autoficção

BOCETA DE PANDORA

Memórias de um jovem professor na Praça da República
Imagem Boceta de pandora

26 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Alguns metros depois da saída do banco o rapaz magro me pediu ajuda. Vinha de Osasco, não conhecia o Centro de São Paulo, queria me explicar o lugar aonde precisava ir, mas até nisso se atrapalhava. Mais que de uma informação trivial, havia nele um vago pedido de atenção, acompanhado de certo desamparo. Eu teria passado reto, acenando com um gesto de pressa justificada. Tinha contas a pagar em vários lugares do Centro e o fim da tarde me esperava com um futebol de salão entre amigos. É verdade, também, que tinha dinheiro vivo para pagá-las, depois de longo período no vermelho. Talvez por isso sentisse as árvores emaranhadas da Praça da República mais envolventes e o quadrilátero de gente movido por uma força que parecia vir do chão. A perspectiva de futebol coroava o dia, que já saía no lucro. Certa sensação artificial de folga contribuiu para devolver minha atenção a ele.

Me contou que estava ali a mando do pai, que o incumbira de uma missão meio obscura e cercada de responsabilidade. Conforme as instruções escritas no pedaço de papel que me mostrava, deveria se dirigir ao prédio da Recebedoria de Apólices Federal, procurar determinado guichê e entregar um documento (que guardava na bolsa atada à cintura) a certo senhor de nome Silas. Fez alusão confusa a expectativa de recompensa – o senhor Silas teria prometido, sempre através do pai, retribuir com um valor não determinado, mas que esperava que fosse, dizia singelamente, “talvez um relógio”.

Enquanto eu apreciava seu empenho ingênuo naquela transação nebulosa que não deixava de despertar minha curiosidade, disse-lhe que faltava no papel a informação principal, a do endereço em questão, sem a qual eu não tinha nada a fazer para ajudá-lo. Aliás, tudo o que não me interessava, naquele momento, era um problema prático miúdo, e não meu. Já ia seguindo adiante quando ele voltou a insistir com discreta firmeza, fazendo ver que a minha esmola de atenção tinha se tornado indispensável.

Em meio ao fluxo e ao contrafluxo da calçada, bem na frente da charutaria que servia de caixa a um bar, a conversa empatada entre um professor ocasionalmente disponível e um suburbano perdido começava, de todo modo, a chamar a atenção de outros, no mínimo por travar o caminho dos passantes. Entre esses, um almofadinha de escritório em trânsito, maleta 007 na mão, nos fez o favor de parar, perguntando se precisávamos de ajuda, no exato momento em que eu me virava para ir embora. Era o tipo prontamente identificável do prático prestativo, cujo cartão de visita é tratar o mundo como uma espécie de escritório, e cada cidadão como o cliente da vez.

Parecia pessoa talhada para informar de pronto onde ficava a Recebedoria de Apólices Federal, mas esclareceu que havia mais de uma, e que para saber ao certo era preciso verificar a suposta apólice, que foi logo tratando, com intimidade financeira, como o papel. O papel continua-va como o trunfo guardado na pochete rústica do rapaz, sob a autoridade do pai, e só mostrável, pelo jeito, ao senhor Silas. Foi preciso que o homem da maleta explicasse ao interessado, com uma paciência endossada por mim, que somente a indicação exata da natureza do documento e a definição do órgão emitente tornariam viável qualquer tentativa de chegar ao guichê do senhor Silas. Já se comunicando mais comigo do que com o outro, desfiava títulos da dívida pública, debêntures, obrigações mercantis, como se me interessassem aquelas expertises.

Foi com relutância que o nosso capiau se dispôs a profanar o recesso da capanga, como chamava a bolsinha de couro, e dela retirar o título, que entregou ao homem dos escritórios. Este, investido de sua prontidão de despachante, examinou com neutralidade inicial o que tinha nas mãos, logo transformada num anúncio cheio de gravidade e malícia: “Bem, senhores, o que temos aqui não é exatamente uma apólice.”

Dirigindo-se ao desavisado portador, recomendou com segurança a precaução de não confiar o bilhete a ninguém. “Guarde só com você”, insistiu. “Mas ainda é preciso conferir que tipo de importância pode ter ou não”, acrescentou, acenando na direção da casa lotérica situada duas portas depois da charutaria. Tomando a iniciativa do processo de verificação, me passou uma caneta, acho que com uma piscada quase imperceptível, e colando o olho no bilhete já entregue às mãos inseguras do dono, ditou para mim o número que se lia ali. Anotei automaticamente de próprio punho o que ouvia, um pouco aturdido com a virada dos acontecimentos, usando para isso o verso do grande envelope em que carregava minhas contas e meus recursos financeiros, mais o volumoso livro que acabara de comprar.

