questões de gênero

MINHA FRAQUEZA

Anotações desordenadas sobre a condição feminina
Imagem Minha fraqueza

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Tradução de Sérgio Molina e Rubia Goldoni

1986

Luz me deixava apertar suas varizes, que pareciam pencas de bolotas duras sufocadas embaixo da pele. Ou aquelas cabecinhas que faziam força para sair da barriga de Freddy Krueger quando ele levantava a camiseta, que abriam e fechavam a boca pedindo socorro. Quando eu as empurrava para dentro, as varizes mudavam de cor, o que me levava a pensar que estavam vivas. Mas era justo o contrário: eram veias infladas, torturadas, moribundas.

Minhas irmãs tinham nojo delas, meu irmão também; viam quando eu me deitava embaixo da mesa da cozinha, enquanto Luz debulhava ervilhas ou escolhia arroz ou amassava arepas, para olhar suas panturrilhas bem de perto, compenetrada como um biólogo estudando insetos, e isso também lhes dava nojo. Minha mãe não sabia que eu fazia isso porque, se soubesse, teria arrancado meus dedos a dentadas para depois correr a castigar-se fazendo bochechos com água sanitária. Ela era assim, primeiro as reações selvagens, depois o ato de contrição.

No dia em que escutei a história do filho de Luz – um menino de 12 anos que ninguém conhecia porque morava no campo, mas que naquela manhã tinha aparecido em casa com uma trouxa de roupa nas costas –, era lá que eu estava, embaixo da mesa, descansando a cabeça no peito macio do pé da empregada. Depois de cutucar suas varizes até enjoar, tinha me distraído com a balada rascante que tocava no rádio e já ia pegando no sono.

A aparição daquele menino era insólita não só porque ninguém esperava por ele, mas porque ninguém diria que era parente de Luz. Ele era branco, de cabelo castanho e olhos de um turquesa inexplicável, que parecia o mar de outro planeta. Luz só o reconheceu quando ele disse: Sou o filho de Papaíto. Então suas pernas bambearam e ela se esparramou pelo chão como uma dessas sobremesas gosmentas quando ficam muito tempo fora da geladeira. Minha mãe se apressou a segurar a cabeça dela para que não batesse na borda de uma jardineira que ladeava a entrada da casa.

Fizeram o menino entrar, lhe deram de comer e de beber e o confinaram no quarto de despejo. Luz se acalmou e retomou seu trabalho. Ficou em silêncio até que minha mãe irrompeu na cozinha com seu vestido bege de ficar em casa. Não notou minha presença embaixo da mesa, estava ansiosa demais para ouvir Luz lhe explicar quem era o forasteiro e o que pensava fazer com ele.

Do relato de Luz eu lembro sobretudo a forma. Fragmentário, pouco fluido, cheio de inconsistências impossíveis de preencher e de palavras inventadas que, no entanto, muitas vezes eram bem eloquentes. Mas isso só no início e no final, porque a parte do meio era a narração mais perfeita que eu tinha ouvido até então; dura e compacta como uma rocha milenar. Uma recordação tão maciça que não admitia fissuras nem especulações. A cena era a seguinte:

Luz corre pelo campo fugindo de Papaíto, seu patrão, mas enrosca os pés num arbusto espinhoso e Papaíto a alcança e a espanca com um pau até deixá-la quase morta. Depois a arrasta para debaixo de uma árvore, abre suas pernas e mete nela com idênticas proporções de raiva e lascívia. Quando acaba, ele se levanta e vai embora, e ela fica largada entre aquelas raízes gigantes que formam como tigelas ou bercinhos, ou caixões sem tampa. Tem a vista perdida nos galhos espessos que ocultam o céu e a impedem de saber se é noite ou o dia seguinte, quanto tempo passou desde que ela foi tirar a mesa do café e Papaíto lhe deu um tapa na bunda com a mão espalmada e lhe perguntou se ela já era mulher. Se eu o quê?, sussurrou Luz. Quantos anos você tem? Catorze. E ele: Está no ponto.

Quando suas pernas voltam a responder, Luz se levanta e toma o rumo da fazenda, onde a tia a recebe com um olhar triste, mas sem surpresa. Você se defendeu?, pergunta. Sim. E a tia: Tanto pior. Em seguida manda a sobrinha tomar banho e lhe dá uma bronca pela demora, porque ainda tem que descascar mandioca para o almoço: não era nem meio-dia. O que se segue é mais confuso: que o bebê nasceu prematuro e Luz não conseguiu cuidar dele; que ela o deixou com a tia e fugiu para a cidade; que pensava que o filho tivesse morrido, e a tia também, porque um conhecido do lugar lhe contara que todo mundo naquela fazenda tinha pegado uma peste das bravas. Que peste?, ela perguntou. O conhecido encolheu os ombros e disse: A maldade de Papaíto.

E então?, perguntou minha mãe.

Não quero saber dele, disse Luz.

Minha mãe deu um suspiro de reprovação: Um filho é um filho.

