questões literárias
Alejandro Chacoff Nov 2016 23h04
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Em 2008, durante um festival literário na Jamaica, o célebre poeta caribenho Derek Walcott fez uma pausa antes de ler o último poema do dia. Com a voz já um pouco rouca e gasta, hesitante, ele disse à plateia que havia pensado muito se deveria declamar os versos que viriam a seguir. Era a primeira vez em que leria aquele texto em público. “Acho que vocês reconhecerão nele o senhor Naipaul”, revelou Walcott, arrancando alguns risinhos dos ouvintes. “Vou ser maldoso.”
O poema nunca foi publicado, mas arquivos de áudio circulam pela internet. Em sua voz hipnótica, Walcott, famoso por Omeros, um poema épico inspirado na Ilíada, presta-se a um objetivo bem menos edificante: o de destruir seu rival literário. “Eu fui mordido, devo ter cuidado e evitar a infecção, pois senão estarei tão morto quanto Naipaul e a sua ficção.” Esse verso de abertura é dos mais gentis. Nos quase cinco minutos de narração que se seguem, Walcott ataca Naipaul por todos os flancos.
“Em sua barba cabeluda, esconde-se sempre uma expressão de desprezo”, continua Walcott. “Leia os seus últimos livros, você verá o que digo, é uma letargia só.” Os protagonistas, nas histórias de seu rival, “não têm a força” dos personagens de D. H. Lawrence ou de Evelyn Waugh, ele diz. A certa altura, baseando-se em supostas visitas de Naipaul a prostíbulos no Caribe, Walcott abre mão do seu lirismo habitual. “Ele não gosta de homens pretos”, acusa o poeta, “mas adora uma boceta preta.” O verso é lido rapidamente. O público continua em silêncio, não reage.
Misto de minibiografia não autorizada e assassinato de reputação, “O Mangusto” é um belo poema. Os versos são engraçados e maldosos, mas não gratuitos. Todos os ataques se sustentam em um ponto narrativo comum, um recalque central, por assim dizer. O desdém de Naipaul por sua própria origem geográfica é o que mais ofende a Walcott, um poeta exuberante conhecido por celebrar a exuberância de sua terra. É dessa angústia essencial que brotam as maiores ofensas. Walcott reclama que Naipaul tem o orgulho de não estar “ligado a nada, nenhuma raça ou nação”, como se fosse “um defunto orgulhoso da própria decomposição”.
A crítica de Walcott se torna um pouco mais compreensível quando se sabe que ele e Naipaul, dois dos maiores autores de língua inglesa do século XX, vieram do mesmo pedaço do mundo. Hoje com 86 anos, o poeta nasceu na ilha de Santa Lúcia, mas mudou-se para Trinidad aos 23 anos. Naipaul, dois anos mais jovem, nasceu, passou a infância e a adolescência em Trinidad. A ilha caribenha, localizada alguns poucos quilômetros ao norte da Venezuela, é uma ex-colônia britânica, “um pontinho no mapa”, como Naipaul chegou a caracterizá-la, sem muito afeto.
Nem por isso Trinidad deixa de ter algum poder metafórico. A ilha é um microcosmo do que se entende por periferia ou – num eufemismo mais popular – “países do Sul”. É o território caribenho com o maior número de colonizadores diferentes – antes da Inglaterra, foi dominado por espanhóis, franceses e holandeses –, algo que por sua vez contribuiu para que se tornasse um lugar de impressionante diversidade étnica e cultural – lá vivem comunidades indianas, africanas, chinesas, anglo-saxãs, francesas e portuguesas. Grande parte desses grupos, porém, chegou ao país em condições miseráveis, enquanto outros, após o fim da escravidão, pouco conseguiram avançar em termos sociais e econômicos – e portanto não surpreende o tamanho da diáspora dali para países desenvolvidos de língua inglesa.