Ato contínuo, aceitei ir junto com o 007 dos escritórios até a loteria vizinha, recomendando ao rapaz de Osasco que esperasse na calçada por um instante, enquanto tentávamos matar a charada. A loja tinha, na parede do lado direito, o tradicional bloco folheável de páginas grandes, do tamanho de um jornal, das quais pendiam os resultados dos últimos concursos. Não foi difícil localizar, na penúltima ou antepenúltima delas, conferindo com a minha anotação, os números sorteados do Concurso 1 498, em que a cédula 16 706 figurava, nítida, como ganhadora do segundo prêmio. “Não é de deixar o cara milionário, mas o moço está com a mão num dinheiro que não é pra ninguém botar defeito”, ouvi-o dizer.

Quem se encarregou de dar a notícia ao felizardo foi o próprio campeão das agências, não sem alguns cuidados prévios. Perguntou se o rapaz por acaso sofria do coração, se estava preparado para receber uma notícia forte, mesmo que boa, e pediu que avisasse no caso de sentir urgência de tomar um copo d’água – ou uma pinga – no bar da frente, depois do susto. Revelou então que a apólice não era apólice, ao contrário do que tudo dava a entender, incluindo nisso o interessado senhor Silas, agora suspeito de aproveitamento da ingenuidade alheia, e que se tratava na verdade de um bilhete premiado de loteria, com dinheiro a receber, e consequente mudança de planos no rumo da tarde.

Nesse ponto minha memória muda de velocidade, como se desacelerasse o filme daqueles idos de março de 1978 para conferir as feições do moço desavisado de cuja cara o sangue foge de repente, como se o abandonasse à beira do desmaio, para retornar numa onda de rubor, por um momento, refluindo depois para um tom descorado que passava, se não quero me enganar, por um leve verde escarninho. As mãos trêmulas, para quem soubesse notar, a boca engolindo um gemido mal sufocado, pareciam ter sido traídas por uma avalanche maior do que o seu mundo podia suportar, como se bombas de dinheiro caíssem do céu, violentando aquela capanguinha da qual ele viera singelamente armado. Numa associação livre, mas direcionada pelo cacoete de leitor de Walter Benjamin, visualizei mentalmente recrutas que só conheciam bondes e carroças jogados de repente, como na Primeira Guerra Mundial, em campos explosivos no meio dos quais o céu lhes caía sobre as cabeças.

“Não fala isso, moço.” Ele parecia precisar de um tempo para respirar a guinada, o cancelamento dos seus penhores, o descarrilamento da modéstia investida no cumprimento das ordens do pai. Agora era a sorte que apontava para ele, quase contra ele, vinda do nada, como a mira de um revólver.

Quando se refez um pouco, e o vaivém dos transeuntes em volta praticamente o exigia, disse, lá do seu jeito, que precisava de ajuda, mais ainda do que antes, que queria que o acompanhássemos na empreitada de destrinchar os meandros do recebimento do prêmio, dando a entender que saberia recompensar esse auxílio com o devido reconhecimento em dinheiro. Apressei-me a sinalizar, com um gesto apenas insinuado, mas moralmente superior, que não esperava nenhuma recompensa, no que fui imitado por meu par, o diligente despachante. Lá comigo já considerava a perspectiva de adiar meus pagamentos da tarde, enredado naquela narrativa cujas peripécias apenas começava a entrever, e que não queria me furtar a acompanhar de perto. A cena me atraía: o moço perturbado pelo raio da sorte, e o outro, um funcionário de firma, a se descobrir ainda o grau de intimidade que mantinha com a pequena e a grande pilantragem.

O pedido estava feito, a carta lançada. Atendê-lo significava escapar ao meu dever, deixar de resolver de imediato inúmeras pendências, pagar talvez, mais adiante, juros de mora sobre atrasos da dívida, perder outra tarde em perambulações por agências, caixas, repartições. Nada grave a ponto de cercear o desejo de saber a continuação da história e o seu desfecho. Incomodado com as proporções que a conversa tomava no meio daquele volume de gente passando, propus que atravessássemos a rua para pensar o que fazer com mais liberdade, na calçada interna à praça, perto dos bancos do jardim.

