Imagem Toda ficção é memória

questões de cinema e de dor II

TODA FICÇÃO É MEMÓRIA

Relatos da criação de Malu, um filme que, sem pretender, realizou um processo de cura

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Uma das minhas primeiras memórias sensoriais é o cheiro de gasolina misturado ao do tecido do banco de uma Kombi velha. Era nesse banco que eu dormia durante as madrugadas em que viajava com meus pais pelo Brasil, em meio aos figurinos e cenários das peças que eles encenavam país afora. Durante a minha infância, os dois percorreram mais de cem cidades apresentando seus espetáculos.

A atriz Malu Rocha, minha mãe, me ensinou a gostar de teatro e admirar essa gente do teatro, que à tarde varre o palco e à noite está dialogando diretamente com Sófocles. Enquanto eu brincava na coxia com minha irmã, Isadora Ferrite, vinham do palco os sons abafados das vozes dos meus pais. Essas mesmas vozes brilhantes podiam se tornar, depois, berros insuportáveis. Na manhã seguinte, minha irmã e eu tínhamos que tomar muito cuidado para não fazer barulho e acordar mamãe, o que provocaria nela uma onda de mau humor intratável.

Quando aprendi a ler, Malu me mostrou que livros eram um ótimo passatempo. Comecei a devorá-los, e em pouco tempo me tornei um rato de sebos, onde gastava a minha mesada. Minha mãe era uma parceira delicada nisso: ela me dava muitos livros, conversava comigo sobre os personagens, me ensinava e estimulava. Deslumbrada com o filho de apenas 8 anos que gostava de ler, passou a me apresentar às pessoas da seguinte forma: “Meu filho é um intelectual brilhante.” O “meu” nessa frase era a palavra mais importante. Na minha cabeça de criança, o que se passava era o seguinte: “Eu claramente não sou um intelectual e muito menos brilhante, mas ela claramente espera isso de mim.” Uma sensação de fracasso e a síndrome do impostor se apoderaram de mim – e foram anos de análise até que eu entendesse tudo isso.

Lembro que, aos 5 anos, brincando de carrinho no chão da sala, minha avó Lili me cutucou, eu olhei para cima, e ela me disse: “Ô menino, tem um negro na favela que cobra 200 contos de réis para matar um homem. Eu já separei o dinheiro, vou mandar matar teu pai.” E foi embora, assim, como se nada tivesse dito. Na mesma sala, aos 7 anos, minha mãe me falou: “Ô garoto, você gosta tanto de brincar de espada, vem aqui ver uma coisa.” E me fez assistir Os sete samurais, de Akira Kurosawa, na tevê. Ela tinha gravado em VHS uma versão dublada que passara de madrugada no Corujão – um programa da Rede Globo –, tendo o cuidado de pausar a gravação quando entravam os comerciais.

Quando eu tinha 9 anos, Isadora, adolescente na época, me levou ao cinema para assistir O anjo exterminador, de Luis Buñuel, porque era obrigada a cuidar de mim e não tinha com quem me deixar. Detestei o filme, que conta sobre um grupo de ricaços que não consegue sair da sala de uma mansão, e disse a ela: “Eles são muito burros, é só abrir a porta! Por que não vão embora?” Mas O anjo exterminador não saiu da minha cabeça, e passei os anos seguintes pensando no filme e buscando nele novos significados.

Nos meus 12 anos, minha mãe teve um surto psicótico. Ficou tatuada na minha memória a tarde em que ela pegou na minha mão e, com um tom grave de voz, como quem estivesse contando sobre uma morte na família, me disse: “Seu pai e sua irmã estão transando.” Eu acreditei. Passaram-se muitos anos até que descobrisse que não era verdade – o que ela mesma admitiu depois, constrangida, quando a confrontei. Malu agia um pouco como Medeia.

Aos 16 anos, quando eu já morava sozinho, ganhei dela, finalmente, meu primeiro trabalho como assistente de uma das poucas peças que Malu dirigiu, uma leitura dramatizada de Hoje é dia de rock, de José Vicente. Me tornar seu assistente me pareceu algo natural, depois de tantos anos acompanhando os ensaios dela e de meu pai e ouvindo conversas em casa sobre Stanislavski e os grandes diretores da São Paulo dos anos 1970. Foi uma experiência riquíssima para mim: ela dirigia muito bem os atores.

Em minha mãe – e também em minha avó – existia uma linha invisível conectando estas duas pulsões aparentemente contraditórias: uma de morte e destruição psicológica, outra de vida intensa através da arte. Isso gerou em mim a certeza de que um dia eu teria que enfrentar essa pessoa genial e confusa que foi Malu Rocha, digladiar-me com ela e tentar fazer dessas memórias aquilo que ela me ensinou como ninguém – arte.

