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NO PARQUINHO DAS POTÊNCIAS

Os bastidores inéditos da ação externa mais arrojada do Brasil em décadas – e os efeitos do seu fracasso
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“Companheiro, vou embora amanhã, acho que dez ou onze da manhã. Queria que você entendesse o seguinte. Meus amigos acham que você é mentiroso”, disparou Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Os dois saíam de um elevador, rumo ao jantar que encerraria a visita oficial do brasileiro ao país. Aquele domingo de maio de 2010 fora um dia de glória para Lula em Teerã. Além de todos os salamaleques da política, ele recebera a deferência rara de almoçar com o aiatolá Ali Khamenei. Ainda assim, corria o risco de voltar ao Brasil sem o que fora buscar: um compromisso dos iranianos com a desnuclearização do país. Com as mãos no ombro de Ahmadinejad, Lula continuou, enquanto o intérprete oficial traduzia: “Eles dizem que o iraniano não tem palavra. A imprensa brasileira está me esculhambando todo dia. A Hillary Clinton está me chamando de ingênuo e o Barack Obama está todo zangado. Eu queria te dizer que estou dando as minhas costas para tomar chicotada junto com você. Então você vai ter que provar para mim que eles não estão dizendo a verdade. Eu não saio daqui sem o acordo, companheiro.”

Horas depois, Ahmadinejad aceitou o tal acordo, que ganhou o nome de Declaração de Teerã. No documento, o líder iraniano concordava em enviar 1,2 mil kg de urânio pouco enriquecido para um depósito na Turquia, recebendo em troca 120 kg de combustível nuclear para fins pacíficos, que seriam enviados pelas maiores potências nucleares do planeta e pela Agência Internacional de Energia Atômica. Ao desistir de estocar grandes quantidades de material radioativo em seu território, o Irã estava implicitamente abrindo mão de produzir a bomba. Os termos do acordo eram iguais aos que tinham sido negociados ao longo de 2009 com as cinco potências nucleares, mais a Alemanha. Em outubro daquele ano, porém, o Irã travou as negociações sem explicar claramente o motivo, deixando o Ocidente perplexo.

Assim que soube que o governo de Teerã finalmente aceitara o acordo, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, voou às pressas para a capital iraniana com o objetivo de comparecer à cerimônia de assinatura. Seus diplomatas vinham participando das negociações, ao lado do Brasil, mas Erdoğan confiava tão pouco no sucesso das conversas que preferiu esperar em casa. Avisado do desfecho positivo às quatro da manhã da segunda-feira, 17 de maio, correu tanto para pegar o avião da Força Aérea turca que desembarcou em Teerã sem terno e sem gravata, apetrechos que teve de providenciar mais tarde para compor a cena que rodou o mundo: Lula, Ahmadinejad e Erdoğan, de mãos dadas e punhos levantados, comemoravam vitoriosos. “Virei muçulmano”, dizia o brasileiro. Eufórico, Lula brincava de tomar emprestadas as câmeras dos fotógrafos para clicar os jornalistas presentes. Erdoğan o imitou. Para Lula, era uma conquista maiúscula, na ação externa mais arriscada do Brasil desde o envio de soldados para lutar na Segunda Guerra Mundial. “O acordo reflete a nova disposição das potências regionais de tentar a sorte nos temas em que os diplomatas ocidentais vêm encalhando”, afirmou o Financial Times. “A estrela do Brasil brilha mais forte”, elogiou a Associated Press. Mas a festa duraria pouco. Menos de 24 horas. E só agora está sendo possível entender as razões dessa guinada espetacular.