Já do outro lado, o líder pragmático do grupo declarou que acompanharia com prazer a expedição rumo à agência da Caixa Econômica Federal, onde se pagavam os prêmios lotéricos dessa monta. Só precisava dar antes uma telefonada para o escritório justificando – disse-o sem maiores pudores, rindo da própria mentira com afetada cumplicidade – que ia ter que acompanhar um parente caipira para ajudá-lo a tirar um documento. Contendo a minha antipatia pela sua figura de sabichão, misturada com uma desconfiança crescente quanto a suas intenções, mais o desejo obscuro de rivalizar em importância com a sua pessoa, declarei que topava a parada.

Foi a vez de nosso protegido retornar aos fundamentos psicológicos do mundo tradicional de onde provinha, e a seu mote preferido. Lembrou que o pai alertava sempre para o perigo de se confiar em pessoas sem ter garantias de quem são, quando se está na cidade grande. Com respeito, pedia uma demonstração, da nossa parte, de que éramos pessoas com a vida posta, senhores das nossas próprias economias. Demorei um pouco a entender o raciocínio, que me pareceu cabuloso. A verdade, no entanto, é que, quer queira, quer não, o desprotegido que eu conhecera havia menos de meia hora, incapaz de chegar a qualquer parte, já se tornara, nesse pouco tempo, o pequeno proprietário de um bilhete premiado, com direito a suas garantias de segurança.

O moço do escritório, esse sim, entendeu sem dificuldade a mensagem. Dizendo que trabalhava havia cinco anos no ramo da representação comercial, explicou que circulava diariamente pelas muitas firmas e bancos da cidade transportando valores. Agora mesmo, trazia em espécie uma respeitável quantia a ser depositada, como atestavam os dois bolsos volumosos das calças, que destacou batendo neles a mão. Os olhares se voltaram então para mim, na expectativa de que eu completasse o seleto clube dos possuidores declarados, já que, diante de um ganhador de bilhete premiado e de um portador de capitais de giro, era como se eu tivesse que dizer a que vinha.

Foi só nessa hora que me lembrei do que tinha esquecido todo esse tempo: que eu, que não costumava ter economias, nesse dia estava cheio delas, graças a circunstâncias excepcionais que fizeram chover na minha horta. Na verdade, o que me trouxera ao Centro da cidade fora um pagamento de direitos autorais relativos a um lote de 2 mil exemplares de minha primeira publicação, um livro de aturada pesquisa sobre os primórdios da vida moderna em São Paulo, lançado no fim do ano anterior e comprado por uma secretaria de estado para distribuição em escolas e bibliotecas. A transação resultara num respeitável cheque, recolhido por mim na loja de minha livraria editora, no início daquela mesma tarde. A quantia não ia nem esquentar na conta, pois, como sabemos, teria que escoar imediatamente pelo ralo do pagamento de prestações atrasadas, carteira hipotecária da casa, mensalidades escolares etc. Por isso mesmo, tratara de sacá-la em dinheiro na agência bancária da República e saíra em peregrinação pecuniária pelo Centro, onde nos encontramos.

Ainda na livraria, e antes de partir para o banco, resolvera fazer uma concessão ao princípio de prazer: entre as muitas tentações existentes na loja da editora, com todos os seus reluzentes livros importados, me permiti abrir uma conta e me regalei com os Écrits – os Escritos – de Jacques Lacan, cujo artigo famoso sobre “a etapa do espelho na formação do Eu” eu vinha namorando e querendo cotejar com o famigerado conto “O espelho”, de Machado de Assis, cujos enigmas me atazanavam. Algo me dizia que a possível relação de um espelho com o outro ia render muito. Ao sair da livraria, com o envelope recheado de contas a pagar, um cheque nominal para contrabalançar, e o tijolo livresco de 900 páginas na mão, fui saudado pelo dono da editora, o venerável e espalhafatoso professor Vera Cruz, ex-frei Benvindo, que ao me ver alardeou paternal, cúmplice, jubiloso: Que bolada, hein, meu jovem? Sorte grande!

