questões apocalípticas
Evan Osnos Abr 2017 12h05
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Steve Huffman, de 33 anos, cofundador e CEO do site Reddit, avaliado em 600 milhões de dólares, era míope até novembro de 2015, quando fez uma cirurgia corretiva a laser. Não por conforto ou vaidade, mas por um motivo sobre o qual não costuma falar muito: com isso, espera aumentar suas chances de sobreviver a um desastre, natural ou criado pelo homem. “Se o mundo acabar – não só se o mundo acabar, mas se tivermos problemas –, conseguir lentes de contato ou óculos vai ser uma amolação”, ele me disse recentemente. “Sem eles, estou ferrado.” Huffman, que vive em São Francisco, tem grandes olhos azuis, uma cabeleira loira e uma curiosidade inquieta. Sua preocupação maior não é com uma ameaça específica – um terremoto na falha de San Andreas, uma pandemia, uma bomba atômica –, mas com suas consequências, ou seja, com “o colapso temporário do governo e suas estruturas”, nas palavras dele. “Tenho várias motos. Uma porção de armas e munição. E comida. Acredito que assim possa me entrincheirar em casa por algum tempo.”
O sobrevivencialismo, a prática de se preparar para o colapso da civilização, em geral evoca certa imagem: o ermitão com seu chapéu de papel-alumínio,[1] o histérico com o estoque de feijão, o catastrofista religioso. Contudo, nos últimos anos, a prática se expandiu para localidades mais abastadas, estabelecendo-se no Vale do Silício e em Nova York, entre executivos de tecnologia, gestores de hedge fund e seus pares da área econômica.
Na última primavera, enquanto a campanha presidencial norte-americana exalava polaridades cada vez mais tóxicas, Antonio García Martínez, de 40 anos, um ex-gerente de produto do Facebook que mora em São Francisco, comprou um terreno arborizado de 20 mil metros quadrados numa ilha do Noroeste Pacífico dos Estados Unidos, onde abrigou geradores, painéis solares e milhares de cartuchos de munição. “A sociedade, quando perde um mito fundador saudável, desmorona em direção ao caos”, ele disse. Autor do livro Chaos Monkeys [Macacos do Caos], suas ácidas memórias do Vale do Silício, García Martínez procurava um refúgio longe das grandes cidades, mas não totalmente isolado. “Os caras pensam que um sujeito sozinho pode, de alguma forma, fazer frente a uma turba de indivíduos sem rumo”, disse. “Nada disso; será preciso constituir uma milícia local. Muita coisa é necessária para sobreviver ao apocalipse.” Assim que começou a falar com os colegas sobre seu “pequeno projeto de ilha”, seus interlocutores se puseram a descrever os próprios preparativos. “As pessoas que estão familiarizadas com os mecanismos de funcionamento da sociedade entendem que estamos patinando sobre um gelo cultural realmente fino.”
Em grupos privados de Facebook, sobrevivencialistas ricos trocam dicas sobre máscaras de gás, bunkers e locais protegidos dos efeitos da mudança climática. Um diretor de uma empresa de investimentos, membro de um desses grupos, me disse: “Tenho sempre um helicóptero com o tanque cheio, e um bunker com sistema de filtragem de ar.” Seus preparativos provavelmente o posicionam num ponto “extremo” em relação aos colegas, disse, mas acrescentou: “Muitos amigos meus aderiram a armas, motos e moedas de ouro. Hoje em dia esse lance não é mais tão raro.”
Tim Chang, de 44 anos, diretor-geral do Mayfield Fund, uma empresa de capital de risco, me contou: “Há muitos de nós no Vale do Silício. Marcamos encontros, promovemos jantares regados a conversas sobre hacking financeiro e falamos dos planos que as pessoas estão pondo em prática. Tem de tudo, desde gente estocando bitcoin e outras criptomoedas, até um pessoal interessado em obter passaportes clandestinos, em caso de necessidade, e providenciar casas de férias que possam servir de refúgio em outros países.” E continuou: “Vou ser sincero: no momento estou acumulando bens imobiliários a fim de gerar rendimentos passivos, mas também para ter para onde fugir.” Ele e a mulher, que trabalha na área de tecnologia, já se preveniram e deixaram prontas malas para eles e para a filha de 4 anos. Ele me confessou: “Eu meio que tenho essa visão de horror: ‘Oh, meu Deus, se acontecer uma guerra civil ou um terremoto gigantesco que rache parte da Califórnia, queremos estar prontos.’”
Ao avaliar seus preparativos, o ex-executivo do Yahoo Marvin Liao, hoje sócio da empresa de capital de risco 500 Startups, concluiu que os estoques de água e comida não eram suficientes. “E se alguém tomar tudo de mim?”, perguntou. Sem dispor de armas de fogo para proteger a mulher e a filha, conta com outros meios de defesa. “Fiz aulas de arco e flecha.”
Para alguns, o sobrevivencialismo é apenas uma distração de brogrammers – junção das palavras brother e programmer, uma espécie de programador mais sociável e descolado – ou uma espécie de ficção científica do mundo real com equipamentos próprios; para outros, como Huffman, é uma angústia que já dura há anos: “Desde que assisti ao filme Impacto Profundo”, ele disse. Lançado em 1998, o longa-metragem mostra um cometa atingindo o oceano Atlântico e uma corrida para escapar do tsunami. “Todo mundo tenta fugir e fica preso no congestionamento. Essa cena foi filmada perto do meu colégio. Toda vez que eu passava naquele trecho da rua, pensava: ‘Preciso ter moto, senão me ferro.’”
Huffman é frequentador assíduo do Burning Man, o festival anual no deserto de Nevada que faculta o uso de vestimentas, e onde artistas e magnatas se misturam. Apaixonou-se por um de seus princípios fundamentais, o da “autossuficiência radical”, que ele entende como “ficar feliz em ajudar os outros, mas sem depender deles”. (No jargão dos sobrevivencialistas, ou “preparadores”, como alguns se denominam, a Agência Federal de Gestão de Emergências, Fema, significa “Foolishly Expecting Meaningful Aid” – Espera Estúpida de Ajuda Significativa.) Em caso de desastre, Huffman vai buscar alguma comunidade: “Estar em companhia é uma coisa positiva. Também tenho essa visão meio narcisista de que sou um ótimo líder. Quando a coisa ficar feia, provavelmente estarei no comando, ou pelo menos não serei um escravo.”
