anais do autoritarismo

O DIA EM QUE NÃO MORRI

Memórias do golpe de 11 de setembro de 1973 no Chile
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Na noite do dia 10 de setembro de 1973, segunda-feira, eu e minha mulher na época estávamos conversando com um casal de amigos brasileiros em Santiago, no Chile, quando uma bala atravessou a vidraça da janela da sala e atingiu a parede. Imediatamente apagamos as luzes e nos lançamos ao chão. Deitados sobre o soalho do apartamento, esperamos alguns longos minutos. Mas não houve outro disparo e, cautelosos, nos levantamos. Para nós, aquele tiro foi o sinal de que o golpe militar contra o governo do presidente Salvador Allende estava próximo.

Eu tinha 24 anos e havia me casado apenas vinte dias antes com a chilena Márcia Riveros. Da mesma idade que eu, ela era formada em obstetrícia e trabalhava como funcionária de um organismo de saúde estatal que atendia mulheres carentes. Conosco morava um casal de brasileiros, Marcos e Marieta, pois era comum que os exilados no Chile compartilhassem as casas.

Naquela noite de setembro, depois que nos acalmamos um pouco, começamos a discutir que atitude tomar para nos defender. Sugeri que no dia seguinte procurássemos a polícia para relatar o ocorrido. Ela poderia localizar de onde havia partido o tiro e talvez identificar os agressores, ou pelo menos intimidá-los. Apesar de toda a apreensão, fomos dormir.

Os últimos dias no Chile haviam sido extremamente tensos. Em 29 de junho, ocorrera uma tentativa de golpe – el tanquetazo – promovida pela organização de extrema direita Patria y Libertad, com o apoio de militares. Tanques saíram às ruas de Santiago, atos de sabotagem foram realizados, mas os golpistas acabaram contidos pelo general Carlos Prats, ministro da Defesa e do Interior do governo Allende.

Eu trabalhava na Chile Films, a empresa estatal de cinema do país. Alguns dias depois do movimento golpista, uma filmadora 16 mm foi deixada na portaria da produtora, com a recomendação de que o filme que estava nela fosse revelado. Foi um choque imenso ver as imagens, que mostravam tanques e militares circulando no Centro de Santiago, próximo ao Palácio de La Moneda, sede do governo. Em dado momento, um oficial percebe que está sendo filmado e aponta o fuzil na direção da câmera. Mas a filmagem não é interrompida. O militar então dispara várias vezes, atingindo o cinegrafista, pois a câmera treme e cai ao chão, perdendo o enquadramento. As imagens haviam sido gravadas por Leonardo Henrichsen, um cinegrafista argentino a serviço de uma tevê sueca: ele filmou a própria morte, e a câmera foi recuperada por um assistente, que a escondeu e a levou no dia seguinte à Chile Films.

A produtora editava um cinejornal que era exibido com certa frequência nas salas de cinema. Quando percebemos a importância daquelas imagens, fizemos uma edição especial do cinejornal e enviamos as cópias para as salas. A exibição durou apenas um dia, pois os militares recolheram e destruíram os filmes. As imagens, porém, já haviam sido enviadas para outros países e em pouco tempo circulavam nas tevês de todo o mundo. Hoje, podem ser vistas no YouTube.

Entre o fim de junho e o início de setembro, muita gente temia que os golpistas voltassem a atacar, agora com sucesso. Essa convicção era especialmente forte entre os brasileiros exilados no país, que haviam passado pelo trauma do golpe de 1964 e do recrudescimento do regime militar, com a edição do AI-5, em dezembro de 1968. Para agravar a situação, o general Prats já não estava no comando do Ministério da Defesa: renunciara em 23 de agosto, por falta de apoio no meio militar. Para o seu posto, ele indicara um general até então tido como íntegro e distante da política. Chamava-se Augusto Pinochet.

Naqueles dias, em muitos muros de Santiago surgiram pichações com o símbolo do movimento Patria y Libertad. O desenho parecia uma aranha sinistra e lembrava a suástica. Nas proximidades da Universidade do Chile, pública e controlada pela esquerda, e da Pontifícia Universidade Católica, privada e com maioria direitista, ocorriam confrontos quase diários entre grupos a favor e contra o governo.

