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AGORA O ATOR SOU EU

Os bastidores do teatro inglês nas memórias de um de seus principais dramaturgos
Imagem Agora o ator sou eu

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Filho caçula de um açougueiro, Alan Bennett nasceu em Leeds, na Inglaterra, em 1934. Começou a trabalhar ainda criança: de bicicleta, entregava encomendas do comércio do pai. O bom desempenho na escola o levou a ganhar uma bolsa de estudos no Exeter College, da Universidade de Oxford, onde cursou história e também se envolveu com teatro. Chegou a lecionar história medieval, mas desistiu da carreira acadêmica depois do sucesso, em 1960, como autor e ator da revista satírica em esquetes Beyond the Fringe [Para Além do Alternativo], que revolucionou o humor britânico e influenciaria, entre outros, o grupo Monty Python. A partir de então, Bennett passou a se dedicar inteiramente à dramaturgia. Sua primeira peça, Forty Years On [Quarenta Anos Depois], estreou em 1968. Em poucos anos, Bennett se firmou como um dos nomes centrais do palco inglês por seu talento para escrutinar as instituições do país e transformar a vida e as obsessões comuns de seus conterrâneos em dramas afiados e irônicos.

Experimentou diferentes gêneros teatrais e construiu uma obra volumosa, que extravasa o teatro e se espalha por tevê, rádio, literatura e cinema. Junto com David Hare e Tom Stoppard, Bennett compõe a Santíssima Trindade do teatro contemporâneo inglês, sendo que, dos três, ele é o menos conhecido dos brasileiros. É dele o roteiro, entre outros, dos filmes As Loucuras do Rei George (1994, indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado) e A Senhora da Van (2015), baseados em peças que escreveu e dirigidos por Nicholas Hytner, colaborador frequente de Bennett nos palcos. Em 1994, publicou Writing Home, com escritos, críticas e um diário que manteve de 1980 a 1995, do qual piauí publica trechos a seguir. Nos fragmentos do diário, o leitor encontra Bennett por inteiro: sua observação atenta dos fatos e pessoas, seu humor e sua ferina reflexão política – sem falar nas saborosas gossips que ele oferece sobre vários ídolos do teatro e do cinema.

1980

6 DE MARÇO, LONDRES. Passo por Heathrow e na fila ao lado da minha uma família indiana é parada pela Imigração. O pai, magro, moreno, olhos penetrantes, é interrogado por uma mulher de aparência tão pétrea que podia estar na fronteira da Alemanha Oriental, e não no aeroporto de Londres. Há vários filhos, lânguidos e lindos, e a mãe carrega uma criança pequena no colo.

“Quem são esses aqui?”, diz a funcionária, apontando com o dedo no passaporte. “Eu quero ver todo mundo que está aqui.” O pai então reúne rapidamente a família diante da funcionária. Ela nem ergue os olhos.

15 DE MARÇO. Termino uma primeira versão do meu texto para publicação em um livro em homenagem a Larkin, Larkin at Sixty.[1] Partes dele me agradam e expressam o que eu quero dizer, mas percebo certo tom de humildade exagerada, como o do Uriah Heep de Dickens, que poderia denotar arrogância (e talvez denote mesmo). Parece que estou o tempo todo dizendo: “O que é que justo eu estou fazendo aqui? Nem sou alguém da literatura.”

Aliás, acabei de encomendar um livro, depois de ler uma resenha, uma tradução de Lenda, Mito e Magia na Imagem do Artista, de Ernst Kris e Otto Kurz, cuja ideia central é a de que existe uma tradição, para a qual os próprios artistas colaboram, de criar uma imagem dos primeiros anos da vida de um pintor que é sempre mais humilde e menos sofisticada do que a realidade. O público gostava de acreditar que um artista não teve formação, que ele atordoou seus antecessores, que seu talento foi detectado quando ele vivia em condições humildes ou improváveis. Isso sempre foi assim, e K. e K. demonstram esse fato com dados de vários períodos.

Suspeito que também seja verdade na literatura. Minha contribuição ao livro de Larkin discute seu poema “I remember, I remember”, em que ele evoca o que em outro texto chamou de “tédio esquecido” de seu passado em Coventry, “onde despassei minha infância”. Ele está tentando parecer um artista sem passado. E eu também, no meu texto, dizendo que li pouco e não tive gosto literário até meus 30 e poucos anos de idade. Isso convenientemente deixa de lado as pilhas de livros que eu emprestava na Biblioteca Pública de Headingley – Shaw, Anouilh, Toynbee, Christopher Fry.[2] Muitos desses livros, é verdade, eu pegava por causa da aparência, e muitos eu nem li, e os que li, acabei esquecendo. Mesmo assim eu li, ainda que sem saber do que gostava ou o que estava procurando, e certamente li zilhões de peças, mas sem jamais pensar em me tornar dramaturgo. Isso foi entre os meus 13 e 16 anos, logo antes da puberdade, e sempre apago da memória.

20 DE SETEMBRO. Uma vez John Fortune participou de um programa de televisão com Irene Handl.[3] O programa utilizava a técnica do chroma key, que naquele tempo ainda engatinhava, e o jovem e entusiasmado diretor achou que devia explicar o processo à senhorita Handl logo de cara.

Embrulhada numa estola de pele e com pelo menos dois pequineses no colo, a velhinha atarracada ouve pacientemente, enquanto o diretor embarca numa palestra sobre eletrônica. Por fim, ela o interrompe: “Me perdoe, querido, mas acho que você está me confundindo com uma dessas atrizes que estão cagando para isso.”

19 DE OUTUBRO. Provavelmente a única pessoa que deve estar com mais pena de si mesma do que eu nesta manhã de domingo é lady Barnett. Ela foi condenada por roubar objetos de uma loja na quarta-feira passada,[4] e eu fui condenado no mesmo dia, mas condenado por quê? Não sei exatamente, já que não li o jornal. Mas a sentença foi pronunciada de novo, hoje, e dessa vez unanimemente; será executada, e Enjoy vai encerrar sua temporada em coisa de três semanas.[5] “Você cortou o cordão umbilical”, diz Lindsay A.[6]

A campainha tocou ontem. Um telegrama da In Britain, uma revista para turistas. “Achamos que você é a pessoa ideal para entrevistar Jonathan Miller.[7] Resposta pré-paga.” Resposta: “Desculpem, já vou entrevistar Jonathan para uma revista especializada em corridas de pombos.”

17 DE NOVEMBRO, NOVA YORK. Shepherd R., o advogado de K., liga para me perguntar se eu teria interesse numa experiência teatral lá pelas sete. Lynn profetiza que terá relação com o a.a., e acerta na mosca. Um salão de igreja perto da Hudson Street, usado por vários grupos da comunidade. Avisos para idosos. Os horários da creche. Um cartaz: “Floresça onde você tem raízes.” Três palestrantes numa mesa, microfones: um professor de artes cênicas da Rutgers que também escreve crítica teatral no Village Voice; Alice, a mediadora; e Tom, que é padre (ainda que não desse para adivinhar – a bem da verdade, talvez nem Deus conseguisse adivinhar). O salão vai enchendo, uma mistura praticamente equilibrada de sexos, mais brancos do que negros, sendo que um dos negros é um policial uniformizado. O fator mais digno de nota é que todo mundo fuma (e fuma sem parar), cada cadeira tem seu cinzeirinho individual de lata.

Uma cadavérica mulher de cabelos brancos se põe de pé. “Meu nome é Barbara e eu sou alcoólatra.”

“Oi, Barbara”, todo mundo diz.

Então Barbara narra suas experiências (fumando): os apagões, a pneumonia, a doença.

O padre conta a sua história: ficava tão embriagado durante a eucaristia, que era uma sorte os comungantes receberem a hóstia na boca, pois em geral ela ia parar na orelha ou até no olho deles.

Uma a uma as pessoas reunidas se levantam e se identificam.

“Meu nome é Marvin e eu sou alcoólatra.”

“Oi, Marvin.”

“Meu nome é Todd e eu sou alcoólatra.”

“Oi, Todd.”

Shepherd também fala, e agora restam tão poucas pessoas que ainda não deram seu testemunho que eu começo a me sentir nitidamente excluído e percebo certos sorrisos bondosos e encorajadores que pretendem me fazer dar aquele passo. (“Meu nome é Alan e eu sou inglês, e não faço essas coisas.”)

Sou salvo por Alice, que, sempre que acontece uma pausa, pega o microfone e nos informa a respeito da sua vida. O grande problema de Alice não é o fato de ela ser alcoólatra, mas sim o de ser chata. Talvez tenha sido por isso que começou a beber, porque pode apostar que é por esse motivo que outras pessoas começam; tem um sujeito grandalhão na primeira fila que cai num sono pesado enquanto ela narra suas não experiências em estado de embriaguez. Mas há uma lição aqui, porque, se confissões de degradação total como aquelas em que Alice embarca são tediosas, um mau comportamento peculiar (por exemplo, a hóstia na orelha) é interessante e engraçado.

Ainda assim, como acontece tantas vezes com os americanos, você sai dali achando que eles fazem essas coisas muito melhor do que nós, e que, desprovidos de ironia, demonstram ter mais preocupação uns com os outros.

11 DE DEZEMBRO, NOVA YORK. Estou jantando no Odeon quando começa a correr a notícia de que deram um tiro em John Lennon. “Ah, esse nosso país”, suspira o garçom. “Posso apresentar as sugestões do chef para hoje?”

Os cozinheiros chineses aparecem e ficam parados à porta da cozinha enquanto alguém traz um rádio para uma das mesas. Em outra mesa alguns fregueses imediatamente pedem a conta, mal se dando ao trabalho de ocultar seu apetite pela tragédia (afinal, eles são nova-iorquinos), e pegam um táxi para se juntar ao que a rádio WNEW já está chamando de “uma vigília”. “Você descreveria a aglomeração na frente do edifício Dakota como uma vigília?”, pergunta Dan,[8] o apresentador. “Com certeza”, diz a repórter, que se chama Robin, “eu descreveria o que estamos vendo como uma vigília.”

Na Inglaterra, isso há de marcar Nova York mais uma vez como um lugar violento e perigoso, mas eu saio para caminhar pela West Broadway, que está deserta, à exceção de alguns bêbados parados na frente das casas (“O assassino parece ser um homem branco”), e me sinto em total segurança. Mas já se veem velas nas janelas, nessa noite morna de bastante vento, e uma menina chora enquanto espera para atravessar a Canal Street – “Dezoito graus aqui na WNEW, ventos de sudoeste”, o vento e o relativo calor contribuíram para que o assassino pudesse esperar tanto quanto fosse preciso, nessa estranha noite de dezembro, até que sua vítima retornasse para casa.

Quando volto ao meu prédio tudo está do mesmo jeito, o que significa que Rose está gritando da escada lá embaixo com toda a potência de sua voz de 82 anos de idade. “Estou com dor no cérebro”, ela berra. “Eu sou uma menina doente. Desce aqui, sua filha da puta imprestável de quatro olhos. Vou acabar com a sua raça. Você fica batendo essa merda dessa bola no chão, isso não se faz.” Essa bola, da qual reclama há vinte anos, é um som que existe apenas dentro da cabeça dela e, nem de longe a deixa louca; ao contrário, foram os gritos de Rose que mandaram a mulher do andar de cima para o hospício, então nem tem quem possa ficar quicando uma bola sobre o seu teto.

Na Inglaterra, onde a excentricidade tem uma delimitação mais estrita, Rose já estaria no hospital há muito tempo; mas aqui, em Nova York, onde todo mundo é louco, ela é tolerada, cuidam dela como talvez tenham tolerado o assassino branco e cuidado dele. Rose se põe à porta do seu apartamento: “Ela não presta, meu amigo. Ela é um horror. Leve a minha roupa para a lavanderia amanhã. Esse mundo não tem mais jeito, querido.”

