diário
Madeleine Schwartz Jul 2022 14h33
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Tradução de Rogério Galindo
Por volta das nove da noite do dia 13 de novembro de 2015, um homem se explodiu do lado de fora do Stade de France, em Saint-Denis, nos arredores de Paris. Até os jogadores em campo – um amistoso entre as seleções da Alemanha e da França – sentiram o impacto. Era o início de uma série de atentados na capital francesa, que atingiram restaurantes, cafés e o Bataclan, a casa de espetáculos em que se apresentava uma banda norte-americana de rock, o Eagles of Death Metal. Ao todo, os ataques, reivindicados pelo Estado Islâmico, deixaram 130 mortos e mais de 490 feridos. Em setembro passado, quando começou aquele que é o maior julgamento da história da França – 20 acusados: 14 presentes no tribunal e 6 julgados à revelia –, a jornalista MADELEINE SCHWARTZ passou a acompanhar as audiências com seu bloco de anotações. Este é o seu relato.
Na França, as transcrições de julgamentos não são permitidas. É ilegal gravar ou filmar os procedimentos no tribunal. O que acontece ali permanece restrito aos presentes. O julgamento dos homens acusados de atacarem Paris em 2015 é o 13º na história francesa para o qual se abrirá uma exceção. Na noite dos atentados, quase sete anos atrás, terroristas atacaram o Stade de France, uma série de bares localizados nos 10º e 11º arrondissements de Paris e o Bataclan. Foi o ataque mais sangrento em solo francês desde a Segunda Guerra Mundial. A filmagem estará disponível em 2072.
Desde setembro, tenho ido a uma sala especialmente construída no Palácio de Justiça, perto da Catedral de Notre-Dame, ou a uma pequena sala do outro lado do hall de mármore, onde os jornalistas acompanham os trabalhos da corte, disparam tuítes e produzem suas reportagens diárias. A sala do julgamento tem capacidade para 550 pessoas e frequentemente fica lotada: a maioria dos presentes é sobrevivente dos ataques. A sala é de madeira, com nichos onde podem ser vistas estátuas que simbolizam a justiça e a eloquência. Na frente, há um estrado de onde os juízes presidem as sessões. À esquerda deles, ficam três promotores públicos. À frente, no nível do solo, há longas filas de assentos para os muitos advogados. Onze homens estão sentados dentro de uma grande caixa de vidro, com mais três na frente. São os acusados. Do lado de fora da sala, uma fila de repórteres de tevê espera para captar as reações de quem deixa o tribunal.
As discussões que acontecem dentro da sala são resultado de cinco anos de investigações. O trabalho foi cuidadoso e detalhado. Mas o julgamento está sendo conduzido numa França alterada pelos ataques, um país onde questões relativas a terrorismo, religião e coesão social são frequentemente confusas e debatidas com pouco apreço pelos fatos. Nesta sala, naqueles dias em que as descrições de violência extrema resvalaram para a arrogância, eu me perguntei se o tribunal pode deixar de lado o que está acontecendo fora dele. A França é capaz de julgar o terrorismo quando o terrorismo está transformando seu sistema político?
8 DE SETEMBRO DE 2021, QUARTA-FEIRA_O clima no primeiro dia é de empolgação. O julgamento já é histórico. Certamente, vai mostrar aos terroristas que a democracia francesa não se acovardou diante da violência. Sua importância está clara em suas dimensões: há mais de 330 advogados representando mais de 2 mil vítimas.
A polícia está removendo o plástico das câmeras de segurança distribuídas ao longo de todo o extenso corredor que leva ao tribunal. Os repórteres estão enfileirados do lado de fora da porta. As cores dos cordões dos crachás indicam o status de cada um. As vítimas que desejam falar com a imprensa usam cordões verdes, as que não querem, vermelho. Os advogados têm cordões pretos. Os cordões dos jornalistas são laranja e trazem o nome de sua publicação.
Os advogados falarão diante de um painel de juízes sob a liderança de Jean-Louis Périès, um homem de rosto redondo que comanda o tribunal como se fosse um avô sentado à cabeceira da mesa de jantar. Ele passou o último ano preparando os 542 volumes de material que a corte tem sobre o caso.
Dos homens-bomba que viajaram para Paris no dia dos ataques, apenas um, Salah Abdeslam, ainda está vivo. Ele participou dos ataques com seu irmão Brahim, mas o colete que vestia não explodiu. Ele escolheu não explodir a si mesmo ou houve uma falha técnica? Durante os últimos cinco anos, Abdeslam, agora com 32 anos, esteve preso numa solitária. Ele permaneceu quase completamente em silêncio. Alguns dos homens, como Osama Krayem, cidadão sueco, já apareceram em propagandas do Estado Islâmico e são acusados de ter planejado os ataques. O envolvimento dos demais réus é mais nebuloso. Um é acusado de ter fornecido documentos falsos. Outro, de ter fornecido armas.