Santiago na época não tinha metrô, e greves frequentes dos ônibus do transporte público causavam um enorme desconforto para a maioria da população. Eu mesmo tive que voltar a pé para casa muitas vezes. Nos supermercados, faltavam produtos básicos, e até cigarro era difícil encontrar na cidade. Como naquele tempo eu fumava, tinha que enfrentar longas filas para adquirir um maço, na melhor das hipóteses, ou apenas alguns cigarros sortidos. Os caminhoneiros, alinhados com a direita golpista, reduziam as entregas de mercadorias e ameaçavam o tempo todo uma paralisação geral, o que mais tarde viria mesmo a acontecer.

Cheguei ao Chile em 25 de junho de 1970, poucos meses antes da vitória eleitoral de Salvador Allende, e pude acompanhar de perto os três anos de seu governo. Ele foi eleito por uma coalizão de partidos, a Unidade Popular, com a proposta de viabilizar no país um programa socialista, mas pela via democrática, por meio do voto, e não de uma revolução armada. Ainda me lembro, com muita emoção, de seu discurso na noite da vitória para uma multidão que eu nunca havia visto igual.

No Brasil, eu estudava economia na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, e por causa de minha participação ativa em ações do movimento estudantil contra a ditadura me prenderam duas vezes. Na primeira, fui detido na saída da faculdade pela Polícia Federal e liberado após prestar depoimento e ser fichado. Meses depois, fui preso com outros estudantes em uma passeata no Centro da cidade, tomei uns tapas e passei um mês detido no Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Minha atuação política me levou a ser julgado e condenado a um ano e um mês de prisão, acusado de atentar contra a “segurança nacional”. Antes que me prendessem para cumprir a pena, fugi e passei a viver na clandestinidade. Morei em várias cidades, até decidir deixar o Brasil. Com ajuda da família, fui de Belo Horizonte para Pedro Juan Caballero, no Paraguai, num pequeno avião de contrabandistas. Meu objetivo era chegar ao Chile, na época a democracia mais estável da América do Sul. Governado pelo democrata-cristão Eduardo Frei, o país era um porto seguro, onde já se encontravam muitos brasileiros exilados.

Consegui chegar a Assunção, no Paraguai, e de lá tomei um voo até Santiago, para onde se podia viajar sem o passaporte, mostrando apenas a carteira de identidade brasileira, o único documento que levava comigo. Ao desembarcar, procurei logo um companheiro de Belo Horizonte, o líder estudantil João Batista dos Mares Guia, que tinha sido preso no congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) realizado em 1968 em Ibiúna, no interior paulista, mas que conseguira escapar.

Aprendi a falar espanhol rapidamente e me integrei bem com os chilenos, ao contrário de muitos brasileiros que viviam fechados entre si. No primeiro momento, garanti minha sobrevivência trabalhando em pesquisas socioeconômicas para organismos internacionais ligados à ONU. Em pouco tempo, consegui retomar o curso de economia, matriculando-me na Universidade do Chile, onde havia muitos professores brasileiros exilados depois do golpe de 1964, entre eles Fernando Henrique Cardoso, Maria da Conceição Tavares, José Serra, Ruy Mauro Marini e Theotonio dos Santos. A leva de exilados depois do AI-5 era de pessoas mais jovens, a maioria universitários, como eu, ou recém-formados. Nossa posição política era mais radical do que a da geração anterior e muitos de nós alimentavam o sonho de que uma revolução derrubaria a ditadura militar e implantaria o socialismo no Brasil. Apesar das diferenças políticas e das discussões acaloradas, o convívio entre os exilados era amistoso e solidário.

Os três anos do governo Allende, que pude testemunhar, foram tempos de conquistas para o povo e de muita esperança, mas também de muita apreensão e de ameaças constantes à democracia, orquestradas pela elite econômica do país com o apoio ostensivo do governo dos Estados Unidos. O boicote ao governo chileno era de tal ordem que até as distribuidoras norte-americanas de cinema se retiraram do país e impediram que seus filmes fossem exibidos lá. Muitos chilenos viajavam à Argentina para assisti-los, como no lançamento de O Poderoso Chefão, em 1972, quando houve até mesmo excursões para ver o filme em Buenos Aires.

