diário do geraldo

MINHAS FÉRIAS RADICAIS

Comecei o ano com um pesque-pague e depois emendei numa rodada de pif-paf
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1º DE JANEIRO_Caetano decretou férias radicais, mas comigo não tem lero-lero. Nem no primeiro dia do ano eu marco touca. Preparei toda a programação para as férias radicais à la Alckmin. Como tenho psilocibina correndo pelas veias, propus uma ousadia: um pesque-­pague em plena quinta-feira à tarde. No dia seguinte, pra manter a intrepidez lá em cima, sugeri uma rodada de pif-paf. Vamos ver quem tem coragem.

2 DE JANEIRO_Ano novo, filosofia nova. Sou radicalmente prafrentex, não transijo, razão pela qual pedi a meus assessores que transformassem a nossa sala de reuniões num ambiente instagramável. Eles adoraram a ideia. Valeu a pena ter passado a virada do ano de cueca amarela. Em 2024 vou botar pra quebrar. Nem a Jovem Guarda terá ido tão longe.

Dúvida pertinente que anotei durante as férias: quando eu era jovem em Pindamonhangaba, minha mãe não me deixava pular na piscina depois das refeições. “Chuchuzinho, você precisa fazer a digestão antes de mergulhar.” Vejo em meus netos que esse hábito se perdeu. Despachei um relato detalhado para o Ministério da Saúde. É preciso investigar se as novas gerações estão digerindo mais rápido ou se estamos diante de uma catástrofe silenciosa.

Anotei na agenda: “Equacionada a questão acima, será hora de enfrentar o problema da manga com leite e da corrente de ar depois do banho.” Aqui não há descanso.

3 DE JANEIRO_É tão bom quando a gente tem fé e acredita que existe uma vida bonita com quem cultiva uma flor. Me peguei comovido com essa canção de Luiz Caldas depois que publiquei um reels das minhas férias radicais em família no meu perfil secreto do Instagram. E isso apesar de não pescar bem a sintaxe do verso. O Luiz Caldas teve uma vida bonita com alguém que passou toda a vida cultivando uma só flor? Artista é mesmo uma gente do balacobaco.

É tão bom quando a gente junta trabalho, lazer e justiça social. Hoje, numa reunião com o presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos, dei uma ideia luminosa: um pacote turístico que leve negacionistas das mudanças climáticas para navegar nas enchentes de janeiro. E cobre caro por isso.

5 DE JANEIRO_Meio de férias, meio no batente, descolei uma reunião em São Paulo na sexta-feira. Bati um papo com o pessoal da Fiesp, depois marquei com Libelu num restaurante chinês que gostamos. Emendamos num bailado contagiante num clube de polca. Sou um exemplo vivo de como otimizar compromissos profissionais, sociais, empresariais, pessoais e matrimoniais. Eficiência que chama.

7 DE JANEIRO_Ano novo, esperanças renovadas. Pedi para o cerimonial deixar uma cesta de quitutes orgânicos colhidos pelo MST na casa do Chico Buarque. Tô plasmando: esse encontro tem que acontecer em 2024.

8 DE JANEIRO_Ajudei a preparar os festejos do ato da Democracia Inabalada. Passei a manhã enchendo bexigas, cortando cartolinas e enrolando brigadeiros. Preparei também uma caixinha com brindes e um farnelzinho pros convidados.

De noite, reuni a família para ver o documentário da GloboNews sobre a tentativa de golpe. Fiquei passado de não reconhecerem o papel seminal que desempenhei na salvação da nossa democracia. O Xandão é invenção minha! Ao longo do fatídico 8 de janeiro do ano passado, mandei vários áudios para o President’Lula lendo o ato de 2002 em que nomeei Xandão secretário de Segurança! Acrescentei fotos da posse, em que Xandão me abraça agradecido pela chance! Até emojis eu mandei pra descontrair o ambiente. Tudo ignorado pela História.

9 DE JANEIRO_Recebi um recado de cientistas pedindo para divulgar que as mudanças climáticas estão aumentando o potencial catastrófico do El Niño. Criei um slogan que julguei genial: “Se já faz esse calorão com El Niño, imagina quando crescer e virar rapaz.” Vai pegar.