Talvez as características dessa província comum ajudem a explicar o fato de Naipaul e Walcott terem sido, ambos, precursores dos gêneros que vieram a ser conhecidos como “literatura pós-colonial” e, mais tarde, world literature – rótulos sob os quais se reúnem, de maneira vaga e abrangente, tanto escritores quanto temáticas de origem periférica. Antes que a Europa e os Estados Unidos voltassem suas atenções para autores africanos ou para as literaturas do Extremo Oriente, antes mesmo do boom latino-americano e da recepção entusiasmada das obras de Jorge Luis Borges ou Gabriel García Márquez, Derek Walcott e v. s. Naipaul – um homem negro e um descendente de indianos – forçaram as portas dos salões literários do mundo rico. Se hoje autores relevantes como Teju Cole, nigero-americano, ou Zia Haider Rahman, nascido em Bangladesh e educado no Reino Unido, podem frequentar as resenhas literárias de língua inglesa dos dois lados do Atlântico, alguma dívida deve ser paga aos dois octogenários caribenhos, que nunca se deram bem e sempre viveram às turras.
“O Mangusto”, poema cujo título faz referência a um mamífero originário do continente asiático – como a família de Naipaul –, termina com uma anedota sobre um encontro fugaz entre Walcott e seu rival. O encontro aconteceu na cerimônia de entrega do Nobel de Literatura, prêmio que ambos já ganharam. Os dois se cruzam em Estocolmo e, de acordo com os versos, Naipaul (o homenageado da noite) saúda o poeta com uma alegria desconcertante, como se fossem amigos. “Der-iickk”, ele diz, colocando a ênfase na sílaba errada. “Em um instante compartilhado”, Walcott declama, “nossa casa surgiu: morros, mar, plantações de cana, Chaguanas.” O poema termina com uma frase ominosa, uma espécie de mau-olhado que o autor de Omeros lança ao rival. “Lá, distante, o Mangusto delira, e o tempo, com as suas ondas lentas, se aproxima.”
Entre as muitas acusações do poema de Walcott, há um elogio escondido num dos versos. Refere-se ao livro Uma Casa para o Senhor Biswas, publicado em 1961 em Londres. Considerado um clássico do século XX, foi esse o romance (o seu quarto publicado) que botou Vidiadhar Surajprasad Naipaul no mapa – e a expressão “no mapa” pode ser entendida aqui em um sentido literal, pois a origem do autor não era fácil de decifrar para os seus novos leitores.
Neto de indianos que imigraram para trabalhar em condições miseráveis nas plantações de cana do Caribe, Naipaul nascera em Chaguanas, uma vilazinha do interior de Trinidad. A sua prosa, contudo, não refletia o exotismo dessa origem. Seca, espartana em alguns momentos, misturando humor, perspicácia e páthos em proporções meticulosas, a voz autoral de Uma Casa para o Sr. Biswas é inimitável, mas tem muito em comum com a voz que o literato de Oxford (ainda hoje uma espécie fecunda) almeja para si e inveja em seus colegas. O representante máximo desse estilo talvez tenha sido o escritor inglês Evelyn Waugh – e o próprio Naipaul, que tivera uma infância pobre em Trinidad e conseguira uma bolsa para estudar em Oxford aos 18 anos, tinha em Waugh o seu modelo inicial. Mais tarde em sua carreira, ele escreveria com sensibilidade sobre os seus primeiros fracassos literários, e sobre o desejo, chegando à metrópole, de escrever histórias cosmopolitas cheias de personagens londrinos e urbanos. Os manuscritos desses textos de formação seriam descartados.
Em Uma Casa para o Senhor Biswas, já livre do entorpecimento das imitações literárias, Naipaul usa as influências estilísticas do império para tratar de um tema profundamente autobiográfico: a comunidade indiana em Trinidad. O livro conta a história de Mohun Biswas, um pintor de placas que a certa altura consegue um emprego como repórter de um jornal local. Sonhador, Biswas nutre vagas ambições literárias e passa horas na cama lendo o imperador romano Marco Aurélio. Casa-se, um pouco acidentalmente, com Shama, uma mulher de outra família indiana da comunidade local, os Tulsi.
