poesia

HISTÓRIA DA ARTE

Copacabana: a pessoa amada desaparece aqui para sempre
“Que nome dar à dona em cabelos pôr do sol que me olha com olhos koleston?” - CRÉDITO: CHRISTUS NÓBREGA_2026
“Que nome dar à dona em cabelos pôr do sol que me olha com olhos koleston?” - CRÉDITO: CHRISTUS NÓBREGA_2026

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O poema a seguir, escrito a partir de eventos reais, faz parte do livro Aramão, que será lançado neste mês. Alguns versos ganharam uma versão visual criada para a piauí pelo artista plástico Christus Nóbrega, que com recursos da inteligência artificial usou a imagem do próprio poeta, Eucanaã Ferraz, para representar todos os personagens. As cenas aqui reproduzidas não fazem parte do livro a ser publicado pela Companhia das Letras.

A vidente em Copa vai trazer meu amor de volta

em poucos dias. Na sala de espera estranho

um óleo sobre tela: Tarsila. E uma rima.

Secretária? Auxiliar? Ajudante? Que nome dar

à dona em cabelos pôr de sol que me olha

com olhos koleston? Um óleo da Tarsila!

Vou me mandar daqui – digo mudo. Dane-se

o amor. Gangue de videntes que trafica arte?

Não quero senão a pessoa amada – agora! –

em vinte e quatro horas. Três dias. Uma semana.

Quem sabe daqui a quinze minutos

surgirá numa esquina daqui de Copa.

Cópia! Não pode ser uma Tarsila autêntica.

Deve ser um bando de videntes que trafica co-

rações assim em pedaços prometendo có-

pias do amor que não volta. Mas a gangue de falsificadores

vai me trazer uma pessoa igualzinha à pessoa amada.

Até melhor: talvez me ame. Isso aqui

nem é Copacabana. A loura parece americana.

Devo estar na Desrepública Dominicana

falsificada por uma gangue de coincidências

que trafica rimas mais uns prêmios literários.

Devo estar aqui há duas horas. Melhor voltar

outro dia – digo de repente – outro dia talvez

na próxima semana. Não tenho pressa e afinal

a pessoa amada que não volta nem me ama.

A dona se levanta boa tarde sussurram

seus cabelos num sotaque loiro enigmático.

Abre a porta. Saio aliviado. Mas no corredor

procuro trêmulo o elevador

sumiu. Há uma porta

igual a outra o elevador simplesmente não existe

esse andar inteiro deve estar tomado pela gangue

de videntes de Copacabana dominada desde há muito

por vigaristas modernistas que se uniram

para roubar a tela da Tarsila e de quebra

o meu coração perdido numa lista entre vítimas

evisceradas ainda no tempo em que este pardieiro

se dizia Princesinha do Mar com os seus tupinambás

de plástico sambando entre madames laquês

cílios postiços mil empregadas afogadas em aquários

de trinta centímetros quadrados vigiados por polvos

de smoking e charuto. Penso nisso tudo

para não gritar: o elevador! Então sinto

me pegar no braço a mão do delegado me acusa

de eu estar ali mancomunado com a gangue

de videntes que roubou a tal tela da Tarsila.

Diga! Onde está O sol poente? Onde está o quê?

O sol poente – porra! Respondo

que deve estar na praia caindo

na sílaba tônica da palavra crepúsculo. Ah!

o cara é poeta! Diz um brutamontes igualzinho

ao outro delegado me acertando um murro bem aqui.

Sol poente! O quadro roubado! Diz!

Trezentos milhões de reais! Ouço isso e sinto

trinta milhões de raios baterem no meu corpo

num soco que me acorda e vejo tudo nítido:

(janeiro de dois mil e vinte e dois.

Copacabana. A vítima é abordada

na rua por um sujeito e ele lhe diz 

na lata que a filha dela está à beira

de bater as botas. Como ele sabe?

Ele é vidente. Então leva a vítima

a uma cartomante (aquela) e ela

confirma tudo. O cara e a coroa

depois vão juntos à sacerdotisa

de uma seita mística tão secreta

e tão oriental que ninguém conhece.

Ela pergunta às conchas e consulta

astros ervas livros cristais sementes

espíritos e – sim! – confirma tudo.)

Não sou vidente evidentemente me diz

um delegado igualzinho ao delegado – mas

logo vi que a gangue tinha sido contratada

pela filha da vítima para convencer a coroa

a pagar por um trabalho espiritual

e sobrenaturalmente a velha pagou cinco milhões

pra salvar a filha. Quanto a mim pagaria

cinco milhões para ter de volta a pessoa amada

se tivesse cinco milhões e se amasse alguém

a essa altura da história porque não amo mais

ninguém nem amaria muito menos uma filha

um filho um Rolex um Di Cavalcanti um Guignard.

O certo é não amar nada não amar ninguém pensou

decerto a vítima ali espancada aprisionada

dando adeus quadros lembranças coleções ilusões.

Copacabana é cruel. Lamaçal de lágrimas

onde o Sol parece um delegado – falso –

que nunca se põe porque é sempre Carnaval.

Copacabana: a pessoa amada desaparece aqui

para sempre. 

“A gangue de falsificadores vai me trazer uma pessoa igualzinha à pessoa amada. Até melhor”
“A mão do delegado me acusa de eu estar mancomunado com a gangue de videntes”
“Ele lhe diz na lata que a filha dela está à beira de bater as botas”
“Sacerdotisa de uma seita tão secreta e tão oriental que ninguém conhece” 
“Copacabana: a pessoa amada desaparece aqui para sempre”


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Poeta e ensaísta, publicou Sentimental e Retratos com Erro, ambos pela Companhia das Letras