anais da comunicação
Nick Davies Dez 2015 18h36
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Em uma tarde de sábado luminosa, em meados de junho de 2009, nos gramados verdejantes das colinas a oeste de Oxfordshire acontece uma cerimônia de casamento. Centenas de pessoas estão reunidas às margens de um grande lago de 350 metros de extensão, encimado por um abrigo de barcos do século XVIII, decorado como um templo dórico. O sol brilha intenso. Os convidados cintilam como o champanhe borbulhante nas taças. A noiva entra ao som de Rejubila, Filha de Sião, de Händel, composto para a chegada da Rainha de Sabá. Dois homens que observam a cena aproximam as cabeças.
“E então? O que você acha que isso tudo significa?”, pergunta um deles em voz baixa. “É uma declaração”, responde o interlocutor, num sussurro igualmente discreto. “Uma declaração de poder.”
À primeira vista, o poder parece emanar dos convidados. O homem que fez a pergunta é um alto membro do governo trabalhista do primeiro-ministro Gordon Brown, um dentre os selecionados ministros presentes. Perto deles se encontra um grupo de políticos importantes da oposição conservadora, inclusive seu líder, David Cameron. O homem que respondeu, editor-chefe de um jornal de circulação nacional, tem fama de agressivo, semeador de tempestades, destruidor de reputações; na verdade, ele é apenas mais um a integrar uma caudalosa lista de editores-chefes, ex-editores, editores de política, consultores políticos, executivos de jornais, apresentadores de tevê, lobistas, relações-públicas especializados em política e correspondentes políticos que se apertam à beira do lago. É uma reunião da elite do poder, mas o poder ostentado aqui não é o dos convidados.
A bênção nupcial, ainda no início, sofre uma interrupção inacreditável. Um carro grande com vidro fumê surge no alto da colina arborizada que se debruça sobre o lago. Em vez de estacionar ao lado dos demais Bentleys e Mercedes (e seus motoristas que assam sob o sol), ele abre caminho ladeira abaixo, seu motor desagradavelmente barulhento, sua presença horrivelmente errada. Quando centenas de cabeças se voltam para entender o que se passa, veem sair do carro a conhecida figura do primeiro-ministro Gordon Brown. Atrasado.
Brown avança em meio aos convidados, mas sua linguagem corporal denuncia seu desconforto. Aperta mãos, abre um sorriso forçado e segue adiante, claramente constrangido e deslocado. Alguns dos presentes concluem que ele não queria estar lá. Tinha acabado de participar de um desfile militar e teria de voltar a Londres para administrar várias crises. Mas ele precisava estar lá, mostrar respeito.
Um forasteiro que ali chegasse logo iria supor que o respeito era votado aos noivos. Ele, Charlie Brooks, é um tipo tranquilão, sociável, treinador de cavalos de corrida, um boa-vida que semanas antes tinha explicado à revista Tatler, lida basicamente por socialites, que seu programa favorito era acordar em seu apartamento de dois quartos pintado de uma cor entre o cinza e o marrom (na verdade, era um celeiro adaptado) ao lado de sua noiva e com ela voar para Veneza, almoçar no Harry’s Bar, passear um pouco pelos canais, fazer compras e depois voltar a Londres, para jantar no bar de ostras Wiltons, na Jermyn Street, notoriamente elegante. Um dia perfeito. O dinheiro de Charlie é antigo, vem de família inglesa tradicional – ostentação zero, vulgaridade nenhuma, gente do campo, sólida, que vive com conforto e ama cavalos.
Mas os olhares não estão focados no simpático Charlie. Sua noiva atrai muito mais atenção. Rebekah está linda, com seu cabelo ruivo caindo em cachos revoltos, emoldurando o rosto de elfo. Além disso, tem charme: é famosa (nas elites poderosas) por sua capacidade de fazer qualquer um sentir que ela é uma amiga especial, que é parte do grupo, sempre pronta a ajudar, sempre disposta a ouvir. É particularmente hábil com os homens, com seu jeito delicado de repousar os dedos no antebraço do interlocutor e olhá-lo nos olhos. Nada muito erotizado ou romântico, mas com tal carga de intimidade que um homem bem casado, de perfil conservador, décadas mais velho que ela, lembra que às vezes se pega suspirando – “Talvez, se as coisas tivessem corrido de maneira um pouco diferente… quem sabe pudéssemos ter ficado juntos.”
Esta é Rebekah. Tão próxima de Tony Blair quando ele era primeiro-ministro que os assessores dele na Downing Street se lembram de sua mulher, Cherie, reclamar baixinho quando descobria que ela estava em seu apartamento: “Ela ainda está aí? Quando vai embora?” A mesma Rebekah que redirecionou seu afeto para o primeiro-ministro seguinte, Gordon Brown, o grande rival político de Blair, que demonstrou seu afeto permitindo que, no verão anterior, ela usasse a casa de campo oficial, Chequers, para comemorar seu aniversário de 40 anos, numa festa do pijama só para garotas. É Rebekah quem agora passa os fins de semana entre canapés e fofocas com o mais novo rival político de Brown, David Cameron, que poderá vir a ser primeiro-ministro dentro de um ano e, segundo algumas fontes, assina as mensagens que envia a ela com as palavras “Com amor, Dave”. Todos (que contam) são amigos de Rebekah.
Há quem diga que isso não é exatamente espontâneo – que, por exemplo, na véspera de um jantar importante ela foi vista estudando a disposição dos convivas à mesa com o afinco de uma aluna decorando a fala da peça para o teatro da escola, repassando todos os nomes, os nomes dos cônjuges, os nomes dos filhos, interesses pessoais e assuntos relevantes. Assim, quando chega a hora, ela representa com eficiência seu papel e todo mundo se sente muito especial. Alguns dizem que, na verdade, Rebekah não tem amigos, só contatos; que todas as conversas que mantém com os convidados são nada mais que transações; que todos os seus relacionamentos são calculados para conseguir alguma coisa, para conservar seu título de “rainha da network”. Seu objetivo óbvio e imediato seria jornalístico. É editora-chefe do jornal The Sun[1], o diário de maior vendagem do país, e, claro, ela quer contatos que lhe deem as notícias de que ela precisa para ter sucesso. Assim, nessas transações que passam por conversas, ela certamente tem algo além do seu charme a oferecer. Tem poder: o poder de manchar uma reputação, um belo incentivo para aceitar sua amizade.
Rebekah sabe seduzir, mas também sabe machucar. É famosa não só por seus encantos, como por seu temperamento explosivo. Alguns colaboradores do Sun recordam-se da manhã em que logo cedo ela descobriu que o concorrente Daily Mirror os furara em uma determinada matéria e de como expressou seus sentimentos: chegou ao escritório arremessando com pontaria certeira um projétil que pouco depois foi identificado como um pesado cinzeiro de vidro. Um dos presentes à cerimônia de casamento, que conhece a noiva há anos, afirma que, aqui em Oxfordshire, ela vive uma vida pacata, entre passeios a cavalo e a organização de caçadas, mas em Londres, onde as transações reais acontecem, ela é “a encarnação do diabo”.