Enquanto isso, na WNEW: “Estamos aqui juntos, passando a noite uns com os outros e dando voz ao que a gente está pensando disso tudo.” “Eu acho”, diz Dan, “que é meio inútil ficar especulando os motivos do doido que cometeu esse assassinato, ou, melhor dizendo, do suposto doido que cometeu esse suposto assassinato.” Parece que o corpo não está mais no Hospital Roosevelt e que Yoko já voltou ao Dakota “aparentemente em um estado de profunda desorientação”. “O que é”, diz Dan, “meio surreal.”

“É”, diz outro repórter (também dando voz ao que está pensando). “Esta noite está cheia de ironia – ironia que só aumenta quando a gente lembra que estava passando Música e Lágrimas[9] na televisão hoje.”

“Eu gostaria de dizer”, fala um ouvinte pelo telefone, “que ele tinha amor pela vida. É o que eu gostaria de dizer nesse momento.”

“Eu não quero diminuir a gravidade dessa situação”, diz outro ouvinte. “No fundo, queria acrescentar gravidade a isso tudo, e o que eu diria é que vai ser duro andar pelas ruas dessa cidade sabendo que ele não está mais aqui com a gente. Uma vez passei por ele na Madison Avenue.”

“Força, minha gente”, diz Dan. “A gente está aqui. Força.”

1981

3 DE AGOSTO, YORKSHIRE. Sei tão poucas coisas que escrever é como atravessar um terreno alagado, pulando de um pedacinho de terra para outro, tentando não molhar os pés (ou não tomar ovos na cara). Claro que de longe ninguém enxerga que o chão é pantanoso, e de longe também os movimentos das pessoas parecem mais suaves, as hesitações ficam diminuídas. Daqui a cinquenta anos, os saltos angustiados podem parecer passos confiantes. Mas será que vai ter alguém olhando?

Hoje é o aniversário da morte do meu pai, vou ao cemitério por volta de meio-dia e meia, que foi mais ou menos a hora em que ele morreu, e coloco flores no túmulo.

Gostaria de enviar a ele, no além-túmulo, um cartão que David Vaisey[10] me mandou no Natal do ano passado. A imagem é de um açougue de brinquedo, circa 1885, e o faria se lembrar do açougue que fez para mim e para o Gordon[11] quando nós fomos evacuados para Wilsill em 1939. Tinha peças de carne feitas de madeira que ficavam penduradas em ganchos feitos de alfinetes dobrados, tinha um balcão e uma mesa de corte, e ele fez isso na sua máquina de carpintaria, na frente da lareira em Halliday Place, naquelas primeiras semanas da guerra.

O outro item que eu lhe enviaria seria a avaliação que Emanuel Hurwitz[12] fez do violino que meu pai comprou por 16 libras em Barnoldswick, em 1970. A Hill’s, loja de violinos metida a besta da Bond Street, fez meu pai se sentir um tonto por achar que o instrumento teria algum interesse e magnanimamente lhe ofereceu 20 libras por ele. Hurwitz diz que vale 2 mil libras e, com o restauro, muito mais.

O que eu não gostaria de mandar é o endereço de mamãe, ou o script do Orton que anda me torturando o ano todo.[13]

Parado junto ao túmulo, eu recupero a lembrança da figura dele, de colete e mangas arregaçadas, com um sorriso que tomava todo seu rosto ainda jovem. Mas sem uma voz dizendo: “No fim vai ficar tudo bem” ou “Você vai superar isso”, que é o que ele teria dito se estivesse vivo.

28 DE AGOSTO, LA GARDE-FREINET.[14] Dez anos atrás as pessoas achavam (ou eu achava) que havia certa ousadia quando uma mulher afrouxava a parte de cima do biquíni para bronzear as costas por inteiro. Hoje em dia as mulheres expõem os seios e os deixam torrando abertamente, como se fosse a coisa mais natural. Ou apenas as mulheres com seios bonitos fazem isso. Charlotte H., por exemplo, sentada agora do outro lado da piscina, tem imensos e inesperados seios com grandes mamilos achatados; parecem o nariz de um coala.

Estou usando sandálias de praia, daquele tipo que tem sola e uma tira no peito do pé – o tipo bíblico, imagino. Quando era pequeno e lia que Jesus lavava os pés dos discípulos, eu imaginava os pés deles como os meus em 1943, suados em grossas meias cinza de operário e presos em pesados sapatos pretos com solas de borracha coladas. Por causa disso eu considerava o gesto de Jesus um sacrifício ainda maior, um ato ainda mais heroico do que de fato era. Depois de doze pares de pés como aqueles, pensava eu, a crucificação seria moleza.

11 DE NOVEMBRO. Um artigo sobre dramaturgos no Daily Mail, com os nomes elencados como sendo de esquerda, esquerda moderada, direita, direita moderada e centro. Eu não apareço. Provavelmente, eu deveria vir marcado como centro moderado.

14 DE NOVEMBRO, BRISTOL. Mamãe vem tendo dificuldade para dar nome às coisas, acho que tanto por falta de uso de suas faculdades mentais, quanto pela sua degeneração real. Ela ficou parada diante do console da lareira, tentando lembrar a palavra “relógio”. “É um desses troços”, ela disse, “com aqueles trocinhos que giram e que quando chegam ali dão uma descansada.”

20 DE NOVEMBRO, YORKSHIRE. O telefone toca. “Eu sou portadora da peste, querido?”

“Como?”

“Eu sou portadora da peste? É a Coral Browne, querido. Acabei de chegar em Londres e descobri que todo mundo saiu da cidade. Alec não está aqui. Você não está aqui. A única pessoa que está aqui, graças a Deus, é John Schlesinger, e eu vou lá jantar com ele hoje.”[15]

Pergunto o que ela está fazendo. “Um especial para a tevê americana. Está sentado, querido? Olha só como se chama: A Mulher Mais Incrível do Mundo. Nem preciso dizer, meu amor, que não vou fazer o papel-título. É sobre Eleanor Roosevelt. Quem vai fazer é a Jean Stapleton. Não, não a Maureen Stapleton – isso, sim, faria sentido. Eu vou fazer lady Reading.[16] Já ouviu falar? Não? Nem eu. Parece que só existe uma fotografia dela, que foi entregue para o pessoal da maquiagem, então estou temendo o pior. Eles me meteram em umas roupas de brechó, umas peles com alopecia, e nem me deixaram ver o chapéu; disseram que precisava ‘arejar’, sem falar que tenho que usar uns sapatos de inválida. Na cena que a gente vai fazer amanhã eu tenho que sair do [hotel] Claridge’s, dobrar uma esquina e chegar à Parliament Square. Eu comentei que a Parliament fica muito mais longe que isso do Claridge’s, mas eles dizem que têm pouca película. O Vincent[17] está em Paris para receber algum prêmio por serviços prestados ao terror, e depois a gente vai a Roma para alguma coisa equivalente, só que em italiano.”

Conversamos a respeito do roteiro sobre Burgess [An Englishman Abroad] e discutimos possíveis atores para o papel dele. Passamos por vários nomes e vai ficando cada vez mais óbvio que deixamos de lado quem vai fazer o papel dela.[18] Por fim, eu me pego dizendo: “Você não gostaria de fazer?”

“Mas eu não estou velha demais?”

“Bom”, digo eu, “o que você acha?”

“Não sei bem, querido. De certa maneira não é uma questão de idade” (o que é verdade). “E na época eu estava fazendo o papel de Gertrude – eu era a mãe do Michael Redgrave, que é mais velho que eu vários anos. Quer dizer, eu já fui mãe de todos eles, Redgrave, Gielgud, Alec. O único de quem nunca fui mãe, graças a Deus, é Ralph Richardson.”

Juro que vou mantê-la informada e mandar o próximo tratamento do roteiro, quando houver um próximo tratamento, e a coisa fica assim. Isso altera um pouco a peça, que fica menos ficcional, mas acho que eu gostei.

1982

17 DE JANEIRO, NOVA YORK. No Odeon, na nossa última noite, A. e eu nos sentamos na banquette, ao lado de um casal de quase 30 anos, de boa aparência, apesar de a mulher estar empetecada em excesso – cabelo detalhadamente arrumado, cílios curvados, montada demais. A garçonete deles é Helen, que é bonita e age com muita naturalidade (além de ser impassível). O prato principal do casal é lagosta, e a mulher devolve duas vezes, na primeira porque está frio, na segunda porque “parece borracha”. Tudo leva a crer que o motivo real é que o namorado notou Helen e foi agradável com a moça enquanto ela tirava os pedidos. Stephen C., que é maître, diz que isso vive acontecendo, e que, “sem ser nem um pouco sexista, os gays não fazem isso”. Se um casal gay é servido por um garçom bonito e um dos dois gosta do rapaz, tudo é levado na brincadeira.

23 DE MARÇO. Num dia como hoje, quando eu sinto que andei um pouco, um pouquinho que seja, na escrita de um enredo e encerro o trabalho, é como um montanhista que sobe uma parede vertical e monta acampamento numa plataforma estreita. Amanhã ele pode não conseguir chegar mais alto; pode até rolar da cama, à noite.

“Esse é um lugar que eu não visito faz tempo.”

“Qual?”

“O topo do mundo.”

27 DE ABRIL. Gavin Millar ensaia comigo e com Julie Walters as duas cenas que fazemos juntos em Intensive Care, meu filme para a televisão.[19] Eu interpreto um professorzinho tímido e ela, uma enfermeira do turno da noite numa UTI em que meu pai está entre a vida e a morte. Na primeira cena, depois de alguma conversa, eu a convido a ir para a cama comigo; na segunda cena isso acontece, e nesse breve momento em que ela se afasta do dever e do leito de meu pai no hospital, ele morre, é claro. A cena foi sugerida por um incidente da vida de Gandhi, cujo pai de fato morreu enquanto ele trepava. Eu tinha até pensado, enquanto escrevia, em interpretar o professor, mas ao chegar na cena do quarto suspirei aliviado, ciente de que era algo que eu não estava preparado para encarar – coisa que acontece com muita frequência enquanto escrevo para poder ser vista como meramente acidental; ou seja, eu deliberadamente acabo arranjando um jeito de me excluir do meu próprio trabalho enquanto escrevo. Mas, nesse caso, Gavin não conseguiu encontrar outra pessoa para fazer o papel, então eis-me aqui. É um trabalho difícil porque eu me dei muito poucas falas, coisa que faço frequentemente com o personagem central. Os papéis menores eu não tenho dificuldade nem para inventar nem para encher de falas; o personagem central é um vazio, um enigma, algo que eu torço para que o ator ou a atriz resolva por mim. Mas agora o ator sou eu, e eu não sei o que fazer.

25 DE MAIO, HOSPITAL DE AIREDALE KEIGHLEY. Neil, do figurino, andou discutindo com Simon, o assistente de produção, e Miri, a assistente de maquiagem, sobre a questão racial. Simon e Miri são judeus (Miri é de Israel) e Neil não está preparado para discutir com eles.

“Eu simplesmente acho”, ele diz, quando me conta a conversa depois, “eu simplesmente acho que hoje em dia tem gente de cor demais em Londres. E eu não gosto. Mas é só uma preferência. Afinal de contas, tem gente que não gosta da Bette Davis.”

15 DE JUNHO. Margaret Thatcher anuncia a rendição de Port Stanley[20] em um tom bem cuidadoso. Seguem-se imagens do enterro dos soldados mortos em Goose Green, o serviço singelo e a juventude dos feridos são demais para mim. Um piloto de um dos caças Harrier fala da eficiência dos mísseis Side-winder. “Fez a gente abrir os olhos”, ele diz. Faz fechar também. Não me sinto inglês agora. Aqui foi simplesmente o lugar onde me largaram. Sem país. Sem partido. Sem igreja. Sem voz.

