questões raciais
Flora Thomson-DeVeaux Ago 2017 20h45
31 min de leitura
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Passei a manhã do dia 12 de agosto numa cerimônia de quase três horas numa sinagoga de Chicago. Aquela era apenas uma das etapas da comemoração do casamento de minha irmã mais velha, Amelia, recém-convertida ao judaísmo. Crescemos numa família de orientação religiosa que podia ser descrita como agnóstica, e que flertava com uma ideologia hippie tardia. Talvez por isso, era ao mesmo tempo encantador e desconfortável vê-la ali, cantando em hebraico, carregando a Torá e sendo celebrada pelas mulheres de uma comunidade que eu mal conhecia.
Amelia tomou o cuidado de nos mandar uma detalhada lista de protocolos por e-mail, para que não cometêssemos nenhuma gafe. Uma das regras que ela mais frisou – porque conhece bem a família que tem – foi a de desligar os celulares antes de entrar no templo. Isso se devia não apenas ao respeito à cerimônia, mas também por ser um sábado, ou shabat, dia de descanso obrigatório para os judeus, em que o uso de aparelhos eletrônicos é proibido. Da sinagoga seguimos para um anexo, uma quadra de basquete temporariamente convertida em salão de festas, onde comi bagels e fiz social com tios e primos que não via há muito tempo, igualmente alienígenas naquele ambiente. Perdi a conta de quantas vezes respondi que, sim, tinha me casado e me mudado para o Rio de Janeiro, e do que tratava a minha tese em estudos brasileiros.
Quando notei a movimentação dos primeiros parentes rumo ao hotel, pensei que era aceitável que eu também escapasse, e finalmente pude religar o celular. Antes mesmo de abrir o aplicativo do Uber, comecei a receber uma enxurrada de mensagens em português. “Querida, você e a sua família estão bem?” “Essa é a sua cidade, mesmo?” “O que é que está acontecendo aí?” Confusa, abri o Twitter e percebi que a pequena cidade onde eu nasci, no estado da Virgínia, tinha virado uma hashtag. Meu feed de notícias já se enchia de mensagens de solidariedade, denúncia e horror. Os alertas do New York Times começavam a usar o nome da cidade como uma metonímia pouco lisonjeira para os terríveis eventos daquele dia.
Desde o início do ano, uma ou outra manifestação esparsa da extrema direita já havia ocorrido em Charlottesville. Fazendo uso de palavras de ordem racistas e antissemitas, esses grupos protestavam contra a decisão, tomada pela administração local em fevereiro, de remover a estátua equestre do general Robert Edward Lee, um dos líderes do exército sulino na Guerra Civil Americana – um monumento que, para muita gente, representava os valores racistas e segregacionistas do antigo Sul norte-americano.
A ordem para derrubar a homenagem ao general Lee foi contestada na Justiça, e temporariamente suspensa. Por enquanto, a estátua continua lá. Na véspera do casamento de minha irmã, quando já estávamos em Chicago, grupos de extrema direita voltaram a se manifestar no Centro histórico de Charlottesville, dessa vez em número bem maior. As imagens de homens brancos vestindo camisas polo e segurando tochas na noite correram o mundo. Naquela manhã, enquanto eu assistia à cerimônia com o celular desligado, houve novos protestos. Manifestantes contrários, inconformados com as desinibidas declarações racistas dos defensores da estátua, também se aglomeraram no Centro da cidade. Houve confrontos. No início da tarde, um sujeito jogou o próprio carro, em alta velocidade, contra um grupo de manifestantes de esquerda. Quase duas dezenas de pessoas ficaram feridas. Uma das vítimas do atropelamento, Heather Heyer, uma ativista de direitos civis de 32 anos, morreu.
As mensagens não paravam de chegar ao meu celular. Sem saber como respondê-las, decidi fechar os aplicativos de mensagem.
Em dezembro do ano passado me mudei enfim para o Rio de Janeiro, depois de seis anos com um pé no meu país de origem, e outro no de adoção. Minha cidade não faz parte do imaginário coletivo brasileiro, e meus novos amigos, de modo geral, não sabiam nada sobre ela, nem sequer onde ela fica exatamente. A formulação vaga de que era “uma cidadezinha no meio da Virgínia” sempre me pareceu insuficiente. Durante minha primeira estadia no Rio, cheguei a carregar na carteira uma moeda de cinco centavos de dólar, o nickel, e mostrá-la como resposta. A cara de Thomas Jefferson tem como coroa uma imagem de Monticello, a casa erigida por ele. A construção fica no cume de uma montanha: seu nome vem do italiano e significa, justamente, “pequeno monte”. Logo abaixo do morrote está Charlottesville.
Embora pudesse ser estranho apontar para o monumento da moedinha a fim de explicar que 50 mil almas residiam logo ali embaixo, foi a forma torta que encontrei para dizer que eu vinha de um lugar que tinha alguma importância. Fica no sul, eu dizia, mas não no sul de verdade. O que eu queria dizer era: é uma cidade progressista, cravada quase por acaso numa das regiões historicamente mais conservadoras dos Estados Unidos. Até pouco tempo atrás, o município aparecia nos mapas eleitorais do estado como uma pontinha azul-democrata no meio de um mar vermelho-republicano. Acumulava títulos como “a cidade mais feliz dos Estados Unidos” e “o melhor lugar para se morar”. Um tipo de notícia que não vira manchete, e que não parece ter grande interesse a não ser para seus próprios habitantes.
