diário do geraldo

LULA É MEU SR. MIYAGI E NADA ME FALTARÁ

Durante a meditação mentalizei minha dívida de gratidão para com o President’Lula
Imagem Lula é meu Sr. Miyagi e nada me faltará

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1º DE SETEMBRO_Tem uma coisa que vem mexendo profundamente com o coraçãozinho deste esquerdomacho aqui. Faço meus sacrifícios: aprendi palhaçaria, malabares, ukulele, passei a tomar vitamina de cupuaçu com chia, a fazer skincare e a abrir conferência de ortodontia agradecendo a presença de todes. Mas, putzgrila, ninguém me convida pra conhecer o Chico Buarque. É de cair os butiá dos bolsos.

Pelo menos hoje conheci o Daniel Guth, diretor executivo da associação brasileira do setor de bicicletas. Um boa-­praça. Pra quebrar o gelo, perguntei se ele já fez pedaladas fiscais. Meus assessores fizeram sinais desesperados pra eu parar. Ô gente careta. Geraldinho precisa fazer algo impactante pra produzir um desrecalque coletivo na equipe.

2 DE SETEMBRO_Tem dias que a gente acorda querendo voltar a dormir. Não é só pelo Chico. Mas essa indiferença me machuca. O Porchat não me convida pra contar histórias. A Paula Lavigne não me manda WhatsApp avisando se Caetano vai retomar o show do disco Transa. Convite pra um convescote da Regina Casé? Uma mísera exposição de arte da Marcia Tiburi? Nadica de nada.

Libelu percebeu. Essa mulher tem as antenas ligadas para a solidariedade. Pra me reanimar, ela fez uma adaptação de Chico, da Luísa Sonza. Catou um violão e cantou como uma Joan Baez.

Chuchu, se tu me quiseres
Sou dessas mulheres de se apaixonar
Pode fazer a sua fumaça, o Bar do Rotary vai ser nosso lar
E, Chuchu, se tu me quiseres
Debato política, converso com vereador
E se for pra repartir o amor, que reparta comigo.

5 DE SETEMBRO_Estava saindo pra comer no bandejão orgânico que o MST montou aqui no subsolo. Quase sempre cruzo com Ricardo Salles de boné preto, óculos escuros e bigodes falsos. É batata! Salles ama orgânicos, mas não quer perder a fama de mau.

Mas o fato é que o President’Lula me catou pelo braço e fomos discutir a reforma ministerial num almoço informal. Fui bem franco: aceito perder um naco do meu Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Sou realista, respeito a governabilidade. Mas, em contrapartida, quero que ele me apresente o Chico Buarque.

6 DE SETEMBRO_Iniciei minha preparação holística pro Desfile da Independência. Durante a meditação mentalizei minha dívida de gratidão para com o President’Lula. E me veio uma visão: eu e ele no alto do Tibete jogando adoleta em sânscrito. Ele passava a mão na minha cabeça e dizia: “Primeiro, aprender a ficar de pé. Depois, aprender a voar. Lei da natureza, pequeno gafanhoto.”

Acordei estupefato e berrei. “Macacos me mordam! Lula é o Sr. Miyagi.”

7 DE SETEMBRO_Nos bastidores do desfile, falei pro Lula da minha visão. Ele não disse nada. Com um movimento sutil, tirou uma jabuticaba do bolso e atirou-a na nuca de um general. O militar caiu desacordado. Lula piscou o olho pra mim e saiu andando com a leveza de uma garça.

8 DE SETEMBRO_Minha epifania a respeito de Lula-Miyagi injetou em mim uma energia vital renovada, limpa e oceânica. Resolvi quebrar os paradigmas e dar um choque comportamental naquele povinho careta da repartição. Cheguei pra trabalhar com o corpo coberto apenas por urucum e folhas de bananeira. Reuni todos num canto xamânico gutural contra o marco temporal. Depois soube que duas pessoas foram reclamar no RH. Já vi que meu trabalho vai ser longo.

9 DE SETEMBRO_Há dias ando encafifado com essa tragédia climática no Sul do país. Procurei, reservadamente, o President’Lula. Sereno, quase levitando, ele declarou: “Está bem perder para um adversário. O que não está bem é perder para o medo, pequeno gafanhoto.” Arrepiei.