Sete terroristas se explodiram durante o ataque, ou foram mortos pela autoexplosão de outro terrorista. Um fez o mesmo durante um ataque próximo a Paris, matando um segundo terrorista. Cinco outros envolvidos podem ter sido mortos por ataques da coalizão na Síria [a frente formada por Estados Unidos, Reino Unido e França para assessorar as Forças Democráticas Sírias] e estão sendo julgados à revelia.
16 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA_Quando jornalistas falam sobre o 13 de novembro, costumam se concentrar no ataque ao Bataclan. Raramente mencionam o Stade de France ou os bares nos populares 10º e 11º arrondissements. Entre as primeiras pessoas a depor estavam os investigadores que chegaram aos locais do crime, começando com um agente secreto que foi para o estádio. O atentado foi planejado para a noite, quando o estádio estaria cheio: Alemanha x França, com a presença do presidente François Hollande. Os terroristas estavam vestidos como torcedores do Bayern de Munique. Mas nenhum deles conseguiu entrar no estádio. Eles se atrasaram e não tinham ingressos. Então, explodiram seus coletes-bomba do lado de fora, matando a si próprios e uma pessoa próxima. Por que não compraram os ingressos antes? Não é a primeira vez que me pego pensando se o julgamento conseguirá responder a todas as questões que irá levantar.
17 DE SETEMBRO, SEXTA-FEIRA_Patrick Bourbotte, um policial careca que investigou o ataque ao Bataclan, pede permissão para deixar aflorar suas emoções durante seu depoimento.
“Quando entramos”, diz ele, “a atmosfera era impressionante, sombria. Parecia uma catedral. Os corpos estavam entrelaçados. Nunca vimos nada igual. Andamos pisando em sangue coagulado. Sentimos dentes debaixo dos nossos pés, telefones vibrando, famílias ligando. Havia bolsas e corpos, corpos, corpos. Andamos até o palco, onde nos disseram que o corpo do kamikaze havia explodido. Havia sangue e carne por todo lugar, nas paredes e no teto.”
Ele descreve o telefone de um dos terroristas, encontrado do lado de fora, no Boulevard Voltaire. Sua mensagem final dizia: “Estamos partindo, estamos começando.”
Debaixo de um assento no teatro, havia um pequeno gravador, diz ele. Alguém estava gravando o show. Ele põe um trecho da gravação no áudio. No momento do ataque, a banda Eagles of Death Metal estava tocando uma música chamada Kiss the Devil (Beije o Diabo). Os terroristas abriram fogo e, entre rajadas de tiros, falaram para a multidão: “Por que estamos fazendo isso? Vocês estão bombardeando nossos irmãos na Síria, no Iraque. Por que estamos aqui? Viemos fazer o mesmo com vocês. […] Os soldados franceses e americanos nos bombardeiam pelo ar. Nós bombardeamos daqui, do chão. Não precisamos de aviões. É isso. Agradeçam ao seu presidente, François Hollande.”
Bourbotte diz ter encontrado pedaços de corpos por toda a casa de shows: algumas vítimas foram abatidas, outras ficaram mutiladas por rajadas de metralhadora. Os ferimentos eram tão graves que alguns policiais pensaram que as vítimas haviam sido cortadas à faca.
20 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_O primeiro policial a chegar ao restaurante Belle Équipe se desculpa pela “linguagem fria e desumana. […] Neste contexto, linguagem profissional pode parecer inadequado”.
Ele mostra ao tribunal um slide detalhando onde os corpos foram encontrados na rua, e lê os nomes das vítimas e onde elas foram atingidas:
Silhueta A, perto da árvore, é o corpo de Romain Feuillade, que foi ferido no pescoço, abdômen e peito.
Silhueta B é Marie-Aimée Dalloz. Ferida no pescoço.
A figura seguinte é de Thierry Hardouin, encontrado caído de costas.
Os advogados dos enlutados fazem perguntas. Alguns querem saber como as vítimas morreram. Onde foram feridos, exatamente?
Pelo modo como o sistema jurídico francês é organizado, os sobreviventes e as famílias das vítimas, as “partes civis”, são como que assistentes da acusação. Alguns dos 2 mil assistentes foram feridos, outros perderam amigos ou parentes. O Bataclan e a cidade de Paris também pediram para fazer parte da acusação. O número de assistentes aumenta mês a mês, e os advogados continuam tentando ampliar a definição. (A certa altura, há uma tentativa de incluir os yazidis mortos pelo Estado Islâmico. Isso é rejeitado.)
Às vezes, por causa do número de integrantes da acusação, as audiências são consumidas por advogados tentando garantir aos seus próprios clientes que seus interesses sejam representados.
O público só pode acompanhar o julgamento na pequena sala de retransmissão ou por meio dos tuítes dos jornalistas, mas as partes e suas famílias têm acesso a uma transmissão por rádio dos procedimentos. De vez em quando, os advogados se dirigem diretamente a elas.