Foi passar pelo banco, sacar o dinheiro, e iniciar a caminhada de não mais do que 20 metros de calçada, que me conduziu ao ponto em que estamos, e em que fui convidado a demonstrar a credibilidade da minha situação financeira, como prova pró-forma de minha própria credibilidade. Não havia problema quanto a isso: dado que, por um feliz acaso, dinheiro é o que não me faltava naquele momento de exceção, tranquilizei-os apresentando-me como professor e autor de livro, graças a que eu podia me declarar o confiável portador, também, de um maço de notas contido em meu envelope, não só recém-retiradas do banco como recém-saídas, ainda frescas de tinta, da Casa da Moeda. Fiz menção, cheia de orgulho ferido, de mostrar a maçaroca do dinheiro, mas o gesto de um, mais a placidez agora estabilizada do outro, me fizeram ver que não era necessário. Quase lamentei não poder exibir, convertido em moeda corrente por uma espécie de câmbio moral, aquele bem inapreciável que só eu sabia possuir: a confiabilidade íntima, incorruptível, irredutível.

Normalizada, pois, a situação institucional do trio, e equiparados os termos da equação, o rapaz da maleta 007 retirou-se para telefonar de um orelhão para seu escritório, avisando da mudança de rumos, enquanto eu e o matuto angelical nos sentávamos num banco de jardim, na Praça da República.

Não me lembro direito do que falamos nesse deslocado intermezzo bucólico, mas eram variações sobre o pai, seus conselhos, suas expectativas. A mais irrealizável delas, até então, era a de que o filho estudasse. Tudo mudava agora – é o que ele parecia me perguntar, antes que afirmar. Aquilo tocava numa corda sensível ao educador em mim. Num assomo de abnegação, cheguei a pensar em ir qualquer dia a Osasco, conversar com aquele senhor sobre as melhores opções para o filho. Mas o acesso de generosidade também me incomodava, machucando algum lugar da consciência com uma pontada traiçoeira. Por um acaso, que encontrava agora sua ocasião oportuna, eu vinha dando um curso sobre Machado de Assis, enredado na sua lógica insidiosa, bebida nos moralistas franceses do século xvii e mordida por uma corrosão psicanalítica avant la lettre, segundo a qual os impulsos altruístas escondem motivações interesseiras, sibilinamente egoístas. Estaria eu, com a cobertura excessiva e quase insensata dada ao pobre ganhador na loteria, querendo participar inconscientemente do prêmio, fosse abocanhando algum por fora, lustrando nas águas da filantropia, posando do alto para mim mesmo? Fosse qual fosse a resposta, era como se eu planasse sobre um campo de provas em que o testado começava a ser eu (qual o preço e qual o lucro, material ou imaterial, da curiosidade e do bom mocismo?), envolvido numa insana queda de braço interior com o Bruxo (“a coisa é divertida e vale a pena”, como diz o delírio de Brás Cubas), na qual se tratava de provar, contra a própria natureza humana, se necessário, que não queria tirar vantagem da aventura em que me meti.

Ao voltar do telefonema, o nosso representante comercial anunciou que já estava tudo certo e combinado: o dono do bilhete seria levado até o escritório da firma, onde poderia esperar descansadamente o andamento das providências, enquanto eu e ele, para maior praticidade, iríamos até a Caixa receber o prêmio. Aquela virada no procedimento normal, sugerindo que ele tentava se acumpliciar comigo, ou me usar para enganar o outro, me revolveu o estômago. Procurando não perder o controle, no entanto, e me decidindo a dobrá-lo na prática, eu disse o óbvio – que não havia razão alguma para que o legítimo beneficiário da transação, o rapaz sorteado, não nos acompanhasse em todo o andamento da operação e recebesse prontamente, no ato final, o valor transparente a que tinha direito. Numa guerra em duas frentes, eu me via no papel de defensor dos fracos e dos enganados, ao mesmo tempo em que travava uma batalha surda pelo sentido desinteressado dos meus atos, sob a mira fuzilante de Machado.

O despachante pareceu não se deixar afetar pela minha objeção, enquanto o rapaz pobre revelou-se de repente de uma humildade mais que franciscana: disse estar cansado de tanto andar o dia todo batendo perna pela cidade, vindo de longe como veio, e com os pés em brasa (ele disse, mais exatamente, “meus pés já tão até fermentando” – imitando a formigante sensação com um movimento dos dedos das duas mãos se abrindo e fechando num movimento latejante). Preferia ficar quieto num canto, à espera de que fizéssemos o trabalho limpo por ele. Santa, tonta inocência!, remordi num mantra desconcertado, sabendo que agora ele me deixava sozinho no papel de seu representante contra o aproveitador emergente.