Em um trabalho inédito, os pesquisadores Matias Spektor e Guilherme Fasolin, da Fundação Getulio Vargas, e Joshua Baker, na Universidade de Leicester, no Reino Unido, desvendaram os bastidores diplomáticos desse evento. Entre 2016 e 2019, eles entrevistaram os chanceleres do Brasil, Celso Amorim, e da Turquia, Ahmet Davutoğlu, e ainda uma dúzia de diplomatas, funcionários graduados e especialistas em política externa norte-americanos, turcos, brasileiros e iranianos, além de analisar telegramas confidenciais dos Estados Unidos e do Brasil. Os pesquisadores também receberam a doação de uma entrevista inédita com Lula sobre o caso, feita pelo jornalista Sérgio Leo em 2013 – bem antes da Lava Jato e de sua prisão, portanto. Nela, o brasileiro dá sua versão dos acontecimentos e conta a conversa com Ahmadinejad reproduzida no início desta reportagem. Em 249 páginas, o material faz uma incursão reveladora aos meandros das negociações entre grandes potências, um jogo pesado ao qual o Brasil estava alheio havia décadas – e do qual, nos governos seguintes, não voltou a participar.

Menos de 24 horas depois da assinatura da Declaração de Teerã, o governo dos Estados Unidos desmontou o acordo. Washington divulgou uma nota dizendo que não só recusava os termos do documento, como ingressaria imediatamente com um pedido de duras sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. A euforia do Brasil e da Turquia transformou-se em perplexidade. Publicamente, os Estados Unidos declararam que o principal problema do acordo era admitir que o Irã poderia continuar exercendo o direito de pesquisar, produzir e usar energia nuclear – teoricamente, para fins pacíficos –, mas que, na prática, poderia continuar enriquecendo urânio para fins bélicos. Em entrevista coletiva, o porta-voz do Departamento de Estado, Philip J. Crowley, disse: “Apreciamos os esforços de Brasil e Turquia, mas a pergunta é: Há substância nesse pedaço de papel?” Na verdade, o incômodo norte-americano não era exatamente esse.

Dias depois, o governo brasileiro quis comprovar que a Declaração de Teerã fora redigida nos termos que os Estados Unidos haviam pedido e, portanto, seu repúdio ao acordo não fazia sentido. Para isso, vazou para a agência de notícias Reuters – e depois para o jornalista Clovis Rossi, da Folha de S.Paulo – uma carta de Obama endereçada a Lula e Erdoğan no mês anterior, abril de 2010. Na correspondência, Obama sugeria “um caminho para avançarmos” na construção de um acordo com o Irã, e listava as condições. “Caso o Irã não esteja disposto a aceitar uma oferta que demonstre que seu leu [sigla em inglês para “urânio levemente enriquecido”] é para usos pacíficos e civis, eu instaria o Brasil a insistir junto ao Irã quanto à oportunidade representada por essa oferta de manter seu urânio como ‘caução’ na Turquia enquanto o combustível nuclear está sendo produzido”, dizia Obama, que enfatizava a importância de manter “as portas abertas para uma aproximação com o Irã”. Como a Declaração de Teerã atendia tais condições, Brasil e Turquia ficaram surpresos com a reação dos Estados Unidos. “O acordo é o acordo que eles propuseram. Todas as dificuldades foram resolvidas”, reagiu, na época, o chanceler Amorim, sem esconder sua irritação.

Desde então, a carta de Obama é frequentemente citada na diplomacia como prova de que os norte-americanos montaram uma armadilha contra o Brasil. Enquanto estimulavam a diplomacia brasileira a conseguir o acordo, negociavam sanções contra o Irã com seus parceiros do Conselho de Segurança. Os bastidores do episódio, que completou dez anos em maio, mostram que a realidade é mais complexa.

A relação entre Lula e Obama começou em abril de 2009, com uma boutade. “Esse é o cara. Eu adoro ele. É o político mais popular da Terra”, brincou o norte-americano, durante um encontro do G-20, o grupo das vinte maiores economias do mundo, realizado em Londres. Lula ficou envaidecido. Em abril do ano seguinte, durante a cúpula nuclear em Washington, o amor azedara. Obama, Lula e Erdoğan se reuniram após o jantar de abertura do evento para discutir a questão iraniana. Obama estava nervoso. Lula anunciara que visitaria o Irã no mês seguinte, em maio, para tentar convencer Ahmadinejad a aceitar um acordo de desnuclearização. Evitar uma nova guerra no Oriente Médio fora uma promessa de campanha de Obama. Mas, com o recuo inesperado do Irã nas negociações em outubro de 2009, o presidente norte-americano estava sendo pressionado pelo Congresso e pelo governo de Israel, que exigiam providências mais duras, capazes de asfixiar o país do ponto de vista econômico e militar.