Foi então que, no dia 12 de agosto, meu verso de moedinha deixou seu relativo anonimato para ganhar notoriedade. Como explicar que a cidade tinha se tornado sinônimo de ódio racial? As notícias que embrulhavam o meu estômago não chegavam a me surpreender totalmente. Mas não era fácil explicar por que numa mensagem de WhatsApp. Para algumas pessoas, respondi que eu estava bem, que a minha família também, e que preferia conversar melhor depois. Parei de abrir o Facebook para evitar o estranhamento de ver Charlottesville citada em textões em português.
Esta é uma tentativa de resposta. Hesitei um pouco antes de escrever sobre a questão racial em Charlottesville porque deixei a cidade ainda adolescente, como a maior parte dos norte-americanos, com o objetivo de cursar a faculdade em outro lugar. Todas as minhas experiências importantes por lá aconteceram quando eu ainda era criança, uma criança branca e relativamente alheia às tensões e desigualdades que faziam parte da minha cidade natal. Foi só quando voltei do Brasil, já adulta, que comecei a entender melhor o lugar que tinha me formado.
Nasci na antiga Charlottesville, hoje #charlottesville, por culpa da Universidade da Virgínia. Em outros tempos, ou em outro lugar, meus pais poderiam ter sido chamados de carpetbaggers, ou gente do norte que ia ganhar a vida no sul. Eles cresceram na Pensilvânia, estudaram em Nova Jersey e na Califórnia, e só se mudaram para Charlottesville quando meu pai foi contratado como professor de história do jazz, no começo dos anos 80. Minha mãe terminou o doutorado quando eu tinha 5 anos, e logo começou a dar aula de política ambiental na mesma universidade. Tudo girava em torno do campus e, nas minhas memórias mais remotas, ele parecia uma extensão da minha casa. Eu corria pelo imenso gramado, entre as colunas neoclássicas do edifício imponente onde fica até hoje a sala do meu pai, e escalava uma estátua do poeta grego Homero para me encaixar perfeitamente em seu colo.
Não muito longe da figura de Homero fica a estátua do onipresente Thomas Jefferson – “o padroeiro de Charlottesville”, como eu costumava brincar. Tinha sido ele o responsável por criar, em 1819, aquele idílio acadêmico, ao decidir fundar ali – e não na capital, Richmond – a Universidade da Virgínia, projetando um campus concentrado e longe das distrações de uma cidade grande. A diversificada biografia de Jefferson parecia sob medida para agradar todo mundo. Foi ele o autor da Declaração de Independência e o nosso terceiro presidente, além de ter negociado a compra do território da Louisiana – ou a maior parte do que hoje é o oeste dos Estados Unidos – de um Napoleão falido. Jefferson era um rebelde, um diplomata, um arquiteto. Foi só na esteira de #charlottesville que anunciaram: seu memorial em Washington seria atualizado para que constasse que o herói da Independência também tinha sido um senhor de escravos.
Num dos vários acampamentos de verão da minha infância – para onde meus pais despachavam a mim e a minha irmã para terem um pouco de sossego – fui com um grupo de crianças para Monticello. Uma das lembranças mais fortes que tenho daquela excursão é da tarde que passamos desenterrando batatas na horta de uma das casinhas próximas à grande mansão de Thomas Jefferson. Os monitores provavelmente devem ter comentado que aquelas casinhas funcionavam como senzala, mas aos 7 anos eu estava mais interessada em chafurdar na terra em busca dos pequenos tubérculos. Alguns anos mais tarde, escavações descobriram um cemitério de escravos naquele terreno. Na mesma época, exames de DNA provaram que Jefferson teve filhos com uma das escravas, Sally Hemings, que era também meia-irmã de sua esposa.
Fora do campus da Universidade da Virgínia, espalhadas pela cidade, há algumas estátuas de homens em posição de combate, montados ou não em um cavalo, que me pareciam pouco interessantes. Conforme eu ia crescendo, provavelmente por influência do feminismo da minha mãe e da minha irmã, comecei a implicar com um monumento em especial, num dos cruzamentos mais importantes do Centro. Tratam-se de três figuras de bronze: em primeiro plano, varonis, estão Meriwether Lewis e William Clark, os dois homens encarregados pelo já presidente Jefferson de desbravarem o oeste. Em segundo plano, quase escondida atrás deles, está Sacagawea, a intérprete indígena que acompanhava a expedição e que passou para a história como a grande auxiliar dos dois aventureiros.
Minha irritação não chegou a se converter em ação concreta. Eu passei a entender os monumentos como uma relíquia estranha, parte da paisagem de um sul que não existia mais, como os velhos que ainda se referem à Guerra Civil Americana como “a guerra de agressão do Norte”. O desejo do Sul de manter a escravidão – a base de sua economia agrícola – foi um dos principais motivos para que, em 1861, onze estados se declarassem uma confederação independente. O Norte, onde ficava a sede do governo federal e por isso se intitulava “a União”, lutou para subjugá-los e terminou por vencer o conflito, quatro anos mais tarde. Antes disso, contudo, ainda em meio aos combates, em 1863, o então presidente Abraham Lincoln decidiu libertar a população escravizada no território rebelde. Para alguns no Sul, a abolição não passava de um truque sujo no meio do que seria essencialmente um conflito regional.