Ao longo dos anos, Huffman se preocupou cada vez mais com a estabilidade da política norte-americana e o risco de distúrbios em larga escala. “Basta um colapso institucional qualquer, e você perde o pé.” (Blogs de preparadores chamam tal situação de WROL, without rule of law, ou seja, um cenário sem lei.) E passou a acreditar que a vida contemporânea repousa num consenso frágil. “Acho que, em certa medida, todos temos por certo que o país funciona, que nossa moeda tem valor, que pode haver uma transferência pacífica de poder – que todas essas coisas que valorizamos funcionam só porque acreditamos que funcionam. Apesar de achar que elas são até robustas, e olha que já enfrentamos muita coisa, com certeza iremos enfrentar muitas mais.”
Ao transformar o Reddit, uma comunidade com milhares de tópicos de discussão, num dos sites mais visitados do mundo, Huffman se deu conta de como a tecnologia afeta nossa interação – para o bem ou para o mal. As mídias sociais, ele comprovou, podem amplificar o medo público. “É mais fácil as pessoas entrarem em pânico quando estão juntas”, disse, e “a internet facilitou essa aproximação.” Mas a rede também pode sinalizar riscos iminentes. Muito antes de a crise financeira chegar às manchetes, os primeiros indícios dela surgiram entre os usuários do Reddit. “As pessoas estavam começando a falar sobre hipotecas. Estavam preocupadas com o débito estudantil. Com o débito em geral. Havia muita conversa do tipo: ‘Isso é bom demais para ser verdade. Isso não cheira bem.’” E acrescentou: “Provavelmente há alguns falsos positivos no meio disso, mas, no geral, acho que somos um bom termômetro do sentimento público. Quando se fala em colapso da fé, dá para ver as estacas de sua fundação nas redes sociais.”
Como a preocupação com o apocalipse veio a florescer no Vale do Silício, um lugar conhecido – a ponto de já ter virado um clichê – pela pródiga confiança em sua capacidade de mudar o mundo para melhor?
Esses impulsos não são tão contraditórios quanto parecem. Roy Bahat, diretor do Bloomberg Beta, uma empresa de capital de risco baseada em São Francisco, acredita que a área da tecnologia costuma recompensar a capacidade de imaginar futuros radicalmente diferentes. “Quando você faz isso, é bem comum levar as coisas ao extremo, o que conduz às utopias e distopias”, disse. Isso tanto pode inspirar um otimismo radical – como o do movimento criogênico, que defende o congelamento de corpos após a morte, na esperança de que a ciência um dia consiga revivê-los – como cenários sombrios. Tim Chang, o diretor-geral que já está de mala feita, disse: “Meu atual estado de espírito oscila entre o otimismo e o puro terror.”
Nos últimos anos, o sobrevivencialismo foi se insinuando cada vez mais na cultura de massa. Em 2012, o canal National Geographic estreou o programa Doomsday Preppers [Preparadores do Juízo Final], um reality show que retratava uma série de americanos se aprontando para o que eles chamavam de shtf (Shit Hits The Fan, quando a merda chega ao ventilador). O episódio de estreia atraiu mais de 4 milhões de espectadores e, ao final da primeira temporada, a série era a mais popular da história da emissora. Uma pesquisa encomendada pelo National Geographic constatou que 40% dos americanos acreditavam que investir na armazenagem de mantimentos ou na construção de um abrigo nuclear era melhor do que contratar um plano de aposentadoria privado. Na internet, as discussões dos sobrevivencialistas vão do coloquial (“Guia de Preparação para Mães em Caso de Agitação Civil”) ao soturno (“Como Comer um Pinheiro para Sobreviver”).
A reeleição de Barack Obama foi uma bênção para a indústria do setor. Os conservadores mais ferrenhos, que acusavam Obama de alimentar tensões raciais, restringir o direito ao porte de armas e aumentar a dívida pública, abasteceram-se de certas marcas de queijo cottage desidratado e estrogonofe de carne recomendadas por comentaristas de rádio e tevê como Glenn Beck e Sean Hannity. Um conglomerado de feiras temáticas sobre “prontidão” atraiu o público com aulas de sutura (praticadas em pés de porco) e oportunidades de foto com algumas estrelas do sobrevivencialismo da série Largados e Pelados.
Os temores eram diferentes no Vale do Silício. Na mesma época em que Huffman, do Reddit, assistia ao avanço da crise financeira, Justin Kan captava os primeiros indícios do sobrevivencialismo entre seus colegas. Kan é cofundador da Twitch, um site de streaming de vídeo para gamers que foi mais tarde vendido para a Amazon por quase 1 bilhão de dólares. “Alguns dos meus amigos diziam: ‘O colapso da sociedade é iminente. Temos que estocar alimentos’”, contou. “Eu até tentei. Mas na época nós arrumamos meia dúzia de sacos de arroz e cinco latas de tomate. Estaríamos mortos se realmente houvesse um problema.” Perguntei o que seus amigos preparadores tinham em comum. “Muito dinheiro e recursos”, ele respondeu. “Quais são as outras coisas sobre as quais posso me preocupar e para as quais posso me preparar? É como investir num seguro.”
Yishan Wong, um antigo funcionário do Facebook, foi CEO do Reddit de 2012 a 2014. Ele também se submeteu a uma cirurgia corretiva dos olhos por razões sobrevivencialistas, pois desejava eliminar sua dependência, em suas palavras, “de uma ajuda externa e não sustentável para obter a visão perfeita”. Em um e-mail, Wong observou: “A maioria das pessoas simplesmente presume que eventos improváveis não acontecem, enquanto o pessoal da área técnica tende a enxergar o risco de forma muito matemática.” E continuou: “Os preparadores do setor de tecnologia não pensam necessariamente na probabilidade do colapso. Julgam ser um evento remoto, mas de graves consequências negativas. Assim, considerando o dinheiro que eles têm, gastar uma fração de seu patrimônio para se resguardar é algo que faz sentido.”
Quantos americanos ricos estão de fato se precavendo contra uma catástrofe? É difícil saber exatamente, pois muitos não gostam de falar sobre isso. (“O anonimato não tem preço”, respondeu-me um gestor de hedge fund ao recusar um pedido de entrevista.) Às vezes, o assunto surge de modo inesperado. Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn e proeminente investidor, lembra ter dito a um amigo que estava pensando em visitar a Nova Zelândia. “Ah, então você vai adquirir um seguro-apocalipse?”, perguntou o interlocutor. “Como assim?”, disse Hoffman. A Nova Zelândia, ele descobriu, é um dos refúgios favoritos na ocorrência de um cataclismo. “Se você disser que vai ‘comprar uma casa na Nova Zelândia’, esse comentário servirá de piscadela, não será preciso dizer mais nada. Uma vez selado esse aperto de mão maçônico, o interlocutor logo dirá: ‘Sabe, tenho um corretor que vende silos antigos de mísseis balísticos intercontinentais, e eles são reforçados contra ameaça nuclear, e parece ser interessante morar neles.’”