Lula se lembra da conversa depois do jantar: “Obama dizia que eu estava sendo enganado. Que eu estava sendo ingênuo, que o Ahmadinejad não tinha palavra, que ele não cumpria acordo, não fazia acordo assinado, que dizia que ia fazer as coisas e depois não fazia. Um monte de coisas para impedir que eu fosse.” A essas ponderações, Lula contou que respondeu o seguinte: “A gente só vai ter certeza se isso vai acontecer se a gente for lá. Sem conversar é que não vai resolver.” A conversa foi tão ruim que o brasileiro chegou a pensar em abandonar a cúpula antes do final, mas foi contido por Celso Amorim. Anos depois, Spektor constatou que o encontro também não deixou boas lembranças no governo norte-americano. “Um dos diplomatas com quem conversei me contou que Lula tratava o presidente norte-americano como um velho estadista fala com um calouro – o que, segundo ele, só mostrava que Lula não havia entendido mesmo que tipo de pessoa era Barack Obama.”

No Departamento de Estado, então comandado por Hillary Clinton, os diplomatas estavam convictos de que era preciso redobrar a pressão sobre o Irã. Na mesma reunião de cúpula em que Obama pressionou Lula e Erdoğan, a secretária de Estado disse ao chanceler turco, Ahmet Davutoğlu, que os Estados Unidos não queriam mais o acordo com o Irã. Ela já tinha dado um recado parecido ao chanceler Celso Amorim na visita que fizera ao Brasil em março, mas o recado acabara neutralizado mais tarde pelo conteúdo da carta de Obama.

Na verdade, Hillary Clinton até já prometera ao Congresso que trabalharia para impor sanções ao Irã no Conselho de Segurança. Ela não estava disposta a recuar no cerco aos iranianos, especialmente porque 2010 era ano de eleições para o Legislativo nos Estados Unidos, e jogar duro com Teerã agradaria o eleitorado. Além do arrocho da oposição republicana, Obama enfrentava a pressão de Israel. Num encontro no início de seu mandato, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, respaldado pelo eficiente lobby pró-Israel no Congresso norte-americano, sentiu-se em condições de dar uma espécie de ultimato a Obama. Disse que esperaria até doze meses por um acordo com o Irã. Se não saísse nada até lá, Israel apelaria à ação militar.

Robert Einhorn, o principal assessor de Hillary Clinton para temas nucleares, contou aos pesquisadores que, na reunião com o chanceler turco, ele mesmo explicou que, àquela altura, o Irã já tinha bem mais urânio do que os 1,2 mil kg previstos na proposta desprezada em outubro de 2009. Segundo Einhorn, mesmo entregando os 1,2 mil kg, o regime dos aiatolás ainda ficaria com um estoque de urânio suficiente para fazer a bomba. “A propósito, eles já estão começando a enriquecer [urânio] a 20%”, acrescentou Einhorn, referindo-se ao percentual que serve de teto para o uso em pesquisas e de piso para a fabricação de artefato nuclear. A produção iraniana não era um segredo. Em entrevista a Spektor, o próprio Celso Amorim admitiu que o Irã já tinha, sim, mais urânio. “Mas vale lembrar que, quando começamos a discutir o acordo com os iranianos, eles tinham 1,2 mil kg de urânio. Quando terminamos, eles tinham uns 2,2 mil kg, o que é suficiente para uma ou duas bombas. Isso não é um arsenal nuclear. Ter apenas uma bomba atômica é um suicídio.”