A família Tulsi domina a vida de Biswas e de seus filhos, em parte porque ele depende financeiramente da esposa e de sua parentela, em parte porque a matriarca da família – a mãe de Shama – controla e manipula todos, parentes e agregados, com destreza. Biswas passa a vida tentando comprar uma casa própria (a “Casa” do título), símbolo de independência financeira e espiritual. À medida que esse objetivo se torna mais difícil, ele aposta mais e mais fichas em seus filhos; em particular em Anand, que começa a estudar para conseguir uma bolsa de estudos que o levará para a Inglaterra.
O livro é cômico e trágico, embora mais cômico do que trágico, e não é difícil ver os paralelos com a vida do autor. Anand, o menino estudioso e orgulhoso, é um alter ego de Naipaul; e Mohun Biswas, o protagonista, uma versão de seu pai, Seepersad. Seepersad Naipaul foi um repórter do jornal caribenho Trinidad Guardian que, em certo momento da vida, escreveu uns poucos contos de ficção. Em 1943, os contos foram publicados (e ignorados). Seepersad morreu – como Biswas morre – antes dos 50 anos de idade. Uma morte anônima e prematura, em uma ilha tropical desconhecida, mitigada apenas pela possibilidade de morrer em sua casa própria, comprada no fim da vida. Mais tarde, já consagrado, Naipaul ajudaria a reunir os escritos do pai e a publicá-los postumamente em Londres.
Para Walcott, o livro mostra que “houve uma época em que ele [Naipaul] ainda gostava de pessoas, muito tempo atrás”. E é verdade que o tom usado em Uma Casa para o Senhor Biswas não se repetirá em obras posteriores. Há uma ternura na descrição dos personagens, uma energia cômica nas cenas, um gosto por vinhetas extensas que é único – e esse é, também, o único romanção na obra de um autor conhecido pela economia e pela concisão. O Naipaul pós-Biswas é mais duro, mais cortante, mais profundo em alguns momentos, e menos engraçado. Ele disse certa vez que grande parte da vida de um escritor é descobrir o seu material, o que irá escrever. Uma Casa para o Senhor Biswas sugou as memórias familiares da pequena ilha em que o seu autor nascera. A partir dali ele seguiria novos rumos, fincaria novos pontos no mapa.
No áudio do poema de Walcott, há diversos momentos de deleite na plateia. A cada crítica mais dura feita pelo poeta ao seu rival, surgem risinhos e palmas esparsas. Essa reação tem menos a ver com a escrita de Naipaul do que com a sua imagem, construída ao longo de décadas: o seu gosto por frases e atitudes misóginas e racistas; o orgulho e a arrogância intelectual; as críticas impiedosas aos países periféricos que visitou; e, é claro, o desdém por seu lugar de nascença. Quando recebeu o Nobel de Literatura em 2001, Naipaul falou da Inglaterra e da Índia, mas deixou Trinidad de fora de seus agradecimentos. Questionado sobre essa ausência, disse que a presença da ilha talvez “manchasse a homenagem”. Para os seus parâmetros, era uma provocação leve.
Há passagens em sua biografia autorizada, escrita pelo jornalista inglês Patrick French, que seriam cortadas de muitas biografias não autorizadas. Patricia Hale, primeira mulher de Naipaul, que ele havia conhecido quando os dois eram estudantes em Oxford, foi também uma espécie de faz-tudo do escritor: além de ter que lhe dar apoio emocional constante e servir como primeira revisora dos textos, aguentou as neuroses do marido a vida inteira. Mesmo quando ele começou a ter um caso com Margaret Murray – uma argentina descendente de escoceses, a quem o escritor fora apresentado por um amigo do meio literário em Buenos Aires –, Hale continuou ao seu lado. Por décadas, Naipaul abertamente levou uma vida dupla. Viajava por longos períodos com a amante, com quem realizava fantasias sexuais sadomasoquistas; ao mesmo tempo, usufruía da segurança psicológica que a mulher lhe dava em casa.
