obituário
Dez 2016 15h36
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O grande Marcel Gotlib morreu no dia 4 de dezembro de 2016, aos 82 anos de idade. Os leitores mais antigos da piauí terão ligado o nome à pessoa, pois durante os cinco primeiros anos da revista o quadrinista francês foi presença religiosa nas nossas páginas. Uma rápida passada de olhos pela seção de cartas daqueles tempos heroicos comprova sua grande popularidade por estas plagas. Em 2008, por exemplo, escreveram-nos: “Gotlib emprestou dinheiro para criar esse mensário? É caso de alguém importante daí?”, “Tem que haver uma justificativa… nepotismo talvez”, “Manda ele de volta pra França!” Em 2009: “Quosque tandem abutere Gotlib patientia nostra?” Em 2010: “Deve estar rolando um jabá, deve ser a única explicação.” Em 2011: “Gostaria de saber quanto ele paga de jabá, já que pretendo iniciar uma campanha para arrecadar fundos e oferecer o dobro para retirá-lo definitivamente da revista.” O sarcasmo machucava, mas parecia inofensivo se comparado às propostas de expurgá-lo definitivamente não da revista, mas da vida. “Bastilha nele!”, vituperou um leitor de Atibaia em outubro de 2008, num tom que nos soou francamente rude.
Apesar de tudo, entrincheirados nas barricadas, não esmorecemos, e a cada mês aqui estava ele, civilizando as nossas cabeças. Como registrou o Libération: “Foi com Gotlib que toda uma geração aprendeu a inteligência nos anos 70.” O jornal chega a compará-lo a Roland Barthes, só que mais divertido. E pronto: esse fragor que você começou a ouvir é o batuque frenético das diatribes de matriz puc-uspiana que começam a ser disparadas para a redação. Data venia, Gotlib publicou exegeses definitivas de clássicos da literatura, contos de fada, romances de capa e espada e telenovelas. Dedicou páginas memoráveis ao desmanche das idiotices da vida contemporânea, de viagens de férias pascácias a restaurantes pomposos, do logro da publicidade (ver páginas seguintes) à pretensão dos cinéfilos, da indignação fácil com as grandes tragédias humanitárias aos lugares-comuns da própria história em quadrinhos. Basta ver o que fez com uma girafa na piauí de fevereiro de 2007 para comprovar a sem-cerimônia com que tratava a arte que o consagrou.
Não há convenção, clichê ou veleidade que tenha resistido a seu traço. Escrevendo no Nouvel Observateur, um jornalista explica a dívida que sua geração tem para com Gotlib: “Ele nos estendeu a única arma de rebelião de que dispõem as crianças. Não a insolência, a grosseria ou o desrespeito. Não, apenas o humor em segundo grau. A ironia. A paródia. A zombaria.” Deconum rex, ungiram-no. Sacanum rex, traduz a piauí.
Não estava escrito em lugar nenhum que Gotlib se tornaria um sacana. Pelo contrário. Nascido em 1934 numa família de imigrantes húngaros judeus, o pequeno Marcel teve de pregar a estrela amarela no peito assim que os alemães entraram em Paris, em 1940. Em 42, seu pai foi conduzido a casa por dois policiais franceses para se despedir da família. “Não se preocupem, eu já volto”, disse. Foi a última vez que se viram – ele seria morto no campo de Buchenwald. Marcel foi despachado para a Normandia, onde passaria a guerra escondido numa fazenda. Nunca mais confiou em autoridades ou na sacralidade das instituições – pátria, Forças Armadas, Igreja, família, polícia, presidente, senador, padre, bispo, o que fosse.
Começou a carreira como letrista da Disney, para a qual fazia os balões do Mickey. Tinha duas adorações: o melancólico cachorro Droopy (Mingau, no Brasil), de Tex Avery – “Querem saber? Eu estou tão feliz…” –, e as sandices da revista Mad. René Goscinny, criador de Astérix, reparou no garoto de traço hilário e o chamou para trabalhar na Pilote, revista que fundou e que se tornaria um marco dos quadrinhos na França. Goscinny logo percebeu que tinha descoberto ouro puro. Pôs o menino embaixo da asa e em pouco tempo Gotlib virou o seu desenhista predileto. O trabalho que realizaram em parceria faz parte de qualquer antologia do melhor que a HQ francesa já produziu.
