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MULTITELAS DO FUTEBOL

A experiência do esporte na vida, na tevê e no videogame

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Apresentação de Tatiane de Assis

Com um boné branco, calça jeans e camiseta do Corinthians, o artista paulistano Midi, de 29 anos, recebia em 20 de setembro passado os visitantes de sua quarta mostra individual, Um drible pode mudar o mundo. Era o último dia da exposição realizada na Casa Líquida, misto de galeria e residência artística mantida pela atriz Júlia Feldens em Pinheiros, bairro de São Paulo.

“Fui adotado aos 9 meses por uma família de classe média de Santos, no litoral paulista, e meu irmão mais velho é jogador amador. Então, desde criança, eu ficava o dia inteiro vendo bagulho de futebol”, conta o artista. Aos 16 anos, ele rompeu com a família adotiva e passou a viver na casa de amigos.

Inicialmente, Marcelo Ferreira Rosmaninho era chamado de Midnight, apelido que tinha relação com sua identidade racial: negro. Alertado sobre o cunho racista do nome, adotou apenas Midi. Autodidata, encontrou nas artes visuais uma forma de ter uma visão mais positiva do futuro. “A pintura satisfez minha mente e me possibilitou fazer outras coisas, como, por exemplo, parar de pensar que eu odeio a vida”, diz.

Em 2020, foi para São Paulo, onde não teve pouso fixo. Chegou a morar inclusive em um apartamento perto da Cracolândia. Um dia, mandou uma mensagem para Júlia Feldens, e o santo dos dois bateu: em março de 2023, Midi foi aceito para a residência na Casa Líquida e se mudou para lá.

O futebol é o tema da maior parte das 29 telas apresentadas na exposição. Em algumas, Midi pinta um lance da partida, com as figuras dos jogadores se destacando sobre um fundo em tons de verde que flerta com a abstração. Em outras, trabalha de maneira bem-humorada com jargões do futebol, como “banheira”. “São como anedotas.”

O artista, que torce para o Flamengo, se aproxima do futebol pela ótica de sua geração, cuja experiência desse esporte se dá em múltiplas telas – da tevê ao videogame. “Está tudo embaralhado no processo que o futebol vive hoje e está relacionado à cultura pop”, diz o historiador Luiz Antonio Simas, autor de Maracanã: quando a cidade era terreiro. “Como a garotada da periferia não tem acesso aos estádios, que foram gentrificados, o contato inicial dela com o futebol é pela imagem mesmo, como o videogame.”

O imaginário do futebol se mescla nas pinturas com o que há de mais íntimo para o artista, como as projeções de uma família que ele não teve. Em Coisas que só acontecem na minha cabeça (2023), pintado num suporte de madeira de 1,29 m² e exibido na área central da exposição, Midi imagina a si mesmo junto com os pais biológicos antes de um jogo do Corinthians. O trabalho traz um subtítulo que, por si só, expressa a utopia particular do artista: Eu, meu pai e minha mãe indo pra Itaquera.