11 DE JANEIRO_Meu Deus, inventaram uma CPI para investigar… o padre Júlio Lancellotti. São os resquícios bolsonaristas provando que o germe da lacração ainda viceja por aí. Comigo não, violão. Não venham mexer com padre que o Geraldo aqui sobe nas tamancas. Mandei uma sugestão para o santo homem: “Caro Júlio, para ganhar o apreço dos bolsonaristas pare de doar alimentos para os pobres. Abra uma igreja e enriqueça à custa dos pobres. Aí eles vão te idolatrar.”

13 DE JANEIRO_Minha antena está sempre calibrada para detectar as novidades socialistas. Por isso, aderi à moda sustentável. Agora só compro roupas usadas. E fui além: comecei uma campanha para doar as meias divertidas que meus pisantes tornaram famosas. O primeiro par, claro, foi para o President’Lula. Aliás, cabe registrar que Libelu e eu aplicamos um método inca de desodorização de meias que consiste em borrifar de duas em duas horas doses homeopáticas de suor de alpaca e depois ferver tudo em balaios de linhaça ao som de Mercedes Sosa.

15 DE JANEIRO_Não esperava tamanho prestígio do President’Lula. Eu já sabia de sua generosidade, mas me ceder espaço num evento de tamanha projeção mundial é coisa de fazer Irmã Dulce parecer uma pessoa mesquinha. Embarquei esfuziante para representar o nosso Brasil na posse do presidente da Guatemala. Até abri uma Sidra Cereser sem álcool pra celebrar. Acho que foi reparação pelo papel insignificante que me deram naquele documentário da GloboNews. O President’Lula sabe motivar sua equipe.

17 DE JANEIRO_É preciso inventar uma nova palavra para descrever essa sensação térmica de 60ºC. Isso não pode virar o novo normal. A gente sai na rua e se sente um chester com aquele pininho vermelho prestes a saltar. Visitei a Sonia Guajajara para ver se existe alguma expressão indígena para descrever esse apocalipse climático. “Llapan allpata kutichipuwayku chay sasachakuy allichakunga”, disse ela. Quando perguntei o significado, ela me fuzilou com os olhos: “Quer dizer: ‘Devolvam todo o território para os indígenas que o problema se resolve, Zé Mané.’”

18 DE JANEIRO_Postei nas redes sociais: “Tive a honra de me encontrar com o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, que visita o Brasil para a IV Reunião do Diálogo Estratégico Global Brasil-China.” Ele veio com aquele papinho de que “crise é sinônimo de oportunidade” e queria me convencer que esse calorão é oportunidade para aumentar a importação de desodorantes chineses. Não sei se foi uma proposta comercial ou uma indireta.

19 DE JANEIRO_Acompanhar o BBB tem suas vantagens. Hoje descobri que o Rodriguinho não paga IPVA há sete anos e acumula multas de trânsito. Encaminhei a denúncia para os órgãos competentes. Sou mesmo um funcionário público exemplar.

21 DE JANEIRO_Mandei colocar as bandeiras a meio pau. E fiz um reverente minuto de silêncio. Hoje é o centenário da morte de Vladimir Lênin e não pude deixar de me comover com a pungente coluna do companheiro Valerio Arcary: “Lênin não é popular. Justiça seja feita, essa realidade nos diz mais sobre a maioria da esquerda contemporânea do que sobre Lênin.” É, realmente, uma constatação lúcida. Com exceção minha, do Arcary, do Caetano, do Jones Manoel e da Gleisi, a esquerda perdeu a radicalidade.

De tarde, na correria do trampo, tive que pedir comida delivery. Diante do motoboy, ainda tocado pela lembrança de Lênin, dei uma gorjeta revolucionária. “Isso aqui é para incentivá-lo a lutar por paz, pão e terra para toda a classe trabalhadora”, sussurrei em seu ouvido, tomando o cuidado de escandir as sílabas. Ele agradeceu e, em retribuição, marcou dois pontos no cartão de fidelidade do restaurante.

22 DE JANEIRO_Libelu veio me dizer que está usando filtro solar fator 400. E que eu deveria aplicar um pouco no cocuruto. Peguei a embalagem e… batata! Made in China! Virei pra ela e falei: Llapan allpata kutichipuwayku chay sasachakuy allichakunga.


Por Renato Terra


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