O adjetivo que paira sobre Rebekah é “ambiciosa”. A maioria dos jornalistas que trabalhou para ela a adora. Na linguagem da imprensa britânica, ela conquistou o maior de todos os elogios: é uma “operadora”. Quando quer uma matéria, não há nada que a detenha. Certa vez, anos atrás, no News of the World, ela se disfarçou de faxineira para se infiltrar no escritório do Sunday Times e roubar uma matéria. Mas alguns dentre os que a conhecem dizem que no fundo não é o jornalismo que a motiva – sim, ela sabe exatamente como funcionam as coisas, como se deve fazer para transformar uma história em manchete, mas não tem paixão por isso, a atividade não a faz vibrar. Na opinião deles, o jornalismo não passa de um meio de ascensão, a escada que a resgatou de sua cidadezinha natal em Cheshire e da vida de moça de classe média sem muitos recursos, permitindo-lhe conquistar seus primeiros postos humildes em redações – e depois rapidamente galgar à chefia de redação do News of the World, depois do Sun, e continuar escalando, cada vez mais alto, até onde seus olhos cobiçosos conseguissem ver. Neste dia de verão de 2009, ela está com apenas 41 anos e continua subindo. Dizem que, para ela, o poder de uma editora-chefe é simplesmente um mecanismo para conquistar mais poder. “Onde houver poder”, afirma uma das pessoas que se passa por sua amiga, “lá estará Rebekah Brooks.”
Entretanto, o desinformado que pensar que o poder ao redor é dela estará totalmente enganado. Ela é só um avatar. Pode não ficar óbvio de cara, mas o verdadeiro dono do poder é o cavalheiro de 78 anos, com um sorriso avuncular e cabelos canhestramente tingidos de laranja, que conversa discreto entre os convivas. Nada em particular o distingue dos outros, mas foi ele quem impulsionou Rebekah em sua escalada ambiciosa, e é devido à presença dele que a elite do poder nem cogita pensar em não comparecer à festa. Ele é um dos poucos no mundo que alcançaram aquela posição especial em que a pessoa é identificada apenas pela menção de seu primeiro nome. O casamento pode ser de Rebekah, mas o dia é de Rupert.
Desde 1979, nenhum governante da Inglaterra foi eleito sem o apoio de Rupert Murdoch. Entre aquele ano e esta cerimônia, todos que ocuparam a cadeira de primeiro-ministro – Thatcher, Major, Blair e Brown – costumavam abrir espaço em suas agendas e recebê-lo nos sagrados gabinetes de seus governos (e depois divulgavam o mínimo necessário sobre o que se passou atrás das portas). Sem dúvida, líderes de outros países fizeram o mesmo – em Pequim, Washington, Camberra e várias outras capitais. Este é o estado atual da ordem democrática: cada pessoa tem um voto; esse homem tem o poder.
É inegável a existência desse poder. Mesmo aqui, no casamento, sua aura se faz sentir a cada passo seu. A certa altura, por exemplo, o antigo assessor de imprensa de Tony Blair, Alastair Campbell, se dirige a David Cameron para lhe dizer que, embora espere que ele perca as eleições gerais marcadas para o ano seguinte, apoiará qualquer iniciativa (se ele sair vencedor, claro) destinada a dar um jeito na imprensa. Campbell inicia um discurso bem ensaiado sobre a tendência a falsidades e à negatividade de boa parte da cobertura política; Cameron, atento, responde que o comportamento dos jornais tem piorado e subitamente para de falar, petrificado como um aluno flagrado em falta, ao perceber Murdoch a seu lado, sorrindo. Quando Murdoch sorri, políticos respeitáveis agradecem aos céus.
Por quê? Isso não está claro.
Muita gente não familiarizada com o assunto tem uma compreensão equivocada do poder de um homem como Rupert Murdoch. Olham para ele e veem nada mais do que um típico magnata da mídia megalomaníaco. É inegável que construiu, por meios legítimos e golpes, com inteligência e ardis, uma vasta organização de comunicações – a News Corp –, com mais de 800 subsidiárias e valor estimado em 60 bilhões de dólares. Ele e o fundo de sua família são donos diretos de 12% das ações (mas, graças a uma sutil manobra legal, controlam 39,7% dos votos). Um retrato da News Corp neste dia de junho de 2009: ela detém um dos seis maiores estúdios de cinema do mundo, a Twentieth Century Fox; uma das vinte maiores editoras de livros, a HarperCollins; aquela que já foi a rede social mais visitada do mundo, o MySpace. Porém, mais importante que tudo isso, a News Corp é dona de canais de tevê e de jornais.
Murdoch cria estruturas triangulares de mídia. Em diferentes países, comprou um tabloide popular (The Sun, no Reino Unido; New York Post, nos Estados Unidos; Herald Sun e The Daily Telegraph, na Austrália); a seguir comprou um jornal sério (The Times, de Londres; The Wall Street Journal, The Australian); a estes somou uma rede de televisão (BSkyB [2] no Reino Unido, Fox nos Estados Unidos, Foxtel na Austrália). Cada um desses triângulos é, a seu modo, a base de uma fortuna e de um poder político colossais.
O alcance da News Corp é gigantesco. Por meio da News International, ela controla quatro jornais lidos por 37% dos leitores britânicos e é proprietária de 39,1% da BSkyB, operadora de tevê por satélite, que transmite filmes e esportes e o canal Sky News para 10 milhões de lares no Reino Unido e na Irlanda. Na Austrália, controla 60% dos jornais diários e 70% dos dominicais. As participações acionárias em tevês se espraiam pela Europa (oeste e leste), o sul da África e a América Latina. Sua rede de tevê asiática, Star TV, atua em toda a Índia e toda a China, na maior parte do restante do continente asiático e agora, através do Star Select, também no Oriente Médio. Os canais de tevê da News Corp exibem filmes rodados em seus próprios estúdios e depois avaliados por seus próprios críticos de cinema que escrevem para alguma de suas centenas de revistas. A News Corp transmite eventos esportivos cujos direitos ela detém, envolvendo times que pertencem à corporação, e cujos resultados são publicados em jornais do grupo.
Quem vê Murdoch acumulando veículos de mídia como Tio Patinhas acumula moedas pode pensar que ele se comporta como um magnata da mídia, que mete o dedo na cara de um político que dele depende e o avisa como as coisas devem ser feitas se ele quiser se manter no jogo. Nessa versão, o magnata impõe um acordo: ele não ataca as políticas do governo (e não expõe os segredos sórdidos de seus integrantes) e, em contrapartida, o governo reformula suas políticas de modo a ajustar-se à ideologia do magnata; este, para cumprir sua parte, enquadra seus subordinados, que passam então a produzir a propaganda política determinada pelo patrão. O governo, por fim, recompensa o magnata com vantagens lucrativas para seu negócio.
