de porte atarracado, cabelos brancos já rareados e fala mansa – não escondia sua amargura. Sustentou que o tratamento recebido na CPI foi desproporcional à pouca importância da empresa. “Eu sou pequeno diante de toda essa situação. Se havia cartel, não éramos parte dele. Para esse samba, não me convidaram.”

De fato, a Schahin não fazia parte do clube VIP do cartel das empreiteiras. Sua especialidade no universo da Petrobras não são as obras físicas – refinarias, complexo petroquímico, gasodutos – em que o cartel reinou absoluto. A receita que obteve da estatal veio em grande medida da operação de sondas (equipamentos de perfuração e prospecção) e plataformas (de onde é extraído o petróleo do fundo do mar). Mal comparando, é a área que o ex-deputado pernambucano Severino Cavalcanti chamava de “diretoria de furar poço”, reivindicando-a para sua órbita de influência na rápida passagem à frente da presidência da Câmara. Nesse ramo, de “furar poço”, a Schahin fechou com a Petrobras contratos que lhe renderiam 5,1 bilhões de dólares até 2018.

O ingresso da Schahin nos negócios com a Petrobras foi recebido com má vontade pelas grandes do setor. Numa das mensagens apreendidas pelos investigadores da Operação Lava Jato na sede da Odebrecht, o principal executivo do grupo baiano para a área de óleo e gás deixa claro como a Schahin era vista pelo cartel, ao discutir um sobrepreço no fornecimento de sondas: “Acho que temos que pensar bem em como envolver a UTC e OAS, para que eles não venham a se tornar futuros concorrentes na área de afretamento e operação de sondas. Já temos muitos brasileiros ‘aventureiros’ nesse assunto (Schahin, Etesco…).”

Foi justamente na seara das sondas e plataformas que a Lava Jato obteve recentemente grandes revelações. A mais impactante coube ao lobista Júlio Camargo. Em novembro do ano passado, ele havia contado em delação premiada ao juiz Sérgio Moro ter pago 40 milhões de dólares em propinas para conseguir contratos na Petrobras. No início de julho, em novo depoimento, afirmou que 5 milhões desse montante teriam ido para o bolso do próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Como representante da Samsung, Camargo vendeu à estatal dois navios-sonda à custa de suborno; um deles passou a ser operado pela Schahin. Esse é um dos episódios em que se cruzam as trajetórias de Cunha e Schahin. Há outro, que nada tem a ver com o escândalo do petrolão, mas envolve diretamente um velho amigo do presidente da Câmara, o operador financeiro Lúcio Bolonha Funaro, figura conhecida no mundo brasiliense.

Funaro e os Schahin travam uma guerra renhida em torno da responsabilidade pelo estouro da barragem da Usina Hidrelétrica de Apertadinho, em Rondônia, um caso de cifra bilionária que se arrasta na Justiça desde 2008. “O Funaro é a razão da nossa crise. Ele e sua ligação com o Eduardo Cunha. A força que eles têm é impressionante”, disse Schahin em nosso encontro. Virando-se para o advogado, João Meira, completou: “Quantas vezes fomos chamados para aquelas comissões na Câmara formadas apenas para achacar?”

Os registros da Câmara dos Deputados mostram que, desde 2008, foram 29 as medidas tomadas pelos parlamentares em relação à Schahin – entre requerimentos de informação, convites para audiências em comissões, pedidos de auditorias ou fiscalizações. Até serem convocados por Arnaldo Faria de Sá, porém, os Schahin não haviam dado as caras no Parlamento, uma vez que convites, ao contrário das convocações, não precisam ser atendidos. Nos últimos seis anos, o interesse dos deputados pela Schahin foi maior do que o mostrado em relação a gigantes como a Odebrecht, a Andrade Gutierrez ou Camargo Corrêa, todas encrencadas no petrolão. O Senado, no mesmo período, só fez um requerimento de informações a órgãos públicos a respeito da empresa.

Foram dez os parlamentares que manifestaram curiosidade em relação aos negócios da Schahin. Cinco deles, notoriamente ligados ao atual presidente da Casa, foram responsáveis por dois terços dos requerimentos: os mineiros João Magalhães e Carlos Willian, que estavam, então, no PMDB; Altineu Côrtes, do PR fluminense, indicado por Cunha para uma sub-relatoria da CPI; Alexandre Santos e Solange Almeida, companheiros de partido de Cunha no Rio.

A deputada, aliás, enrolou-se no petrolão justamente por causa do aliado ilustre. Em 2011, ela assinou dois pedidos de convocação de executivos da Mitsui, empresa japonesa também representada por Júlio Camargo, para depor na Câmara – requerimentos que, segundo o lobista, serviram como instrumento de pressão na cobrança de 10 milhões de dólares em propinas atrasadas – destinados a Cunha e Fernando Soares, conhecido como Baiano, de quem, na definição de Camargo, Cunha era “sócio oculto”. Para escapar do assédio, Camargo contou ter recorrido ao então ministro de Minas e Energia Edison Lobão, do PMDB. Em vão. Em março de 2011, o jornal O Globo descobriu que os requerimentos de Solange haviam sido redigidos no computador do gabinete de Cunha.

O presidente da Câmara rechaça as acusações. Diz que Camargo está mentindo e questiona a validade da delação feita ao juiz Moro. E completa: “Afirmar que eu sou responsável pela atividade parlamentar de cada deputado que conheço, além de ser absurdo, é constranger os deputados.” Por WhatsApp, Cunha me disse ainda que, se as acusações de Milton Schahin fossem publicadas pela piauí, iria processar o empresário.