E agora estão cantando Britannia, rules the waves[21] em frente à casa da primeira-ministra. É a Última Noite dos Proms[22] erigida em política de Estado.

O parlamentar Alan (filho do Civilização) Clark[23] quer ver os prisioneiros argentinos desfilando diante das câmeras com os coturnos desamarrados. Fico surpreso por ele não querer que sejam exibidos sem suas muletas, como os participantes do complô para assassinar Hitler.

10 DE JULHO. Olivier[24] é muito dado a elogios exagerados e quase risíveis em sua insinceridade; descreveu Enjoy, me lembro bem, como a melhor peça que ele já tinha visto – e fez isso quando estava sentado no camarote de Sua Majestade, falando com toda a companhia reunida depois do ensaio de figurino, e algumas das pessoas mais jovens do elenco de fato acreditaram nele. Estive com M. hoje, que me contou uma situação ainda melhor. Ao se encontrar com Tom Courtenay no jantar de entrega de algum prêmio, Olivier o cumprimenta por seu papel em The Dresser.[25] A namorada atual do Tom é assistente do diretor da peça, e uma de suas tarefas é atuar como ponto para os atores. Tom a apresenta. “Ah, minha querida”, disse o cavaleiro de Brighton, “o que eu não daria para estar no seu lugar! Poder acompanhar o texto dessa peça toda noite!”

13 DE OUTUBRO. Estou ensaiando As Alegres Comadres de Windsor para a televisão, no papel do juiz Shallow. Hoje vou a uma prova de figurino e me vejo coberto da cabeça aos pés de brocado vermelho. Pareço um restaurante indiano ambulante.

4 DE DEZEMBRO, NOVA YORK. Uma mudança que atingiu os costumes públicos ficou evidente na recepção dos militares das Falklands. Os combatentes (como, por exemplo, o único piloto de avião capturado pelos argentinos), quando são perguntados sobre a primeira coisa que farão ao chegar em casa, sorriem com ar matreiro. Um deles diz: “Bom, o que você acha?” E sem dúvida outros chegam de fato a dizer: “Vou trepar com alguém até cair.” Em tempos longínquos eles teriam dito, pelo menos: “Vou tomar uma boa xícara de chá.”

1983

20 DE MARÇO, WESTON-SUPER-MARE.[26] Ver mamãe em Weston. Fico sentado na sala de jantar do asilo enquanto procuram o casaco dela. Duas velhas senhoras esperam seu almoço, que vai levar ainda pelo menos uma hora para chegar. “Me passou pela cabeça que era abacaxi”, diz uma delas, “mas não vou apostar nisso.” “Você tem que ficar de olho naquela ali”, diz a outra, apontando para uma cadeira vazia. “Ela pega o pão todinho.” A memória de mamãe já está praticamente zerada, o que a deixa imersa numa benevolência generalizada. “Eu sempre gostei de você”, ela diz a uma das outras residentes e lhe tasca um beijo na bochecha ligeiramente sobressaltada.

É um lindo dia e nós saímos para caminhar na areia. “O Gordon veio ver a senhora?”, eu pergunto. “Ah, sim”, ela diz, feliz. “Estou dizendo que ele veio, mas nem sei quem é ele.” “A senhora sabe quem eu sou?” Ela me encara. “Claro, você é… você é meu filho, não é?” “E o meu nome, qual é?” “Ah, mas aí também!” E ela ri, como se não fosse uma informação que uma pessoa razoável devesse esperar dela. Mas isso não a incomoda, então não incomoda a mim também.

Comemos nossos sanduíches numa colina perto de Weston com uma vista ampla de Somerset. Ela quer dizer “Que vista impressionante”, mas as palavras também estão sumindo. “Ah”, ela exclama. “Que montão de em volta.” Algumas ovelhas no campo. “Eu sei o que elas são”, ela diz, “mas não sei como é o nome.” Assim Wittgenstein é aniquilado por minha mãe.

8 DE JULHO. Duas faixas de um tecido azul-claro para camisas chegam pelo correio com uma carta que me pede que eu as use como braçadeiras em 25 de agosto, data do aniversário de 65 anos de Leonard Bernstein. Isso vai atestar meu respeito por Lenny e o meu anseio pela paz. Na verdade eu não conheço Lenny e receio que usar uma braçadeira azul-celeste seja um gesto opaco, senão ambíguo, então envio minhas amostras da [loja] Van Heusen a Patricia Routledge,[27] que de fato conhece Lenny e, embora tenha tanto medo de morrer por causa da radioatividade quanto eu, tem menos medo de morrer de vergonha.

PRIMEIRO DE OUTUBRO. Conserto um pneu furado da minha bicicleta. Me agrada poder fazer coisas simples, práticas – trocar um fusível ou um pneu, fazer um carro pegar no tranco –, porque não são tarefas normalmente associadas a um temperamento como o meu. Tendo a pôr as relações sexuais nessa categoria também. O conteúdo de um kit para consertar pneus furados é como uma cápsula do tempo, inalterado desde que eu era menino e provavelmente desde muito antes. Ali estão a borracha, o giz, a lixa na lateral da caixinha e o lápis amarelo que eu não usava naquela época e não uso hoje. Pergunto na loja de bicicletas se alguém já pensou em fazer remendos autocolantes. Ninguém.

1984

31 DE MARÇO, OXFORD. De manhã, [museu] Ashmolean, onde vejo e me desagrada o João Batista de Da Vinci, com um corpo tão liso e lânguido que chega a me fazer duvidar da figura retratada. O rosto, com seu sorriso ambíguo, e a mão erguida no que é quase um gesto de insulto fazem a figura parecer mais uma prostituta que um santo, o mistério que há no sorriso não é um mistério natural – o enigma da beleza, digamos –, mas o de uma provocação deliberada. Se ele não fosse João Batista, estaria carregando um leque ou espiando sob a borda de uma sombrinha.

À tarde, a crisma de Libby Vaisey[28] na catedral. Embora não seja uma igreja muito grande, o bispo tem um microfone preso à roupa, mas no momento em que se dirige ao púlpito, ele se esquece disso, prende-se nos cabos e ocorre um terrível ruído amplificado. O jovem sacerdote barbado que o acompanha (que é provavelmente mais seu técnico de som que seu capelão) desembaraça Sua Eminência para que possa chegar ao púlpito. Lá chegado, o bispo enverga outro microfone sem cerimônia, contudo, se isso se tornar parte integrante do serviço religioso, é provável que acabe ganhando ritos cerimoniais e talvez até um lugar na liturgia.

A imposição de mãos propriamente dita entrou na minha vida 35 anos atrás, naquela noite em que H. H. Vully de Candole, bispo de Knaresborough, me crismou na Igreja de São Miguel, em Headingley. Hoje em dia, cada crismando ou crismanda leva um cartão com seu nome em letras maiúsculas, alguns deles, imagino, com a indicação da pronúncia entre parênteses. E ali estão Kims e Beckys e Mandys e Trevs, todos abençoados e recebidos na comunidade por esse bispo microfonado; e a coisa toda feita com uma informalidade que parece não surpreender ninguém e que faz com que eu me sinta um esnobe só por ter percebido isso. Poucos dentre os meninos usam ternos, e um dos mais velhos vai num desmazelo socialista quase doutrinário com seu anoraque.

Na nova forma da liturgia, Deus é sempre chamado de Você; só restava um Vós no mundo e os idiotas o aboliram. Claro que eles não têm como se livrar do vocativo, que é tão arcaico quanto o pronome, então ainda dizemos “Ó Deus”. Que bom que Deus não tem nome, senão provavelmente já estaria sendo chamado de Dave.

30 DE JUNHO. O príncipe Charles no funeral de Betjeman.[29] Nunca leia a Bíblia como se ela fizesse sentido. Ou pelo menos não tente dar sentido. Nem às orações. A liturgia deve ser tratada e lida como se se anunciasse os horários dos trens.

9 DE SETEMBRO, YORKSHIRE. O menininho à minha frente, que tem um princípio de distrofia muscular, está debruçado no parapeito da ponte vendo a irmã pescar. Um sujeito alto, careca, aparece na ponte, depois de uma caminhada pelas charnecas. Ele para, olha sobre o parapeito, ao lado do menininho, e lhe dá uns tapinhas na bunda. O menino não repara e continua vendo a pesca enquanto o sujeito olha de lado para ele e toca no seu casaco azul. Há uma fresta entre o casaco e o cós da calça jeans, e ele olha aquele lugar. Alguém está chegando. Ele dá outro tapinha no traseiro do menino e, quando o menino olha timidamente para ele, faz tchau com a mão. O menino se ergue e se debruça do outro lado da ponte, e um ou dois minutos depois sua irmã vem do rio com uma truta minúscula – foi a primeira vez que vi alguém realmente pescar um peixe nos dezoito anos que moro aqui. Juntos eles seguem pela trilha para mostrar o peixe à mãe, a menina caminhando devagar para que o irmão possa se apoiar nela e se equilibrar, enquanto anda do seu jeito estranho e desarticulado, como um atleta da marcha atlética. Ele está muito feliz.

6 DE DEZEMBRO. Agentes são como médicos: preferem lidar com os colegas. Clientes, como pacientes, são secundários – estão ali para ser consolados e tranquilizados, e para ouvir mentiras enquanto as negociações de verdade são feitas de maneira objetiva entre profissionais. É esta, afinal, a definição de um profissional: alguém que pode conversar com outros profissionais sem recorrer aos sentimentos, ou recorrendo apenas a uma dose precisa de preocupação que ocupe o lugar dos sentimentos. É por isso que os eleitores desconfiam dos políticos, um prisioneiro desconfia do seu advogado, e, neste momento em particular, é por isso que eu não estou satisfeito com o meu agente. Eu sou um bem-vindo acréscimo à sua lista, ganho algum dinheiro, embora não seja uma quantia espetacular, e não dou trabalho. Resultado: quando acabo criando uma obra de sucesso, eu me vejo mal pago (como no caso de An Englishman Abroad – 3 mil libras) ou a peça sai de cartaz (Forty Years On/Quarenta Anos Depois). Enquanto isso meus contemporâneos que aprenderam a ser duros na queda aos 50, até a ponto de dar telefonemas e dizer o que lhes passa pela cabeça, acabam perdendo amigos, mas ganham dinheiro. Já eu prefiro ter amigos e ser considerado um sujeito bacana. Mas não sou. Eu não sou melhor que ninguém, só que não gosto de mostrar isso.

1985

13 DE MARÇO, LOS ANGELES. O filme do porquinho[30] vai estrear na British Film Week do Los Angeles Film Festival. A limusine que deveria levar o diretor, Malcolm Mowbray, e eu até o cinema não aparece. Acabamos sendo levados na van do hotel, que percorre às pressas a Hollywood Boulevard, com um forte cheiro de peixe. A estreia é no Grauman’s Chinese Theatre. Holofotes e o que parece ser uma tropa da Polícia Montada. Um exame detido revela que nenhum dos policiais montados tem menos de 60. Alguns passantes ficam vendo a chegada das celebridades, que parecem ser apenas duas, Michael York e Michael Caine (que depois desceu a lenha no filme). A plateia também não era das mais estreladas, e estava toda cheia daqueles tarados, caçadores de autógrafos e aleijados emocionais que assombram os bastidores do cinema americano. Um grupo de “escoceses” marcha para o palco, mas ao som de trombetas, e não gaitas de fole. Eles ficam ali meio sem jeito por um tempo e tocam uma fanfarra desafinada. Depois vem outra pausa infinita antes de eles saírem. O embaixador britânico agora se levanta para fazer as honras da noite, mas seu microfone não funciona e a plateia começa a se rebelar. O produtor Mark Shivas, Malcolm Mowbray e eu estamos sentados em partes diferentes do cinema, e deveríamos ser apresentados à plateia. Mark é apresentado antes, o holofote o localiza, e há aplausos dispersos; então a mesma coisa com Malcolm. Quando chega minha vez eu me levanto, mas como estou sentado mais no fundo do que os outros o holofote não me acha. “Esse cara pensa que é o quê?”, diz alguém mais atrás. “Senta, otário.” E eu sento. O filme começa.