Escrevi e dirigi oito curtas-metragens. Em quase todos tentei lidar com a personagem Malu. Meu primeiro curta fala sobre duas irmãs com muito medo de fazer barulho e acordar a mãe. O segundo é um documentário a respeito de mulheres grávidas. O quarto é sobre um menino que nunca conheceu a mãe. No quinto, dois irmãos dançam animados sobre os corpos dos pais mortos. No sétimo curta-­metragem, um adolescente sofre porque sua mãe não o ama.

Em 2013, Malu estava muito doente, sabíamos que podia morrer a qualquer momento, mas ainda assim minha irmã e eu não tínhamos nos preparado para o que viria a acontecer. Quando o hospital nos deu a notícia de sua morte, nós nos vimos responsáveis por lidar com esse inferno burocrático que sucede ao falecimento de uma pessoa próxima.

Era óbvio que não faria sentido realizar o velório de Malu numa capela, com um crucifixo sobre o caixão. Como Isadora havia trabalhado com José Celso Martinez Corrêa, com quem minha mãe iniciara sua carreira como atriz, fizemos o pedido – e ele topou. Malu Rocha, que morreu aos 65 anos – em decorrência de uma doença neurológica rara, a doença de príon –, foi velada no Teatro Oficina, em São Paulo, em 9 de junho de 2013.

Organizamos o velório como uma festa. Na entrada, os atores do Oficina cantavam e tocavam sambas num tom bem baixo, como uma reza musicada, suave, bonita. Oferecemos vinho tinto e cigarros de maconha para os convidados (eu não fumava, mas era o velório da Malu, tinha que ter maconha). Espalhamos dezenas de fotos dela, pessoais e de trabalho, pelo palco, fazendo um caminho até o caixão, iluminado com um spot zenital, com a luz chegando do alto, bem teatral. Pintamos o caixão com cores vibrantes e acrescentamos purpurina. Também oferecemos tinta para as pessoas fazerem desenhos e escreverem frases. Eu escrevi no caixão: “Mamãe in the sky with diamonds.

Meu pai, Herson Capri, apareceu no velório, comovido. Ele e Malu tinham passado vinte anos sem se falar, mas naquela hora ele se aproximou do caixão e conversou com ela. Ninguém chegou perto. Observei tudo de longe, e foi lindo ver a forma carinhosa com que ele conseguiu falar com Malu. Foi um momento sublime para mim vê-lo dar um trago no baseado e soprar a fumaça suavemente sobre o rosto de Malu. Uma reconciliação. Depois, minha avó Lili se aproximou do caixão e, olhando para a filha, emocionada, disse em voz alta: “Nós nunca brigamos!” O que gerou uma gargalhada descontrolada de Isadora, já bêbada àquela altura.

No meio desse velório catártico, imaginei pela primeira vez fazer um filme sobre minha mãe e decidi chamá-lo simplesmente Malu.

Só voltei a pensar no filme alguns anos mais tarde, depois de passado o luto. De início, me concentrei na juventude dela: nos anos 1970, a história de uma jovem atriz brilhante, que fazia teatro político com Plínio Marcos e Zé Celso. Porém, percebi que não conseguia ter uma distância crítica daquela geração. Seus protagonistas eram super-­heróis para mim, que usavam as armas artísticas contra a malvada ditadura militar. Como no filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, a São Paulo dos anos 1970 se tornara minha “era de ouro”, mas eu não tinha nada de realmente pessoal a dizer sobre aquele período.

Decidi então enfrentar o momento mais difícil da vida de Malu, aquele que vivenciei de perto na minha juventude, depois de voltar de uma longa estadia para estudos em Madri e na escola de cinema de Cuba. Eu me deparei com aquela atriz, ativa e ativista, agora desempregada, morando numa casa caindo aos pedaços, cheia de goteiras, numa favela do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Ela fora obrigada a dividir essa casa com sua mãe, Lili, aparentemente uma senhorinha doce e amável, mas no fundo extremamente conservadora e racista. Malu passava da depressão à euforia, quando irradiava um brilho nos olhos ao contar sobre seus projetos de construir um centro cultural na casa, com um teatro de bolso na laje, eternamente sem telhado e cheia de infiltrações.