Dias depois da conversa com Schahin, encontrei Lúcio Funaro em seu escritório, no Itaim, em São Paulo. No local trabalham dois ou três auxiliares numa pequena mesa de operações, além da secretária, do motorista e da mesma copeira que o atende desde o primeiro emprego, no início dos anos 90. Os ambientes são decorados com móveis e quadros modernos. Há câmeras espalhadas por toda parte, e as imagens são exibidas num monitor instalado ao lado da mesa de trabalho de Funaro, na sala ao final do corredor. Ali, uma máquina de picar papel ao alcance de sua cadeira é acionada sempre que ele acaba de fazer uma anotação – o que significa funcionar o tempo todo, já que ele tem o hábito de escrever enquanto fala.

Na sala de reuniões, onde Funaro me recebeu na primeira de duas longas conversas, não havia máquina para picotar papel. A cada anotação que fazia, ele rasgava as folhas com a mão. Ao final de uma manhã inteira, um bolo de papel picado com rabiscos a respeito dos Schahin, do mercado financeiro e do Congresso Nacional repousava sobre a mesa.

Quando o confrontei com as afirmações de Schahin, Funaro respondeu gesticulando, em seu tom de voz habitualmente alto: “Sou eu o problema dele? Ele quebrou por minha causa ou porque não cumpre os acordos que faz? Esse cara sempre pensou que podia me passar a perna e não me pagar o que deve. Ele sempre pensou que era o mais fodido. Mas não é!”

Reconhecido tanto pela inteligência como pelo temperamento explosivo, Lúcio Funaro é daqueles personagens que quase todos no mercado financeiro conhecem, mas raros fazem questão de admitir. Está por dentro das finanças de algumas das maiores fortunas do país e demonstra uma capacidade de articulação incomum. É capaz de, num único dia, ser atendido pelo dono do Grupo JBS-Friboi, Joesley Batista, almoçar com os rivais dele, os irmãos Bertin, e jantar com o ex-ministro da Fazenda Antônio Delfim Netto. Fala regularmente ao telefone com políticos, empresários, especuladores e banqueiros.

O cabelo começando a rarear nas têmporas e os óculos de lentes grossas não desfazem a impressão de que ele parece ter menos do que seus 41 anos. A fala acelerada, entremeada por palavrões, e o forte sotaque à moda dos manos da Zona Leste de São Paulo reforçam sua aparência de garoto.

Quando Funaro tinha 16 anos, sua mãe percebeu que o filho não tinha paciência para os estudos. Colocou-o então para fazer estágio na corretora da família, a Plusinvest, em que eram sócios o pai e alguns tios (o ex-ministro da Fazenda de José Sarney, Dilson Funaro, é seu primo de segundo grau, mas conforme disse Lúcio, nunca participou do negócio). “Eu era hiperativo, mas naquela época não existiam esses diagnósticos de TDAH, DDAH, essas coisas. Eu não dava sossego para minha mãe, ela arrumou alguma coisa para eu fazer.”

Em 2005, quando apareceu pela primeira vez no noticiário nacional, Lúcio Funaro já tinha larga experiência no mercado financeiro e um patrimônio que ele mesmo avaliava em 15 milhões de dólares. Apontado pela CPI dos Correios como um dos operadores do mensalão e descrito como “doleiro chique de São Paulo” – aposto que odeia com a mesma intensidade que odeia os Schahin –, ele usou uma empresa registrada em nome de laranjas, a Garanhuns Empreendimentos, para repassar 6,5 milhões de reais do mensalão ao líder do PL, Valdemar Costa Neto. A CPI o incluiu ainda entre os responsáveis por operações de câmbio que provocaram perdas de mais de 300 milhões de reais a fundos de pensão de estatais.E concluiu que o fundo que mais teve perdas com a corretora de Funaro era a Prece, dos funcionários da Companhia de Água e Esgoto do Rio de Janeiro – área de influência do ex-governador Anthony Garotinho e do deputado Eduardo Cunha, então em seu primeiro mandato na Câmara. Na ocasião, a revista Época mostrou que Funaro pagava o aluguel do flat em que Cunha morava em Brasília.

No início, Funaro tentou driblar todas as acusações. Chegou também a tentar obter no STF um habeas corpus para não precisar depor. Mas não teve a mesma sorte dos Schahin. O então relator do caso, Joaquim Barbosa, não lhe concedeu o benefício. “Ali comecei a entender como funcionam as CPIs. Fui vendo que não tinha como eu sair bem daquele jogo. Eu ia perder de qualquer jeito. Minha melhor opção era falar.” Meses depois, ele se tornou o único delator oficial da hoje histórica Ação Penal 470, como ficou conhecido o processo do mensalão, ao admitir ter repassado o dinheiro para Costa Neto. O resto ele nega até hoje. (“Esse negócio de dizer que os fundos tiveram prejuízo comigo é coisa de quem não entende nada de mercado.”)

Funaro conhece Eduardo Cunha desde os anos 90, quando o presidente da Câmara era presidente da Companhia Estadual de Habitação do governo Garotinho. Na época, o operador trabalhava numa corretora no Rio e era próximo dos filhos do presidente da Assembleia Legislativa do estado, Albano Reis – o “Papai Noel de Quintino”, famoso entre os eleitores por distribuir na periferia presentes de Natal fantasiado de bom velhinho. Reis tinha o gabinete forrado de moedas. “O dinheiro sempre pisou em mim, agora eu piso nele”, costumava dizer, em alusão à origem pobre. Foi sobre o tapete de moedas que Funaro e Cunha se conheceram. Ao apresentá-los, Reis disse que o secretário de Garotinho estava destinado a ser um dos homens mais poderosos do Brasil. Morreu em 2004, sem ter visto seu vaticínio confirmado. Desde a sua profecia, no entanto, a relação entre Cunha e Funaro só se estreitou.

O corretor considera “uma bobagem” associar à defesa de interesses seus a pressão do “grupo de Cunha” na Câmara contra a Schahin. “Eu não preciso do Eduardo para pedir que pressionem a Schahin. Eu mesmo falo com os deputados e explico o que está acontecendo. Eles tomam providências porque concordam comigo. Isso não tem nada a ver com o Eduardo. Além disso, há vários outros deputados de quem sou muito mais amigo. O Arnaldo Faria de Sá, por exemplo.”