No entanto, ministros, assessores especiais e funcionários de órgãos públicos que se relacionaram com Murdoch, bem como executivos, editores e jornalistas que trabalharam para ele, pintam um quadro diferente. Quem o conhece diz que se trata de um sujeito que ama a informação; ele usa seus jornalistas como se fossem uma rede de monitoramento, conversa com todos os contatos possíveis para examinar as coisas por dentro, coleciona fofocas políticas, recebe informes secretos das agências de inteligência. E faz fortuna vendendo notícias. Mas, quando o assunto é sua própria vida e seu negócio em especial, ele ergue um muro protetor e é reservadíssimo. Quem está fora não entra.
Quem frequenta seu círculo afirma que ele usa o poder de modo muito mais sutil do que se pensa. Em primeiro lugar, dizem que há algo muito profundo que o motiva – talvez, sugerem alguns, o fato de ter crescido acreditando que nunca conseguiria ser bom o suficiente para seu pai, sir Keith Murdoch, um patriarca prodigioso que construía empresas e quebrava os adversários. Durante toda a vida, o filho viu-se compelido a fazer com que seus próprios negócios crescessem sem cessar, como se um dia o pai já morto pudesse lhe sinalizar que já estavam de bom tamanho. Com isso em mente, dizem que seu principal interesse nos políticos não é a política, mas os negócios. Segundo essa interpretação, ele pode ser um animal político, obcecado por detalhes dos corredores do poder e adepto de opiniões radicalmente direitistas, mas o que ele mais quer dos políticos são vantagens para suas empresas. Ele trairá seus princípios e abraçará políticos que não respeita se eles tiverem o poder de alavancar seus negócios.
Em termos práticos, isso se resume à permanente demanda de se ver livre de regulações. Ele e seus jornalistas de confiança seguem a mesma partitura: a canção das virtudes do livre mercado, sem regulações, nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Austrália e em todos os países onde Murdoch tem interesses. Eles são os maiores porta-vozes do mundo em prol do Estado mínimo e de mais espaço para a iniciativa privada. Argumentam como se discorressem sobre uma questão filosófica. No entanto, trata-se de um assunto predominantemente comercial, de um empresário que deseja crescer, vencer os concorrentes e, em última instância, dominar os mercados cuja liberdade ele costuma defender. No mundo inteiro, governos democráticos criam órgãos reguladores para salvaguardar o interesse público e, em suma, proteger os mercados contra o poder de corporações excessivamente fortes, impedindo-as de esmagar os concorrentes, praticar preços injustos ou abusar de sua posição. Em várias ocasiões Murdoch precisou encontrar meios de vencer esses reguladores e sufocar o bem público para garantir seus próprios interesses. Se barreiras legais dificultam seu caminho, ele busca políticos amigos que discretamente lhe abram as portas e o permitam avançar.
O desavisado pode supor que, para isso acontecer, é preciso fechar um acordo. Os entendidos dirão outra vez que o buraco é mais embaixo: é menos um negócio (no sentido de ser um acordo finito, estático, feito conscientemente) e mais um relacionamento um tanto cínico, em que os dois lados fingem amizade mútua mas buscam vantagens, ambos oferecendo um pouco mais do que esperam entregar no final – que nenhum dos lados sabe exatamente qual será. Esse relacionamento tão especial, dizem essas pessoas, nasce, é cultivado e tem oxigênio e liberdade para florescer em lugares como este casamento.
Aqui, à beira do lago, Murdoch, seus executivos e jornalistas mais importantes desfrutam do primeiro privilégio do poder: usufruem sem esforço de um acesso pelo qual lobistas inescrupulosos pagariam um caminhão de dinheiro. O primeiro-ministro, seu provável sucessor e seus respectivos assessores fazem fila para ouvir suas palavras, captar sinais, entender o que ele quer, transmitir a ele seus próprios sinais. Enfim, estabelecer laços. Talvez os aproximadamente 46 milhões de eleitores no Reino Unido desejassem ter esse tipo de acesso a seus líderes, mas é este bilionário estrangeiro (que nem sequer tem direito a voto no Reino Unido) a gozar desse privilégio e das relações especiais advindas dele.
Murdoch circula sem alarde, à vontade entre os convidados, batendo papo com tranquilidade. Não exibe seu poder de maneira ostentatória – caminha sem guarda-costas, não fica isolado em algum canto como se fosse um personagem mafioso de Hollywood. Não parece ameaçador nem impositivo. Sem esforço, e até com certo charme, ele colhe o respeito daqueles ao redor. Mas…
Em última instância, claro, há algo mais que respeito nessa cena. Há medo. É curioso que Murdoch não desperte medo nas pessoas comuns. A maior parte delas não está nem aí com ele, e as poucas que se importam costumam sentir desprezo, veem nele um exemplar perfeito da cobiça, com suas sete residências espalhadas pelo globo e sua renda anual beirando os 22 milhões de dólares. No entanto, entre os players do poder, sob o manto da cortesia e das conversas, impera um medo silencioso.
E isso, por sua vez, diz alguma coisa a respeito do caráter de Murdoch. Ele é capaz de ser charmoso, de contar uma piada indecente, mas a verdade é que muitos dos que lhe apertam a mão entreveem o rosnado atrás do sorriso. Um parceiro de negócios australiano, ao lhe sugerir que se reaproximasse de um empresário com quem tivera uma briga no passado e cujo império desmoronara, ouviu uma resposta agressiva: “Eu não gostava de falar com aquele babaca quando ele tinha dinheiro e, agora que ele está falido, quero que se foda.” Um convidado desta reunião de poderosos se lembra de um comentário da rainha (muito mais ameno, mas igualmente revelador) em que ela, depois de perguntar sobre o filho de Rupert, James, arrematou em voz baixa: “O pai é horroroso.”
O caráter do homem, por sua vez, está no cerne do modo como ele conduz seus negócios. Rupert Murdoch é capaz de esmagar seus oponentes como se fossem mosquitos, e o faz por um único motivo: a News Corp. Um dos convidados, íntimo dele, afirma: “Rupert não discrimina – ele se importa mais com os negócios do que com qualquer pessoa, incluindo ele mesmo, os filhos, os aliados políticos. O negócio vem em primeiro lugar. Seu lema é ‘matar ou ser morto’. Em todas as batalhas corporativas de que participou nos últimos cinquenta anos, ele entrou para vencer. Vencer é fundamental. Isso não significa reconhecer que a política representa um poder maior e mais alto. Significa não acatar as leis vigentes, não se submeter a nenhum código a não ser o próprio.”
É famoso o episódio de 1975 em que Murdoch abusou de sua posição de dono de jornal para apoiar um complô que resultou na deposição do primeiro-ministro democraticamente eleito da Austrália, Gough Whitlam, que se atrevera a se afastar das políticas defendidas pelo magnata. Murdoch é o homem que levou ao desemprego 6 mil trabalhadores ao romper acordos com os sindicatos dos gráficos de Londres; que abriu mão de sua cidadania australiana para tornar-se americano e poder controlar mais de 25% das ações de uma rede de tevê; que levou o Daily Telegraph e o Independent à beira da falência graças a uma guerra de preços que dobrou a circulação do Times; que aderiu ao cristianismo como se estivesse vestindo um novo terno e depois o abandonou quando se encheu.