A biografia sugere que, por muito tempo, a amante argentina nutriu a esperança de substituir Hale e se tornar a nova sra. Naipaul. Mas quando a esposa afinal morreu de câncer, em meados da década de 90, o escritor decidiu se casar quase que imediatamente com uma terceira mulher, uma jornalista paquistanesa que ele acabara de conhecer, Nadira Alvi, abandonando a amante com quem vinha se relacionando fazia décadas. No panteão de grandes escritores que foram seres humanos duvidosos ou deploráveis (Céline, Knut Hamsun, Ezra Pound), Naipaul parece ter lugar garantido.
À medida que envelheceu, a imagem de literato esnobe se petrificou. Sempre houve algo de maliciosamente teatral em Naipaul. Seu sotaque meio aristocrata, os paletós de tweed e a bengala, o modo condescendente de tratar os entrevistadores; as frases categóricas de desdém, lançadas ao ar como granadas, gerando explosões mudas de desconforto: esses são os elementos que compõem a sua máscara. Na introdução à biografia que escreveu, French narra um dos primeiros encontros que teve com o seu “personagem”. Ao chegar a Nova Delhi, na Índia, French recebeu a carona de um amigo, que passou para buscá-lo no aeroporto. Para a surpresa do biógrafo, Naipaul também viera recepcioná-lo e o esperava no banco de trás de um carrinho velho estacionado. No caminho para a cidade, Naipaul puxou assunto. A princesa Diana havia morrido alguns meses antes, e o escritor perguntou ao jornalista o que ele tinha achado do funeral. French sabia que era uma provocação, mas, cansado da viagem, resolveu ser honesto. Disse que tinha achado tudo muito comovente, e que gostou de ver os ingleses expressarem os seus sentimentos em público.
Naipaul fez alguns sinais faciais de decepção. Quando o jornalista lhe perguntou o que ele achava, fez uma longa pausa antes de responder, e disse: “Aquilo me encheu de vergonha – vergonha e nojo. O tipo de nojo que se sente após visitar uma prostituta, se é que você sabe o que estou dizendo. Tinha um homem lá, um tal de senhor John, cantando. […] Havia alguns negros chorando nos santuários, chorando abertamente. Por que eles estavam chorando? Por quê? Por quê?”
Era um comentário típico de Naipaul: ultrajante, recheado de premissas ofensivas, permeado por uma indignação que poderia ou não ser genuína, deixando o interlocutor desconfortável. O “senhor John” a que ele se referia, French se deu conta mais tarde, era o cantor Elton John.
Muito se fala sobre a necessidade de separação entre a vida e a obra de um autor, mas tenho minhas dúvidas sobre essa separação. Às vezes me parece uma justificativa moral autoindulgente, simplesmente para que possamos ler autores como Céline ou Pound com prazer, sem nos sentirmos muito culpados por eles serem fascistas. Talvez seja mais honesto dizer que certos traços que tornam alguém um ser humano deplorável podem servir a propósitos mais nobres na arte (embora, é claro, a imensa maioria de seres humanos deploráveis seja simplesmente isso: seres humanos deploráveis, sem talento e com nada muito interessante a dizer). No caso particular de Naipaul, a sua misantropia, irritante e ofensiva se restrita à figura do bufão irascível e pomposo, se transforma num ceticismo fecundo quando aplicada à escrita.
Em An Area of Darkness [Uma Área da Escuridão], um de seus primeiros livros de viagens, Naipaul visita a Índia, terra dos seus ancestrais. Lançado em 1964, o livro provocou certo escândalo. Naipaul nunca antes visitara o país e, embora tivesse crescido em uma comunidade indiana em Trinidad, se sentia em alguma medida estrangeiro na Índia. Com o olhar fresco, acabou escrevendo um livro sincero, perceptivo e cruel. Dissecou o sistema de castas, a burocracia do país, a incompetência política, os rituais religiosos retrógrados. Em uma passagem particularmente famosa, discorreu sobre a mania indiana de defecar em lugares públicos.
