anais da imprensa
Branca Vianna Fev 2020 07h03
23 min de leitura
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Como se faz uma reportagem investigativa sobre assédio e abuso sexual? Em geral as vítimas não querem vir a público, os acusados quase sempre negam o ocorrido e raramente há testemunhas ou provas documentais. Como se isso não bastasse, todos os envolvidos têm tudo a perder, inclusive os repórteres. Dois livros lançados recentemente no Brasil, Ela Disse, de Jodi Kantor e Megan Twohey, e Operação Abafa, de Ronan Farrow, ajudam a responder a essa pergunta. Os autores, todos eles jornalistas, receberam o Prêmio Pulitzer em 2018 por suas reportagens sobre os abusos sexuais cometidos durante décadas por Harvey Weinstein, fundador da Miramax, uma importante produtora de cinema: a de Kantor e Twohey foi publicada pelo New York Times; a de Farrow, pela revista New Yorker, ambas em outubro de 2017. Nos livros, que só vieram à luz no ano passado, os autores contam em detalhes os bastidores da difícil investigação jornalística que fizeram ao longo de vários meses.
Em veículos do porte do New York Times e da New Yorker, o processo de publicação de reportagens investigativas como essas é muito rigoroso: antes mesmo de se considerar se as afirmações de uma fonte serão publicadas, é preciso que sejam corroboradas por outras fontes e, se possível, por documentos. Os repórteres consultam seus editores a cada passo da apuração e precisam de seu consentimento para seguir em frente quando se veem diante de um obstáculo, como fizeram Kantor, Twohey e Farrow. Também compartilham com editores e checadores suas notas e gravações, além dos documentos que encontram. Em matérias que envolvem atos sexuais, questões éticas são discutidas entre repórteres e editores: isso é notícia ou fofoca? É de interesse público ou só diz respeito à vida privada da pessoa?
Uma vez finalizada, a reportagem passa pelos checadores, que, entre outras coisas, conversam com as pessoas nela citadas para confirmar o que disseram aos repórteres. Mesmo que a fonte seja a atriz Gwyneth Paltrow, personagem importante em Ela Disse, o jornalista vai compartilhar o contato telefônico, e o checador deverá confirmar as aspas. Uma vez que o repórter, antes de iniciar uma entrevista, avisa ao entrevistado que os checadores vão procurá-lo, como é praxe na melhor imprensa norte-americana, ninguém se espanta com isso. Depois de passar pela checagem, a reportagem é então encaminhada ao departamento jurídico, que avalia o risco de ela ser contestada nos tribunais. Isso não só dá segurança aos repórteres como permite que os advogados, munidos das provas obtidas na apuração – notas, gravações e documentos –, se preparem para uma eventual ação judicial.
A última etapa desse longo processo é bastante delicada. O repórter deve procurar cada pessoa que tenha sido acusada por alguém na reportagem e expor com clareza o que será publicado especificamente a seu respeito. O objetivo é ouvir o que a pessoa tem a dizer sobre as acusações que lhe são feitas e publicar sua resposta na mesma reportagem, garantindo a equidade de tratamento. Isso se aplica a investigações sobre indivíduos, empresas ou governos. Foram esses os passos seguidos por Kantor, Twohey e Farrow.
Em Ela Disse, o processo é descrito assim:
Logo depois do meio-dia, as repórteres entraram no escritório do [diretor de redação] Dean Baquet para discutir a última etapa da investigação: quando levar as descobertas a Weinstein e que prazo lhe dar para responder. Depois de proteger as fontes por tanto tempo, era hora de chegar em Weinstein e seus representantes, expor a matéria e apresentar todas as denúncias que pretendiam publicar. Cada episódio, cada data, o nome de cada mulher.
No caso de uma denúncia sexual, essa etapa do trabalho jornalístico é a mais arriscada. O acusado e seus advogados ficam finalmente sabendo os nomes das vítimas que falaram abertamente com o jornalista (pois há também as que se manifestam em off e, portanto, terão sua identidade preservada). Descobrem, além disso, quem está corroborando a história: parceiros, ex-parceiros, amigos, pais e mesmo o terapeuta. De posse dessa informação, podem influenciar as fontes, intimidá-las e até desacreditá-las junto à opinião pública.