O pessoal do Departamento de Estado norte-americano, no entanto, sabendo do aumento de urânio em posse do Irã, defendia simplesmente retirar a proposta original – ou refazê-la em novas bases, já contemplando o novo tamanho do estoque. “Alguns de nós dizíamos: ‘Vejam, os iranianos não são idiotas. Cedo ou tarde, eles vão perceber que já podem aceitar a proposta original, porque ela já não vai fazer nenhuma diferença’”, relatou Einhorn. O time da Casa Branca, porém, era contra. Achava que os iranianos nunca aceitariam nem mesmo a proposta de 1,2 mil kg, e que recuar antes deles só traria prejuízo. “Se a gente retirar, os iranianos dirão: ‘Estão vendo? Os norte-americanos nunca falaram sério conosco’”, disse Einhorn. Para ele, foi com esse tipo de preocupação que Obama enviou a carta conciliatória para Brasil e Turquia, depois daquela difícil reunião em Washington. “O presidente queria manter uma relação pessoal com líderes como Erdoğan e Lula. Então ele não ia cuspir em seus olhos, entende? Ele foi educado.”

Einhorn afirma que se opôs aos termos da carta. “Eu me lembro de ter dito a uma das pessoas envolvidas na redação: ‘Isso está muito positivo, vocês têm de ser mais diretos. Assim vocês podem estar dando corda a eles.’” Dennis Ross, assessor especial de Obama, participou da redação da carta na Casa Branca e hoje reconhece sua ambiguidade: “O presidente efetivamente disse que, se eles conseguissem um acordo, ele aceitaria. E a carta que enviamos depois provavelmente não foi tão clara como deveria ter sido. O importante para nós era que os iranianos mandassem para fora do país 80% do estoque de urânio que eles mantinham naquele momento, e não 80% do estoque de outubro de 2009. Não fomos claros a respeito disso.” Embora sugira que os termos da carta foram atenuados por outros assessores no processo de redação, Ross admite que foi pouco criterioso na revisão do documento porque ele e seus colegas achavam que o Brasil e a Turquia estavam apenas perdendo tempo. “Não tínhamos grandes expectativas de que eles fossem conseguir. Então, nossa abordagem do assunto foi menos exigente do que deveria ter sido.”

A crise diplomática provocada pela rejeição da Casa Branca à Declaração de Teerã é o lado mais visível do episódio, mas o que mais marcou a memória dos diplomatas norte-americanos é outra coisa. Spektor explica: “Eles estão acostumados a ter várias crises como essa todo ano. É o tipo de problema que ocorre, quando se está jogando na liga dos grandes. O que de fato os constrange, e que eles até hoje se esforçam para explicar, é o erro que cometeram com a carta de Obama.” James Jeffrey, um dos principais operadores da política de George Bush para o Oriente Médio, é explícito a esse respeito. Naquele momento, Jeffrey era embaixador dos Estados Unidos na Turquia. Ele conta que hesitou ao receber a missão de encaminhar a carta a Erdoğan. “O que estava escrito ali não era o que eu tinha ouvido de Einhorn e da secretária Clinton. Então eu liguei para Washington e perguntei, ‘Tem algo errado acontecendo? Isso aqui não parece a carta correta. E eu recebi uma resposta dizendo: ‘É uma instrução formal, checada em Washington. Entregue.’”

A carta, obviamente, acabou dando a Lula e Erdoğan um sinal verde para avançar nas conversas com o Irã. Agora, eles podiam dizer aos iranianos que, se voltassem à mesa, os Estados Unidos também o fariam. Crítico da política externa de Obama, James Jeffrey avalia que, sem a carta, pelo menos a Turquia, aliada dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), não teria tentado progredir na negociação com Teerã. Com a carta, “eles avançaram as discussões e, enquanto pareciam descrentes da agressividade do Ocidente em relação ao Irã, podiam dizer que não estavam desagradando os norte-americanos”. Já Lula, na opinião de Jeffrey, não tinha nada a perder, com ou sem carta. “Ele não estava em perigo, caso algo ocorresse. Lula tinha seu próprio petróleo. Aliás, quanto mais as coisas fossem mal no Oriente Médio, maior o preço do óleo. Ele podia arcar com uma política externa que era 100% terceiro-mundismo e ‘obamismo’”, disse ele, referindo-se à proposta de Obama de incorporar os países emergentes na gestão da ordem global. Einhorn vai além, e diz que consegue imaginar uma conversa em que Celso Amorim diz o seguinte para Ahmet Davutoğlu: “Ahmet, o que você acha? Você acha que os americanos vão ter que engolir isso? Veja, é a proposta deles, vai parecer que eles estão recuando da própria proposta. Ao final, eles vão ter que engolir. E, você sabe, como eles não estão ganhando muita tração mesmo, Obama até pode surfar no acordo e cantar vitória.”