Pedi a Hoffman que estimasse a porcentagem de seus colegas bilionários do Vale do Silício que haviam adquirido algum tipo de “seguro-apocalipse” na forma de um esconderijo nos Estados Unidos ou fora do país. “Eu chutaria mais de 50%”, ele respondeu, “mas a decisão vem junto com a vontade de comprar uma casa de férias. A motivação humana é complexa, e acho que assim as pessoas podem dizer: ‘Agora tenho um cobertorzinho que me conforta para esse negócio que me assusta.’” Os medos variam, mas muitos temem que, à medida que as inteligências artificiais forem substituindo um número cada vez maior de empregos, ocorra uma violenta rejeição ao Vale do Silício, a segunda maior concentração de riqueza do país (só perde para o sudoeste de Connecticut). “Ouvi essa conversa de um monte de gente”, disse Hoffman. “Será que o país vai se voltar contra os ricos? Contra a inovação tecnológica? Será que vai acabar em desordem civil?”
O CEO de outra grande empresa de tecnologia declarou: “Ainda não chegamos ao ponto em que os executivos da indústria se viram uns para os outros com a expressão séria e perguntam quais são seus planos para um evento apocalíptico.” Ele continuou: “Mas, dito isso, eu de fato acho que é uma coisa racional e adequadamente conservadora.” Ele apontou as vulnerabilidades evidenciadas pelo ciberataque russo ao comitê do Partido Democrático, e também pelo ataque cibernético em larga escala no dia 21 de outubro que afetou a internet na América do Norte e na Europa Ocidental. “Nosso suprimento de comida depende de GPS, logística e previsão do tempo”, afirmou, “e esses sistemas em geral dependem da internet, e a internet depende do DNS” – sistema que gerencia os nomes de domínios. “É só levar em conta um fator de risco atrás do outro, reconhecendo que há muita coisa que você nem sequer desconfia que existe, para se perguntar: ‘Quais as chances disso estourar na próxima década?’ Ou inverter: ‘Quais as chances de que nada estoure nos próximos cinquenta anos?’”
Uma régua para medir a expansão do sobrevivencialismo é o fato de algumas pessoas já estarem se pronunciando contra ele. Max Levchin, fundador do PayPal e da Affirm, uma startup de concessão de empréstimos, declarou: “É um dos traços do Vale do Silício que eu mais detesto – o sentimento de que somos gigantes superiores que fazem toda a diferença e que, mesmo se o fracasso for culpa nossa, devemos ser poupados.”
Levchin entende que é um erro de cálculo moral preparar-se para a sobrevivência. Ele prefere encurtar a conversa sobre o assunto: “Em geral, eu digo: ‘Quer dizer que você só está preocupado com seu próprio umbigo. Quanto dinheiro você doou ao abrigo de sem-teto do seu bairro?’ Isso conecta a maioria das pessoas, ou assim acredito, à realidade da desigualdade de renda. Todas as outras formas de medo que elas mencionam são artificiais.” Para ele, é hora de investir em soluções, não em fuga. “Por enquanto, estamos num momento econômico relativamente favorável. Quando a coisa azedar, muita gente vai se ver em péssima situação. O que esperamos que aconteça então?”
Do outro lado do país, em alguns círculos financeiros transcorriam conversas bizarras muito similares. Robert H. Dugger trabalhou como lobista para a indústria financeira até que em 1993 se tornou sócio da Tudor Investment Corporation, empresa internacional de hedge fund. Depois de dezessete anos, ele se aposentou para se dedicar à filantropia e a seus investimentos. “Todos nesta comunidade conhecem alguém que teme que os Estados Unidos estejam caminhando rumo a uma espécie de Revolução Russa”, ele me disse.
Para lidar com esse medo, Dugger constatou que há dois tipos muito diferentes de resposta. “As pessoas sabem que a única resposta de verdade é: resolva o problema”, afirmou. “É o motivo pelo qual a maioria delas doa muito dinheiro para boas causas.” Ao mesmo tempo, porém, investem em mecanismos de escape. Ele se recorda de um jantar ocorrido em Nova York depois do 11 de Setembro e do estouro da bolha das empresas “ponto-com”: “Um grupo de multimilionários e alguns bilionários estava analisando cenários do ‘fim da América’ e falando sobre o que fariam. A maioria disse que pegaria seu jato e levaria a família para ranchos no Oeste ou casas em outros países.” Um dos convidados, segundo Dugger, mal podia acreditar. “Ele inclinou o corpo para a frente e perguntou: ‘Vocês vão levar a família do piloto também? E quanto aos rapazes da manutenção? Se os revolucionários estiverem chutando portas, quantas pessoas da sua vida você terá que levar junto?’ O interrogatório continuou. No final, muitos se convenceram de que não poderiam fugir.”
A ansiedade da elite transcende as fronteiras da política. Mesmo os financistas que apoiaram a candidatura de Donald Trump – na esperança de redução dos impostos e regulamentações – se deprimiram com o sectarismo de sua campanha, que parece ter acelerado o colapso do respeito pelas instituições estabelecidas. Dugger afirmou: “Agora a mídia está sob ataque. E eles se perguntam: Será que o sistema judiciário vai ser o próximo? Iremos de ‘notícias falsas’ a ‘evidências falsas’?’’
Robert A. Johnson vê a conversa de seus colegas sobre fuga como um sintoma de uma crise mais profunda. Aos 59, Johnson tem cabelos grisalhos desgrenhados, uma postura afável, a voz macia. Com diplomas de engenharia elétrica e economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), é Ph.D. em economia por Princeton e trabalhou no Congresso americano antes de entrar para as finanças. Tornou-se diretor administrativo do hedge fund Soros Fund Management. Em 2009, após o início da crise financeira, foi nomeado diretor de um think tank, o Institute for New Economic Thinking.
Quando visitei Johnson em seu escritório na Park Avenue South, ele se definiu como um estudante acidental da ansiedade cívica. Cresceu nas proximidades de Detroit, em Grosse Pointe Park, é filho de um médico e viu a geração do pai sofrer a degradação de Detroit. “O que vejo hoje em Nova York é um pouco como ouvir de novo uma velha canção”, afirmou. “Eles todos eram meus amigos. Eu morava no bairro Belle Haven, em Greenwich, Connecticut. Louis Bacon, Paul Tudor Jones e Ray Dalio” – gestores de hedge fund – “estavam todos a uns 45 metros de mim. Na minha profissão, eu apenas conversava com as pessoas. Cada vez mais elas diziam: ‘Você tem que ter um avião particular. Deve garantir que a família do piloto também seja atendida. Eles têm que estar no avião.’”