Mas o medo é gerado sobretudo pelas pessoas que Murdoch contrata. “Ele adora uma tropa de choque”, diz um de seus executivos mais graduados. Roger Ailes na Fox TV, Kelvin MacKenzie no Sun, Col Allan no New York Post e Sam Chisholm na Sky TV, por exemplo, perfilam todos no mesmo batalhão de truculência. E quando os homens de Murdoch querem machucar, sabem fazê-lo com mestria. Suas vítimas realmente sofrem. Todos os membros da elite do poder já sabem do que os veículos de Murdoch são capazes, servindo-se de matérias como delinquentes se servem das botas para, aos pontapés, moer a vítima num beco escuro. Chamam a essa prática “infernizar”: um ataque público selvagem e prolongado, frequentemente dirigido à parte mais sensível e privada da vida do alvo – seu comportamento sexual –, infligindo dor e humilhação extremas.
Muitas vezes isso não tem nada a ver com manobras do próprio Murdoch – trata-se apenas de preencher espaço no noticiário à custa de algum pobre desavisado que teve a infelicidade de atrair a atenção do tabloide. Os jornalistas em geral se recusam a fazer isso, assim como os homens em geral se recusariam a ser torturadores. Mas alguns dos que trazem no bolso a carteirinha de jornalista profissional são como os droogs do livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, que chutam suas vítimas só por prazer. Ajuda a vender jornais, o salário é bom e é divertido.
Ser infernizado pelos droogs de Murdoch é uma experiência terrível. Se os danos fossem físicos (e visíveis), os tribunais os condenariam a longas penas de prisão. Mas estamos falando de ferimentos emocionais graves, que algumas vítimas jamais conseguem superar – com efeito, algumas passaram a manifestar pensamentos suicidas. O ataque pode nascer não importa onde – a partir, por exemplo, de uma declaração impensada ou de um ínfimo detalhe que ninguém percebeu, sobretudo a vítima. Pronto. De repente a brutalidade começa. A escolha do alvo pode ser totalmente arbitrária. Se o lobo mau pega a criança, os droogs podem atacá-lo por sua covardia, ou então atacar a criança por deixar-se levar por um simples medo de lobo mau.
Depois de iniciado o processo, a vítima não tem como interrompê-lo. Se o lobo disser que não pretendia raptar a criança, que estava ali a passeio, a notícia será algo como: “Na noite de ontem, um lobo ameaçou espalhar medo e não se desculpou.” Caso se desculpe, também vai se dar mal: “Uma humilhante retratação.” Tampouco a recusa em pedir desculpas funcionaria, resultando numa frase como: “O lobo está cada vez mais isolado.” As abordagens são infinitas. Os droogs vão contatar todo mundo que já privou com o lobo até descobrir alguém que não goste dele. Vão consultar veterinários em busca de declarações alarmistas e clamores por medidas imediatas. Eles podem seguir batendo por dias. Uma pequena distorção aqui, uma invenção acolá. O fato em si é uma distorção: o implacável retorno à mesma vítima, o desejo de destruir que corrompe o discernimento editorial. Não raro, outros jornais e programas de mídia eletrônica vão repercutir, e assim a mera concorrência leva à busca por novos ângulos para a história. O lobo está sem ação: se falar, põe lenha na fogueira; se ficar quieto, será abatido.
Um dia, a infernização termina, em geral porque surgiu um alvo novo. Ou porque o alvo foi destruído. Às vezes, nem a destruição é o bastante. Alastair Campbell registra em seu diário o feroz ataque imposto ao então ministro dos Transportes Stephen Byers, na primavera de 2002, que continuou mesmo depois de ele renunciar: “É como se eles pegassem um cadáver e se descobrissem desapontados por não haver mais o que machucar e matar. Daí decidem matar o cadáver também.”
O medo desses ataques brutais gera um poder que contamina muito mais que as relativamente poucas pessoas que deles são vítimas. Qualquer um na elite do poder tende a temer Murdoch porque ninguém pode estar seguro de que não será o próximo a ser linchado. A ex-ministra trabalhista Clare Short, por exemplo. Depois de criticar várias vezes o Sun por exibir seios nus para incrementar as vendas, ela foi alvo de chacotas para milhões com piadas como: “Clare estraga-prazeres… gorda… invejosa… feia… claramente baixa… claramente burra.” Em diferentes momentos, o jornal realizou ações como distribuir adesivos para carros com os dizeres “Chega de Clare Louca” ou enviar mulheres seminuas à frente de sua casa; além disso, criou um concurso em que os leitores deveriam responder se preferiam ver o rosto de Short ou a traseira de um ônibus. Em paralelo, o News of the World não só soltou duas matérias espúrias sugerindo que ela estivesse envolvida com pornografia, como tentou comprar fotos dela de camisola, aos 20 anos – e também publicou uma matéria difamatória que tentava ligá-la a um mafioso caribenho.
O trabalhista Chris Bryant, companheiro de Parlamento de Short, um ex-padre anglicano, despertou a ira dos jornais de Murdoch quando, em audiência da Comissão Especial de Mídia, em março de 2003, encurralou Rebekah Brooks e levou-a a admitir que seus jornalistas deram dinheiro a policiais em troca de informações. Logo depois, um repórter do Sun o preveniu: “Eles vão te pegar por isso.” Com efeito, eles o pegaram (de leve, é verdade) alguns meses depois, no momento em que ele declarou na Câmara dos Comuns que se opunha à ideia de um referendo sobre a nova Constituição da União Europeia. Os leitores do Sun foram então informados de que ele seria um “eurofanático” que julgava os leitores burros demais para votar.
A artilharia pesada desabou em dezembro, quando o Mail on Sunday expôs Bryant numa reportagem ilustrada por uma constrangedora foto em que ele vestia apenas uma sunga. Foi então que Rebekah Brooks, no Sun, e Andy Coulson, no News of the World, aderiram ao espancamento. Brooks deixou claro que a questão era pessoal no dia em que, num congresso do Partido Trabalhista, dirigiu-se a ele de maneira afetada e disparou uma agulhada certeira acerca de sua sexualidade, numa referência ao constrangimento pelo qual passara um de seus antigos colegas que fora acusado de perambular por um parque de Londres em busca de sexo gay. Ela disse: “Ah, senhor Bryant, já escureceu. Estou surpresa de que ainda se encontre aqui. Achei que estaria no parque Clapham Common.”
O escritor americano Michael Wolff também foi castigado. Em março de 2009, às voltas com a redação de uma biografia sobre Murdoch, foi rigorosamente infernizado pelo New York Post. Por meios não explicados, pessoas ligadas ao magnata tiveram acesso aos originais inéditos e passaram a enviar recados inequívocos de que o chefe não havia gostado de alguns trechos. Wolff se lembra do telefonema de um alto executivo que lhe pediu para fazer algumas mudanças antes da publicação. O escritor perguntou: “E se eu não fizer?” E ouviu: “Se você não fizer, não daremos apoio ao livro.” “E isso pode ser ruim?” Resposta: “Sim. Pode ser bem ruim para você.”