Não bastasse, deu mais uma demonstração de que depositava todas as fichas em mim. Pediu, com uma simplicidade quase pungente, que o bilhete premiado ficasse comigo, com ninguém mais do que comigo, e que eu o guardasse, para sua tranquilidade maior, junto com as minhas economias, com o mesmo apreço que tinha por elas. Com uma ponta de satisfação, constatei que ele sacava o fato de que, na pequena máquina política que ali se engrenava, o dono da maleta era a peça eficiente de que precisávamos para nos desembrulharmos na prática, mas que o seu verdadeiro aliado era eu.

Então ele fez um pedido mais radical: que eu guardasse o bilhete, junto com minhas economias, na própria capanguinha que lhe dera o pai, agora delegada a mim para que eu ficasse com ela durante a operação bancária. A proposta não deixava de ser insólita, e eu pedi que repetisse o que dissera. Tentava distinguir algo de capcioso naquela oferta que era também um pedido e um voto de confiança. Na transação eu, sem me desfazer de nada, deveria juntar aquele papel aos meus, e me tornar o depositário plenipotenciário do butim da tarde, arcando apenas com a dívida moral, da qual me considerava, no entanto, o senhor absoluto, inquestionável e insuspeito. Foi a esse apelo que cedi, tapando os ouvidos ao cochicho machadiano que insistia em me perseguir, mais a gargalhada abafada que se ouvia remota, como um eco de além-túmulo.

Na verdade prática, tratava-se de perceber também que estávamos, fazia já um tempo, dando sopa com dinheiro vivo e bilhete premiado em plena Praça da República. Vai saber se já campanados, àquela altura da tarde avançada, depois de tanta maquinação, e por quem. As árvores emaranhadas, altas, não podiam, nem perdiam por esperar. A um sinal tácito emitido não se sabe por qual dos três, agora sentados lado a lado e unidos instintivamente contra o mundo, disparamos a operação passagem de bastão, efetuada com a complexidade de uma jogada veloz de futebol americano: o rapaz de Osasco passou a capanga contendo o bilhete premiado para o representante comercial sentado no meio do banco, que a abriu rapidamente para aí agregar o dinheiro que eu, à sua esquerda, saquei do meu envelope e passei a seus dedos prestos que vertiginosamente concluíram o lance fazendo desaparecer o dinheiro dentro dela, instantaneamente fechada pelo zíper canhestro complementado por um hermético nó cego dado em dois barbantes de segurança e sofregamente entregue a mim. Foi com um riso nervoso e logo contido, da parte dele, mas triunfante sobre o perigo ao redor, que eu recebi e me tornei o portador daquela extraordinária boceta de Pandora, exorbitando agora em valores plenos e potenciais.

Mal refeitos do sobressalto, recombinamos sem mais delongas os passos seguintes. O simplório seria levado o quanto antes ao escritório do facilitador ladino, onde aguardaria, segundo sua vontade, a conclusão dos trâmites, enquanto eu esperaria no banco da praça para ir até a Caixa Econômica com o outro, uma vez este retornado, e sempre vigilante para que nem o mais mínimo escorregão ético fosse perpetrado no decurso da transação. Definidas explícita ou implicitamente essas linhas gerais, eles partiram e eu me vi, ali, com a preciosa capanga guardada dentro do meu inseparável envelope, coabitando com os boletos de pagamentos adiados, tudo encimado no meu colo pelo ostentoso volume dos escritos de Jacques Lacan.

Foi quando me decidi a aproveitar o intervalo, mesmo nas circunstâncias mais improváveis, para não desperdiçar a chance: afinal, o texto sobre a “etapa do espelho como formadora da função do Eu” não passava de oito páginas em francês abarrocado, é verdade, mas prontas para serem devoradas pela excitação curiosa que eu vinha alimentando havia tempos sobre a charada machadiana e sua provável contrapartida psicanalítica. A Praça da República foi se desmanchando num burburinho longínquo em torno de mim enquanto eu caía de boca naquela esquisita maquinação teórica que, passando pela referência à inteligência instrumental dos chimpanzés e a experimentos sobre a maturação sexual dos pombos, anunciava que o humano é o ser vivo que nasce tecnicamente feto, e que não subsistiria sem a sua imagem devolvida em espelho pela existência e pela ação do outro. Ao espelho a criança descobre, entre 6 meses e 1 ano e meio, que, diferente de todas as outras coisas, ali está, diante dela, o cineminha de si repetindo-lhe os movimentos, respondendo a eles sobre a superfície impalpável que ela não consegue pegar, que ela mal sabe que é a figuração dela mesma, oferecendo-se como a prefiguração jubilosa de uma promessa de ser, sem a qual não haverá depois um eu. Eu assombrado, por isso mesmo, pela dependência de seu reconhecimento pelo outro, pela fome de ter sua imagem devolvida, e para quem algum espelho imaginário em que se refletir permanecerá como a muleta e o amuleto da alma, seu complemento ortopédico.

