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A AMEAÇA À DEMOCRACIA ISRAELENSE E O PAPEL DA MEMÓRIA

Amos Gitaï, um cineasta acostumado a enquadrar a história de Israel, escreve sobre os protestos contra as mudanças no sistema judiciário e o risco de um regime autocrático no país
Imagem A ameaça à democracia israelense e o papel da memória

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A memória não é inocente, nem é apenas uma questão sentimental. Pensar no passado pode nos ajudar a injetar ideias no futuro. E a pergunta que sempre permanece é esta: como podemos transpor esses pensamentos para outras mídias, a escrita e o filme? Não devemos esquecer que o que a câmera faz é enquadrar. Filmar é tomar uma série de decisões sobre o que aparecerá no quadro e o que ficará de fora. Isso significa que nossas escolhas incluem algum grau de distanciamento e marginalização, o que requer pensar na estratégia certa de filmagem para cada filme e no uso específico – e calculado – desse fetiche chamado câmera.

Nesta época em que somos bombardeados por imagens na tevê e na internet, para informação ou entretenimento, e em que a tecnologia e a indústria de produção de imagens evoluem constantemente e se tornam cada vez mais sofisticadas é importante estar bem consciente do ato da representação. É importante lembrar que não se trata apenas de saber “o que” filmar, ou seja, qual o conteúdo da imagem a produzir, mas também “como” filmar, isto é, que métodos e técnicas de produção de imagem serão utilizados.

Esse conceito estético está presente na maioria dos meus filmes. Tenho que refletir sobre o significado ou a função cultural das ferramentas e materiais do meu trabalho, no meu próprio contexto. Justamente por isso que, no momento da filmagem, é preciso considerar cuidadosamente as estratégias para a câmera, assim como o tipo de perspectiva que queremos propor. Esses aspectos tocam, obviamente, na questão ética das relações estabelecidas entre a câmera e o objeto filmado.

Muitos períodos cruciais da minha biografia coincidiram com eventos importantes da história de Israel. Meu avô Eliyahu embarcou em Odessa (cidade da Ucrânia, então parte do Império Russo), em um navio com destino a Alexandria, no Egito; a partir daí, segundo a mitologia familiar, viajou até Jafa (hoje parte de Tel Aviv) montado num camelo. Isso foi em 1905. Meu avô Eliyahu e minha avó Esther pertenciam àquela geração que ficou fascinada pelas grandes utopias do início do século XX. Ambos romperam com suas famílias para emigrar para Israel.

A ruptura mais grave foi com a família da minha avó, uma família numerosa de judeus muito ortodoxos. Quando Esther disse a seus pais que estava indo para a Palestina, eles entraram em Shivá, sete dias de luto: declararam que a filha estava morta. Ela não só havia seguido o homem que amava, como também não esperara um sinal do Messias para ir à Palestina. Esse julgamento da família atormentou Esther a vida inteira. Mais tarde, quando seus pais também se mudaram para a Terra Santa a fim de terminar seus dias em Safed, o grande centro da cabala na Galileia, eles foram visitá-la, mas não entraram na casa. Encontraram-se com ela na soleira da porta.

Lembro que, quando eu era criança, Efratia, minha mãe, me pediu para acompanhá-la a Safed, onde queria encontrar o túmulo do meu avô. Ao chegar lá, soube que um terremoto havia arruinado grande parte do cemitério. O zelador achou apenas um pedaço da lápide. São esses fragmentos de biografias, tantos pedaços de pedra, que formam parte da história moderna de Israel.

Efratia nasceu em Tel Aviv em 1909, o ano em que a cidade foi criada. Escreveu cartas a vida toda. Sua correspondência abrange setenta anos, cobrindo seus tempos de adolescente, mulher, mãe e viúva. Em suas cartas, ela nos fala sobre o contexto histórico em que viveu: os pioneiros socialistas chegando da Rússia, a criação do Estado de Israel. A vida de Efratia espelha o desejo inicial de construir Israel como uma sociedade moderna e igualitária – uma visão que agora está sendo atacada por tendências revisionistas.[1]

Munio Weinraub, meu pai, era arquiteto formado na Bauhaus. Foi detido pelos nazistas em 1933, preso, espancado e finalmente deportado para a Suíça, de onde mais tarde partiu rumo à Palestina. Vindo de Berlim via Basileia, mergulhado nas ideias das vanguardas europeias, precisou construir uma nova identidade em Israel. Era um mundo totalmente estranho para ele; Munio o via como uma espécie de “Costa Oeste da Ásia”, enquanto Efratia, sua mulher, vivia o ímpeto pioneiro de criar instituições sociais e políticas originais.