Os caminhos de Funaro e dos Schahin se cruzaram em 2007, quando a Gallway – uma empresa registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, da qual Funaro é a única face visível – comprou uma central hidrelétrica em construção no entorno da cidade de Vilhena, no sudeste do estado de Rondônia. Funaro tinha grandes planos para a Gallway. Pensava em arrematar várias usinas, juntá-las na mesma empresa e depois oferecer ações na Bolsa. Como parte da estratégia, adquiriu na mesma época uma usina no Rio de Janeiro, em sociedade com Furnas, outro feudo político de Eduardo Cunha (anos depois, seria acusado de vender à estatal sua parte na empresa por 73 milhões de reais a mais do que seu valor). Pela usina de Rondônia, ele pagou 75 milhões de reais, herdando uma dívida de 150 milhões com três fundos de pensão de estatais – entre eles o Prece, seu velho conhecido. A usina de Apertadinho era modesta, projetada para fornecer 30 megawatts à população daquela região da Amazônia (Belo Monte, a terceira maior do mundo, terá capacidade para gerar 11 mil megawatts). Quem tocava a obra era a Schahin.

Poucos meses depois da aquisição, porém, um acidente fez ruir os planos de Funaro. Na tarde de 9 de janeiro de 2008, assim que o lago da represa foi preenchido, a barragem se rompeu, provocando uma avalanche de lama que inundou cerca de 280 hectares, elevou o nível do rio em mais de 4 metros e desalojou centenas de famílias do entorno. O estrago só não foi pior porque a barragem de outra hidrelétrica, rio abaixo, conteve o fluxo da água. Passados sete anos, a área ainda é um lamaçal. O cenário desolador integra a vasta coleção, país afora, de obras que morrem antes de ter existido.

Na noite em que a barragem desmoronou, a mãe de Funaro teve o primeiro de uma sequência de seis acidentes vasculares cerebrais. Foi internada no Hospital Albert Einstein, onde continua até hoje, em estado vegetativo. “Minha mãe teve os AVCs de vergonha. Desde aquele dia, acabar com esses Schahin se transformou em questão de honra.”

Ao acidente, seguiram-se investigações do Ibama e do Ministério Público, que multou em 100 milhões de reais o consórcio responsável pela obra. Para tentar retomar o empreendimento o mais rápido possível, a empresa de Funaro assinou um Termo de Ajustamento de Conduta, comprometendo-se a criar uma área de proteção ambiental na região. Logo, porém, ficou claro que a negociação entre ele e a Schahin não seria fácil. O seguro da obra vencera meses antes do acidente e não havia sido renovado. Portanto, alguém teria que arcar com o custo de uma eventual reconstrução. Funaro pressionou a Schahin, que se recusou a desembolsar qualquer centavo. “Primeiro nós tínhamos de apurar as responsabilidades e saber o que exatamente havia derrubado a barragem”, lembrou Meira, o diretor jurídico do grupo. “Era preciso elucidar as questões do seguro e do projeto. De que adiantava sair refazendo a obra sem saber o que exatamente havia provocado o desmoronamento?”, perguntou, justificando-se, com o argumento de que a empresa assumira a execução de um projeto que não era de sua autoria.

Na época, Funaro se reuniu em seu escritório com o advogado dos Schahin e não gostou do que ouviu. “Ele estava querendo me dar um golpe”, lembrou. A discussão evoluiu para um bate-boca e, num segundo, o corretor foi para cima de Meira – um galalau de mais de 1,80 metro – atingindo seu rosto com um tapa de raspão. Foram contidos antes de se engalfinharem de vez, mas a conversa havia azedado.

Semanas depois, novo encontro foi marcado, dessa vez sem a presença de Funaro. O operador enviou para um hotel da Vila Olímpia, na Zona Sul de São Paulo, seu advogado e mais três representantes, entre eles seu tio e um ex-dirigente da Camargo Corrêa. No meio da reunião, Funaro ligou para o tio a fim de saber como andavam as tratativas. “Nenhum avanço”, ele respondeu. Funaro se descontrolou. Passou a xingar o rival ao telefone. Schahin percebeu e retrucou de volta, aos berros. “Eu ouvia o velho gritar de lá: ‘Esse bosta não sabe com quem está mexendo. Conheço o Lula, o José Dirceu. Eles vão ficar do meu lado!’” Milton Schahin afirma que tal cena nunca ocorreu. O fato é que, depois da nova reunião frustrada, a disputa ganhou mais alguns volts. “Os amigos dizem que tenho pavio curto. Já eu reconheço: não tenho pavio. Aprendi na vida que há dois jeitos de resolver um problema. Ou é com dinheiro ou é na porrada. Já que não seria com dinheiro, ia ter de ser na porrada”, disse Funaro.

para atingir os Schahin, o rival mirou naquela que, durante os anos Lula, havia se tornado a principal fonte de receita deles: a Petrobras. Passou a enviar cartas aos diretores da estatal expondo seu litígio. A primeira foi expedida em 11 de setembro de 2009, quando conseguiu uma liminar na Justiça do Rio arrolando os bens dos Schahin para eventual pagamento de indenização. Desde então, os diretores da estatal receberam oito pacotes de documentos com a íntegra do processo de Funaro. Em paralelo, a ofensiva do corretor no Congresso recrudescia.

Como costuma acontecer nos corredores de Brasília, a alta octanagem da disputa acendeu o radar dos políticos. “Foram muitos os que vieram oferecer ajuda para tentar um acordo”, comentou Milton, sem, no entanto, citar nomes: “Não me lembro.” Entre tantos interlocutores, o primeiro a sensibilizar o fundador do Grupo Schahin não foi propriamente um político, mas alguém com trânsito no poder. Tratava-se do pecuarista José Carlos Bumlai, uma espécie de primeiro-amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – uma das poucas pessoas com livre acesso a seu gabinete no Palácio do Planalto.