Na verdade, um diálogo muito parecido com a imaginação de Einhorn efetivamente aconteceu em Moscou, no final de abril de 2010, durante um jantar entre Celso Amorim e o chanceler russo Sergey Lavrov, testemunhado por alguns assessores. Um dos comensais contou aos pesquisadores, sob reserva, que o russo questionou Amorim sobre o mal-estar que a posição brasileira causara na secretária de Estado. “A Hillary está muito chateada com você”, disse Lavrov. Amorim, então, respondeu. “Eu sei. Mas eu vou conseguir, e quando eu conseguir, eles vão ter que nos engolir.”

O propósito de Brasil e Turquia era evidente também para outros assessores-chave do governo norte-americano. Para Daniel Poneman, subsecretário de energia de Obama, “eles basicamente estavam tentando entrar, fazer as coisas a seu modo, serem heróis ou coisa que o valha. Não me pareceu que estivessem motivados para resolver um problema ou para aplicar pressão sobre os iranianos”. Richard Nephew, um dos auxiliares mais graduados de Hillary Clinton para a questão iraniana, resume assim o entendimento reinante no Departamento de Estado: “Eles viram os sinais que queriam ver, e desconsideraram detalhes que não acharam muito importantes.” Em entrevista a Spektor, Amorim não deixou de dar certa razão a Nephew. “Certamente percebemos que nossa insistência tornaria as coisas mais difíceis”, disse ele. “Mas como os americanos poderiam retaliar, se estávamos tentando negociar a sério? Talvez tenhamos confiado demais que não haveria retaliações”, completou Amorim, referindo-se às sanções impostas ao Irã.

Dias antes de Lula iniciar o giro internacional que o levaria a Teerã, Hillary Clinton telefonou para Celso Amorim. Pediu ao chanceler brasileiro que convencesse Lula a não ir ao Irã. Como Amorim resistisse, ela afirmou que, se quisesse mesmo um acordo, Lula teria de convencer os iranianos, não a expatriar 1,2 mil kg de urânio, mas a parar completamente de enriquecê-lo. Amorim, então, sacou o coringa da manga. “Isso não estava na carta do seu presidente.” Clinton foi obrigada a se calar. Lula, obviamente, soube do apelo da secretária de Estado, mas, como o que valia era a palavra escrita de Obama, ele o ignorou. Estava claro, portanto, que tanto Lula quanto Amorim receberam sinais de que havia uma resistência norte-americana ao acordo, mas escolheram manter a leitura da carta de Obama ao pé da letra.

Os brasileiros, porém, não acompanhavam todos os movimentos do teatro internacional. Não sabiam, por exemplo, que Rússia e China, no exato momento em que Lula decolava rumo a Teerã, já estavam revisando a minuta da proposta de sanções contra o Irã no âmbito do Conselho de Segurança. No início de abril, antes de se encontrar com Lula em Washington, Obama esteve com o presidente russo, Dmitri Medvedev, em Praga. Em troca de aplicar sanções contra o Irã, Obama ofereceu apoio a novas iniciativas de cooperação nuclear entre os dois países e a suspensão de sanções contra empresas russas. Para quebrar a resistência da China às punições ao Irã, os norte-americanos também convenceram a Arábia Saudita a garantir a venda de petróleo aos chineses, caso perdessem o fornecimento iraniano.