E foi mesmo ruim. O New York Post descobriu que Wolff estava tendo um caso e soltou matérias sobre o assunto nos dias 2, 3, 6, 25 e 30 de março e em 3 e 9 de abril. Além disso, o jornal publicou uma notícia que o acusava de despejar a sogra do apartamento em que ela morava. Para completar, incluiu uma charge em que o escritor aparecia na cama com a amante. Detalhe: Wolff, que é judeu, foi desenhado com traços que poderiam muito bem ser considerados antissemitas.
Qualquer um da elite do poder já ouviu falar que o castigo pode vir sob a forma de chantagem grosseira. Circulam histórias a respeito de cofres recheados de dossiês com provas sobre fatos das vidas privadas de políticos e empresários concorrentes – e que Murdoch e seus editores concordam em manter na moita em troca de ainda mais vantagens. Há alguns rumores bem específicos. Diz-se que uma importante figura do mundo dos esportes no Reino Unido teria acatado a proposta de Murdoch para direitos de transmissão quando soube que o Sun estava prestes a revelar a seus leitores que ele tivera relações sexuais com rapazes. Outro boato concerne a um político de segundo escalão do Partido Trabalhista que teria defendido os jornais de Murdoch no Reino Unido depois que jornalistas obtiveram um vídeo dele fazendo sexo com uma prostituta na presença do marido dela. É verdade que tanto o dirigente esportivo quanto o político apoiaram Murdoch, mas não é evidente se o fizeram por medo dos dossiês ou mesmo se estes existem. O poder está na crença e no medo que ele produz. E esse medo está por toda parte.
Com certeza muitos já se depararam com uma versão mais branda dessa prática, uma modalidade que se poderia chamar de chantagem branca: faz-se um favor em vez de uma ameaça. Políticos proeminentes, policiais e outros sabem que jornalistas importantes de Murdoch já intervieram particularmente em favor deles, ajudando-os a conseguir uma promoção ou a desativar uma bomba. A maioria dos convidados do casamento sabe que Rebekah armou uma inteligente chantagem branca contra o vice-primeiro-ministro John Prescott quando, como editora-chefe do News of the World, recebeu informações de que, muitos anos antes, a mulher de Prescott, Pauline, entregara um bebê para adoção. Isso havia ocorrido antes de eles se conhecerem, mas agora o filho tinha acabado de fazer contato. Prescott implorou a Rebekah que não publicasse a reportagem antes que a mulher e seu filho tivessem oportunidade de se encontrar. Ela concordou – um gesto decente que lhe garantiu um sentimento de dívida por parte de Prescott, que, tempos depois, quando sua família estava preparada, optou por contar a história primeiro para ela, agora ocupando o cargo de editora-chefe do Sun. Favores são moeda forte nos corredores do poder.
O poder de acobertar ou revelar informações pessoais sensíveis acaba sendo parecido com o poder do valentão que faz bullying no pátio da escola. Esse valentão só precisa maltratar um ou dois garotos para que seu poder seja visto como real – depois o medo se encarrega de garantir que as outras crianças farão de tudo para que ele as deixe em paz. Da mesma forma, o suposto imenso poder atribuído a Murdoch (o de influenciar de forma decisiva os resultados de eleições) não precisa ser inteiramente real. O que importa é o medo de que possa ser real. É muito mais seguro aliar-se ao magnata ou mesmo juntar-se à fila rastejante de membros atuais e antigos da elite do poder, pagos para escrever colunas para seus jornais ou dispostos a vender os direitos de publicação de suas memórias para a HarperCollins, como Newt Gingrich, então presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos; a filha do líder do Partido Comunista Chinês, Deng Xiaoping; William Hague, ex-líder conservador; sir John Stevens, ex-comissário da Polícia Metropolitana; David Blunkett, ex-ministro trabalhista; Alastair Campbell, ex-assessor de imprensa do primeiro-ministro; Andy Hayman, ex-subcomissário da Polícia Metropolitana, e tantos outros.
Não se pode afirmar se um jornal agressivo chega realmente a definir os rumos de uma eleição em nível nacional. Jornais gostam de dizer que sim, políticos tendem a negar e cientistas políticos especializados em eleições discutem o impacto do noticiário nos eleitores, cruzando os dados de distribuição dos jornais com os dados eleitorais de indecisos que, em última instância, definem o resultado onde a disputa é mais acirrada. Em 1992, no caso mais famoso no Reino Unido, o Sun, então comandado por Kelvin MacKenzie, fez tudo o que pôde para manchar a carreira política do antigo líder trabalhista Neil Kinnock. Ao final do pleito, MacKenzie anunciou que a vitória do oponente de Kinnock, o então líder conservador John Major, se devia a ele. A afirmação soou infundada, se não por outros motivos, devido ao notório desapreço do editor pela verdade.
Ninguém duvida da capacidade dos droogs de causar prejuízos políticos graves. Um jornal cínico que ataca um partido político – esteja ele no governo ou na oposição – pode infundir o caos. Todos os debates se transformam em cisões, os problemas viram crises, as mudanças tornam-se recuos, os reveses são humilhantes, os sucessos, ignorados. A agenda de notícias é tão adulterada que a qualquer momento o partido ou o governo se veem obrigados a voltar suas atenções para uma crise criada pelo jornal. Pode arruinar reputações, seja com notícias falsas, seja com verdadeiras. Pode estragar o debate público de questões importantes por introduzir premissas distorcidas. A relação da Inglaterra com a União Europeia, por exemplo, foi moldada em sua essência por uma série implacável de matérias notoriamente falsas sobre supostas regulações da União Europeia que tornariam ilegais alguns pilares da vida e da cultura britânicas, como as Forças Armadas, os kilts escoceses, o canecão de cerveja, as curvas das bananas, os brechós para organizações de caridade e os professores cristãos, além de impor um sufocante conjunto de regras mesquinhas para o dia a dia. O impacto é similar ao efeito no ambiente doméstico de um rebento mimado que não para de gritar: a família pode não se desintegrar, mas fica impossível levar uma vida normal.
Murdoch controla obsessivamente as finanças de suas empresas, conferindo todos os dias os relatórios de cada subsidiária para se certificar de que estão seguindo o orçamento estabelecido. Mas muito pouco das distorções editoriais de seu império parte diretamente dele. Ele intervém de forma superficial, exigindo que as empresas defendam políticas que favoreçam os negócios de empresas como a News Corp – corte de impostos, de benefícios sociais, de gastos do governo, de regulamentações, enfim, os pontos centrais do neoliberalismo. De tempos em tempos, ele coloca o dedo em alguma matéria – para ajudar um aliado, promover seus negócios ou externar alguma preferência pessoal. Seus jornalistas mais graduados admitem em segredo que isso é inaceitável, uma forma inequívoca de corrupção editorial, mas insistem que ele interfere muito menos do que se supõe. O grosso do noticiário produzido pelas empresas de Murdoch, incluindo a maior parte das mentiras e distorções, é um produto espontâneo gerado por suas redações altamente mercantilizadas. É o que vende.