Mulheres que acusam homens poderosos como Harvey Weinstein ou Donald Trump – outro que o New York Times e a New Yorker investigaram por assédio – veem os exércitos virtuais e reais de seus abusadores partirem imediatamente para a guerra. De repente, advogados, jornalistas, artistas, ex-colegas de escola, de trabalho e até políticos começam a difamá-las na televisão. Suas casas são cercadas por repórteres, elas e suas famílias são atacadas e ameaçadas de morte na internet, pelo correio e ao vivo, como aconteceu com a atriz pornô Stormy Daniels.
Daniels conta que, em 2011, tentou vender para uma revista de celebridades, por 15 mil dólares, a história de sua noite de sexo consensual com Trump, na época apenas o milionário apresentador de um reality show, porém já casado com Melania Trump. A matéria acabou não sendo publicada, e Daniels tampouco recebeu o dinheiro. Algumas semanas depois, quando tirava a filha da cadeirinha do carro no estacionamento da academia, foi abordada por um homem que lhe disse: “Deixa o Trump em paz, esquece essa história. Aliás, linda essa sua filhinha, seria uma pena se acontecesse alguma coisa com a mãe dela.”
Daniels é conhecida por suas tiradas cortantes no Twitter e não se deixa intimidar facilmente, mas daquela vez se assustou. Ao acusar um homem poderoso, como não se sentirá uma mulher comum, que nunca teve que lidar com a imprensa?
Muitas vezes o nome da vítima fica associado eternamente à figura de seu assediador. Foi o que aconteceu com a advogada Anita Hill, que em 1991 acusou de assédio sexual o ministro da Suprema Corte Clarence Thomas. E também com a professora universitária Christine Blasey Ford, que em 2018 acusou de tentativa de estupro o ministro da Suprema Corte Brett Kavanaugh. Quando as denúncias foram feitas, Thomas e Kavanaugh estavam sendo sabatinados no Senado para a confirmação no posto. A despeito de tudo, os dois foram confirmados. Como o cargo de ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos é vitalício, Clarence e Kavanaugh estarão lá até a morte. Já Hill e Ford tentam, desde então, retomar a vida privada que perderam ao acusá-los em público. E sabem que, em seus obituários, os nomes de seus assediadores estarão no primeiro parágrafo.
Nos tabloides sensacionalistas não existe o processo laborioso de apuração e checagem descrito aqui. A praxe é comprar das fontes os direitos sobre a história escandalosa. Por isso Stormy Daniels tentou vender o relato de seu caso com Trump – sabia que poderia encontrar um mercado comprador. Na época, no entanto, Trump não era importante o bastante para que uma noite de amor extraconjugal fosse notícia. Já em 2015, com o empresário na corrida presidencial, Daniels e outra moça, Karen McDougal, uma ex-coelhinha da Playboy com quem Trump teve um caso, tornaram-se problemas dos quais a campanha do candidato precisava se livrar.
Aí entra a operação que serviu de título à edição em inglês do livro de Farrow: Catch and Kill (Pegar e matar). “Matar” porque o tabloide comprou a história de Daniels prometendo à fonte publicá-la, mas em vez disso a enterrou. É um serviço que o National Enquirer prestou para Trump mais de uma vez ao longo de anos. Fez o mesmo favor para Weinstein. O dono do jornal, David Pecker, é amigo de ambos. Segundo Farrow, trata-se de uma operação comum entre homens poderosos e esse tipo de publicação. Tão comum que tem até nome.
A realização de uma matéria investigativa sobre assédio sexual exige dos repórteres sensibilidade, experiência, determinação, talento e um pouco de sorte. Das publicações, requer coragem e paciência, um orçamento robusto, um excelente departamento jurídico, editores e checadores rigorosos e confiança em seus jornalistas. Em Ela Disse, as autoras descrevem como é trabalhar em uma instituição assim.