Não era a primeira vez que eu ouvia uma daquelas frases taxativas como marretadas, mas era a primeira vez que entendia suas implicações. São frases que pretendem ser sábias e profundas, mas que, quando você olha de perto, encontra apenas um vazio infinito de ignorância e a incapacidade de argumentar. São frases insensíveis ao drama do outro, secas de compaixão. Foi muito duro ouvir minha mãe dizer semelhante coisa a Luz, porém mais duro ainda foi não ouvir Luz replicar: O que a senhora quer dizer com isso? Um filho é um filho, e um sapo é um sapo, e a senhora é uma boba que nem sabe explicar o que pensa, talvez porque pensa pouco e repete feito um papagaio o que escuta por aí de gente mais boba ainda, ou só mais cínica.

Elas deixaram a cozinha e eu fiquei embaixo da mesa tentando reordenar o universo. 1) Diante da força de um homem, as mulheres são como uma nuvem de mosquitos tentando deter um furacão: é melhor não se defender. 2) As mulheres são alvos fáceis da violência, e não apenas física; temos que aprender palavras para nos defender, pelo menos, dessa outra violência que se traveste com o vestido sutil da crueldade. 3) Para alguns homens como Papaíto, ser mulher é estar pronta para ser aniquilada e devolvida ao mundo como um zumbi arrebentado, estropiado irremediavelmente.

Eu tinha 6 anos, mas foi fácil entender que a condição de mulher não era vantajosa. Passaria alguns dos anos seguintes tentando ocultar essa desvantagem; outros tantos, tentando revertê-la sem sucesso. Acabaria por assumi-la com uma atitude esquiva e pretensiosa muito semelhante ao ressentimento.

Não voltei a cutucar as varizes de Luz. Imaginá-la escarranchada no meio do mato e dos bichos, esmagada pelo peso de um gorila com tesão, me fez olhar para ela de outro modo. É provável que o que antes me atraísse naquelas veias disformes fosse imaginar que as pernas dela podiam suportar qualquer destino com dignidade. Por que você tem essas bolotas?, meu irmão lhe perguntara pouco depois de ela entrar em casa, e Luz lhe explicou que alguns vasinhos tinham estourado por carregar peso demais desde muito pequena.

A origem do menino foi prontamente revelada ao resto da família e a alguns vizinhos, que alternavam olhares de comiseração e desconfiança quando o viam com Luz – um bichinho do mato, incômodo e arisco –, fazendo compras no mercadinho ou varrendo a varanda. Luz não tinha paciência com ele, vivia lhe dando cascudos furiosos para em seguida se arrepender e abraçá-lo com força, soluçando de impotência enquanto ele esperneava, sufocado. Uma vez meu irmão a encontrou estirada de bruços no corredor do quarto de despejo, onde ela agora dormia com o filho. Tomara que ele morra, tomara que ele morra, ela repetia. Depois disso, minha avó, que morava bem perto, resolveu tomá-lo como seu garoto de recados: passou a confiar a ele pequenos serviços e a cobri-lo de gorjetas e elogios que aludiam a sua pele clara, incomum no Caribe, mais incomum ainda na criadagem.

Por volta do Natal, Luz tinha envelhecido séculos. Sua expressão endureceu como se tivessem derramado um balde de argila sobre seu rosto. Seu corpo inchou da cintura para baixo, apesar do pouco que ela comia – ela se empanturrava com os lamentos e queixas que era obrigada a engolir, pois não podia expressá-los por serem pouco cristãos. Quando você casar, passa, minha mãe lhe disse um dia, enquanto Luz servia um chá de ervas com aquele ar mortiço que havia adquirido. E assim foi: um ano depois da aparição do menino, Luz comprou um par de meias opacas e um vestido branco e foi à igreja para casar com um encanador. Tiveram dois filhos; cada nascimento foi festejado com um cozido e rios de rum. E com o passar dos anos, todos – Luz, o menino, o encanador e os filhos dos dois – pareciam felizes da vida.

Quero dizer: no fim, a história de Luz não foi tão trágica assim, pelo menos não de um modo grosseiro ou evidente. Mas o impacto de saber o que lhe havia acontecido ficou encravado em alguma parte sensível da minha memória, a tal ponto que, quando penso na minha relação com o feminino, ela é a primeira coisa que me vem à cabeça. Vem antes da lembrança de outras mulheres com quem construí vínculos infinitamente mais próximos ao longo da vida: amigas que são como o ar que eu respiro, escritoras que idolatro, minha filha que é minha filha.

Naquele primeiro ano, entre a aparição do menino e o casamento de Luz, chorei muitas noites recriando seu relato e senti medo por mim e por minhas irmãs, porque na minha cabeça nenhuma mulher estava a salvo. Meu pior pesadelo era – e talvez continue sendo – ficar sozinha num quarto cheio de homens. Não contei nada disso para ninguém, mas minha mãe, astuta e intuitiva, deu um jeito de deixar bem claro que nem todas as mulheres eram iguais, que algumas estavam mais expostas do que outras e que minhas irmãs e eu nunca teríamos que enfrentar um homem como Papaíto nem um drama como o de Luz. Mas já era tarde: a consciência da vulnerabilidade tinha disparado um alarme que nunca deixou de tocar, que ganha ou perde intensidade conforme o ruído que o abafa. Quando consigo me distrair o suficiente, esqueço que ela está aí, mas assim que recupero um pouco de concentração, volta palpitante e dolorosa. Saber que sou um espécime frágil é meu calcanhar de Aquiles. O meu e o de todas as demais. Aos 6 anos decretei que, se não houvesse alguma coisa capaz de compensar essa falha irremediável, ser mulher era uma desgraça.

