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instantâneos eleitorais III

NO MEIO, O LUTO

A campanha, a viuvez e a vitória de Raquel Lyra em Pernambuco

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No dia mais feliz de sua carreira política, Raquel Lyra recebeu a notícia mais triste de sua vida. Um dia antes da eleição para o governo de Pernambuco, Lyra, ex-prefeita de Caruaru, chegara a 17% das intenções de voto, em empate técnico com o segundo colocado. Estava a um passo de obter uma vaga no segundo turno para disputar o governo estadual com a líder isolada nas pesquisas, Marília Arraes. Lyra, filiada ao PSDB, ficou em terceiro lugar na disputa durante um bom tempo, mas, à medida que se aproximava o dia da votação, sua campanha foi ganhando tração e empolgando parte do eleitorado, que coloria as ruas com roupas e bandeiras lilases, cor-símbolo da sua candidatura.

Na véspera do primeiro turno, o comitê de Lyra aproveitou a onda positiva e promoveu comícios sequenciais, saindo da Região Metropolitana do Recife em direção a Caruaru, sua terra natal, a 133 km da capital pernambucana. Fernando Lucena, seu marido, fez o que sempre fazia: organizou tudo e dirigiu, ele próprio, a caminhonete que levava a sua mulher. Da manhã até a tarde, Lucena pilotou por Barra de Jangada, Piedade e Candeias, bairros de Jaboatão dos Guararapes, e depois passou Boa Viagem e Pina, já no Recife, tudo sob um sol de 30ºC. Ficou entusiasmado com a adesão popular. “Vai dar certo, vai dar certo”, disse várias vezes para a equipe. Dar certo, no caso, era levar Lyra para o segundo turno.

Apesar da empolgação, Lucena não estava nos seus melhores dias. Antes que a comitiva passasse por Moreno, Vitória de Santo Antão e Gravatá, Lucena deixou de dirigir a caminhonete. Sentia um desconforto no peito e no estômago. Em três ocasiões, chegou a pedir que parassem o carro para tentar aliviar a crise de náusea que sentia. Não era coisa inédita. Lucena, que os íntimos chamavam de “Nego”, estava habituado ao mal-estar provocado pelo refluxo. “Parece que tem um dragão dentro de mim”, costumava dizer, para descrever o desconforto.

A festa em Caruaru, berço político dos Lyra, ocorreu como o previsto e avançou até o início da noite. A candidata, que concorria pela primeira vez ao governo estadual, estava animada e confiante. Perto das 22 horas, encerrados os compromissos políticos, Lyra decidiu jantar com toda a família em um de seus restaurantes favoritos, o Faniif, especializado em comida contemporânea. À mesa, estavam suas irmãs, os respectivos maridos e filhos. Lucena chegou uns vinte minutos mais tarde, pois estivera conversando com apoiadores. “Ele ficou sentado na minha frente”, lembra a empresária Nara Lyra, irmã mais velha da candidata. Seu cunhado se contorcia discretamente com o desconforto físico e não estava extrovertido e falante, como era o habitual. Mas Nara não deu maior importância, pois já presenciara cenas similares em decorrência do refluxo.

Antes da chegada dos pratos, Lucena levantou-se, falou alguma coisa com um garçom e deixou o restaurante. O movimento não chamou a atenção. Como coordenava a campanha de sua mulher, era comum que se ausentasse para falar ao telefone com mais privacidade. Os pratos chegaram à mesa, Lucena continuava ausente. Lyra procurou o marido e soube que voltara para casa, ali mesmo em Caruaru. Ligou para ele e conversaram rapidamente. Era o refluxo, que já o tirara de reuniões familiares antes. Encerrado o jantar, Lyra foi para casa com os dois filhos, João, de 12 anos, e Nando, de 10. Encontrou o marido dormindo na cama. Tomou banho e deitou-se. O caçula também se deitou na cama do casal para passar a noite, como fazia com frequência.

Perto das sete da manhã de domingo, o dia da eleição, João entrou no quarto dos pais. E tudo mudou. Encontrou o pai caído no chão, ao lado da cama. Assustado, João acordou a mãe e o irmão. Lyra começou a telefonar para os parentes em busca de socorro. Acionou o marido de sua irmã Nara, o oftalmologista Marcio Mahon, que atendeu o celular de bom humor, brincando com as boas perspectivas eleitorais: “Bom dia, governadora!” Ao saber que Lucena estava desacordado, Mahon logo suspeitou da gravidade e saiu tão às pressas que esqueceu seus óculos de grau.