Tudo transcorria aos arrancos dessa provocante fabulação especulativa, dessa nova teoria da alma fundada no espelho, como a do próprio Bruxo, desentranhada em meio aos passantes, aos ônibus e aos automóveis, no recesso exposto daquele distante banco de jardim que não existe mais. Foi quando o Autor começou a enveredar por caminhos mais incisivos e sarcásticos, que me pareceram irritantes, senão infames. Em sua peroração, digna já agora de um sermão cáustico, deblaterava contra as ilusões a que somos estruturalmente induzidos pelo jogo de espelhos que nos constitui, e sua cegueira correspondente. Deplorava, conjuntamente, as projeções piedosas dos bons samaritanos e toda a sua legião de bem-intencionados, em que se incluem filantropos, pedagogos, reformadores e demais iludidos.

Tomei aquilo como uma ofensa pessoal, um insulto a meu esforço meritório (que eu nem estava disposto a ostentar) e a meu sacrifício em detrimento dos proveitos da tarde. Sem me deixar abater, considerei mesmo assim que a leitura tinha rendido surpreendentemente, pois, para além das melhores expectativas, o texto cabeludo estava lido antes mesmo que o meu coadjuvante lotérico tivesse retornado. Embriagado ainda pelas provocações fascinantes da leitura, por uma curiosidade que continuava insatisfeita, e pelas possibilidades abertas por uma duração que parecia miraculosamente não se esgotar, comecei a dar uma sapeada no escrito de abertura do livro, o emblemático – com o perdão da palavra – “Seminário sobre ‘A carta roubada’” (que alguns preferem nuançar, com mais precisão, dizendo furtada).

Dessa vez, tratava-se de uma consideração torturante, de altas consequências psicanalíticas, sobre o inconsciente lugar da carta escondida, no conto detetivesco de Edgar Allan Poe, carta que se torna invisível de tão evidente. O escrutínio exaustivo da investigação policial não consegue vê-la, de tão na cara o lugar e o modo casual com que está exposta. A intrincada dissertação lacaniana, apenas assuntada por mim, ia longe, a perder de vista. Alguns pingos de chuva ameaçavam daqui e dali, a demora me pareceu pela primeira vez colocar em risco o futebol, e eu comecei a me sentir, afinal, prejudicado, além de um pouco ridículo. Ademais, aquela história, sugerida pelo texto, de haver um algo qualquer morando no ponto cego que fica exatamente debaixo do seu nariz não contribuía em nada para a paz de espírito, nublada pela sensação incômoda de uma dúvida sem objeto. Diferentemente da excitação anterior da leitura, a espera agora se arrastava, agravada por uma vaga sensação de mal-estar.

De repente ouvi um zumbido forte que parecia me perfurar a cabeça – não dava pra saber se vindo de dentro ou de fora dela. Era como um tiro à queima-roupa, mas disparava na verdade um alarme geral, a sirene que fazia da Praça da República um campo minado, como se desse início às explosões de uma guerra mundial íntima. As piores granadas, dirá o poeta, são feitas de nadas. Tateando por dentro o envelope, tonto e quase às escuras, senti a capanga como uma bomba prestes a explodir. Queria desarmá-la com a urgência do desespero e da esperança, mas o nó se mostrava inviolável, resistindo ao meu esforço descontrolado de arrancá-lo com os dentes. Atravessei a rua sem olhar para os lados, cego aos automóveis, em direção à charutaria, pedindo o socorro de um canivete que, nas minhas mãos tremendas, estripasse a bolsa de couro. Na real, cortei nervosamente o nó ao meio e abri o zíper, vendo saltar de dentro, como de uma barriga aberta, e dobrada várias vezes à guisa de enchimento – suprema ninharia inominável, alegoria atroz sacada do acaso –, a edição grossa em papel-jornal, entrecortada de capas e espadas, d’Os Três Mosqueteiros em versão para gibi.

