diário do geraldo
Abr 2025 16h37
6 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
1º DE ABRIL_É tanta fake news que o Dia da Mentira perdeu a graça. Ainda sonho com um feriado que obrigue Trump e Bolsonaro a passarem 24 horas falando apenas a verdade como naquele filme do Jim Carrey.
2 DE ABRIL_Reconheço: fiz um esforço hercúleo para me adaptar ao comunismo. Mas verdade seja dita: sinto que estou para Lênin assim como o Bolsonaro para a língua inglesa. O fato é que nunca me senti aceito pelo pessoal da repartição. E ainda carrego a ferida aberta de não conhecer pessoalmente o Chico Buarque. O curioso é que sinto uma mudança no espírito do tempo. Vou elaborar sobre isso na minha análise.
Meio-dia, reunião com Sidônio. Duas horas, reunião com um tal de Libânio. O que me espera no final da tarde?
3 DE ABRIL_Pessoal da Abin veio me dizer que hackeou o departamento de inteligência de Donald Trump. Entre animados e estupefatos, me mostraram a foto de uma marmota. De acordo com nossos espiões, o planejamento do governo Trump funciona assim: se a marmota sair da toca sem enxergar a própria sombra, ele aplica tarifas em todos os países que têm a cor vermelha na bandeira. Se a marmota ficar na toca, as tarifas vão para nações cujos líderes são calvos. E se a marmota dançar Ragatanga, a ordem é invadir o Suriname.
A descoberta foi tão aleatória que acabei entrando no clima e marcando uma reunião do nada com Clayton Machado, prefeito de Pilar do Sul.
4 DE ABRIL_Todos que acompanham meu diário sabem que sexta-feira é dia de inventar um pretexto para vir a São Paulo. Dessa vez, a desculpa foi uma reunião com membros do Conselho do Iedi – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. Confesso que não conhecia esse instituto, mas gostei do método aleatório do Trump de tomar decisões.
E ontem foi dia de ver o Geraldão no Jornal Nacional. Finalmente a Rede Globo entendeu que dou mais audiência que a Odete Roitman. Ainda bem que estava em São Paulo e pude juntar a família para ver em casa. Ao discorrer sobre a política de tarifas de Donald Trump, escandi todas as sílabas e ainda soltei uma frase de efeito: “Não se faz uma guerra para obter a paz.” Libelu ficou com os olhos marejados e, voltando-se para mim, seus lábios sussurraram: “Meu Churchill…”
5 DE ABRIL_E não é que tive uma iluminação na terapia? O fato é que o Brasil só tem falado de Trump, anistia, Bolsonaro, popcorn, ice-cream, Xandão, da série Adolescência, da Maria de Fátima, do Cauã Reymond e dos escândalos da CBF. O President’Lula deixou de ser assunto. Ou seja: minha influência no governo é acachapante. Mais do que comunista, sou anestesista. O governo Lula tem hoje o carisma de um picolé de chuchu.
6 DE ABRIL_A epifania foi libertadora. Fiquei tão pleno de mim que passei o domingo inteiro em posição de lótus relendo, como num mantra, a bula do Propofol.
7 DE ABRIL_Neste Dia Mundial da Saúde, participei com o President’Lula e o ministro Padilha de um anúncio de investimentos da Novo Nordisk. Não poderia haver evento mais alckminiano para celebrar esta importante data. Nos bastidores, Lula me puxou no canto para testar o discurso. A mensagem que ele pretendia passar para o povo dizia que “a autoexecutoriedade administrativa o impelia peremptoriamente de burilar certos macrodados expostos pela Autarquia Brasileira de Burocracias Tangenciáveis”. Fiquei até arrepiado. Nem Djavan ousou tanto.
Reunião com Wopke Hoekstra, comissário para Clima, Neutralidade Carbônica e Crescimento Limpo. Comecei dizendo que o nosso desafio começa pela comunicação e sugeri que Wopke Hoekstra passasse a se apresentar como Zé Carlos aqui no Brasil.
8 DE ABRIL_Ando comovido com essa turnê de despedida do Gilberto Gil. Como tenho influenciado todo mundo, escrevi uma letra de canção e mandei pra ele: “A Pindamonhangaba continua linda. A Pindamonhangaba continua sendo. Alô, alô, setor sucroenergético, aquele abraço! Alô, reciclabilidade, aquele abraaaaaço.” Se ele gostar, tomo coragem de propor uma parceria com o Chico Buarque.