Da mesma forma, apenas alguns ataques precisam ser conduzidos pelo próprio Murdoch. Na ponta do lápis, sem dúvida o poder do governo (com seu imenso orçamento, suas Forças Armadas, sua polícia, sua burocracia e todo o aparato do Estado) é muito maior do que o de um grupo jornalístico. Mas, se a questão é a capacidade de provocar medo, a relação se inverte. O governo vive com medo do que o magnata pode fazer com seu planejamento (e talvez com algumas reputações individuais). Mas o magnata pouco teme o governo. Na maior parte das vezes, os políticos abrem caminho para ele passar e, na eventualidade improvável de o governo efetivamente atacar, ele pode recorrer à saída extrema: vender o negócio e deixar o país, evitando o que lhe querem impor e levando consigo seus investimentos e empregos.
O ponto central do verdadeiro poder é que ele funciona sozinho, em especial entre aqueles que tentam controlá-lo. Qualquer um dessa elite sabe. Todos reconhecem o poder do barão da mídia e, com poucas exceções, fazem de tudo para mantê-lo apaziguado e conquistar-lhe a amizade. O magnata, na maior parte do tempo, não precisa fazer ameaças ou passar instruções. Ele só precisa aparecer. Nem mesmo isso: só tem de existir, uma sombra ao fundo. Todo mundo entende, a existência do poder é suficiente. Se há um touro no pasto, todo mundo anda com cuidado. O medo lhe abre as portas e, uma vez dentro, ele tem influência. O poder verdadeiro é passivo.
Terminam as bênçãos nupciais. O som de Windmills of Your Mind se propaga pelo lago e o apresentador de tevê Jeremy Clarkson sobe ao púlpito para ler “Riders in the stand”, do poeta australiano Banjo Paterson. “A regra vale para tudo na luta incerta da vida/O jóquei vencedor faz tudo certo/O jóquei perdedor faz tudo errado.”
Findas as orações e os cânticos, os convidados são conduzidos (alguns com a ajuda de seus motoristas, outros a pé) ao celeiro transformado em moradia onde residem Rebekah e Charlie, próximo às casas da mãe e da irmã dele. Gordon Brown sai discretamente, mas os demais têm diante de si uma representação da boa-vida – dois burros a pastar placidamente num cercado, lembrando uma ilustração de livro infantil; uma tenda decorada como um parque de diversões vitoriano, com mesas postas para um banquete; e uma área descoberta com brinquedos, entre eles uma roda-gigante.
Quando a elite do poder se reúne para se divertir, ela trabalha. Neste dia específico de junho de 2009, fervilham inúmeras tramas sob a superfície da conversa amena, mas uma em especial se destaca e é grande o bastante para ser percebida com clareza. Todo mundo sabe que, em algum momento ao longo dos doze meses seguintes, Gordon Brown precisará convocar eleições e Rupert Murdoch apadrinhará o partido de sua preferência com toda a presunção de autoridade de um papa renascentista. Só que todo mundo sabe que há um novo jogador em campo.
A despeito de provocar um sonoro burburinho em torno de si sempre que está no Reino Unido, o velho já não demonstra tanto interesse pelo que acontece em Londres. Ele ainda se importa com o Sun e gosta do dinheiro que ele gera, mas no fundo o Reino Unido passou a ser uma diversão secundária para ele. Alguns sustentam que agora ele se satisfaz em usá-lo como um parquinho onde o filho James possa desenvolver seus talentos antes de juntar-se ao pai em Nova York, palco do grande jogo em andamento.
Não há dúvida de que, em última instância, será o próprio Rupert Murdoch a decidir a quem concederá sua bênção política, mas caberá a James Murdoch, então com 36 anos, fornecer as informações que guiarão os atos do pai. Ele está rodeado de sorrisos de gente tomada pelo desejo de agradá-lo. David Cameron, sentado perto dele, se esforçou muito para se aproximar. Nos três anos anteriores, ele se encontrou seis vezes com o herdeiro do magnata em cafés, almoços e jantares. Não foi fácil construir uma amizade.
Um ano antes, em julho de 2008, o jornalista de direita Martin Ivens, que escreve para o Sunday Times, de Murdoch, promoveu um jantar e sentou Cameron em frente a James Murdoch. Havia outros convidados (alguns colunistas, um consultor de relações públicas, um romancista e um historiador conservador), mas, segundo um dos presentes, foi uma situação armada para que os dois homens se encontrassem. Ao que tudo indica os dois se entenderam bem, concordando em questões como a importância das políticas ambientais. Em vários momentos James se ausentou para se abastecer de nicotina e também com frequência apimentou seus pontos de vista com imprecações – “Este país está fodido”, afirmou a certa altura. Tudo teria terminado bem se um dos convivas não tivesse, maldosamente, levantado o assunto dos milionários residentes no Reino Unido que, se aproveitando de uma brecha na legislação tributária, declaram, para fins de impostos, domicílio em outro país, sangrando o governo de importante receita tributária. A mulher de Cameron, Samantha, corroborou que era mesmo uma desgraça, deixando apavorado o marido, que supôs que o próprio James Murdoch se aproveitava dessa brecha. De acordo com esse convidado, Cameron se levantou num salto e disse à mulher que era melhor irem embora, “antes que você diga algo indiscreto, querida”, e porque na manhã seguinte ele teria de participar da sabatina semanal do primeiro-ministro na Câmara dos Comuns.
O fato é que James não é unanimemente amado. Ter ascendido tão rápido nos negócios da família contribuiu para isso. Apenas treze anos se passaram desde que o pai o convenceu a abandonar a carreira de produtor de música independente e entrar para os negócios familiares, presenteando-o generosamente com o cargo de vice-presidente de música e novas mídias da News Corp. Quatro anos mais tarde, em 2000, com apenas 27 anos, ganhou do pai a rede de televisão Star TV e um escritório em Hong Kong. Mais três anos transcorreram e, em novembro de 2003, o pai lhe ofereceu o cargo de diretor executivo da BSkyB, em Londres. Naquele momento, James era o mais jovem executivo a assumir esse posto em uma empresa listada pelo índice FTSE 100, da Bolsa de Valores de Londres. Aos 35, quatro anos depois, em dezembro de 2007, ao mesmo tempo que o velho deslocava seu antigo aliado Les Hinton para Nova York para assumir o Dow Jones e o Wall Street Journal, James foi alçado a presidente da BSkyB e também a presidente executivo da News International, além de passar a responder como diretor executivo por todas as atividades da News Corp na Europa e na Ásia.
Acusações de nepotismo à parte, seus críticos admitem que James é inteligente e dá duro, ainda que vários deles o considerem um sujeito muito, digamos, difícil. Em parte, isso se deve a um traço levemente robótico. Ele é o retrato consumado do homem de negócios: óculos de aro de metal, cabelo bem curto, terno de primeira, frases contundentes, obcecado por sucesso 24 horas por dia, ideias políticas direitistas e linguagem empolada. É notória a adesão de James ao afetado jargão do mundo corporativo: uma pessoa normal trabalha em conjunto com outra, James “está em sinergia”; o comum dos mortais faz planos, ele faz “projeções”; os outros estão sem tempo para cuidar de um assunto, ele “no momento não dispõe de espaço na agenda para atacar essa contingência”.
