questões científicas
Ferris Jabr Fev 2020 07h06
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O Sericulus aureus ardens macho é um pássaro de beleza incandescente da família dos ptilonorinquídeos. Sua plumagem transita suavemente do vermelho-escuro ao amarelo solar. Mas esse brilho radiante não é suficiente para atrair uma parceira. Quando os machos de boa parte da família dos ptilonorinquídeos estão prontos para cortejar uma fêmea, eles começam a construir a estrutura que lhes é peculiar e que se assemelha a um caramanchão: um conjunto de galhos a que dão a forma de um coruchéu, de um corredor ou de uma cabana. Decoram, então, esse caramanchão com toda sorte de objetos coloridos, como flores, frutinhas vermelhas, conchas de caracóis ou, quando próximos de uma área urbana, tampas de garrafa e talheres de plástico. Alguns desses pássaros chegam mesmo a dispor os itens de sua coleção em ordem crescente de tamanho, do menor para o maior, formando, assim, uma passarela que os torna, a eles e a seus adornos, ainda mais chamativos aos olhos das fêmeas – uma ilusão de ótica conhecida como perspectiva forçada, algo que os humanos só foram aperfeiçoar no século XV.
Mesmo essa extraordinária exibição, no entanto, não é o bastante para a fêmea. Caso ela demonstre algum interesse inicial, o macho precisa agir depressa. Ele então olha fixamente para ela, as pupilas dilatando-se e encolhendo-se ao ritmo das batidas do coração, e dá início a uma dança que poderia ser descrita como provocante e psicótica. Sacode, agita e estufa o peito. Agacha-se bem e, depois, se ergue lentamente, brandindo uma asa à frente da cabeça como a capa de um mágico. De repente, seu corpo todo se convulsiona como um despertador de corda. Se a fêmea aprovar, vai copular com ele por dois ou três segundos. E nunca mais se encontrarão.
Os ptilonorinquídeos desafiam o conhecimento tradicional que se tem do comportamento dos animais. Eis aí criaturas que perdem horas cuidando meticulosamente de um gabinete de curiosidades, agrupando seus tesouros por cor e semelhança, produzindo com seus bicos coisa bem mais sofisticada que muitas das celebradas ferramentas construídas por animais – os galhos desfiados que os chimpanzés usam para pescar cupins mal se comparam a sua obra. Pelo menos um cientista já postulou que o caramanchão dos ptilonorinquídeos é nada menos que arte. Quando se leva em conta cada elemento de sua corte – o figurino, a dança, a escultura –, o todo evoca um conceito que o compositor alemão Richard Wagner prezava muito: o da Gesamtkunstwerk, a obra de arte total, que mescla muitas formas diferentes e estimula todos os sentidos.
Essa extravagância é também uma afronta às regras da seleção natural. Adaptações devem ser úteis – essa é a ideia –, e as criaturas mais bem-sucedidas deveriam ser aquelas mais bem-adaptadas a seu ambiente. Portanto, qual a justificativa evolucionária para toda essa ostentação dos ptilonorinquídeos? Quando não estão fazendo a corte, suas penas coloridas e suas elaboradas construções não apenas carecem de todo e qualquer valor como, além disso, constituem um empecilho à sua sobrevivência e ao seu bem-estar geral, porque drenam calorias preciosas e os tornam mais visíveis a predadores.
Numerosas espécies apresentam ornamentos sexuais (como os chamam os biólogos) conspícuos, custosos do ponto de vista do metabolismo e fisicamente penosos. Pense nos pescoços brilhantes e elásticos dos lagartos anólis, alguns dos quais são chamados de papa-ventos, no abdome Fabergé da aranha-pavão e nas penas ridiculamente longas, encaracoladas e iridescentes das aves-do-paraíso. Para conciliar tamanho esplendor com uma visão utilitária da evolução, biólogos postularam que a beleza no reino animal não é mero elemento decorativo, e sim um código. De acordo com essa teoria, os ornamentos se desenvolveram como indicadores das qualidades vantajosas potenciais de um macho: sua saúde, sua inteligência e capacidade de sobrevivência, características que, ademais, ele vai transmitir com seus genes aos filhotes. Um pássaro da família dos ptilonorinquídeos com plumagem particularmente brilhante pode ter um sistema imunológico robusto, por exemplo, ao passo que outro, capaz de encontrar ornamentos raros e únicos, talvez seja um caçador excepcional. A beleza, portanto, não iria de encontro à seleção natural, mas seria, sim, parte integrante dela.
O próprio Charles Darwin discordava dessa teoria. Embora ele tenha sido um dos descobridores da seleção natural, tendo dedicado boa parte da vida a demonstrar sua importância, Darwin jamais postulou que ela explicava tudo. Os ornamentos, propôs, desenvolveram-se graças a um processo à parte que ele chamou de seleção sexual: as fêmeas escolhem os machos mais atraentes “de acordo com seu próprio padrão de beleza” e, em consequência disso, os machos se desenvolvem na direção desse padrão, custe o que custar. Darwin não achava necessário vincular estética e sobrevivência. Os animais, acreditava, são capazes de apreciar a beleza pela beleza em si. Muitos de seus colegas e sucessores ridicularizaram essa ideia. Para estes, a noção de que os animais teriam tal sofisticação cognitiva – e a de que as preferências de fêmeas “caprichosas” seriam capazes de moldar espécies inteiras – era absurda. Ainda que jamais tenha sido esquecida, a teoria da beleza de Darwin foi, em grande medida, abandonada.
Agora, quase 150 anos mais tarde, uma nova geração de biólogos está retomando essa ideia negligenciada. A beleza, afirmam, não precisa ser uma representante da boa saúde ou de genes vantajosos. Às vezes, ela nada mais é que o produto fútil da preferência arbitrária. Os animais simplesmente acham atraentes certas características – um brilho vermelho, um floreado da plumagem –, e esse seu senso inato de beleza pode se tornar um motor da evolução, levando-os a extremos estéticos. Em outros casos, certos imperativos ambientais ou fisiológicos conduzem um animal a uma preferência estética que nada tem a ver com a sobrevivência.