9 DE ABRIL_Estou tão imerso na trama de Vale tudo que me peguei pensando se o governo Lula 3 não seria uma espécie de remake roteirizado pelo compliance. Se for isso mesmo, de uma coisa estou certo: clonaram a Odete Roitman e a Maria de Fátima e fizeram trezentas cópias de cada uma delas. Só no Congresso, elas se contam às dúzias. Bons tempos em que tínhamos que lidar apenas com o Roberto Jefferson.
10 DE ABRIL_Amigos, humildade é meu sobrenome. Tem dias em que a gente sabe que está fazendo História com H maiúsculo. Foi o que ocorreu hoje quando inauguramos a foto do Marco Maciel na galeria dos vice-presidentes. O cerimonial tomou precauções para evitar um grave incidente diplomático ao rever a política de umidificadores de ar da galeria.
11 DE ABRIL_A vingança é um prato frio que se come pelas beiradas. O prefeito tiktoker fanfarrão foi dizer que Sorocaba é a melhor cidade para se viver e… se tornou alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga desvios na saúde.
12 DE ABRIL_Fiz questão de participar do Congresso do PSB realizado na sede da Assembleia Legislativa de Sergipe. Em eventos como esse, a gente fica a par das tendências disruptivas que guiarão o pensamento humano nas próximas décadas. Para se ter uma ideia do nível da organização, o corrimão da rampa de acesso ao prédio foi decorado com bexigas nas cores do PSB. E como Aracaju é agradável…
14 DE ABRIL_Um assessor apareceu meio constrangido aqui no gabinete. Como sou um profundo leitor da alma humana, apliquei-lhe um pescotapa e falei: “Desembucha, rapá.” Ele rodeou, rodeou, mas acabou dizendo que o prefeito tiktoker de Sorocaba ganhou mais 70 mil seguidores depois que foi denunciado. Meditei por uns cinco minutos antes de concluir que o verdadeiro sucesso dos tempos atuais está na discrição. Nos cinco minutos seguintes pensei se não devia atropelar uma freira para aumentar minha comunidade virtual.
15 DE ABRIL_O President’Lula aceitou minha sugestão de dar um pulo hoje na pujante metrópole de Resende para anunciar investimentos automobilísticos.
16 DE ABRIL_Por causa dos solavancos vindos da Casa Branca, as Bolsas andam mais instáveis que os relacionamentos do Neymar. O dólar está imprevisível e o ouro deixou de ser um investimento seguro. Coloquei todos os meus investimentos em azeite. Compramos uma penca de garrafinhas. Nada tem valorizado mais – e com mais constância – do que o azeite. A essa altura, não ficarei espantado se Warren Buffett estiver perguntando para os seus assessores: Who the hell is this Geraldo?
18 DE ABRIL_Tenho ouvido nos corredores do Congresso que o modo aleatório de negociação de Donald Trump virou referência. Já tem parlamentar pedindo 115% de propina em obras e 490% de comissão em indicação política, além de pastor pedindo 67% de dízimo.
19 DE ABRIL_Reproduzo aqui um post das minhas redes sociais. “Neste Sábado de Aleluia, tomo a liberdade de compartilhar uma notícia que alegrou meu peito: em 2024, tivemos a maior redução da desigualdade social dos últimos anos, a renda dos mais pobres cresceu 10,7%, num ritmo 50% superior à dos mais ricos, que também cresceu. Isso é obra e resultado de um país estabilizado, unido e reconstruído.” A alegria de celebrar essa conquista é inversamente proporcional à constatação de que ninguém se interessou. Mas vida que segue. Como disse, a irrelevância é o novo sucesso. E a estratégia da freira é sempre uma solução. Em Sábado de Aleluia, então, deve gerar até um bônus extra de seguidores.
22 DE ABRIL_Estava conversando com um amigo comunista no bandejão da firma. Do jeito que as coisas estão, não duvido que apareça um site de apostas para a escolha do novo Papa. Qual seria o nome? Betcano? Papa da Sorte?
Eis que meu amigo comunista retrucou: “Companheiro Geraldo, a maior casa de apostas do mundo se chama Igreja Católica. Você aposta a vida inteira e só depois da morte é que vai saber se foi contemplado.” Eu realmente nunca vou entender esses comunistas.
Por Renato Terra