Nessas horas, o propósito do julgamento parece mudar. Às vezes, a Justiça é um problema técnico: a punição apropriada para uma ação específica. Mas isso rapidamente se transforma em questões mais amplas sobre terrorismo, radicalismo e a própria França. Existe um fenômeno chamado radicalização? O que leva uma pessoa a atacar civis sentados em um café? Ou, como os juízes e advogados frequentemente perguntam, por que a França?
23 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA_Um texto no Le Monde:
Mas o acúmulo de precauções, que transforma o tribunal num casulo para as vítimas, também tem seu lado negativo. Cria uma certa confusão de papéis. Será missão dos investigadores começar sistematicamente sua apresentação pedindo desculpas antecipadas pela provação que suas palavras farão ressurgir? Será função dos advogados repetir todos os dias o número de telefone do serviço de aconselhamento? Os psicólogos deveriam estar ostensivamente presentes no tribunal, em vez de manter uma presença discreta do lado de fora?
Diante dos homens na caixa de vidro que, em graus variados, são acusados de semear o terror e alguns dos quais continuam a apoiá-lo ainda hoje, esperamos que este julgamento mostre a força de nossa lei em vez de enfatizar demais nossas vulnerabilidades.
DE 28 DE SETEMBRO A 29 DE OUTUBRO_Por cinco semanas será a vez da manifestação dos que integram a acusação. Uma a uma, as pessoas vão até o banco onde se sentam as testemunhas, no centro da sala. Os depoimentos são registros de suas experiências, assim como provas para o julgamento. Périès, o presidente da corte, pergunta a elas sobre o que viram e sobre suas vidas depois dos ataques. Durante o depoimento, elas são convidadas a falar sobre o que o julgamento significa para elas. Por cinco semanas, suas histórias terríveis enchem o tribunal. Seguem alguns trechos, levemente editados:
Sophie, 38 anos:
“Lembro dos gritos deles, dos sorrisos. Lembro de pensar, ‘será que consigo achar a Síria e o Iraque no mapa?’. Lembro deles atirando em pessoas que tentavam fugir. Lembro deles sorrindo enquanto atiravam nas pessoas que tinham olhado nos olhos deles. Lembro do rapaz morrendo do meu lado. Colocamos o corpo dele sobre os nossos para nos proteger. […] Vimos pessoas com armas e pedimos que não atirassem. Mandaram a gente fugir. Depois me dei conta de que provavelmente eram policiais ou militares.”
“Encontrei um Uber que já estava ocupado. O motorista e o passageiro salvaram minha vida. […] Fui para o hospital Sainte-Anne. Fiquei lá até as três da manhã. Meu caso não era considerado sério.”
“Minha operação foi por volta das nove da manhã no dia seguinte. Antes disso, um policial apareceu. Estava incomodado que eu não tinha uma pulseira [me identificando como vítima]. Ele foi bem agressivo. As enfermeiras mandaram que ele saísse. Fiquei doze dias no hospital. Depois da segunda operação, me disseram que havia duas balas em mim. Uma que explodiu na minha panturrilha, outra na minha pélvis. Tinha que escolher se ia embora ou se fazia outra cirurgia. Preferi ir embora. Quatro dias depois era meu aniversário.”
“Eu me senti culpada por ficar viva. Fui visitar minha mãe na Provence. Quando voltei para Paris, fiquei com medo de me matarem.”
“Liguei para a linha telefônica de auxílio psiquiátrico. Desligaram o telefone porque eu chorava demais. Disseram para ligar quando estivesse mais calma. Fui conversar com um psiquiatra, mas ele dormiu. Quando acordou pediu para eu falar sobre meus avós.”
“Foi o começo de três anos de caos psicológico.”
“Um psiquiatra me disse para assistir a filmes do Chaplin.”
“Outro começava todas as sessões falando sobre o sistema de saúde francês.”
“Outra desmoronou quando expliquei por que estava lá e eu tive que confortá-la.”
Clarisse, 30 anos:
“Pensei: ‘Espero que eu consiga um reembolso.’ […] Subimos um andar, depois outro. […] Éramos cerca de cinquenta. Estávamos presos. Disse para mim mesma que seria uma merda morrer naquela sala com placas de gesso nas paredes. Lembrei de 007 contra GoldenEye [Ela contou que fez um buraco no teto suspenso]. Arranquei a fibra de vidro como louca, havia fios elétricos por todo lugar, pensei que acabaria morrendo eletrocutada. [Ela e os outros se esconderam em um espaço no teto durante várias horas].”
“Havia um homem chamado Patrick. Parecia o meu pai. Pedi que ele me segurasse. Peguei o telefone de Patrick. Foi difícil enviar mensagens de texto porque o teclado do celular estava em T9.[1] Pensei na situação de outros reféns. Lembrei do Hypercacher [um ataque a um supermercado de Paris ocorrido em janeiro de 2015]. Pensei, é a minha vez.”