Eu tinha morado naquela casa na infância, mas as goteiras e as manchas no teto ainda não tinham aparecido naquela época. O jardim de areia e lama era enorme, eu tinha um cachorro e me sentia feliz, dentro do possível. A casa, as paredes de cimento sem reboco, as ruas da favela sem saneamento básico, nada disso me incomodava: o problema eram os ataques de Malu, quando ela, aos berros, atirava copos contra a parede, e nós tínhamos que andar de sapato para não pisarmos nos cacos de vidro. “Você é um sobrevivente”, me disse a minha nova psicanalista, ao final de nossa primeira sessão. “Você e sua irmã sobreviveram a isso, poderiam ter sido destruídos.” Sobrevivemos, sim, mas não é fácil.

Fecho os olhos, deitado na cama ou sentado na poltrona, e penso. Fico longas horas lembrando, acessando na memória o modo como ela falava, coisas que disse, sensações que eu tive em momentos difíceis ou alegres ao lado dela. Fico burilando o texto na minha cabeça: aquela fala dela pode servir, mas modifica um pouco aqui, joga um pouco para lá, alguém responde isso ou aquilo. E se ela disser essa frase em outro contexto? Minha companheira apaga a luz e manda nossa filha ficar quieta para o papai dormir. Difícil explicar para ela que isso é trabalho. E boa parte do trabalho é feito assim: editando memórias de olhos fechados.

Boto no papel tudo que consigo recordar, as lembranças boas e as ruins. As boas me emocionam pela saudade, as ruins pelos traumas. Recruto Isadora para me ajudar, tento extrair de sua cabeça todas as memórias, e durante meses recebo áudios dela, de cinco, dez minutos, me contando sobre situações que recordou. Uma de suas lembranças é sobre a dificuldade de Malu de se alegrar com uma crítica positiva feita ao trabalho de sua filha como atriz. Outra é sobre suas tentativas torpes de seduzir todos os namorados que Isadora levava na nossa casa.

Rapidamente decido tirar o personagem Pedro do filme: entendo que não devo fazer um filme apenas para mim, mas principalmente para o público. Não pode ser uma constelação familiar gigante, tem que ser um relato sobre a Malu Rocha, para que todos possam conhecê-­la. Decido amalgamar Pedro e Isadora em uma única personagem, que chamo de Joana. Assim posso misturar nossas memórias e também ter a liberdade de criar sem amarras. Separo o joio do trigo: as memórias que não servem a essa narrativa eu levo para a minha analista. Ficam no papel só as que merecem se tornar cinema. Escrevo boa parte do desenvolvimento num café perto de minha casa, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Muitas vezes as pessoas à minha volta olham para mim preocupadas, pois estou chorando aos soluços. Será que morreu alguém? Morreu, mas faz tempo, hoje é só uma cena nova que eu estou abrindo, e é muito difícil.

O desafio então passa a ser olhar para essas memórias com objetividade e conseguir transformá-las em narrativa. Preciso de espaço: saio do café em Botafogo e alugo uma sala perto de casa, encho as paredes com anotações de cada cena, olho para o todo. Para a estrutura. No final do primeiro ato, mãe e filha brigam. O último ato começa com a notícia da doença. O ponto central do filme é o grande enfrentamento durante uma tempestade, então tenho que desenhar todo o conjunto em torno disso. E o final, qual será o final ideal para essa história? A coisa mais importante num filme é o final, sempre acreditei nisso. E sigo assim, diariamente, por meses.

Mas sempre volta a dúvida, se o filme fará sentido, se estou conseguindo fazê-lo para o mundo, e não para mim. Quando termino a primeira versão do roteiro, minha companheira, Maria de Andrade, editora literária com alma de poeta, lê e diz, com a honestidade brutal que lhe é própria: “É bom, mas falta poesia.” Eu fico irritadíssimo, mas logo releio o que escrevi e me dou conta de que ela tem razão. Falta poesia porque é um primeiro texto duro, áspero, com uma Malu deprimida, violenta, massacrada e massacrante. Nele, eu estou falando dos meus traumas, da minha raiva, não consigo ainda acessar o lado deslumbrante, o brilho nos olhos de uma mulher insubmissa, apaixonada pela vida, pela arte, pela política, pelas relações humanas.

Começa então um processo de investigação: entrevisto os amigos de Malu, aqueles que nunca sofreram com suas paranoias, só conheceram seu lado encantador, a pessoa engraçada, de gargalhada contagiante, com suas histórias inspiradoras, sua fervorosa defesa da justiça e da democracia. O dia em que ela atacou fisicamente um policial que estava batendo num mendigo. O amigo gay que foi expulso na porrada pelo pai homofóbico e que ela acolheu em sua casa, tornando-se para ele uma figura materna que o salvou psicologicamente. A visão de mundo hippie e contestatória de Malu, de que era importante batalhar ativamente contra a geração anterior – a da minha avó, que tendia sempre a aprisionar as pessoas, principalmente as mulheres e crianças, em dogmas estúpidos.