Essa nova geração de biólogos não está apenas reescrevendo a explicação tradicional de como a beleza se desenvolve: está, também, mudando nossa maneira de pensar a própria evolução. Há décadas, a seleção natural – o fato de que as criaturas dotadas das características mais vantajosas têm as melhores chances de sobreviver e se multiplicar – vem sendo considerada a pedra basilar inequívoca da teoria da evolução. Mas esses biólogos acreditam que há outras forças em ação, modos de evolução bem menos comportados e mais dispersivos que a seleção natural. Não basta levar em conta de que maneira o habitat e o estilo de vida de um animal determinam o tamanho e a acuidade de seus olhos ou o número e a complexidade de seus circuitos neuronais. Temos de questionar também de que modo os olhos e o cérebro de um animal moldam sua percepção da realidade e como essa maneira única de experimentar o mundo pode, ao longo do tempo, alterar profundamente tanto sua forma física como seu comportamento. São de fato dois os ambientes que governam a evolução das criaturas sencientes: o externo, ou seja, aquele que elas habitam, e o interno, isto é, o que elas constroem. Para resolver o mistério da beleza, para compreender a evolução em sua plenitude, precisamos descobrir os vínculos ocultos entre esses dois mundos.
Talvez não haja cientista vivo que defenda de maneira mais entusiasmada – ou doutrinária – a seleção sexual de Darwin que Richard Prum, ornitólogo evolucionista da Universidade Yale. Em maio de 2017, Prum publicou um livro, The Evolution of Beauty (A evolução da beleza), que explica com lucidez e paixão sua teoria pessoal da evolução estética. A obra foi indicada para o Prêmio Pulitzer de não ficção geral, mas, no interior da comunidade científica, suas ideias não desfrutaram de recepção tão calorosa. Repetidas vezes, contou-me ele, Prum solicitou a opinião de outros pesquisadores, mas não recebeu resposta nenhuma ou recebeu apenas desculpas de colegas muito ocupados. Alguns externaram críticas abertas. Num parecer acadêmico sobre o livro de Prum, Gerald Borgia, um dos maiores especialistas mundiais em ptilonorinquídeos, e o etologista Gregory Ball descreveram as passagens históricas da obra como “revisionistas” e afirmaram que o autor não logrou apresentar argumentos críveis para corroborar sua tese. Certa vez, enquanto almoçavam burritos, Prum explicou sua teoria a um colega em visita, que a classificou como “niilismo”.
Em abril de 2018, Prum e eu viajamos pouco mais de 30 km, partindo da cidade de New Haven, no estado de Connecticut, em direção ao Parque Estadual de Hammonasset Beach, situado no Estuário de Long Island – cerca de 360 hectares de uma mescla de litoral, pântano, bosque e campina. Nossa esperança era a de encontrar ali uma mariquita-de-capuz. Fazia pouco tempo, observadores de pássaros tinham visualizado na área essa espécie migratória pequena, mas notável. Antes mesmo de estacionarmos o carro, Prum recitava os nomes dos pássaros que tinha ouvido ou visto pela janela do carro: águia-pescadora, andorinha-azul, pássaro-preto-da-asa-vermelha. Perguntei a ele como conseguia reconhecê-los tão rapidamente e, às vezes, a distância tão grande. Ele me respondeu que era tão fácil quanto reconhecer um retrato de Abraham Lincoln. Para Prum, todo pássaro é famoso.
De binóculo em punho, caminhamos pelas trilhas serpenteantes do parque, rumando vagarosamente para um grande grupo de árvores. Prum vestia calça jeans, uma jaqueta acolchoada e chapéu bege. As sobrancelhas grossas, os óculos redondos e mechas de cabelos brancos e grisalhos davam a seu rosto um ar de vaga solenidade. Ao longo do dia, vimos patos-reais, com a cabeça verde-esmeralda, andorinhas-das-árvores de manto turquesa iridescente, e diversas espécies de pardais, cada uma delas agraciada com um ornamento único: um amarelo em torno dos olhos, um delicado bico cor-de-rosa, um penacho cor de cobre. Num caminho ladeado por árvores, encontramos um pássaro muito vívido que jogava folhas para o ar. Prum logo ficou paralisado. Era um Toxostoma rufum, disse-me, descrevendo as características da ave com um misto de precisão e ternura – “de um marrom-avermelhado, com pintas no peito, olho amarelo, bico curvo, rabo comprido”. Depois, censurou-me por, em vez de observá-lo com o binóculo, eu ter tentado tirar uma foto do passarinho.
Passadas cerca de duas horas de caminhada, Prum, rápido e fluente ao falar, deteve-se no meio de uma frase: “Ali, bem ali!”, exclamou. “Olhe lá a mariquita! Bem ali na árvore!” Um brilho dourado cintilou. Ergui o binóculo até os olhos e comecei a vasculhar os galhos à nossa direita. Quando a encontrei, perdi até o fôlego. O pássaro era de uma beleza quase mitológica: asas de um verde-musgo, corpo e rosto luminescentes e um capuz preto perfeito, sob medida para, pelo contraste, tornar-lhe o semblante ainda mais luminoso. Ficamos vários minutos o observando saltitar de um lado para o outro, às vezes abanando as penas brancas do rabo em nossa direção. Por fim, voou para longe. Confessei a Prum que era mesmo emocionante ver de perto uma criatura daquelas. “É isso”, ele disse: “É isso que buscam os observadores de pássaros.”
Quando criança, enquanto crescia numa cidadezinha da zona rural do Sul do estado de Vermont, Prum era, segundo suas próprias palavras, um “sujeito amorfo e meio nerd”. Adorava ler e decorar estatísticas do Guinness, mas não era obcecado por nada em especial. Então, na quarta série, começou a usar óculos, e o mundo entrou em foco. Numa livraria, topou por acaso com um guia de campo dedicado aos passarinhos, o que o estimulou a sair mais de casa. Logo estava observando pássaros nos amplos campos e bosques das cercanias. De tanto ouvir, quase furou dois discos contendo cantos de pássaros. Fez amizade com naturalistas locais e saía regularmente em excursão com um grupo de mulheres, a maioria de meia-idade (e, muito convenientemente, portadoras de carteira de motorista). Quando estava na sétima série, já liderava excursões pelo parque local em busca de passarinhos.