Pelo fato de o regime escravagista caracterizar os estados confederados, seus símbolos têm sido vistos não apenas como homenagens à história deste pedaço do país – como São Paulo tem, até hoje, a avenida Nove de Julho e o Obelisco, comemorando a Revolução de 1932 –, mas tidos como emblemas explicitamente racistas. Embora parte dos sulistas negue essa associação e reivindique o direito de honrar seus antepassados, o fato é que monumentos a heróis confederados e a própria bandeira da confederação começaram a proliferar em momentos da história em que a população negra tentava ganhar mais representação política. Eu não sabia, por exemplo, que as estátuas da minha cidade não eram da época da guerra. Tinham sido instaladas só na década de 20, e a inauguração de algumas delas fora acompanhada de celebrações de simpatizantes do governo escravagista – entre eles a famigerada Klu Klux Klan.
Assim como a Estátua da Liberdade, em Nova York, e o Cavalo de Troia, na narrativa homérica, parte significativa dessas estátuas havia sido presenteada à cidade. O doador de várias delas, Paul G. McIntire, nasceu em Charlottesville em 1860, onde, ainda criança, testemunhou a invasão das vitoriosas tropas federais. Chegou a matricular-se na Universidade da Virgínia, mas não chegou a concluir o curso superior, e acabou se mudando para Nova York, onde fez fortuna investindo na Bolsa de Valores. McIntire patrocinou a construção de parques e espalhou monumentos pela cidade. Além da obra colonialista e machista que homenageia Lewis & Clark, saiu da cabeça dele a ideia de colocar dois generais confederados, naturais da Virgínia, em pedestais: Stonewall Jackson e Robert E. Lee. De certa forma é irônico que esta última tenha se convertido no estopim do confronto entre supremacistas brancos e progressistas em geral que colocou Charlottesville nas manchetes. Consta que o próprio Lee – chefe da maior força militar dos confederados e responsável pela assinatura da rendição à União – teria deixado expresso seu desejo de que não houvesse quaisquer monumentos ou memoriais à Guerra Civil. O fato é que ninguém tem controle sobre o próprio legado.
Antepassados meus lutaram dos dois lados da guerra, mas a minha família já não reivindica a bandeira confederada como parte de nossa herança há algumas gerações. Tenho uma lembrança vívida de visitar o museu de Gettysburg, a poucos quilômetros da casa da minha avó materna e palco de uma das principais derrotas do exército confederado. Minha atração preferida ficava em um quarto escuro: era uma maquete com colinas e declives tridimensionais, que representava o campo de batalha. À medida que uma voz grave narrava o movimento das tropas, lampadinhas vermelhas se acendiam e apagavam, identificando a mudança de localização dos confederados, enquanto lampadinhas azuis correspondiam às tropas da União. Eu me lembro da minha excitação ao ver as luzinhas vermelhas serem forçadas a se apagar. Nessa batalha, um dos antepassados do meu pai, um confederado da Virgínia, foi capturado e mandado como prisioneiro de guerra para um campo em Nova York.
Só depois de adulta me dei conta do absurdo de outra memória da mesma época. Constava do nosso calendário escolar a celebração de um feriado de nome um tanto quanto esquisito: o Lee-Jackson-King Day. A homenagem tripla se devia ao fato de os generais sulistas Robert E. Lee e Stonewall Jackson, bem como o reverendo Martin Luther King Jr., terem sido bebês de janeiro – nascidos nos dias 19, 21 e 15, respectivamente.
Os aniversários de Lee e Jackson já vinham sendo comemorados juntos na Virgínia desde o início do século XX, mas o pastor King não foi reconhecido como digno de ser celebrado pelo estado até 1983. Depois de anos de pressão, em vez de homenageá-lo com o seu próprio dia, alguém achou que era uma boa ideia incorporar o mártir da luta pelos direitos civis na mesma comemoração dos dois generais confederados. Posso imaginar os três se revirando nos túmulos, mas não consigo me lembrar de como os professores rebolaram para nos explicar, na escola, esse trio historicamente impossível. Só quando eu tinha 8 anos, no ano 2000, os aniversários dos generais foram separados do de King.
Faz pouco tempo, Charlottesville tomou afinal a iniciativa de parar de celebrar o dia de Lee-Jackson. A decisão de excluí-los do calendário oficial local em grande medida correspondia ao perfil da nossa comunidade. Como uma parte cada vez maior da população de Charlottesville passou a ter algum vínculo com a universidade, bastante renomada, isso acabou impondo à cidade pacata um aparelhamento de metrópole – programação cultural agitada, boa comida étnica e lojas hipsters – além de uma ideologia progressista típica de comunidades universitárias, bastante diferente do seu entorno imediato. Os moradores costumam dizer que Charlottesville tem o melhor de uma cidade grande sem precisar abrir mão do sossego de uma cidade do interior.
Boa parte dos meus anos de Charlottesville se passou dentro de alguma escola. E a história das escolas públicas de Charlottesville é em si mesma uma história da segregação racial e de sua perpetuação, nisso não muito diferente do resto do sul do país – uma história da lenta e dolorosa marcha da cidade para se desvencilhar do seu passado.