Ao mesmo tempo existe no país uma identidade palestina substancial, de pessoas que foram deslocadas e exiladas por Israel. Algumas foram declaradas, pelas autoridades, ausentes das aldeias em que viviam porque não estavam lá em determinada data em 1948 (ano da criação oficial do Estado de Israel). Então foram realocadas e desde então miram de longe suas casas e sua própria história, tomadas pelos israelenses. No país, também formam outras identidades os judeus norte-africanos do Marrocos, da Tunísia, Argélia e Líbia, aos quais Ben-Gurion[2] atribuiu o papel de preencher o vazio deixado pela saída dos árabes – eles não perdoaram o Partido Trabalhista por sua atitude paternalista. Israel é composto por pessoas que, em sua maioria, tiveram uma jornada de vida complicada, pessoas que passaram por labirintos intermináveis.

Assim como todos os que nasceram depois da criação do Estado de Israel, eu sou, é claro, o produto da história da minha família. Mas sou também algo mais. O poeta Shaul Tchernichovsky diz, em um belo poema, que o homem é “a marca da paisagem do seu nascimento”. Sou cidadão de um país que, espero, conservará suas regras democráticas e as instituições que sempre lhe permitirão buscar o diálogo. Sinto medo da dominação das forças autoritárias.

Podemos falar sobre nossa vida interior sem exotismo. Com meu filme Kadosh (1999), a ideia foi mostrar que Israel é uma sociedade múltipla, e que não se pode compreender o país usando slogans. É uma sociedade formada por religiosos, mistos de judeus com árabes etc. Não é uma sociedade homogênea. Em cada filme que fiz, o quebra-cabeça fica mais complexo, tentando mostrar ângulos diferentes.

Há cinquenta anos ocorreu a Guerra do Yom Kippur. Na época, eu era soldado da reserva em uma unidade de resgate por helicóptero nas Colinas de Golan. Para nós, o inimigo era a morte: tínhamos que salvar pessoas. Quando nosso helicóptero sobrevoou o território sírio, vi aldeias, jipes e bases militares – e foi então que um míssil nos atingiu e o helicóptero caiu. De socorristas passamos a vítimas. Levei 27 anos para conseguir fazer um filme de ficção sobre essa experiência (O Dia do PerdãoKippur, de 2000). Estou ciente de que sou apenas um indivíduo dentro desse grande mecanismo, talvez uma testemunha, quase no sentido hitchcockiano de testemunhar um crime. Não vou falar em termos de missão, mas há algo que preciso traduzir por meio da minha própria experiência.

A memória desempenhou um papel importante no meu trabalho desde o início. Quando o primeiro-ministro Yitzhak Rabin foi assassinado por um estudante judeu de extrema direita, em 4 de novembro de 1995, senti que página da história havia sido virada. Em um contexto como esse, o problema para um artista, para um cineasta, é saber o que fazer quando se vive ao lado de um vulcão. É preciso oferecer uma perspectiva. E isso não é fácil. Assim, alguns anos atrás, meu filme Rabin, o Último Dia (2015) foi uma espécie de gesto de lembrança, com a pura esperança de que ressuscitar a memória possa fazer as coisas acontecerem.

Em Israel, somos confrontados com uma realidade política em que falta uma figura corajosa – eu diria, até mesmo, otimista – que avance, estenda a mão, crie um diálogo, apesar de tudo o que está acontecendo no Oriente Médio. A ausência de uma figura visionária é dramática. Nesse contexto, o filme, a pe­ça teatral e as exposições que dediquei ao assassinato de Rabin se tornam um ato cívico.

Quando fiz Diário de Campo, antes e durante a Guerra do Líbano de 1982, tive a mesma sensação: os conflitos estavam constantemente se expandindo, devido às regras implementadas pelo governo de Israel. No momento, a situação é de impasse total. O atual governo israelense é fortemente reacionário. Ele intervém em todas as áreas, incluindo justiça, cultura e educação, para limitar a liberdade de expressão e propagar comentários racistas. Na falta de soluções políticas que resolvam a questão da ocupação, homens e mulheres estão se levantando e agindo em nome da sua consciência cívica. Foi isso que eu quis mostrar em A Oeste do Rio Jordão (2017), uma homenagem à coragem cívica dessas pessoas que, como eu, se sentem decepcionadas, e se veem forçadas a entrar pessoalmente em ação.