Mahon foi o primeiro a chegar ao apartamento, em menos de dez minutos. Em seguida, chegou Paula, a outra irmã de Lyra, também médica, especializada em pediatra e imunologia. Ela conta o que viu. “Foi totalmente desesperador, uma cena que não gostaria de ter presenciado na vida. Ele já não tinha pulso. Tentamos reanimá-lo com massagem cardíaca, tentamos nos apegar a cada fio de esperança. O Samu veio rápido, fez o que tinha de ser feito, mas não teve jeito.”

A ambulância do Samu chegou às 7h30. Os socorristas fizeram massagem cardíaca, deram injeção de adrenalina e realizaram traqueostomia, mas o caso era irreversível. Pelo inchaço e aspecto arroxeado do corpo, os médicos acreditam que Lucena foi abatido por um infarto fulminante horas antes de o filho entrar no quarto. “Passamos as primeiras horas com os meninos, chorando e rezando”, diz Paula. “Enquanto as coisas eram providenciadas, fomos para a casa da minha mãe. Nós só íamos. Não pensávamos em nada. Só obedecendo ordens, todo mundo chorando. A Raquel chorou muito e veio seu lado mãe, de proteção: tínhamos as crianças para cuidar.” Além dos dois filhos, Lyra tem três sobrinhos.

A notícia da morte de Lucena se espalhou rapidamente. Na véspera da eleição, a assessoria informara à imprensa que Lyra votaria às 8h30, na companhia de Priscila Krause, do Cidadania, sua candidata a vice-governadora. “Eu soube do ocorrido por telefone quando estava indo do Recife para Caruaru”, conta Krause, que chegou ao prédio de Lyra por volta das 8 horas. Subiu sem falar com os jornalistas, que, àquela altura, já estavam desconfiados da movimentação atípica na portaria do prédio.

Às 8h46 de domingo, quando o apartamento estava cheio de parentes e amigos próximos, o Blog do Mário Flávio, que cobre política local, deu uma nota sucinta: “Uma notícia triste para a campanha da candidata ao governo Raquel Lyra (PSDB). O marido dela, o empresário Fernando Lucena, morreu após um infarto. Ele passou mal na manhã de hoje e não resistiu após ser socorrido. Mais informações em instantes.” Depois desse blog, a conta de Instagram mais popular da cidade entrou na cobertura do caso. Pouco antes das nove da manhã, o Caruaru no Face postou uma nota para seus 280 mil seguidores: “Marido de Raquel Lyra, Fernando Lucena, morreu na manhã deste domingo.” João Henrique da Silva, dono da conta, explica: “Eu soube do caso por uma fonte da polícia logo depois das sete da manhã. Então liguei para uma moradora do mesmo prédio, que me confirmou a movimentação estranha do Samu dentro do apartamento.”

O corpo de Fernando Lucena, que trabalhava no ramo de automóveis e tinha 44 anos, foi levado para o Instituto Médico Legal perto das onze da manhã. O sepultamento foi agendado para as 17 horas, no Cemitério Parque dos Arcos, em Caruaru. Recolhida ao apartamento de sua mãe, Lyra foi consolada por irmãs e parentes, entre eles um tio psiquiatra, Evaldo Melo. Foi ele quem levantou o assunto: Lyra deveria votar ou não? A candidata decidiu não comparecer à urna. O único compromisso daquele dia seria enterrar o marido.

Por volta das 16 horas, Lyra deixou o apartamento da mãe acompanhada de seus dois filhos e da irmã Paula rumo ao cemitério. O caminho passava pelo Colégio Diocesano de Caruaru, onde a candidata vota desde a adolescência. Durante o percurso, os filhos conversaram com a mãe sobre qual seria o desejo do pai naquela circunstância extraordinária. “Os meninos ficaram falando ‘Mãe, vamos, você precisa votar’. Eles ajudaram muito. Foi um momento duro”, recorda Paula. Lyra entrou no colégio, votou e saiu chorando. No cemitério, havia centenas de pessoas. Nando, o caçula, olhava para o caixão e dizia: “Pai, eu só tenho 10 anos. Por que o senhor está aí?” O corpo foi enterrado às 18 horas, quando a apuração dos votos tinha começado.

