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CATARSE LISÉRGICA

Blocos de bate-bolas fazem o Carnaval do funk e da rebelião no Rio de Janeiro

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Para além dos desfiles no Sambódromo e dos blocos da Zona Sul, uma renovação estética vem ocorrendo nos últimos anos no Carnaval do Rio de Janeiro, nos subúrbios da cidade. Embalados pelo funk (e não pelo samba ou pela marcha-rancho), foliões em bairros das regiões Norte e Oeste surpreendem por sua inventividade e potência visual e política. Eles têm sido observados de perto pelo fotógrafo francês Vincent Rosenblatt, que vive e trabalha entre o Rio e Paris.

Rosenblatt é um sujeito atento ao que acontece nas bordas da cidade, às festas nas lajes das favelas e aos paredões do funk. No Carnaval de 2007, foi convidado para assistir à saída de um grupo de bate-boleiros da comunidade do Muquiço, no bairro de Guadalupe, na Zona Norte. Não deixou mais de seguir as turmas desse movimento, registrando com dedicação e disciplina as mudanças por que têm passado em suas disputas e códigos. “É um canteiro de longo prazo”, diz o fotógrafo à piauí.

Supõe-se que os bate-bolas surgiram em Santa Cruz, bairro na Zona Oeste do Rio, na década de 1930. Foliões apareceram vestidos com roupas bufantes e máscaras à maneira dos clowns (palhaços), que, abrasileirados, ganharam o nome “Clóvis”. Traziam nas mãos bexigas bovinas que sobravam do grande matadouro da cidade e eram infladas de ar – daí o nome “bate-boleiros”. Mais tarde, as bexigas foram substituídas por balões de aniversário.

Nos anos 1930, Santa Cruz abrigava imigrantes europeus que trabalhavam na construção de uma ferrovia ligando o Rio a Mangaratiba e no hangar do dirigível alemão Zeppelin, inaugurado ali em 1936. Segundo os pesquisadores Nilson Gonçalves Gama Junior e Priscila Andrade Silva, foram os alemães que trouxeram as máscaras teladas em arame, pintadas com a imagem do personagem e com furos nos olhos e no nariz, o que impedia o reconhecimento de quem as usava.

A saída do grupo de bate-boleiros é o grande momento, e o mais esperado. Quando explodem os fogos de artifício, o pancadão dispara a adrenalina, e os mascarados avançam pelas ruas, tomando conta da comunidade com seus figurinos extravagantes, batendo no chão os balões. Anônimos, os Clóvis se expressam com ousadia e força, chegando até mesmo ao transe, no apogeu da festa.

Há cerca de mil grupos de bate-bolas espalhados pela cidade, reunindo de três a trezentos integrantes (o número de participantes ajuda no efeito de apavoramento). Ao longo do ano, eles pagam pelos fogos de artifício e as caixas de som que tocam hinos do funk remixados para cada núcleo, no dia da festa. Costureiras, desenhistas, estamparias e confecções também entram em ação, seguindo as orientações do “cabeça” do grupo, que desenvolve o enredo – como os carnavalescos das escolas de samba. Para os temas, recorrem à mitologia grega, ao cinema, aos contos de fada, aos mitos da cultura de massa, à iconografia pop e à história do Brasil.

O estilo “pós-tudo” dos figurinos dos novos Clóvis parte do que seria um arlequim ou um palhaço tradicional para incluir diferentes influências, desde o maracatu até o grafite e as histórias em quadrinhos (nas estampas), resvalando, por seus excessos, em uma espécie de barroco-pop e no imaginário camp. Dentre os tipos de fantasia estão o bate-bola modelo (mais básico) e o grandioso bate-bola de capa e o tipo bujão (com bastante volume). Elas costumam ser compostas por uma casaca ou bolero, pelo macacão, a “lycra”, que é a luva e a meia-calça para cobrir as pernas, os sapatos customizados ou os tênis da hora. Os acessórios são sombrinhas, bichos de pelúcia e estandartes que anunciam o tema do ano em cada grupo.

O importante é causar impacto visual (alguns looks chegam a contar até com placas de LED) e surpreender as turmas rivais, uma vez que provocar inveja na concorrência faz parte da brincadeira. Zoar da fantasia alheia, no melhor estilo carioca, também. Purpurinas, paetês e brilhos, metros e metros de tecido, criatividade e muita cor são as armas dessas batalhas. É uma folia para deixar louco qualquer fashionista que se preze.