Em janeiro de 2015, Johnson soou o alerta: as tensões provocadas pela extrema desigualdade de renda estavam se tornando tão graves que algumas das pessoas mais ricas do mundo já tomavam providências para se proteger. No Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Johnson disse à audiência: “Conheço gestores de hedge fund em todo o mundo que estão comprando pistas de decolagem e fazendas em lugares como a Nova Zelândia porque acham que precisam de uma rota de fuga.”
Johnson gostaria que os ricos adotassem um maior “espírito de liderança”, uma abertura para mudanças políticas radicais que pudessem incluir, por exemplo, um imposto mais agressivo sobre heranças. “Nos Estados Unidos, 25 gestores de hedge fund ganham mais dinheiro do que todas as professoras de jardim de infância juntas”, afirmou. “Ser um desses 25 não é uma sensação agradável. Acho que eles desenvolveram uma sensibilidade exacerbada.” A disparidade tem aumentado ainda mais. Em dezembro, o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica publicou uma análise dos economistas Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, mostrando que metade dos adultos norte-americanos se encontra “completamente excluída do crescimento econômico desde os anos 70”. Cerca de 117 milhões de pessoas ganham, em média, o mesmo que ganhavam em 1980, enquanto a renda padrão dos 1% mais ricos quase triplicou. Essa disparidade é equivalente à diferença de renda média entre os Estados Unidos e a República Democrática do Congo, segundo os autores.
Johnson disse: “Se tivéssemos uma distribuição de renda mais igualitária, e muito mais dinheiro e energia investidos em educação pública, parques, lazer, artes e saúde, aliviaríamos boa parte do sofrimento da sociedade. Nós praticamente destruímos essas coisas.”
Enquanto as instituições públicas se deterioravam, a ansiedade da elite emergiu como um termômetro dos nossos apuros. “Por que esse pessoal tão poderoso que chega a causar inveja parece ter tanto medo?”, Johnson perguntou. “O que isso realmente quer dizer sobre o nosso sistema?” E concluiu: “É uma coisa muito esquisita. As pessoas que foram as melhores em prever o futuro – aquelas que têm mais recursos, porque é assim que ganharam seu dinheiro – são agora as que mais se preparam para puxar a cordinha do paraquedas e pular do avião.”
Em um fim de tarde frio no início de novembro, aluguei um carro em Wichita, Kansas, e dirigi rumo ao norte da cidade sob um sol oblíquo, cruzando os subúrbios e deixando para trás o último shopping center, onde o horizonte se transforma em campos agrícolas. Passadas algumas horas, pouco antes da cidade de Concordia, dobrei para o oeste, descendo uma estrada margeada por campos de milho e soja, ziguezagueando pela escuridão até que meus faróis iluminaram um grande portão de aço. Um guarda em trajes camuflados portava um rifle semiautomático.
Ele me conduziu para dentro e, na escuridão, pude enxergar a silhueta de um imenso domo de concreto com uma porta blindada de metal entreaberta. Fui recebido por Larry Hall, CEO do Projeto Condomínio da Sobrevivência, um complexo de quinze andares com apartamentos de luxo construído em um silo subterrâneo de mísseis Atlas. A estrutura armazenou uma ogiva nuclear de 1961 a 1965, quando foi desativada. Em um local projetado para a ameaça nuclear soviética, Hall erigiu uma fortificação contra os medos de uma nova era. “É um verdadeiro descanso para os ultrarricos”, afirmou. “Eles chegam aqui e sabem que há guardas armados lá fora. As crianças podem correr livremente.”
Hall teve a ideia há cerca de dez anos, quando leu que o governo federal voltava a aplicar recursos em planejamento para catástrofes, investimento que havia diminuído depois da Guerra Fria. Durante os ataques de 11 de Setembro, a gestão Bush acionou um plano de “continuidade do governo”, transportando para redutos fortificados, em helicóptero e ônibus, funcionários selecionados – depois de anos em desuso, porém, os computadores e outros equipamentos nos bunkers já estavam ultrapassados. Bush exigiu atenção renovada aos planos de continuidade, e a Fema promoveu treinamentos anuais em todas as instituições do governo. (O Eagle Horizon, em 2015, simulou furacões, armas nucleares improvisadas, terremotos e ciberataques.)
“Comecei a pensar: Ei, espere aí, o que o governo sabe que nós não sabemos?”, disse Hall. Em 2008, ele comprou o silo por 300 mil dólares e concluiu a construção em dezembro de 2012, a um custo de quase 20 milhões de dólares. Criou doze apartamentos privados: as unidades que ocupam um andar inteiro foram anunciadas a 3 milhões de dólares; as que compartilham o mesmo pavimento custavam a metade. Ele vendeu todas, menos uma, que ficou com ele.
A maioria dos preparadores não chega a possuir bunkers – abrigos fortificados são caros e de construção complicada. O silo original do complexo de Hall foi projetado pelo Corpo de Engenheiros do Exército Americano para resistir a um ataque nuclear. O interior é capaz de abrigar até 75 pessoas. O estoque de comida e combustível é suficiente para cinco anos de autonomia. A criação de tilápias em tanques e a plantação de vegetais hidropônicos sob lâmpadas específicas, de energia renovável, podem funcionar indefinidamente. Numa crise, seus camburões de guerra estilo Swat (“o Pit-Bull VX, blindado para suportar munição de calibre até .50”) irão buscar qualquer proprietário num raio de 640 quilômetros. Moradores que possuem aviões particulares podem aterrissar em Salina, a cerca de 50 quilômetros. Para Hall, o Exército fez o trabalho mais difícil ao escolher a localização. “Eles consideraram fatores como a altura acima do nível do mar, a sismologia da área, a proximidade de grandes centros urbanos”, afirmou.
Aos quase 60 anos, Hall é um homem fortão e falante. Estudou administração e ciência da computação no Instituto de Tecnologia da Flórida e especializou-se em redes e central de dados para as empresas Northrop Grumman, Harris Corporation e outros fornecedores militares. Hoje ele vive entre o silo no Kansas e uma casa no subúrbio de Denver, onde sua mulher, uma assistente jurídica, mora com o filho do casal, de 12 anos.