Laura, 37 anos:
“Fui atingida por seis balas. Mesmo hoje, quando leio meus prontuários médicos, aquilo me choca. […] Como eu podia entender que meu corpo perderia a capacidade de se mover?”
“Tive que reaprender a respirar, beber, fazer xixi. Minha mão foi amputada.”
“Levei nove meses para aprender a andar. No começo, em 2016, fui transferida para uma unidade de reabilitação. Passei 2016 inteiro lá. Cada dia é uma batalha. Minha última operação foi em 2019, no fêmur.”
Morgane, 26 anos:
“Tentei não me mexer. Fiquei pensando: ‘Não quero sentir dor.’ Estava muito nervosa. Lembro do momento em que me levantei. Vi muitas pessoas numa pilha. Naquele momento, eu estava pisando sobre pessoas, mas eu não queria machucar ninguém. Fui em direção à parede. Não estava muito longe, mas foi a maior distância da minha vida.”
[Ela descreveu um homem erguendo-a pelo quadril para ajudá-la a passar sobre uma pilha de corpos]. “Pensei. ‘Se ele tivesse feito isso em outro contexto, teria dado um tapa nele.’”
“Do lado de fora, vi meu namorado da época. Ele não tinha mais a parte de baixo da perna. Disse que teve que fazer um torniquete. […] O cirurgião não sabia se ele ia sobreviver. E se ele sobrevivesse a perna teria que ser amputada. Foi amputada na quarta-feira seguinte. Isso foi o fim do Bataclan para mim.”
Sandrine, 48 anos:
“Só percebi um mês depois que eu não tinha caído sobre pessoas, eu tinha caído sobre corpos.”
“Estou vestindo as mesmas roupas que usei naquela noite. Estou usando as roupas porque por seis anos não consegui sair. Vejo aquilo sem estar vendo.”
“Quando vejo imagens, imagens anódinas, uma paisagem, vejo aquele poço sangrento. Estou na escada tentando sair. […] A pessoa que eu era morreu naquele dia. Passei seis anos presa em um quarto, dizendo: ‘Amanhã você vai levantar’, mas meu corpo responde: ‘Se você levantar, você morre.’ Porque é isso que acontece se você levanta, foi isso que aconteceu naquela sala – você se levantou e morreu.”
Shali, 25 anos:
“Eu não estou viva. Só respiro. Ainda estou com 18 anos, embora tenha 24. Na realidade, fiz 25 anos em março.”
Philippe, 49 anos:
“Estou com muita raiva de mim mesmo porque não voltei pelo [meu amigo] Jean-Jacques. Ele ficou sozinho. Não morreu na hora porque sabemos que seu corpo foi encontrado do outro lado da sala. Nunca vou me perdoar por isso.”
Olivier:
“Salah Abdeslam não passa de escória. Ele nos faz acreditar que é um guerreiro. Não é nada disso. Vi seu irmão matar garotas indefesas de 20 anos. Teria preferido mil vezes que ele tivesse se explodido como o irmão. […] É hora de apontar o dedo para todos os pequenos Abdeslams na França.”
Joanna, 34 anos:
“Fico pensando que se encontrar um terrorista, serei capaz de fazê-lo mudar de ideia. Preparo meu discurso.”
“Sei a sorte que tenho por viver numa França sem guerra e que, embora meus pais sejam imigrantes, não dá para ver isso no meu rosto.”
“Quanto àqueles que não se arrependem de suas ações, estou simplesmente triste por eles. Vocês não ajudaram ninguém.”
“Sou muitas coisas, uma sobrevivente, uma vilã, uma bobo esquerdista [sigla que designa uma “boêmia burguesa”], provavelmente o que muitos veriam como uma muçulmana de esquerda. Se este julgamento e este testemunho podem servir para algum propósito, são para permitir que eu diga o que sou: sou e continuarei sendo uma pacifista.”
Hugo:
“Estou com raiva do Estado, que não pôde me proteger. […] Ouvi aqui a polícia expressar seu lamento porque não pode proteger a todos. Estou com raiva porque nem todas as vítimas são tratadas da mesma maneira.”
“Desde 2015, tenho raiva dos responsáveis pelos ataques e das pessoas que usam o terrorismo para seus próprios fins. As pessoas que criaram o estado de emergência […] e que nos usam como vítimas para emplacar uma agenda que não tem nada a ver com o que vivemos.”
26 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Hoje os parentes das vítimas estão depondo. A corte está lotada. Entre eles, está um homem já conhecido pela mídia: Patrick Jardin. Sua filha, Nathalie, foi morta nos atentados. Desde então, ele tem atacado o governo francês pelo que descreve como uma posição de haine – “ódio”. Ele vai concorrer a deputado na próxima eleição como candidato do partido criado pelo extremista de direita Éric Zemmour.[2] Ele foi o último a falar. Não sei se isso é deliberado. Ele diz: “Me chamam de fascista, de membro da extrema direita, apesar de eu nem ser político. É um mundo que eu odeio.”
