diário do geraldo

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE UM COMUNISTA

Chego nas coisas depois que já viraram modinha e começaram a se desgastar
Imagem Memórias póstumas de um comunista

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1º DE MARÇO_Uma das críticas recorrentes à esquerda é o excesso de retórica. Fala-se muito e faz-se pouco, dizem os detratores. Eu não sei quanto a você, queride leitore, mas hoje eu salvei a vida de um homem que passou mal num evento. Já é mais do que fez Engels.

2 DE MARÇO_Uma confissão: eu já tinha essa sensação de fim de festa quando aderi ao socialismo. Sou uma espécie de hipster ao contrário. Chego nas coisas depois que já viraram modinha e começaram a se desgastar. Foi assim com o combover e com as meias divertidas. Agora vem aquele Vladimir Safatle, de novo, e decreta, de novo, a morte da esquerda. Daqui em diante, portanto, passo a escrever as Memórias Póstumas de um Comunista.

De que adiantou salvar a vida de um trabalhador se não pude salvar a esquerda?

3 DE MARÇO_Eu e Libelu estendemos nossas cadeiras de praia na varanda a fim de desenvolver nosso emplasto Brás Cubas para salvar a esquerda. Tomei uns tragos de Fogo Paulista, dei uma espiada nuns vídeos do Slavoj Žižek no YouTube, mirei nos olhos da minha mina e toquei um Belchior no ukulele para esquentar as ideias.

Tudo poderia ter mudado, sim,

Pelo trabalho que fizemos, tu e eu,

Mas o dinheiro é cruel

E um vento forte levou os amigos

Para longe das conversas, dos cafés
e dos abrigos

E nossa esperança de jovens não aconteceu

E nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não.

Terminamos o dia vendo Domingão com Huck.

4 DE MARÇO_Passei o domingo enlutado pela morte da esquerda. No final do dia, Libelu me sacudiu aos berros. “Geraldo, o sonho acabou! Acorda! A-ca-­bou! Toma tenência. Abre tua cabeça, meu chuchu.” Era a chamada que eu precisava. Amo essa mulher! Já que a revolução está morta e tudo é permitido, combinamos de ir pra Miami nas férias e detonar o cartão na Uniqlo.

5 DE MARÇO_Ressuscitado por Libelu, acordei todo sapequinha. Consegui concatenar as ideias. Pega essa visão: para ressuscitar a esquerda precisamos de um novo sonho coletivo. Novas ideias. Atualizar antigos ideais para as demandas do século XXI. Algo que mostre o potencial inventivo do Brasil. Que apresente ao mundo uma nova maneira de estar em sociedade. De preferência, aliando sustentabilidade, justiça social e distribuição de renda. Aí vem o President’Lula e me obriga a celebrar o investimento de 11 bilhões de uma montadora de carros japonesa. Pior: em Sorocaba! Em protesto, vesti meias divertidas com a frase “Safatle tem razão”. E avisei pra Libelu: esquece Miami, agora é Dubai.

6 DE MARÇO_Não por acaso, o pessoal da repartição anda borocoxô. Tá tudo indo pro caminho errado. Mas como sou um pintalegrete pra lá de prafrentex, encontrei uma saída no TikTok: agora sou delulu das ideias. Como aprendi na rede, estar delulu das ideias é ser como “uma fã delirante que acredita que pode e vai ter um relacionamento amoroso com seu ídolo ou celebridade favorita, investindo uma quantidade exagerada de tempo e energia nesse ídolo”.  A partir de agora, seremos todos delulu das ideias por Marx. Distribuí até imagens dele jovenzinho. Libelu me garante que funcionará: “Sem barba ele é um pedaço de mau caminho.”

7 DE MARÇO_A avaliação positiva do Lula tá caindo e ele não anda regulando bem das ideias. Sentei no bandejão pra bater meu rango e fui informado que há ordens presidenciais para não comer sem antes saudar a mandioca. O ar-condicionado foi desligado até que a gente consiga estocar vento. Pela madrugada! Não bastava interferir na Petrobras e na Vale, esse homem agora quer interferir em tudo. Ele continua delulu das ideias por Dilma.

Logo hoje que recebi o Cezinha de Madureira. Minha intenção era fazer uma ponte importante com os evangélicos, mas como vou tomar um café com o homem nesse calor? Parecia uma afronta.

8 DE MARÇO_Cheguei cedo no gabinete e tinha uma pessoa sentada à minha mesa. “Bom dia, Geraldo. Sou Sivaldo Albino, prefeito de Garanhuns. O presidente marcou uma reunião entre nós dois.” É de cair os butiá do bolso.