Lyra acompanhou a apuração no apartamento de sua mãe. Ficou o tempo todo deitada no chão do quarto, sobre um tapete em frente à cama. Sem tevê, sem redes sociais, sem rádio. Ora chorava, ora ficava em silêncio. Estava acompanhada das irmãs e da mãe. Os filhos, cunhados e sobrinhos ficaram na sala, conferindo a apuração. De vez em quando, os filhos entravam no quarto para dar uma prévia sobre a disputa pelo segundo lugar. “Você está na frente, mamãe.” Lyra recebia o aviso com apatia.

Às 20h35, saiu a notícia pela qual Lyra e o marido tanto batalharam em um esforço que se iniciara em agosto de 2021, em constantes viagens de fim de semana para contatos políticos: Lyra teve um desempenho surpreendente e disputaria o segundo turno com Marília Arraes, candidata do Solidariedade. Ao final da apuração, Lyra ficou com 20,58% dos votos, contra 23,97% de Arraes, que obteve um percentual menor do que tinha dias antes, segundo as pesquisas. Ao receber a notícia mais feliz de sua carreira política, Lyra continuou deitada no chão, apática.

Raquel Lyra tinha 13 anos quando conheceu Fernando Lucena, apenas um ano mais velho, em Caruaru. Foi seu primeiro e único namorado. Como a mãe de Lucena morrera num acidente de carro seis meses antes, ele adotou Mércia, a sogra, como se fosse sua própria mãe. “Eu perdi um filho, não apenas um genro”, disse Mércia.

Na missa de sétimo dia da morte de Lucena, na Catedral Nossa Senhora das Dores, Lyra fez uma homenagem ao marido. Relembrando os apelidos íntimos – ele, Nego; ela, Kel – começou dizendo: “Nego, você é grande parte do que nos trouxe até aqui e quero te dizer que vai continuar sendo. Nunca existiu Kel sem Nego, nem Nego sem Kel. Quero lhe dizer que não está sendo fácil. Eu não sei como viver sem a sua presença física, sem seu abraço nem seu cheiro. O sítio, os nossos churrascos, as nossas fogueiras, a nossa cama apertada com quatro dormindo juntos.” Mais adiante, fez um pedido: “Desde domingo eu me questiono. Eu tenho buscado respostas: por que com a gente? Por que agora? Como seguir? Eu ficou pensando no que você me diria neste momento e só me vem uma resposta: ‘Fique tranquila, vai dar certo, eu vou cuidando de tudo.’ Pois cuida, Nego, nos ajuda a ficar de pé.”

Lyra ficou pé. Na primeira semana depois do primeiro turno, ela isolou-se na casa da mãe. “Eu nunca mais quero voltar para a minha casa”, chegou a dizer. Mergulhada no luto, não gravou qualquer peça de propaganda. Sua campanha então pediu ao Tribunal Regional Eleitoral para adiar a retomada do horário eleitoral gratuito por “razões humanitárias”. Em vez do dia 7, uma sexta-feira, o recomeço seria no dia 10, uma segunda. “Tal período é o mínimo que se pode conceder à candidata, que poderá participar da missa de sétimo dia em memória de seu falecido esposo, além de reunir as forças necessárias para consolar os seus filhos e para vivenciar o seu próprio luto, sem precisar ser submetida às gravações dos programas para rádio e televisão durante período tão delicado de sua vida”, dizia o requerimento.

Mas a coligação oponente não aceitou. Em sua negativa, informou: “Marília Arraes se solidariza, mais uma vez, com a candidata Raquel Lyra, e compreende seu momento pessoal de dor. No entanto, acredita na importância de dar prosseguimento ao diálogo com a população de Pernambuco e no apoio à candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, que também está retomando, nesta sexta-feira, sua caminhada no segundo turno das eleições.” Arraes recebeu uma torrente de críticas, por falta de empatia e humanidade, mas assim foi feito.

Retomada a campanha sem trégua, Arraes começou jogando no colo da adversária o nome mais radioativo da política pernambucana: Jair Bolsonaro. “Estamos vivendo um momento crucial para a democracia brasileira”, disse Arraes, na noite do primeiro turno. “Quem está contra Lula está com Bolsonaro de alguma maneira. Temos que trazer essa discussão. Afinal, quando a pessoa diz ‘tanto faz’, está sendo conivente com essa política fascista. Quem diz ‘tanto faz’ ajudou Bolsonaro a ir para o segundo turno.”