Fiz o jardim de infância num imponente prédio de tijolos, sustentado por grandes colunas brancas não muito diferentes das da universidade. A escola se chama Venable Elementary, e foi só agora, pesquisando para escrever este ensaio, que soube que o nome homenageia um oficial confederado, Charles Scott Venable, que também tinha sido matemático e professor da universidade. Quando contei a descoberta ao meu pai, ele só assentiu com a cabeça. “Você sabia?”, perguntei, algo traída. “Confederado aqui, confederado ali, eles estão por todo lado”, ele respondeu.
Venable foi inaugurada em 1925 como uma escola exclusivamente branca. Os livros de história contam que a Suprema Corte proibiu a segregação das escolas em 1954, mas a integração não aconteceu imediatamente em todo o país. O estado da Virgínia foi um dos que resistiram a fazer valer a decisão, postergando a mistura entre alunos brancos e negros enquanto pôde. Três anos depois da decisão da corte, o governador Lindsay Almond foi eleito com uma campanha cujo lema era Never – integração nunca. Uma votação da Câmara estadual abriu uma brecha na legislação permitindo que se fechassem as escolas em vez de integrá-las, e foi isso o que aconteceu em 1958. Venable ficou sem aulas durante cinco meses antes de afinal aceitar receber uma dúzia de alunos negros. Uma década depois da minha graduação, a escola instalou uma placa em memória do “Triunfo dos Doze de Charlottesville”.
Eu tinha mais amigos brancos do que negros na escola primária, e talvez seja honesto dizer que nem eram tantos amigos assim. Fui uma criança precoce, e acabei pulando o 2º ano por sugestão dos meus professores, o que só me isolou ainda mais. Eu era um bicho estranho em qualquer grupo, obcecada com minúcias sobre a realeza inglesa – e não estou falando de princesa Diana & companhia, mas de façanhas das dinastias Tudor e Stuart.
Em algum momento no meio da escola primária, fui selecionada para fazer parte de um curso semanal para alunos com habilidades especiais. Enquanto nas aulas normais tocávamos flauta doce e aprendíamos a tabuada, nessa o professor nos desafiava a construir sistemas para amortecer um ovo jogado do 3º andar, desenhar labirintos e fazer parte de equipes que tentavam resolver conflitos internacionais para chegar à paz mundial. A aula especial tinha menos alunos, mas o grupo também era menos negro. Anos mais tarde, soube que a mãe de uma amiga, que era professora de uma aula parecida numa escola majoritariamente negra, precisou reclamar seguidas vezes com a direção quando percebeu que os professores só indicavam alunos brancos para a matéria dela.
Aos 12* anos, passei a frequentar a middle school, que, ao contrário das minhas escolas anteriores, ficava num bairro distante, que eu não conhecia. Enquanto cochilava no ônibus escolar rumo a “mais um dia de inferno na Terra”, como descrevi a experiência daqueles anos num diário, passava por partes da cidade que me eram estranhas, inclusive um complexo de apartamentinhos em tijolo perto da linha do trem, num terreno em declive. Não sabia que em 1964, ano da assinatura da Lei dos Direitos Civis, que baniu a segregação racial e a discriminação laboral, o governo de Charlottesville tinha começado a destruir Vinegar Hill, o bairro negro no coração do Centro histórico. Apoiado num discurso de melhoria de infraestrutura – que soa muito familiar no contexto brasileiro, nas medidas higienistas e de “revitalização” de Pereira Passos a João Doria –, a cidade decidira desocupar a região. O bota-abaixo charlottesvilliano destruiu as casas de centenas de pessoas e pôs fim a 29 negócios cujos donos eram negros. Westhaven, o complexo de casinhas por onde meu ônibus passava, era o conjunto habitacional oferecido aos que tinham sido expulsos.
A escola secundária, Charlottesville High School, teve que ser construída em 1974, depois que o antigo colégio branco se revelou pequeno demais para todos os adolescentes da cidade. O corpo estudantil era o mais misturado das escolas da região, aproximadamente metade negro e metade branco. Todos entrávamos pelas mesmas portas da frente, mas durante o resto do dia vivíamos um conto de duas cidades.
O processo de tracking, ou a colocação de alunos em aulas de dificuldade variada, tinha começado anos antes, separando os estudantes em faixas que correspondiam supostamente ao seu talento escolar, mas que espelhava e reforçava as barreiras de classe e de raça do resto da cidade. Quase todas as minhas matérias eram designadas como honors ou advanced placement, o que significava que elas equivaliam, em dificuldade, aos cursos dados na universidade. A vasta maioria dos meus colegas nessas aulas era branca. Na high school que frequentei, a orquestra da escola tocava em Nova York e Londres, e os alunos disputavam vagas nas universidades da Ivy League. Na outra high school, dentro do mesmo prédio, foram instaladas câmeras nos corredores, e a taxa de abandono escolar crescia. Em vez de Harvard ou Yale, ou até a Universidade da Virgínia, os conselheiros tendiam a indicar cursos técnicos para essa turma. Uma amiga minha, Jo Blount, uma das poucas negras que frequentava as aulas avançadas, e que também jogava na equipe de basquete do colégio, me contou de um incidente ocorrido depois de uma partida em que nossa escola venceu o time de uma das mais brancas da região. “Well”, disse uma das integrantes da equipe perdedora, “vocês podem ser boas de basquete, mas pelo menos nós vamos nos formar.”