Em 2017, antes das revelações de Twohey e Kantor sobre Weinstein, os jornalistas Emily Steel e Michael Schmidt, também do New York Times, descobriram uma nova maneira de investigar crimes sexuais em locais de trabalho: seguir a trilha de contratos e indenizações. Desencavando acordos extrajudiciais milionários e misteriosos que o canal de notícias a cabo Fox News pagou a ex-funcionárias, eles provaram que o principal âncora da rede, Bill O’Reilly, tinha um histórico de assédio.
Na época, O’Reilly era um dos profissionais mais bem pagos da tevê norte-americana. Recebia 25 milhões de dólares por ano, e seu programa era o que mais atraía anunciantes para a Fox News. Apesar das repetidas queixas de mulheres desde o início dos anos 2000, a empresa nunca o havia sequer repreendido e nada fazia para proteger suas funcionárias. A cada queixa, a rotina era pagar uma indenização à vítima em troca de sua demissão. Para receber a reparação, a mulher precisava assinar um acordo extrajudicial no qual se comprometia a nunca contar nada a ninguém. Alguns acordos eram tão restritivos que as vítimas ficavam impedidas de comentar o abuso que sofreram até com seus parceiros e terapeutas.
Publicada na sessão de negócios do jornal, a reportagem de Steel e Schmidt, que levou oito meses para ser apurada, revelava não apenas os crimes em si, mas a complexa operação legal e financeira empregada para ocultá-los. Semanas depois da publicação, O’Reilly foi demitido, o que parecia impensável, dada sua popularidade e importância para as finanças da Fox. Os repórteres dividiram o Pulitzer em 2018 com Kantor e Twohey.
Em outubro de 2017, The Daily, o podcast diário do New York Times, veiculou uma entrevista de Steel e Schmidt com O’Reilly depois que a reportagem veio à tona. O ex-âncora sabia que estava sendo gravado para um programa com mais de 2 milhões de ouvintes por dia. (A condição imposta pelos repórteres para entrevistá-lo era justamente que tudo seria gravado e nada seria em off.) Mesmo assim, no escritório do seu advogado, onde ocorreu a entrevista, ele esbravejou, ameaçou os jornalistas e o jornal, acusou-os de desonestos e de terem destruído propositalmente sua vida e a de seus filhos. Sem o amparo de uma instituição forte e respeitada, é difícil imaginar como os repórteres poderiam concluir a apuração, publicá-la e confrontar o acusado dessa forma.
Ronan Farrow, em Operação Abafa, descreve o contrário: como é levar a cabo uma investigação tão delicada e perigosa em uma instituição que a cada momento coloca obstáculos, despista, dissimula e confunde seus jornalistas e produtores.
Antes de escrever para a New Yorker, ele trabalhava na rede de televisão aberta NBC, uma das três maiores dos Estados Unidos (as outras são ABC e CBS). Apresentava um programa de jornalismo investigativo chamado Ronan Farrow Daily, que foi um fracasso de audiência. Ele então passou a ser responsável por apenas um curto segmento em The Today Show, atração matinal apresentada por Matt Lauer, na época um dos mais famosos e queridos âncoras da tevê aberta norte-americana.
No livro, Farrow conta como o presidente da NBC News, Noah Oppenheim, acompanhou sua apuração do caso Weinstein. Com a aprovação de seu editor, Richard Greenberg, e do próprio Oppenheim, o repórter e seu produtor, Rich McHugh, com a corda toda, descobriam vítimas de Weinstein e convenciam-nas a falar e a se deixar filmar. Só que na última hora as entrevistas eram canceladas pelos mesmos editores e executivos que já as haviam autorizado. Ou então ocorriam, mas eram engavetadas. Apesar de se sentir confuso com a situação, Farrow continuou apurando. E conseguiu, além das entrevistas, provas documentais dos crimes cometidos por Weinstein.