Em Brasília, Lisa Kubiske, encarregada de negócios da Embaixada dos Estados Unidos, estava alarmada com a incapacidade da diplomacia brasileira de perceber a relevância que os assuntos do Oriente Médio tinham para o Ocidente. Em seus telegramas secretos para Washington, ela retratava o descompasso entre as expectativas norte-americanas e as atitudes do Brasil. Desde o início de seu mandato, Lula vinha conduzindo o que ele e Amorim chamavam de política externa altiva, que visava transformar o Brasil em protagonista mundial. Um dos pilares dessa estratégia era a aproximação com o Oriente Médio. E poucas coisas poderiam projetar mais o Brasil do que participar do processo de paz da região.

Celso Amorim, cumprindo esse plano, fez diversas visitas à Síria. Lula esteve na Líbia de Muammar Kadafi. Foi a Israel para se encontrar com Netanyahu. No Brasil, recebeu alguns dos principais líderes israelenses e palestinos. Na gestão de George Bush, o filho, chegou a ser convidado a participar das reuniões sobre o processo de paz nos Estados Unidos. A estratégia impulsionou os negócios de “campeões nacionais”, como a JBS, a WEG e a Petrobras, no Oriente Médio. Em que pesem esses avanços, Lisa Kubiske escreveu o seguinte, em um de seus telegramas confidenciais: “Apesar dos crescentes contatos e dos poucos especialistas em Oriente Médio no Itamaraty, o governo brasileiro como um todo ainda não compreende totalmente a dinâmica regional e multilateral entre o Irã e seus vizinhos.” E concluiu: “Seu frenético esforço para alcançar todos os atores da região aumenta o potencial de erros e mal-entendidos.”

Nas escalas da viagem que o levaria até Teerã, Lula continuou recebendo recados enviados pelos Estados Unidos. Na primeira parada, em Moscou, o brasileiro ouviu do presidente russo, Dmitri Medvedev, que Obama lhe pedira para convencê-lo a cancelar a visita a Teerã. “Obama disse que estava feia a coisa, que nós não poderíamos tentar o Ahmadinejad, que ele estava mentindo. Sarkozy também falou várias vezes”, lembrou Lula, que diz ter respondido o seguinte para Medvedev: “Eu vou conversar com todo mundo, querido. Estou convencido de que nós vamos trazer esse negócio aqui, tal como achamos que deveria ser.” Na entrevista coletiva que deram juntos após a reunião, um jornalista perguntou ao russo quais as chances de sucesso do Brasil em arrancar um acordo do Irã. Medvedev respondeu que eram de 30%. Lula ficou bravo e, depois da entrevista, chamou a atenção do colega russo. “Medvedev, caralho, 30% não é otimismo! Eu tenho 99% de otimismo de que nós vamos fazer o acordo. Vai ser motivo de sorriso lá de todo mundo.”

Logo depois, quando Lula desembarcou no Catar, o emir Hamad bin Khalifa al-Thani tentou a mesma abordagem. Segundo Lula, o emir lhe disse o seguinte: “A secretária de Estado me ligou e pediu para eu tentar convencê-lo a não ir ao Irã, porque ela acha que o senhor está sendo enganado. Aliás, Hillary me disse que o senhor é ingênuo.” Deu-se uma confusão perfeita. A diplomacia norte-americana não dizia claramente que não apoiaria mais o acordo nos termos de 2009, até para não contrariar abertamente a carta de Obama, e os brasileiros achavam que a reticência norte-americana vinha apenas da suspeita de que Lula estava sendo ludibriado pelos iranianos – suspeita que Lula, movido por sua autoconfiança, achava que não fazia sentido.

A Declaração de Teerã conseguiu produzir um raro consenso entre republicanos e democratas – contra o Brasil. “Me avisaram que o acordo tinha saído. Quando liguei a tevê, estavam os três, de punhos levantados”, relembra o embaixador James Jeffrey. “Uma das coisas que perturbou Washington foi o apoio efusivo [à ditadura iraniana] de Lula e Erdoğan, ungidos pela modinha terceiro-mundista que tinha como alvo habitual os Estados Unidos. Ahmadinejad era um mestre nisso. E eles estavam todos comemorando. Não foi muito palatável para Washington.” R. Scott Kemp, assessor de Hillary Clinton para assuntos nucleares, disse aos pesquisadores que, entre seus colegas diplomatas, comentava-se que a declaração “parecia uma carta ditada pelo Irã”. Não faltou quem achasse que Ahmadinejad e companhia haviam aceitado o acordo porque já sabiam que os Estados Unidos estavam prontos para retaliar o Irã com sanções. “Vimos aquilo como um ato hostil da parte de turcos e brasileiros, num esforço para driblar as sanções que iríamos propor”, disse Einhorn. O que mais se dizia na diplomacia norte-americana, naqueles dias, era que os iranianos tinham usado o Brasil e a Turquia para se “desviar do soco” – ou seja, das sanções.