Na faculdade, não perdeu tempo e foi logo tirar proveito dos substanciais recursos ornitológicos da Universidade Harvard. Na primeira semana, conseguiu as chaves do Museu de Zoologia Comparada, que abriga a maior coleção ornitológica do mundo sediada numa universidade – hoje em dia, quase 400 mil espécimes de pássaros. “Estive associado a uma coleção de pássaros de renome internacional a cada momento de minha vida adulta”, ele diz. “Brinco com meus alunos – e é a pura verdade – que preciso de pelo menos 100 mil pássaros mortos do outro lado do corredor para poder funcionar intelectualmente.” (Prum é hoje curador da área de ornitologia no Museu Peabody de História Natural de Yale.) Escreveu um trabalho de graduação sobre a filogenia e a biogeografia dos tucanos e dos capitonídeos, e o fez numa escrivaninha que ficava ao pé de um esqueleto de moa, uma ave extinta, semelhante ao emu, que atingia 3,5 metros de altura e pesava cerca de 230 kg.
Depois de se graduar em Harvard, em 1982, Prum foi ao Suriname estudar a família dos tangarás, composta por pássaros muito coloridos que competem por parceiras valendo-se de um canto agudo e de números acrobáticos de dança. Em 1984, começou sua pós-graduação em biologia em Ann Arbor, na Universidade de Michigan, onde planejava reconstruir a história evolutiva dos tangarás mediante cuidadosas comparações envolvendo anatomia e comportamento. Foi quando um colega lhe apresentou alguns trabalhos de pesquisa sobre a seleção sexual, aguçando-lhe o interesse na história dessa ideia fascinante e, no entanto, aparentemente negligenciada.
Desde cedo, lá pelos 30 e poucos anos, Darwin já estava interessado em como os animais percebiam a beleza uns dos outros: “Como a galinha determina qual o galo mais bonito, qual canta melhor?”, ele rabiscou numa nota para si mesmo escrita em algum momento entre 1838 e 1840. Em A Origem do Homem e a Seleção Sexual, publicado em 1871, dedicou centenas de páginas à seleção sexual, que acreditava capaz de explicar duas das características mais conspícuas e intrigantes do reino animal: suas armas e seus ornamentos. Por vezes, na feroz competição por fêmeas, os machos davam início a uma espécie de corrida armamentista evolucionária e punham-se a desenvolver armas cada vez maiores – presas, chifres, galhadas – pois, afinal, os machos mais bem-dotados de cada geração reproduziam-se à custa de seus pares mais fracos. Paralelamente, naquelas espécies em que as fêmeas escolhem os machos mais atraentes com base no gosto subjetivo, eles desenvolviam ornamentos sexuais bizarros. (Hoje, sabe-se muito bem que os sexos exercem numerosas pressões evolucionárias diferentes uns sobre os outros, assim como se sabe que, em algumas espécies, são os machos que escolhem fêmeas dotadas de ornamentos. Até o presente, porém, os exemplos mais bem estudados dizem respeito à preferência feminina e à ostentação masculina.)
Ao contrário do que acontece na seleção natural, que preserva características úteis “na luta pela vida”, Darwin via a seleção sexual interessada apenas no sucesso reprodutivo, muitas vezes resultando em traços que punham em risco o bem-estar de um animal. A cauda do pavão – fascinante, mas desajeitada – era um excelente exemplo disso, e segue sendo até hoje uma espécie de mascote da seleção sexual. “Um bom número de machos”, Darwin escreveu, “como é o caso da maioria dos pássaros mais belos, assim como de alguns peixes, répteis, mamíferos e de uma série de borboletas de cores magníficas, é bonito pela beleza em si.”
Seus colegas abraçaram a ideia de machos bem armados duelando por domínio sexual, mas muitos zombaram do conceito de estética animal, em parte porque se baseava na consciência dos bichos e no desejo feminino. Em uma dessas críticas, o biólogo inglês St. George Mivart enfatizava “a diferença fundamental existente entre os poderes mentais dos homens e das bestas”, bem como a incapacidade do “rude capricho feminino” de dar origem a cores e padrões duradouros. Outro inglês, o naturalista Alfred Russel Wallace – que, independentemente de Darwin, chegou a muitas ideias idênticas a respeito da evolução –, foi outro que reagiu de forma bastante crítica. Perturbava-o em particular a sugestão da beleza sem utilidade. “O único modo de explicarmos os fatos observados é supor que cor e ornamento estão intimamente relacionados com saúde, vigor e aptidão geral para a sobrevivência”, escreveu ele. Em outras palavras, os ornamentos só podiam ser explicados como uma heurística empregada pelos animais para julgar a aptidão potencial de um macho para a sobrevivência – visão que acabou por prevalecer.
No início da década de 1980, enquanto pesquisava a história da seleção sexual, Prum leu um artigo seminal sobre o assunto, de 1915, e também um livro, este de 1930, ambos de autoria do biólogo e estatístico inglês Ronald Fisher. Fisher reforçou a ideia original de Darwin com um entendimento mais sofisticado da hereditariedade. De início, argumentou, as fêmeas talvez desenvolvam preferências por certos traços sem valor – uma plumagem brilhante, por exemplo –, casualmente correspondentes a características como saúde e vigor. Seus filhotes tenderiam, então, a herdar os genes subjacentes tanto à preferência da mãe como às características do pai. Mas, com o tempo, essa correlação genética atingiria um ponto de inflexão e ensejaria um ciclo descontrolado, o qual, exagerando grandemente tanto preferência como característica, glorificaria a beleza em detrimento da sobrevivência do macho. No começo dos anos 1980, os biólogos evolucionistas norte-americanos Russell Lande e Mark Kirkpatrick deram à teoria do biólogo inglês uma estrutura matemática formal, demonstrando que a chamada seleção sexual de Fisher podia ocorrer na natureza e que os ornamentos envolvidos podiam ser inteiramente arbitrários, e não transmitir, portanto, nenhuma informação útil.