Uma imagem em particular sempre me vem à mente quando penso nessas escolas gêmeas. No anuário do meu último ano há uma foto de boa parte da minha turma, posando num dos pátios do colégio e olhando para a fotógrafa no 2º andar. O conjunto é quase metade negro, metade branco, e é impossível não perceber a linha imaginária que separa os dois grupos. Ninguém tinha nos organizado daquela forma. Nós apenas nos dirigimos ao pátio e nos posicionamos ao lado dos nossos amigos e companheiros de turma. De alguma forma, nós tínhamos sido alinhados daquele jeito havia muito tempo.
A minha origem e a minha experiência escolar nunca pareceram relevantes no Brasil. Não tenho parentes brasileiros; só descobri o português quando saí de Charlottesville e fui fazer a graduação na Universidade Princeton, em Nova Jersey. O que se seguiu foi uma paixão vertiginosa pela música e pela cultura dos anos 20 e 30 no Rio de Janeiro, uma realidade que não poderia ser mais diferente daquela da minha cidadezinha. Comecei a traduzir biografias da Carmen Miranda, e nos meus fones de ouvido só dava Mário Reis e Francisco Alves. Sentia como se tivesse nascido no lugar errado (no tempo também, mas isso ainda não me ocorria àquela altura). De Charlottesville, só sentia saudade da família e dos famosos sanduíches de bagel de uma lanchonete local.
Depois de me apaixonar a distância, viajei para o Rio pela primeira vez em 2011. As primeiras famílias que me hospedaram se preocupavam com a minha aparência de gringa incauta, mas eu tentava não deixar as barreiras invisíveis da cidade me impedirem de explorá-la. Ainda me lembro da primeira vez que resolvi sair da Zona Sul sem que fosse para assistir a um jogo de futebol. No museu da Igreja da Penha, me dei conta de que era a única turista estrangeira. Como qualquer aprendiz de brasilianista, estudei o mito da democracia racial e fichei Raízes do Brasil e Casa-Grande & Senzala. Posso ter feito paralelos com o velho Sul americano, com suas plantações de algodão, mas nada disso me fez pensar na minha Charlottesville. Eu estava feliz demais por poder mergulhar num mundo novo e fascinante.
Todas as experiências de intercâmbio chegam ao fim, e depois de seis meses no Rio, eu peguei um avião de volta para os Estados Unidos. “Esse lugar é mais branco do que o Shopping Leblon”, resmunguei no meu blog, poucos dias depois de chegar em casa. O ideal da cidade de esquerda cravada no meio do Sul começava a perder o sentido. Apesar de saber que a minha escola era internamente segregada, por alguma razão eu nunca percebi que os lugares onde vivia, fazia compras e passeava eram violentamente brancos. “Não é como se o Brasil fosse um paraíso racial”, algum parente devolveu, em resposta às minhas ladainhas. Tinha razão, é claro.
Tanto aqui como lá, o racismo está incorporado na paisagem. Em ambos os lugares, o discurso racial é muito mais progressista do que a realidade socioeconômica. No Rio e em Charlottesville, quando o racismo vem à tona de maneira explícita e caricata – como quando uma senhora da Zona Sul carioca mandou o caixa do supermercado “voltar para a senzala”, ou a série de pichações racistas na Universidade da Virgínia há alguns anos –, esses fatos são denunciados como extremos e excepcionais, algo que não pertence ao lugar. De maneira similar, tanto no Brasil quanto na minha cidade natal a tentativa de denunciar formas mais sutis de racismo é classificada de imprópria e desnecessária – hipersensibilidade, ditadura do politicamente correto.
Em 2012, numa feira do livro em Charlottesville, a mãe de uma amiga minha do ensino médio, na época conselheira municipal, jogou no ar a ideia de que já era hora de remover a estátua de Robert E. Lee. Mas a sugestão não encontrou muito eco na plateia, por mais que as pessoas ali se identificassem como universitárias e esclarecidas. No ano passado, de todo modo, o vice-prefeito Wes Bellamy, um jovem professor negro, deu o pontapé nos esforços oficiais para remover o general. Convocou uma manifestação no parque que culminou com a criação de uma comissão para debater a retirada do monumento. Três dos cinco integrantes desse grupo deliberativo votaram favoravelmente à remoção. Os votos contrários foram dados pelo prefeito – professor como Bellamy, mas branco – e por uma conselheira municipal, mãe de outro amigo meu. A maior parte dos argumentos contra a remoção girava em torno da “preservação da história”. Outros defendiam que o dinheiro que seria gasto para retirar a estátua poderia ser mais bem empregado em outra ação pública de maior alcance. Melhor deixar as coisas como estavam.
Depois da votação, no entanto, a estátua se tornou um ímã dos protestos de extrema direita, e as sementes de #charlottesville foram plantadas. Alguns, como o conselho editorial do jornal local, culpavam o vice-prefeito por ter provocado a discórdia. Em julho, quando um grupo pequeno de membros da Klu Klux Klan ganhou o direito de fazer uma manifestação perto da estátua, pensei em escrever algo.