2017

Num capítulo de The West Wing, minha série favorita entre todas as que já assisti, Ainsley Hayes (a jovem loira republicana da Carolina do Norte que participa de uma temporada) discute com Sam Seaborn sobre a Emenda de Igualdade de Direitos à Constituição dos Estados Unidos proposta pelas feministas nos anos 20, que foi retomada nos 70 para, finalmente, expirar nos 80 sem nunca ter sido aprovada. Ainsley é contrária à emenda e passa o episódio inteiro discutindo com Sam, que é democrata e favorável a ela. Ainsley o criva de argumentos horrivelmente denegatórios, do tipo: As mulheres ganham menos do que os homens porque escolhem ter filhos e dedicar menos tempo ao trabalho remunerado. Ao que Sam replica: Não! As mulheres são castigadas por ter filhos, com salários mais baixos que os dos homens. E assim os dois vão se irritando um com o outro até que, no auge da discussão, Ainsley confessa a verdade aos brados: ela sente vergonha e raiva de que a Constituição tenha um artigo decretando que as mulheres e os homens são iguais, como se antes desse artigo não fossem; como se essa igualdade precisasse ser escrita e sancionada para existir, porque do contrário ninguém reconheceria esse fato. E sai indignada e ofendida com os machos democratas que exercem sua condescendência – e seu poder – por meio de aviltantes leis progressistas.

Acho que não existe estereótipo mais distante de mim que o de uma loira republicana da Carolina do Norte, mas nesse episódio, nessa discussão, eu me senti absolutamente representada. Claro que o efeito perseguido era esse: o roteirista da série era um sujeito habilidoso ao extremo, a ponto de fazer com que seu público amasse um presidente democrata de alta estirpe, com doutorado em uma Ivy League, católico, antiabortista e mentiroso, pois ocultava de seu eleitorado que sofria de uma doença degenerativa. Mesmo assim, o raciocínio de Ainsley serviu para explicar a mim mesma as ressalvas que tenho em relação a certas propostas feministas que buscam o que todas nós queremos, mas com estratégias que superexpõem nossa fraqueza de um modo que me parece forçado e doloroso.

Penso em tudo isso sentada a uma mesa de bar, num hotel de Lima, junto a uma janela que me salva da penumbra. Em Lima há tão pouca luz que você fica o tempo todo procurando uma abertura: em ambientes fechados, a solução é a janela; ao ar livre, uma brecha no cinza espesso das nuvens.

Hoje me vesti de preto, como sempre, porque a roupa preta é muda e genérica. Todo dia prendo o cabelo num rabo de cavalo que daqui a alguns anos ficará ridículo, mas cuja fórmula de misturar despreocupação e frivolidade em doses aceitáveis ainda resiste. Assim vou enganando a mim mesma.

À minha frente, um jornalista de camisa xadrez e caneta Bic. Ao fundo, o bar vazio, porque o horário do café da manhã já terminou, e mais ao fundo uma porta de vaivém que leva à cozinha do hotel: mulheres de touca e avental entram e saem com bandejas limpas.

Sempre que um livro meu é lançado, volto a viver essa cena em alguma cidade a que vou a convite de uma feira – ou a pretexto de qualquer outro evento que me pague a passagem – para ser entrevistada diante de um copo de água, como se eu fosse um guru de quem se esperam respostas simples mas reveladoras, sem se repetir nem gaguejar. Faço parte de uma cadeia de simulações: é provável que metade dessas entrevistas não seja publicada ou que os quarenta minutos que dediquei a divagar sobre minhas escolhas narrativas se resumam a um tuíte distorcido – às vezes para melhor – do jornalista. Em todo caso, as entrevistas que chegam a ver a luz e a subir um alerta do Google com meu nome inócuo em meio ao mar colossal de alertas do Google costumam ser um tapa na cara; ou um desses espelhos que transformam os poros em crateras e as chamadas linhas de expressão em fossos. Nas entrevistas eu não apenas me repito, mas me repito mal. Plagio as mesmas frases, introduzindo variações que pretendem ser o toque diferencial, mas só conseguem dar uma pátina de imprecisão. Como se as frases ditas e reditas se embriagassem e perdessem o rumo.

Eu disse isso?, pergunto ao jornalista.

Ele acaba de me perguntar por que não apoio a cota feminina na literatura. Não sei de onde ele tirou essa certeza que nem eu tenho.

Não literalmente, responde.

E então?

Alguma frase solta, que somada a outra e mais outra… isso foi tecendo o manto da suspeita sobre minha exígua consciência de gênero?