Ele chama o acusado de “verme”. Repreende as vítimas que disseram não odiar seus agressores. Ataca o pai de uma vítima que escreveu um livro com o pai de um dos agressores.
Périès disse: “Obrigado por seu depoimento que não foi político.” (Comentários irônicos se tornaram uma de suas especialidades.) “Obrigado por sua fé no julgamento. Vamos de fato respeitar a presunção de inocência.” Ele menciona a necessidade de provas. Diz: “As coisas não estão tão resolvidas quanto você pensa.”
9 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA_Frequentemente, parece que o tribunal está separado do resto de Paris. Um espaço protegido cuja fronteira é a terceira barreira policial. Os dias começam às 12h30 e às vezes terminam depois das oito da noite. Os advogados vão de cenas de crime, sangue, mutilação a longas discussões sobre minúcias legais. É difícil sair: o detalhe mais importante pode surgir a qualquer momento. Mesmo assim, o comparecimento está caindo. Das 141 redações que enviaram repórteres no início, agora há apenas uma dúzia ou mais cobrindo o julgamento. Em novembro, comecei a reconhecer vários rostos por trás das máscaras. Os jornalistas do Le Monde que fofocam juntos. O pai de uma vítima que escreveu um livro sobre a perda de sua filha. Um escritor famoso está aqui também. Minhas anotações estão cheias de observações sobre ele. “[Escritor famoso] comendo mix de sementes debaixo da máscara.” “[Escritor famoso] vagando pelos corredores, comendo algo de dentro de um pote de plástico.”
Apesar de o tribunal parecer separado do mundo, o julgamento está sendo moldado por correntes políticas que ganharam mais proeminência com os atentados. Desde 13 de novembro de 2015, a França vive em um estado semipermanente de emergência. Grande parte da legislação antiterrorismo estabelecida depois dos ataques continua em vigor. No período que antecede a eleição presidencial de abril de 2022, políticos de extrema direita discutem sobre proibir que menores usem lenços na cabeça, banir toda a imigração para a França e os supostos perigos do islamismo – questões que são levadas a sério no rádio ou nos jornais.
Isso altera as conversas que acontecem dentro do tribunal. Questões técnicas – até que ponto os ataques foram planejados ou que papel os cúmplices dos crimes acreditavam ter – muitas vezes dão lugar a questões vagas sobre religião e integração. Um juiz pergunta a uma testemunha se os terroristas do Bataclan falavam francês bem, sem sotaque.
A partir de novembro, o tribunal planeja ouvir sociólogos e historiadores. Mas alguns se recusaram a testemunhar. Estão preocupados que suas palavras sejam mal interpretadas, em especial aqueles que foram chamados pelos advogados de defesa. “Seríamos vistos como os sociólogos dos terroristas”, diz um deles ao Le Monde. Eles temem que os procedimentos sejam muito políticos e que eles se tornem alvos fáceis. Um advogado de defesa chama isso de “uma forma de autocensura”.
O papel do Islã – e da religião em geral – no julgamento é uma espécie de falha geológica. Por muitos anos, estudiosos franceses debateram até que ponto o terrorismo islâmico deriva do próprio Islã: a crença em uma forte ligação entre os dois é compartilhada por muitos acadêmicos e políticos. O cientista político e arabista Gilles Kepel insiste que a raiz do terrorismo islâmico está dentro do Islã. Ele foi convidado, com vários de seus alunos, a comparecer no tribunal em nome das vítimas. Sua posição contrasta com a do cientista político Olivier Roy, que descreve o terrorismo como uma forma de radicalização motivada por questões culturais. Os estudiosos que se recusam a comparecer são, em sua maioria, aqueles que acreditam que o terrorismo islâmico é uma reação ao Estado francês. Durante uma semana, os acusados são convidados a responder a perguntas sobre sua infância, vida familiar e personalidade, mas as perguntas sobre religião são proibidas, adiadas por Périès para mais tarde.
As centenas de advogados nem sempre têm uma narrativa coerente para oferecer. Em vez disso, aumentam o ruído. Os advogados de defesa franceses são autônomos. Autopromoção é parte do trabalho deles. Na corte, eles falam sobre a santidade do julgamento e, no entanto, estão constantemente nas rádios, nos jornais, comentando, falando, tuitando. No meio do julgamento, um dos advogados das vítimas torna-se porta-voz da candidata presidencial de direita Valérie Pécresse, e seu Twitter é inundado com argumentos a favor da proibição do uso do véu. Os advogados de defesa são mais jovens. Muitos começaram a carreira vencendo um concurso de prestígio, La Conférence, que pede aos candidatos que falem sobre assuntos como “Sereias devem ser autorizadas a cantar?”. Seus discursos no tribunal são prolixos. Eles parecem ter ajustado o cronômetro para dez minutos. Na revista Elle, aparecem posando em uma biblioteca com lambris de madeira e falam sobre tirar férias juntos.