A batalha travada por esses grupos de mulheres e homens não é nada fácil. Ela desperta antagonismo, até mesmo ódio. Há muitos casos em que as pessoas são maltratadas, mas continuam convencidas da necessidade de se aproximar, de boa-fé, dos palestinos, que estão sob ocupação há 56 anos. Esse período corresponde a dois terços do tempo de existência de Israel. Esses grupos levantam questões éticas e morais no debate público. Eles são a prova viva da existência de israelenses que desejam, genuinamente, a reconciliação, e de que o país não pertence apenas aos políticos hoje no poder.

Atualmente, vivemos um momento de raiva. Há uma impressionante revolta por parte de diversos elementos da sociedade israelense – médicos e cientistas, artistas e soldados, empresários, feministas e membros da comunidade LGBTQIA+, opositores à ocupação da Cisjordânia e ativistas de direitos humanos. Todos eles estão convergindo em um movimento de centenas de milhares de pessoas, algo nunca visto em Israel. É um evento histórico. Essas pessoas estão respondendo a um apelo tremendo para acordar e tentar impedir que o país deslize na direção de um regime autocrático e ditatorial. Em diversas áreas, como a economia e as artes, já existe o risco de um êxodo de talentos – e o país pode perder os seus membros mais modernos.

Essa revolta dos cidadãos, que vem ocorrendo há mais de seis meses, vale uma reflexão. Semana após semana, centenas de milhares de pessoas se reúnem para bloquear as estradas e os cruzamentos, para fazer manifestações em praças públicas. É um movimento de intensa ira contra um governo que está arriscando fragmentar o país em mil pedaços e cujo único objetivo é satisfazer os desejos de seus aliados ultranacionalistas, racistas e ultraortodoxos, arriscando-se a marginalizar os setores mais produtivos da sociedade.

Essa revolta sem precedentes em Israel surge justamente quando o país comemora seu 75º aniversário. E suscita a pergunta: “O que os cidadãos podem fazer para deter esse processo de destruição?” Mesmo depois da derrota, com a aprovação da lei que reduz os poderes do Poder Judiciário e proíbe a Suprema Corte de revisar decisões do governo, o movimento de protesto continuou vivo, sem esmorecer. Por isso mesmo não estou completamente pessimista.

A estratégia do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é criar o caos para depois poder controlar a situação. Mas desta vez o caos é tão grande, tão disseminado, que está além do seu controle. Sim, porque ele não pode controlar o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Não pode controlar os Emirados Árabes Unidos, que cancelaram a visita de Netanyahu. Não pode controlar os 10% de médicos que anunciam a intenção de deixar Israel, nem os jovens médicos que concluíram seus estudos no exterior e não vão voltar. Também não pode controlar mil pilotos da Força Aérea, que já deixaram claro que não vão voar nem arriscar a vida por um ditador. Tampouco pode controlar um ex-chefe do Mossad, a agência de inteligência de Israel, que comparou certos membros do governo Netanyahu com pessoas da Ku Klux Klan. Não pode controlar nem os veteranos da tropa de elite Egoz, com os quais fiz meu serviço militar obrigatório, que convocam à resistência “contra as ordens dos ladrões, criminosos, corruptos e parasitas que estão por trás do golpe de Estado”. Netanyahu tampouco consegue controlar os acadêmicos e historiadores que nos recordam como, há quase 2 mil anos, Jerusalém caiu e foi destruída pelos romanos devido à intransigência e ao fanatismo dos zelotes, o que levou ao fim da soberania judaica, à partida dos judeus para o exílio e séculos de sofrimento e perseguição.

Desta vez, Netanyahu está sobrecarregado pelo caos que ele próprio criou, um caos muito maior do que ele esperava. É por isso que, a longo prazo, a tenacidade e a determinação de centenas de milhares de manifestantes, que incluem em suas fileiras figuras como a cientista Shikma Bressler, pesquisadora do Instituto Weizmann de Ciência, têm um impacto tão grande. Não é certo que desta vez o maquiavélico e manipulador Netanyahu consiga controlá-los.

É claro que não podemos prever o futuro. Mas devemos manter a esperança. A esperança de que a participação ativa de centenas de milhares de cidadãos continue por todo o país, de Tel Aviv a Beersheba, de Haifa a Jerusalém, das cidades pequenas às cidades médias. E que, ao fazer isso, será reaberto o caminho para uma reflexão sobre a natureza das relações de Israel com a região em torno do país – acima de tudo, com os palestinos –, a fim de criar um novo modus vivendi.