Uma dessas provas foi uma gravação feita com autorização da polícia de Nova York. Em março de 2015, uma modelo italiana chamada Ambra Gutierrez havia tido uma reunião de trabalho com Weinstein, durante a qual ele lhe apalpou os seios e tentou meter a mão debaixo de sua saia. A moça foi diretamente à polícia para denunciar o produtor de cinema e, no dia seguinte, voltou com um gravador escondido. O áudio é duro de ouvir. Na gravação feita no hotel Roxy Hotel Tribeca, Weinstein diz que ela não deveria se preocupar com o que aconteceu na reunião da véspera, pois ele não fez nada de mais: passar a mão no peito das mulheres era coisa corriqueira na vida dele, algo que ele costumava fazer. O produtor de cinema sobe com Gutierrez pelo elevador privativo até a sua suíte. Pede que ela entre e o aguarde, enquanto ele toma banho. A modelo parece muito assustada, nega-se a atender o pedido, quer voltar para o térreo e conversar no bar. Weinstein se exalta, faz ameaças, diz que é um homem muito importante, que ela o está fazendo passar vergonha no hotel, e fala: “Não estrague nossa amizade por causa de cinco minutos.”
A investigação da polícia foi arquivada, e Gutierrez deveria ter apagado o áudio depois de assinar um acordo de indenização com Weinstein. Porém, anos depois, ela ainda o conservava em seu celular. Farrow passou semanas tentando convencê-la a lhe deixar copiar o áudio. Quando finalmente conseguiu, apresentou-o a seus superiores na NBC. Mas nem assim eles se decidiram a dar a matéria.
Os editores e executivos da NBC alegavam que o conjunto dos depoimentos era frágil, que o repórter não tinha documentação suficiente e que havia mais fumaça do que fogo. A emissora correria um risco enorme, diziam eles, se veiculasse matéria tão rala contra um homem tão poderoso e vingativo. Segundo o departamento jurídico, era ilegal incentivar alguém a desrespeitar um contrato – crime que a emissora estaria cometendo quando as vítimas violassem seus acordos extrajudiciais diante das câmeras. Para Farrow, o raciocínio jurídico não se sustentava. Por definição, uma matéria investigativa envolve segredos, inclusive os protegidos por contratos. Se isso fosse um impedimento, muitas matérias políticas e de negócios não teriam ido ao ar. Qual era o problema com esta?
Depois de quase um ano tentando emplacar a história, e àquela altura já perdendo suas fontes, descrentes da viabilidade da reportagem, Farrow cogitou levar sua apuração a outro veículo, com a anuência de seus superiores. Acabou chegando à New Yorker, por meio de Ken Auletta, veterano repórter de mídia da revista. Em 2002, Auletta escrevera um perfil de Weinstein. Ouvira todos os boatos de seu comportamento abusivo com mulheres, chegara a ver alguns acordos extrajudiciais assinados pelas vítimas, mas não conseguira ter acesso a documentos nem obter nenhum depoimento de alguém que aceitasse ser identificado na matéria. Sem isso, as alegações não passavam pelo crivo de publicação da New Yorker.
Auletta sabia que Weinstein era um predador e passou anos frustrado por não conseguir provas suficientes para denunciá-lo. Farrow, que havia lido o perfil, pediu ao repórter uma entrevista para sua matéria na NBC e também lhe mostrou o que havia conseguido até então. Desconfiado que a NBC não veicularia a história, Auletta resolveu ajudá-lo. Deu a Farrow acesso a todo o seu arquivo sobre o perfil publicado em 2002: documentos, cadernos e mais cadernos de notas, gravações, transcrições, tudo.
Além disso, apresentou Farrow a David Remnick, diretor de redação da New Yorker, dizendo se tratar de um rapaz sério, um bom jornalista investigativo que havia feito uma apuração cuidadosa. Remnick escalou a editora Deirdre Foley Mendelssohn para trabalhar com ele caso a revista decidisse publicar a reportagem, e os dois leram tudo que o repórter lhes trouxe e também ouviram o áudio da modelo italiana. Concluíram que ainda restava muito a ser apurado, mas que havia ali um começo de matéria. Ficou combinado que Farrow voltaria a falar com eles, caso a NBC decidisse de fato interromper a investigação. O repórter conta que suas “primeiras experiências na New Yorker pareciam aqueles vídeos em que animais de laboratório pisam na grama pela primeira vez”.