Desde que me dedico a escrever – minto: desde que publico meus livros –, as perguntas mais recorrentes que me fazem têm a ver com o fato de ser mulher e escritora, e a partir disso se abre um leque de termos como olhar, corpo, condição, subjetividade, sensibilidade, poética; como se todas essas palavras fossem única e exclusivamente atributos femininos – ou feministas. Acontece a mesma coisa quando uma escritora é convidada a dividir uma mesa com outras escritoras para falar da maior das obviedades: o fato de serem mulheres e escritoras – os escritores, ao contrário, podem participar de uma mesa para falar de estilo, voz, ritmo, climas, tramas. E por mais que eu me empenhe em prefaciar contundentemente cada resposta ou intervenção com o desnecessário esclarecimento de que não me lembro de uma causa feminista que eu não apoie, a nuance que se segue basta para que o feminômetro não atinja o nível esperável de engajamento e militância e dispare o alerta vermelho que delata as machistas camufladas.

Porque minha resposta em geral abriga a contrariedade que provoca a insinuação de que o fato de ser mulher e ser escritora me inclui num subconjunto exótico – ou precário: digno de observação e acompanhamento. Como é o olhar das escritoras?, por exemplo. Como é que vai ser? Como o de qualquer pessoa, conforme seu grau de miopia. Como escrevem as mulheres? Com o alfabeto universal. O desalento se agiganta ao constatar que, para aludir à subjetividade presente em qualquer texto de qualquer autora, indefectivelmente a rotulem com a palavra “feminina”. Por acaso o masculino não tem subjetividade? E mais, a subjetividade é toda cheia de arestas, é o filtro com que o indivíduo entende e constrói o mundo, que responde à sua bagagem (cultural, acadêmica, sociológica), à sua procedência, ao seu grau de pertencimento a determinada geografia, a determinada ideologia, a determinado tempo e a muitas outras coisas. A subjetividade existe para além da consciência que possamos ter dela. Não é justo que o texto escrito por uma mulher tenha apenas uma: a feminina.

Quero dizer ao jornalista, embora ele não tenha me perguntado, que não é exótico ser escritora; sempre houve escritoras, e não só no terreno do indie intimista. Muitos dos best-sellers mais famosos do mundo foram escritos por mulheres (e isso só significa que a presença delas no mercado editorial é verificável), ou seja, que a insinuação preconceituosa de que as escritoras são formiguinhas excluídas e invisibilizadas pela prepotência masculina vem de um lugar que não é o da produção literária, nem sequer do consumo. Ser mulher significa, entre outras coisas, já nascer com uma história de marginalidade incorporada – como ser negro ou homossexual –, portanto não é preciso acrescentar-lhe outros vícios. Se há uma coisa que me irrita é que me ponham nesse lugar, porque me faz sentir como um mico de circo que precisa estar sempre sob um potente holofote para que vejam suas micagens.

Há mais escritores do que escritoras?, pergunta o jornalista.

Onde? Posso garantir que não na minha biblioteca.

As escritoras têm o devido reconhecimento?

Depende de que escritoras, digo, mas logo mordo a língua, porque reconhecimento é outro conceito que me irrita.

O que me irrita é que se dê como certo que todos os escritores estão correndo a maratona da fama. Não sei de nenhum que esteja: os escritores que conheço estão preocupados com outras coisas, uma delas é ganhar a vida (ou seja, comprar tempo para escrever), porque, por mais óbvio que seja, parece não estar bem claro que ninguém vive de literatura. Eu me lembro de quando os músicos reclamavam de que a pirataria estava acabando com eles, de que os CDs iam desaparecer para dar lugar a outros formatos, o que se confirmou. Lembro ter escutado multidões de músicos – famosos ou desconhecidos, tanto faz – dizerem abatidos que o negócio da música estava liquidado. E eu achava que nunca me passaria pela cabeça dizer isso em relação à literatura, basicamente porque para mim ela nunca foi um negócio nem pretendo que algum dia seja. Não que eu escreva de graça, claro que não: recebo adiantamentos, às vezes até direitos; o que quero dizer é que não pretendo sobrecarregar meus livros com o peso do meu sustento.

O escritor não é um trabalhador convencional que se reporta a um patrão ou a um sindicato, e vejo com tristeza as tentativas de normatizar um trabalho irregular, tão preciosamente marginal. Não gostaria que a literatura se regesse pelos valores que a cultura proletária ocidental decreta serem bons e justos; não gostaria de limpar o barro de periferia que sempre marcou este ofício. Por quê? Porque a normatização é um conceito esmagador por natureza: chuva de tijolos sobre um bosque de vagalumes. E, acima de tudo, porque não são as cabeças mais bem penteadas e bem-pensantes que escrevem a literatura que me mobiliza, e sim aquelas que abrem caminho à força de sacudidas, à força de me sacudir. A boa literatura – um conceito tão subjetivo que se restringe à experiência individual – não pode passar despercebida porque explode na cara da gente. Acontece que quem a escreve é uma mulher que, de quebra, é parda ou negra e pobrezinha e lésbica, e por tudo isso vai demorar mais, muito mais, para chegar a mais gente? Não acho que as coisas sejam assim, mas, mesmo que fossem, isso não me preocupa – e eu poderia cravar que à sua hipotética autora também não – porque: 1) chegar a mais ou menos gente (o que em outros ramos recebe o nome de rating) é uma variável que não me parece determinante em literatura; 2) e, quando chegar, seja a quem for, vai modificar essa pessoa.