Durante o ano de 1973, a ideia de preparar o povo para resistir ao golpe começou a circular entre a esquerda chilena. Eu havia largado o curso de economia e trabalhava na Chile Films, convidado por um amigo, o produtor chileno Jaime Morera, que sabia da minha paixão pelo cinema. Fui contratado como assistente de produção em um filme de época, Balmaceda, sobre o presidente chileno José Manuel Balmaceda (1840-91), que havia lutado pela nacionalização do cobre e que acabou se suicidando. Mas a produção foi suspensa pela direção da Chile Films, que nos orientou a fazer filmes sobre o momento que estávamos vivendo no país. Trabalhei então em vários curtas, escrevi roteiros e fiz assistência de direção. Recebia um salário que me permitia viver com algum conforto, mas sem luxos.

Na Chile Films, tivemos algumas reuniões nas quais se falou em formar grupos para defender o prédio da produtora, caso ocorresse um golpe. Mas falávamos muito e agíamos pouco, e nada de concreto foi feito. Parecia que, no fundo, ninguém acreditava que o golpe aconteceria, ou que para defender a democracia era suficiente o apoio da população em manifestações gigantescas a favor do governo nas ruas de Santiago. Não era: apesar da determinação e vontade de todos, nos faltava preparação, organização, treinamento e mesmo armas para uma resistência efetiva aos golpistas – que eram disciplinados, ferozes e armados até os dentes.

No dia 11 de setembro, acordamos às cinco da manhã com os toques insistentes da campainha do apartamento. Eram dois colegas chilenos do casal brasileiro que morava conosco. Muito agitados, eles nos contaram que o golpe militar já havia começado. Ligamos o rádio e, pouco tempo depois, ouvimos a voz de Salvador Allende:

Aqui fala o presidente da República, direto do Palácio de la Moneda. Informantes assinalam que um setor da Marinha ocupou Valparaíso, o que significa um levante contra o governo legitimamente constituído e  amparado pela lei e pela vontade do povo. Nessas circunstâncias, conclamo todos os trabalhadores a ocuparem seus postos de trabalho, que se dirijam às suas fábricas e mantenham a calma e a serenidade. Até este momento, em Santiago, não ocorreu nenhum movimento inesperado de tropas.

Naquele momento, Allende acreditava que a maior parte das Forças Armadas estaria ao lado da democracia e da Constituição. Nós mesmos pensávamos que alguns setores das Forças Armadas seriam contra o golpe e que o Exército estava dividido. Mas, outra vez, não foi o que ocorreu.

Sem saber ao certo o que estava acontecendo, decidimos seguir a orientação do presidente e fomos trabalhar. O melhor a fazer era estarmos juntos de nossos companheiros. Marcos e Marieta se dirigiram para a universidade onde estudavam. Márcia foi para o órgão público do qual era funcionária. Eu segui para os estúdios da Chile Films.

Antes de sair, tomei uma decisão radical: levar comigo um revólver calibre 38, que uma amiga chilena, colega da faculdade de economia, me dera. O revólver tinha sido do pai dela, já falecido. Minha amiga queria se livrar da arma e eu a aceitei, acreditando que poderia ser útil em uma situação como a que estávamos vivendo agora. Era um Smith & Wesson clássico, de cano curto, todo cromado, que durante mais de um ano ficou esquecido num local secreto em meu quarto. Eu nunca havia apontado arma alguma para alguém, nem participado de nenhuma ação armada no Brasil. Mas, naquele dia, 11 de setembro, achei que devia ajudar a defender um governo eleito democraticamente e que me acolhera de forma tão generosa. Enfiei o revólver na cintura, escondido sob a camisa, e saí à rua.

No momento em que pisei na calçada, por volta das sete e meia da manhã, a situação na cidade era assustadora. Aviões e helicópteros sobrevoavam Santiago, caminhões do Exército carregados de soldados circulavam por várias ruas, e em todo canto havia pessoas correndo, ansiosas para chegar logo às suas casas. Os militares usavam lenços vermelhos no pescoço como sinal de identificação, o que me deixou confuso por alguns instantes, pois essa cor sempre foi associada historicamente à esquerda. “Será que esses militares são contra o golpe?”, pensei. Não eram.

Com o revólver pesando em minha cintura, segui por uma grande avenida, pois o transporte público estava parado. Meu objetivo era chegar à Chile Films o quanto antes. Vi várias pessoas pedindo carona nos pontos de ônibus, aflitas. Resolvi me juntar a elas e acabei conseguindo entrar em um carro lotado que ia na direção que eu desejava. Durante o trajeto, me mantive calado o tempo todo, para que não descobrissem que eu era estrangeiro, o que naquele momento poderia ser sinônimo de terrorista.