O tom cáustico do livro é brutal em certos momentos, mas as observações são cuidadosas e trabalhadas, e, no fim das contas, convincentes. Na fala, Naipaul é um conservador que gosta de provocar com frases categóricas (um pouco como Paulo Francis); mas como escritor ele é paciente e sutil. Como a maioria dos que ganham o seu pão na ficção, se interessa mais por pessoas do que por grandes abstrações ou teorias políticas e sociológicas. Em Uma Área da Escuridão, como em outros relatos de viagens posteriores, faz uma espécie de curadoria de vozes individuais que, reunidas, acabam por revelar traços da sociedade. Cada pessoa que ele encontra, rica ou pobre, conservadora ou radical, superficial ou profunda, é analisada minuciosamente: as manias, ansiedades, as falas, a imagem que alimentam de si mesmas – nada é poupado. O motor de seus relatos de viagens é essa atenção quase patológica aos detalhes.
Há um momento em Uma Área da Escuridão, durante uma estadia na região da Caxemira, em que ele visita um festival islâmico de autoflagelação. Homens caminham em meio à multidão, com feridas à mostra, carregando chicotes com apetrechos de metal e lâminas nas pontas. Naipaul escreve:
No caminhar deles havia orgulho; eles se portavam como homens ocupados, sem tempo para coisas triviais. Suspeitei de algumas das roupas com sangue. Algumas delas pareciam muito secas; poderiam ter sido usadas em um ano anterior, poderiam ter sido emprestadas, ou o sangue poderia ser o sangue de algum animal. Mas não havia como negar a integridade do homem cuja cabeça, quase careca, estava toscamente enfaixada, o sangue ainda derramando. A glória estava no sangue; aquele que mostrasse a maior quantidade ganhava a maior atenção da plateia.
Que outro escritor teria a frieza, a acuidade de prestar atenção no sangue envelhecido? E que outro autor colocaria, sem pudor, um detalhe tão insalubre na página?
Lê-se Naipaul pela sinceridade dos seus relatos. É verdade que essa sinceridade às vezes descamba para o desprezo e a misantropia generalizada. Os seus livros chocam ainda hoje. Na época em que foram lançados, quando havia um otimismo pós-independência e os nacionalismos estavam em voga em vários países periféricos, os livros pareciam heresias. Mas o seu olhar impiedoso – em viagens pela África, Ásia, Oriente Médio, América do Sul – permitiu formas mais desiludidas de interpretar a realidade pós-colonial.
Não consigo ler a introdução de Uma Área da Escuridão, em que o autor descreve o processo labiríntico de tentar recuperar duas garrafas de bebida retidas na alfândega de Mumbai, sem pensar no Brasil. Qualquer jornalista consegue escrever uma coluna sobre a burocracia de um país. Mas o que se terá compreendido do fenômeno ao fim de cada coluna? Em dezessete páginas, Naipaul narra, com a lentidão e a acuidade que lhe são peculiares, cada etapa do penoso processo para reaver as suas duas garrafas. Ele demonstra a comédia absurda daquilo – em certo momento admite estar à beira das lágrimas, de tão frustrado –, mas não é condescendente com as pessoas que descreve, os que estão, por assim dizer, do outro lado do balcão. Repara nos gestos minuciosos de cada um, no orgulho e nas ansiedades de cada funcionário público, nas sutilezas de hierarquia; nas minúcias do tédio de uma sala de repartição; na estranha tranquilidade do taxista que o leva para lá e para cá. Sem jargão ou grandes elucubrações políticas, o resultado é um rascunho impressionista de uma parte da sociedade indiana, mais valioso do que qualquer análise quantitativa ou quadro de dados econômicos. É esse o mistério do seu apelo: que alguém tão comprometido com a ofensa e tão agressivo em suas opiniões na fala tenha empatia e uma certa generosidade na página, deixando as outras pessoas falarem por si mesmas.
A ideia de que Naipaul é um filhote do Império Britânico – uma ideia muito difundida, que Walcott parece sugerir em seu poema – é atraente porque Naipaul é uma pessoa fácil de odiar. É verdade que os seus paletós de tweed, o sotaque pomposo e as críticas duras à periferia mundial se prestam a reforçar essa imagem. Mas essa visão não é apenas reducionista: é injusta, e só alguém com uma ideia muito simplista de sua trajetória poderia enxergá-lo assim.