Por causa de outro evento familiar, tinha estado em Charlottesville uma semana antes. Foi a primeira vez da minha mulher, uma paulista, na minha cidade natal. Lembro-me do encantamento nos olhos da Paulinha ao ver as placas de apoio ao movimento do Black Lives Matter e a bandeira gay na fachada da igreja hippie que a minha família frequenta. Nos bairros por onde passamos, os quintais eram adornados com placas coloridas igualmente progressistas, que proclamavam que ali todos eram bem-vindos, não importava de onde viessem. “Não sei quem são esses brancos cheios de ódio”, comentou uma parente, consternada, quando mencionei a manifestação da KKK.
No dia do evento, aproximadamente cinquenta membros da Klu Klux Klan apareceram. Foram recebidos por um número bem maior de contramanifestantes e policiais. A tropa de choque protegeu o grupo dos pró-estátua durante sua rápida aparição, e então atacou a multidão contrária com gás lacrimogêneo quando eles se negaram a dispersar. O incidente foi seguido por ultraje e debates, ainda mais quando os ativistas começaram a propagar um aviso de que um evento muito maior estava sendo planejado para o dia 12 de agosto. Tentei me manter a par do que estava acontecendo em Charlottesville, mas acabei me afundando nas preparações para a nossa viagem para Chicago. Passei a semana que precedeu a manifestação comprando adereços de Carnaval no Saara para a festa de casamento da minha irmã, me perguntando obsessivamente se o meu vestido de madrinha era formal o suficiente, treinando andar de salto alto pela casa, e passando muitas horas do meu dia na internet, procurando dar apoio moral e logístico ao restante da família, tensa às vésperas da cerimônia.
As coisas só começaram a parecer reais na sexta-feira, dia 11. Correu um boato pela cidade de que haveria uma espécie de pré-manifestação da direita no campus da universidade. As aulas ainda não haviam recomeçado, mas um pequeno grupo de alunos que já tinha voltado das férias saiu em contramanifestação e formou um círculo em torno da estátua de Thomas Jefferson, como que em defesa dos ideais democráticos da universidade fundada por ele. Rapidamente foram encurralados, xingados e espancados pela multidão de jovens brancos de camisa polo, portando tochas – não as velhas tochas do Klan, mas tochas tiki, de design polinésio e fabricação chinesa, facilmente encontráveis em lojas de bricolagem para adornar jardins. Eles tinham gritos de ordem, como White lives matter, “Os judeus não nos substituirão” e “Sangue e solo”.
Na manhã do dia 12, enquanto membros da minha família se esforçavam para seguir as leituras em hebraico na sinagoga, o caos se instaurava em Charlottesville. A multidão no velho Lee Park, rebatizado de Emancipation Park em junho, vinha crescendo desde o começo daquela manhã – revoltosos carregando faixas e escudos, além de uma milícia fortemente armada que prometia “manter a paz”; do outro lado, membros do clero, antifascistas, líderes dos direitos civis e, claro, curiosos. Por volta das onze da manhã, enquanto Sam, meu novo cunhado, se preparava para entoar versos da Torá, um grupo de nacionalistas brancos marchava pela rua em direção ao parque. Quando um bloco de contramanifestantes se formou para impedir a sua passagem, garrafas, pedras, paus e balões cheios de urina começaram a voar. No meio da confusão, amigos e conhecidos meus levaram socos e jatos de spray de pimenta. Ao contrário da manifestação de julho, em que a polícia foi acusada por muitos de aparecer com uma tropa de tamanho desnecessário e só proteger os membros do Klan, a ordem do dia agora parecia ser apenas cruzar os braços e deixar as brigas acontecerem.
No momento em que o Sam tinha terminado a sua leitura, a manifestação em Charlottesville se tornava ilegal, depois de o governo proclamar estado de emergência. A maior parte dos manifestantes começou a deixar o parque, mas vários permaneceram no Centro histórico, seguindo pelo Downtown Mall, uma arborizada rua de pedestres, de lojas e restaurantes da moda. Enquanto saíamos da sinagoga em Chicago, um homem branco atirou seu carro sobre a multidão por uma travessa do Mall. Heather Heyer, morta atropelada, também era branca e tinha quase a minha idade.
No dia seguinte, aconteceu a última das cerimônias de casamento da minha irmã. Depois da assinatura do contrato tradicional e da troca de bênçãos, o rabino fez um pequeno sermão enquanto segurava a taça que o noivo deveria destruir em seguida. Ele disse que o ato remetia à destruição do Templo de Jerusalém, para que tivéssemos em mente que, enquanto comemorávamos nossa alegria, havia muita destruição no mundo – incluindo na cidade natal da noiva. Ele posicionou a taça sob um tecido, no chão. Sam pisou forte, mas a taça escorregou para o lado e continuou intacta. Foi só na segunda tentativa que ele conseguiu quebrá-la, para a alegria dos convidados, que comemoraram o feito.
Depois do casamento, meu plano era viajar de carro pela Costa Leste com a minha mulher. Passearíamos um pouco por Nova York e depois eu dirigiria até a Virgínia. Enquanto planejávamos o roteiro, a Paulinha confessou que gostaria de conhecer uma das famosas feiras agrárias do interior dos Estados Unidos. Fizemos uma busca no Google e descobrimos que logo ocorreria a décima edição do Festival do Tomate de EastMont, uma celebração anual que acontece em Shawsville, um município minúsculo nas montanhas Blue Ridge, já na Virgínia, a 200 quilômetros de Charlottesville.