Mais tarde, ele viria a descobrir que a NBC estava sentada em sua própria montanha de indenizações e acordos extrajudiciais com funcionárias, vítimas de assédio e abuso por parte de executivos, produtores e jornalistas, inclusive o principal âncora da emissora, Matt Lauer, apresentador do programa em que Farrow trabalhava.
E la Disse é uma aula de jornalismo e é recomendável que passe a constar da bibliografia de todas as faculdades de comunicação do mundo. Operação Abafa também, mas parece escrito de olho num futuro roteiro. O leitor consegue imaginar Farrow, representado por Chris Hemsworth, andando pelas ruas de Nova York, afobado e estiloso, seguido por detetives russos de aspecto sombrio, num filme dirigido por Steven Soderbergh. Além de talentoso, Farrow parece vaidoso. No livro, ele descreve os bastidores da reportagem e também fala bastante de si mesmo, de sua carreira, seus fantasmas, seu namorado e sua família. Em um momento quase cômico, deposita todo o material da apuração num cofre de banco como aqueles usados pelo Jason Bourne para guardar seus passaportes secretos, pois estava cada vez mais paranoico e com medo que “lhe acontecesse alguma coisa”. Essa é uma das diferenças entre Operação Abafa e Ela Disse, em que as repórteres quase nada dizem sobre suas vidas.
Menino prodígio, Farrow concluiu a faculdade aos 15 anos. Depois se formou em direito por Yale e, aos 24 anos, se tornou assessor especial de Hillary Clinton no Departamento de Estado. É filho de Woody Allen e Mia Farrow, com a qual parece ter ótima relação – vira e mexe ela surge no livro pedindo que o filho tome cuidado e facilitando seu acesso a celebridades que podem ajudar na apuração. Seu status de semicelebridade sopra a favor – contata os famosos por meio de likes em fotos nas redes sociais, que são correspondidos e desembocam em conversas particulares, encontros e entrevistas. Ele faz parte do mesmo mundo, também foge dos paparazzi e sabe o que é viver sob o escrutínio dos tabloides. Com uma simples busca na internet é fácil encontrar fotos dele pequeno: um menino lourinho, assustado com os flashes, agarrado à mãe ou ao pai.
O histórico familiar, porém, complica a trama. Dylan, sua irmã, acusou Woody Allen de ter abusado dela na infância. Hoje Farrow a apoia incondicionalmente, mas nem sempre foi assim. E, se essa culpa o move em suas decisões como repórter, também o ajuda a ganhar a confiança das mulheres com quem quer falar. De vez em quando ele liga para a irmã pedindo conselhos sobre como lidar com vítimas de abuso sexual.
Enquanto estava na NBC, Farrow só contava com seu produtor, Rich McHugh, para ajudá-lo na apuração. Na New Yorker, logo de cara ele começou a trabalhar com a editora Foley Mendelssohn e dois checadores. Remnick, o diretor de redação, acompanhava tudo de perto. E ainda havia o departamento jurídico, robusto e difícil de intimidar.
A New Yorker e o New York Times, assim como outros jornais e revistas noticiosas, publicam matérias sobre segurança nacional, terrorismo, corrupção, tráfico de influência, de drogas e de pessoas, e têm repórteres especiais dedicados exclusivamente a reportagens sobre a Al Qaeda e o Estado Islâmico. Não seria a primeira vez que seus advogados se veriam pressionados a abafar uma investigação da revista.
Depois do furo sobre Bill O’Reilly, o âncora da Fox que acabou demitido, o New York Times designou uma equipe só para investigar casos de assédio e abuso sexual em outros setores da economia, como nas empresas do Vale do Silício. Na reportagem feita por Katie Benner, mais de vinte mulheres fazem denúncias contra investidores da área de tecnologia. Dez delas citam os assediadores pelo nome e entregam e-mails e mensagens de texto que corroboram seus relatos. Há casos de homens que exigem sexo em troca de financiamento ou emprego, há episódios em que elas são agarradas e bolinadas durante reuniões e conferências, há beijos forçados. São comuns comentários como: “Claro que você recebeu financiamento, gostosa do jeito que é” e “Por que você não casa com um sujeito rico para financiar sua empresa?”