Embora a teoria de Fisher por certo não tenha sido ignorada, ela acabou eclipsada por uma série de hipóteses que pareciam salvar a beleza dessa ausência de propósito. Em primeiro lugar, o biólogo israelense Amotz Zahavi propôs uma ideia nada intuitiva chamada de “princípio da desvantagem”, uma ideia que deu novo sentido à explicação utilitária de Wallace para os ornamentos sexuais. Ornamentos extravagantes, argumentou ele, não eram meros indicadores de características vantajosas, como Wallace havia dito – eram, sim, uma espécie de teste. Se, apesar do fardo de um ornamento desajeitado e custoso em termos metabólicos, um animal prosperava, então esse animal havia com efeito demonstrado seu vigor e se provado digno de uma parceira. Da mesma forma, em 1982, os biólogos evolucionistas W. D. Hamilton e Marlene Zuk propuseram que certos ornamentos, em especial a plumagem brilhante, sinalizavam que um macho era resistente a parasitas e estenderia a sua prole essa mesma proteção. Muitos cientistas começaram a pensar na seleção sexual como uma espécie de seleção natural. Grande número de pesquisadores juntou-se à caça pelos benefícios mensuráveis da escolha de um parceiro atraente – tanto os benefícios diretos, como os resultantes de pais melhores ou de um território mais desejável, quanto os benefícios indiretos, ou seja, alguma prova de que machos mais atraentes de fato têm “bons genes” subjacentes a suas boas qualidades, como a resistência às doenças ou uma inteligência acima da média.
Passados mais de trinta anos de buscas, a maioria dos biólogos concorda que, embora esses benefícios existam, sua prevalência e sua importância são incertas. Uns poucos estudos convincentes realizados com rãs, peixes e pássaros mostraram que as fêmeas que escolhem machos mais atraentes em geral têm filhotes dotados de um sistema imunológico mais robusto e de uma chance maior de sobrevivência. No todo, porém, as provas encontradas ficam abaixo do entusiasmo inicial. Em 2012, uma metanálise de noventa estudos envolvendo 55 espécies resultou em apoio apenas “duvidoso” à hipótese dos bons genes.
Prum acredita que as provas dos benefícios decorrentes da escolha de um macho bonito são escassas porque os benefícios em si são raros, ao passo que a beleza arbitrária é “quase onipresente”. Ao longo dos anos, quanto mais ele estudava a seleção sexual de Fisher, mais convencido ficava de que ela era uma força evolutiva muito mais poderosa e criativa do que a seleção natural, a qual ele vê como supervalorizada e tediosa. “Os animais são agentes em sua própria evolução”, disse-me ele numa conversa. “Os pássaros são bonitos porque são bonitos para si próprios.”
No verão de 1985, mais ou menos ao mesmo tempo em que os biólogos renovavam seu interesse pela seleção sexual, Prum e a documentarista da natureza Ann Johnson (que, mais tarde, o escolheria para marido) viajaram ao Equador para seguir estudando os tangarás. Na primeira manhã, numa caminhada por uma floresta nublada, Prum ouviu estranhas notas que lembravam o toque de uma campainha e imaginou que os sons provinham dos papagaios. Mais tarde, na mesma trilha, ouviu de novo os sons estranhos e os seguiu floresta adentro. Ficou espantado ao descobrir que as notas provinham de um Machaeropterus deliciosus, ou tangará-bate-asa, uma pequena ave com o corpo cor de canela, vermelho no topo da cabeça e com asas pintadas de preto e branco. O pássaro saltava de um lado para outro, sugerindo que estava cortejando alguma fêmea. Em vez de cantar com a garganta, erguia repetidas vezes as asas às costas e vibrava as penas em fúria, umas contra as outras, produzindo dois bipes eletrônicos e intermitentes seguidos de uma espécie de campainha estridente – Prum transcreve seu canto como um “bip-bip-UÉÉÉNG!”.
Àquela época, ele ainda não desenvolvera por completo sua teoria evolucionária da beleza, mas suspeitou de imediato que o tangará-bate-asa era um caso exemplar da capacidade da natureza de levar criaturas a extremos estéticos. O vibrato singular do pássaro perseguiu-o por anos. No início dos anos 2000, quando Prum já se tornara professor de biologia da Universidade do Kansas, ele e Kimberly Bostwick, sua aluna de pós-graduação, revelaram que as exigências da corte tinham alterado drasticamente a anatomia do pássaro, transformando-o num violino vivo. Os machos tinham penas com raques contorcidas que se esfregavam umas nas outras à razão de cem vezes por segundo – uma frequência maior que as das batidas das asas de um beija-flor. Embora a maioria dos pássaros possua ossos leves e ocos para poder voar, Bostwick, valendo-se de tomografia computadorizada, demonstrou recentemente que o tangará-bate-asa macho tem ulnas sólidas – isto é, ossos fortes nas asas, necessários para suportar a vibração intensa. Também as fêmeas herdaram anomalias daí resultantes.
Ainda que inexistam estudos publicados sobre a aeronáutica do tangará-bate-asa, Prum afirma ser óbvio à mera observação que esses pássaros têm um voo desajeitado, inclusive as fêmeas. A pressão pela beleza, perpetuando-se a si mesma, argumenta ele, dificulta a sobrevivência de toda a espécie. Como as fêmeas não cortejam os machos, seus ossos e penas arqueados não constituem vantagem nenhuma. “Algumas das consequências evolucionárias do desejo e da escolha sexual na natureza nada têm a ver com adaptação”, Prum escreve em seu livro mais recente. “Certos resultados são verdadeiramente luxuriosos.”
Na década seguinte, quando a audição de Prum se deteriorou, ele se retirou da pesquisa de campo e da observação de pássaros, mas ainda conseguiu produzir uma série de descobertas científicas muito importantes: ajudou a confirmar que os dinossauros desenvolveram penas muito antes do surgimento dos pássaros e tornou-se um dos primeiros cientistas a deduzir a cor da plumagem de um dinossauro a partir do exame de moléculas de pigmentos preservadas em penas fossilizadas. Nesse meio-tempo, jamais parou de pensar na seleção sexual. Prum apresentou formalmente sua teoria da evolução estética numa série de artigos científicos publicados entre 1997 e 2015. Eles propunham que ornamentos e preferências sexuais deveriam ser considerados arbitrários até que tivessem sua utilidade comprovada.