11 DE SETEMBRO_Hoje me reuni com o embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo Castellanos. Instruí minha equipe a só me chamar de Geraldón Cienfuegos na frente dele. Dessa vez obedeceram. A revolução se faz no dia a dia.

13 DE SETEMBRO_“A política brasileira tem o Centrão como norte.” Amparado nesse conhecimento milenar, compareci sorridente à posse de Silvio Costa Filho e André Fufuca. Como Lula não queria muito fuzuê, a cerimônia aconteceu no que me pareceu ser o almoxarifado do Planalto. Apertadinho, mas repleto de calor humano. Na saída, me dei conta que perdi a carteira. E o celular. E o título do Lions de Pindamonhangaba.

Mas lembraram de mim! Ainda não foi o Porchat ou a Tatá Werneck. Mas fui convidado pro programa da Miriam Leitão. Nos bastidores, perguntei se ela sabia qual era o vinho preferido do Chico Buarque. Ela disse que ia apurar.

14 DE SETEMBRO_A Abin me informou que o Jones Manoel se desentendeu com o PCB. A treta rendeu um importante artigo do PSTU intitulado Jones Manoel mira em Trotsky, protege Stálin e briga com Lênin. Fiquei tão embasbacado quanto da vez em que Libelu e eu lemos o 18 de brumário do Marx em voz alta.

Agora o Gregorio Duvivier enfureceu o site Brasil 247 porque defendeu a indicação de uma ministra negra pro STF. Minha Santa Mirtes, estamos brigando com nós mesmos! Pelo menos na época do PSDB as brigas eram entre gente de mundos muito diferentes. Uns gostavam de Chablis, outros de Chardonnay. FHC, por exemplo, defendia que quem preferisse tinto da Borgonha a tinto de Bordeaux não merecia mais do que uma vereança. Era tudo mais compreensível.

16 DE SETEMBRO_Ainda não entendi se é pra ficar do lado do Gregorio ou do tal 247. Pedi pra Abin apurar e parece que até a Gleisi tá dando razão pro Gregorio e que o Rui Falcão se pronunciou hoje nas redes sociais nessa linha. Bom saber.

18 DE SETEMBRO_Sempre que assumo a Presidência, mentalizo a magnitude cívica do cargo. Cada segundo do meu dia precisa estar à altura da tarefa histórica. Por isso, hoje me reuni com a diretoria da Midea Carrier Brasil, líder no país em vendas de aparelhos de ar-condicionado. Num estalo, pensei: “Meu termostato, minha vida.” Se Lula quiser já tem um programa social pra campanha à reeleição. Contei pra Libelu e ela passou o dia me chamando de Geraldão Guanaes, Geraldinho Olivetto, Duda Mendonçaldo. Libelu é uma bola mesmo.

19 DE SETEMBRO_Não poderia esperar menos do Sr. Miyagi na ONU: fez um discurso histórico, colocou o Biden no bolso propondo um acordo mundial em defesa dos trabalhadores, mostrou o caminho da paz para o Zelensky, acalmou os ânimos em Israel, selou a paz entre Azerbaijão e Armênia, liderou uma campanha mundial contra a caixa de som na praia, costurou um armistício com as empresas de telemarketing, propôs o fim do chá de revelação, prometeu dar um jeito na audiência da novela das sete e ainda quer acabar com o cardápio em QR code.

20 DE SETEMBRO_Está correndo na imprensa: ao tentar montar a chapa pra sua campanha a prefeito de São Paulo, o Boulos “quer um Alckmin pra chamar de seu”. Your bad, bitch. Geraldão só tem um.

21 DE SETEMBRO_Tô que tô. Hoje me reuni com o Li Xi, membro do Politburo chinês. Pedi pra minha equipe salientar a semelhança de meu penteado com o do Mao Tsé-tung. Eles foram além. Pintaram um quadro meu em que me olhava no espelho e via refletida a figura do líder revolucionário chinês. Embaixo, a legenda: “Meu bem, meu Mao.” Finalmente saíram da conchinha e estão trazendo soluções criativas. Nota 10.

22 DE SETEMBRO_Chico, se tu me quiseres, sou um pintalegrete de se apaixonar. Qualquer dúvida, liga pro Boulos, ele te explica.


Por Renato Terra


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