A equipe do jornal também passou a investigar outros setores em que há predominância de funcionários do sexo masculino, como os da mineração e da construção civil. A mão de obra feminina em hotéis, restaurantes e lanchonetes também foi ouvida, e rendeu outras matérias.
Essas reportagens ajudaram Twohey e Kantor a convencer suas fontes a denunciar Weinstein. As repórteres não podiam prometer que daria tudo certo, pelo contrário. Não desconheciam o risco que essas mulheres correriam após a divulgação da matéria. Mas podiam ao menos mostrar que o jornal sabia fazer investigação sobre assédio com respeito e coragem, e que não temia as consequências de publicá-las.
Rebecca Corbett, editora de Twohey e Kantor, determinou os passos seguintes: continuar atrás das atrizes e outras vítimas, tentando convencê-las a falar oficialmente, e fazer uma pesquisa nos arquivos públicos, buscando evidências dos acordos feitos ao longo de décadas por Weinstein e suas empresas. Casos de assédio e abuso sexual em tão larga escala, como os que elas estavam descobrindo, com dezenas de vítimas (até agora são mais de noventa) e em diferentes países, envolvendo o trabalho de advogados e às vezes da polícia e de promotores, não conseguiriam ser acobertados por tempo indeterminado e desaparecer como se nunca tivessem existido.
O que Twohey e Kantor descobriram foi muito mais do que os segredos de um abusador compulsivo. Também trouxeram à luz um sistema extrajudicial que, ao menos na mídia e na indústria do entretenimento, protegia os homens e punia as mulheres, quer elas os denunciassem, quer aceitassem uma indenização em troca do silêncio. Os abusadores mais contumazes, como Weinstein, O’Reilly, Matt Lauer e Roger Ailes, ex-CEO da Fox, iam atacando vítima após vítima, fazendo em seguida acordos extrajudiciais, um atrás do outro.
Os acordos, concebidos para dar às vítimas alguma compensação por seu sofrimento, acabaram se tornando um escudo atrás do qual esses homens se esconderam por décadas. Como diz Kantor:
Os Estados Unidos tinham um sistema para silenciar queixas de assédio sexual que muitas vezes ajudava os assediadores a continuar com suas práticas em vez de impedi-los. […] Os assediadores com frequência seguiam em frente, encontrando novos terrenos onde cometer os mesmos atos. As indenizações e os acordos de confidencialidade quase nunca eram examinados nas salas de aula das faculdades de direito ou no tribunal. Era por esse motivo que o público nunca entendia realmente o que estava acontecendo.
O esquema lembra o dos padres pedófilos, transferidos de paróquia em paróquia ao serem flagrados, mas sempre dispostos a atacar crianças e adolescentes. Só que, no caso dos assediadores norte-americanos, são as mulheres que partem, não eles. São elas que perdem o emprego e têm a carreira e as aspirações destruídas. A maioria das indenizações não são muito altas, ou ao menos não o bastante para a vítima parar de trabalhar. Em alguns raros acordos, a compensação passa de 1 milhão de dólares, dos quais o advogado fica com a parte do leão. O’Reilly parece ter sido quem deu mais prejuízo a seus empregadores, que tiveram que desembolsar cifras muito altas. Weinstein recebia mulheres vestindo um roupão ou coisa nenhuma, obrigava jovens a lhe fazer sexo oral ou massagem e as constrangia a observá-lo enquanto ele se masturbava. Estuprou várias delas por décadas. E, nas raras vezes em que elas tinham coragem de dar queixa, ele comprava seu silêncio por 100 mil dólares, como fez com a atriz Rose McGowan, em 1997. E passava para a vítima seguinte.