Em um debate eleitoral realizado pela TV Globo Nordeste, três dias antes do segundo turno, Arraes, cuja candidatura foi apoiada publicamente por Lula, voltou ao assunto e acusou Lyra de ser a “trincheira do bolsonarismo” em Pernambuco. “O estado tem duas candidatas mulheres. Uma está do lado da democracia, a outra não tem coragem de dizer que está com Bolsonaro”, disse, de olho nos votos do petista no eleitorado pernambucano. (No segundo turno, Lula teve 66,93% dos votos no estado.)

Lyra não declarou seu voto presidencial e continuou sua estratégia de não alijar nem bolsonaristas nem petistas. Teve sucesso. Em Petrolina, o bolsonarista Miguel Coelho (União Brasil), que disputou o governo do estado e ficou com 18,04% dos votos no primeiro turno, aderiu à candidatura de Lyra. Galeguinho, como é conhecido em razão da pele alvíssima e dos cabelos aloirados, ofereceu à candidata um palanque apinhado de bolsonaristas e promoveu uma passeata na cidade, coalhada de bandeiras brasileiras e gente com adesivo “vote 22”. “A Raquel está juntando oposição e situação em muita cidade”, disse Coelho.

De fato. Em Serra Talhada, sob um calor de 36ºC dentro da quadra da Associação Atlética Banco do Brasil, Lyra foi recebida pela prefeita petista Márcia Conrado, uma das coordenadoras da campanha de Lula no estado. “A Raquel me representa, não se faz de vítima diante das dificuldades da vida. Nem toda mulher me representa”, disse Conrado para uma plateia de 3 mil pessoas em comício com três telões mostrando imagens de campanha de Lula. “Votem em Raquel para o governo e Lula para a Presidência”, pediu Conrado, que vestia camiseta vermelha e boné do PT.

Em Floresta, Lyra participou de dois comícios em uma mesma manhã: um na casa da prefeita Rorró Maniçoba, do PSB, e outro a cinco quadras de distância, em um espaço de eventos sob o comando do deputado estadual Ricardo Novaes, também do PSB. Embora pertençam ao mesmo partido e estivessem com Lula, Maniçoba e Novaes não se bicam, mas ambos aderiram à candidatura de Lyra. “Política é a arte do malabarismo”, dizia Rubens Júnior, que assumiu boa parte do papel de Lucena na coordenação da campanha de Lyra.

Na última semana antes do segundo turno, a piauí acompanhou Lyra em seis cidades do sertão (Petrolina, Ouricuri, Floresta, Salgueiro, Serra Talhada e Arcoverde), duas da Zona da Mata (Timbaúba e Carpina), outras duas da Região Metropolitana do Recife (Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca) e uma do Agreste (Surubim). Em nenhum comício, carreata ou caminhada, Lyra revelou seu voto para presidente. Quando seus adversários mencionavam Lula ou Bolsonaro, fazia cara de paisagem. Não assentia com a cabeça nem esboçava qualquer expressão de apoio ou reprovação. A quem perguntava sobre o assunto, tinha uma resposta pronta: “A minha decisão é de unir Pernambuco.”

A única saia justa aconteceu no belíssimo jardim tropical da Garrido Galeria, um casarão transformado em espaço de arte contemporânea no bairro de Santana, no Recife. Marcado para as 14 horas de uma terça-feira, deu-se ali o que jocosamente foi chamado de “Encontro com Túlio Gadêlha”, o deputado da Rede que foi reeleito com 134 391 votos e é namorado de Fátima Bernardes, que até pouco tempo atrás apresentava o programa Encontro com Fátima Bernardes, na TV Globo.

No evento, Gadêlha, contrariando a direção de seu partido, anunciou apoio a Lyra. Ao justificar sua decisão, fez uma revelação: disse que tinha certeza de que a candidata não votaria em Jair Bolsonaro. Era a primeira vez que um aliado fazia tal afirmação. Lyra fez a mesma cara de paisagem de sempre. Então o jornalista Luiz Fernandes, do Portal de Prefeitura, perguntou se a informação havia sido passada em caráter confidencial, já que em público a candidata mantinha a neutralidade. Gadêlha ficou em silêncio por cinco segundos – e então informou que Lyra havia dito que jamais votaria em Bolsonaro durante uma entrevista de rádio. Não especificou a rádio nem a data. A piauí apurou que a declaração fora dada no programa Mega Paredão, da Rádio Cultura do Nordeste, de Caruaru, em 23 de dezembro do ano passado, ao radialista César Lucena. Estava longe de ser uma declaração enfática, mas deixava suficientemente claro que Lyra não votaria em Bolsonaro. Eis o diálogo:

Lucena: O seu pai disse que a senhora não vota em Bolsonaro. A senhora confirma a frase de seu pai?