3 DE JUNHO. Eu leio biografias de trás para a frente, começando pela morte. Se essa parte me agrada eu encaro o resto. A infância quase nunca me interessa.

1986

6 DE JANEIRO. Isherwood morreu.[31] O obituário do Times, com uma discrição que vale por um insulto, não menciona sua homossexualidade. O Telegraph não tem escrúpulos quanto a isso, ainda que o obituário escrito por um crítico (David Holloway) mencione I Am a Camera como algo notável apenas para proporcionar uma piada do crítico. Que cita errado (Holloway: Me no lika; Tynan: No Leica).[32] Nos dois obituários o tom é o de sempre, algo como “ele podia ter feito melhor”.

Conheci Isherwood em 1962. Ele tinha assistido a Beyond the Fringe e eu fui jantar com ele e Don Bachardy[33] no Chez Solange, da Cranbourn Street. Ele queria me falar dos sermões e das cerimônias que costumava encenar com Auden numa pedreira abandonada perto da escola deles em Hindhead. Eu estava desinteressado e tão tímido que mal me lembro de ter aberto a boca. Era a primeira vez que eu encontrava um casal que não ocultava sua homossexualidade. A diferença de idade entre eles me deixou de queixo caído.

4 DE MARÇO. Li As Aventuras do Ursinho Pooh[34] para uma plateia de crianças no Tricycle Theatre, em Kilburn. Muitas delas nunca tinham pisado num teatro. Eu luto contra o choro dos bebês e os gritos dos maiorzinhos e acabo gritando até ficar rouco. É O Ursinho Pooh lido pelo dr. Goebbels.

28 DE MARÇO (DOMINGO DE PÁSCOA), YORKSHIRE. Igreja às onze para a Eucaristia, quando me deparo com o ritual alternativo.[35] Novidade para mim. Misteriosamente, ele segue um trecho da forma antiga e então, sem mais nem menos, nós nos vemos numa estradinha marginal que desvia de partes imensas da prosa antiga e nos coloca às portas do altar por um caminho completamente novo. Relembro a Páscoa da Igreja de São Miguel, em Leeds, os grandes lírios sobre o altar, as casulas sacerdotais, as velas e as carolas caindo de joelhos toda vez que se mencionava o nome da Virgem. Hoje, o simpático sr. Dalby, o barbado vigário sem cerimônias de Austwick, nos guia por entre as ruínas do Livro de Oração Comum (“Abram na página 189 e depois sigam para o final da 192”), e nada das grandes orações ritmadas, da majestosa ascensão e queda do rito até os tons suaves de “E naquela mesma noite foi traído”.

“Muita gente?”, sempre perguntava meu pai depois da missa. Hoje, umas trinta pessoas, esposas de fazendeiros bem encasacadas, casacos de pele baratos e chapéus e gorrinhos de pompom e todas aquelas delicadezas devotas que eu tinha esquecido, como, lá na frente, o casal de fiéis mais escrupuloso que os outros, que espera até a fila acabar para ir “comungar”.

Conto sobre o serviço a Mary-Kay,[36] que diz que sabe de uma igreja em Paris onde a missa é cantada como na igreja patrística, e que ela fica cheia de gente. É como cerveja artesanal, à vera. Se a Igreja Anglicana tivesse outro tipo de organização, se anunciasse o tipo de rito e a qualidade do serviço oferecido, isso seria um jeito de lhe dar uma nova vida. Deus à vera.

27 DE MAIO. Roger Lloyd-Pack vai fazer o papel de Kafka em Kafka’s Dick.[37] Chegamos a testar Mark Rylance, um ator que eu não conheço e que também é muito bom. Totalmente egocêntrico, a ponto de se tornar excêntrico, ele foi o primeiro dos atores que vimos que conseguiu tornar inteligível o desejo de Kafka de ser alguém e ser ninguém ao mesmo tempo. Roger L-P. vai ser mais engraçado e é fisicamente mais impressionante (e lembra Kafka), mas Rylance tem um rosto lindo, atraente, e causa um impacto incrível. Ele representou Peter Pan e muitos papéis na Royal Shakespeare Company (não vi, claro, nenhum deles) e já montou versões abreviadas de Shakespeare com sua própria companhia. Nasceu em Kent, mas cresceu em Milwaukee e fala como alguém que veio do norte, mas perdeu o sotaque.

31 DE JULHO. Na Universidade St. Mary, em Strawberry Hill, palestra em um curso de verão. Minha vaidade vem à tona logo de saída quando sou apresentado pelo diretor. Há pouco tempo, conta ele à plateia, participou com alguns amigos de um jogo de salão em que cada um fingia ser uma pessoa famosa. Ele era um dramaturgo que começava com a letra B, e lhe perguntaram se por acaso seria um dos mais profundos, influentes (e aqui meu sorriso de falsa modéstia começa a aflorar timidamente), ascéticos e humildes autores de nosso tempo. A essa altura meu sorriso já é nauseabundo de tão humilde.

“E eu respondi: ‘Não’”, diz o diretor. “Eu não sou Samuel Beckett.”

24 DE SETEMBRO, YORKSHIRE. Kafka’s Dick estreia no Royal Court, e Richard Eyre[38] me liga na hora do almoço com o resumo das notícias. A recepção é variada, só o Standard e o Financial Times foram completamente favoráveis. Wardle,[39] no Times, usa aquele seu tom “Bennett deu um passo maior que as pernas” de sempre, exatamente como fez anos atrás com Forty Years On. O que ele quer dizer é que eu dei um passo maior que as pernas dele. Billington[40] desenterra uma redação sobre Kafka que escreveu na escolinha, e poucos deles se dão ao trabalho de dizer que a noite foi divertida. Caminho pelos campos das colinas de Austwick procurando cogumelos. Não encontro cogumelos. Bom, tenho que aguentar como um homem. O que significa aguentar como uma mulher – ou seja, sem reclamar.

26 DE SETEMBRO, LIUBLIANA. Do outro lado de um portão eu vejo alunos de artes cênicas que ensaiam uma peça num jardim. Não consigo ouvir os diálogos e não ia ganhar nada se conseguisse, mas em poucos minutos percebo que se trata de Hamlet. Um rapaz alto está no centro do palco e é observado por um casal de mais idade. Dois atores entram, trocam palavras com o casal de mais idade e então saltitam inocentemente até o rapaz solitário e conversam com ele antes de voltar rapidinho para relatar o que ocorreu. Hamlet usa calças jeans e jaqueta de motoqueiro. Parece um sujeito chato, mas não sei dizer se é porque o ator é um chato, ou porque está representando Hamlet de um jeito chato, ou se, despido da poesia, Hamlet é mesmo um chato.

13 DE NOVEMBRO. Kafka’s Dick entrou em cartaz, então Richard Eyre e eu levamos o elenco para jantar. Alison S. e Vivian P. pedem expressamente para não ficar ao lado de Charles L.[41] (que completa 86 anos na semana que vem), porque ele fica tentando passar a mão nelas. Ao sair de cena, num certo ponto da peça, ele sempre faz questão de fazer um comentário lascivo para A., o que a faz entrar em cena irritada e ruborizada. Mas ele é muito bom em antimemórias. “Você trabalhou com Edith Evans, Charles. Como é que ela era?” “Era uma vaca desgraçada.” Essa é a natureza da maior parte das lembranças teatrais, mas ninguém costuma admitir.

1987

2 DE JANEIRO. Reg, dono da barraca de quinquilharias na feira, morreu, e hoje é o dia do enterro. No lugar onde ficava sua barraca, na frente do bar The Good Mixer, colocaram uma mesa de armar coberta com um tecido azul, e um cartão numa coroa de crisântemos anuncia que Reg Stone morreu em paz no dia 26 de dezembro e que seu cortejo fúnebre vai passar pela feira às três da tarde. Até ler o cartão eu não sabia seu sobrenome.

A barraca do Reg era uma atração da feira bem antes de eu me mudar para cá em 1961. Naquela época ele tinha dois preços: 6 pences e 1 shilling. Com o tempo esses valores passaram a 1 shilling e 5 shillings, e nos últimos dias já tinham chegado a 50 pences e 1 libra. Em certa medida, ele adequava os preços aos fregueses, ainda que não à moda de Robin Hood, sendo que os fregueses mais pobres muitas vezes pagavam mais caro, e qualquer tentativa de pechinchar não dava em nada. Eu tenho dois relógios de parede americanos, ambos funcionando perfeitamente, que custaram 5 shillings cada, e um prato de sopa antigo da Mason, de cerâmica ironstone, que me custou 6 pences e fica na parede da minha cozinha. As casas da vizinhança antigamente eram cheias de tesouros que provinham do Reg: trenzinhos de brinquedo, espelhos emoldurados em madeira de lei, cerâmicas asiáticas, taças decoradas – tudo comprado por uma ninharia. Uma vez eu vi uma lata de filme (vazia) que tinha “Moholy-Nagy”[42] escrito na borda; ainda no ano passado Harriet G. conseguiu uns pratos com design de Eric Ravilious[43] por 50 pences. Aparentemente Reg não se interessava por dinheiro. Sem nem olhar direito para o que você tinha encontrado, ele tirava o cigarro da boca, dizia “Uma libra”, e então tomava um gole do seu copo de cerveja que ficava na janela do bar, dando as costas, sem se importar se você compraria ou não.

Às três, vou até lá. A mesa agora está coberta por uma grande pilha de flores, em geral do tipo vagabundo que está em oferta na barraquinha fuleira da feira, pétalas já se desfolhando ao vento. Um ou dois dos moradores mais antigos estão à toa por ali, a parcela mais idosa da população do bairro em destaque. Pensando que o cortejo virá da igreja católica, estamos todos olhando para a Arlington Road, mas ele desponta cruzando a própria rua da feira. À frente vem um padre de batina de inverno e um agente funerário que carrega um grande guarda-chuva enrolado que segura à frente do corpo como se fosse um báculo ou uma cruz cerimonial. A procissão é tão silenciosa e inesperada que mal chega a perturbar as pessoas que fazem suas compras habituais; a fila na frente da barraca de frutas de Terry Mercer é gentilmente afastada pelas limusines que avançam em marcha lenta. O padre para no fim da rua, de onde, após se virar, fica olhando para a feira, como se a rua fosse a nave de uma igreja e aquele ponto onde está, o seu altar. As flores agora estão distribuídas entre os diversos carros, com mais pétalas caindo. Em uma das limusines uma loura glamorosa está às lágrimas, e em outros carros há crianças. Da mesma forma como nunca pensei que Reg tivesse um sobrenome, não cogitei que tivesse uma família (e uma família assim tão respeitável), e isso me causa surpresa. E, para um homem que eu jamais vi sorrir nem fechar a cara, jamais vi gargalhar nem perder o controle, esse luto também parece deslocado.