O visual completo provoca um intenso crash de referências, padronagens, cores e bordados. E tudo inebria os sentidos: a mistura doida de elementos nas fantasias, o cheiro doce e forte do aroma de morango ou baunilha vaporizado nas roupas, o gestual e o ritmo. Impacto que se acentua quando os bate-boleiros assumem o protagonismo de sua festa, alheios aos formatos mais padronizados do Carnaval, renovando o convite à rebelião e à anarquia.

Rosenblatt capta com paixão e respeito o transbordamento de vitalidade e fantasia que ocorre nessas manifestações, buscando entender o que significam, para além do Carnaval. “A agressividade teatralizada e simbólica das turmas é da ordem do simulacro. São catarses da violência real que atravessa a cidade e o país. Soam como o princípio de uma revolta ou de uma revolução que tomaria as ruas”, afirma o fotógrafo sobre a série Bate-Bola Carnaval Secreto, da qual a piauí publica um conjunto de imagens. “O poder de atração da cultura é um ímã irresistível para toda a pirâmide social das favelas e do asfalto de regiões inteiras do Rio de Janeiro.”

Nos últimos três anos, Rosenblatt passou a contar com a ajuda de um assistente para iluminação extra e de um motorista (um ex-bate-boleiro que costura espertamente entre os bairros para pegar até três saídas por noite). Ele se faz presente na festa, não como fotojornalista, mas na condição de testemunha e cúmplice do momento. “Em termos de fotografia, o que me interessa é a transcendência que acontece na saída, essa energia, a incorporação do personagem, quase de uma entidade”, diz. O fotógrafo compara a inventividade desses blocos com a de artistas plásticos: “Os parangolés de Hélio Oiticica ou as instalações de Ernesto Neto são trabalhos nos quais o espectador tem que entrar e interagir. Essa é uma característica da arte brasileira, inspirada na essência da arte do povo, que não é folclore nem algo engessado, reinventando-se a cada ano, numa diversidade louca. É um povo de artistas, de artistas de rua.”

Marginalizados e até criminalizados, os bate-bolas têm um passado de rebeldia e já foram muito perseguidos pela polícia. Agora, com seus looks lisergicamente sombrios, assustadoramente festivos, misturando o Carnaval e o pancadão, eles recriam a folia e buscam por meio da arte e do êxtase dar novo significado ao seu território: as ruas.