Busco também o meu pai, que sofreu tanto com a difamação tresloucada da ex-mulher, mas que antes disso fora apaixonado e transformado profundamente por doze anos de um casamento com muita parceria íntima e artística. Ele, num exercício surpreendente de superação dos traumas, consegue me falar tudo o que viu de maravilhoso naquela mulher. Tanta gente impactada, deslumbrada com Malu. Vou me deixando contaminar por essas visões sobre ela e, nas versões seguintes do roteiro, tento botar no papel essa dicotomia: a mulher capaz de me destruir e me construir, às vezes numa mesma tarde.

Encontro uma entrevista fantástica que Malu deu à atriz e documentarista Conceição Senna (1937-2020), em sua casa na favela do Pontal, contando inclusive sobre os planos de construir um teatro. É um material muito rico que Conceição generosamente me cedeu em estado bruto. Assisto, revejo minha mãe, me emociono e anoto tudo. Aquilo é ouro para os diálogos, um registro inestimável do seu jeito de falar, pensar, se apresentar para os convidados.

Vou tecendo uma narrativa possível, aos poucos, em cima dessas três personagens: Malu, sua mãe Lili e sua filha Joana, além de um quarto elemento importante, que é um amigo, o Tibira, inspirado em diversos amigos de Malu e que representa ali uma possibilidade de leveza no meio do caos.

É memória, mas, sendo um filme, me permito criar livremente a partir do que de fato aconteceu. A pulsão de morte da Lili, que prometera matar meu pai, aparece no roteiro em uma tentativa de envenenamento. A frase que minha mãe me disse aos 12 anos se transforma numa acusação terrível contra a sua própria filha. Toda memória é ficção.

Entre aquelas três mulheres há uma transmissão de traumas profundos, que se contaminam reciprocamente. No roteiro, Malu se vê impedida de exercer o teatro. Não se sabe se sua estagnação vem da destruição da cultura nacional pela ditadura militar, dos traumas de um passado marcado por abusos de clérigos católicos e de sua própria mãe, de um casamento desastroso, ou do seu próprio envelhecimento. Provavelmente, todos esses elementos ao mesmo tempo.

Continuo o roteiro. Lili, a avó, tem pavor de homens e conta um dia que sua irmã foi violentada pelo pai delas. Essa mesma irmã a chamava de feia. Em outro momento, Lili diz à própria filha, Malu, que é difícil uma atriz que não é bonita conseguir emprego. Mais à frente, Malu, que também sente desprezo pelos homens, vai emburacar na paranoia de que Joana, sua filha, estaria transando com o pai. Até que ponto Malu não foi contaminada pela loucura de Lili, que foi contaminada pela do pai abusador? E Malu, agora, não estará transmitindo tudo isso, de alguma forma, para sua filha Joana? Toda essa compreensão que emerge a partir de uma ficção baseada em fatos reais me assusta. Eu me vejo apavorado com a possibilidade de transmitir esses traumas à minha própria filha.

Fico emocionado com a situação de nossa mãe que, ao tomar consciência de que iria morrer, torna-se mais suave, até mesmo mais tranquila psicologicamente, o que nos aproximou de forma inesperada e inédita. Vou trabalhando para que essa sensação se transforme no ato final do filme: a ideia da proximidade da morte como liberação, instrumento de saúde. Ao mesmo tempo, a falência da relação entre Lili e Malu representa para mim a nossa falência coletiva enquanto sociedade, dividida em decorrência de visões opostas sobre a política e o mundo.

A minha geração, que no filme é representada por Joana, não tem as mesmas prioridades que as da geração de Malu – e minha mãe passou a vida reclamando disso. Algo que no filme se esclarece apenas no final, em uma cena que eu elaboro depois de anos de escrita do roteiro, na qual Malu finalmente admite o valor da geração de sua filha. Foi exatamente como ocorreu comigo, em uma viagem de carro a São Paulo. A doença havia progredido tão rapidamente que, no trajeto, me dei conta de que talvez aquela fosse a última oportunidade de ter uma conversa com minha mãe ainda lúcida. Pensando no que falar, me veio essa pergunta: “Por que você sempre criticou tanto a minha geração?” A resposta dela, que eu transcrevo com relativa precisão no roteiro, fecha o filme. (Na época, quando descobri que só teria três semanas de filmagem, pensei, num gesto de desespero, em cortar todo o ato final, o que levou o fotógrafo Mauro Pinheiro Jr. a me ameaçar: “Se você cortar, eu saio do filme!” Adoro gente apaixonada pelo que faz. O final ficou.)