19 DE JANEIRO, CAIRO. De manhã cedo, no aeroporto do Cairo, nós ficamos andando pelo saguão de embarque, onde Christopher S.[44] descobre um museu. É só uma salinha, com vista para a pista, e tem coisa de vinte vitrines de vários períodos – Egito antigo, os coptas, os mamelucos – com uns poucos objetos em cada uma: uma tabuleta de madeira de um santo em estado de glória, vasos canópicos com cabeças de cães sorridentes, um fragmento de alabastro grego rotulado como “Homem carregando algo no ombro”. Deriva-se mais satisfação (eu tenho certeza) desses poucos artefatos de qualidade inferior do que de toda uma manhã de passeios pelas tumbas. Isso ocorre em parte porque nós temos tempo para matar, e aqui é só uma sala e nada mais – não há outros objetos enfileirados esperando atenção, nada de visões de salas inteiras ainda por visitar, de tesouros despercebidos. (Madame de Sévigné falando de turismo: “O que eu vejo me deixa cansada e o que não vejo me deixa incomodada.”) E também porque o próprio museu é algo descoberto, um objet trouvé, uma esquisitice.

O museu guarda sua melhor surpresa para o final: uma estátua de calcário pintado, de cerca de 3000 a.C., de duas figuras monumentais, Iuh e sua esposa Maria. Eles estão sentados num trono com suas perucas cerimoniais, o cabelo verdadeiro da mulher aparecendo por baixo, e têm expressões, se é que se pode dizer que as têm, solenes e sérias. Só que Iuh tem o braço esquerdo em volta dos ombros da esposa, o que indica, segundo a etiqueta da peça, “uma marca de afeto”. É outra versão das efígies de mãos dadas que inspiraram o poema Um Túmulo Arundel, de Larkin. Estas eram, afinal, um restauro meio sentimental do século XIX, enquanto que o marido do Antigo Império está com o braço em torno da esposa há 5 mil anos. Eu acho. Espero. Como talvez Larkin tenha esperado que fosse verdade.

Anunciam nosso voo e, quando eu saio do museu, o saguão de embarque doméstico está vazio, viajantes e funcionários do aeroporto rezam juntos no outro extremo, ajoelhados.

13 DE MAIO. Colin Haycraft[45] e eu estamos conversando na calçada quando um sujeito passa empurrando um carrinho de compras. “Saiam da frente, seus pretensos intelectuais”, ele ruge. “Ficam atrapalhando a porra da passagem dos outros.” É curioso que seja o intelectual a incomodar, embora nunca se admita que se trate do artigo genuíno, mas sempre do “pseudo” ou “pretenso”. É claro que somente na Inglaterra a palavra “intelectual” é um xingamento.

PRIMEIRO DE NOVEMBRO, SUÍÇA. No trem de Gstaad a Montreux. É o train panoramique, e como é domingo está lotado, com gente de pé nos corredores. Na minha frente está sentado um sujeito de talvez 40 anos, francês ou até quem sabe americano, lendo uma revista de contos pornográficos em inglês. “O corpo dela se arqueou para receber seu membro pulsante” é o começo de um dos parágrafos. Ao lado dele está um homem de negócios, que lança olhares curiosos para a revista e uma ou duas vezes para o leitor, mas não comenta nada. Acaba descendo no mesmo momento em que o leitor de pornô decide ir até o carro-restaurante para pegar um café. O leitor de pornô deixa a revista no assento para guardar o lugar. Como não o viu sair, um casal de meia-idade ocupa os dois lugares, e o marido pega a revista e começa a folhear. Ele mostra à esposa, e os dois ainda estão olhando quando o francês/americano volta com seu café. “Vejo que estão se divertindo com a revista”, ele diz, em francês, sem qualquer constrangimento. No mesmo tom, os dois concordam, e eles conversam um pouco sobre a revista. Em meio a tudo isso, o proprietário da revista comenta sem raiva que o marido na verdade está sentado no seu lugar. O marido imediatamente se levanta, o leitor de pornô senta, e este e a esposa (meias curtas, casaco, talvez professorinha) continuam sua conversa amigável a respeito da revista, com o marido vez por outra fazendo algum comentário. É uma cena curiosa para uma tarde de domingo, e uma cena difícil de imaginar acontecendo na Inglaterra. No que tem de franqueza, parece o começo de um filme de Bertrand Blier, só que neste caso as conexões sexuais se realizariam. Aqui esse elemento está de todo ausente, são apenas seres humanos que se encaram sem julgamento, sem preconceitos. Não são a humanidade em si, mas espécimes da humanidade. E nada têm do que se espera dos suíços.

1988

27 DE ABRIL, HARROGATE. Num intervalo das filmagens de Dinner at Noon[46] no Crown Hotel, eu vou até a Igreja de São Vilfredo, que vim de bicicleta visitar quarenta anos atrás, pedalando desde Leeds com John Totterdill.[47] Apesar de me lembrar dela como obra de Ninian Comper, descubro que seu arquiteto foi Temple Moore, uma versão miniaturizada das antigas catedrais inglesas – minúsculas passagens para o clerestório, uma linda escadaria que leva ao órgão e muita ornamentação da escola Arts & Crafts no coro, coisa que eu até achava bonitinha na época, mas hoje me parece muito melhor. Um dia achei que essa igreja fosse moderna. Agora é uma antiguidade, a porta cor de estanho emoldurada em ferro, tão talhada e pesada quanto seu modelo original.

Quase certo de que estaria trancada, como hoje em dia costuma acontecer com as igrejas, descubro que é a hora dos cânticos do fim da tarde (e ainda por cima na versão do Livro de Oração Comum) e que há três homens sentados na Capela de Nossa Senhora – imagino que um deles seja o padre encarregado, e o terceiro (de barba), talvez o cura. Sento e fico um tempo escutando, mas não ando pela igreja como gostaria de fazer, para não me ver incluído ou (quando tiverem acabado de cantar) recepcionado. Numa igreja (em particular durante o serviço), um conflito idêntico ao que sinto em galerias de arte: uma necessidade de, ao mesmo tempo, ficar e ir embora. (Ao ver um pôr do sol, a mesma coisa.) Tenho a sensação de que há algo aqui para mim e que devia ter paciência para esperar, mas o outro impulso (normalmente mais forte) é o de escapar e refletir sobre isso tudo mais tarde. O que, depois de assinar o livro de visitantes, acabei fazendo.

10-20 DE MAIO. Passo dez dias na Rússia numa visita organizada pela Sociedade Grã-Bretanha-União Soviética. Meus colegas são os romancistas Paul Bailey, Christopher Hope e Timothy Mo (que também escreve para a Boxing News), o poeta Craig Raine (que não escreve para a tal revista) e a dramaturga Sue Townsend, famosa por Adrian Mole.[48] Muito ressabiado quanto à viagem, especialmente no que se refere a pequenos confortos. Fico pensando, por exemplo, se os russos já descobriram a água mineral. [O escritor] John Sturrock me tranquiliza. “Você não ouviu falar da ‘Perrierstroika’?”

O Sindicato dos Escritores é uma simpática construção de um andar, do século XIX, que cerca um jardim arborizado e no momento está sendo reformada em preparação para a visita de Ronald Reagan. Ele vai almoçar aqui. Nós, ao que parece, jamais almoçaremos, uma vez que essa sessão introdutória de palestras, iniciada às dez, à uma e meia da tarde não dá sinais de que esteja chegando ao fim. Nós nos sentamos de um dos lados de uma longa mesa coberta de veludo verde, enquanto sentam-se do outro lado os escritores soviéticos, sendo o mais impressionante deles o dramaturgo Mikhail Shatrov, um sujeito parrudo de meia-idade cuja palidez tão chocante Sue Townsend insiste que deve ser patrocinada em alguma medida pela Max Factor. Shatrov aparentemente despreza aquilo tudo; ele chega tarde, lê acintosamente um jornal durante as falas, e de tempos em tempos aponta notícias interessantes para os colegas. Cético quanto ao sentido de discussões formais como aquela, não acho incompreensível a atitude de Shatrov, especialmente quando a conversa aborda o papel do escritor na sociedade. Eu me sinto um mecânico não especialmente competente que participa de uma discussão sobre políticas estatais de transporte. Quem preside a reunião é o professor Zassourski, catedrático de jornalismo na Universidade de Moscou. É uma figura polida e elegante (usando o que me parece um terno Brooks Brothers), e além de tudo espirituosa. Os escritores soviéticos só falam do congresso do partido, prestes a começar e que eles esperam venha a forçar a aposentadoria dos dirigentes dos sindicatos dos músicos e dos escritores, ambos representantes notórios da linha dura. “Mas, se eles renunciam”, diz Zassourski, “pode ser ainda pior. Afinal, eles podem voltar a escrever.” […]

Embora a comida seja bem básica, acho as refeições o ponto alto de cada dia, exatamente como ocorre durante uma filmagem. Você fala de comida, pensa em comida e, hoje à noite, ao retornarmos da ópera, ficamos estarrecidos ao descobrir que chegamos tarde demais para o jantar. Anne Vaughan, que cuida da organização, enfrenta então o pessoal da cozinha e por fim uma garçonete fica com pena e nos dá pão e presunto com um pouco de salada murcha, que levamos para os quartos em saquinhos de plástico. “Você deve estar com muita fome”, diz um sujeito no elevador. “De que país você veio?” […]

Eu só vi uma pichação em Moscou, um leve rabisco, em inglês, com caneta hidrográfica nas imensas portas giratórias do hotel Ukraina: “Be Attention. Aids!” [sic: Seja Atenção. Aids!]

Vou ao cemitério Novodevichy ver o túmulo de Tchékhov. Só que hoje é sábado, dia dos parentes, e como somos apenas turistas, e ninguém, nem mesmo Timothy Mo, é da família de Tchékhov, não nos deixam entrar. Galina, a mais dura dentre os nossos guias, entra na salinha do porteiro para discutir a situação. “Eu estou com uma delegação de escritores britânicos aí fora.” O homem dá de ombros. “Mas eles são escritores.” “E daí? Eu sou leitor.” Não se podia imaginar que o desconstrucionismo tivesse chegado tão longe […]

Entro numa papelaria para comprar um caderno (a palavra tetradka emergiu inopinadamente do russo que aprendi e esqueci 35 anos atrás). Até na papelaria tem fila, e uma vendedora entediada que atende um menininho o deixa à beira das lágrimas, então eu saio.

Entrar na loja me fez perder os outros, e ao me apressar para me juntar a eles passo por uma mulher de meia-idade sobre um palanque improvisado com uma caixa de papelão. A caixa tem alguma coisa escrita a lápis na parte virada para a frente, e num banco próximo estão um homem e um menino que deduzo serem marido e filho dela. A mulher está fazendo um discurso candente que ninguém está ouvindo, o marido com a cara envergonhada e o menino que desvia o rosto, constrangido. Sem querer aumentar o desconforto dos dois, não paro para ouvi-la, nem tento ler o que está escrito na caixa. Só mais tarde fico imaginando se por acaso aquilo é um protesto político, e fico pensando que talvez seja assim a dissidência – algo constrangedor para as pessoas em geral, uma vergonha para os familiares mais próximos, a ingestão de uma dose de liberdade como quem recebe uma dose de Jesus.

20 DE AGOSTO. Vendo Barry Humphries[49] na tevê, numa noite dessas, percebi que a banda que o acompanha estava rindo. Isso me fez lembrar que, em meu programa de humor, nunca fazia a banda rir. Dudley [Moore] e Peter [Cook], sim, mas eu não. E de alguma maneira isso era outra versão de ser ruim em jogos.