O jornalista me olha como uma mosca saciada, farta.

Minhas digressões mentais não anulam suas perguntas: Que mal pode fazer?

O quê?

A obrigação de que metade dos livros que todo editor publica seja escrita por mulheres.

A resposta fácil, isto é, irrefletida, seria: Não faz mal nenhum, claro que não, embora (com raras exceções) me desagrade a ideia de uma lei que obrigue quem quer que seja a fazer isto ou aquilo, mesmo que nessa obrigação esteja implícita uma virtude inquestionável, o que também não é o caso. Mas aí percebo o que realmente me incomoda nessa proposta: sua insignificância e limitação. Cota feminina na literatura é uma expressão com muitos vieses. Acho totalmente descabido colocá-la sobre uma mesa abarrotada de causas como equiparação salarial, aborto legal seguro e gratuito, ampliação das paupérrimas licenças-maternidade vigentes nos países trogloditas que habitamos.

Certa vez, uma amiga escritora muito favorável à cota feminina na literatura me explicou que ser escritor é como ser jogador de futebol: quanto mais cancha você tem, melhor joga. Essa metáfora – por si só machista – foi sugerida a ela por um editor que lhe disse que seu primeiro romance estava competindo com o terceiro de outro autor, portanto era óbvio que ele tinha mais cancha – ou seja, mais chances de ser publicado. Só que ter mais cancha – ou chances – não significa escrever melhor, repliquei. Está cheio de autores que escreveram grandes romances de estreia seguidos de uma porção de livros pobres.

O argumento mais razoável que essa medida propõe deve ser a possibilidade de ampliar a perspectiva sob a qual se narra o mundo: um mundo narrado só por homens não é um mundo completo. Mas de onde fala quem faz essa afirmação? Meu universo literário está longe de ser uma constelação de homens, e não é um universo clandestino. Talvez o que falte sejam leitores que se esforcem por encontrar outras perspectivas para além do que se apresenta nos catálogos mais vistosos. Também não é possível legislar sobre a curiosidade, mas é possível, sim, incentivá-la. A cota feminina na literatura talvez pudesse nos oferecer igualdade de gênero na narração de um mundo totalmente parcial. Eu não quero escritoras mais visíveis, quero escritoras e escritores mais ousados, mais selvagens, mais periféricos, porque são os que sempre me ofereceram a perspectiva que mais me interessa.

O jornalista: Você não acha que essa medida pode diversificar o que se edita e, portanto, melhorar a qualidade?

Ensaio mentalmente uma resposta: Não necessariamente. A cota feminina na literatura não nos tornará melhores escritoras – isto é, escritoras mais ousadas, selvagens, periféricas –; na verdade, duvido que qualquer coisa imposta possa nos melhorar como escritoras: somos as escritoras que podemos ser, com a mochila de recursos (e carmas) que cada qual leva nas costas. E se encontramos caminhos, leitores, canais de expressão para nossas palavras é graças a nossas palavras, não a nosso sexo.

Mas logo a descarto. É lenha para uma fogueira que nos aquece a poucos. E a última frase é demagógica.

O jornalista: Que mal ela pode fazer?

Lembro de Ainsley Hayes e penso em me indignar, dar um murro na mesa, me levantar ofendida pela insinuação de que, para existir, preciso de um decreto que garanta meu lugar num catálogo. Se eu não estou no catálogo, não existo? Não sou o que sou? Não escrevo? Não brilho?

O jornalista olha pela janela e faz anotações rápidas, deve estar registrando detalhes da cor local.

Eu abraço a mim mesma com um poema: “Fora há um céu cinza/que ameaça desabar/sobre o pequeno mundo mesquinho/e achatar o relevo de nossas almas.”

Não faz mal nenhum, respondo. Claro que não.

E bebo o copo de água.

1988

Meu bebê se chamava Peggy e era negra. O da minha prima Betsy era amarelo, como se tivesse nascido com icterícia, e ela o chamou Marco, porque lhe pareceu um nome chique. Minha tia os tinha trazido da Venezuela, tinham o tamanho e a aparência de um recém-nascido: cheios de ruguinhas e dobras e com o cordão umbilical enroscado como um verme preguiçoso.

Poucos dias depois de ganhá-los, minha prima e eu começamos a achar o cordão umbilical muito grotesco e o cortamos com uma faca. Betsy aproveitou para também cortar o pinto de Marco, porque não nos parecia muito estético. Ainda não estávamos na idade de apreciar as superfícies salientes: o belo era plano, liso, suave ao tato e fácil de percorrer com a palma da mão. Passamos vários dias com nossos bebês mutilados pra cima e pra baixo, cercando-os dos cuidados próprios das mães abnegadas que imaginávamos que devíamos ser. Adorávamos salvá-los de catástrofes naturais ou situações extremas, como chuvas ácidas, erupções vulcânicas, invasões de lagartos e mutantes; corríamos com as crianças aferradas ao peito, procurávamos um esconderijo e cobríamos seu corpinho com o nosso para que não restasse a menor dúvida de que nós, suas mães, éramos o único escudo confiável contra a infinidade de perigos que havia no mundo. Nas nossas brincadeiras nunca houve pais.