As repórteres Twohey e Kantor descobriram que os acordos não implicavam admissão de culpa por parte dos agressores. Por isso, O’Reilly pôde se justificar para Emily Steel e Michael Schmidt (os jornalistas que produziam uma matéria sobre ele), no escritório de seu advogado, dizendo que era alvo de vigaristas que desejavam extorqui-lo por ele ser um autor de best-sellers e âncora de um programa recorde de audiência. Também disse que, para proteger seus filhos de escândalos, assinou acordos e pagou milhões de dólares em indenizações. Como os demais assediadores, O’Reilly tinha uma tara especial. A dele, relatada por várias de suas vítimas, consistia em se masturbar enquanto falava ao telefone com funcionárias e colaboradoras sobre assuntos profissionais.
Enquanto corria a investigação do New York Times, Farrow ia ficando cada vez mais paranoico em relação à dele. Julgava estar sendo seguido e foi aconselhado por uma fonte a comprar uma arma. Mudou-se de seu apartamento, que achava muito vulnerável, para o de uma amiga rica, onde havia um esquema de segurança digno da Casa da Moeda.
Tudo isso, e ainda trancar os documentos num cofre de banco, pode parecer loucura ou mania de grandeza. Não era. Tanto ele quanto as repórteres do New York Times estavam de fato sendo seguidos. E não por qualquer um, mas por detetives de uma agência israelense de espionagem internacional chamada Black Cube. Se fosse roteiro de filme, seria considerado um exagero, mas entre os detetives havia um ucraniano e outro russo, que seguiam Farrow por todo canto e até fizeram amizade com o zelador do seu prédio.
A agência foi contratada por Weinstein para rastrear os repórteres e descobrir quem eram suas fontes. De posse dessa informação, era possível intimidá-las e plantar notícias nos tabloides, pintando-as como loucas e descontroladas, desacreditando antecipadamente qualquer declaração que dessem à imprensa. Os espiões chegaram até a se disfarçar de ativistas em prol da causa feminista, fingindo querer ajudá-las a contar suas experiências de assédio. A história já nasce como filme.
Depois de conseguirem documentos internos da Miramax, depoimentos de duas mulheres que haviam concordado em ser identificadas e muitas entrevistas em off de estrelas de Hollywood, chegou a hora de Twohey e Kantor apresentarem as provas a Weinstein e sua equipe. As jornalistas sabiam que seria melhor se tivessem conseguido incluir na matéria a revelação de uma vítima famosa, mas adiar a publicação para que pudessem obtê-la colocaria em risco o depoimento de duas fontes que haviam concordado em ser identificadas. Além disso, elas sabiam que Farrow e a New Yorker preparavam uma reportagem sobre o mesmo assunto e queriam sair na frente.
A última esperança das repórteres era a atriz Ashley Judd, que dera sinais positivos de que poderia contar sua história. Elas escrevem:
Insistir parecia errado. A matéria seria publicada logo antes do novo seriado de Judd, Berlin Station, estrear na tevê, situação que era preferível evitar. E Judd queria desde o começo a companhia de outras atrizes. Mas, mesmo depois de dezenas de conversas, aquilo não havia se materializado. Salma Hayek, Uma Thurman e Angelina Jolie nem haviam atendido ao telefone. Jodi [Kantor] ainda estava tentando convencer Gwyneth Paltrow, mas ninguém sabia o que ela faria. Rosanna Arquette, que também descrevera à Jodi um encontro aflitivo num quarto de hotel, não se sentia pronta para vir a público. Outras atrizes, famosas e desconhecidas, tinham contado casos de Weinstein às repórteres sob promessa de sigilo. O padrão que protegera Weinstein durante décadas – nenhuma atriz queria ser a que ia botar a boca no mundo e nomeá-lo – persistia.
Com ou sem Judd, era a hora de as jornalistas apresentarem os fatos à outra parte. Na conversa telefônica, o advogado de Weinstein parece calmo e fala pouco, mas seu cliente se descontrola, grita, quer saber quem disse o quê, quem o traiu, diz que não é santo, tampouco o pecador que elas estão pintando. Depois ataca a imprensa, se diz admirador do jornal, mas reclama que, em relação a ele, o New York Times não estava sendo imparcial. A ligação acaba mal.
Uma hora depois, Kantor recebe um telefonema de Judd autorizando a citação de seu nome e de sua história. A atriz mais tarde contou que, assim que deu a permissão, foi acampar sozinha num local remoto, onde não havia conexão de celular ou internet.