Apesar da recente indicação para o Pulitzer, Prum ainda se ressente do escárnio que, segundo sua percepção, lhe dedicaram alguns colegas acadêmicos. Contudo, depois de conversar com numerosos pesquisadores no campo da seleção sexual, descobri que seus pares têm plena consciência do trabalho que Prum realizou e que muitos já aceitam os princípios centrais de sua argumentação – mais especificamente, que seleção natural e seleção sexual são processos distintos e que, ao menos em alguns casos, a beleza nada revela sobre a saúde ou o vigor de um animal. Ao mesmo tempo, quase todos os pesquisadores com quem falei me disseram que ele exagera a importância das preferências arbitrárias e da seleção de Fisher a ponto de excluir todas as demais possibilidades. Quando se conversa com Prum, seu brilhantismo é patente, mas ele tende a ser dogmático, por vezes interrompendo o interlocutor para descartar um argumento com o qual não concorda. Ainda que admita que certas formas de beleza possam estar ligadas a vantagens em matéria de sobrevivência, ele não parece muito interessado em dialogar com a extensa pesquisa em torno desse tópico. Quando lhe perguntei que estudos teriam oferecido apoio decisivo à ideia dos “bons genes” e de outros benefícios, ele fez uma pequena pausa e então respondeu que avaliar a literatura existente não era seu trabalho.
Como Darwin, Prum está tão encantado com os resultados das preferências estéticas que, em grande parte, desconsidera suas origens. Mais para o fim de nossa caminhada pelo Parque Estadual de Hammonasset Beach, começamos a conversar sobre o tangará-bate-asa. Perguntei a ele sobre a história da evolução desse pássaro. Prum acredita que, muito tempo atrás, uma versão anterior da dança do acasalamento desse tangará casualmente produziu um murmúrio das penas. Ao longo do tempo, esse som acabaria por se tornar muito atraente para as fêmeas, que passaram a pressionar os machos a desenvolver adaptações para que suas penas produzissem um farfalhar mais alto e perceptível, o que, para ele, culminou no som resultante daquela rápida fricção. Mas, afinal, por que as fêmeas eram atraídas por esse som em particular? Para Prum, essa é uma pergunta sem resposta, sobre a qual, portanto, não vale a pena refletir. “Nem tudo”, disse ele, “possui uma explicação causal tão explícita.”
A indiferença de Prum à origem do prazer estético abre uma lacuna que chama a atenção em sua grandiosa teoria. Ainda que aceitemos que boa parte da beleza brota de preferências arbitrárias, precisaríamos de todo modo explicar por que, afinal, essas preferências existem. É perfeitamente concebível que o gosto de um animal por, digamos, um gorjeio de acasalamento ou penas amarelas brilhantes lhe seja inerente e que esse tipo de predileção nada tenha a ver com genes vantajosos. Mas é também inquestionável que tais inclinações são produto de sua neurobiologia, a qual, por sua vez, resulta de uma longa história evolutiva para adaptar o cérebro do animal e seus órgãos sensoriais a condições ambientais específicas. Nas últimas duas décadas, toda uma gama de biólogos se dedicou a estudar de que forma o “viés sensorial” de um animal – seu nicho ecológico e seu modo particular de experimentar o mundo – molda sua aparência, seu comportamento e seu desejo. Como Prum, esses cientistas não creem que a beleza tenha a ver com adaptação. Mas onde aquele celebra o capricho, estes buscam causalidade.
Molly Cummings, professora de biologia integrativa da Universidade do Texas, em Austin, é uma pesquisadora de ponta na área da ecologia sensorial. Quando eu a visitei, na primavera passada, ela me levou a um de seus laboratórios de campo: uma clareira recoberta de grama e cheia de grandes bacias de concreto. A superfície de uma dessas bacias estava tão repleta de algas e nenúfares com flores cor-de-rosa que mal podíamos ver a água. Cummings começou a afastar as plantas, criando recessos de sombra que nos permitiram encontrar o ângulo correto de observação. “Deixe-me ver se consigo achar um meninão grande e bonito”, ela disse.
Um peixe do tamanho de um clipe nadou em nossa direção. Eu me inclinei para observá-lo melhor. Adornavam-lhe o corpo prateado um único ponto preto e uma faixa de um azul iridescente; a cauda comprida, na forma de uma espada, exibia listras amarelas. “Ah, aí está um sujeitinho fazendo a corte”, disse Cummings. “Está atrás daquela fêmea ali, tentando impressioná-la.” O peixe, um espadinha macho, parecia fazer esforço quase maníaco para ser notado. Disparava de um lado para o outro na frente da fêmea, vibrando o tempo todo, as escamas refletindo a pouca luz que atravessava a escuridão.
Mais tarde, viajamos os poucos quilômetros de volta até o laboratório do campus, onde estantes cheias de tanques de peixes se enfileiravam por diversas salas e as magníficas ilustrações de águas-vivas de autoria de Ernst Haeckel flutuavam pelas paredes. Enquanto visitávamos as instalações, Cummings me falou de sua carreira acadêmica. Ainda estudante de graduação da Universidade Stanford, ela passara um verão mergulhando na gigantesca floresta de algas da Estação Marinha Hopkins, ao lado do mundialmente famoso Aquário da Baía de Monterey. Depois de formada, foi para a Universidade James Cook, em Townsville, na Austrália, onde estudou ecologia marinha e descobriu o trabalho dos biólogos John Lythgoe e John Endler, ambos interessados em como o tipo de luz que incide sobre o ambiente de um animal molda seu sistema visual.