No fundo, a verdade é que muita gente não gosta dele. Se em seu pai é possível entrever algum charme e mesmo certa humildade (afinal, trata-se de um homem que ergueu o império que dirige), James é visto como um sujeito que se julga no direito a ter tudo e ao qual falta habilidade no trato com as pessoas. “Ele não tem alma”, dizem. “Nenhum senso de humor… É um geek – gosta de falar sobre turbinas de energia eólica e iPads, mas nunca fala de gente… falta calor humano…” O ritmo intenso no trabalho, tão útil nos negócios, o faz parecer neurótico e até paranoico socialmente. Fuma como uma chaminé e fala aos soquinhos. Uma pessoa muito próxima afirma que ele é tão paranoico que guarda uma arma debaixo da cama em Londres, caso o proletariado invada sua casa e tente feri-lo.
James pode ser cáustico. Se o pai consegue disfarçar a raiva quando necessário, ele é conhecido por suas repentinas explosões. Anos atrás, em janeiro de 2002, o velho o levara a um jantar privado com o primeiro-ministro Tony Blair na Downing Street, uma ocasião preciosa para alguém que estava prestes a assumir o posto de diretor executivo da BSkyB e precisaria de contatos políticos. O diário de Alastair Campbell registra que James, numa breve regressão aos tempos rebeldes de jovem esquerdista, impressionou Blair quando, ao discordar da opinião do pai de que os palestinos não tinham nada do que reclamar, disparou: “Eles foram chutados das merdas de suas casas e não tinham a porra de um lugar pra viver.”
Pessoas chegadas a Gordon Brown afirmam que, na época do casamento, as relações dele com o magnata da mídia ainda eram positivas, mas ele tinha dificuldade em se aproximar de James. Rupert Murdoch adotou a linguagem do neoliberalismo para tornar mais palatável sua ambição deliberada de expansão global. Já seu filho acredita de fato nessas ideias e empreende uma cruzada moral em defesa da livre-iniciativa, do livre mercado e de tudo que acelera um coração neoliberal. Qualquer coisa ou pessoa que o atrapalhe precisa ser tirada do caminho. Brown tem de se esforçar para criar algum tipo de ligação com ele ou com boa parte dos colaboradores de Murdoch no Reino Unido. Até sua mulher, Sarah, intercedeu para melhorar o clima, fazendo amizade com o time feminino dos Murdoch: Wendi Deng e Elisabeth, respectivamente a terceira mulher e a segunda filha de Rupert; Kathryn, mulher de James; e Rebekah Brooks, com quem passava tanto tempo que uma pessoa que trabalhava com ela afirma que Sarah esteve muito perto de acreditar que Rebekah fosse mesmo sua amiga.
Mas o vento sopra a favor de Cameron. Por um feliz acaso, sua casa de campo e sua base eleitoral situam-se nesta parte de Oxfordshire, que se tornou uma espécie de Camelot, o novo point da elite conservadora que se esforça em parecer relaxada: uma região rica em cocaína e escondidinho de carne, onde os ricos vestem jeans folgados e camisetas; onde qualquer um que é alguma coisa faz compras no empório Daylesford Organic Foods, conhecido como “nave-mãe” e famoso pelas cestas de piquenique a 100 libras com vodca de ameixa e quatro tipos diferentes de queijo artesanal; onde um primeiro-ministro toma uma cervejinha com uma estrela do rock como Alex James, da banda Blur, que produz queijo em sua fazenda ali perto; um lugar onde Bono é parceiro de Rupert Murdoch em uma partida de bridge, como ocorreu alguns meses atrás.
Elisabeth Murdoch, a filha número 2, e seu marido, Matthew Freud, [3] um empresário milionário, brilhante e pretensioso, vivem ali pertinho. Freud gosta de Cameron – eles se cumprimentam batendo as mãos espalmadas no alto quando se encontram durante a bênção à beira do lago. Foi Freud quem providenciou o jato Gulfstream IV, que no verão passado levou Cameron ao encontro de Murdoch no iate Rosehearty. (Essa reunião transcorreu melhor que a primeira, em 2005, quando Cameron supostamente manifestou seu entusiasmo pelo filme faroeste gay O Segredo de Brokeback Mountain, sem perceber a repulsa do velho à ideia de alguém querer assistir a dois caubóis transando.) Freud está construindo sua própria Xanadu em um antigo e amplo convento transformado em centro de festas e network de poderosos, com uma capela particular, 22 dormitórios, mais de 60 mil metros quadrados de jardins, um presbitério do século XVII convertido em salão para convidados e a casa paroquial em chalé para hóspedes, além de planos de construção de cinema, piscina ao ar livre, piscina coberta, academia, quadra de tênis, uma escola de adestramento para as montarias de Elisabeth, um barracão para os quadriciclos de Matthew e talvez um heliporto. Cameron frequenta as festas que aí ocorrem.
Rebekah e Charlie Brooks vivem na mesma região. O irmão mais velho de Cameron, Alexander, estudou com Charlie no Eton College e os dois costumam sair para passear nos cavalos de Charlie. Rebekah, claro, é amiga de todo mundo. Acompanha James Murdoch em viagens de negócios, joga conversa fora com Elisabeth, cujo aniversário de 40 anos foi comemorado com uma edição especial de 32 páginas do Sun. Rebekah atua como filha, dama de companhia e conspiradora oficial de Rupert Murdoch. E, evidentemente, fez de tudo para se aproximar de Cameron.
Um dos convidados do casamento recorda que, em outubro de 2007, no dia em que o suposto amigo da noiva, o novo primeiro-ministro Gordon Brown, deu um tiro quase fatal em sua credibilidade ao cancelar as eleições gerais que tinha planejado, Rebekah, sem meias palavras, teria dito a Cameron ao telefone: “Pode deixar que eu levo o champanhe.” Outra fonte sugere que, embora aceitem os convites para tomar alguma coisa na casa dela, os Cameron conhecem bem o jogo da anfitriã. Ainda segundo essa fonte, a senhora Cameron disse certa vez: “Tenho meus velhos amigos, tenho meus novos amigos… e tenho Rebekah.”
(Neste momento, em meio ao banquete, Rebekah causa alvoroço ao insistir não apenas em fazer um discurso, mas em usá-lo para intermediar a paz entre o editor do Daily Mail, Paul Dacre, e Matthew Freud. Menciona os valores que Freud doa a projetos assistenciais como uma espécie de contrapeso à opinião do jornalista, segundo o qual o empresário não passa de um ogro endinheirado. “Eu só gostaria que Paul visse o lado certo de Matthew”, explica Rebekah aos convidados. Alguns ficam sem entender o que leva uma mulher a usar seu próprio casamento como cenário para maquinações políticas.)