Ainda no carro, ouvi um segundo discurso de Allende pela rádio, agora acusando as Forças Armadas de terem rasgado a Constituição:

A situação é crítica, estamos fazendo frente a um golpe de Estado do qual participou a maior parte das Forças Armadas. […] Somente à bala é que poderão me impedir de cumprir o programa do povo. Se me matarem, o povo seguirá seu caminho, mas com a diferença de que as coisas serão muito mais duras, mais violentas, porque essa será, para as massas, uma lição de que essa gente não pode ser detida por nada.

No trajeto, passamos em frente à Embaixada de Cuba, cercada por dezenas de soldados, que apontavam as armas para o prédio. Saltei do carro quando o motorista ia se afastar do meu trajeto e segui andando por vários quarteirões, acompanhado agora pelo ruído de tiros de fuzis e rajadas de metralhadoras.

A Chile Films ficava no final de uma pequena rua de um dos bairros altos de Santiago, mais ricos, aos pés da Cordilheira dos Andes. Quando virei o último quarteirão antes de chegar à produtora, ouvi uma voz me chamando baixinho. Era um colega de trabalho. “Helvécio, não vá, eles já estão lá dentro”, me disse sussurrando o rapaz, que fazia parte do departamento de montagem, mas cujo nome eu não me lembrava.

Fiquei sem chão. Mais alguns passos – e eu estaria dentro do prédio da Chile Films. Brasileiro, portando uma arma, seria morto imediatamente, como aconteceu com centenas de pessoas naquele dia. O colega me contou que um cinegrafista da nossa equipe havia sido assassinado por soldados, que o cercaram quando ele filmava o movimento das tropas golpistas do alto de uma árvore.

Agradeci muito o aviso e me despedi daquele anjo salvador. Peguei o caminho de volta, mas na verdade eu não sabia o que fazer nem para onde ir. Não podia retornar à minha casa, porque o tiro na noite anterior deixara bem claro que nosso apartamento era um lugar visado, por ser moradia de exilados brasileiros (o que, com certeza, havia atraído o interesse de vizinhos contrários a Allende).

Foi quando me lembrei de um conhecido que morava perto da Chile Films: o diretor de cinema Mario Fiorani, com quem eu estivera alguns dias antes. Minha vontade era de sair correndo pelas ruas, mas me contive e, a passos rápidos, em poucos minutos cheguei à casa dele, num bairro de pessoas ricas, de construções grandes e bonitas, onde certamente havia muita gente apoiando o golpe militar.

Assim que me viu, Fiorani correu para abrir o portão. A casa de dois andares tinha amplas varandas e era cercada por um jardim com árvores vistosas. Junto dele, estavam sua mulher, Beatriz, e um produtor de cinema mineiro, Luiz Carlos Pires, também meu amigo. Quando me viu, Luiz Carlos brincou: “Estamos aqui, pedindo asilo ao Fiorani!” Muito assustados com o que estava acontecendo, eles me perguntaram o que eu tinha visto nas ruas.

Beatriz era filha de um general brasileiro. Fiorani era italiano e, muito jovem, participara da resistência antifascista durante a Segunda Guerra. Em 1946, mudou-se para o Brasil e logo se envolveu com o meio cinematográfico. Foi um dos produtores do importante filme O Desafio, de Paulo César Saraceni, em 1965, e dois anos depois lançou seu primeiro longa-metragem, A Derrota, com a atriz Glauce Rocha. O mineiro Luiz Carlos Pires foi um dos principais produtores brasileiros do final dos anos 1960, com uma penca de grandes filmes no currículo, como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira, e Bang Bang, de Andrea Tonacci. Tanto ele quanto Fiorani estavam exilados no Chile por suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro, o “partidão”.

Logo que entrei na sala da casa de Fiorani, ouvimos explosões muito fortes ao longe. Subimos para a varanda do andar superior e vimos o bombardeio da residência de Allende, que ficava a poucos quarteirões dali, na Rua Tomás Moro, 200, no bairro de Las Condes. Os aviões da Força Aérea atacaram com precisão cirúrgica, evidenciando como o golpe havia sido planejado nos mínimos detalhes. Todos que estavam na casa, inclusive a escolta pessoal de Allende, o famoso GAP (Grupo de Apoyo al Presidente), foram mortos. Mas Salvador Allende não estava lá e sim no Palácio de La Moneda.