Um dia apareceram balanços novos na praça e abandonamos os bonecos: as nuvens nos esperavam brancas e macias. Minha tia encontrou os bebês largados num canto, nus, e pôde ver seus ferimentos: o umbigo aparado, a cicatriz do pequeno eunuco. A reação dela foi, primeiro, de espanto – imagino que deviam ter custado caro –, depois de tristeza. Balançou a cabeça com pesar: Vocês nunca vão ser boas mães, ela nos disse, como se constatasse uma carência irremediável, um defeito que nos obrigaria a suportar uma vida desencantada e cruel. Ficamos muito abatidas ao ouvir esse presságio. No nosso meio, aos 8 anos de idade, se você não estivesse equipada com o necessário para ser uma boa mãe, dificilmente poderia aspirar a ser outra coisa. Ser mulher, por si só, já oferecia um horizonte de realização bem estreito: a) mãe; b) virgem; c) puta. Com a primeira categoria, eu convivia; a segunda e a terceira, só podia imaginá-las em quadros bem pouco atraentes aos olhos de uma criança: de um lado, Maria com sua expressão sofrida; do outro, senhoras voluptuosas dormitando nuas na floresta.

O que sempre foi evidente na minha casa é que ser mulher era uma coisa mais do que importante, era crucial; sem as mulheres, o mundo tal como o concebíamos não tardaria a desmoronar.

As reuniões familiares marcavam o limite que ordenava a existência: na cozinha ficavam as senhoras e suas crias – senhoras que não necessariamente cozinhavam, mas davam ordens às empregadas –; os homens ficavam na sala jogando dominó, comendo, bebendo e fazendo comentários engraçados e leves. Havia homens especiais, como meu pai, que não jogava nem bebia, mas mergulhava em seu escritório para fumar e ler; e de quando em quando nos concedia a bênção de sua presença, de seus beijos na testa e suas frases curtas que todos nos empenhávamos em ler como um oráculo. Mas em geral os homens eram aquelas criaturas desajeitadas e privilegiadas que estavam lá para ser servidas e celebradas por seres infinitamente superiores que, por pura condescendência (em geral inconsciente), dissimulavam sua superioridade.

Eu me criei entre mulheres/mães/esposas (na minha casa havia uma única categoria para as três condições) que serviam a seus homens e cuidavam dos filhos quase com a mesma devoção. Sua presença permanente às vezes era sentida como um lenço encharcado de amoníaco apertado contra o nariz. Às vezes, sobretudo quando os pais estavam por perto, as crianças passavam a ser um estorvo que devia ser retirado do caminho rapidamente para não perturbar os homens. As mulheres que me criaram estavam plenamente convencidas de que, na hierarquia dos afetos (talvez não os genuínos, mas os que se demonstravam), primeiro estava o marido e depois os filhos.

Também estavam convencidas de que a criação da prole era seara feminina, que a participação dos homens na vida dos filhos era residual. Elas tomavam as decisões cotidianas e transcendentais, mas deixavam os pais acreditarem que os chefes eram eles. Em torno de nós, crianças, elas teciam um engano semelhante: seu pai disse, seu pai acha, seu pai está orgulhoso, seu pai não está de acordo. Nesse jogo duplo e emaranhado que todos conhecíamos mas éramos incapazes de subverter, as mães abriam mão do crédito de suas palavras e opiniões elevadas em nome de um propósito maior. Por um lado, a fim de acumular uma dívida eterna de gratidão culpada. Porque, se algo de ruim acontecesse (um vendaval furioso ou os mortos brotarem da terra para nos devorar), as mães estariam lá para nos cobrir com seu corpo, escudo protetor. Por outro, para ter absoluto controle sobre a versão oficial da narrativa familiar. A chamada memória da família também era atribuição das mulheres.

Era notável a clareza que elas tinham sobre sua identidade em contraposição à identidade masculina. O modo como se vestiam, se penteavam, gesticulavam e criavam respondia não tanto a um modo de ser mulher, mas a um modo de não ser homem. Mesmo aquelas que trabalhavam fora tanto quanto o marido, ao chegar em casa punham o avental por cima da roupa de escritório e iam esquentar a comida, arrumar a mesa, servir o jantar, dar banho nas crianças, ajudá-las nas tarefas da escola e botá-las para dormir; depois tomavam banho, se enchiam de creme, punham bobes no cabelo e pintavam as unhas na frente da novela das dez. Essa eternidade que elas gastavam no cumprimento de seus deveres – que incluía estarem apresentáveis para o público masculino, que geralmente se resumia ao marido – era um capital que o homem investia em outras coisas: em encher a pança e fazer a digestão sentado diante do noticiário, para depois se arrastar até a cama reclamando do cansaço, sem nunca notar que sua mulher acabava de botar a última criança na cama e se perfumara para ele. Por que os homens viviam tão cansados? Porque carregavam há séculos a responsabilidade de ganhar dinheiro. As mulheres podiam ser muitas coisas – algumas bem pouco discerníveis, inclusive –, mas era o homem que ganhava dinheiro, ponto. Daí sua importância na casa, daí sua importância no mundo. Um homem sem trabalho, portanto, mergulharia numa crise de identidade profunda e desestabilizadora.