Lyra: Confirmo.

Lucena: E no Lula? A senhora diz que quer um presidente com o pacto pelo Nordeste…

Lyra: Primeiro, que qualquer exercício agora é mera projeção de futuro que a gente desconhece, não sabemos quem são os candidatos […]. Eu quero dizer que eu votei três vezes no presidente Lula, votei uma vez em Dilma Rousseff, ia votar em Eduardo Campos, infelizmente ele morreu, e votei em Marina Silva. Votei em Aécio (Neves), em (Geraldo) Alckmin e votei nulo no segundo turno.

(No primeiro turno da eleição deste ano, Lyra votou em Simone Tebet.)

A disputa entre Lyra e Arraes em Pernambuco representou, a um só tempo, uma novidade e uma velharia. A novidade é que o estado nunca elegeu uma mulher para o governo local e, mesmo antes do segundo turno, já se sabia que certamente, a partir de janeiro de 2023, o cargo seria exercido por uma mulher. Não é um dado trivial para o mundo político, onde ainda há um abismo entre os gêneros. Dos 184 municípios, 35 são comandados por prefeitas. Dos 49 deputados estaduais, 10 são mulheres. Nesta eleição, pela primeira vez na história pernambucana uma mulher foi eleita para o Senado: Teresa Leitão, do PT, tem 71 anos e ocupará a cadeira de senadora até 2030.

A velharia é que Lyra e Arraes representam oligarquias políticas locais. Marília é neta de Miguel Arraes, uma lenda na vida pública de Pernambuco que, além de prefeito do Recife, foi três vezes deputado federal e três vezes governador. Marília também é prima de Eduardo Campos, que foi duas vezes governador e morreu num desastre de avião quando fazia campanha para presidente da República em 2014. Ela também é parente do atual prefeito do Recife, João Campos, filho mais velho de Eduardo Campos, embora os dois estejam rompidos desde a eleição municipal, em 2020. “Eles apareceram de mãos dadas com Lula em cima de palanque não porque se gostam, mas para manter a hegemonia familiar aqui no estado”, diz Priscila Krause, a vice de Lyra.

Por seu lado, Raquel Lyra vem de uma família influente em Caruaru. Seu avô João Lyra Filho, duas vezes prefeito da cidade, aprendeu a ler depois de se casar com Guiomar Farias, uma professora primária. “Ele vivia de fazer pequenos biscates, depois virou caminhoneiro, comprou uma bomba de gasolina, teve uma concessionária…”, enumera Mércia, relembrando a trajetória do seu sogro, em conversa com a piauí em seu apartamento com vista para o estádio do Central Sport Club, o principal time da cidade.

O pai de Raquel, João Lyra Neto, dono de uma empresa de transporte rodoviário chamada Caruaruense e proprietário do Vanguarda, jornal que foi fechado na pandemia, foi prefeito de Caruaru por dois mandatos e também governou Pernambuco. No primeiro mandato de prefeito, iniciado em 1989, venceu por uma diferença de 88 votos. Como à época os votos eram em papel e a apuração levava mais de uma semana, a menina de 10 anos carregava para o colégio um rádio de pilha para acompanhar as notícias. “A cada notícia de abertura de urnas na zona rural, ela gritava ‘Painho ganhou voto’”, recorda Mércia.

Seu tio Fernando Lyra, irmão de seu pai e deputado federal por seis mandatos, organizava as reuniões em favor das eleições diretas, em Caruaru. “Já vi Gilberto Gil e Bete Mendes na sala de casa”, recorda Raquel. Derrotadas as Diretas Já, o tio foi um dos articuladores da candidatura de Tancredo Neves, que o escolheu para ser seu ministro da Justiça. Com a morte de Tancredo, Fernando Lyra foi mantido no cargo pelo presidente empossado José Sarney. Os Lyra se orgulham da razão da demissão de Fernando Lyra que, em um evento para declarar o fim da censura no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, cometeu um ato de “sincericídio”. Falou que Sarney representava “a vanguarda do atraso”.