SETEMBRO. Assisto ao filme de Tony Palmer sobre Richard Burton,[50] uma alegoria moral sobre os perigos da arte. Menos eficaz para mim, porque nunca tive queda por encantos galeses e não gostava de como ele cultivou ou adquiriu os maneirismos de [Laurence] Olivier – os fortissimos repentinos, o acesso instantâneo às emoções, e todas as características da escola de atuação a plenos pulmões. Em 1968, os Burton foram assistir a Forty Years On e depois apareceram nos bastidores para ver [John] Gielgud, junto com um bando de gente vestida de preto, cabeleireiros, maquiadores e, imagino, seguranças. Além disso, numa festa no Savoy uns meses depois Liz Taylor se empoleirou rapidamente no meu colo (e além de tudo foi bem desconfortável). Antes ainda, conheci Sybil,[51] a primeira esposa de Burton, quando estivemos em Nova York com Beyond the Fringe, e na noite em que foi anunciado seu divórcio e o casamento de Burton com Liz, Sybil me pediu para acompanhá-la à estreia de Armadilha a Sangue-Frio[52], com Stanley Baker (mais encantos galeses). Já na ocasião eu me dei conta de que tinha sido escolhido por ser uma pessoa com quem ninguém podia pensar seriamente que ela tivesse uma ligação romântica. Mas o que me impressionou mesmo naquela noite foi que, se Sybil Burton estava à minha direita, à minha esquerda estava Myrna Loy.[53]

21 DE NOVEMBRO. Uma moça de 25 anos de idade é mantida na solitária por duzentos dias em condições que provocam nela um colapso, antes que seja levada a julgamento por conspiração, quando é sentenciada a 25 anos de prisão.

Uma votação em que as pessoas que são favoráveis a uma proposta oficial perdem para aqueles que votam contra ela, mas são declaradas vencedoras porque os que se abstiveram são considerados como votos a favor.

Os dois incidentes acontecem aqui: um envolve Martina Shanahan, condenada no duvidosíssimo julgamento por conspiração em Winchester;[54] o outro, numa disputa quanto à venda de moradias populares em Torbay.

E a sra. Thatcher se recusa a permitir que a rainha visite Moscou enquanto o sr. Gorbatchev não der mostras mais efetivas de se preocupar com os direitos humanos.

Recebo meu camarim no National Theatre – não muito diferente de uma cela para menores infratores. Divido o camarim com Michael Gambon.[55] Não há prova alguma de que ele esteja usando aquele cômodo; nem uma gilete.

Quatro ensaios abertos de Single Spies[56] não diminuem meu medo do palco, sendo o pior momento aquele em que abro as portas duplas que levam do corredor dos camarins até a escada e ouço pela primeira vez o barulho amplificado da plateia. As pessoas só estão conversando entre si enquanto esperam a cortina subir, mas soam como a multidão à espera dos cristãos no Coliseu. Ainda assim, as duas peças geram muita risada, e a maior gargalhada vem sempre com o comentário da rainha de que “Os governos vêm e vão. Ou não vão”, que certa noite é até aplaudido.

1989

24 DE FEVEREIRO. Single Spies passou do National para o Queen’s Theatre e está agora em ensaios abertos, ainda que não sem incidentes. Os assistentes de palco dos teatros do West End estão acostumados com temporadas longas, e eles acham difícil trocar de produções com a mesma agilidade que o pessoal do teatro de repertório. Hoje, quando as luzes se apagam no fim da primeira cena de A Question of Attribution, eu fico esperando que a tela da projeção suba antes que o palco corrediço me leve para o centro da cena no escuro. Só que a tela não sobe e o palco corrediço entra inexoravelmente, o que significa que a tela derruba tudo que está na sua frente. Eu me abaixo bem na mesa e ouço o barulho da tela passando por cima da minha cabeça antes de levar uma bela pancada no ombro. Então, numa sequência que parece ter saído de Uma Noite na Ópera, cerca de trinta slides passam em alta velocidade na tela que balança alucinadamente, uma estante de livros despenca e o cenário do Palácio de Buckingham aterrissa no meio do caos. Quando eu finalmente dou um jeito de sair dali, esperando ser considerado um herói por ter ficado sentadinho enquanto o mundo desmoronava à minha volta, percebo que ninguém se deu conta de que eu tinha me machucado.

Mais tarde encontro Judi Dench, que diz que quando encenava The Good Companions[57] ficou com o pé preso na plataforma giratória do palco. Foi uma tortura, mas ela seguiu em frente, e ninguém se interessou muito pelo seu ferimento. Certa hora ela decidiu mancar, para ver se despertava alguma piedade, mas desistiu quando o diretor, ao perceber aquilo, achou que fazia parte do desenvolvimento do personagem e disse: “Adorei a ideia de mancar, querida.”

2 DE ABRIL. Hotel Terminus, o documentário de Marcel Ophüls sobre Klaus Barbie, inclui um relato de como Barbie foi enviado em segredo para a América do Sul, após ser recrutado pelo FBI. Em suas confortáveis residências suburbanas, vários antigos agentes do FBI narram os planos para Barbie quarenta anos atrás. Revelações como essas seriam ilegais depois da nova legislação sobre informações secretas de Douglas Hurd. Mas nós somos um país decente, é claro; não fazemos esse tipo de coisa.

16 DE ABRIL. Os 96 torcedores do Liverpool que morreram esmagados em Sheffield evocam um desastre semelhante que aconteceu em Bolton, em 1946. A gente nunca tinha o jornal de domingo em casa, mas às vezes folheava o News of the World quando passava pela casa da avó num domingo à noite, e acho que eu me dei conta, aos 11 anos de idade, que havia algo errado no prazer com que a história trágica era narrada e algo de macabro no meu modo de engolir cada palavra. Hoje eu leio muito pouco, e por estar no teatro não posso ver a cobertura ao vivo na televisão. Mas já começa o processo pelo qual eventos terríveis são desmontados e tornados palatáveis. Primeiro são cobertos por uma espécie de gosma: as reações pessoais dos passantes, testemunhas que dão seus inadequados depoimentos – “Foi terrível”; “Eu nunca vou esquecer”; “Trágico. Trágico pra caramba” – e as coroas de flores com You’ll never walk alone.[58] Depois o evento começa a ser engolido, quebrado em pedacinhos digeríveis, bocadinhos macios: a reação das autoridades do mundo do futebol é sondada, em seguida os comentários da polícia, o veredito do ministro dos Esportes, e assim por diante, dia a dia, até que no fim da semana a coisa começa a ficar cansativa e a cobra já terá engolido o porco. Então vêm todos os componentes normais da cena – estabelecer um fundo financeiro em memória dos mortos (sempre uma reação meio dúbia) e as visitas da primeira-ministra aos pacientes em recuperação. Eu me vejo pensando que tinha que ser Liverpool, aquele lugar sentimental, exagerado, e sou pego no contrapé ao ver as imagens de uma criança sendo retirada morta dos escombros, de homens que esperam na Lime Street com expressões apagadas no rosto e de um pai cujo alívio ao receber os dois filhos na estação ferroviária se transforma em raiva ao ver os rostos sorridentes deles, e os empurra aos trambolhões para longe das câmeras.

PRIMEIRO DE JUNHO. De vez em quando casais de meia-idade passam diante da casa de braços dados, olhando em volta com um interesse maior do que o normal, como se estivessem em visita a uma cidade estrangeira. Há uma casa à venda na rua e, depois de dar uma olhada nela, eles caminham pela rua para tentar imaginar uma vida aqui. Só que hoje há uma moça chorando na frente da minha casa, tentando entrar num carro. Agora aparece o namorado dela, um sujeito alto de bermuda, com um rosto musculoso. Eles entram no carro e ele a abraça, mas ela começa a discutir, batendo com a mão no joelho e gesticulando com os dedos da mão abertos de um jeito que parece italiano. A única coisa que ele lhe oferece como consolo é um saquinho de amendoins, o que em termos de consolo é o equivalente de… amendoins. Ainda assim, ela aceita, o que é um bom sinal. Para acabar com a briga bastaria ela colocar a mão no joelho dele, o que ela faz bem no momento em que meu telefone toca. É K., em Nova York, e eu descrevo para ele a cena, como o casal está saindo agora mesmo do carro, após encerrar a briga, e como o rapaz com um começo de ereção ajeita a bermuda antes de abraçar a namorada e caminhar com ela de novo até Camden Lock.

12 DE JULHO. Coral [Browne] liga, depois de passar por mais uma cirurgia para remover um tumor da perna. “Vou te contar, querido, estou me sentindo uma porra de uma peneira. Estou com um buraco embaixo do braço da última operação e agora mais um na perna. E isso além dos buracos que a natureza me deu.” Digo que ela é corajosa. “Não, querido – você só tem que ir levando. Veja bem, eu já passei por sete cirurgias até aqui, e acaba ficando simplesmente chato.” Então ela comenta que Vincent [Price] perdeu muito peso, mas ainda insiste numa viagem para inaugurar uma exposição: “Mas você conhece o Vinny. Ele seria capaz de atravessar metade dos Estados Unidos pra inaugurar um bueiro.”

Diz que apesar da radioterapia e da operação da semana passada ela está com uma aparência ótima. “É de partir o coração, querido. Quando eu era jovem e precisava ser linda eu parecia um farrapo. Agora que tenho 76 e a minha aparência não faz mais diferença eu estou melhor do que nunca.”

Continuam os tributos a Olivier, todos eles evitando a inefável questão britânica: “Mas ele era legal?”

20 DE AGOSTO. Steven Berkoff,[59] que ultimamente está em toda parte, teria dito que os críticos são todos eles umas megeras acabadas. Ah se fossem… o teatro estaria em situação melhor. Na verdade, os críticos parecem mais umas mocinhas tontas que saíram para a festa, e querem apenas ser comidas e enroladas por qualquer calhorda passável que elogie seus cérebros abobalhados e ainda saiba mais ou menos onde ficam as partes íntimas delas. Elas só querem emoções baratas. Uma megera acabada pelo menos já superou essa fase.

27 DE SETEMBRO. K. anda testando extras para seu filme, incluindo uma mulher que registrou entre seus talentos especiais “flertar com japoneses”. Se fosse piada, o emprego quase certamente seria dela, mas acaba que era verdade. Ela sente uma atração irresistível por japoneses e aprendeu japonês para flertar de maneira mais eficiente. Ao passar por japoneses na rua, ela às vezes sussurra (em japonês): “Eu queria cortar as unhas do seu pé no calor da minha casa” – aparentemente uma cantada-padrão na Terra do Sol Nascente. “E funciona?”, pergunta K. “Ah sim. Várias vezes.”

1990

2 DE JANEIRO. Parece que eu sou o único dramaturgo do Ocidente que não tem uma relação pessoal com o novo presidente da Tchecoslováquia [Václav Havel]. Mas eu tenho inveja dele. Que alívio se ver como chefe de Estado e não ter que escrever peças, mas simplesmente fazer história. […]

Embora eu goste da cara de Havel, fico meio desconfiado do quanto são chiques as pessoas que agora acorrem a Praga. Acho que as revoluções sempre hão de atrair as pessoas erradas. Quando eu estava em Oxford, em 1956, uns alunos mais inteligentes da Balliol[60] acharam que a revolta na Hungria precisava da presença deles. Eles fizeram uma coleta de dinheiro, ressaltando que Cambridge mandaria um grupo, então era importante que Oxford não ficasse sem representantes, já que a história para eles era simplesmente a corrida de barcos a remo em outro contexto.

10 DE AGOSTO. Um convite do vice-chanceler de Oxford para um jantar de arrecadação de fundos na Merton. “Será uma oportunidade”, escreve ele, “de lhe mostrar um pouco as realizações atuais da universidade.” Já que uma das realizações atuais da universidade é ter fundado a cátedra Rupert Murdoch de Comunicação Social, eu não me sinto particularmente inclinado a ir, e respondo dizendo que, se a universidade acha adequado receber dinheiro de Rupert Murdoch, talvez devesse procurar Saddam Hussein para fundar uma cátedra de Estudos da Paz. (Uma carta aflita acabou chegando a mim, dizendo que a universidade tinha tomado todo cuidado para garantir que o dinheiro viesse do Times e não das partes menos sérias do império de Murdoch. Uma visita ao Departamento de Economia talvez fosse recomendável.)