Seria ingênuo, no entanto, representar essas mulheres de forma maniqueísta, alinhando uma delas com minhas próprias posições e salvando-a moralmente. Malu defende valores com os quais me identifico, mas, ao mesmo tempo, é capaz de atacar fisicamente sua mãe idosa. Lili demonstra um racismo profundo, mas é capaz de um amor infinito por sua neta. Faço um esforço enorme para entender e ter empatia pela conservadora Lili e penso que, do ponto de vista dela, a maconha que a filha fuma é uma droga terrível. Tento fazer o exercício de me colocar no seu lugar: se minha filha um dia se viciasse em crack, e eu fosse obrigado a observar seus dentes caindo e sua vida se destruindo, eu ficaria desesperado e seria capaz de medidas drásticas. A maconha está para Lili como uma fonte de todos os males de sua filha, causadora de seus surtos psicóticos. Eu nunca tinha refletido sobre as limitações sociais de minha avó na vida real, precisei da ficção para fazer isso. Tento entender Malu e sua instabilidade. Não é fácil, pois é essa mesma instabilidade que me causa tantos traumas. Mas agora estou fazendo um filme e preciso talvez ser mais generoso com minha personagem do que jamais consegui ser com minha própria mãe.

O jeito de Malu falar, a forma como ela transmite sua visão de mundo em cada frase, em cada palavrão. “Essa coisa de você falar palavrão chocava a vovó antigamente. Hoje é só grosseiro”, diz a filha no filme. Essa frase vem de longe: passa pela história que Malu sempre contava sobre sua fuga de Ourinhos, no interior paulista, aos 18 anos, para escapar da mãe, de quem levara uma surra por causa de um namorado, e de sua chegada em São Paulo. Na capital, conheceu Plínio Marcos, que disse que ela era pudica, porque fora educada em colégios de freiras (outro trauma do qual Malu falava bastante), e que, se queria ser atriz, deveria aprender a falar palavrão, “como o povo brasileiro fala”.

Então Plínio Marcos deu a Malu aulas de palavrão. “Repete comigo: ‘Caralho.’” E ela, constrangida, repetia. O palavrão era uma libertação da caretice da geração de sua mãe. Representava revolução, insubmissão. Hoje em dia, porém, o palavrão perdeu seu poder de enfrentamento. Todo mundo fala – e aparece inclusive um ser como Jair Bolsonaro, extremamente grosseiro, para quem o palavrão é apenas mais uma forma de violência cotidiana. De Plínio Marcos a Bolsonaro, triste história do palavrão no Brasil.

As memórias podem ser duras, e começo a me preocupar com estar escrevendo um filme pesado demais. Decido rever os filmes do diretor sueco Ingmar Bergman. Um dia, acordo bem cedo e assisto a um que eu nunca tinha visto, Face a Face, de 1976. Antes do café da manhã, a dra. Jenny Isaksson (interpretada por Liv Ullmann) já tinha sido violentada, espancada, humilhada e aprisionada em um sanatório. Não, Malu não é pesado demais. É também um mergulho no universo feminino.

A trama se passa no Rio de Janeiro, nos anos 1990. Malu Rocha, uma atriz de 55 anos, está numa situação extrema: desempregada há anos, mora numa casa cheia de goteiras, que ela nunca conseguiu terminar de construir, numa favela com ruas de terra, sem saneamento básico e onde falta energia elétrica com frequência. Ela é obrigada a dividir a casa com sua mãe, a conservadora e racista Lili, causa de atritos com Tibira, amigo de Malu que mora num quartinho no quintal. É com ele que a atriz costuma fumar maconha, para o pavor de sua mãe. Quando Malu humilha um padre amigo de Lili, a idosa ataca violentamente a filha, arranhando seu rosto. Malu revida, chutando a perna da mãe. A violência entre as duas impele Malu a expulsar Lili de casa: ela vai morar em um barraco inóspito no quintal.

Para complicar a situação, ocorre a volta da filha pródiga, Joana, depois de uma longa viagem de estudos na Europa. Ao visitar a mãe, a jovem se incomoda com a precariedade da casa. Malu, de seu lado, sente ciúmes do sucesso da filha, também atriz, mas é também extremamente carinhosa com ela. As duas vivem entre momentos de alegria e aspereza, até que, numa noite de tempestade, ocorre uma briga terrível, que termina com uma acusação paranoica de Malu: Joana estaria tendo um caso com o pai. Joana rompe relações com a mãe, tanto mais que ela se recusa a aceitar ajuda psiquiátrica, e abandona a casa.