(Aqui, cabe a lembrança de uma coincidência trágica. Dois ou três meses antes do golpe, não me lembro bem da data, eu e o diretor havíamos feito a projeção, no Palácio de La Moneda, de um documentário produzido para a Força Aérea Chilena sobre os modernos caças recém-adquiridos pelo governo. Na projeção, estavam presentes Allende e os três comandantes das Forças Armadas, além de outras altas patentes militares. Pinochet devia estar ali também. Os aviões mostrados nas imagens que projetamos eram os mesmos que bombardearam a casa e depois o Palácio de La Moneda.)

Fiorani ligou o rádio em busca de informações, e ficamos sabendo que a emissora que transmitira os discursos de Allende naquele dia tinha sido destruída em um bombardeio. Imaginamos que não ouviríamos mais a voz do presidente, mas nos enganamos. Por volta das dez da manhã, falando por telefone à Radio Magallanes, ele novamente se dirigiu ao povo chileno, com a voz firme marcada pela intensa emoção que estava vivendo:

Nesse momento, passam os aviões. É possível que nos atinjam. Mas que saibam que aqui estamos, com nosso exemplo, demonstrando que este país tem homens que sabem cumprir suas obrigações. […] Pagarei com minha vida a defesa dos princípios que são caros a esta pátria. O povo deverá estar alerta e vigilante. Não deve se deixar provocar nem se deixar massacrar, mas também deve defender suas conquistas.

Estávamos todos muito agitados. Fiorani e sua mulher começaram a queimar na lareira da casa documentos que deviam ser do partidão, mas se perguntavam se a fumaça na chaminé não iria atrair a atenção dos militares, afinal o inverno já havia acabado. Nesse momento, tomei coragem e contei que tinha comigo um revólver. Eles ficaram apavorados com minha revelação, Luiz Carlos principalmente. Fiorani, talvez por ter participado da resistência aos nazistas na Europa, reagiu com mais tranquilidade. Após alguma hesitação, escondemos o revólver no pequeno depósito de lenha que havia no quintal.

Alguns minutos mais tarde, ouvimos pela última vez as palavras do presidente:

Trabalhadores de minha pátria, tenho fé no Chile e em seu destino. […] Viva o Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores! […] Essas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho certeza de que, no mínimo, será uma lição moral que castigará a vilania, a covardia e a traição.

Salvador Allende morreu pouco depois no Palácio de La Moneda. Alguns dizem que se suicidou com um tiro de fuzil, outros sustentam que foi assassinado pelos militares. Talvez nunca saibamos o que aconteceu, mas certo é que sua morte marcou o fim de um governo democrático de ideais socialistas e o início de um longo período de trevas no Chile.

Já no controle da situação, os militares ordenaram pelas rádios que todos os chilenos colocassem a bandeira do país nas fachadas e janelas de suas residências. De uma hora para outra, as casas da rua onde vivia Fiorani se encheram de bandeiras. A dele era a única que não tinha uma – situação que nos fez sentir mais solitários do que nunca e ao mesmo tempo com medo, pois não exibir a bandeira representava enorme perigo naquele momento.

O novo governo militar, liderado por Pinochet, decretou toque de recolher por três dias. As comunicações foram cortadas e ninguém podia circular nas ruas. Por sorte, na casa do casal Fiorani havia comida suficiente para todos. Naquela época, no Chile, era comum as pessoas estocarem comida devido à crise de abastecimento e ao clima de incerteza.

Fiorani e a mulher regavam o jardim diariamente e tentavam aparentar naturalidade aos olhos dos vizinhos. Luiz Carlos e eu evitávamos aparecer na frente da casa ou nas janelas. Durante todo esse tempo ouvíamos, principalmente à noite e de madrugada, barulhos de tiros e helicópteros. Apesar dos apelos de Allende, muitos chilenos resistiram e, do alto das casas e dos edifícios, atiraram nos militares. Um a um, todos esses resistentes foram mortos. Pouco a pouco, os tiros foram cessando.

Com o fim do toque de recolher e os telefones funcionando novamente, consegui me comunicar com Márcia, que estava na casa da irmã e veio me encontrar na residência de Fiorani.