Os Schahin já conheciam Bumlai desde os anos 90, da época em que ele era executivo de uma empreiteira com quem tinham boas relações, a Constran. Haviam se tornado mais próximos em 2004, quando o banco da família emprestou ao pecuarista 12 milhões de reais. Anos depois, uma auditoria do Banco Central iria incluir o empréstimo entre uma série de outros créditos irregulares, com alto risco de calote – “feitos para não serem pagos”, segundo me disse um executivo do setor que avaliou com lupa as transações.

O maior problema dos Schahin com a operação, porém, não seria o escrutínio do Banco Central. Em 2012, o publicitário Marcos Valério, já condenado a quarenta anos de prisão, decidiu contar ao Ministério Público coisas que até então mantinha em segredo, como forma de negociar a redução da pena. Em longo depoimento ao então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, o operador do mensalão relacionou pela primeira vez o empréstimo dos Schahin a Bumlai com a morte de Celso Daniel, o prefeito petista de Santo André, ocorrida em 2002. À época a polícia concluiu que se tratava de um crime comum – sequestro seguido de morte –, mas o caso até hoje permanece envolto numa nuvem de interrogações. A hipótese de crime político e queima de arquivo nunca deixou de ser cogitada quando o assunto vem à tona. O depoimento de Marcos Valério deu novo gás a essa versão.

Segundo ele, tudo começou em 2004, quando foi procurado por Silvio Pereira, o Silvinho, secretário-geral do PT. Como o publicitário já vinha intermediando os empréstimos do Banco Rural e do BMG ao partido, Pereira lhe pediu para conseguir mais um. Dessa vez, ele explicou, o dinheiro serviria para comprar o silêncio de Ronan Maria Pinto, um empresário de ônibus de Santo André, que estaria chantageando Lula e seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho. Valério então disse que não podia resolver o problema (“Me inclua fora dessa”), mas aceitou participar de uma reunião com Pereira e Maria Pinto num hotel de São Paulo. No encontro, segundo Valério, o empresário contou que precisava de dinheiro “para comprar o Diário do Grande ABC, que estava divulgando notícias vinculando-o à morte de Celso Daniel”. Segundo Valério, Maria Pinto pagaria 6 milhões de reais por 50% do jornal. Hoje, o empresário é o único dono do diário.

Depois da conversa, Valério sugeriu a Pereira que arranjasse alguém de confiança para capitanear a operação. Mais tarde, soube que o dinheiro chegou pelas mãos de Bumlai, que o obtivera por meio do empréstimo no Banco Schahin. Em pagamento ao “serviço” prestado, disse Marcos Valério, o Partido dos Trabalhadores conseguiu vultosos negócios para Schahin na Petrobras. “Depois que o caso do mensalão veio à tona, o depoente ficou sabendo que o Banco Schahin tinha uma construtora, e que essa construtora comprou umas sondas de petróleo que foram alugadas pela Petrobras, por intermédio de seu diretor Guilherme Estrella, como uma forma de viabilizar o pagamento da dívida”, registrou o Ministério Público.

Os petistas sempre negaram a história. E Milton Schahin afirma que não tem nada a ver com o imbróglio: “O Bumlai pegou, sim, um empréstimo, como tantas outras pessoas. Mas eu não sou obrigado a saber para que o dinheiro foi usado”, disse-me em seu escritório. Schahin também considera despropositada a afirmação de que a Petrobras o contratou como forma de pagar o empréstimo. “Nossos contratos só vieram muito tempo depois.”

No dia em que os Schahin foram à CPI da Petrobras, a deputada Mara Gabrilli fez questão de estar presente, apesar de não integrar a comissão. “Eu gostaria que o senhor olhasse para mim”, exortou a parlamentar tucana a Carlos Eduardo, o primeiro da família a depor. Ele levantou o rosto e fixou os olhos na deputada, que foi elevando o tom de voz: “O senhor tem consciência de que as operações feitas pelo grupo Schahin foram para calar a boca de um chantagista barato? O senhor sabia que o Grupo Schahin faz a ligação de todo o esquema de corrupção e assassinato do prefeito de Santo André com o petrolão?” O empresário nada respondeu.

Mara Gabrilli é filha de um empresário de ônibus de Santo André que, durante anos, pagou propina aos assessores de Celso Daniel para manter seus ônibus circulando, achacado por um esquema mafioso, segundo relatos dela. Depois que o prefeito morreu, ela fez carreira na política como oposição ao PT.

“Eu me emputeci ao saber que o Grupo Schahin só começou a receber contratos depois de ter ajudado Bumlai e o PT a abafar a verdade sobre o assassinato do Celso Daniel”, disse-me Gabrilli no início de julho, durante um almoço em seu gabinete.

Naquele início de 2010, quando Bumlai se sentou à mesa com Milton Schahin para discutir o caso de Apertadinho, ninguém ouvira falar nem de empréstimo, nem de chantagem. O pecuarista era o todo-poderoso primeiro-amigo, e sua presença daria aval político a um eventual acordo. O encontro ocorreu na sede da Schahin. Bumlai levou consigo o sócio Silmar Bertin, o Mazinho – que, além de ser um dos melhores amigos de Funaro, tinha interesse em assumir a usina de Rondônia. Mal a conversa começou, viu-se que a iniciativa era um tiro n’água. Schahin foi logo dizendo que não tinha nenhuma oferta a fazer, afirmou que o inimigo já o prejudicara muito e prometeu seguir até o fim na guerra. Ficou evidente para os dois intermediários que a disputa havia extravasado o campo dos negócios. “O Bertin chegou aqui muito impressionado, dizendo que os olhos do Milton marejavam de raiva quando falava no meu nome”, lembrou Funaro, com um ar de satisfação. Por e-mail, no final de julho, o presidente do Grupo Schahin disse que “não se recorda desse evento”. Por intermédio de um assessor, Bumlai disse que ele não aconteceu, e que “nunca passou perto do assunto Apertadinho”.