No segundo ano do ensino médio, Raquel Lyra deixou Caruaru e se mudou para o apartamento da família no Recife. Foi estudar em um colégio mais rigoroso para se preparar para o vestibular. Seguindo a tradição das irmãs de estudar em faculdades públicas, cursou direito na Universidade Federal de Pernambuco. Nos fins de semana, voltava para Caruaru para ficar com o namorado, Fernando Lucena. Ela chegou a cursar administração de empresas na mesma universidade, mas interrompeu o curso para se dedicar exclusivamente ao direito. Na prova da segunda fase da OAB, tirou nota 10.

Formada, começou uma carreira bem-sucedida como concurseira. Foi aprovada como advogada do Banco do Nordeste, depois como delegada da Polícia Federal. Entre 2002 e 2005, trabalhou na Delegacia Fazendária nas divisões do Rio de Janeiro e do Recife. Nesse período, fez outro concurso, para procuradora do Estado. Passou.

Até então, acompanhava a política como espectadora. Em 2007, no entanto, deu dois passos decisivos: filiou-se ao PSB e comandou a Procuradoria de Apoio Jurídico-Legislativo do governador Eduardo Campos, cujo vice era seu pai, João Lyra Neto. “Ali, ela formatou na cabeça que iria entrar de fato no meio da política”, diz sua mãe. Deixou o cargo na Procuradoria em 2009 para disputar uma eleição para deputada estadual. Foi eleita com 49 610 votos. Quatro anos depois, foi reeleita.

Em 2016, Lyra decidiu repetir os passos do avô e do pai e disputar a Prefeitura de Caruaru. Estava tudo apalavrado com o então govenador, Paulo Câmara, do PSB. Mas, dias antes do prazo final para protocolar a candidatura, Câmara recuou. Lyra ficou indignada. Queria ouvir o recuo da boca do governador. Deslocou-se até o palácio do governo no Recife, tomou um chá de cadeira de seis horas e ouviu que, sim, o PSB decidira lançar o médico Jorge Gomes para prefeito de Caruaru.

Lyra deixou o palácio tarde da noite e embarcou no primeiro voo para Brasília, onde arrancou o compromisso de Aécio Neves, então presidente do PSDB, de que ela seria candidata pelo partido sem ameaças de traição. Como Aécio topou, Lyra trocou o PSB pelo PSDB, candidatou-se e venceu num segundo turno acirradíssimo, com 11 mil votos à frente do candidato do PMDB. Quatro anos depois, reelegeu-se no primeiro turno com 66,8% dos votos. “O Paulo Câmara não percebeu o tamanho de Raquel, agora será substituído por ela no governo”, diz Mércia, deixando claro o seu orgulho pela filha.

A morte de um candidato ou seu cônjuge repercute nas urnas. Em agosto de 2014, o acidente aéreo que matou Eduardo Campos, então candidato a presidente pelo PSB, catapultou a candidatura de Marina Silva, sua vice. Campos tinha 9% das intenções de voto quando morreu. Marina assumiu seu lugar e, um mês e meio depois, a par de seus próprios méritos, terminou a campanha com 21,32% dos votos. Além de produzir maior exposição na mídia, a morte sensibiliza o eleitor. “Quando eram dez da manhã, todo o estado de Pernambuco sabia da tragédia. É inegável que essa fatalidade foi fundamental no dia da votação em uma disputa tão acirrada”, diz o cientista político Maurício Moura, dono do Instituto Ideia. (A disputa foi tão acirrada que aconteceu um fato raríssimo: os cinco primeiros colocados apareciam com dois dígitos nas pesquisas.)

No segundo turno, no entanto, Moura avalia que se deu uma nova eleição, já que, na primeira rodada, a maioria do eleitorado – cerca de 60% – não votou nem em Marília Arraes, nem em Raquel Lyra. É difícil medir o impacto da morte de Lucena na segunda fase da disputa, mas o fato é que o desempenho de Lyra só cresceu. Os adversários temeram esse efeito. Em entrevista à Rádio Liberdade, de Caruaru, no dia 14 de outubro, o deputado federal Fernando Rodolfo (PL) pediu para que a população não votasse em Raquel Lyra em razão do seu luto. “A gente não pode deixar que um drama, uma comoção familiar, paute os destinos de Pernambuco. […] A gente precisa trazer a política de volta, o debate de volta à campanha, e acabar com essa história de vitimização”, disse. O deputado lembrou que a eleição de Paulo Câmara ao governo estadual em 2014 deu-se justamente em razão da comoção popular com a morte de Eduardo Campos, que o indicara como candidato. “E o resultado disso foi que Pernambuco viveu os últimos oito anos sob o comando do pior governador de sua história.”