Todos reunidos, conversamos sobre o que fazer dali para a frente. Os militares haviam ordenado que os estrangeiros se apresentassem nos quartéis. Fiorani e Beatriz contaram que iriam para a Itália, já que tinham passaporte do país. Depois do golpe no Brasil e agora no Chile, eles queriam ficar longe da América do Sul por um tempo. Luiz Carlos disse que iria se apresentar na escola militar que havia ali perto. Mais tarde ficamos sabendo que foi preso e mandado para o Estádio Nacional, um campo de futebol transformado em um gigantesco campo de concentração, onde milhares de pessoas foram torturadas e executadas (Luiz Carlos sobreviveu, retornou ao Brasil e morreu em 2013, no Rio de Janeiro).

Eu decidi que não iria me apresentar, mas ainda não sabia o que fazer. Márcia e eu nos despedimos dos amigos e saímos caminhando pelas ruas. Eu carregava de novo o revólver na cintura, pois não podia deixá-lo na casa de Fiorani. Era um problema que eu levara comigo e precisava resolver sozinho. Seguimos até o canal do Rio Mapocho, formado pelas águas do degelo da Cordilheira dos Andes, e nos encostamos na mureta, como se estivéssemos namorando. Quando tivemos certeza de que ninguém nos observava, tirei o Smith & Wesson rapidamente da cintura e joguei no rio. O revólver afundou no Mapocho.

Naquele momento, uma torrente de imagens e pensamentos tomou minha cabeça. A tentativa de construir uma sociedade socialista, de forma pacífica e democrática, através do voto, fora liquidada. Da mesma maneira, havia acabado o sonho de uma revolução armada que derrubaria a ditadura e implantaria o socialismo no Brasil. A brutalidade do golpe no Chile mostrara como era ingênua a ideia de que, empunhando nossas armas, seria possível enfrentar os militares. “Essa gente não pode ser detida por nada” – as palavras de Allende ainda ecoavam na minha cabeça. E agora, o que fazer dali para a frente? Tomado por esses pensamentos, fiquei um bom tempo olhando o rio. Meses mais tarde, quando as águas do degelo diminuíram, como me contou um amigo chileno, foram encontradas centenas de armas no leito do Mapocho.

Márcia e eu fomos para a casa da irmã dela, no Centro de Santiago. Antes de me encontrar, ela tinha passado no nosso apartamento e se deparado com um cenário de destruição: roupas, livros e objetos jogados pelo chão, móveis quebrados, colchões rasgados… O Exército chileno estivera por lá. Nossos colegas de moradia, os brasileiros Marcos e Marieta, tinham sido presos e levados para o Estádio Nacional (foram libertados depois, e também retornaram ao Brasil).

Decidi que iria pular os muros de alguma embaixada e pedir asilo. Mas, antes, resolvi telefonar para minha família no Brasil. Era a primeira vez que nos falávamos após o golpe no Chile, e meu pai me convenceu de que eu poderia voltar.

Juiz de direito rigoroso no trato com as leis, meu pai, Luiz Mourão Ratton, havia procurado a Justiça Militar e obtido um documento que certificava que o meu mandado de prisão estava anulado. Eu fora sentenciado a um ano e um mês de prisão no início de 1970, mas como era menor de 21 anos na época, minha pena já prescrevera. Com muitas saudades da família e do Brasil, e sem ânimo para iniciar um novo período no exílio, resolvi retornar para cá, apesar dos riscos que corria.

Mas havia outro problema. Para sair do Chile, eu precisava de um salvo-conduto ou seria preso no aeroporto de Santiago. Eu me lembrei, então, de um grande amigo meu da Chile Films, um quase irmão, Juan Forch, que acabara de se exilar no México. O pai de Juan era um general democrata, ex-chefe do Estado-Maior no governo de Eduardo Frei e assumira havia pouco tempo uma das subprefeituras de Santiago. Procurei o general. Ele me recebeu com carinho e preocupação, e me deu um salvo-conduto para deixar o Chile, rumo ao Brasil.

No dia 27 de dezembro de 1973, três meses e meio após o golpe, Márcia e eu embarcamos para o Rio em um avião da Varig. Começava ali mais um capítulo da minha vida, de novo marcada pela difícil e sofrida relação com a ditadura militar do Brasil. Mas essa é outra história, que, a julgar pelas cartas em defesa da democracia que ainda precisamos escrever, parece estar longe do fim.


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É diretor de cinema. Realizou, entre outros filmes, Em Nome da Razão, Menino Maluquinho e Batismo de Sangue