Hall me conduziu ao longo do estacionamento, descendo uma rampa e chegando a uma sala de estar com lareira de pedra, uma área de refeições e uma cozinha à parte. O espaço tinha um quê de condomínio de esqui sem janelas: mesa de bilhar, eletrodomésticos de aço inoxidável, sofás de couro. A fim de aproveitar melhor o espaço, o idealizador se inspirou no design de navios de cruzeiro. Fomos acompanhados por Mark Menosky, um engenheiro que cuida das operações cotidianas. Enquanto o jantar era preparado – bife, batata assada e salada –, Hall disse que a parte mais difícil foi aprender a manter a vida nos subterrâneos. Ele estudou como evitar a depressão (aumentar a iluminação), prevenir a formação de patotas (fazer rodízio de tarefas) e simular a vida lá em cima. As paredes são equipadas com “janelas” de LED que exibem imagens em tempo real da pradaria localizada acima do condomínio. Mas os proprietários também podem optar por florestas de pinheiros ou outras paisagens. Uma potencial compradora de Nova York queria vídeos do Central Park. “As quatro estações, dia e noite”, explicou Menosky. “Ela queria os sons, os táxis e as buzinas.”
Alguns sobrevivencialistas criticam Hall por ter criado um refúgio exclusivo para ricos e já ameaçaram tomar posse do bunker em caso de crise, possibilidade que o administrador descartou quando eu a mencionei. “Você pode cravar quantas balas quiser aqui.” Se necessário, os guardas irão contra-atacar, ele afirmou. “Temos um posto de atiradores de elite.”
Recentemente conversei por telefone com Tyler Allen, um incorporador imobiliário de Lake Mary, Flórida, que me disse ter pago 3 milhões de dólares por um dos apartamentos de Hall. Allen afirmou que teme que os Estados Unidos estejam diante de um futuro de “conflitos sociais” e esforços governamentais para enganar o povo. E suspeita que a entrada do vírus Ebola no país foi facilitada com o propósito de enfraquecer a população. Quando perguntei como seus amigos costumavam reagir a essas ideias, ele disse: “Em geral eles dão uma gargalhada porque isso os assusta.” Mas, acrescentou, “minha credibilidade subiu às alturas. Dez anos atrás, parecia loucura que tudo isso iria acontecer: a inquietude social, a divisão cultural no país, as acusações de racismo e a incitação do ódio”. E como ele planejava sair da Flórida e chegar ao Kansas em caso de crise? “Se uma bomba nuclear explodir em Miami, todos vão ficar em casa ou se reunir em bares, grudados à televisão. Bem, você tem 48 horas para dar no pé.”
Allen observou que a decisão de se precaver carrega um estigma injusto. “Ninguém bota um chapéu de papel-alumínio na sua cabeça se você é o presidente e vai para Camp David”, afirmou, referindo-se à instalação militar que serve de casa de campo ao presidente dos Estados Unidos. “Mas se você tem recursos e toma providências para proteger sua família em caso de emergência, é coroado imediatamente com um chapéu de papel-alumínio.”
Por que nossos impulsos distópicos afloram em certos momentos e não em outros? O Juízo Final – como profecia, gênero literário e oportunidade de negócios – nunca é estático, ele evolui conforme nossas ansiedades. Os primeiros colonizadores puritanos viam na impressionante exuberância das terras norte-americanas tanto a possibilidade do apocalipse quanto do paraíso. Quando, em maio de 1780, uma escuridão repentina cobriu a Nova Inglaterra, os camponeses a interpretaram como um cataclismo que anunciava a volta de Jesus. (Na verdade, a escuridão foi provocada por gigantescos incêndios em Ontário.) O escritor D. H. Lawrence diagnosticou uma variedade específica de apreensão americana. “Condenação! Condenação! Condenação!”, escreveu em 1923. “Algo parece sussurrar essa palavra em meio às árvores muito escuras da América.”
Historicamente, nosso fascínio pelo Fim aflorou em momentos de insegurança política e rápidas mudanças tecnológicas. “No término do século XIX, havia toda espécie de romances utópicos, cada um acompanhado por um romance distópico”, disse Richard White, historiador da Universidade Stanford. O romance Daqui a Cem Anos, de Edward Bellamy, publicado em 1888, retratava um paraíso socialista no ano 2000 e tornou-se uma sensação, inspirando clubes Bellamy por todo o país. De modo inverso, Jack London, em 1908, publicou O Tacão de Ferro, no qual imagina um país sob uma oligarquia fascista em que “nove décimos de 1%” concentram “70% de toda a riqueza”.
Na época, os americanos estavam maravilhados com os avanços da engenharia – os visitantes da Feira Mundial de 1893, em Chicago, contemplaram novas utilidades para a luz elétrica –, mas também protestaram contra salários baixos, más condições de trabalho e ganância corporativa. “Era um pouco como hoje”, disse White. “Havia a sensação de que o sistema político tinha saído dos trilhos e não era mais capaz de lidar com a sociedade. Havia uma enorme desigualdade de riqueza e uma agitação das classes trabalhadoras. A expectativa de vida estava diminuindo. Havia a sensação de que o avanço da América se interrompeu e que a coisa toda ia desmoronar.”
Os gigantes dos negócios se sentiam cada vez mais incomodados. Em 1889, Andrew Carnegie, que estava a caminho de se tornar o homem mais rico do mundo, com um patrimônio de mais de 4 bilhões de dólares (em cifras atuais), escreveu preocupado sobre as tensões de classe, criticando o surgimento de “castas rígidas” que viviam em “mútua ignorância” e “mútua desconfiança”. John D. Rockefeller, da Standard Oil, o primeiro bilionário de verdade dos Estados Unidos, sentiu um dever cristão de retribuir. “A novidade de ser capaz de comprar o que quiser passa rápido”, escreveu em 1909, “porque o que as pessoas mais procuram não pode ser comprado.” Carnegie se dedicou a lutar contra o analfabetismo, criando quase 3 mil bibliotecas públicas. Rockefeller fundou a Universidade de Chicago. De acordo com Joel Fleishman, autor de The Foundation, um estudo sobre a filantropia nos Estados Unidos, ambos se dedicaram a “transformar os sistemas que em primeiro lugar produziam essas enfermidades”.
Durante a Guerra Fria, o Armagedom era assunto de políticos. A Administração Federal da Defesa Civil (FCDA), criada por Harry Truman, emitiu instruções muito incisivas sobre como sobreviver a um ataque nuclear, que incluíam “pular em qualquer fosso ou vala próxima” e “nunca perder a cabeça”. Em 1958, Dwight Eisenhower deu início ao Projeto Ilha Grega, a construção de um refúgio secreto nas montanhas da Virgínia Ocidental que era grande o bastante para abrigar todos os membros do Congresso. Oculto por mais de trinta anos nos subterrâneos do Greenbrier Resort, em White Sulphur Springs, o abrigo conservou quartos privados à espera dos membros da Câmara e do Senado. (Hoje o Congresso não revela o local em que planeja se abrigar.) Havia também um plano secreto para resgatar da Biblioteca do Congresso o Discurso de Gettysburg, de Abraham Lincoln, e, dos Arquivos Nacionais, a Declaração da Independência.