Ao ouvir o relato da reunião, Funaro reagiu com a beligerância costumeira. “Ele acha que já se fodeu tudo o que tinha para se foder? Pois está muito enganado. Eu só comecei a abrir minha caixa de ferramentas”, ameaçou. “Ele não entendeu ainda que não tem roupa para essa festa.”

Fracassada a tentativa de Bumlai, foi a vez de outro intermediário entrar no circuito: o investidor Naji Nahas. Libanês, ainda na juventude Nahas se tornara amigo de Salim, neto de sírios, quando ambos tentavam as primeiras tacadas nos negócios. De Lúcio Funaro, Nahas se aproximou décadas depois, quando já era famoso pelas operações sem lastro que terminaram na quebra da Bolsa de Valores do Rio. Em 2008 chegou a ser preso durante a Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Continua, no entanto, figura influente no mundo das transações financeiras. Reúne empresários, políticos e consultores para almoços em sua casa no Jardim Europa, em São Paulo, com razoável frequência.

Foi para um desses almoços que Nahas convidou Salim Schahin. “O Naji disse que era o próprio Eduardo Cunha que queria conversar com a gente”, recordou Milton – que não participou do episódio. Funaro pleiteava uma indenização de 600 milhões de reais pelos prejuízos com a quebra da barragem, e Nahas dizia que conseguiria um acordo por menos do que isso, ou até mesmo só com a reconstrução da usina. Salim aceitou a proposta e foi para o encontro com o filho, Carlos Eduardo. Foram convidados também o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto e um dos irmãos Bertin – além de Cunha, é claro.

Como Cunha e Bertin demoravam a chegar, Delfim fez o preâmbulo, ponderando que aquela seria uma briga sem vencedores. “Ele disse que estávamos mexendo com interesses muito poderosos e que o melhor a fazer era buscar um acordo”, contou Milton. O ex-ministro confirma o almoço, mas diz que nunca soube que aquele era um encontro de negociação. “Era apenas uma ocasião social, havia diversas outras pessoas. Estão botando muito chantilly nessa história”, desconversou Delfim, negando que tivesse feito qualquer introdução ao assunto da disputa ou mencionado “interesses poderosos em jogo”. “Eu só disse o que um economista brilhante chamado Ronald Coase descobriu há mais de setenta anos: quando o custo de transação de uma disputa é muito alto, o melhor é buscar um acordo.”

Durante todo o encontro, os Schahin se mantiveram na defensiva, sem colocar uma proposta concreta na mesa. Embora não manifestassem, estavam intrigados com o atraso de Cunha e Bertin. Os dois só apareceram quando a refeição – “Ótima, como sempre na casa do Naji”, comentou Delfim – já havia terminado. Cunha foi falar com Salim. Mostrava-se estranhamente simpático e disse amenidades, mas não tocou no tema que os levara até ali. Até hoje o episódio é lembrado com um certo pavor pelos Schahin, que o consideram a maior prova de que Cunha é quem turbina a guerra de Funaro com o clã.

À piaui, o presidente da Câmara disse que nunca esteve com nenhum dos Schahin. “Participei de alguns almoços com Delfim Netto em São Paulo, com vários empresários, e sempre o local era a casa do Naji. Não me recordo se esse personagem estava ou não em alguns deles.”

Hoje se sabe que a disputa entre Funaro e os Schahin em torno da barragem de Apertadinho não era o único ponto de intersecção entre os interesses do clã e os de Eduardo Cunha. Havia também a Petrobras. As pontas soltas dessa história estão no chamado “processo das sondas”, um dos 24 decorrentes das investigações da Operação Lava Jato. Exclusivamente dedicado às compras de navios de perfuração pela Diretoria Internacional da Petrobras, ele foi aberto a partir do depoimento do lobista Júlio Camargo. Área de influência política do PMDB, a Diretoria Internacional foi comandada primeiro por Nestor Cerveró e, depois, por Jorge Zelada (ambos presos em Curitiba).

As negociações que Camargo relatou à PF, e que resultaram no pagamento de propina, ocorreram sob a gestão de Cerveró. Camargo representava na ocasião a sul-coreana Samsung, que construiu dois dos cinco navios-sonda contratados pela Petrobras, a um custo total de 1,2 bilhão de dólares. Foi para conseguir esses contratos que o lobista diz ter pago 40 milhões de dólares, distribuídos a Cerveró, ao operador do PMDB Fernando Soares, o Baiano, e ao deputado Eduardo Cunha. “Tal como nas crônicas de Rudyard Kipling, não existia almoço grátis na Diretoria Internacional”, resumiram os procuradores da Lava Jato ao apresentar sua denúncia contra Baiano, Camargo e Cerveró.

Só depois das primeiras revelações do lobista da Samsung, no final de 2014, a Petrobras decidiu realizar uma auditoria nos contratos de sondas da Diretoria Internacional. O relatório, de março deste ano, concluiu que o estudo interno usado para justificar a compra dos equipamentos era “excessivamente otimista”, ao estimar uma produção sabidamente improvável de ser atingida. Afirma ainda que o time de Cerveró desconsiderou que, para aquela missão, a estatal já tinha no Golfo do México um equipamento do mesmo tipo prestes a ficar ocioso.

Na verdade, a iniciativa de encomendar os navios não fora sequer da estatal, e sim uma oferta da Samsung. No período em que a compra das sondas foi negociada, Camargo se reuniu dezoito vezes com Cerveró na sede da estatal. Baiano, 72 vezes. Apesar de tamanha assiduidade, os técnicos da auditoria não encontraram nenhum registro do que foi dito ou discutido nas reuniões.

A Schahin entrou no jogo no momento seguinte à encomenda dos navios. Fechado o contrato para a construção, era preciso selecionar quem iria operá-los. Para o primeiro navio, o Petrobras 10000, já havia uma licitação em curso (que só terminaria no final de 2007, com a escolha da multinacional americana Transocean). Os Schahin acabaram levando o contrato do segundo navio. E com a ajuda de Baiano, segundo indicam os documentos fornecidos pela Petrobras aos investigadores da Lava Jato.