Agora era preciso telefonar de novo para o time de Weinstein e expor o que Judd havia contado sobre o produtor. E essa ligação foi pior ainda. Depois de ouvir a equipe de Weinstein negar alegações que nem constavam da reportagem e reclamar do prazo que o jornal lhes deu para responder, Dean Baquet, o diretor de redação do jornal, que até então estava calado, pede que lhe passem o telefone para falar com Lanny Davis, um dos advogados: Lanny, estou de saco cheio […] Vocês têm cinco advogados diferentes tratando conosco. Não vamos falar com cinco advogados diferentes. Ligue para seu pessoal e nos retorne com sua resposta. E desligou o telefone. O livro reproduz a carta que os advogados mandaram ao jornal depois dessa ligação. Eles fazem ameaças ao New York Times, aos jornalistas, ao jornalismo. E também às fontes nomeadas.
Uma carta parecida, porém com ameaças e ataques pessoais a Farrow e sua família, foi enviada à redação da New Yorker na mesma ocasião, também após um telefonema contencioso em que o advogado de Weinstein chegou a desligar no meio da conversa porque seu cliente tinha perdido completamente o controle e estava falando demais. Farrow tinha pressa em publicar, pois sabia que estava competindo com o New York Times, mas Remnick lhe disse: Não vamos correr para passar na frente de ninguém […] Somos um transatlântico, não uma lancha. Sempre soubemos que o Times poderia nos furar.
E furou. Em outubro de 2017, os dois veículos publicaram suas matérias, o jornal alguns dias antes da revista. As repercussões foram devastadoras para Weinstein. Ele perdeu o controle da empresa que dirigia, sua mulher pediu divórcio, dezenas de vítimas o processaram na esfera cível, e duas, na esfera penal. Esses processos ainda correm na Justiça.
Ela Disse tem como subtítulo Os Bastidores da Reportagem que Impulsionou o #MeToo. De fato, a cobertura do New York Times e dos outros veículos que vieram depois deu gás ao #MeToo, com milhões de mulheres no mundo todo compartilhando nas redes suas histórias de assédio. O Me Too, no entanto, começou em 2007, numa campanha antiassédio criada pela ativista Tarana Burke. E, antes dela, muitas outras mulheres, dentro e fora do movimento feminista, lutaram contra o assédio sexual, inclusive no Brasil. A explosão do #MeToo, que não pode ser chamado de movimento, é o resultado do acúmulo de todo esse trabalho.
Os dois livros deixam claro como é difícil fazer uma investigação desse tipo, tanto mais no Brasil.
Há no país pelo menos dois exemplos de casos de abusos apurados e revelados com rigor pela imprensa: o do médico Roger Abdelmassih, denunciado numa reportagem da jornalista Lilian Christofoletti, na Folha de S.Paulo, e o do médium João de Deus, revelado pela repórter e roteirista Camila Appel, do programa Conversa com Bial, da Rede Globo.
São duas grandes investigações que resultaram na prisão e condenação dos acusados. Mesmo assim, é pouco. Essas denúncias apareceram com quase dez anos de intervalo. Abdelmassih e João de Deus não são os únicos predadores sexuais do Brasil. Onde estão as outras investigações?
Como disse a jornalista Paula Cesarino Costa, ex-ombudsman da Folha, em uma coluna de 2018, logo após as revelações sobre João de Deus:
Quantos criminosos sexuais em série existem nos diversos níveis de poder, agindo impunemente? Quantos são os relatos que, ouvidos em rodinhas de jornalistas, replicam histórias de abusos nas castas políticas, empresariais e culturais e não chegam ao distinto público nem viram inquéritos? Os ocupantes do poder – e a sociedade de forma mais ampla – tendem a ser conservadores, machistas e coniventes com práticas abusivas contra mulheres. É uma pauta vista como delicada, em que a imprensa de modo geral ainda opta pelo manto do silêncio, em nome da privacidade e da proteção da honra. Acaba sendo, se não cúmplice, ao menos pouco vigilante e descuidada.