Em 1961, porém, John F. Kennedy encorajou “todos os cidadãos” a ajudar a construir abrigos antinucleares, dizendo, num pronunciamento na tevê: “Sei que é o mínimo que vocês fariam.” Em 1976, aproveitando-se do medo da inflação e do embargo do petróleo árabe, o editor de extrema direita Kurt Saxon lançou The Survivor [O Sobrevivente], um influente boletim mensal que celebrava as habilidades pioneiras esquecidas. (Saxon alega ter inventado o termo “sobrevivencialista”.) A crescente bibliografia sobre o declínio e a autoproteção incluía How to Prosper During the Coming Bad Years [Como Prosperar nos Péssimos Anos Vindouros], um best-seller de 1979 que recomendava estocar ouro sob a forma de krugerrands, as moedas sul-africanas. O “boom-colapso”, como ficou conhecido, cresceu durante a gestão de Ronald Reagan. O sociólogo Richard G. Mitchell Jr., professor emérito da Universidade do Estado do Oregon, que passou doze anos estudando o sobrevivencialismo, afirmou: “Durante a era Reagan, pela primeira vez na vida – e eu tenho 74 anos –, nós ouvimos das mais altas autoridades do país que o governo falhou conosco, que as formas coletivas e institucionais de resolver problemas e entender a sociedade não eram boas. As pessoas disseram: ‘O.k., o governo é imperfeito. O que eu faço agora?’”
O movimento ganhou nova força depois que a gestão de George W. Bush falhou em lidar com a tragédia do furacão Katrina. Neil Strauss, um ex-repórter do New York Times que descreve sua adesão ao sobrevivencialismo em Emergência: Este Livro Vai Salvar Sua Vida, me explicou: “Nós vimos o exemplo de Nova Orleans – o governo sabia que um desastre estava acontecendo e foi incapaz de salvar seus próprios cidadãos.” Strauss se interessou pelo assunto um ano depois do Katrina, quando um empreendedor de tecnologia que estava tendo aulas de voo e arquitetando planos de fuga o apresentou a um grupo de “preparadores bilionários e multimilionários” com ideias afins. Strauss adquiriu cidadania da ilha de São Cristóvão, no Caribe, converteu ativos em moeda estrangeira e aprendeu a sobreviver com “nada além de uma faca e a roupa do corpo”.
Hoje em dia, sempre que a Coreia do Norte conduz um teste nuclear, Hall recebe mais chamados a respeito de vagas no Projeto Condomínio da Sobrevivência. Mas ele vê nessa procura um motivo mais profundo. “Setenta por cento do país não aprova o rumo que as coisas estão tomando”, disse. Depois do jantar, Hall e Menosky me levaram para um tour. O complexo é um cilindro alto que parece uma espiga de milho. Alguns andares só comportam apartamentos privados, outros oferecem instalações compartilhadas: piscina com 22 metros de comprimento, parede de escalada, “parque para animais de estimação” com grama artificial, sala de aula com computadores Mac, academia, sala de cinema e biblioteca. Parecia compacto, mas não claustrofóbico. Visitamos um arsenal cheio de armas e de munição para o caso de um ataque de não membros, e depois uma sala de paredes nuas com um banheiro. “Podemos trancar pessoas aqui e lhes dar um tempo para pensar em suas ações”, Hall afirmou. Em geral, as regras são estabelecidas por uma associação de moradores, que pode votar por alterações. Durante uma crise, ou uma “situação de vida ou morte”, todos os adultos seriam obrigados a trabalhar quatro horas por dia e não poderiam sair sem permissão. “Há um controle de acesso de entrada e saída, regulado pelo conselho diretor”, explicou.
A “ala médica” conta com cama de hospital, mesa de procedimentos e cadeira de dentista. Entre os moradores, afirmou Hall, “temos dois médicos e um dentista”. No andar de cima, visitamos a área de armazenamento de alimentos, ainda inacabada. Hall espera que, quando abastecida, se pareça com um supermercado de orgânicos do tipo “Whole Foods em miniatura”, mas por enquanto ela contém basicamente comida enlatada.
Paramos num apartamento cujo pé direito tinha quase três metros de altura; dispunha de um cooktop com forno de última geração e uma lareira a gás. “Esse cara queria ter uma lareira de sua terra natal” – Connecticut –, “então ele mandou trazer o granito”, contou Hall. Outro proprietário, que tem uma casa nas Bermudas, exigiu que as paredes de seu apartamento-bunker fossem pintadas em tons insulares – laranja, verde, amarelo –, mas, quando viu o resultado, achou opressivo. Seu decorador teve de dar um jeito.
Naquela noite, dormi num quarto de hóspedes equipado com frigobar e belos armários de madeira, mas sem janelas de vídeo. Era assustadoramente silencioso, e me senti num submarino bem mobiliado.
Saí do quarto lá pelas oito da manhã seguinte e encontrei Hall e Menosky na área comum, tomando café e assistindo a um resumo de notícias da campanha presidencial no programa Fox & Friends. Estávamos a cinco dias das eleições e Hall, que é republicano, se disse um cauteloso partidário de Trump. “Dos dois que estão concorrendo, espero que a agudeza dele para os negócios neutralize um pouco o lado precipitado.” Assistindo aos comícios de Trump e Clinton pela tevê, Hall se impressionou com o tamanho e o entusiasmo da multidão pró-Trump. “É que não confio nas pesquisas”, disse.
Ele, que considera tendenciosos os grandes veículos de imprensa, endossa teorias que muitos julgam implausíveis. E suspeita da existência de “um movimento deliberado do Congresso para emburrecer os Estados Unidos”. Por que o Congresso faria isso? “Eles não querem que as pessoas sejam espertas o bastante para enxergar o que está acontecendo na política.” Contou ter lido um prognóstico de que 40% dos congressistas serão presos devido a um esquema envolvendo os Panama Papers, a Igreja Católica e a Clinton Foundation. “Estão trabalhando nessa investigação há vinte anos”, afirmou. Perguntei se ele de fato acreditava naquilo. “De início você escuta essas coisas e pensa: ‘Será mesmo?’”, ele disse. Mas não chegava a descartá-las.
Antes de voltar para Wichita, ainda visitei o projeto mais recente de Hall: um outro complexo subterrâneo localizado num silo a 40 quilômetros de distância. Enquanto estacionávamos, um guindaste pairava sobre nós, içando entulho das profundezas. O complexo será três vezes maior que o primeiro, em parte porque o estacionamento será transferido para uma estrutura separada. Entre outros acréscimos, uma pista de boliche e janelas de LED tão grandes quanto portas, a fim de criar uma sensação de amplitude.