Cummings refletia sobre os peixes que observara na Califórnia e na Austrália. Estava impressionada com a beleza dinâmica dos embiotocídeos na floresta de algas, que se comunicavam por meio da cor e do brilho da pele, irradiando luz azul, prateada e laranja para atrair parceiras. Impressionante era também a diversidade de seus habitats aquáticos – as águas ora brilhantes e claras, ora turvas em decorrência do muco produzido pelas algas. Na Austrália, a luz do sol banhava de modo quase constante as espécies vibrantes de peixes recifais, mas contra um caleidoscópico pano de fundo de corais. Como os peixes desenvolviam ornamentos sexuais eficazes e confiáveis se a luz e o cenário em que viviam variavam tanto?
Terminada a pós-graduação na Austrália, em 1993, ela deu início a um doutorado em Santa Barbara, na Universidade da Califórnia. Passou anos estudando várias espécies de embiotocídeos e mergulhando nas florestas de algas marinhas com um espectrômetro protegido por acrílico, a fim de poder quantificar e caracterizar a luz em diferentes habitats. À noite, valia-se de uma luz potente para atordoar os peixes e levá-los ao laboratório, escapando das focas famintas que regularmente a seguiam na esperança de transformar os peixes assustados em refeição. Depois de centenas de mergulhos e cuidadosas medições, Cummings descobriu que a própria água balizara a evolução da beleza dos peixes. A preferência da fêmea pelo esplendor prateado ou azul não era arbitrária, e sim consequência de comprimentos específicos de ondas de luz que atravessavam distâncias maiores em seu ambiente subaquático. O macho que tivesse escamas capazes de refletir melhor esses comprimentos de onda tinha também maior probabilidade de chamar a atenção das fêmeas.
Em seus estudos, Cummings demonstrou que os embiotocídeos que viviam em águas escuras ou turvas em geral davam preferência a ornamentos brilhantes, ao passo que as espécies que habitavam zonas de brilho mercurial tinham predileção por cores vivas. Mais tarde, descobriu que os espadas mexicanos que ocupavam as camadas superiores dos rios, onde as águas claras polarizavam fortemente a luz do sol, possuíam ornamentos especializados em refletir a luz polarizada – como uma faixa de azul iridescente. Essas descobertas coincidem com as de estudos semelhantes que sugerem que as fêmeas de barrigudinhos no arquipélago de Trinidad e Tobago preferem machos com porções laranja – e isso porque desenvolveram um gosto pelas nutritivas laranjas que, vez por outra, caíam das árvores para dentro da água. “Alguns pensam que as preferências das fêmeas surgem do nada”, diz Cummings. “Mas o que ignoram é que, em muitos casos, elas resultam de imperativos ambientais. Nem sempre podem ser atribuídas ao acaso.”
Contudo, o que uma criatura acha atraente não depende apenas das qualidades únicas de seu ambiente. A atração é determinada também por quais dessas qualidades ultrapassam o limiar de nossa percepção. Pense na diferença entre o que nós vemos ao olhar para uma flor e o que vê uma mamangava. Como nós, os insetos veem as cores, mas, ao contrário de nós, eles percebem também a luz ultravioleta. Muitas plantas desenvolveram partes de flores capazes de absorver ou refletir essa luz, que forma padrões semelhantes a anéis, a um alvo com círculos concêntricos ou a uma explosão estelar. A maior parte das criaturas fica alheia a esses ornamentos, mas, aos olhos de muitos polinizadores, eles constituem faróis inequívocos. Há toda uma dimensão da beleza das flores invisível a nós, e não porque não estamos expostos à luz ultravioleta, mas porque não dispomos do aparato biológico adequado para percebê-la.
Michael Ryan, um professor de zoologia cujo laboratório situa-se apenas alguns andares abaixo da sala de Cummings, passou mais de trinta anos investigando de que forma as idiossincrasias na anatomia de um animal determinam suas preferências estéticas – um percurso que ele detalha no livro A Taste for the Beautiful (Um gosto pelo belo). Desde 1978, Ryan tem viajado ao Panamá para estudar um anfíbio cor de lama chamado rã-túngara. Como o tangará-bate-asa, essa rã produz uma forma única de beleza que não é visual, e sim auditiva. No crepúsculo, os machos se reúnem à beira d’água e cantam para seduzir as fêmeas. Seu canto de acasalamento possui dois elementos: a parte central, o chamado lamento, soa exatamente como uma pistola a laser em miniatura. Às vezes, o lamento é seguido de um ou mais grunhidos breves conhecidos como cacarejos. Um canto longo e complexo é arriscado, porque atrai morcegos que comem rãs. O resultado, no entanto, compensa o risco. Ryan demonstrou que lamentos seguidos de cacarejos podem ser até cinco vezes mais eficazes na atração das fêmeas que apenas lamentos. Mas por quê?
De acordo com o modelo de beleza pautado na adaptação, os cacarejos devem transmitir alguma informação sobre a boa forma do macho. E, de fato, machos maiores – que são os que produzem os cacarejos mais graves e sensuais – são os mais aptos para o acasalamento, porque seu tamanho se aproxima do das fêmeas. (O sexo entre as rãs é terreno escorregadio: um macho minúsculo tem maior probabilidade de errar o alvo.) Além disso, a rã-túngara tem um ouvido interno afinado em 2,2 mil Hz, frequência mais próxima daquela predominante no cacarejo. Juntos, esses fatos parecem indicar que a serenata do macho à beira d’água fornece um exemplo de escolha adaptativa: as fêmeas desenvolveram ouvidos afinados com os cacarejos porque estes indicam os machos maiores e mais qualificados do ponto de vista sexual. Mas a pesquisa de Ryan conta uma história mais estranha. Ao examinar a árvore genealógica das rãs-túngaras, ele descobriu que oito espécies de rãs aparentadas a elas também possuem ouvidos internos sensíveis a frequências de 2,2 mil Hz, mas nenhuma delas emite cacarejos em seu canto de acasalamento. Ryan acredita que, num passado remoto, o ancestral de todas essas espécies provavelmente desenvolveu um ouvido interno afinado em cerca de 2,2 mil Hz, tendo em vista algum propósito abandonado há muito tempo. Mais tarde, a rã-túngara resgatou esse canal auditivo negligenciado, e é provável que o tenha feito por acaso. Os machos que produziam algumas notas adicionais depois do lamento passaram a ser automaticamente preferidos pelas fêmeas – não porque fossem os mais apropriados, mas simplesmente porque chamavam mais a atenção delas.