No caminho de casa, repeti o mantra que aprendi com a moça do YouTube especialista em delulu: “A partir do momento em que você é tão desiludida a ponto de acreditar que nada vai abalar sua vida e que vo­cê vai sim alcançar qualquer coisa que você imagina, qualquer barulho externo que vá contra essa ideia, você simplesmente não escuta.” Cheguei em casa radiante, dançando aos giros e cantando Ando meio desligado,/eu nem sinto os meus pés no chão. E dei o melhor presente pelo Dia Internacional da Mulher: passei a chamar minha companheira de Delulu Alckmin. Enquanto ela secava as lágrimas, cochichei: “Se tudo der certo, trocamos Dubai por Pyongyang.”

10 DE MARÇO_Minha filha me mostrou a foto adulterada da princesa Kate. Fiquei de queixo caído. Para evitar que o mesmo aconteça comigo, tirei da gaveta minha Yashica YK-35 e mandei a equipe comprar um filme de 32 poses. Agora, nas minhas redes sociais, só entra foto revelada no laboratório de dona Arethuza. É de minha inteira confiança.

11 DE MARÇO_Bateu lá no gabinete um tal de André Ceciliano. Disse que era secretário de Assuntos Federativos. Nem sabia que esse cargo existia. Mas tá tudo bem. Tudo ótimo! Tomamos umas kombuchas e falamos do BBB. Tudo registrado na minha Yashica YK-35.

13 DE MARÇO_Participei com o Presi­dent’Lula da inauguração da fábrica de fertilizantes da EuroChem na Serra do Salitre. Dia inesquecível. Todo pimpão, sussurrei no ouvido dele: “É preciso mais otimismo, mais alegria, presidente. Vai dar certo!” Com dedos de punguista, enfiei a imagem do jovem Marx no bolso dele. Ele me olhou com os olhos agradecidos daquele barbudinho do meme.

O pessoal disruptivo do meu gabinete me disse que a estratégia da Yashica YK-35 não estava dando muito certo. Era preciso esperar o filme acabar, levar na dona Arethuza, escanear as fotos e depois postar. Estávamos perdendo o dinamismo nas redes sociais. Pensei em organizar uma projeção de slides para defender meu ponto de vista, mas acabei consumido pela rotina.

14 DE MARÇO_O dilema era enorme: ia pegar mal se eu não fosse, mas ia pegar bem se eu fosse. Chegar e sair sem ser notado do aniversário do José Dirceu me parecia uma estratégia matadora. Fiquei numa penumbra, ia sair à francesa. Quando me aparece a Cynara Menezes e me pede uma selfie. Torci pra Socialista Morena ter um celular fabricado na Alemanha Oriental pra selfie ficar borrada. Ai, ai, ai… carrapato não tem pai.

15 DE MARÇO_Lula aderiu ao marxismo delulu. Não dá mais pra ficar lamentando esse negócio de ditadura militar, preso político, tortura. É bola pra frente que atrás vem gente.

16 DE MARÇO_Estou adorando as eleições malucas na Rússia. Dá pra votar impresso, online, por SMs, em sinais de fumaça, Código Morse ou levantando a mão. O sistema é transparente: contanto que o voto seja pro Putin, vai ser computado. Aliás, a Rússia é de esquerda ou de direita?

17 DE MARÇO_Publiquei uma fotaça linda com Libelu para celebrar nossos 45 anos de casamento. Fiz algumas edições na imagem com a esperança de gerar uma polêmica que aumentasse meu engajamento. Mas ninguém percebeu.

18 DE MARÇO_Reunião dos ministros, todos cabisbaixos. Clima sorumbático. Não me contive. O Titanic tá afundando, mas os violinos não podem parar! Tomado por uma ira juvenil, tive que agir de maneira enérgica. Mandei um bilhetinho pro Rui Falcão escrito “1. Ode à alegria (Beethoven), 2. Bolero (Ravel), 3. Tocata e fuga em ré menor (Bach), 4. Like a virgin (Madonna), 5. Bota pra ferver (Veveta)”.

É isso. Quando eu estava do outro lado da Força, via a esquerda como fonte de alegria. Música, cinema, festa, Corote, dança, sorriso, cuba-libre, malemolência e entusiasmo. Talvez seja isso que o Safatle queira dizer. Ainda estou meio perdido. De qualquer maneira, esperem e verão: Geraldo passará a ser uma fonte permanente de entusiasmo e alegria funcionando como um desfibrilador para a esquerda.

20 DE MARÇO_Hoje começa 2024. Hoje é o início do Ano Novo Astrológico, quando o Sol inicia uma nova jornada pelos doze signos. Vem aí um Geraldo, um desanestesista que vai tirar a esquerda da fossa.


Por Renato Terra


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