carta da itália
Antonio Scurati Out 2022 11h10
5 min de leitura
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De Florença
Tradução de Marcello Lino
“Deus, pátria e família!”
Encontro-me em um quarto de hotel em Florença quando Giorgia Meloni relança seu slogan eleitoral. Estou jogado na cama, apoiado na cabeceira e seguro um telefone celular com a mão direita. Fico incrédulo, atônito: ela disse aquilo mesmo?
Depois, a deputada Meloni, replicando ao seu interlocutor – Enrico Letta, líder do Partido Democrático e da coalizão adversária –, repete: “Não é contra a modernidade. Deus, pátria e família!”
Sim, preciso me resignar. Ela realmente disse aquilo. E não foi por distração. Foi com orgulho. Pronunciando aquele slogan oitocentista, a deputada Meloni, obviamente, se sente mais moderna do que os modernos.
O debate entre Meloni e Letta aconteceu na sede do jornal Corriere della Sera em 12 de setembro, a duas semanas da votação (e um dia depois do aniversário de 21 anos do atentado às torres gêmeas em Nova York). Nos dias seguintes, me esforcei para encontrar aquela “resignação” que, no calor do momento e à primeira escuta, me escapara no quarto daquele estúpido hotel florentino. Não consegui.
Por mais que eu tenha me esforçado para entender a suposta modernidade de Meloni, aquele slogan, pronunciado na terceira década do século XXI, embora ecoasse a filosofia de Giuseppe Mazzini, um dos pais da nação italiana, nascida também das suas ideias no século XIX, justamente por ecoá-la literalmente, continua a ser, na minha opinião, um lema oitocentista e, portanto, profundamente reacionário em seu anacronismo ostensivo.
Não pode haver dúvidas, a meu ver, de que os conceitos de Deus, de pátria e de família, passíveis das mais diferentes interpretações e abertos a vários significados se vistos separadamente, quando declinados na trindade meloniana quase dois séculos após sua origem mazziniana, assumem um prepotente e descarado valor reacionário. As três noções, reforçando-se mutuamente, tornam-se substância e acabam por indicar, portanto, ideias dotadas de uma “eterna” consistência própria, indiferentes ao fluxo dos fenômenos e impermeáveis à mudança histórica. Em outras palavras, se vistos separadamente, o Deus, a pátria e a família podem ser plurais, dialéticos, dinâmicos; se declinados no paradigma ternário, tornam-se exclusivos, absolutos, despóticos. Ou seja, significam que existe um único Deus, que podemos ter uma única pátria e que só é admissível um único tipo de família.
E, de fato, a perspectiva política revelada pelo advento das novas direitas italiana, europeia (e norte-americana) é coerente com esse Diktat fundamentalista. A ideologia oficial do Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália), o partido liderado por Meloni, caracteriza-se na verdade pela ênfase dada às raízes cristãs da Europa em contraposição aos migrantes de outras etnias e religiões. Caracteriza-se pela reivindicação da plena soberania política ao governo da Itália em contraposição às instituições da União Europeia que a teriam parcialmente usurpado. Caracteriza-se pela recusa clara de todas as ideias e práticas de família alternativa à tradicional (quer dizer, aquele tipo de família que os pregadores da nova direita julgam, arbitrariamente, que se identifica com a tradição).
O resultado é um forte impulso antimoderno e reacionário, ou melhor, um contraimpulso que se move na direção oposta e contrária à mais recente modernidade europeia: o esforço (em parte fracassado, sem dúvida) para criar uma sociedade aberta, multiétnica e multirreligiosa, que se tornou necessária devido às novas migrações de povos; a tensão histórica, desencadeada pela conclusão apocalíptica da Segunda Guerra Mundial, rumo a uma entidade política europeia supranacional, garantidora de uma fecunda e pacífica cooperação entre as antigas nações e capaz de elevar a Europa à altura dos novos atores hegemônicos na cena geopolítica contemporânea (a China e os Estados Unidos); enfim, por último mas não menos importante, o progresso das relações interpessoais, eróticas e afetivas entre os cidadãos da Europa rumo a formas livres, paritárias, mutáveis e mutantes.
Tudo isso é eliminado categoricamente pelo lema oitocentista outra vez proposto com dois séculos de atraso como slogan eleitoral pelas novas direitas do século XXI. Deus, pátria e família brandidos como uma trindade ameaçadora contra a recente modernidade europeia não surgem como divindades benignas e amorosas que velam por um projeto neoconservador razoável, tolerante e liberal. Pelo contrário: fazem soar a trombeta do deus dos exércitos para varrer para longe, sem vacilação, dois séculos de história. A nossa história.
Não acredito que seja descabido evocar a História, com H maiúsculo. Não é exagerado atribuir ao resultado das eleições de 25 de setembro na Itália uma relevância propriamente histórica, talvez até mesmo definidora de uma época. Embora poucos eleitores tenham se mostrado cientes, o que foi submetido ao seu julgamento no segredo da urna foram, se medidos com uma fita métrica curta, os resultados finais da história europeia dos últimos 75 anos e, se medidos com uma fita métrica longa, os dos últimos cinco séculos.[1]
As remotas raízes da Europa foram, como de fato Meloni nos lembra insistentemente, sem dúvida cristãs, porém, mais tarde, a maravilhosa arborescência gerada por aquelas raízes (entrelaçadas com as raízes da civilização greco-romana) desenvolveu-se nas poderosas ramificações da revolução científica, da Revolução Francesa e da revolução sexual, na liberdade de pensamento, no livre mercado e no amor livre, no estado de direito, nos direitos da pessoa humana (de qualquer pessoa humana) garantidos pelas constituições liberais e na supremacia jurídica e cultural do indivíduo, das suas escolhas, dos seus gostos, dos seus sonhos, dos seus infalíveis erros, sobre os poderes do Estado.
Tudo isso, obviamente, não aconteceu sem esforço, não foi conquistado sem luta. Uma luta com resultados incertos, muitas vezes sanguinolentos. Parece que agora aquela luta deve recomeçar.
Ao fazer essa constatação, surge em mim um sentimento misto de raiva e de melancolia. É sobretudo quando penso nas garotas e garotos, nos meus alunos, nas minhas filhas, que me entristeço. Filhas e filhos de famílias absolutamente não tradicionais, muitas vezes sem qualquer educação religiosa, mas educados a ter como única pátria o mundo e como único deus – um deus, por assim dizer, mentiroso, até idiota às vezes – a busca da felicidade individual; esses garotos cosmopolitas por direito de nascimento no século XXI, fluidos por escolha ideológica, metamórficos por vocação, perdidos, frágeis, desconfiados, porém protegidos pela melhor tradição da modernidade, são, no bem e no mal, os filhos da nossa história. Contar para eles que aquela história foi um imenso equívoco equivaleria a repreendê-los por serem eles próprios um imenso erro.
Queremos mesmo fazer isso? E eles, o que terão feito os nossos garotos na penumbra da cabine eleitoral? Terão votado contra si mesmos?[2]
[1] A coalizão liderada pelo partido de orientação fascista Fratelli d’Italia ficou com 43,8% dos votos, o que lhe dá maioria no Parlamento e o direito de indicar o novo primeiro-ministro – que será muito provavelmente Giorgia Meloni, a líder da coalizão. A coligação de esquerda, comandada pelo Partido Democrático, ficou com 26,2% e passa a ser a segunda força política no Parlamento.
[2] A eleição de 25 de setembro registrou a maior taxa de abstenção da história: 36,2% deixaram de comparecer às urnas.