10 DE NOVEMBRO, QUARTA-FERIA_A testemunha mais controversa no julgamento é François Hollande. No entanto, por horas, ele não fala – o tribunal não tem certeza se o autoriza a falar. Ele está presente em que qualidade? Como testemunha? Como ex-deputado? Como o homem citado nominalmente enquanto os terroristas crivavam de balas a casa de shows?
No dia em que Hollande está escalado para depor, a audiência bate seu recorde de público. Há uma grande empolgação na mídia porque é a primeira vez que um ex-presidente é chamado a depor nesse tipo de julgamento.
A defesa quer impedir o depoimento de Hollande. Argumenta que o caso está se tornando muito político. “Querem que o julgamento seja um fórum político. Não é esse o objetivo de um julgamento criminal”, diz um dos advogados. “Vamos tentar manter um tribunal que se pareça com qualquer outro tribunal.”
Quando Hollande é finalmente autorizado a depor, seu tom é estranhamente jocoso. “Olá, senhor presidente”, diz Périès. “Olá, senhor presidente”, responde o ex-presidente. Ele afirma que a França foi atacada “não pelo que fez, mas pelo que defende […] não pelas nossas ações no exterior, mas por nosso modo de vida aqui. […] Numa democracia, punir aqueles responsáveis ou cúmplices de um ataque monstruoso é função da lei, e não vingança. É esta a razão pela qual a democracia será sempre mais forte que a barbárie. E devo acrescentar que irá sempre prevalecer no final”.
A outra testemunha daquele dia, Gilles Kepel, é atacada pelos advogados de defesa. Um deles debocha do cientista político e arabista por ter planejado uma conferência sobre seu próprio depoimento na École Normale Supérieure. De qualquer forma, depois de cinco horas de Hollande, não sobra tempo para Kepel. Sua participação é adiada e, no fim das contas, ele decide não falar. À revista Le Point, ele diz que houve “uma caça às bruxas a Gilles Kepel, preparada por ataques do mundo acadêmico ‘islamo-esquerdista’, uma campanha de intimidação para desacreditar meu testemunho antecipadamente. […] Mas o adiamento do meu depoimento jogou a favor da defesa e não fui tratado com a dignidade que esperava. Devidamente registrado”.
13 DE NOVEMBRO, SÁBADO_A corte é fechada por vários dias para marcar o aniversário dos atentados. Em Paris, o tom é solene. Éric Zemmour, o candidato da extrema direita, faz um discurso em frente ao Bataclan. Ele altera as declarações de Hollande para seus próprios fins:
“O ex-presidente da República disse que sabia que os terroristas se infiltrariam entre os migrantes e não impediu o fluxo de migração. […] Então não protegeu os franceses e tomou a decisão criminosa de deixar as fronteiras abertas.”
O chefe do Life for Paris, o principal grupo que representa os sobreviventes dos ataques, acusa Zemmour de profanar um túmulo e divulga um comunicado dizendo que as vítimas do terrorismo não servirão como “escada” para Zemmour.
26 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Os ânimos mudam. Durante várias semanas, oficiais de inteligência da Bélgica são chamados a depor. Eles parecem evasivos. Tropeçam. Recusam-se a responder às perguntas. Relutam em admitir suas falhas. A investigação da polícia belga sobre os futuros agressores foi ineficaz, mesmo quando havia evidências de que eles poderiam estar tramando atos terroristas. Alguns meses antes dos ataques, por exemplo, eles pararam Brahim Abdeslam por uma infração de trânsito. Abdeslam já estava em uma lista de possíveis jihadistas. Mas a polícia o soltou quando ele próprio sugeriu que nenhum jihadista fumaria tanta maconha quanto ele. Abdeslam tinha um documento que explicava como obter permissão dos pais para tornar-se um jihadista. Disse que portava o documento porque era contra jovens irem para a Síria sem o consentimento dos pais.
Os policiais belgas se recusam a testemunhar pessoalmente, citando a pandemia. Isso irrita muitos advogados, que observam que, entre as testemunhas, há gente que veio da Áustria e dos Estados Unidos.
Por algumas semanas, todos os partidos estão unidos em seu desdém pelos belgas.
10 DE DEZEMBRO, SEXTA-FEIRA_Várias testemunhas escaladas para falar sobre a reputação pessoal dos acusados – parentes, na maioria – se recusam a comparecer.
O depoimento de uma das testemunhas é esperado com empolgação: Azdyne Amimour, cujo filho, Samy, se explodiu no palco do Bataclan. Foi Amimour que escreveu um livro com o pai de uma das vítimas.
Aspectos do livro foram questionados. Amimour descreve ter ido até a Síria para encontrar o filho e convencê-lo a voltar para casa. Mas é uma história que ele já contou muitas vezes e os detalhes variam. Algumas pessoas questionam se ele realmente foi até lá.