Os chanceleres Davutoğlu e Amorim, no entanto, rechaçam a tese. Segundo eles, os iranianos realmente queriam um acordo, e os norte-americanos subestimaram a capacidade de negociação do Brasil e da Turquia. “Eles estavam falando sério”, afirma o chanceler brasileiro. “Há que se lembrar que muita gente no Irã era contra o acordo, e achava uma traição as concessões que o regime dos aiatolás estava fazendo.” Davutoğlu sustenta o mesmo argumento. “Nós decidimos correr o risco porque eu conhecia a mentalidade deles. Eu avaliei a situação e concluí que havia, de fato, uma chance de sucesso. E estava confiante de que todos aprovavam nossa atuação.”

Assim que tiveram conhecimento da Declaração de Teerã, Nephew e Einhorn fizeram uma teleconferência de emergência com diplomatas a partir de Washington. Em sua entrevista, Nephew rememorou: “Havia uma série de assessores reunidos e a pergunta foi: Isso resolveu nossos problemas? A resposta foi: ‘Não.’ O.k., então esqueçam, vamos continuar [com as sanções]. Foi uma decisão rápida, e uma das coisas que decepcionou turcos e brasileiros foi termos rejeitado o acordo em menos de 24 horas.” No dia seguinte, numa entrevista coletiva, o porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, fez aquela pergunta sobre a existência de “substância nesse pedaço de papel”.

Brasil e Turquia se opuseram desde o início às sanções contra o Irã, e votaram contra elas no Conselho de Segurança. “Quando aprovaram a punição ao Irã, depois do acordo, fiquei muito puto”, resumiu Lula. Apesar de tudo, a objeção norte-americana, segundo a qual o acordo não podia ter preservado o direito do Irã de produzir e usar energia nuclear, não prevaleceu no mundo diplomático. Ao contrário. “Esse princípio é tão básico que está no coração do acordo que Obama fez com os próprios iranianos em seu segundo mandato”, diz Spektor. Em 2015, os Estados Unidos fecharam um acordo com o Irã. Na época, já mais próximo do fim do seu governo, Obama sentia-se livre das pressões eleitorais. O Irã, sacudido pela Primavera Árabe, elegera um novo presidente, o clérigo moderado Hassan Rouhani. O acordo, assinado em julho daquele ano, previa que o Irã reduziria gradualmente sua quantidade de centrífugas nucleares e reservas de urânio, e se submeteria a verificações permanentes da Agência Internacional de Energia Atômica, mas preservaria seu direito à energia nuclear. Para completar, Obama foi criticado pelo mesmo motivo pelo qual, anos antes, seu governo atacara os brasileiros e os turcos: firmou um acordo baseado na crença de que as condições seriam cumpridas no futuro, e não em concessões concretas no presente.

Para Spektor, a ingenuidade dos brasileiros e turcos foi supor que, depois de tanto tempo trabalhando por sanções, firmando compromissos e assimilando desgastes, Washington fosse desistir por causa do gesto dos iranianos. As negociações norte-americanas em favor das sanções não eram públicas, mas também não eram secretas. A diplomacia brasileira, mesmo que não conhecesse os detalhes, sabia que as tratativas estavam se desdobrando. Mas achou que era um dado irrelevante. Nas entrevistas, assessores de Obama e Clinton foram unânimes em afirmar que a chance de um recuo dos Estados Unidos sobre as sanções, naquele momento, era nula. Segundo John Limbert, um dos maiores especialistas em Irã do Departamento de Estado na época, chegou-se a um ponto em que a decisão já não tinha mais nada a ver com o Irã. “Parecia que estávamos naquela cena do maravilhoso filme de Monty Python, A Vida de Brian. Eles se reúnem para discutir a libertação da Judeia, no front da guerra. Alguém pergunta: ‘Bem, mas e os romanos?’ E o outro responde: ‘Não estamos nem aí para os romanos.’”