Como as escamas brilhantes nos embiotocídeos e espadinhas estudados por Cummings, o custoso canto de acasalamento das rãs-túngaras não se desenvolveu para transmitir qualquer informação pragmática sobre a saúde ou a boa forma dos machos. Isso, porém, não significa que essas características sejam arbitrárias. Elas resultaram de aspectos específicos e discerníveis do ambiente, da anatomia e do legado evolucionário desses animais. “Levei muita pancada quando sugeri essa ideia, em 1990”, Ryan conta. “Muita gente criticou. Hoje, porém, o viés sensorial é considerado elemento importante na evolução dessas preferências.”
Durante nossa caminhada em Hammonasset, enquanto admirávamos as aves marinhas de cima dos penhascos à beira-mar, perguntei a Prum sobre o viés sensorial. Ele me disse que isso não explicava a surpreendente diversidade e as idiossincrasias dos ornamentos sexuais – o fato, por exemplo, de espécies aparentadas de pardais possuírem, cada uma delas, adornos próprios. Prum vê o viés sensorial como mais uma maneira de sustentar o “paradigma adaptativo” predominante, que se recusa a reconhecer sua teoria da evolução estética. Curiosamente, Prum e Ryan não discutem o trabalho um do outro em seus livros recentes.
Enquanto pensava nas semelhanças e discrepâncias entre as ideias de Prum e as de seus pares, volta e meia eu retornava a uma passagem do livro de Prum. Em 2010, ele e seus colegas revelaram que um dinossauro do tamanho de um corvo, o Anchiornis huxleyi, era possuidor de belos adornos: plumagem cinzenta, um penteado moicano castanho-avermelhado e penas brancas compridas salpicadas de preto nos membros. Por que os dinossauros desenvolveram penas é algo que há muito intriga os cientistas. De início, é bem provável que camadas de filamentos encrespados, semelhantes à penugem dos pintinhos, os tenham ajudado a repelir a água e a regular a temperatura do corpo. Mas o que explica o surgimento de penas largas e chatas, como as encontradas no Anchiornis? Eles as desenvolveram para voar – eis a resposta intuitiva. As primeiras penas planas, contudo, eram provavelmente primitivas demais para voar ou planar, não possuíam a singular assimetria que torna as penas dos pássaros aerodinâmicas. Em seu livro, Prum defende uma hipótese alternativa que vem ganhando apoio: penas longas desenvolveram-se por sua beleza.
As possibilidades estéticas da penugem encrespada são limitadas. “Já a inovadora barba plana da pena cria uma superfície bidimensional bem definida, na qual é possível criar todo um mundo novo de complexos padrões de cores”, escreve Prum. Somente mais tarde os pássaros se valeram de suas penas grandes e glamorosas para voar, o que constitui uma das prováveis razões pelas quais alguns deles sobreviveram à extinção em massa, há 66 milhões de anos. Os pássaros transformaram o que um dia foi apenas quinquilharia vistosa em algumas das mais invejáveis adaptações do planeta, desde a amplitude oceânica do albatroz à silhueta semelhante a um torpedo do falcão em mergulho. Mas nunca abandonaram seu senso de estilo, empregando as penas como um meio para alcançar esplendor sem igual. Uma pena não pode, pois, ser etiquetada como produto único nem da seleção natural nem da sexual. Com sua estrutura recíproca, ela incorpora a confluência de duas forças evolucionárias poderosas e igualmente importantes: a utilidade e a beleza.
A maior parte dos cientistas com quem conversei disse-me que a velha dicotomia entre o adorno adaptativo e a beleza arbitrária, entre os “bons genes” e a seleção de Fisher, está sendo substituída por uma síntese conceitual moderna que enfatiza a multiplicidade. “A beleza é algo que surge de toda uma série de mecanismos diferentes” afirma Gil Rosenthal, biólogo evolutivo da Universidade Texas A&M e autor de Mate Choice (A escolha de um parceiro). “Trata-se de um processo que apresenta uma quantidade incrível de camadas.”
O ambiente baliza a anatomia de uma criatura, o que determina como ela vai experimentar o mundo, o que, por sua vez, gera preferências tanto adaptativas como arbitrárias, o que, por fim, retroage e altera sua biologia de maneiras por vezes prejudiciais à adaptação. A beleza revela que a evolução não resulta de uma lapidação reiterada dos organismos vivos pelo ambiente predominante e tampouco decorre de uma colisão frenética de acontecimentos fortuitos. A evolução é, antes, como o intricado mecanismo de um relógio para o qual concorrem a física, a biologia e a percepção, um mecanismo no qual cada parte em movimento influencia a outra, de tal forma que é a um só tempo sutil e profunda. Suas engrenagens são tantas e tão dinâmicas – tão suscetíveis à sorte e ao contratempo – que mesmo um único efeito de seu incessante tique-taque é capaz de desconcertar a ciência por séculos.
Em meu último dia em Austin, enquanto eu caminhava por um parque, encontrei um rabo-de-quilha que caçava insetos pela grama. De início, sua plumagem parecia preta como o carvão, mas, assim que ele se mexeu, dela começaram a cintilar todas as cores de uma mancha de óleo. De vez em quando, ele parava, inchava o peito e produzia um som como o de um balanço enferrujado. Então, insatisfeito com o cardápio local, talvez, ou incomodado com minha presença, ele alçou voo e foi-se embora.
Na falta dele, minha atenção se voltou de imediato para algo que sua presença tinha ocultado – um arbusto cheio de aquilégias amarelas. De certa distância, as flores pareciam ilustrações medievais de cometas, grandes e vívidas, com um rastro comprido de luz. De perto, me surpreendi com a complexidade de um único botão: uma grande estrela amarela enlaçava um conjunto de cinco pétalas tubulares em formato de trombetas e cheias de néctar. Bem no meio, um tufo de filamentos efervescentes com pólen na ponta. Vistas de cima, pareciam grupos de passarinhos minúsculos de asas abertas juntando os bicos. Seu nome em inglês, columbine, provém do latim: semelhante a uma pomba.