Walcott lê Uma Casa para o Senhor Biswas como um ponto luminoso na carreira de Naipaul, como se o livro, pela voz cômica e a ocasional ternura na apresentação da comunidade local, fosse prova de uma sensibilidade perdida. Mas, descontando-se mudanças estilísticas, o livro possui a semente de toda a sua obra posterior. Pois o que seria a história de Mohun Biswas se não a tragédia do homem periférico com ambições e talentos maiores do que o seu meio pode suprir? E essa narrativa é tanto mais convincente porque é autobiográfica. Seepersad era um grande escritor, mas, num lugar como Trinidad, morreu no anonimato e na pobreza. Walter Benjamin, em um de seus famosos aforismos, disse que uma obra-prima ou funda ou dissolve um gênero. Uma Casa para o Senhor Biswas parece fazer as duas coisas: o livro é talvez o primeiro exemplo do que viria a ser conhecido mais tarde como o romance pós-colonial (vibrante, enérgico, tomando um lugar e uma cultura distantes como o foco da ação); mas é também uma obra que mostra as armadilhas do gênero, e as ilusões perigosas contidas nesse tipo de romance benigno.
No começo da década de 50, com dificuldades para começar a carreira de escritor em Londres, sendo rejeitado em dezenas de entrevistas de emprego, sentindo-se humilhado e à beira da pobreza, Naipaul mandou uma carta a sua mulher, que na época estava de visita em outra cidade. “Se meu pai tivesse 1/20 da oportunidade que os ingleses de boa linhagem têm, ele não teria morrido um homem acabado, frustrado por não ter conseguido nada. Mas, como eu, ele teve sim uma oportunidade – a oportunidade de passar fome.” Na mesma carta, Naipaul reclama das formas refinadas e sutis que países ricos (ele os chama, ironicamente, de “Mundo Livre”) usam para rejeitar os cidadãos que não se encaixam na sociedade. “Não posso chegar para outro país e dizer: sofro de perseguição política aqui. Não seria verdade e soaria melodramático e absurdo dizer tal coisa. Mas eu sofro de algo pior: uma espécie de perseguição espiritual. As pessoas aqui querem me vencer pelo desânimo. Elas querem que eu esqueça minha dignidade como ser humano. Elas querem que eu saiba meu lugar.”
Na biografia de French, há outros relatos de dificuldades no início de carreira. Certa vez, Naipaul foi fazer uma entrevista para um cargo de trainee na BBC, e o painel de entrevistadores deu risada quando ele sugeriu que queria escrever features, reportagens longas (ele já tinha publicado seu primeiro romance nessa época). Logo que saiu da universidade, foi rejeitado em 26 entrevistas de emprego, segundo uma carta que escreveu para a mãe. Esse senso de humilhação e de exílio, de ser um imigrante onde quer que fosse, é algo que perdurou e se refinou em Naipaul ao longo do tempo, embora de formas diferentes em sua postura social e na escrita. E é sem dúvida por causa da autenticidade desse sentimento que ele consegue se aproximar dos personagens de seus relatos de viagens e de sua ficção, escrevendo sobre eles com empatia e desdém, paciência e raiva.
O crítico James Wood disse certa vez que Naipaul é um escritor de “visão conservadora, mas poder de observação radical”. A afirmação é verdadeira, mas talvez insuficiente, porque o radicalismo de Naipaul não se restringe à sua voz na página. Mais radical talvez seja a audácia que ele teve de tentar ocupar um lugar central na literatura anglo-saxã. Antes que surgisse um mercado substancial para a literatura pós-colonial nos países ricos, e antes que Edward Said escrevesse sobre o Oriente como uma projeção do Ocidente, Naipaul já tinha noção de que, para tornar-se um escritor central, não bastava ser o melhor escritor. Ele percebeu cedo que alguém da periferia tinha um certo papel a cumprir, nas letras assim como na vida; e que, se dependesse da metrópole, esse papel seria sempre, por definição, periférico.