Esse despertar da sociedade israelense, que atesta a importância do coletivo, da capacidade de resistir com unidade, é algo impressionante. Enquanto isso, o grupo de bandidos do qual Netanyahu se cercou, no governo e no Parlamento, faz provocações cada vez piores, o que de fato levanta dúvidas sobre a própria legitimidade das ações do governo.

Minhas lembranças voltaram em enxurrada quando li o apelo à revolta publicado algumas semanas atrás pelos meus companheiros do Egoz. “Não permitiremos que a força, a rapacidade e a corrupção assumam o controle do país, a ponto de levá-lo à ruína”, escreveram eles.

Costumo dizer que faço filmes como cidadão, como testemunha da história do meu país, uma testemunha envolvida nos acontecimentos, como em O Dia do PerdãoKippur (ou Rabin, o Último Dia). Fiz este último filme não por admiração a um líder político – não costumo admirar esse tipo de pessoa –, mas sim por respeito à sua sinceridade, algo raro na política. Embora fosse um general coberto de vitórias, Rabin estava disposto a ir contra a corrente e buscar soluções, e nesse sentido era tanto um realista quanto um visionário. Há trinta anos, ele quis propor uma alternativa viável neste Oriente Médio tão complicado. Acreditava que dizer a verdade era essencial para avançar. Esse esforço foi podado com seu assassinato.

Meu amigo José María Chema Prado, ex-diretor da Cinemateca Espanhola em Madri, me disse há pouco tempo: “Amos, vai demorar, veja o que aconteceu na Espanha: é o mesmo modelo adotado por Franco, que contou com o apoio de uma Igreja Católica muito reacionária para enfrentar a esquerda e tudo que fosse progressista.” Infelizmente, foram os ultranacionalistas espanhóis liderados por Francisco Franco que venceram. Politicamente falando, foi Guernica, a bela pintura de Picasso, a derrotada. Mas, culturalmente falando, Guernica foi a vencedora, pois registrou na memória das pessoas o bombardeio dessa pequena aldeia basca pelos aviões da Luftwaffe, a Força Aérea alemã, em 1937.

Isso levanta outra questão: “O que podemos fazer? Nós, escritores, artistas visuais, pintores, criadores teatrais, cineastas, somos totalmente inúteis? Porque é bem possível que não conseguiremos confrontar poderes tão ferozes. Será possível que vamos perder?” Sim, é possível. Infelizmente, é até provável. Mas isso não significa que o que estamos fazendo seja inútil, porque não creio que a memória seja inocente. Ela tem sua própria maneira delicada de agir, no seu ritmo particular. Quando o atual primeiro-ministro da Espanha, o social-democrata Pedro Sánchez, transferiu os restos mortais de Franco do Vale dos Caídos – o mausoléu kitsch onde estava enterrado o ditador – para outro cemitério, nós nos perguntamos por que ele fez isso. Foi puramente em nome da memória. Nada mais.

Em muitos países ao redor do mundo temos visto essas tendências revisionistas de Netanyahu de reescrever a história com o objetivo de conquistar ou manter o poder. Isso não significa que devemos ceder à demagogia e à doutrinação. Temos que contar a verdade. Temos que falar sobre as contradições, temos que manter a esperança viva, mesmo sabendo que esses líderes políticos destrutivos são cada vez mais numerosos no planeta.

A lei contra o Judiciário foi aprovada em Israel, mas as manifestações continuam. E é por isso que digo a mim mesmo que, paradoxalmente, podemos estar testemunhando a abertura de um novo caminho rumo a um futuro mais encorajador. Mas vamos permanecer cautelosos. E esperançosos. Mantendo a expectativa de que a próxima geração de jovens continuará a batalha para salvar a democracia de Israel e encontrar, inclusive, um modus vivendi com os palestinos.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_204 com o título “Ao lado do vulcão”.


[1] Depois de ler as cartas de Efratia, o diretor Walter Salles sugeriu que criássemos uma minissérie baseada na sua vida. Estamos sendo auxiliados pelo produtor João Queiroz e pelo Ventre Studio para dar vida a esse projeto. Contar a história da minha mãe seria uma maneira de contestar algumas tendências revisionistas que Israel está enfrentando hoje. (N. A.) [Walter Salles é irmão de João Moreira Salles, fundador da piauí. (N. R.)]

[2] David Ben-Gurion (1886-1973), primeiro chefe de governo de Israel, cujo cargo ocupou entre 1948 e 1953. Foi um dos líderes do Movimento Sionista Trabalhista Internacional, de esquerda. (N. R.)


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Cineasta israelense, dirigiu, entre outros filmes, O Dia do Perdão e Uma Noite em Haifa