Na margem de um canal no bairro de Oswaldo Cruz, foliões desfilam em 2017 o estandarte da humildade da turma Havita, uma das mais antigas da cena carioca Na margem de um canal no bairro de Oswaldo Cruz, foliões desfilam em 2017 o estandarte da humildade da turma Havita, uma das mais antigas da cena carioca Bate-bola da turma União de Rocha Miranda, no encontro de Clóvis da terça-feira de Carnaval, em 2019, na Cinelândia, no Centro do Rio Bate-bola da turma União de Rocha Miranda, no encontro de Clóvis da terça-feira de Carnaval, em 2019, na Cinelândia, no Centro do Rio Bate-bola da turma Os Danados, de Marechal Hermes, na Zona Norte, leva a folia até o telhado de uma casa, em 2020 Bate-bola da turma Os Danados, de Marechal Hermes, na Zona Norte, leva a folia até o telhado de uma casa, em 2020 O Clóvis apocalíptico da turma Havita espalha susto e euforia pelo bairro de Oswaldo Cruz, no Carnaval de 2018 O Clóvis apocalíptico da turma Havita espalha susto e euforia pelo bairro de Oswaldo Cruz, no Carnaval de 2018 O êxtase de Alex, da turma União de Rocha Miranda, da Zona Norte, no Carnaval deste ano, que os bate-bolas festejaram em fevereiro, e não em abril, como definiu a prefeitura O êxtase de Alex, da turma União de Rocha Miranda, da Zona Norte, no Carnaval deste ano, que os bate-bolas festejaram em fevereiro, e não em abril, como definiu a prefeitura Integrantes da turma Jagatá, de Madureira, na Zona Norte, durante a folia não autorizada do mês de fevereiro passado Integrantes da turma Jagatá, de Madureira, na Zona Norte, durante a folia não autorizada do mês de fevereiro passado Bate-bolas da turma Destruição esquentam a festa de saída do grupo Animação, no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste, no Carnaval deste ano Bate-bolas da turma Destruição esquentam a festa de saída do grupo Animação, no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste, no Carnaval deste ano Michael Jackson nas estampas da turma Chapa Quente, do bairro de Oswaldo Cruz, neste ano Michael Jackson nas estampas da turma Chapa Quente, do bairro de Oswaldo Cruz, neste ano 56 A turma TBL, de Santíssimo, bairro da Zona Oeste, evocou neste ano a escrava Anastácia, cultuada por umbandistas e católicos, para contar a luta pela abolição 56 A turma TBL, de Santíssimo, bairro da Zona Oeste, evocou neste ano a escrava Anastácia, cultuada por umbandistas e católicos, para contar a luta pela abolição Wallace, folião da turma Estrelas do Muquiço, da favela de mesmo nome na Zona Oeste, durante os festejos de fevereiro passado no bairro Santíssimo Wallace, folião da turma Estrelas do Muquiço, da favela de mesmo nome na Zona Oeste, durante os festejos de fevereiro passado no bairro Santíssimo Na margem de um canal no bairro de Oswaldo Cruz, foliões desfilam em 2017 o estandarte da humildade da turma Havita, uma das mais antigas da cena carioca Na margem de um canal no bairro de Oswaldo Cruz, foliões desfilam em 2017 o estandarte da humildade da turma Havita, uma das mais antigas da cena carioca Bate-bola da turma União de Rocha Miranda, no encontro de Clóvis da terça-feira de Carnaval, em 2019, na Cinelândia, no Centro do Rio Bate-bola da turma União de Rocha Miranda, no encontro de Clóvis da terça-feira de Carnaval, em 2019, na Cinelândia, no Centro do Rio Bate-bola da turma Os Danados, de Marechal Hermes, na Zona Norte, leva a folia até o telhado de uma casa, em 2020 Bate-bola da turma Os Danados, de Marechal Hermes, na Zona Norte, leva a folia até o telhado de uma casa, em 2020 O Clóvis apocalíptico da turma Havita espalha susto e euforia pelo bairro de Oswaldo Cruz, no Carnaval de 2018 O Clóvis apocalíptico da turma Havita espalha susto e euforia pelo bairro de Oswaldo Cruz, no Carnaval de 2018 O êxtase de Alex, da turma União de Rocha Miranda, da Zona Norte, no Carnaval deste ano, que os bate-bolas festejaram em fevereiro, e não em abril, como definiu a prefeitura O êxtase de Alex, da turma União de Rocha Miranda, da Zona Norte, no Carnaval deste ano, que os bate-bolas festejaram em fevereiro, e não em abril, como definiu a prefeitura Integrantes da turma Jagatá, de Madureira, na Zona Norte, durante a folia não autorizada do mês de fevereiro passado Integrantes da turma Jagatá, de Madureira, na Zona Norte, durante a folia não autorizada do mês de fevereiro passado Bate-bolas da turma Destruição esquentam a festa de saída do grupo Animação, no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste, no Carnaval deste ano Bate-bolas da turma Destruição esquentam a festa de saída do grupo Animação, no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste, no Carnaval deste ano Michael Jackson nas estampas da turma Chapa Quente, do bairro de Oswaldo Cruz, neste ano Michael Jackson nas estampas da turma Chapa Quente, do bairro de Oswaldo Cruz, neste ano 56 A turma TBL, de Santíssimo, bairro da Zona Oeste, evocou neste ano a escrava Anastácia, cultuada por umbandistas e católicos, para contar a luta pela abolição 56 A turma TBL, de Santíssimo, bairro da Zona Oeste, evocou neste ano a escrava Anastácia, cultuada por umbandistas e católicos, para contar a luta pela abolição Wallace, folião da turma Estrelas do Muquiço, da favela de mesmo nome na Zona Oeste, durante os festejos de fevereiro passado no bairro Santíssimo Wallace, folião da turma Estrelas do Muquiço, da favela de mesmo nome na Zona Oeste, durante os festejos de fevereiro passado no bairro Santíssimo

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É jornalista, curadora e gerente de comunicação e design do MAM Rio. Autora de Babado Forte (Mandarim) e A Moda (Publifolha)

É fotógrafo e artista visual