O romancista pós-colonial é frequentemente exótico, exuberante, um contador de histórias sobre a beleza e a tragédia de lugares longínquos. Não por acaso, Naipaul escolheu o caminho inverso – ser austero, cético, misantropo, e contar histórias impiedosas e realistas sobre qualquer terra que pisasse. A sua identidade, geograficamente complexa desde sempre, se diluiu ainda mais à medida que ele buscou ocupar essa posição central, esse lugar sui generis na literatura – e ele foi se tornando assim um palimpsesto, tomando certas afetações do império enquanto rejeitava outras e mantinha a sua condição de exilado (a origem e os efeitos desse deslocamento geográfico e identitário é o tema de sua melhor obra, O Enigma da Chegada, uma espécie de autobiografia romanceada).
Mais do que um certo estilo de prosa, ou uma forma particular de encarar o romance, é essa confiança artística – essa busca e aquisição de uma centralidade literária – que parece ser o maior legado de Naipaul. Muito por sua causa, ensaístas, romancistas e críticos (alguns exercendo todas essas atividades simultaneamente) da periferia mundial escrevem hoje com a liberdade de se sentirem centrais para a cultura, de darem pitaco onde bem quiserem e invadirem reservas de mercado até então asseguradas para ingleses, americanos e europeus de linhagem supostamente mais pura.
Escritores como Pankaj Mishra, Zia Haider Rahman, Teju Cole e Amit Chaudhuri – para citar alguns admiradores vocais de Naipaul – têm em comum o fato de desafiarem o que se espera de escritores periféricos. Mishra se sente tão confortável escrevendo sobre o pensador chinês Liang Qichao como sobre Rousseau e Trump para publicações americanas e inglesas; os romances de Rahman e Cole flutuam habilmente entre influências europeias (w. g. Sebald, Baudelaire), africanas e asiáticas, cidades e países centrais e periféricos; Amit Chaudhuri escreve sobre Calcutá, mas também publicou um elogiado livro de crítica sobre D. H. Lawrence (um livro escrito por um indiano, sobre um autor canônico britânico, para um público britânico). Tal ousadia temática parece menos evidente em escritores latino-americanos, e talvez isso se deva um pouco ao fato de Naipaul ser menos lido ou menos compreendido por aqui.
Naipaul é visto ainda hoje, por muita gente, como um ornamento do status quo anglo-saxão, e também como um mal-agradecido. É essa a imagem que Walcott explora em “O Mangusto”. Mas Walcott, que é sem dúvida um grande poeta, está provavelmente mais próximo do estereótipo de escritor periférico que conforta os anglo-saxões: aquele que escreve com lirismo sobre a beleza de terras distantes. E é irônico que, ao criticar o anglocentrismo de Naipaul, o poeta caribenho use dois reacionários ingleses (D. H. Lawrence e Evelyn Waugh) como exemplos de grande literatura. O mesmo Waugh que, em 1963, um pouco depois da publicação de Uma Casa para Senhor Biswas, mandou uma carta irritadiça para uma amiga. “Aquele neguinho todo espertinho Naipaul ganhou outro prêmio literário”, ele escreveu, provando – se provas faltassem – que o “Mundo Livre” nem sempre é tão sutil e refinado assim.
Naipaul só soube da carta pelo seu biógrafo. Mas anos depois, quando já estava consagrado, viveu um momento que em retrospecto pode ser lido como uma espécie de revanche. Havia participado de um show de tevê com o jornalista Auberon Waugh, filho de Evelyn. Com pouca diferença de idade, acabaram se tornando amigos depois, mas naquele primeiro encontro houve um momento de impasse. Enquanto desciam o elevador com mais duas pessoas, Auberon perguntou: “Todo mundo te chama de V. S., mas qual o seu nome?” Ao que Naipaul respondeu: “Vidia.” Auberon perguntou então se poderia chamá-lo de Vidia. “Não”, Naipaul disse, em um presságio do estilo ríspido que adotaria cada vez mais. “Como acabamos de nos conhecer, prefiro que você me chame de senhor Naipaul.”