Em 20 de dezembro de 2006, Baiano e o braço direito de Carlos Eduardo Schahin, Sandro Tordin, foram recebidos por Cerveró na sede da estatal, junto com outro lobista, Jorge Luz, velho conhecido de lideranças do PMDB como Jader Barbalho, Renan Calheiros e o próprio Cunha. Três meses depois, em março de 2007, a Schahin foi contratada para operar o navio-sonda batizado de Victoria 10000. O nome era apropriado. Depois de mais de uma década administrando apenas uma sonda, o SC Lancer, a Schahin finalmente crescia na estatal. Em julho daquele mesmo ano, obtivera os primeiros dois contratos na Diretoria de Exploração e Produção, administrada pelo petista Guilherme Estrella, aquele citado no depoimento de Marcos Valério.

Milton Schahin diz não saber nada a respeito da reunião de seu ex-subordinado com Baiano e Cerveró, e afirma que todos os contratos foram feitos conforme a lei. Os trâmites na Petrobras, porém, não foram nada ortodoxos. Está no relatório da auditoria da estatal: Cerveró não só dispensou a licitação para escolher a empresa que operaria o navio, como também não formou sequer uma comissão de técnicos para estabelecer regras para a contratação. Concedeu à fornecedora um bônus de desempenho bem acima do que se costumava praticar na estatal. E não submeteu o assunto à Diretoria Executiva antes de decidir pela Schahin, como seria de praxe. Os outros diretores só foram informados do negócio quando ele já havia sido selado.

Para justificar tantos lances atípicos, Cerveró argumentou que a Schahin era “detentora dos melhores índices operacionais de águas profundas na Bacia de Campos”. Na realidade, a empreiteira operava então uma única sonda, com notas de desempenho até boas, mas nada excepcionais. E, como se não bastasse, o acordo fechado trazia algumas especificidades que o faziam ser descrito por executivos da estatal como um “presente de pai para filho”. Isso porque a Petrobras comprou o navio e depois o repassou a uma empresa da Schahin, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. Essa empresa pagaria o leasing das sondas em prestações mensais pelos próximos dez anos, com o dinheiro recebido da própria estatal para operá-lo. Ao final desse período, a empreiteira se tornaria dona do navio. Negócio parecido só fora registrado antes na estatal uma vez, com o primeiro navio vendido por Camargo, o Petrobras 10000.

O resultado do “otimismo excessivo” de Cerveró não demorou a aparecer. Um ano depois de ter zarpado para Angola, o primeiro navio já estava ocioso, porque os campos africanos eram secos. Por isso, em julho de 2010, ao ser entregue, o Victoria já não tinha mais utilidade nos mares africanos. Também não podia ir para o Golfo do México, onde a Petrobras têm alguns campos em águas profundas, porque as perfurações na região estavam suspensas em razão do desastre ambiental provocado pela explosão da plataforma de Macondo, em abril daquele ano. Enviou-se então o navio à África do Sul, onde ficou atracado, à espera da conclusão dos trâmites burocráticos que lhe permitiriam retornar ao Brasil. Quando o Victoria finalmente chegou à costa brasileira, no início de 2011, nem o país nem a Schahin eram mais os mesmos.

Em quase meio século de existência, nunca houvera tempos tão bons para a Schahin como os anos de bonança na Petrobras. Netos de imigrantes sírios que se instalaram no início do século na rua 25 de Março, Milton e Salim já nasceram em uma família próspera. Cursaram engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e fundaram a incorporadora em 1966. Evoluíram devagar. Primeiro, aproveitando o boom de conjuntos habitacionais nos anos 70, na esteira do milagre econômico. Depois, na recessão dos 80, diversificando as atividades com agropecuária, banco e empresa de energia. Nos anos 90, os Schahin cavaram espaço no setor público e começaram a conquistar obras maiores, como a do Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam.

O pulo do gato, porém, viria no governo Lula – primeiro com a explosão no crédito que impulsionou os bancos médios, e depois com os contratos na Petrobras. De 2003 a 2010, o faturamento da Schahin Holding saltou de 133 milhões de dólares para 395 milhões, segundo números do levantamento Melhores e Maiores, da revista Exame. Operar no setor de petróleo, porém, exige investimentos pesados. Para financiá-los, a empresa captou cerca de 4 bilhões de dólares no exterior, sobretudo junto a bancos chineses e japoneses – um endividamento bem acima de sua capacidade financeira, o que intrigava os concorrentes. Diz um deles: “A pergunta que sempre nos fizemos era como eles conseguiam tanto crédito com o balanço que tinham.”

Milton Schahin admite ter tentado dar um passo maior do que as pernas. Ainda assim, para ele, o maior problema foi ter insistido em manter o banco. Ao relembrar a trajetória do grupo, deixou escapar, em tom de lamento: “O banco foi nosso maior erro. Várias vezes tivemos conselhos de assessorias financeiras para vendê-lo e ficar com o petróleo, mas nunca o fizemos.”

A instituição financeira chegara aos anos 2000 especializada em financiamento de veículos e de pequenas empresas. E na mira do Banco Central, alvo de fiscalizações, processos administrativos e multas constantes. É dessa época, por exemplo, a auditoria que incluiu o empréstimo a José Carlos Bumlai em uma lista de operações de alto risco de calote, que ajudavam a embelezar o balanço ao serem registradas como créditos a receber. Com a crise de 2008, a situação do Schahin, que já não era boa, agravou-se. Para manter a impressão de saúde financeira, o banco desafiou a vigilância do BC. Vendeu títulos de créditos sem lastro, repassou créditos podres a outras empresas do grupo e ainda fez operações cruzadas com outros bancos. Com isso, criou-se um lucro fictício total de 325 milhões de reais em 2009 e 2010.