Hall disse que estava trabalhando em bunkers privados para clientes em Idaho e no Texas, e que duas empresas de tecnologia pediram que ele projetasse “uma instalação protegida para a sua central de dados e um refúgio seguro para os funcionários mais importantes, caso algo acontecesse”. A fim de atender à demanda, ele já providenciou a compra de mais quatro silos.
Se um silo no Kansas não for remoto ou privado o suficiente, há uma alternativa. Na primeira semana após a eleição de Donald Trump, 13 401 americanos se registraram junto às autoridades de imigração da Nova Zelândia, o primeiro passo oficial para obter residência no país – uma cifra dezessete vezes maior que o normal. O New Zealand Herald registrou o aumento sob a manchete “APOCALIPSE DE TRUMP”.
Na verdade, o fluxo começou bem antes da vitória de Trump. Nos primeiros dez meses de 2016, estrangeiros compraram em torno de 3 600 quilômetros quadrados de terras na Nova Zelândia – cifra mais de quatro vezes maior do que a adquirida no mesmo período no ano anterior, segundo o governo. Os compradores americanos ficaram em segundo lugar, só atrás dos australianos. O governo dos Estados Unidos não mantém registro dos cidadãos que possuem uma segunda ou terceira casa no exterior. Assim como a Suíça já atraiu os americanos com promessas de sigilo e o Uruguai os seduziu com bancos privados, a Nova Zelândia oferece segurança e isolamento. Nos últimos seis anos, quase mil estrangeiros obtiveram residência no país, com a ajuda de programas que exigiam investimentos de no mínimo 1 milhão de dólares.
O norte-americano Jack Matthews, presidente da MediaWorks, uma grande emissora neozelandesa de rádio e tevê, disse: “Acho que, francamente, na cabeça das pessoas, se o mundo realmente for à merda, a Nova Zelândia é um país de Primeiro Mundo e totalmente autossuficiente, se necessário – energia, água, comida. A vida se deterioraria, mas não entraria em colapso.” Como alguém que acompanha a política norte-americana a distância, ele disse: “Em grande parte, a diferença entre a Nova Zelândia e os Estados Unidos é que as pessoas que discordam umas das outras ainda conseguem conversar. É um lugar minúsculo e não há anonimato. As pessoas realmente precisam ter certo grau de civilidade.”
Maior cidade da Nova Zelândia, Auckland fica a treze horas de voo de São Francisco. Desembarquei no início de dezembro, quando começava o verão: céu azul, temperatura na casa dos 20 graus, zero umidade. De cima a baixo, o arquipélago mede mais ou menos a distância entre o Maine e a Flórida, com metade da população da cidade de Nova York. As ovelhas superam as pessoas na proporção de sete para um. Nos rankings globais, a Nova Zelândia está entre os dez primeiros colocados em democracia, transparência do governo e segurança. (Seu último contato com o terrorismo foi em 1985, quando espiões franceses bombardearam um navio do Greenpeace.) Num relatório recente do Banco Mundial, superou Cingapura como melhor país do mundo para fazer negócios.
Na manhã seguinte à minha chegada, Graham Wall foi me buscar no hotel. Corretor de imóveis especializado em High Net Worth Individuals (HNWI – indivíduos de alto poder aquisitivo), o animado Wall conta entre seus clientes com Peter Thiel, o bilionário investidor em capitais de risco. Ele ficou surpreso ao saber que os americanos vinham justamente por causa do isolamento. “Os kiwis – apelido dos habitantes da Nova Zelândia – costumavam falar da ‘tirania da distância’”, ele disse, enquanto cruzávamos a cidade em seu Mercedes conversível. “Agora a tirania da distância é o nosso maior trunfo.”
Antes da viagem, havia me perguntado se passaria mais um tempo em bunkers de luxo. Peter Campbell, diretor-geral da Triple Star Management, uma empresa neozelandesa de construção, contou que, em geral, tão logo chegam, seus clientes americanos percebem a inutilidade de abrigos subterrâneos. “Você não tem necessidade de construir um bunker embaixo do seu gramado, pois está a milhares de quilômetros da Casa Branca”, afirmou. Os americanos têm outras demandas. “Heliportos são uma delas”, disse. “Você pode pilotar um jatinho até Queenstown ou Wanaka, e então um helicóptero o levará até a sua propriedade.” Os americanos também procuram conselhos estratégicos. “Eles perguntam: ‘Que lugar não será afetado a longo prazo pela elevação do nível do mar?’”
O crescente apetite dos estrangeiros por propriedades na Nova Zelândia gerou uma reação negativa. A Campanha Contra o Controle Estrangeiro de Aotearoa – o nome maori para a Nova Zelândia – opõe-se às vendas para estrangeiros. O interesse dos sobrevivencialistas americanos gerou um ressentimento generalizado. Numa discussão em The Modern Survivalist, um site de preparadores, um internauta escreveu: “Ianques, botem isso na cabeça. Aotearoa NZ não é o último paraíso na Terra.”
Um gestor de hedge fund com cerca de 40 anos, criado na Costa Leste – alto, bronzeado, atlético –, comprou recentemente duas casas na Nova Zelândia e adquiriu residência no país. Ele aceitou conversar, contanto que eu não publicasse seu nome. Para ele, os Estados Unidos irão enfrentar pelo menos uma década de distúrbios políticos, incluindo tensão racial, polarização e uma população envelhecendo rapidamente. “O país se voltou para Nova York e a Califórnia, mas a turma do meio é radicalmente diferente”, afirmou. Ele teme pela economia caso Washington se desdobre para subsidiar a previdência social e o plano de saúde de quem precisa. “E aí, deixa-se essa obrigação de lado? Ou se imprime mais dinheiro para dar a eles? O que acontece com o valor do dólar? Não é um problema imediato, mas também não é para daqui a cinquenta anos.”
A fama da Nova Zelândia de atrair profetas do apocalipse é tão conhecida no círculo dos gestores de hedge fund que ele prefere se diferenciar dos pioneiros. “Não se trata mais de um bando de esquisitões preocupados com o fim do mundo.” Deu risada e acrescentou: “A menos que eu seja um deles.”
Todos os anos, desde 1947, o Bulletin of the Atomic Scientists, uma revista fundada por membros do Projeto Manhattan, reúne um grupo de ganhadores do Nobel e outros luminares para atualizar o Relógio do Juízo Final, um medidor simbólico do risco de arruinar a civilização. Em 1991, conforme a Guerra Fria chegava ao fim, os cientistas ajustaram o relógio para o ponto mais seguro da história – dezessete minutos para a “meia-noite”.