Solitária, Malu tenta se reconciliar com Lili, e organiza uma festa para ela. Depois da saída dos convidados, já um pouco bêbada, Lili aceita a oferta de Tibira de experimentar um baseado e, numa viagem ruim, revela para eles a história de como seu pai violentava sistematicamente sua irmã mais nova. No dia seguinte, Lili vê Tibira dar maconha a Malu e, numa pretensa tentativa de ajudar a filha, que ela considera uma viciada, envenena a erva do rapaz – mas é Malu quem acaba sendo envenenada, tossindo sangue. Quando se recupera, percebe o que aconteceu e expulsa Lili de casa definitivamente.

Alguns anos depois, Malu está sozinha em casa, completamente abandonada, sofrendo quedas e descontroles motores. Joana finalmente decide deixar São Paulo para cuidar dela. Depois de diversos exames, descobre-se que Malu tem uma doença neurológica grave. O seu estado de saúde parece cada dia mais frágil, e a sensação de sua morte iminente torna a relação entre mãe e filha surpreendentemente mais leve. Joana toma a decisão de levar Malu para São Paulo. Na estrada, mãe e filha se reconciliam, mas subitamente Malu não entende mais para onde está indo.

Escrevi a primeira sinopse de Malu durante o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016. Terminei a primeira versão do roteiro em 2018, na mesma semana em que um deputado de extrema direita se elegeu presidente da República, depois de ter defendido publicamente a tortura e a ditadura militar. O candidato que estava à frente dele nas pesquisas tinha sido preso por corrupção, sem que houvesse provas definitivas – mais um golpe contra a democracia.

O processo de escrita e reescrita do roteiro durou cinco anos. Nesse período, a pessoa que mais me apoiou – além de minha companheira, Maria, de alguns amigos e familiares – foi minha produtora, Tatiana Leite. Ela foi também a única que leu todas as dez versões do roteiro, e cada vez que terminava me ligava, às vezes rindo, às vezes chorando, nunca indiferente. Um diretor sonha a vida inteira com uma produtora assim.

Finalmente, ganhamos um edital da RioFilme, e Tatiana me deu a notícia em 14 de novembro de 2021, dia do meu aniversário. É o melhor presente que já ganhei. De um dia para o outro, começou o processo vertiginoso de transformar o que está no papel em imagens e sons, pensando em quem chamar para a equipe e o elenco. A vida de um cineasta pode ser um pouco bipolar: anos de calmaria, só desenvolvendo os projetos, e de repente parece que entramos numa montanha-russa, deliciosa mas um pouco assustadora.

Três meses antes do início das filmagens, ficamos sabendo que a atriz que faria Malu estava doente e tínhamos que substituí-la. Eu estava em Havana dando um curso de direção de atores quando recebi a notícia. No quarto do hotel, tive um pequeno ataque de pânico, com taquicardia e falta de ar. “Perdi minha mãe”, pensei. “Vou ter que achar outra.” Depois de alguns nomes passarem pela mesa, chegamos a Yara de Novaes, uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, com pouca passagem pelo audiovisual.

Tivemos três semanas de ensaios, e nos primeiros dias tomei um susto: Yara e Juliana Carneiro da Cunha – para quem escrevi o personagem de Lili – estavam atuando de forma “teatral”, trabalhando numa composição exterior de suas personagens. Duas grandes artistas se permitindo errar – e aquele era o espaço para isso. Apesar de sempre ter defendido as atrizes de teatro, cheguei em casa apavorado, mas Maria mais uma vez me deu uma bronca e me mandou trabalhar: “Essa é sua especialidade, agora se tranca no escritório e pensa um jeito de resolver.” Eu obedeci.

No dia seguinte, cheguei ao ensaio um pouco transtornado e contei para as atrizes que fui assaltado à mão armada, com minha filha no colo, e que não estava em condições de ensaiar. Elas acreditaram. Ficaram perplexas e consternadas. Então, revelei a mentira e esclareci: “É assim que eu gostaria que vocês fizessem esse filme, de forma que o espectador não perceba se é verdade ou mentira. Vamos começar tudo de novo.”

As três semanas de ensaio foram um dos períodos mais felizes da minha vida, ricos em investigação artística e com muita entrega e generosidade da parte de um elenco que admiro profundamente. Trabalhamos a partir de técnicas básicas de Stanislavski, o sistema das ações físicas, em que improvisamos cada uma das cenas do roteiro, cronologicamente, sem texto decorado.