8 DE OUTUBRO. Os ensaios de The Wind in the Willows[61] começam nesta semana. O elenco vem tendo aulas de movimentos para aprender a se mexer como os animais que representam – coelhos, doninhas e assim por diante –, e, para começar, eles assistiram a vídeos e documentários sobre a vida selvagem. Michael Bryant, que faz a Toupeira, não acredita muito nisso, como tende a acontecer com atores mais velhos. No entanto, Jane Gibson, que está dando aulas de movimento para eles, acha que começou a vencer sua resistência quando Michael pergunta se pode levar os vídeos para estudar em casa. Ele volta no dia seguinte e a chama de lado. “Eu fiquei vendo esses vídeos das toupeiras e de como elas se movem… e o negócio é que elas se movem exatamente como Michael Bryant.”

1993

20 DE JANEIRO. A New Yorker vem me buscar e me leva para ser fotografado por Richard Avedon, hoje um fauno grisalho de 72 anos de idade que diz que está cansado de tirar retratos no estúdio (hoje de manhã foram Isaiah Berlin e Stephen Spender) e quer me fotografar a céu aberto. “A céu aberto” quer dizer que eu acabo me vendo trepado numa árvore no Hyde Park. Os assistentes de Avedon ficam lidando com os holofotes, e o próprio Avedon mal se dá ao trabalho de olhar pela lente, só pergunta de vez em quando onde estão as bordas do enquadramento. Ele explica que quer que eu pareça estar sentado no galho, mas na verdade me incline para a frente, para a câmera, ao mesmo tempo. Eu tento.

“Você é bem-disposto”, diz Julie Kavanagh da New Yorker. A bem da verdade eu não sou nada bem-disposto, mas sou tímido e – fora tirar a roupa – estou disposto a fazer de tudo, até trepar em árvores, para não ser considerado “difícil”.

Vem a calhar a descrição que Whitman fez de si próprio para Edward Carpenter: “Uma galinha velha… com algo em minha natureza de furtivo.”

9 DE ABRIL. O que parece que ninguém diz (e eu não disse) a respeito da ideia que Larkin faz do artista – alguém solitário, posse de ninguém, sem posses – é que se trata de algo ao mesmo tempo romântico e convencional. O parque Pearson era um sótão.[62]

18 DE JUNHO. Em Diaries, Alan Clark menciona um sorriso que a primeira-ministra lhe deu no saguão. Abrindo ao acaso Chips, o diário de Chips Channon,[63] encontro uma nota similar, referente a Chamberlain. As cortes não mudam, estejam elas em Westminster, Versalhes ou até na British Airways – os raros sorrisos de Nosso Senhor o Rei são supostamente uma grande graça concedida. Mas o fato de uns marmanjos acumularem um pequeno tesouro de sorrisos da sra. Thatcher e encontrarem neles algum consolo me faz agradecer por estar sentado à minha mesa nessa manhã sem graça, olhando o mascate de roupas usadas passar com seu carrinho e seu ansioso cão jack russell montado na proa como quem espera desembarcar logo em terra.

11 DE AGOSTO. Neville Smith[64] me envia um cardápio do Virginia Woolf’s, um bar e restaurante no Russell Hotel, que diz a futuros clientes que Virginia Woolf foi uma “escritora modernista”, membro do Grupo de Bloomsbury, “que se reunia no número 46 da Gordon Square, para discutir filosofia, política e arte”. Os pratos incluem o hambúrguer de Jacob (com molho cremoso de cogumelos), o de Mrs. Dalloway (molho poivre, pimenta-verde, pimenta-rosa, creme de leite e brande) e o de Orlando (molho picante de chili). De sobremesa você pode pedir “o prato favorito de Virginia: banana frita com sorvete de baunilha, xarope de bordo legítimo e nata. Irresistível”. Carol Smith diz: “Bom, se o prato favorito dela era isso, não é de estranhar que tenha afundado que nem uma pedra.”

8 DE NOVEMBRO. O governo está se preparando para vender as florestas e as reservas naturais. Fico pensando se chega a passar pela cabeça dos funcionários de 14 anos de idade lá do Instituto Adam Smith[65] que essas políticas aparentemente não relacionadas podem ter algo a ver com o aumento da criminalidade e da desordem civil em geral. Pagos para pensar o impensável, será que eles não enxergam que o Estado, a não ser que seja visto como uma entidade benévola – que propicia diversão, parques, arte, até transporte –, não tem como exigir respeito por sua faceta prescritiva e legislativa? Especialmente quando a lei é apresentada por uma seguradora.

1994

15 DE JANEIRO. Entro numa farmácia na Candem High Street e me deparo com um rapaz molambento que não está exatamente mantendo as pessoas ali como reféns, mas não deixa de aterrorizar a loja. Ele tira coisas das prateleiras e sacode os itens na cara da funcionária lourinha dizendo: “Isso aqui é meu. E isso aqui é meu. A farmácia inteira é minha. Foi comprada com o meu dinheiro. Então não venha me mandar sair daqui, sua vaca do caralho. Eu que te deixo trabalhar aqui.” O farmacêutico asiático, tranquilo e algo pedante, está um tanto desorientado e, enquanto ele me atende, eu me ofereço para ir até a Marks & Spencer logo ao lado e pedir ajuda ao segurança. O rapaz realmente tem cara de mau, e o farmacêutico acha que o melhor é esperar ele ir embora. O que está prestes a fazer quando percebe uma mulherzinha de seus 60 anos na outra ponta do balcão, olhando os cosméticos. “E isso vale pra senhora também”, ele diz, metendo o nariz bem na cara dela e pegando um punhado de delineadores.

De repente a senhorinha explode.

“Muito bem”, ela diz. “Eu sou da polícia”, e esfrega o distintivo na cara dele como policiais fazem nas séries de tevê. “Você está em cana.”

Ela não chega a ser uma figura intimidante, e o rapaz estava mesmo de saída, mas aquilo parece ser decisivo para ele – que sai em disparada e some na confusão da Camden High Street.

“Eu é que não ia tolerar esse tipo de coisa”, diz a improvável policial, guardando o que nitidamente era seu passe de ônibus e voltando a escolher seu creme facial.

A moral, imagino, é que se pode aprender bom comportamento também nos programas de televisão.

1995

13 DE JANEIRO. Uma das piadas de Peter Cook,[66] citada várias vezes nos seus obituários, é aquela sobre dois caras conversando. “Eu estou escrevendo um romance”, fala um deles, e o outro então diz: “É, eu também não.” Claro que é engraçada, e faz sentido, mas suspeito que Peter achava que isso dava conta de toda a questão. O fato de que as pessoas realmente escrevessem romances ou poemas e tivessem um envolvimento profundo com isso não fazia muita diferença: literatura, música – era tudo papo de coquetel, conversa de festa; ninguém fazia essas coisas para valer, e muito menos gostava delas quando estavam prontas. Esqueça peças de teatro, fotos, concertos: a única realidade eram os jornais – não que desse para acreditar neles também.

14 DE FEVEREIRO. Um mensageiro, um menino moreno e bonito, chega no Dia dos Namorados com uma única rosa para alguém aqui na casa ao lado. Depois de tocar a campainha, ele fica esperando com a rosa e uma prancheta: o Rosenkavalier dos dias de hoje precisa de uma assinatura.

Uma imensa multidão na Abadia de Westminster para a inauguração do vitral de Oscar Wilde: os dois transeptos cheios de gente, pessoas de pé (algumas de pé em cima das cadeiras) para poder entrever os oradores. O mais importante, claro, é o nonagenário John Gielgud – sobretudo preto, gola de veludo, um meio sorriso sempre nos lábios como alguém preparado para aceitar as tolices do mundo, mas com a cabeça sempre em outro lugar. Michael Denison e Judi Dench fazem a cena da bolsa de A Importância de Ser Prudente. J. G. lê trechos do De Profundis,[67] e Seamus Heaney faz o discurso oficial. A congregação parece sóbria e importante, sem enfatizar a questão do orgulho gay, com a coroa sendo deposta por Thelma Holland, a nora de Wilde, uma conexão que atravessa o século inteiro.

Depois que a congregação se dispersa fazemos imagens do vitral, “o pedacinho de azul”,[68] e assim se encerram as nossas filmagens na abadia, que vinham acontecendo, com interrupções, desde setembro passado.

Enquanto o pessoal guarda os equipamentos, vou dar mais uma olhada no túmulo dos filhos de Henrique viii no deambulatório, que, como acabei de ler, incorpora uma das relíquias medievais da abadia: a pedra supostamente marcada com a pegada de Cristo no momento em que ele decolou para a Ascensão. Não sei bem se é a pedra quadrada na frente da tumba ou a que fica no medalhão que encima o monumento, mas ponho a mão nas duas – como talvez os peregrinos fizessem no passado –, ainda que tivesse dificuldade para explicar por que fiz isso. É uma linda tumba, o arco ainda com vestígios da tinta carmesim e da folhagem verde e negra, o topo cravejado de peças de mosaico. Sem esperar grandes sentimentos elegíacos (afinal, ainda vou voltar para gravar o comentário), fico surpreso ao notar como me deixa triste o fim das filmagens e o fato de que não virei aqui com a mesma regularidade dos últimos cinco meses.

22 DE FEVEREIRO. Ligo a televisão no Newsnight e fico sabendo que algum gênio do – quem diria! – Instituto Adam Smith está propondo a privatização das bibliotecas públicas. Seu nome é Eamonn Butler, e tomara que não seja aparentado com o Butler que reformou a educação em 1944. Com um sorriso amarelo e satisfeito, estado normal do pessoalzinho de lá, ele está debatendo com uma mulher bem-intencionada, mas meio perdida, que é autoridade em literatura infantil. Paxman[69] apenas observa sem discordar, enquanto aquela figura com cara de cueca de náilon deprecia qualquer defesa da tradição das bibliotecas públicas dizendo ser “um mimimi normal da classe média”. Vou deitar deprimido, só para acordar e descobrir que Madsen Pirie, também do Instituto Adam Smith para Criminosos Dementes, está batendo na mesma tecla no Independent. Não faz tanto tempo que John Bird e John Fortune[70] fizeram um quadro humorístico sobre a privatização do ar. Hoje em dia isso não é de todo inconcebível.

29 DE JULHO, MÉNERBES.[71] Tirando os caules de umas groselhas hoje à noite, lembrei que quando eu estava escrevendo tanto Getting On [Seguindo em Frente] quanto The Old Country [A Velha Pátria] não conseguia imaginar algo para a esposa ficar fazendo enquanto o marido falava. Em Getting On acho que fiz Polly separar framboesas, e em The Old Country cheguei a fazer Bron ficar colocando flores entre as páginas de um livro (fico enrubescido de vergonha quando lembro). Claro que se eu tivesse juízo teria percebido que, se era tão difícil imaginar o que a mulher estaria fazendo, havia então algo errado com as peças ou devia ter feito disso o verdadeiro tema delas, como de fato era. Nenhuma das esposas aparentemente teve um emprego na vida – uma omissão que em certa medida corrigi quando cheguei a Kafka’s Dick, em que a esposa pelo menos tinha trabalhado por um tempo (era uma ex-enfermeira). Mas de novo eram os homens que trabalhavam e falavam, em geral. Em Enjoy, que se passa em Leeds, as mulheres falam mais do que os homens, como eu supunha ser a realidade quando era pequeno. Apenas quando cheguei a Londres os homens começaram a falar e as mulheres se calaram.

19 DE SETEMBRO. Um rapaz sobe a rua vestido com cuidadosa desatenção, camiseta azul e jeans apertados, com o passo leve e elástico que eu associo a uma suposição (ainda que humilde) de superioridade moral. Conto isso a K. “Sim. Ele caminha como um flautista vegetariano.”