O curto-circuito provocado pela Declaração de Teerã minou a crença, até então disseminada na diplomacia norte-americana, de que as grandes potências precisavam incorporar os emergentes para bem gerir a ordem global. A premissa, forjada na esteira da crise de 2008, levara ao fortalecimento do G-20, organismo que abriu as portas para países menos centrais, e estava no coração do que James Jeffrey chamou de “obamismo”. Depois do episódio, os norte-americanos voltaram novamente sua atuação ao pequeno clube das grandes potências e passaram a rejeitar intermediários em negociações sensíveis, como as do Oriente Médio. “Falo por mim. Sempre que perguntam, eu respondo que ninguém deseja novamente o que aconteceu em 2009 e 2010”, afirma Richard Nephew.

Brasileiros e turcos tiraram do fracasso em Teerã a conclusão de que, no fundo, as grandes potências nunca estiveram interessadas em incluir os países emergentes. “O Brasil era um país terceiro-mundista, se metendo numa área que os norte-americanos achavam que era só deles, da Rússia, da China ou sei lá de quem, mas que não cabia o Brasil”, afirma Lula. O chanceler Davutoğlu tem o mesmo diagnóstico. “O P-5 [o grupo das cinco maiores potências militares do mundo] é uma casta. Apesar de discordarem em muitas coisas e estarem sempre brigando, eles concordam numa coisa: em manter seu próprio status especial”, disse Davutoğlu em entrevista a Spektor e Joshua Baker, da Universidade de Leicester. “Eles se unem contra qualquer ator que possa ameaçar a estrutura oligárquica da ordem internacional.”

Na avaliação de Spektor, a Declaração de Teerã deixou outra lição importante que até hoje não foi bem assimilada. Para ser protagonista na geopolítica internacional, é preciso investir no que ele chama de infraestrutura diplomática – no preparo e no acesso a informações de inteligência mais completas e sofisticadas. “Amorim e Lula foram grandes negociadores, mas no jogo das potências isso não basta. Exatamente porque é um clube, se você quer entrar, precisa pagar para ser membro e aprender a jogar segundo as regras – formais e informais. Uma delas é que você não lança uma iniciativa diplomática sem massa crítica, para ser capaz de compreender o que o outro lado está fazendo nos bastidores. Na diplomacia, ser pego de surpresa custa caro.”

Depois de Teerã, o Brasil se distanciou da Europa e dos Estados Unidos, deixou de ser visto como um país construtor de pontes e passou a ser encarado como um agente desestabilizador – exatamente o oposto do que Lula e Amorim pretendiam, ao entrar no xadrez geopolítico. A relação com Israel ficou machucada. Em 2014, quando Dilma Rousseff chamou de volta o embaixador brasileiro em Tel-Aviv, em protesto contra ataques a palestinos na Faixa de Gaza, o governo de Netanyahu emitiu uma nota classificando o Brasil como “anão diplomático”. A guinada radical promovida pelo presidente Jair Bolsonaro, que trocou a ambição de altivez pela vassalagem ao governo norte-americano, só piorou a posição internacional do país. Spektor resume: “O Brasil abriu mão de uma política externa altiva sem conseguir em retorno nada do que almejava. Bolsonaro não conseguiu montar uma coalizão dos países de direita latino-americanos. Não conseguiu liderar a denúncia contra o chavismo na região. E não conseguiu sequer traduzir a excelente química pessoal com Donald Trump numa parceria sustentável.”


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Foi repórter da piauí. É autora de A Organização: A Odebrecht e o Esquema de Corrupção que Chocou o Mundo (Companhia das Letras)