O homem está no banco das testemunhas e parece cansado. Está usando uma blusa amarrotada sobre uma camisa de gola alta amarelo-mostarda.
O juiz aborda a viagem para a Síria.
“Você não tentou conversar mais com ele? Não perguntou como ele estava?”
“Eu falei, tentei perguntar a ele. Mas eu achava que podia estar causando um incômodo para ele.”
“Mas você entendeu que ele estava no Estado Islâmico?”
“Sim, claro.”
“O que você disse para seu filho quando foi embora?”
“Honestamente, ele não era muito falador”.
Os advogados das partes pressionam o pai sem parar. Perguntam por que a família nunca discutiu a situação do filho, por que o pai não ficou mais curioso com o que viu na Síria, por que não ligou para o disque-denúncia para delatar o filho, porque não foi falar com o imã.
Amimour não tem respostas para essas perguntas, mas isso não impede que os advogados repitam as questões muitas, muitas vezes. Por horas, ele repete várias vezes que não sabe. Me dou conta de uma peculiaridade do julgamento: os participantes reclamam da falta de informação, mas atacam quem pode estar na posição de fornecê-las – e parecem desconfiar do que lhes é dito.
18 DE DEZEMBRO, SÁBADO_À revista L’Obs, Olivier Roy explica por que não irá depor. Ele escreve: “Esse julgamento não apenas busca estabelecer fatos [dos crimes] dos quais os réus são acusados (isso não levaria meses). Ele procura a verdade por trás dos fatos. As pessoas gostariam que um julgamento como o do Bataclan fosse um julgamento de um sistema de ideias, de uma ideologia.”
Ele diz por que acredita que o processo legal é um fracasso: “Esse debate tem consequências além do julgamento. Se a ligação entre prática religiosa e radicalização violenta for validada no tribunal, então a prática religiosa se torna um indicativo da entrada em um processo de radicalização. Portanto, veremos que a análise de um especialista é parte da definição do crime e, portanto, antecipa a culpa. Em vez de esclarecer, prejulga.”
6 DE JANEIRO DE 2022, QUINTA-FEIRA_Osama Krayem, o suposto membro sueco do Estado Islâmico, recusa-se a aparecer na corte. “Acho que estamos todos fingindo e que esse julgamento é uma ilusão”, diz ele em uma carta lida no tribunal por seu advogado. “Tomei a decisão de não falar novamente até o fim do processo.”
13 DE JANEIRO, QUINTA-FEIRA_A testemunha convocada para falar da vida pregressa de Krayem, um homem que lhe deu aulas na prisão, começa a depor. Ele veste um casaco preto e uma blusa cinza com um zíper. Fala sobre a consistência de Krayem, o valor que dá à confiança. Krayem não queria fazer aula de francês com outros presos porque se preocupava com o julgamento dos outros. Mas ele também esconde que sabe um pouco de francês para descobrir o que os outros pensam dele. O professor conta que liam As Aventuras de Tintim juntos e, depois, estudavam matemática.
O professor fala com calma, pacientemente. Destaca que outra pessoa na prisão diz que, apesar do 13 de novembro, Krayem parece ser um homem de muita humanidade. A declaração parece estranha. Além dos atentados em Paris, Krayem foi investigado por um possível ataque no aeroporto Schiphol, em Amsterdã, e pela participação na execução de um piloto jordaniano pelo Estado Islâmico.
Os advogados das vítimas se irritam. Um deles diz que, para o acusado, a testemunha não passa de um infiel. Ele cita uma mensagem que Krayem enviou a seu irmão. “Os incrédulos são nossos inimigos, sinta ódio por eles, mas não demonstre.” O advogado diz ao professor que, para seu aluno, ele é um inimigo. O professor contesta. Mais tarde, afirma: “Se queremos viver numa democracia, as pessoas devem falar durante os julgamentos.”
3 DE FEVEREIRO, QUINTA-FEIRA_Por semanas, o tribunal abre e fecha. Os acusados têm Covid, um atrás do outro. A mídia está ocupada com as próximas eleições presidenciais. Em pesquisas de opinião, os franceses dizem estar preocupados com questões como a inflação. Os políticos lutam para provar que são mais contrários à imigração do que seus rivais. Os partidários de Zemmour começam a atacar Pécresse por considerá-la muito “tolerante” com o “Islã político”. Semanas depois, ela discute a teoria da “grande substituição”.[3] O tiro sai pela culatra e ela cai nas pesquisas.
FEVEREIRO_O depoimento de Abdeslam está marcado. Muitos esperam por isso. No tribunal, minha vizinha de cadeira reclama das multidões. Ela chama isso de “a estrelização” de Abdeslam.
O homem na caixa de vidro não parece uma estrela. Parece um estudante universitário prestes a fazer uma entrevista para seu primeiro emprego. Veste camisa branca, calça preta e máscara preta. “Queria dizer que não matei ninguém”, diz ele. “Não machuquei ninguém, nem um arranhão. Desde o início do caso, eles não pararam de me caluniar. ‘Calunie, calunie e algo sempre vai colar’, como disse Voltaire.” Em seu blog, o jornal Le Figaro aponta que a citação não é de Voltaire, mas de Francis Bacon.
