poesia
Eucanaã Ferraz Abr 2026 23h41
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O poema a seguir, escrito a partir de eventos reais, faz parte do livro Aramão, que será lançado neste mês. Alguns versos ganharam uma versão visual criada para a piauí pelo artista plástico Christus Nóbrega, que com recursos da inteligência artificial usou a imagem do próprio poeta, Eucanaã Ferraz, para representar todos os personagens. As cenas aqui reproduzidas não fazem parte do livro a ser publicado pela Companhia das Letras.
A vidente em Copa vai trazer meu amor de volta
em poucos dias. Na sala de espera estranho
um óleo sobre tela: Tarsila. E uma rima.
Secretária? Auxiliar? Ajudante? Que nome dar
à dona em cabelos pôr de sol que me olha
com olhos koleston? Um óleo da Tarsila!
Vou me mandar daqui – digo mudo. Dane-se
o amor. Gangue de videntes que trafica arte?
Não quero senão a pessoa amada – agora! –
em vinte e quatro horas. Três dias. Uma semana.
Quem sabe daqui a quinze minutos
surgirá numa esquina daqui de Copa.
Cópia! Não pode ser uma Tarsila autêntica.
Deve ser um bando de videntes que trafica co-
rações assim em pedaços prometendo có-
pias do amor que não volta. Mas a gangue de falsificadores
vai me trazer uma pessoa igualzinha à pessoa amada.
Até melhor: talvez me ame. Isso aqui
nem é Copacabana. A loura parece americana.
Devo estar na Desrepública Dominicana
falsificada por uma gangue de coincidências
que trafica rimas mais uns prêmios literários.
Devo estar aqui há duas horas. Melhor voltar
outro dia – digo de repente – outro dia talvez
na próxima semana. Não tenho pressa e afinal
a pessoa amada que não volta nem me ama.
A dona se levanta boa tarde sussurram
seus cabelos num sotaque loiro enigmático.
Abre a porta. Saio aliviado. Mas no corredor
procuro trêmulo o elevador
sumiu. Há uma porta
igual a outra o elevador simplesmente não existe
esse andar inteiro deve estar tomado pela gangue
de videntes de Copacabana dominada desde há muito
por vigaristas modernistas que se uniram
para roubar a tela da Tarsila e de quebra
o meu coração perdido numa lista entre vítimas
evisceradas ainda no tempo em que este pardieiro
se dizia Princesinha do Mar com os seus tupinambás
de plástico sambando entre madames laquês
cílios postiços mil empregadas afogadas em aquários
de trinta centímetros quadrados vigiados por polvos
de smoking e charuto. Penso nisso tudo
para não gritar: o elevador! Então sinto
me pegar no braço a mão do delegado me acusa
de eu estar ali mancomunado com a gangue
de videntes que roubou a tal tela da Tarsila.
Diga! Onde está O sol poente? Onde está o quê?
O sol poente – porra! Respondo
que deve estar na praia caindo
na sílaba tônica da palavra crepúsculo. Ah!
o cara é poeta! Diz um brutamontes igualzinho
ao outro delegado me acertando um murro bem aqui.
Sol poente! O quadro roubado! Diz!
Trezentos milhões de reais! Ouço isso e sinto
trinta milhões de raios baterem no meu corpo
num soco que me acorda e vejo tudo nítido:
(janeiro de dois mil e vinte e dois.
Copacabana. A vítima é abordada
na rua por um sujeito e ele lhe diz
na lata que a filha dela está à beira
de bater as botas. Como ele sabe?
Ele é vidente. Então leva a vítima
a uma cartomante (aquela) e ela
confirma tudo. O cara e a coroa
depois vão juntos à sacerdotisa
de uma seita mística tão secreta
e tão oriental que ninguém conhece.
Ela pergunta às conchas e consulta
astros ervas livros cristais sementes
espíritos e – sim! – confirma tudo.)
Não sou vidente evidentemente me diz
um delegado igualzinho ao delegado – mas
logo vi que a gangue tinha sido contratada
pela filha da vítima para convencer a coroa
a pagar por um trabalho espiritual
e sobrenaturalmente a velha pagou cinco milhões
pra salvar a filha. Quanto a mim pagaria
cinco milhões para ter de volta a pessoa amada
se tivesse cinco milhões e se amasse alguém
a essa altura da história porque não amo mais
ninguém nem amaria muito menos uma filha
um filho um Rolex um Di Cavalcanti um Guignard.
O certo é não amar nada não amar ninguém pensou
decerto a vítima ali espancada aprisionada
dando adeus quadros lembranças coleções ilusões.
Copacabana é cruel. Lamaçal de lágrimas
onde o Sol parece um delegado – falso –
que nunca se põe porque é sempre Carnaval.
Copacabana: a pessoa amada desaparece aqui
para sempre.