No início de 2011, o Schahin era um dos vários bancos médios em crise e imersos em fraudes que estavam prestes a quebrar, como o PanAmericano. A solução apareceu quando o mineiro BMG, que tivera a imagem arranhada pelo envolvimento no mensalão, se propôs a comprar o Schahin.

Pessoas que participaram do processo de venda relatam que os Schahin se comportavam como quem não quisesse de fato fechar negócio, apresentando a cada momento novas exigências. “Tivemos a impressão de que eles pretendiam ganhar tempo para conseguir uma salvação de última hora”, contou à piauí um executivo que integrava, então, a cúpula do BMG. Segundo esse executivo, os Schahin efetivamente tentaram uma cartada de última hora, num domingo de fevereiro de 2011 em que os dois lados se reuniram no escritório de advocacia Pinheiro Neto, em São Paulo. Divididos em duas salas, os Schahin e os Pentagna Guimarães, donos do BMG, já haviam assinado boa parte da papelada quando, às oito da noite, um dos advogados, lívido, abriu a porta da sala do grupo comprador. “Ele disse que os Schahin estavam com o ex-presidente Lula no speakerphone. Pediam socorro para não ter de vender o banco”, relembrou o executivo. O presidente do conselho do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) na ocasião, Antônio Carlos Bueno, deu um ultimato aos Schahin. “Vocês têm duas alternativas. Ou vendem o banco, ou o BC intervém no Schahin amanhã.” Na terça-feira, 27 de abril, o BMG anunciou ao mercado a compra do Schahin por 230 milhões de reais, além de assumir um rombo de 1 bilhão. (Milton Schahin diz que a cena nunca aconteceu.)

Sem crédito na praça, os Schahin começaram a ter problemas para honrar seus compromissos com a Petrobras. No início, a estatal tentou ajudar, antecipando créditos e fazendo vista grossa ao calote nas parcelas do leasing do Victoria. A vontade de ajudar, no entanto, não era unânime dentro da empresa – e, em meados de 2011, tornou-se insustentável. Em 12 de maio daquele ano, a Diretoria Financeira questionou a Internacional sobre as “falhas de gestão” envolvendo as duas sondas vendidas por Júlio Camargo a Cerveró. Só para trazer o Victoria para o Brasil, a estatal havia desembolsado 19 milhões de dólares – sem contar o fato de que a Schahin não pagava as parcelas do aluguel do navio desde 2010.

Os técnicos da Diretoria Internacional deram início à elaboração da papelada de cancelamento do contrato do Victoria. O impasse, porém, perdurou durante todo o ano de 2011. A Diretoria Financeira apontava os seguidos descumprimentos de contrato como razão suficiente para cancelá-lo e tomar o navio de volta, enquanto os diretores Estrella e Renato Duque, ambos ligados ao PT, manifestavam o temor de que a manobra pudesse colocar em risco as outras embarcações da companhia no Brasil. No início de 2012, quando a dívida da Schahin com a Petrobras já alcançara 38 milhões de dólares, os técnicos entraram num acordo e decidiram afinal cancelar o contrato.

Os Schahin então pediram para se reunir com o sucessor de Cerveró, Jorge Zelada, a fim de discutir o imbróglio. Em uma nota preparada para dar subsídios a Zelada nessa conversa, o técnico que acompanhava o contrato reconhecia que o assunto era sensível: “A solução do problema com a Schahin e o Vitoria 10K é também política, motivo pelo qual estamos propondo elevar o assunto para a avaliação e deliberação da Diretoria Executiva.”

Sempre que “subia” para a cúpula da estatal, a questão da Schahin rachava a diretoria. Guilherme Estrella e Renato Duque defenderam até o final que se desse “uma chance” à empresa, enquanto a Diretoria Financeira queria romper. Por fim, chegou-se a um meio termo: a Petrobras passou a reter parte do dinheiro que pagava à Schahin pela operação do navio. O contrato só veio a ser cancelado de fato em maio de 2015, quando a companhia já havia pedido recuperação judicial.

No dia 27 de fevereiro de 2014, uma quinta-feira, Salim Schahin procurou Naji Nahas em seu escritório. “Naji, estou fodido. Perdemos a arbitragem para o Lúcio Funaro, mas estamos quebrados. Não temos como pagar.” A comissão de arbitragem contratada pelos dois lados para decidir a disputa em torno da barragem de Apertadinho acabara de se pronunciar a favor de Funaro. O operador tinha em mãos um parecer técnico estimando o valor da indenização em 1 bilhão de reais. Schahin precisava da ajuda de Nahas para firmar um acordo. O investidor prometeu tentar intervir, mas, constatando o estrago que a disputa havia feito ao grupo, fez a Salim uma pergunta que o intrigava havia tempo. Por que, afinal, eles haviam deixado a coisa ir tão longe? Não teria sido muito mais fácil entrar num acordo lá atrás? A resposta não deixou de ser, ela também, intrigante: “O Milton sempre achou que tinha mais força política do que o Funaro.” Salim estava constatando da pior maneira que o irmão havia superestimado suas conexões.

Nos primeiros dias, Nahas colocou seu braço direito, o ex-executivo do setor bancário Roberto Bastos, para estudar o caso e entender a verdadeira situação do grupo. Não havia dúvida de que se encaminhava para a concordata. Desenhou-se uma proposta para Funaro, e dois meses depois de terem batido à porta de Nahas, em abril, os rivais foram postos juntos numa mesma sala.

Salim e Carlos Eduardo chegaram de Mercedes-Benz ao escritório de Nahas, no bairro de Pinheiros. Instalaram-se em confortáveis poltronas de madeira escura e se puseram a esperar. Minutos depois, chegou o corretor. Entrou de dedo em riste, avançando contra Salim: “Seu velho filho da puta, você acha que vai me dar um calote e continuar andando de Mercedes? Você tá pensando que tem roupa para essa festa? Eu vou tomar tudo o que você tem, velho safado!” Nahas e Bastos tentavam conter Funaro, que, em sua fúria, gritava ora contra o pai, ora contra o filho.