“É por isso que eles querem me julgar hoje”, continua ele. “Percebo que em casos de terrorismo, as sentenças são extremamente severas para pessoas que às vezes não mataram, não machucaram ninguém. Eu entendo que a Justiça quer nos transformar em um exemplo. Gostaria que mandássemos uma outra mensagem. No futuro, quando houver um sujeito no metrô, num ônibus, carregando uma mala recheada com 50 kg de explosivos e, no último momento, ele quiser desistir e não explodir nada, bem, esse sujeito vai saber que não pode [mudar de ideia], porque vão caçá-lo, prendê-lo, humilhá-lo, como estão fazendo comigo hoje.”
A declaração leva muitos jornalistas a escrever que Abdeslam confirmou que optou por não se explodir. Mas a afirmação é deliberadamente vaga. Ele joga para a plateia. Faz piadas. É encantador. Parece que está prestes a revelar tudo. Mas seu testemunho faz cada vez menos sentido. Por um lado, ele parece estar argumentando que deveria receber agradecimentos por não ter usado seu colete suicida. Por outro, parece defender o terrorismo. Defende a escravidão, o assassinato, as execuções públicas, muitas vezes recorrendo a equivalências bizarras.
“Não posso responder sim ou não. Na França, antes de François Mitterrand, a pena de morte existia e as pessoas eram a favor”, diz ele.
“Não houve propaganda na mídia, não foi filmado”, responde Périès.
“Sim, mas o Estado Islâmico segue o Alcorão, a tradição islâmica. E no Alcorão, há essa disposição. Se as pessoas lutam contra o Islã, elas podem ser mantidas em cativeiro…”
“A escravidão foi abolida em todas as democracias.”
“Sim, mas não no Islã… Não vamos mudar nossa religião para agradar os outros.”
Depois de cada declaração selvagem, Abdeslam declara que não é um perigo para a sociedade; ele se oferece para conhecer as famílias das vítimas – dá para ouvir o clique das teclas do computador. Uma dessas declarações será a manchete de amanhã. Nenhuma delas oferecerá o que tantos buscam neste julgamento: uma explicação para os atentados, uma receita que explique como a França pode encontrar um caminho para superar esse episódio.
Nas semanas seguintes, novos investigadores, novos policiais, novas testemunhas falam no tribunal. Alguns dão explicações técnicas, mas nem sempre satisfazem plenamente os juízes ou aqueles que acompanham o julgamento. Um especialista mostra, por exemplo, que o colete suicida de Abdeslam não funcionou direito – mas isso não prova se ele desistiu, ou não, de participar dos ataques.
No tribunal naquele dia de fevereiro, a advogada luta para defendê-lo. Ela parece querer mostrar que as provas que o ligam ao ataque não passam de uma série de coincidências. Mas Abdeslam perde o fio da meada, e quando ela continua fazendo perguntas, ele diz: “Me dê a resposta.”[4]
[1] O T9 é uma tecnologia antiga usada nos teclados em que cada tecla continha mais de uma letra. Ela é capaz de prever a palavra desejada, tornando possível inserir palavras inteiras ao pressionar-se uma tecla sem a necessidade de acioná-la várias vezes até chegar à letra desejada.
[2] Patrick Jardin não deu sorte ao escolher o partido de Zemmour. Ficou em sexto lugar, tendo recebido apenas 1 849 votos, e não se elegeu.
[3] A teoria da “grande substituição” tem raízes no nacionalismo francês do início do século XX, mas sua difusão se ampliou a partir da década de 2010, quando o escritor francês de extrema direita, Renaud Camus, lançou um livro sobre o assunto. Segundo a teoria, a imigração faz parte de uma conspiração destinada a “substituir” os brancos europeus por populações não europeias – em geral, negros, árabes ou muçulmanos – com o propósito de extinguir seu poder e sua cultura. A teoria espalhou-se pelo mundo, atraindo toda sorte de extremistas de direita – supremacistas brancos, antissemitas, nazifascistas. Nos Estados Unidos, a “grande substituição” é descrita como um ataque à “América branca”.
[4] No dia 10 de junho, os advogados de acusação pediram a condenação dos vinte réus a penas que iam de cinco anos à prisão perpétua. Para Salah Abdeslam, os promotores pediram a pena mais rigorosa permitida pela lei francesa – prisão perpétua sem direito à liberdade condicional. No dia 29 de junho, o juiz Jean-Louis Périès anunciou sua decisão: condenou todos os réus a penas a partir de dois anos e, no caso de Abdeslam, acatou o pedido da promotoria. É apenas a quinta vez na história moderna que a França sentencia alguém à prisão perpétua sem liberdade condicional. Todos os condenados ainda podem recorrer.