[1] Larkin at Sixty (Larkin aos Sessenta) é uma coletânea de ensaios publicada em homenagem aos 60 anos do poeta inglês Philip Arthur Larkin (1922-85).

[2] Os dramaturgos Bernard Shaw (1856-1950), Jean Anouilh (1910-87) e Christopher Fry (1907-2005), e o historiador Arnold J. Toynbee (1889-1975).

[3] John Fortune (1939-2013), escritor e ator cômico inglês; Irene Handl (1901-87), atriz inglesa que atuou sobretudo no cinema.

[4] Isobel Barnett, apresentadora de rádio e tevê, foi pega roubando uma lata de atum e uma caixa de creme de leite. Suicidou-se em 20 de outubro, aos 62 anos.

[5] A peça Enjoy (Divirta), que estreara em 15 de outubro de 1980, foi um fracasso de crítica e de público. A remontagem em 2007 teve grande sucesso e chamou a atenção por ter antevisto a crescente exposição da vida privada e os reality shows.

[6] Lindsay Anderson (1923-94), cineasta britânico, diretor de Se…

[7] Jonathan Miller (1934), diretor, ator e dramaturgo. Em 1960, ao lado de Bennett, Dudley Moore e Peter Cook, participou da revista satírica Beyond the Fringe (Para Além do Alternativo).

[8] Provavelmente o jornalista americano Dan Rather (1931). John Lennon foi assassinado na porta do edifício Dakota, onde vivia com Yoko Ono, situado na esquina das ruas 72 e Central Park West.

[9] Título no Brasil do filme The Glenn Miller Story (1954), sobre a vida do músico americano, dirigido por Anthony Mann.

[10] David Vaisey, amigo de longa data de Bennett, nasceu em 1935 e foi, de 1986 a 1996, diretor da Biblioteca Bodleian, em Oxford.

[11] Irmão mais velho de Alan Bennett. O pai deles era açougueiro e tocava violino.

[12] Emanuel Hurwitz (1919-2006), violinista britânico.

[13] O Amor Não Tem Sexo (1987), filme sobre o dramaturgo inglês Joe Orton (1933-67), com roteiro de Bennett, dirigido por Stephen Frears.

[14] La Garde-Freinet é uma comuna francesa na região administrativa da Provença-Alpes-Côte-d’Azur, no departamento de Var, na França.

[15] Coral Browne (1913-91), atriz australo-americana; Alec Guinness (1914-2000), ator britânico; John Schlesinger (1926-2003), cineasta britânico, diretor de Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, 1969).

[16] A atriz americana Jean Stapleton (1925-2006) – que não tem parentesco com a também atriz Maureen Stapleton – encarnou Eleanor Rooselvet no filme televisivo dirigido por John Ermar e cujo título foi Eleanor – First Lady of the World (1982).

[17] Vincent Price (1911-93), ator americano, célebre por seus filmes de terror. Casou-se com Browne em 1974.

[18] O filme An Englishman Abroad (Um Inglês no Exterior) narra um episódio real ocorrido com a atriz Coral Browne, em 1958. Durante a apresentação em Moscou de uma montagem de Hamlet em que ela atuava no papel de Gertrude, Browne teve um encontro com o ex-diplomata britânico Guy Burgess (1911-63), espião da União Soviética e tido como traidor em seu país. Ela mesma acabou sendo escolhida como protagonista do filme dirigido por John Schlesinger para a BBC em 1983, com roteiro de Bennett. O ator Alan Bates interpretou Burgess.

[19] Bennett interpreta o personagem principal de Intensive Care (Tratamento Intensivo), filme de pouco mais de uma hora que estreou em 9 de novembro de 1982 na BBC, dirigido pelo escocês Gavin Millar.

[20] No dia 14 de junho de 1982, as forças argentinas se renderam às inglesas, em uma disputa que se arrastava desde abril pelo controle das ilhas Malvinas (Falklands), cuja capital é Stanley, ou Port Stanley. A Batalha de Goose Green foi uma das principais do conflito.

[21] “Grã-Bretanha, domine as ondas”, parte do refrão da canção patriótica Rule, Britannia!, baseada em um poema homônimo de James Thomson, de 1740.

[22] Última noite da temporada de concertos conhecida como Proms (forma reduzida da expressão Promenade Concerts), que atravessa o verão londrino, quando habitualmente cantam-se canções de sucesso e hinos patrióticos.

[23] Alan Clark era filho de Kenneth Clark (1903-83), historiador da arte, autor de Civilização, de 1969.

[24] O ator Laurence Olivier (1907-89), barão Olivier de Brighton, título com o qual foi distinguido em 1970.

[25] The Dresser, peça de Ronald Harwood, estreou em Londres em 1980. O ator Tom Courtenay (1937) interpretava o camareiro de um ator durante a Segunda Guerra. Fez o mesmo papel no filme homônimo adaptado da peça, dirigido por Peter Yates, em 1983, e que no Brasil se chamou O Fiel Camareiro.

[26] Cidade litorânea no sudoeste da Inglaterra, a cerca de duas horas e meia de carro de Londres.

[27] Dame Katherine Patricia Routledge (1929), cantora e atriz britânica.

[28] Filha de David Vaisey [ver nota 10].

[29] Sir John Betjeman, poeta e escritor, falecido em 19 de maio de 1984, aos 77 anos.

[30] Meu Reino por um Leitão (1984) é uma comédia escrita por Bennett, dirigida por Malcolm Mowbray e interpretada por Michael Palin e Maggie Smith.

[31] O escritor Christopher Isherwood morreu no dia 4 de janeiro de 1986, aos 81 anos.

[32] A piada, intraduzível, usa a marca de câmeras Leica para expressar que não gostou (“I did not like”) da peça I Am a Camera (Eu Sou uma Câmera), adaptada da novela Adeus a Berlim (1939), de Isherwood. Há todo um folclore em torno da expressão “No Leica”, mas aparentemente ela foi criada não por Kenneth Tynan, mas pelo crítico e escritor Walter Kerr. [N.T.]

[33] Don Bachardy, pintor americano, trinta anos mais novo que Christopher Isherwood, de quem foi companheiro de 1953 até a morte do escritor, em 1986.

[34] As histórias do ursinho Pooh publicadas por A. A. Milne de 1926 a 1928 foram narradas por Bennett em uma gravação da rádio BBC.

[35] Instituído a partir da adoção do Alternative Service Book, uma alternativa ritual ao Book of Common Prayer (Livro de Oração Comum), utilizado pela Igreja Anglicana desde o século XVI.

[36] Mary-Kay Wilmers (1938), jornalista americana, editora do London Review of Books desde 1992. Foi casada com o cineasta Stephen Frears.

[37] Kafka’s Dick (O Pinto de Kafka), peça de Bennett que estreou em 1986.

[38] Richard Eyre (1943), diretor britânico de, entre outras peças, Kafka’s Dick.

[39] Irving Wardle (1929), escritor e crítico de teatro britânico.

[40] Provavelmente, Michael Billington (1939), crítico do jornal The Guardian desde 1971.

[41] As atrizes britânicas Alison Steadman (1946) e Vivian Pickles (1931), e o ator britânico Charles Lamb (1900-89), que também atuou em Kafka’s Dick.

[42] László Moholy-Nagy (1895-1946), fotógrafo e diretor húngaro, ligado à escola Bauhaus.

[43] Eric Ravilious (1903-42), pintor, ilustrador e designer britânico.

[44] Christopher Strauli (1946), ator britânico.

[45] Colin Haycraft (1929-94), editor britânico, dirigiu a editora Duckworth Overlook.

[46] Dinner at Noon (Jantar ao Meio-Dia), documentário dirigido em 1988 por Stuart Burge para a BBC em que Bennett, no Crown Hotel, em Harrogate (Inglaterra), comenta sobre os hóspedes, as diferenças de classe e sua infância.

[47] John Toterdill (c. 1934), colega de Bennett na Leeds Modern School (hoje Lanwswood School). Mais tarde ingressou na Marinha e atualmente se ocupa de projetos ligados ao meio ambiente.

[48] Adrian Mole é personagem de uma série de romances para adolescentes da escritora e dramaturga inglesa Sue Towsend (1946-2014).

[49] Barry Humphries (1934), comediante australiano que atuou na Inglaterra a partir dos anos 60, onde fez vários programas de tevê.

[50] In From the Cold? The World of Richard Burton (1988).

[51] Sybil Williams (1929-2013), atriz nascida no País de Gales, como Richard Burton, de quem foi a primeira esposa. Depois do casamento com o cantor Jordan Christopher, ela adotou o sobrenome do marido.

[52] The Criminal (1960), filme do diretor americano Joseph Losey.

[53] Myrna Loy (1905-93), atriz americana, famosa estrela de Hollywood.

[54] A irlandesa Martina Shanahan foi acusada de conspirar no assassinato de um oficial inglês da Irlanda do Norte e em outros atos terroristas.

[55] Michael Gambon (1930), ator irlandês. No cinema, atuou em O Discurso do Rei e em filmes da série Harry Potter.

[56] Bennett atuou em Single Spies (Espiões Especiais), que reuniu duas peças sobre espiões escritas por ele: An Englishman Abroad e A Question of Attribution (Uma Questão de Atribuição).

[57] O musical The Good Companions (Os Bons Camaradas), escrito por Ronald Harwood, com música de André Previn e letras de Johnny Mercer, estreou em Londres em 1974.

[58] Canção dos anos 40 que, depois de gravada em 1963 por Gerry and the Pacemakers (banda que era de Liverpool), tornou-se um hino não oficial do time da cidade.

[59] Steven Berkoff (1937), ator, dramaturgo e diretor inglês.

[60] Balliol College e Merton College (citada adiante) são instituições de ensino superior que fazem parte da Universidade de Oxford.

[61] The Wind in the Willows (O Vento nos Salgueiros), peça de Bennett baseada no romance homônimo para crianças escrito por Kenneth Grahame (1859-1932) e publicado em 1908.

[62] Larkin escreveu seu poema “High windows” baseado na visão que tinha, em Kingston upon Hull (nordeste da Inglaterra), do parque Pearson, da janela de sua casa, no número 32.

[63] Sir Henry Channon (1897-1958), conhecido como Chips Channon, político ligado ao Partido Conservador.

[64] Neville Smith (1940), ator e roteirista britânico. Em 1978, atuou em Me! I’m Afraid of Virginia Woolf, peça para a tevê escrita por Bennett e dirigida por Stephen Frears.

[65] Fundado em 1977, o Adam Smith Institute define-se como um think tank cujo objetivo é promover o livre mercado e as ideias neoliberais. Teve papel relevante nas reformas econômicas adotadas por Margaret Thatcher.

[66] O escritor, ator e humorista Peter Cook, amigo de Bennett, morreu em 9 de janeiro de 1995, aos 57 anos.

[67] Ao ser publicada, a longa carta de Oscar Wilde escrita em 1897, na prisão de Reading, para seu amante, lorde Douglas, ganhou o título De Profundis. A peça A Importância de Ser Prudente estreou em 1895.

[68] Em “A balada do cárcere de Reading”, Wilde, preso devido a seu caso homossexual com lorde Douglas, se refere constantemente ao céu entrevisto de dentro da cela como “pequena tenda azul”… e o vitral em Westminster é de fato predominantemente azul. [N.T.]

[69] Jeremy Paxman (1950), apresentador do programa Newsnight de 1989 a 2014.

[70] Como John Fortune [ver nota 3], John Bird (1936) é ator cômico britânico.

[71] Ménerbes é uma cidade francesa da região da Provença-Alpes-Côte d’Azur, situada a 90 quilômetros de Marselha.


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Dramaturgo e escritor inglês, é autor de Uma Real Leitora, da Record. Os trechos integram o livro Writing Home, da Faber & Faber