O cara que eu vejo, então, e que seria eu, zanzando como um hamster, retrocede sobre seus passos, na esperança de revertê-los. Volta ao banco como se pudesse recorrer ao caixa e receber de novo o dinheiro. Olhando em torno, tenta surpreender seus algozes, como se estes voltassem também ao ponto de partida para fisgar a próxima vítima em situação de sacar uma quantia apreciável. Na falta deles – que já ganharam o dia –, dirige-se ao segurança do banco, a pretexto de alertá-lo sobre a ação de impostores agindo na área. De fato, busca o primeiro ouvido no qual derramar a narrativa atônita do passa-moleque, a peça impagável, a apropriação indébita à procura de um autor, o suborno moral pela culatra. Pela primeira vez percebe que não há como contá-la, nem haverá tão cedo, muito longe ele mesmo de saber como desfiá-la. A tosca ilusão de queixar-se ao guarda provoca efeito contrário: a alusão a ladrões cheios de lábia, que surpreendem incautos, ali mesmo, observando seus saques, e que começam a agir disfarçados em meio à fila de clientes, causa incômodo visível e é interpretada, a julgar pelos movimentos impacientes do segurança, como um despiste suspeito daquilo mesmo que pretende denunciar. Pressente que está condenado a chegar muito cedo ou muito atrasado em todos os lances, sempre fora do compasso.Na rua, dirige-se a dois soldados da Polícia Militar, com palavras atrapalhadas que só fazem agravar a imagem do tolo retardatário que caiu no manjado conto do bilhete de loteria. Como explicar, no entanto, a desavisados não leitores de Lacan, e ao mundo, que o imaginário, o simbólico e o real foram trapaceados num transpasse de mágica? Um dos policiais, interrompendo a história que girava já sem saber para onde ir, foi taxativo: O dinheiro vai ser difícil você ver de volta, mas a gente tem um mocó ali na São João, vê se vê eles por aí e dá o sinal, que a gente estupora eles lá.Acusa o golpe baixo em alguma víscera, recua cambaleante diante promessa sinistra, câmbio negro do porão hediondo que dali se avizinha. Atravessa as árvores da praça e delira ver na banca de jornal, já circulando, a manchete garrafal de Notícias Populares em edição extraordinária. Para ser fiel à escala teria que grafá-la em caixa alta, mas teme que um passante qualquer pouse os olhos nela, por isso sussurra em itálico, de longe, míope, escondendo-a de si mesmo: caipira passa a perna em otário de luxo. caipira passa a perna em otário de luxo. Foda-se: caipira passa a perna em otário de luxo. Para piorar, é um verso alexandrino, com dois hemistíquios perfeitos, mais perfeitos que “Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac”. Para na porta da livraria da editora, mendigando acolhida, mas estaca sem entrar. Ainda bimbalham lá dentro os ecos festivos dos carrilhões cantantes: Que bolada, hein, meu jovem? Sorte grande! Se arrasta não sabe como, de Fusca, até a quadra em que o futebol já vai adiantado. Tenta chamar alguém até a linha lateral, para notificar o acontecido. A bola compacta, no chão de concreto, não para de correr e bater, sozinha, nos pés de marmanjos deslizantes. Percebe que está num ponto invisível aos que se movimentam dentro da bolha do jogo. Seu compadre Zenon, futebolista e filósofo, que o vê de relance, diz impaciente, sem descuidar da partida, que ele se troque logo e entre em quadra, revezando com alguém. Tenta explicar que não pode, sem fazer nexo. Diz que saquearam sua alma. Sabe que a frase está fadada a murchar em revoluteios como uma bexiga louca. Zenon desiste dele e volta a correr.Já em casa, espera que a roda giratória vá desacelerando um pouco, que alguma coisa estacione em algum lugar, que haja esse lugar. Tenta esquecer, tenta lembrar. Está perdido em ruminações dolorosas, sentindo o rombo da conta doméstica e a bancarrota do investimento psíquico, dentro embora de sua condição remediável. O telefone toca e ele, com a criança no joelho esquerdo, atende a mulher que liga para saber se está tudo bem em casa. Faz um relato que soa tanto mais desencontrado quanto mais resumido, sem esconder o resultado adverso. Ouve a voz dela dizer, inteira: Você tem a minha solidariedade, mas saiba que se portou como um verdadeiro idiota. Escuta o telefone ser desligado com firmeza, mas sem rispidez, e fica só com o rigor daquela declaração em duas metades perfeitas, melão cortado ao meio, como dois seios. Ela não esconderá mais tarde o desagrado silencioso quando ele se transformar no desenvolto narrador de salão que não desperdiça oportunidade de extrair dividendos autorais de sua aventura perante audiências diversas, narrando a história com luxo de detalhes e saltando habilmente do malogro para o brilhareco.