O corretor mandara investigar os Schahin e reunira documentos que, segundo ele, indicam que os rivais têm 500 milhões de dólares em 107 contas em nomes de offshores no exterior (no dia do depoimento dos Schahin à CPI da Petrobras, esse mesmo dossiê foi exibido pelo deputado Altineu Côrtes, um dos que orbitam em torno de Eduardo Cunha). “Você pensa que vai me enganar, seu velho safado. Você tá com câncer, né? Pois eu não estou nem aí. Vou acabar com você e comer seu fígado com câncer e tudo!” Estupefatos com o comportamento de Funaro, os Schahin ficaram sem ação. Foi de repente, como se se livrasse de uma persona, que Funaro se acalmou. Passou então a apresentar alternativas. Disse que a OAS tinha interesse em reconstruir a barragem, desde que junto viessem também a Schahin e seus contratos.

Salim, uma vez mais, tinha proposta bem diferente. Queria que Funaro usasse sua influência para angariar novas obras para a construtora. Quando isso ocorresse, ele daria parte da empresa ao operador. A proposta não foi aceita. Significaria trabalhar de graça para o inimigo, pensou Funaro. Depois de quarenta minutos, a conversa terminou – e de novo sem acordo. Já era um avanço que ninguém tivesse saído machucado.

Como a negociação não ia a lugar algum, Funaro e os Schahin enveredaram por uma nova guerra de liminares e acusações de compras de sentenças judiciais que segue até hoje, injetando nova dose de veneno à disputa. Funaro desenvolveu um método particular de assédio: a cada fase da Operação Lava Jato, telefonava para o escritório da Schahin, ou mesmo para o celular de Milton, com provocações: “Você não foi preso ainda? Pode arrumar a mochila porque você é o próximo.” Em 5 de fevereiro do ano passado, quando a CPI da Petrobras foi criada, ele enviou um e-mail a um assessor dos Schahin: “Afirmo ter a certeza de que a Câmara Federal irá apurar todos os delitos nessa CPI aprovada hoje, principalmente os fatos relacionados ao Grupo Schahin e ao sr. José Carlos Bumlai.”

O salão verde da Câmara estava especialmente agitado no final da manhã de quinta-feira, 9 de julho. Era dia de votar a reforma política. Nos semblantes que costumam antecipar as tempestades de Brasília, porém, o motivo do alvoroço era outro: a lista dos próximos convocados para a CPI da Petrobras que acabara de ser aprovada. Àquela altura já era segredo de polichinelo que o lobista Júlio Camargo tinha modificado seu depoimento, incluindo Eduardo Cunha na roda da propina. Naquela manhã, o pedido para levar Camargo à CPI, parado havia quatro meses, foi finalmente aprovado. Com a novidade iminente, tornou-se um risco político para os escudeiros de Cunha driblar sua convocação. Um dos mais ativos, Celso Pansera, do PMDB do Rio, incluiu na lista o nome da advogada do lobista, Beatriz Catta Preta, que defendia nove dos dezessete delatores da Lava Jato.

Nas semanas seguintes, Catta Preta renunciou a todos os clientes – incluindo Lúcio Funaro, em nome de quem negociara a única delação do mensalão. Fechou o escritório em São Paulo, desligou o telefone celular e se mandou para Miami sem dar nenhuma explicação. Multiplicou-se o rumor de que a criminalista estaria fugindo da CPI – ou, na pior versão, do próprio Eduardo Cunha. No final de julho, de volta ao Brasil, Catta Preta deu uma entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, em que disse ter abandonado a carreira e declarou se sentir perseguida pelos integrantes da CPI. Mencionou ameaças veladas a ela e a seus filhos e discorreu sobre o medo que seu cliente, Júlio Camargo, tinha do presidente da Câmara. Mas não revelou de onde partiram as ameaças à família e evitou acusar Cunha diretamente (“Não posso afirmar, eu não vi nenhum depoimento dele a respeito desse assunto”).

A deputada Eliziane Gama, do PPS do Maranhão, pediu uma acareação entre Cunha e Camargo. Mas nem ela parecia acreditar no sucesso da iniciativa. “Nessa CPI, a única coisa concreta é a presença da Kroll”, disse-me.

A britânica Kroll, maior empresa de investigação do mundo, foi contratada em março pela CPI para rastrear ativos e contas bancárias no exterior de uma dúzia de envolvidos no petrolão. Deve receber mais de 1,2 milhão de reais dos cofres da Câmara pelo serviço, mas ninguém sabe ao certo quem são seus alvos. Tal informação é controlada apenas pelo presidente da CPI da Petrobras, Hugo Motta, e pelo sub-relator André Moura, ambos homens de confiança de Eduardo Cunha – que decretou ele mesmo sigilo sobre o assunto até 2020. “Sigilo sobre os dados bancários eu entendo, mas sigilo sobre quem está na lista da Kroll é absurdo. O fato de só dois aliados de Eduardo Cunha saberem quem está sendo investigado é a maior evidência de que ele capturou essa investigação”, disse-me o deputado Júlio Delgado, do PSB de Minas Gerais, membro da comissão.

Até o momento em que Camargo envolveu Cunha, a “lista da Kroll” não era assunto de interesse para o público em geral, embora já fosse tema de controvérsia na CPI. Depois da acusação ao presidente da Câmara, tornou-se candidata a “escândalo dentro do escândalo” e objeto de vazamentos e suposições de todo o tipo. Entre as especulações mais fortes, a de que pelo menos um dos alvos teria o sobrenome Schahin. Funaro, porém, descarta a hipótese. “Não tem essa de CPI. Quem contratou uma investigação internacional para rastrear os Schahin no exterior fui eu. Os resultados vão direto para as mãos do Ministério Público. Desta, eles não escapam.”


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Foi repórter da piauí. É autora de A Organização: A Odebrecht e o Esquema de Corrupção que Chocou o Mundo (Companhia das Letras)