Falar em “vitimização” é uma injustiça, tanto mais que Lyra não usou a morte do marido em nenhum momento de sua campanha desde que pedira o adiamento da retomada do horário eleitoral. Eu estive em mais de dez comícios de Lyra e não a vi chorar no palanque, nem mesmo mencionar o nome ou a morte do marido de forma explícita. Em Salgueiro, município do sertão, talvez tenha ocorrido o evento em que mais se falou do assunto. Lyra limitou-se a dizer o seguinte: “Vocês sabem que eu não tenho vivido um momento fácil em minha vida, mas os obstáculos mostram que a missão nos fortalece. Quero agradecer a minha família, aqui na figura de minha irmã Paula e de meu cunhado Rodrigo, que não tem me deixado um minuto só.” Quando apoiadores trouxeram o assunto da morte em comícios, Lyra não pegou carona. Em Petrolina, Miguel Coelho, do União Brasil, disse: “Você tem um anjo olhando por você lá no céu.” Ela apenas sorriu, contida, e não falou nada a respeito.

Mas os políticos pernambucanos, como qualquer político, sentiram o cheiro do poder. No primeiro turno, Lyra conseguiu o apoio dos prefeitos de apenas oito cidades: Canhotinho, Caruaru, Catende, Igarassu, Quipapá, Riacho das Almas, Vertentes e Vicência. Somados, os municípios concentram menos de 450 mil eleitores, em um total de 7 milhões no estado. No segundo, em apenas duas semanas, o número saltou para cem cidades. Uma semana antes da votação, já eram 130. A corrida de prefeitos na sede estadual do PSDB no Recife, de onde a vice Priscila Krause recebia os apoios, foi tão grande que ambulantes vendiam água e pipoca na porta, e um restaurante das imediações decidiu dar desconto de 10% aos clientes com adesivos de Lyra.

Nos primeiros meses do ano, desde que deixou a Prefeitura de Caruaru para concorrer ao governo do estado, as intenções eleitorais de Lyra não eram levadas muito a sério. Seu nome oscilava entre o segundo e o terceiro lugares nas pesquisas, mas sua candidatura não era vista como competitiva. “Para nós, mulheres, nem mesmo quando dizemos abertamente o que vamos fazer parece ser suficiente para sermos acreditadas”, diz ela. “Todas as análises dizem que eu não seria candidata.” Assim que passou para o segundo turno, as dúvidas sobre Lyra se dissiparam como que num passe de mágica.

Mas começou a enfrentar um traço do machismo. Na retomada da campanha, não foram poucas as ocasiões em que jornalistas indagaram se Lyra não cogitara abandonar o pleito para dedicar-se ao cuidado com os filhos pequenos. Ela imagina que, se um candidato homem ficasse viúvo durante a campanha, ninguém lhe faria a mesma indagação. “Em nenhum momento alguém perguntou como eu estou”, diz ela, com os olhos marejados. “Eu estou sangrando por dentro. Vivo um dia de cada vez. Dormir é menos difícil do que acordar. Eu faço o que tem de ser feito, sem pensar no dia de amanhã.”

Nos sete dias seguintes à morte do marido, Raquel Lyra manteve contato apenas com sua vice, Priscila Krause, por telefone. E, no dia em que retomou sua agenda externa, levou outro susto. Era 12 de outubro, feriado de Nossa Senhora Aparecida, quando todos os netos estavam reunidos no apartamento da avó. João, o filho mais velho de Lyra, acordou sentindo fortes dores abdominais. Chegou a vomitar. O garoto ligou para a sua mãe. Lyra, que estava num evento com prefeitos, orientou que tomasse um probiótico. “Então, Paula pegou o telefone falando sobre a suspeita de apendicite”, lembra Lyra. João foi levado para o Recife, onde se submeteu à cirurgia de emergência.

Viúva havia uma semana, saindo para o primeiro dia de campanha, e agora com um filho internado no hospital para uma cirurgia – tudo isso configurava um estresse inesperado. Mas Lyra ficou de pé. “É claro que ver meu filho tomando anestesia geral deixa a gente preocupada, mas estava muito segura”, disse ela, que passou o dia todo ao lado do filho. “Depois do que vivi, nada vai me abalar.” Em um único dia de campanha, chegava a rodar mais de 500 km para cumprir comícios, carreatas e encontros com prefeitos. Quando sentia dores no estômago, tomava um remédio para gastrite nervosa. Muitas vezes, almoçava uma tapioca. Com 1,61 metro de altura, passou a perder peso.