Inspirado também pelo método de trabalho do diretor americano John Cassavetes, pedi às atrizes que só decorassem o texto depois de terminados os ensaios. Dessa forma, conseguimos o que parecia impossível: aliar um estudo profundo das personagens, das relações e das situações com o frescor propiciado pelo fato de dizer o texto pela primeira vez já com a câmera rodando. Todas as cenas ensaiadas foram gravadas por mim, em meu celular, e à noite eu editava o material até chegar num filme de duas horas e quarenta minutos – todo o roteiro de Malu improvisado. Mostrei esse filme-rascunho aos cabeças de equipe, e eles ficaram felizes em poder ver e entender o que estávamos fazendo, antes mesmo de começarmos a filmar.

Sempre detestei os filmes biográficos em que os atores tentam imitar fielmente o biografado. Não me interessa em nada a mimese, que é para mim tão aborrecida quanto uma pintura hiper-realista. Nossa Malu não podia ser uma mimese, mas sim uma criação coletiva, que parte da Malu real, mas é ficção, para podermos ter liberdade criativa, sem o que nada de interessante viria a acontecer. Esperei, então, Yara se apoderar das situações do texto e ensaiar bastante, até poder mostrar a ela o vídeo com entrevistas de Malu Rocha.

Enfim, chegou a hora de as atrizes decorarem o texto, quando a precisão era essencial: nada de improvisos agora, pois o roteiro foi trabalhado minuciosamente por cinco anos e era importante que todas as falas fossem ditas como estavam escritas. As atrizes já haviam entendido emocionalmente as situações, as relações, os objetivos, e o texto deixara de ser amarra e se tornara liberdade: elas podiam usar as palavras para dar vida ao que de fato sentiam. Tempos depois, as atrizes me contaram que tiveram muita facilidade em decorar o texto, pois já o conheciam em profundidade, embora não tivéssemos feito o clássico trabalho de mesa, em que se senta e lê o escrito obsessivamente. Apesar da precisão no texto, deixei as improvisações contaminarem um pouco os diálogos, e vem de Juliana, a rainha do improviso, frases memoráveis como “Você sabia que a bromélia, pra ficar bonita, precisa sofrer?”

Nossa filmagem começou no dia seguinte ao da eleição de Lula, em 2022, com uma sensação de alívio, de que talvez a democracia fosse resistir no Brasil, afinal, apesar de haver tanta gente trabalhando vigorosamente contra ela. Tudo isso influenciou o processo de filmagem e também o discurso final de Malu, como quando ela diz: “Não podemos deixar esses escrotos perderem a vergonha de serem canalhas” (fala inspirada numa declaração de Caetano Veloso). “Pra onde estamos indo?”, pergunta Malu, tão desnorteada como estamos todos nós no Brasil. É uma pergunta que ecoa para mim insistentemente.

Durante as filmagens, voltei a me emocionar várias vezes. Vivi aqueles socos de desespero dados na cabeça, as porradas que doeram muito, mas que também traziam um alívio momentâneo, como se a dor física fosse capaz de me distrair um pouco do rasgo interior terrível. Aquela noite de tempestade em que minha mãe falou de meu pai e minha irmã ecoou na minha cabeça pelas últimas duas décadas, e fui me obrigando a revivê-la. Parece masoquismo, mas na atuação sublime de Yara e Carol Duarte algo ali a transformou em beleza infinita. A cena ficou forte, mas eu sentia que elas ainda podiam ir mais fundo. No sétimo take, em lágrimas, me dirigi às atrizes, e elas arregalaram os olhos. Não precisei falar mais nada: olhar para mim naquele estado foi suficiente para que as duas entendessem que o buraco é mais fundo. O oitavo take é o que será usado – e esta cena é para mim a mais forte e mais bela de Malu.

No processo de montagem do filme, me emocionei de novo. Foi como reescrever o roteiro, mas agora com as imagens impactantes. Precisei tomar cuidado para não parecer autocomplacente, mas tive que admitir que gosto muito do que filmamos. Acho que consigo me distanciar e admirar o trabalho principalmente por causa de um entendimento profundo que me foi ensinado na escola de cinema em Cuba: o cinema é de fato uma arte coletiva. Me emociona ver a câmera viva, orgânica do Mauro Pinheiro Jr. Me emociona o trabalho minucioso da arte de Elsa Romero, que criou a casa que é uma personagem em si, assim como a maquiagem criativa de Marcos Freire e os figurinos invisíveis de Rô Nascimento.

Principalmente me emocionam os silêncios da atriz Carol Duarte, sempre carregados de uma emoção contida e linda, o monólogo em que Juliana Carneiro da Cunha conta uma história terrível do passado, e em que cada frase está completamente trabalhada com imagens interiores, o ator Átila Bee (que interpreta Tibira), transtornado, dizendo “Eu não vou deixar a sua maldade estragar a minha poesia”, frase que escrevi com medo de soar cafona, mas ficou linda na boca dele. E me emociono com o trabalho radiante de Yara de Novaes, que consegue transitar, em segundos, do olhar cheio de brilho e entusiasmo da atriz Malu ao olhar opaco de uma mulher instável ao extremo.