Não conseguimos encontrar nenhum hotel em Shawsville, então planejamos passar a noite numa cidade não muito distante, Staunton. Com algum trânsito e paradas ocasionais, a viagem durou quase doze horas. Chegamos perto da meia-noite, e seguimos para o hotel mais barato que conseguimos encontrar. O estacionamento do Econo Lodge estava tão cheio que nos perguntamos se havia algum evento na cidade. “Deve ser o festival do tomate”, brincou Paulinha. Na manhã seguinte o recepcionista, um homem branco com forte sotaque sulista e a língua presa, fez comentários amistosos semi-incompreensíveis enquanto tomávamos o café da manhã. Na hora de fechar a conta, na recepção, ele se deparou com o nome da minha cidade enquanto preenchia o recibo. “Charlottesville, hein?”, disse.
“A gente não estava na cidade”, eu respondi.
“Isso é bom”, ele declarou enigmaticamente, depois de uma pausa.
“O quê?”, perguntei, com medo de que ele pudesse querer endossar a marcha supremacista.
“Bom que vocês não estavam lá.” Enquanto imprimia o recibo, ele comentou que alguns manifestantes tinham dormido no hotel, distante uns 70 quilômetros de Charlottesville. “Veio gente até do Missouri”, contou impressionado, uma vez que o outro estado sulista ficava a mais de mil quilômetros dali. Não falei nada, me apressei em pegar o papel que ele estava entregando e entrei no carro.
Paulinha, que não tinha conseguido entender quase nenhuma palavra do que ele disse, por pouco não me fez voltar à recepção para fazer novas perguntas ao sujeito sobre os tais hóspedes. Meu medo se intensificou, e virou vergonha. Pensei em voz alta que devia ter dito ao recepcionista que a gente era mesmo a favor de tirar aquela estátua. “Eu ia preferir ouvir mais sobre as impressões dele”, ela disse brandamente, numa habitual curiosidade jornalística.
A caminho de Shawsville e da festa do tomate, passamos por uma autoestrada interestadual, depois por uma estradinha que ficava cada vez menor. “Cuidado: tráfego intenso à frente”, alertava um sinal eletrônico numa rua vazia. Parecia que todos os carros da cidade estavam estacionados no centro comunitário, onde o festival já começava. “É muito pequeno mesmo”, suspirava a minha mulher, contemplando o grupo de aproximadamente cinquenta pessoas, quase todos brancos, mas com um ou outro negro ou asiático. Algumas dúzias de cadeiras dobráveis haviam sido dispostas diante de um palco no meio da praça, circundada por pequenos estandes.
Chegamos tarde demais para entoar o hino ao tomate, mas pudemos circular um pouco entre as vendinhas até que tivessem início os concursos de beleza. Na primeira categoria, “tomate-cereja”, duas mães trouxeram suas filhas bebês. Ambas garantiam que as meninas tinham algum talento relacionado a tomates, que, de todo modo, as crianças não conseguiram reproduzir no palco. As duas candidatas ao prêmio de Rainha do Tomate Maduro eram uma mulher branca fantasiada de Little Orphan Annie, personagem de quadrinhos dos anos 20, que cantou uma canção sobre tomates, e uma senhora asiática vestindo uma meia-calça estampada com a bandeira americana, que por sua vez fez uma longa performance de tai chi chuan com leques. Tudo somado, parecia que tínhamos caído numa sequência de um filme de David Lynch sobre alguma pequena comunidade excêntrica. O marido de uma nativa de Shawsville foi surpreendido ao descobrir que fora escolhido como o Rei do Tomate – ele não sabia que tinha sido inscrito no concurso. À guisa de agradecimento, fez um discurso improvisado. Make tomatoes great again, declarou ao final, sob aplausos. Paulinha e eu trocamos olhares desapontados.
Fomos embora antes do concurso de quem conseguia comer mais tomates. O plano era explorar a região, uma parte da Virgínia que eu não conhecia bem, a caminho de Charlottesville. No posto de gasolina onde enchemos o tanque do carro, encontramos uma pequena feirinha de antiguidades. Minha mulher e eu engatamos uma conversa animada com o dono de um dos estandes até nos darmos conta de uma pequena vitrine de parafernália confederada: adesivos, bonés de beisebol e canivetes, todos ostentando a bandeira rebelde.
Fugimos rápido, mas não resistimos à curiosidade de parar logo adiante num lugar chamado Dixie Antiques, em referência ao apelido dos velhos estados confederados. O espaço era maior do que parecia do lado de fora, e passamos um bom tempo olhando saleiros velhos e canecas de cerveja comemorativas. Não vimos muitas bandeiras confederadas, mas nos deparamos com uma série de bibelôs representando negros caricaturalmente, com olhos e bocas enormes. “Acho que perdi a vontade de comprar velharia”, disse Paulinha. Até os bonequinhos de Elvis Presley começaram a parecer sinistros.
Em vez de voltar pela autoestrada estadual até Charlottesville, preferi dirigir por uma estradinha que segue pelo topo das montanhas Blue Ridge. Foi um alívio passar algumas horas vendo apenas árvores e montanhas azuis. Chegamos à cidade por um lado que eu não conhecia bem. Os prédios não apenas não me eram familiares, mas me lembravam as outras cidadezinhas da Virgínia que eu havia acabado de cruzar.