Desde então, a direção do ponteiro tem sido pouco animadora. Em janeiro de 2016, após o aumento das tensões militares entre a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), além do registro do ano mais quente da história do planeta, o Bulletin ajustou o relógio para três minutos para a meia-noite, mesmo horário que exibia no ápice da Guerra Fria. Em novembro, após a vitória de Trump, a comissão se reuniu mais uma vez para realizar sua sigilosa discussão anual. O resultado, divulgado em 26 de janeiro, foi que optaram por mover o ponteiro para a frente em trinta segundos – a primeira vez que se usou uma fração de minuto –, um nível de alarme não testemunhado desde 1953, depois que os Estados Unidos fizeram o primeiro teste da bomba de hidrogênio.
O medo do desastre é saudável quando inspira ações para preveni-lo. Mas o sobrevivencialismo da elite não é um passo rumo à prevenção: é um ato de retraimento. A filantropia nos Estados Unidos ainda é três vezes maior, proporcionalmente ao PIB, do que a do país em segundo lugar do ranking, o Reino Unido. Mas agora é acompanhada por um gesto de rendição, uma silenciosa redução de investimentos por parte de alguns dos americanos mais poderosos e bem-sucedidos. Confrontados com evidências de fragilidade no projeto americano, nas instituições e nas leis das quais se beneficiaram, alguns estão se permitindo imaginar o fracasso. É um desespero banhado a ouro.
Como observou Huffman, do Reddit, nossas tecnologias nos deixaram mais atentos ao risco, mas também nos fizeram mais assustados; elas facilitam o impulso tribal de se encasular, de se isolar dos inimigos e de se fortalecer contra os nossos medos, em vez de atacar suas origens. Justin Kan, o investidor de tecnologia que fracassou em sua tentativa de estocar comida, evocou o telefonema recente de um amigo da área de hedge fund. “Ele me aconselhava a comprar um terreno na Nova Zelândia, só de reserva. Ele falava: ‘Quais as chances de Trump ser mesmo um ditador fascista? Podem até ser baixas, mas ter uma saída de emergência vale muito.”
Há outras formas de assimilar as ansiedades da nossa era. “Se eu tivesse 1 bilhão de dólares, não compraria um bunker”, afirmou Elli Kaplan, CEO da startup de saúde digital Neurotrack. “Reinvestiria na sociedade e em inovações civis. Sou da opinião de que se podem descobrir maneiras ainda mais inteligentes de impedir que algo terrível aconteça.” Kaplan, que trabalhou na Casa Branca na gestão de Bill Clinton, ficou chocada com a vitória de Trump, mas disse que isso de certo modo a estimulou: “Mesmo quando sinto o mais profundo medo, eu repito: ‘Nossa união é mais forte que isso.’”
Esse ponto de vista é, em última instância, uma questão de fé – uma certeza de que mesmo instituições políticas deterioradas são a melhor forma de chegar à vontade comum; são ferramentas para moldar e sustentar nosso frágil consenso. Acreditar nisso é uma escolha.
Telefonei para um sábio do Vale do Silício, Stewart Brand, o autor e empreendedor que Steve Jobs reconheceu ter sido sua inspiração. Nos anos 60 e 70, a revista de Brand, Whole Earth Catalog [Catálogo do Mundo Inteiro], atraiu uma legião de fãs com seus conselhos hippies e tecnológicos. (O lema: “Somos como deuses e podemos ser bons nisso, também.”) Brand disse que chegou a estudar o sobrevivencialismo nos anos 70, mas não por muito tempo: “No geral, acho estranha essa ideia de: ‘Meu Deus, o mundo está desabando.’”
Aos 78 anos, morando num rebocador em Sausalito, Brand se impressiona mais com exemplos de resiliência do que com indícios de fragilidade. Na última década, o mundo sobreviveu pacificamente à pior crise financeira desde a Grande Depressão; à epidemia do vírus Ebola, sem cataclismo; e, no Japão, a um tsunami e um acidente nuclear, depois dos quais o país seguiu em frente. Ele vê perigos no escapismo. À medida que os americanos se retraem em círculos cada vez menores de experiência, prejudicamos o “círculo maior de empatia”, ou seja, a busca por soluções para problemas compartilhados. “A pergunta mais fácil é: ‘Como proteger a mim mesmo e aos meus?’ A pergunta mais interessante é: ‘E se a civilização de fato conseguir perseverar, assim como ocorreu nos últimos séculos? O que fazemos se ela continuar capengando?’”
Depois de alguns dias na Nova Zelândia, entendi por que alguém pode querer se esquivar de ambas as perguntas. Numa manhã em Auckland, sob um céu azul resplandecente, embarquei num helicóptero com um americano de 38 anos chamado Jim Rohrstaff. Ao terminar a faculdade em Michigan, Rohrstaff trabalhou como golfista profissional e em seguida no mercado de clubes de golfe e propriedades. Otimista e confiante, com os olhos azuis muito vivos, ele havia se mudado para a Nova Zelândia dois anos e meio antes, com a mulher e os dois filhos, e virou corretor de imóveis para os HNWI que desejam fugir “para bem longe dos problemas do mundo”, ele disse.
Rohrstaff, que é coproprietário da Legacy Partners, uma agência imobiliária de luxo, queria que eu conhecesse o Tara Iti, um novo empreendimento residencial e clube de golfe que agrada sobretudo aos americanos. O helicóptero seguiu para o norte, do outro lado do porto, e subiu a costa em direção a florestas e campos exuberantes. Do alto, o mar era uma superfície brilhante e recortada pelo vento.
O helicóptero foi baixando devagar até um gramado próximo a um buraco de golfe. A nova comunidade de luxo terá 12 quilômetros quadrados de dunas e florestas, e 11 quilômetros de costa – serão apenas 125 casas. Conforme explorávamos a área em um Land Rover, ele deu ênfase ao isolamento: “De fora não se enxerga nada. É melhor para o público e para nós, por uma questão de privacidade.”
Quando nos aproximávamos do mar, Rohrstaff estacionou o Land Rover e desceu. Galgou as dunas e me conduziu pela areia, até chegarmos a uma faixa de praia que se estendia ao horizonte sem uma única alma visível.
As ondas rugiam sobre a costa. Ele esticou os braços, virou para mim e deu risada. “Acreditamos que este seja o lugar para se estar no futuro”, disse. Pela primeira vez em semanas – meses, até – eu não estava pensando em Trump. Nem em nada em particular.
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[1] O chapéu de papel-alumínio é uma indumentária clássica dos adeptos de teorias da conspiração, que julgam que o material é capaz de impedir a leitura de pensamentos e o controle mental a distância.