Levará muitos anos até se deparar em alguns contos de Italo Svevo, ou em Il Bidone, de Fellini, com a estrutura elementar do golpe, envolvendo sempre três mosqueteiros dos quais um não sabe que os outros dois agem juntos. Svevo chegará a dizer que o tipo do pequeno literato – que é a vítima em “Uma troça bem-sucedida” – é o mais fácil de ludibriar, porque seu mundo é feito de observações exatas que ele não resiste a deformar com ideias, conceitos e fantasias. Habituado a “apagar a frase da qual se arrependeu”, aceita as rasuras com as quais os outros vão modificando os fatos que estão se passando a seus olhos, de maneira a eliminar tudo o que não esteja conforme ao “texto” que escreve mentalmente, enquanto atua. Reconhece a verdade do dito, dizendo vero e bene trovato. Verdade ou não, o fato é que nunca viu, antes ou depois, ator como aquele que lhe roubou a cena da tarde distante, secundado pelo seu escada de maleta. Reprisa sua atuação mil vezes e não encontra erro, deslize de tom, nuança, palavra – a aura intacta, mesmo quando o script poderia levá-lo a descambar para o duvidoso e o inverossímil. Exercita olhá-lo pela lente invertida: vislumbra de repente que aquele cara não tem pai – nunca teve pai –, que seu personagem se move no fio de navalha em cima dessa falha, de onde extrai a secreta pungência.Atuação à parte, alguém há de ter concebido e rascunhado aquela versão invertida do golpe, em que o falso bilhete premiado não é vendido ao otário mas dado a ele, cobrado na moeda da confiança e recobrado com lucro pelo estratagema da capanguinha. Feitas as contas, é levado a constatar que tudo não passou de uma transferência de direitos autorais para direitos autorais, em tempo real, operação minuciosa que, olhada a posteriori, pode ser vista como uma aula cirúrgica de anatomia psíquica. Pelo espelho da alma, sabendo disso ou não, mobilizaram seus mais impalpáveis valores e os converteram no maço de dinheiro que trazia, que o induziram a explicitar, e que extraíram como o rim de um sequestrado, com inegável elegância. Um atraindo para si todo o foco da suspeita, enquanto o outro ficava fora da sombra da dúvida. Experimenta avaliar se a psicanálise que não fará, mas que já está feita à revelia, custaria mais caro ou mais barato do que a trapaça na Praça da República.Não faz muito tempo, buscando num capítulo de Dom Casmurro alguma coisa que não sabia bem o que era, topou com a sentença: Não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ninguém tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança no fundo, depois de ter derramado os males pelo mundo. Como na prodigiosa caixinha do mito, em alguma parte há de ela ficar, diz o Bruxo, falando da esperança.É o que ele sente, no entanto, da boceta fatídica que lhe ficou rodando na memória intacta, sua história cada vez mais nítida ao longo das décadas, em vez de ir se apagando. Décadas durante as quais, por sinal, começou a prestar atenção, em certo canto do Centro da cidade, num relógio analógico em que se podia mirar o passar do tempo imóvel: o cilindro de carne prensada girando no espeto vertical de um bar, cravado em seu nicho metálico, na calçada de uma esquina bem junto da Estação da Luz – perfeito, seboso, arredondado e alisado sempre pelo facão do vendedor a cada lasca que tirava. Por uma espécie de superstição lúdica, fez daquele assado giratório o axis mundi íntimo, o índice secreto de que o mundo segue no seu eixo, incólume, enquanto vai sendo comido, inesgotável, pelo tempo.Agora, no entanto, sente que não é mais tempo de continuar se consumindo no mito. De golpe, passou a ter ganas de escrever relatos em que alguém se faz passar por ele, por eu, por você, por ninguém outro. Começa a assumir que a literatura tem algo de um imenso conto do vicário. Acha que demorou. Quer gravar a história em livro, livrar-se dela. Sente que a coisa começa a fazer efeito: recentemente, o cilindro oloroso e imutável, que havia quarenta anos girava no mesmo lugar, se transferiu para outro bar, deslocado da entrada da Estação, mais distante (dizem que o homem do espeto se desentendeu com o proprietário). Outros estabelecimentos o imitam e se multiplicam. Ostentam a placa “Churrasco grego”.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Músico, compositor, ensaísta e professor de literatura na USP, é autor de "Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil", pela Companhia das Letras