<i>Dia de jogo</i>_2022: “Aqui, no fundo, eu misturei cores, que é algo que não gosto de fazer. Amarelo e roxo sempre me lembram o Lakers, time americano de basquete. Não gosto do Lakers, não gosto de basquete. Mas, colocando elementos do futebol, achei que essas cores caíram bem” Dia de jogo_2022: “Aqui, no fundo, eu misturei cores, que é algo que não gosto de fazer. Amarelo e roxo sempre me lembram o Lakers, time americano de basquete. Não gosto do Lakers, não gosto de basquete. Mas, colocando elementos do futebol, achei que essas cores caíram bem” <i>Banheira</i>_2022 (acima): “Nesse quadro, trabalho um jargão do futebol. Quando um jogador não volta para marcar e fica só no ataque, esperando para fazer gol, a gente diz que ele fica só na ‘banheira’. O Romário era assim. E ele não desperdiçava, sempre marcava o gol” Banheira_2022 (acima): “Nesse quadro, trabalho um jargão do futebol. Quando um jogador não volta para marcar e fica só no ataque, esperando para fazer gol, a gente diz que ele fica só na ‘banheira’. O Romário era assim. E ele não desperdiçava, sempre marcava o gol” <i>Fominha</i>_2023 (à esq.): “Fominha é aquele cara que não passa a bola para os outros, quer resolver tudo sozinho. Para as pessoas já sacarem o que é, mesmo sem saber de futebol, eu pintei várias marcas ligadas à comida como patrocinadores” Fominha_2023 (à esq.): “Fominha é aquele cara que não passa a bola para os outros, quer resolver tudo sozinho. Para as pessoas já sacarem o que é, mesmo sem saber de futebol, eu pintei várias marcas ligadas à comida como patrocinadores” <i>Bola na rede e não na trave</i>_2023 (à dir., no alto): “Esse trabalho eu fiz como teste, para pensar como ia pintar as redes do gol em movimento nas outras telas. Aí achei que ficou bonito e decidi mostrar” Bola na rede e não na trave_2023 (à dir., no alto): “Esse trabalho eu fiz como teste, para pensar como ia pintar as redes do gol em movimento nas outras telas. Aí achei que ficou bonito e decidi mostrar” <i>Açougueiro</i>_2023 (ao lado): “Outro jargão. Meus amigos me dizem que eu sou um pouco assim: o açougueiro é o cara que para a jogada com falta. Na Copa do Mundo, de 2022, no jogo entre Brasil e Croácia, faltou um Felipe Melo, um açougueiro” Açougueiro_2023 (ao lado): “Outro jargão. Meus amigos me dizem que eu sou um pouco assim: o açougueiro é o cara que para a jogada com falta. Na Copa do Mundo, de 2022, no jogo entre Brasil e Croácia, faltou um Felipe Melo, um açougueiro” <i>Ladrão</i>_2022 (ao lado, à dir.): “É o cara que, de forma despercebida, chega para roubar a bola. Coloquei um celular ali também para fazer menção às gangues de bicicleta que roubam celulares em São Paulo das pessoas que estão desatentas, tirando selfies” Ladrão_2022 (ao lado, à dir.): “É o cara que, de forma despercebida, chega para roubar a bola. Coloquei um celular ali também para fazer menção às gangues de bicicleta que roubam celulares em São Paulo das pessoas que estão desatentas, tirando selfies” <i>Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência</i>_2023: “Trago várias lembranças aqui, tanto boas quanto ruins. E cada um dos personagens na barreira de jogadores sou eu, em uma fase diferente da vida, tomando um enquadro. Embaixo, escrevi: ‘Se for um sonho não me acorda nunca mais’” Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência_2023: “Trago várias lembranças aqui, tanto boas quanto ruins. E cada um dos personagens na barreira de jogadores sou eu, em uma fase diferente da vida, tomando um enquadro. Embaixo, escrevi: ‘Se for um sonho não me acorda nunca mais’” <i>Glória eterna</i>_2023: “Pintei junto com um amigo de Salvador, chamado Jamex. Ele torce para o Bahia, e eu, para o Flamengo. Estamos em busca de uma taça, que é ficar de boa, pintando” Glória eterna_2023: “Pintei junto com um amigo de Salvador, chamado Jamex. Ele torce para o Bahia, e eu, para o Flamengo. Estamos em busca de uma taça, que é ficar de boa, pintando” <i>Canetinha</i>_2023 (no alto): “Falo aqui de um drible dos mais humilhantes, que é quando um jogador passa a bola pelo meio das pernas de outro jogador. Daí, para zoar, muita gente fala: ‘Fecha as pernas, fecha o compasso.’ Para ajudar quem não sabe nada sobre futebol, coloquei o símbolo da marca de canetas Bic” Canetinha_2023 (no alto): “Falo aqui de um drible dos mais humilhantes, que é quando um jogador passa a bola pelo meio das pernas de outro jogador. Daí, para zoar, muita gente fala: ‘Fecha as pernas, fecha o compasso.’ Para ajudar quem não sabe nada sobre futebol, coloquei o símbolo da marca de canetas Bic” <i>Bagre</i>_2023 (acima): “O jogador chamado de bagre é um jogador ruim no geral. Tem aquele que perde um gol já feito, um gol que não dava para errar. Tem um jogador do Corinthians, o Yuri Alberto, que os caras chamam de Bagre Alberto, porque ele perde muito gol. A galera não perdoa. O cara que é atacante não pode ficar nervoso, tem que ser igual ao Romário, um cara tranquilo” Bagre_2023 (acima): “O jogador chamado de bagre é um jogador ruim no geral. Tem aquele que perde um gol já feito, um gol que não dava para errar. Tem um jogador do Corinthians, o Yuri Alberto, que os caras chamam de Bagre Alberto, porque ele perde muito gol. A galera não perdoa. O cara que é atacante não pode ficar nervoso, tem que ser igual ao Romário, um cara tranquilo” <i>Dia de jogo</i>_2022: “Aqui, no fundo, eu misturei cores, que é algo que não gosto de fazer. Amarelo e roxo sempre me lembram o Lakers, time americano de basquete. Não gosto do Lakers, não gosto de basquete. Mas, colocando elementos do futebol, achei que essas cores caíram bem” Dia de jogo_2022: “Aqui, no fundo, eu misturei cores, que é algo que não gosto de fazer. Amarelo e roxo sempre me lembram o Lakers, time americano de basquete. Não gosto do Lakers, não gosto de basquete. Mas, colocando elementos do futebol, achei que essas cores caíram bem” <i>Banheira</i>_2022 (acima): “Nesse quadro, trabalho um jargão do futebol. Quando um jogador não volta para marcar e fica só no ataque, esperando para fazer gol, a gente diz que ele fica só na ‘banheira’. O Romário era assim. E ele não desperdiçava, sempre marcava o gol” Banheira_2022 (acima): “Nesse quadro, trabalho um jargão do futebol. Quando um jogador não volta para marcar e fica só no ataque, esperando para fazer gol, a gente diz que ele fica só na ‘banheira’. O Romário era assim. E ele não desperdiçava, sempre marcava o gol” <i>Fominha</i>_2023 (à esq.): “Fominha é aquele cara que não passa a bola para os outros, quer resolver tudo sozinho. Para as pessoas já sacarem o que é, mesmo sem saber de futebol, eu pintei várias marcas ligadas à comida como patrocinadores” Fominha_2023 (à esq.): “Fominha é aquele cara que não passa a bola para os outros, quer resolver tudo sozinho. Para as pessoas já sacarem o que é, mesmo sem saber de futebol, eu pintei várias marcas ligadas à comida como patrocinadores” <i>Bola na rede e não na trave</i>_2023 (à dir., no alto): “Esse trabalho eu fiz como teste, para pensar como ia pintar as redes do gol em movimento nas outras telas. Aí achei que ficou bonito e decidi mostrar” Bola na rede e não na trave_2023 (à dir., no alto): “Esse trabalho eu fiz como teste, para pensar como ia pintar as redes do gol em movimento nas outras telas. Aí achei que ficou bonito e decidi mostrar” <i>Açougueiro</i>_2023 (ao lado): “Outro jargão. Meus amigos me dizem que eu sou um pouco assim: o açougueiro é o cara que para a jogada com falta. Na Copa do Mundo, de 2022, no jogo entre Brasil e Croácia, faltou um Felipe Melo, um açougueiro” Açougueiro_2023 (ao lado): “Outro jargão. Meus amigos me dizem que eu sou um pouco assim: o açougueiro é o cara que para a jogada com falta. Na Copa do Mundo, de 2022, no jogo entre Brasil e Croácia, faltou um Felipe Melo, um açougueiro” <i>Ladrão</i>_2022 (ao lado, à dir.): “É o cara que, de forma despercebida, chega para roubar a bola. Coloquei um celular ali também para fazer menção às gangues de bicicleta que roubam celulares em São Paulo das pessoas que estão desatentas, tirando selfies” Ladrão_2022 (ao lado, à dir.): “É o cara que, de forma despercebida, chega para roubar a bola. Coloquei um celular ali também para fazer menção às gangues de bicicleta que roubam celulares em São Paulo das pessoas que estão desatentas, tirando selfies” <i>Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência</i>_2023: “Trago várias lembranças aqui, tanto boas quanto ruins. E cada um dos personagens na barreira de jogadores sou eu, em uma fase diferente da vida, tomando um enquadro. Embaixo, escrevi: ‘Se for um sonho não me acorda nunca mais’” Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência_2023: “Trago várias lembranças aqui, tanto boas quanto ruins. E cada um dos personagens na barreira de jogadores sou eu, em uma fase diferente da vida, tomando um enquadro. Embaixo, escrevi: ‘Se for um sonho não me acorda nunca mais’” <i>Glória eterna</i>_2023: “Pintei junto com um amigo de Salvador, chamado Jamex. Ele torce para o Bahia, e eu, para o Flamengo. Estamos em busca de uma taça, que é ficar de boa, pintando” Glória eterna_2023: “Pintei junto com um amigo de Salvador, chamado Jamex. Ele torce para o Bahia, e eu, para o Flamengo. Estamos em busca de uma taça, que é ficar de boa, pintando” <i>Canetinha</i>_2023 (no alto): “Falo aqui de um drible dos mais humilhantes, que é quando um jogador passa a bola pelo meio das pernas de outro jogador. Daí, para zoar, muita gente fala: ‘Fecha as pernas, fecha o compasso.’ Para ajudar quem não sabe nada sobre futebol, coloquei o símbolo da marca de canetas Bic” Canetinha_2023 (no alto): “Falo aqui de um drible dos mais humilhantes, que é quando um jogador passa a bola pelo meio das pernas de outro jogador. Daí, para zoar, muita gente fala: ‘Fecha as pernas, fecha o compasso.’ Para ajudar quem não sabe nada sobre futebol, coloquei o símbolo da marca de canetas Bic” <i>Bagre</i>_2023 (acima): “O jogador chamado de bagre é um jogador ruim no geral. Tem aquele que perde um gol já feito, um gol que não dava para errar. Tem um jogador do Corinthians, o Yuri Alberto, que os caras chamam de Bagre Alberto, porque ele perde muito gol. A galera não perdoa. O cara que é atacante não pode ficar nervoso, tem que ser igual ao Romário, um cara tranquilo” Bagre_2023 (acima): “O jogador chamado de bagre é um jogador ruim no geral. Tem aquele que perde um gol já feito, um gol que não dava para errar. Tem um jogador do Corinthians, o Yuri Alberto, que os caras chamam de Bagre Alberto, porque ele perde muito gol. A galera não perdoa. O cara que é atacante não pode ficar nervoso, tem que ser igual ao Romário, um cara tranquilo”

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