Acontece que Goscinny era um gênio bem-comportado – “O jornal que se diverte refletindo” era o lema da Pilote – e Gotlib queria escrachar. Cansado dessa compostura burguesa, decidiu trocar o mentor pela safadeza. Com Claire Bretécher e Nikita Mandryka, fundou em 1972 a revista sacano-erótica L’Écho des Savanes [O Eco das Savanas] e, três anos mais tarde, com Alexis e Jacques Diament, o mensário Fluide Glacial. A partir daí, imperou a sacanagem. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, em vez de ser comida pelo Lobo Mau, passou a comê-lo no sentido bíblico do termo, num entusiasmo jubiloso de dar inveja ao mais devoto sacerdote do bestialismo. Pervers Pépère, algo como Coroa Canalha ou Véinho Velhaco, o velhote bandalho que se exibe por aí ao longo desta edição, é daquele período glorioso.
Rei do didatismo cômico, Gotlib nos ensina muita coisa, em especial nas lições de seu grande naturalista, o eminente professor Burp. Aprendemos que o hipopótamo é responsável pelo fenômeno das marés, verdade já demonstrada por um milenar provérbio congolês: “Todo hipopótamo mergulhado num líquido desloca um volume desse líquido igual ao seu próprio volume” (o deslocamento repercute como onda pelos oceanos e voilà). Aprendemos que a preguiça se disfarça de rinoceronte quando quer ficar dependurada num galho sem dar na vista (portanto, não se deixem enganar quando virem um rinoceronte pendurado de cabeça para baixo na mata: é uma preguiça). Que Isaac Newton chegou à lei da gravitação universal quando uma preguiça – sempre ela – resolveu descer da macieira onde se empoleirava e, como sói à espécie, simplesmente largou o galho, caindo na cabeça do desavisado. Que a zebra não passa de um cavalo que tomou sol atrás de uma grade. Que, ao contrário do que muitos pensam, o focinho do porco é 110 volts, e não 220.
Para quem não se interessa pelos rigores da zoologia e prefere super-heróis, Gotlib tem Superdupont, cujas provações tornam as agruras do Super-Homem coisa de hora do recreio. Seus inimigos não são facínoras solitários, mas a Antifrança, uma cabala de “gringos que invejam a prosperidade do nosso país”, gente que “fala estrangeiro” e diz coisas como “Aye habe discoverado el talone of Achille der Zuperdupont!”. Obram dia e noite para destruir a França branca e católica, contra a qual cometem as mais terríveis vilezas – cantam a Marselhesa ao contrário, botam gelo no vinho tinto (Pommard 1959, “a safra do século!”) e chegam até a guardar o camembert na geladeira, visão lancinante que tem sobre Superdupont o mesmo efeito da kriptonita sobre o Homem de Aço. Era um deboche certeiro do nativismo xenófobo de certa França profunda, numa época em que Le Pen père tinha apenas 0,75% das intenções de voto e a filha Marine mal saíra dos cueiros.
Resumo da ópera: tem Gotlib para todos os gostos, o que inclui leitores da piauí. Sim, existiam tais espécimes de fino palato. “Não poderia deixar de vir em sua defesa, ele já nos deixou clássicos como a releitura anarco-shakes-peariana-marxista-piauiense de Hamlet” (setembro e outubro de 2008), declamou Guilherme Dearo, de São Paulo (é preciso nomear esses estetas). Rebatendo a insinuação maldosa de 2008 mencionada lá no primeiro parágrafo, Eduarda C. Rodrigues, de Campina Grande, escreveu: “Invejo o privilegiado da piauí que mantém um caso com ele…” Ao que aduziu um seu conterrâneo nordestino, Tiago Didier, num francês escorreito que aqui traduzimos: “O rei é morto, viva Gotlib!” Não podíamos estar mais de acordo. É o título que encima este obituário.