Como era presença constante na campanha, seu marido preencheu todos os momentos do segundo turno. “Eu o enxergo em todos os lugares, em cima dos carros de som, nas caminhadas. Foi ele quem escolheu a maioria dos jingles”, conta. Mas não compartilha a ausência com as pessoas que a cercavam. Em sua equipe, ninguém a viu reclamar. Por ordem dela, a tragédia não foi tema de nenhuma propaganda eleitoral. “É claro que a morte abrupta chamou a atenção para ela, mas uma campanha vai além disso. A Raquel tem causado comoção porque ela passa confiança e desperta sentimento de mudança”, avalia Rubens Júnior, coordenador de campanha e amigo do casal há décadas. Não foi feito nenhum acordo entre amigos e correligionários, mas o fato é que ninguém perguntava do marido. O infarto acabou virando um não assunto.

Mas houve momentos em que ninguém precisava mesmo falar nada. Em um comício em Vitória de Santo Antão, cidade onde a família de Lucena morou por alguns anos, ela e seu cunhado Fábio – que é gêmeo idêntico de Lucena – choraram ao se encontrar, emocionando quem estava ao redor. Ao entrar no carro logo após encerrar o evento, Lyra voltou a cair no choro. Em outra ocasião, quando ela e o cunhado subiram ao palco da casa de shows Arena Caruaru, a plateia se comoveu. “Quando vi o Fábio chorando, era como se eu estivesse diante do Nego. Um era fotocópia do outro. Precisei parar, respirar para continuar a narração”, conta o locutor Carlos Augusto. Em outra ocasião, a caminho de Surubim, Lyra falou à piauí que aquele era o melhor e o pior momento de sua existência. “Algumas pessoas levam uma vida para encontrar o amor de suas vidas, eu encontrei bem cedo”, diz.

Na noite de domingo, dia 30 de outubro, Raquel Lyra estava eleita governadora de Pernambuco com 58,70% dos votos. Desta vez, acompanhou a apuração dentro da casa de sua tia Márcia, viúva de Fernando Lyra, na Região Metropolitana do Recife. Ao anúncio de sua vitória, recebeu um abraço coletivo dos dois filhos, da sua mãe e das irmãs. Todos choraram. Depois desse encontro familiar, seguiu para o hotel Beach Class Convention, em Boa Viagem, onde deu uma entrevista coletiva. Depois, foi ao comitê discursar diante da militância. Mas, em respeito a Fernando Lucena, não houve festa.

Para vencer, Lyra apresentou-se como a personificação da mudança – não era nem a continuidade do governo de Paulo Câmara, que quase bate 60% de rejeição, nem da família Arraes, que está no poder estadual há décadas. Com posições centristas, Lyra é sensível à questão do meio ambiente e do combate à criminalidade. Quando o assunto é desigualdade e redução da miséria, alinha-se um pouco à esquerda. Na campanha, prometeu universalizar o fornecimento de água potável – há 2 milhões de pessoas sem água encanada no estado –, enfrentar a carência de saneamento básico no Grande Recife e criar o “Mães de Pernambuco”, uma espécie de Bolsa Família local, destinando 300 reais mensais a mulheres em situação de pobreza e com filhos de 0 a 6 anos. Seu trabalho na Prefeitura de Caruaru ajudou. Em dois mandatos, Lyra acabou com a fila de espera nas creches, na cidade e na zona rural, e conseguiu derrubar à metade a taxa de homicídios.

Depois da vitória, Lyra e os filhos mantiveram a rotina. Todos têm feito terapia por videochamada. João e Nando também estão fazendo aulas a distância. “São eles que estão me dando força para seguir em frente.” Até o fechamento desta edição, Lyra continuava se alternando entre a casa da mãe em Caruaru e o apartamento da irmã Paula, no Recife, onde estavam seus dois filhos. Não haviam voltado para o apartamento por razões óbvias – e ainda lidavam com uma coincidência fúnebre. O último morador do apartamento teve um destino semelhante ao de Lucena: aos 38 anos, durante o café da manhã, teve um infarto fulminante.


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)