Uma vez, já na adolescência, tentei chamar a atenção das mulheres da família para essa conduta (das mulheres que não apenas se comportavam como gueixas, mas faziam alarde disso e criticavam com veneno aquelas que não se esfalfavam como elas), argumentando que aquilo me parecia, no mínimo, cansativo e injusto; consegui que um bando de heroínas incompreendidas se lançasse contra mim. Evidentemente, era eu que não entendia nada: ser mulher/mãe/esposa era cumprir o roteiro diário com a melhor cara do mundo, para que ninguém pudesse acusá-las de estar insatisfeitas – como certamente muitas estavam.

O sacrifício devia ser notado, mas nunca compadecido aos olhos do outro. Melhor perder um braço que a reputação. No médio prazo, isso se traduzia em súbitas crises de choro (“Ninguém sabe o que ela tem, coitadinha, vive chorando à toa”) ou distrações absurdas (“Enfiou a mão na água fervendo sem perceber”). As mais vivas – quero dizer, as mais sensíveis e corajosas – pediam o divórcio. Na minha família houve apenas um caso: uma tia que, depois de deixar o marido, teve que se refugiar na casa da minha avó e passou a ser olhada pelas irmãs com superioridade moral e julgada por seu egoísmo (“Não pensa nos filhos”). Foi salva pela única salvação das mulheres: seu trabalho, sua independência financeira. Mudou-se e foi morar sozinha com as crianças, até que se casou de novo. Eu era muito pequena para entender tudo aquilo, mas, visto em retrospectiva, fica claro que minha tia estava rompendo uma inércia difícil que deve ter lhe custado grandes embates – internos e externos – e que hoje me fazem pensar nela como uma espécie de Daenerys Targaryen montada em seu dragão furioso, sobrevoando as espinheiras da infâmia.

No longo prazo, o esforço diário e constante que implicava ser mulher sob os dogmas familiares só podia levar a uma doença terrível ou a uma amargura irremediável, ou a ambas. Com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais complicado destrinchar a verdadeira natureza de gênero das imposições culturais, porque o que eu mamava do meu ambiente estava longe de ser uma definição simples e unívoca. Ser mulher parecia uma tarefa em que estratégia, manipulação, prudência e simulação eram peças fundamentais. Tudo muito complexo, muito intrincado. Atordoada, aos 19 anos cortei o mal pela raiz; saí de casa, e meu objetivo de vida passou a se pautar numa meta: construir a mim mesma em oposição àquelas mulheres.

2013

Quando meu companheiro e eu esperávamos nosso primeiro filho, uma pessoa próxima nos alertou: agora vocês têm que pensar quais vão ser as regras da família. Não sei a opinião do meu marido, mas acho que somos um daqueles casos, frequentes na nossa geração, de indivíduos mais ou menos realizados que nunca precisaram ter filhos para “completar” o que quer que fosse na vida. Acho que o que nos levou a ter filhos foi a pulsão compartilhada de iniciar algo nosso. Nesse sentido, a decisão de sermos pais tem mais a ver com a conquista de um território novo, inexplorado – estilo Alexandre, o Grande –, do que com fechar o perímetro do que já nos continha – estilo tribo sedentária primordial. Portanto, a ideia das regras da família me pareceu desafiadora, e por um breve instante de clarividência também me pareceu perigosa: pais, pensei, macacos com navalhas. O fato é que, de repente, eu tinha o poder de assentar as bases de algo que, dito assim, parecia ser uma espécie de dinastia. Depois ninguém redigiu mandamentos em tábuas de pedra, claro, mas a cada tanto eu brinco que na minha família temos regras tácitas conhecidas por todos: fundamentos ideológicos que nos definem e regem nossa conduta. “Minha família não viaja em alta temporada”, proclamo ao ar. “Minha família não acredita em Deus.” E assim por diante.

Quando tive meus filhos, as mulheres da minha família me voltaram à cabeça; por mais que eu quisesse me livrar delas, lá estavam esfregando seus lenços contra meu nariz. O cuidado das crianças é tarefa feminina, eu pensava enquanto observava meu marido manobrar aqueles corpinhos moles com diligência e entusiasmo, temendo que aquilo fosse apenas uma fase inicial e que logo ele degenerasse na inutilidade própria de seu gênero. As duas vezes em que fui mãe, tive que batalhar contra meu DNA. Ao lutar contra as imagens do feminino que me inculcaram, também luto contra uma parte de mim: é duro desaprender, é um embate constante, mas necessário. Acho que devemos ser capazes de nos repudiar; acho que precisamos ter um pouco de nojo de nós mesmas para conseguirmos mudar. A autocomplacência não ajuda.

Fiquei firme na decisão de que, se eu queria mesmo fazer diferente – não “bem”, bastava que fosse diferente –, devia decretar que o momento do nascimento dos meus filhos marcaria o início do passado deles e o final do meu. Se eu podia ter controle sobre alguma história, queria que começasse ali. Uma história porosa, cujo maior atributo seria a possibilidade de eles intervirem em seu rumo. Olhei pela janela e contei o que via: seu primeiro horizonte, atravessado de fios e prédios – o de V. foi de dia; o de J., de noite. E, enquanto enumerava os elementos da paisagem, vi caírem perguntas pairando leves e frenéticas como penugem da primavera. Esse foi o primeiro de muitos sinais de que não ter um método claro seria tão cansativo e angustiante quanto adotar o já conhecido.