Em sua luta por conquistar a simpatia de Murdoch, Cameron tem uma outra arma: Andy Coulson. Ao longo dos primeiros dezoito meses de sua liderança no partido, Cameron tentou evitar o jogo dos jornais, concentrando seus esforços de comunicação em boletins transmitidos pela televisão. Como a tática não funcionou, em julho de 2007 ele contratou Coulson como assessor de imprensa. A partir daí, a sorte de Cameron mudou. Coulson tem vários pontos a seu favor: provém da classe operária de Essex e sabe que tipo de mensagem pode ajudar os conservadores a ir além de seu gueto eleitoral de classe média. Além disso, como passou vinte anos trabalhando para tabloides, está apto a transformar essas mensagens em reportagens que o jornal vai divulgar. Mas o mais importante é que ele é próximo de Rebekah, de Murdoch e de tudo aquilo que eles representam.
Obanquete já acabou há um bom tempo. A noite caiu. A maioria dos convidados foi embora em seus Range Rovers, mas alguns se encontram dispersos pelos jardins e uns poucos ainda se divertem no parquinho.
Ali, um grupinho, animado pelo álcool, resolve brincar na roda-gigante. Segurando nas barras de proteção, os intrépidos são lentamente levados para as alturas, de onde podem observar o mundo e as pessoas a seus pés. De repente, e para o espanto de todos, o motor da máquina emperra e a roda-gigante para num baque surdo, deixando-os desamparados na escuridão, expostos aos olhares de todos, balançando as pernas e agitando os braços como besouros que caíram de costas – total e inapelavelmente impotentes.
O brinquedo volta a girar, mas certamente não passa pela cabeça de ninguém que o episódio pudesse minimamente simbolizar o futuro de algum deles. Eles estão abrigados na segurança de seus casulos. Na verdade, alguns deles sabem que não estão apenas em segurança: estão ascendendo ao topo.
James está de olho na joia da coroa. Quer o posto do pai. Desde que assumiu a direção da News Corp na Europa e na Ásia, em dezembro de 2007, ele não esconde a ambição de comandar o conglomerado em todo o globo. “Ele pensa que é a pessoa mais esperta do mundo, acha o pai incapaz de entender o mundo moderno”, diz um dos presentes. A luta por poder não tem sido sutil. Chamou a atenção dos assessores mais próximos do pai em Nova York o fato de James ter emplacado um de seus homens, Beryl Cook, na posição-chave de chefe de recursos humanos no país, com potencial de dar a James a palavra final sobre todas as contratações e indicações futuras; outro sinal de alerta foi a defesa de planos que claramente transferiam o centro de gravidade da News Corp para a Europa e a Ásia. Ele indicara seus próprios diretores financeiros, jurídicos e de comunicações, reduzindo o poder daqueles que detinham os mesmos títulos em Nova York. Em 2008, ele convenceu o conselho a aumentar a participação na Premiere, uma companhia de tevê paga alemã que está prestes a ser rebatizada como Sky Deutschland. Neste momento, está pleiteando mais dinheiro para assumir o controle acionário da Digiturk, a maior empresa de tevê paga da Turquia. “Ele está chamando o pai para a briga.” Mas Murdoch não peitará o desafio de James.
Quem conhece o velho diz que ele contrata pesos-pesados porque não é capaz de administrar confrontos diretos. Alguém se lembra de que, pouco depois de se separar de sua segunda mulher, Anna, ele se recusava a atender seus telefonemas, temendo uma conversa difícil. No fim, ela acabou ligando para o diretor-geral de operações, Chase Carey, e o convenceu a pedir ao marido que atendesse ao telefone. “Isso pra mim é página virada”, alegou o magnata ao mediador.
A recusa de Murdoch em colocar James em seu devido lugar está preocupando seus assessores porque, no fundo, a News Corp é uma empresa familiar e eles já viram como a inabilidade do chefe em administrar problemas domésticos pode resultar em prejuízos para a companhia. Alguns anos antes, instalou-se uma crise quando sua mulher, Wendi Deng, tentou fazer com que suas duas jovens filhas, Grace e Chloe, tivessem assento no conselho do fundo familiar que controla as ações da News Corp, com direito a voto. Os quatro filhos mais velhos de Murdoch resistiram, pois não queriam que o peso de seus votos se diluísse. Murdoch empurrou o problema com a barriga até o ponto em que foi obrigado a pagar 150 milhões de dólares a cada um dos seis filhos – às meninas com Wendi como compensação por não terem conquistado o direito de voto no conselho, e aos quatro outros para não saírem em desvantagem em relação às irmãs. Ele tampouco administrou o conflito entre seu filho mais velho, Lachlan – que se mudara para Nova York como vice-diretor-geral de operações – e vários de seus executivos seniores. O conflito culminou com a demissão de Lachlan, que voltou para a Austrália.
Assim como James, Rebekah acalenta planos ambiciosos. Há meses sabe-se que Murdoch precisa encontrar um novo CEO para sua empresa no Reino Unido. De olho no cargo, Rebekah vem seguindo um curso de administração de empresas de meio período na London School of Economics. Ela está ciente de que Murdoch a adora, porque resolve os problemas dele e se presta a qualquer coisa – não se constrange, é ardilosa e, ao contrário dele próprio, não se furta ao confronto. E Murdoch acaba de dar a Rebekah um lucrativo presente de casamento. O cargo será dela. Em três meses, em setembro de 2009 (vinte anos depois de começar como secretária na redação), ela assumirá o posto de CEO da News International, comandando os quatro jornais de Murdoch no Reino Unido.
Se tudo sair como planejado, Andy Coulson também vai subir. Ele foi um dos que ficaram suspensos na roda-gigante, dividindo um compartimento com a ex-ministra de Cultura, Mídia e Esportes, a trabalhista Tessa Jowell. Não mais que dois anos e meio após ter sido obrigado a se demitir do cargo de editor-chefe do News of the World, [4] ele está cotado para assumir um posto no governo. É verdade que ainda é necessário vencer as eleições e a política é sempre imprevisível, mas tudo indica que, em algum momento no próximo ano, Cameron vai se tornar primeiro-ministro e Coulson será um de seus assessores mais próximos, administrando as comunicações do governo com o país e com o mundo, servindo de elo crucial entre o governo e a rede de Murdoch.
Eles são ricos, poderosos e não têm nada a temer.
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* – Baseado em entrevistas com convidados para o casamento, jornalistas e outros que trabalharam na News Corp; em biografias de Murdoch e de primeiros-ministros do Reino Unido; em provas reveladas pelo Inquérito Leveson, criado após o escândalo de escutas telefônicas.
[1] 1 Em 2011, Rebekah Brooks renunciou ao cargo após acusações de escuta telefônica ilegal. Em setembro de 2015, retomou ao News Corp como diretora da News UK.
[2] A partir de novembro de 2014, a British Sky Broadcasting, BSkyB, passou a ser conhecida como Sky plc.
[3] O casal se divorciou em 2014.
[4] Andy Coulson editou o tabloide News of the World de 2003 a 2007, quando estourou o escândalo dos grampos telefônicos praticados pelos editores de Murdoch. Em seguida foi trabalhar como assessor de imprensa de David Cameron, cargo do qual abriu mão no início de 2011, ainda devido a seu envolvimento com a escuta eletrônica ilegal.
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Trecho do livro Vale-tudo da Notícia, que será lançado no final do mês pela Intrínseca.