A finalização técnica, atividade muito repetitiva da produção do filme, me distanciou um pouco de Malu, e passei o tempo esperando a temporada de festivais, enquanto trabalhei em outras coisas e cuidei da minha filha. Então, recebi, mais uma vez em novembro, a notícia de que Malu havia sido selecionado para o Festival de Sundance, um dos cinco festivais mais importantes do mundo.

Sempre tento fazer meus filmes sem mirar nos festivais. Tenho coceiras com aquelas produções que sentimos terem sido pensadas para agradar os curadores. Mas a verdade é que apavora qualquer cineasta que, depois de anos de trabalho árduo, ninguém assista ao seu filme. A seleção para Sundance garante que muito mais gente verá o filme. Por isso, chorei ao vê-lo projetado numa tela imensa no festival, com Malu contando para os cinéfilos americanos a história de como uma atriz enganou os militares na ditadura fingindo ser uma burguesinha ingênua – a mesma história que eu ouvi tantas vezes na casa do Pontal.

A emoção é ainda maior no Cine Odeon, no Rio, e no Cinema São Luiz, no Recife, quando o público ri da cena em que Malu achincalha um padre. No minuto seguinte, o mesmo público mergulha num terrível silêncio, quando Malu e sua mãe se agridem de modo tão violento.

A repercussão no Festival do Rio, em outubro passado, é um momento intenso: Yara de Novaes ganha o prêmio de melhor atriz e o de melhor atriz coadjuvante é dividido entre Juliana Carneiro da Cunha e Carol Duarte. Eu mesmo recebo o prêmio de melhor roteiro, e todos nós, da equipe, ganhamos o cobiçado prêmio de melhor filme, dividido com o lindo Baby, de Marcelo Caetano. Existem vídeos que registram o momento em que anunciam o último prêmio: o elenco, a Tatiana e eu nos abraçamos e nos beijamos, num frenesi. Graças a Malu, nós nos tornamos uma família, mas dessa vez uma família feliz e saudável.

Já quase no final da temporada de festivais, uma alegria inesperada: no Festival Internacional do Cairo, no Egito, ganhamos dois prêmios: na categoria de melhor atriz, para Yara de Novaes, e de melhor 1º ou 2º longa de um diretor. Recebo o troféu  das mãos de Danis Tanović, cineasta bósnio ganhador de um Oscar (com Terra de ninguém, de 2001), que me conta estar impressionado que Malu seja meu primeiro longa-metragem.

No final, o maior prêmio dado ao filme é a resposta do público. No Brasil, uma amiga psicóloga, também ela filha de uma atriz, me contou que os almoços com sua mãe se tornaram mais leves depois de ela ter visto o filme. Em Durban, na África do Sul, uma espectadora disse no debate que estava com dificuldades de fazer a pergunta porque ainda estava tremendo após assistir ao filme. Em Nova York, mostramos Malu no Lincoln Center e no Museu de Arte Moderna (MoMA). O curador do museu, Rajendra Roy, um homem extremamente elegante e sério, se aproximou e disse que o filme o fez repensar sua relação com seu pai. Em seguida, começou a me contar a história de sua família. No Cairo, uma senhora egípcia me conta, na manhã seguinte à sessão, que sonhou com a Yara a noite inteira.

Malu é um filme de baixo orçamento, filmado em apenas três semanas, sem grandes pretensões comerciais, mas fico feliz de ver que ele está encontrando seu público. Minha maior ambição com ele era apenas fazer com que as pessoas sentissem empatia por aquelas mulheres. Não esperava essa resposta tão intensa, pois só tentei contar a história da minha mãe da forma mais honesta possível.

Minha irmã, Isadora, me fala que assistir a Malu – que, agora, ela já viu diversas vezes – valeu mais para ela do que os muitos anos de terapia. Diz ainda que, graças ao filme, pôde se reconectar com nossa mãe. Convido minha analista para assistir e brinco com ela que isso vai ajudar a economizar dez sessões de análise.

Hoje acredito que consigo sentir por minha mãe – e também por minha avó – um carinho enorme, que durante décadas bloqueei. A realização desse filme acabou se tornando um processo de autocura. Mas esse não foi meu objetivo – foi uma consequência. Dediquei o filme à minha filha, Pilar, neta de Malu.


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Cineasta, dirigiu Malu, seu primeiro longa-metragem, com o qual venceu, entre outros prêmios, o de melhor filme no Festival do Rio 2024