A verdade é que a cada dia atualizo minha batalha, porque ela rapidamente deixou de ser uma batalha contra meu passado; meus vícios de mulherzinha criada entre mulherzinhas, cuja mentalidade intrincada não foi suficiente para salvá-las de seus homens (muitas vezes me pergunto se em suas longas vidas as mulheres da minha família chegaram a ter consciência de que com essa estranha mescla de servilismo e condescendência estavam contribuindo com a força destrutiva que hoje, em muitos aspectos, define o papel do masculino no mundo. Em qualquer estatística salta aos olhos que quem mata, espanca, estupra, maltrata e destrói são majoritariamente homens. Por mais que tentemos enxergar as coisas de outro modo, é impossível desprezar o fato de que esses homens/monstros não se fizeram sozinhos). A criação que recebi é um dos muitos sulcos que decoram meu hipocampo, mas o torno não para de girar. Agora brigo com minha necessidade tola de ser a primeira imagem que meus filhos veem quando abrem os olhos de manhã e a última quando os fecham de noite. Brigo também com a necessidade de que meus filhos não sejam a única coisa que vejo. Com quem mais brigo é com meu marido, mas só porque é quem está mais perto depois das crianças, com as quais não posso brigar – ou posso, mas sempre levo a pior. E assim minha maternidade transcorre, em boa medida, distribuindo patadas no ar.

No empenho de me diferenciar, caí na pretensão inútil (e grandiloquente) de iniciar tradições – como se fosse algo possível de planejar – ou de decidir o destino das crianças sem forçá-lo. Tudo isso, felizmente, só circula dentro da minha cabeça, porque percebo a tempo que essas pretensões de originalidade são vãs e impraticáveis e me atenho àquilo que julgo mais ou menos elementar: uma mãe alimenta os filhos, protege dos perigos, abraça, diz que não, torna a abraçá-los e insiste: “Não é não.” Um pai deve fazer mais ou menos o mesmo, imagino, embora todos os pais que eu conheço estejam sempre um passo atrás da mãe de seus filhos e, além disso – inconscientemente, no melhor dos casos –, esperam reconhecimento por toda tarefa que realizam pela família. As mulheres dos pais que conheço contribuem para que eles sejam vistos como homens excepcionais, soltando frases como: “Ele colabora muito”; “Ele me ajuda”; “É um ótimo pai.” Nunca “Ele faz o que tem que fazer.” Uma boa mãe nunca será vista como uma mulher excepcional, será sempre apenas uma mãe.

A confusão que meu papel de mãe me provoca, em todo caso, vem da confusão que me provoca meu papel de mulher. Se eu acatasse aquele mandamento da minha infância segundo o qual a narrativa familiar é minha atribuição, teria um grande problema. Todo dia tento entender um pouco melhor minha própria história, e em geral não consigo grande coisa, mas já reconheci um fato que atenua a ausência de certezas: minha história é um amontoado de perguntas não respondidas – O que sou? O que quero ser? Quanta frustração sou capaz de suportar? Avançar na compreensão significa formular a mim mesma novas perguntas. Isso já não me angustia, mas vivo no limite, caminhando numa passarela estreita sobre o vazio da dúvida. Eu gostaria que, um dia, meus filhos conseguissem dar a si mesmos respostas próprias que os satisfaçam? Para isso tenho uma resposta taxativa: sem dúvida.

Cheguei à conclusão de que sou uma mulher bastante convencional, mas desconfortável com o fato de sê-lo. É como se minha cabeça aspirasse a convicções que meu corpo considera impraticáveis. Excluindo a recusa dos sacramentos, a vida que levo deve se parecer bastante com a que as mulheres da minha família desejaram para mim, embora se sustente sobre fundamentos opostos. Quando resolvi viver com meu companheiro, abri mão de uma bolsa no Primeiro Mundo, e o entusiasmo de formar uma família se impôs como uma avalanche: Morar juntos? O.k. Um filho? Sim. Dois? Também. É melhor eu ficar com eles nos primeiros anos, afinal, posso escrever em casa. E o trabalho? Peço demissão. Uma amiga da época me pegou pelos ombros, olhou nos meus olhos e sentenciou: Você está depositando toda sua confiança num futuro que já não controla. Sempre que sinto meu chão tremer, eu me pergunto se, como as mulheres da minha família, não estarei cedendo demais; se não estarei reproduzindo aquela mesma estrutura que abomino.

Outro dia pensei que minha fraqueza não é ser mulher, mas ignorar que tipo de mulher eu sou. Será que alguém sabe? A gente se parece mais com seus atos ou com seus pensamentos? Quantos pensamentos cabem em um ato? Quantas mulheres cabem em um corpo? Quantas em uma vida? Estou disposta a abraçar todas?

Aí estão elas, nunca param. As perguntas continuam a cair, leves e frenéticas.


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É escritora colombiana radicada em Buenos Aires, autora de Usted Está Aquí, publicado pela Montacerdos