Por que as flores são bonitas? Ou, mais precisamente: por que elas são bonitas para nós? Quanto mais eu pensava nisso, mais parecia me embrenhar na natureza da beleza em si. Filósofos, cientistas e escritores vêm tentando definir sua essência há milhares de anos. A pluralidade de seus esforços ilustra a imensa dificuldade dessa tarefa. Beleza, já disseram, é harmonia; bondade; manifestação da perfeição divina; um tipo de prazer; aquilo que enseja amor e anseio; ou M = O/C (em que M é o valor estético, O, ordem e C, complexidade).
Psicólogos evolutivos, ansiosos por aplicar a lógica adaptativa a cada faceta do comportamento e da cognição, já argumentaram que a percepção humana da beleza emerge de um conjunto de adaptações antiquíssimas: talvez os homens gostem de mulheres de seios grandes e cintura fina porque essas características sinalizam grande fertilidade; rostos simétricos podem estar relacionados a saúde; talvez os bebês sejam tão irresistivelmente bonitos porque seus traços infantis ativam os circuitos “cuidadores” de nosso cérebro. Tais postulações por vezes resvalam no ridículo. O filósofo Denis Dutton defendeu que as pessoas pelo mundo todo têm um gosto intrínseco por certo tipo de paisagem – um relvado com um bosque cheio de árvores, água e animais selvagens – porque ele lembra as savanas do Pleistoceno em que os humanos se desenvolveram. Num TED Talk, Dutton explica que cartões-postais, calendários e pinturas exibindo essa paisagem amada por todos em geral incluem árvores que se ramificam perto do chão, e isso porque nossos ancestrais confiavam em seus galhos convenientemente baixos para escapar de predadores.
É inegável, claro, que nós, como todos os animais, somos produtos da evolução. Nosso cérebro e nossos órgãos sensoriais são tão tendenciosos como os de qualquer criatura. A anatomia, a fisiologia e os instintos que herdamos sem dúvida moldaram nossa percepção da beleza. Em suas obras recentes, Richard Prum e Michael Ryan sintetizam a pesquisa sobre animais e humanos em busca de possíveis explicações evolucionárias para nossos gostos estéticos. Ryan interessa-se em especial pelas sensibilidades e vieses inatos de nossa arquitetura neural: descreve, por exemplo, como nosso sistema visual pode estar conectado de modo a perceber a simetria. Prum sublinha sua convicção de que, nos seres humanos, assim como nos pássaros, muitos tipos de beleza física e de desejo sexual se desenvolveram arbitrariamente, sem qualquer relação com saúde ou fertilidade. O que complica seus respectivos argumentos é o poder imenso da cultura humana. Como espécie, estamos tão saturados de simbolismo, rituais e de arte – somos tão influenciados por modas que se alteram com rapidez – que é mais ou menos impossível determinar quanto uma preferência estética se deve à história evolucionária, e não à influência cultural.
Mais do que qualquer outro objeto de obsessão estética, talvez, as flores expõem a futilidade de tentar enfiar a beleza num único arcabouço teórico. Pensem em como as flores surgiram e em como aprendemos a amá-las. Há 150 milhões de anos, muitas plantas dependiam do vento para disseminar o pólen e se reproduzir. Mas certos insetos, talvez besouros e mosquitos, começaram a comer os grãos de pólen ricos em proteínas e, inadvertidamente, os transportaram de uma planta a outra. Isso se revelou um meio de fertilização muito mais eficaz do que as caprichosas correntes de ar. As plantas que eram fontes mais ricas e óbvias de pólen foram especialmente bem-sucedidas. Da mesma forma, os insetos mais capazes de encontrar pólen levaram vantagem sobre seus pares.
Graças a um longo processo paralelo de evolução, plantas e polinizadores foram modificando uns aos outros. Algumas plantas começaram a transformar suas folhas em protoflores – pequenas bandeiras a assinalar a localização de seu pólen. Cores vivas e formas singulares ajudaram-nas a se sobressair num emaranhado verde. Perfumes fortes e faróis ultravioleta atuaram sobre os sentidos dos polinizadores. E o néctar veio adocicar o conjunto. Insetos, aves e mamíferos começaram a competir pelo acesso a elas, desenvolvendo asas, línguas e cérebros mais adequados à busca pelo sustento fornecido pelas flores. Quando a pressão de ambos os lados se intensificou, plantas e polinizadores começaram a forjar relacionamentos cada vez mais específicos, compelindo-se mutuamente a extremos estéticos e adaptativos – um pássaro que zumbe e paira no ar como um inseto, uma orquídea cuja aparência e cujo aroma imitam as de uma abelha fêmea.
Muitos milhões de anos mais tarde, as flores encantaram ainda outra espécie. Talvez a atração inicial tenha sido meramente utilitária: a promessa de frutos e grãos. Ou talvez tenhamos sido cativados pela harmonia de cor, forma e perfume. Qualquer que tenha sido o caso, acolhemos numerosas plantas que dão flores em nosso círculo cada vez mais amplo de espécies domesticadas. Levamos as flores para estufas e laboratórios, aumentando sua beleza inerente, criando novos híbridos e adaptando suas características a nossos gostos pessoais. Contraímos a paixão pelas orquídeas e a mania das tulipas, e disso nunca nos recuperamos de fato. A flor, de início um apelo, transformou-se num fenômeno.
Se há uma verdade universal sobre a beleza – algum conceito conciso e elegante que abranja cada variedade existente de encanto e graça –, ainda não sabemos o bastante sobre a natureza para articulá-la. O que chamamos de beleza não é simplesmente uma coisa ou outra, não possui propriamente um propósito nem é de todo uma casualidade, não é bem uma propriedade e tampouco um sentimento. A beleza é um diálogo entre o que é percebido e aquele que percebe. É a resposta do mundo à ousadia de uma flor. É o modo como uma abelha se derrama na pétala de um botão-de-ouro bocejante; é o cuidado com que o pássaro-cetim seleciona um botão de hibisco; é o impulso de recriar nenúfares com óleo sobre tela; é a necessidade de depositar rosas numa sepultura.