Na manhã seguinte, fomos com meu pai e a sua família à igreja onde eu cresci. Além da placa de Black Lives Matter na frente, o folheto do dia levava uma foto de Martin Luther King Jr. de braços abertos, tirada no momento de seu famoso discurso que começava com I have a dream. Era esse o lema do dia. O altar estava coberto de cartões em apoio à congregação, que tinham vindo de todas as partes do país. Uma das frequentadoras tinha sido atingida pelo carro no Downtown Mall e ainda estava no hospital.
Em determinado momento da cerimônia, cutuquei a minha mulher. “Viu como as pessoas aqui vão até para a igreja vestindo roupa de academia?”, cochichei. “Na verdade, só estava pensando em como todo mundo aqui é branco”, ela respondeu.
Depois do culto, fiquei conversando com pessoas que me conheciam desde a época em que eu cabia no colo de Homero. “A gente não sentia que isso aqui era o Sul”, disse uma delas, como se Charlottesville fosse uma ilha pós-racial no meio de uma região preconceituosa. “E os manifestantes de esquerda também exageraram, vai.” Ela estava se referindo aos antifascistas que Trump tinha acabado de tachar de alt-left, ou uma “esquerda alternativa” violenta, por comparecerem ao protesto com a intenção de enfrentar os manifestantes na base da porrada.
Outra pessoa falou da dificuldade de fazer as filhas pequenas entenderem as manifestações mais sutis do racismo. “Elas sabem o que é o racismo, claro, mas ao mesmo tempo não entendem que ele faz parte da barreira entre elas e os meninos de Westhaven”, disse, se referindo ao conjunto habitacional majoritariamente negro.
Ao longo daqueles dias, quase toda conversa em Charlottesville deslizava para a questão racial. O que senti pela cidade foi uma estranha sensação de esperança, como se o confronto com a forma mais escancarada do racismo – mesmo que a vasta maioria dos manifestantes tivesse vindo de fora – houvesse aberto uma ferida mal curada, obrigando a cidade a examinar suas próprias mazelas. Parecia doloroso, mas necessário. Dizendo que a maldita estátua era apenas o começo, o vice-prefeito tinha acabado de conseguir que a cidade alocasse 4 milhões de dólares para programas que beneficiavam comunidades marginalizadas.
Quando falei sobre essa esperança para a Jo, minha amiga do ensino médio que jogava no time de basquete, ela hesitou um pouco antes de responder, de maneira cautelosa. Disse que os negros vinham tentando puxar esse assunto há anos, e que embora fosse importante que os detentores do poder finalmente se dessem conta das desigualdades estruturais, ela temia que esse novo despertar para o racismo não passasse da superfície. Me dei conta de quão perverso era o fato de que foi necessária a invasão de brancos extremamente racistas para que tantos brancos de classe média bem-intencionados da cidade prestassem atenção nesses assuntos.
Para Jo, a conversa sobre #charlottesville focava demais nas manifestações mais escancaradas da supremacia branca. Era fácil denunciar os nazistas, culpar Trump e não olhar para o fato de que havia uma crise de moradia na cidade, que mercados baratos estavam fechando e sendo substituídos por outros que cobravam caro por iguarias orgânicas e produzidas localmente. A população negra e pobre estava ficando encurralada pela gentrificação. “São problemas que a gente vê em todo lugar dos Estados Unidos. Charlottesville é igual. Mas a cidade se achava diferente, ou se vendia como tal”, disse ela.
Na segunda-feira, dia 21, fui com a minha família para o polêmico Emancipation Park, onde havia ocorrido parte dos confrontos de uma semana antes. Caíam gotas grossas de chuva, e uma pequena multidão de crianças e adultos buscava abrigo embaixo das árvores. Era o dia em que o eclipse solar seria visível por todo o território dos Estados Unidos, e a biblioteca pública tinha distribuído óculos especiais para quem quisesse assistir na praça ao lado. Ninguém ali ignorava o sentido de estarmos ocupando aquele espaço. Ao pé da estátua de Robert E. Lee, as pessoas haviam deixado flores, velas e mensagens agora borradas pela água. Uma mulher branca caminhava segurando um cartazinho feito a mão que dizia: “Nada eclipsará o nosso amor.”
O grupo persistente que dividia o espaço sob a árvore conosco era bastante misturado. Crianças, jovens, velhos brancos e negros tentando lidar de maneira bem-humorada com a frustração do céu encoberto bem na hora do eclipse. Conforme a chuva apertava, um homem brincou que seria bom se um raio atingisse a estátua do general Lee. Meu pai abriu um aplicativo de previsão do tempo, em que dava para ver que, enquanto toda a Virgínia parecia ter tempo firme, havia uma nuvem parada bem em cima de Charlottesville. Parecia um castigo.
E assim, três minutos depois do ápice do eclipse, quando a multidão encharcada já começava a se dispersar, as nuvens abriram uma nesga bem em volta do sol. As pessoas correram para ver, dividindo os óculos e as caixas de cereal previamente transformadas em aparatos refletores. Todos de costas para a grande estátua esverdeada.
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Errata: diferente do que foi publicado originalmente, a repórter tinha 12, e não 13 anos quando passou a frequentar a middle school.