Camille Lichotti 02 Jul 2026
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A empresária Lilma da Silva Campos, de 50 anos, abriu a porta de seu escritório e tomou uma lufada gelada do ar-condicionado, um alívio instantâneo para o calor amazônico do lado de fora, em dezembro passado. “Champanhe!”, exclamou, ao se deparar com uma garrafa embrulhada em papel celofane sobre sua mesa. “E ainda é francês, da Moët & Chandon.” Depois de examinar o rótulo por alguns segundos, a dona do Chalets Paradis (Chalés Paraíso, em francês), uma pousada no município de Oiapoque, no Norte do Amapá, me explicou que ganhara a bebida de um de seus hóspedes mais fiéis. “No fim do ano o pessoal costuma trazer muito champanhe da Guiana Francesa.”
A maior parte de seus clientes vem do departamento ultramarino francês, cuja fronteira com o Brasil é quase toda delimitada pelo leito do Rio Oiapoque. De barco, a travessia de um país ao outro dura em torno de 10 minutos. O trajeto pela Ponte Binacional Franco-Brasileira, que liga a cidade de Oiapoque à franco-guianense Saint-Georges-de-l’Oyapock, pode durar mais de uma hora.
As filas à beira do rio se formam antes de o Sol nascer em Oiapoque. Sentadas em bancos de concreto nos pontos de embarque, famílias inteiras da Guiana Francesa aguardam sua vez de embarcar de volta para Saint-Georges, cheias de malas e sacolas de compras. Os franco-guianenses aproveitam a desvalorização do real para comprar em mercados e lojas do lado brasileiro. Frequentam os restaurantes e passeiam nos fins de semana, movimentando a economia da cidade, que é geograficamente isolada do resto do Brasil.
Os brasileiros fazem o caminho oposto, em direção à Guiana Francesa, em busca de algum serviço informal que lhes pague na moeda local – o euro. O garimpo ilegal é o mais comum. A rua que beira o rio no lado brasileiro amanhece engarrafada de picapes dos garimpeiros, sujas de lama, nas quais são embarcados mantimentos e combustível para abastecer os garimpos da Guiana Francesa. No vaivém dos pontos de embarque, cambistas se oferecem para trocar dinheiro, apesar de não ser necessário em Oiapoque: o comércio na cidade aceita pagamento em real, euro ou ouro. Fala-se português, francês e um pouco de crioulo franco-guianense.
Há também os brasileiros que vão à Guiana Francesa em busca de oportunidades mais sólidas. Foi o que aconteceu com os pais de Lilma Campos, um pescador e uma vendedora ambulante que cruzaram o rio com a família depois que a Vila Taperebá, onde moravam, praticamente deixou de existir. Em 1980, com a fundação do Parque Nacional do Cabo Orange, a área da vila foi integrada a uma reserva ambiental de proteção integral, o que restringiu a pesca e outras atividades na região.
A vida era difícil para a família de Campos à beira do Rio Cassiporé, na Vila Taperebá. Sem água encanada nem esgoto, ela e os nove irmãos tinham de tomar banho na água barrenta da pororoca e almoçar sentados no chão da casa sem mobília. Precisavam remar por quilômetros para buscar água potável nos igarapés. “Eu ia para a escola toda tuíra”, lembra a empresária, usando uma expressão local que é sinônimo de pele escamosa ou ressecada. “Hoje eu só uso creme da Dior.” Enquanto fala, as pulseiras e braceletes de ouro tilintam em seu braço. No colar, ela carrega um crucifixo grosso, também de ouro.
Na Guiana Francesa, Campos estudou, casou e teve filhos. “Mas a cidade que me deu oportunidade de ascensão foi Oiapoque”, diz. Em 2012, ela comprou a chácara onde funciona a sua pousada, com dezessete chalés de madeira, de no máximo 30 m² cada, equipados com camas de casal e beliches. As construções são simples, mas a propriedade se destaca na vizinhança formada por casas precárias e ruas sem asfalto. Logo na entrada há uma loja, onde são vendidos suvenires, artesanato indígena, roupas, biquínis e bijuterias. Num pátio circular e aberto funciona um bar de drinques e o restaurante de comida brasileira, com espaço para quase cem pessoas. A pousada conta ainda com uma piscina e, na área externa arborizada, um lago ornamental. Ali, Campos vende aos turistas europeus a oportunidade de imersão num pedaço brasileiro da Floresta Amazônica.
Ela emprega atualmente 23 pessoas, fora as diaristas e os funcionários temporários. Cem fornecedores locais abastecem a pousada, onde Campos está construindo agora um spa que vai oferecer serviços de massagem, cabeleireira e manicure. Por ser uma das principais empresárias da cidade, ela está à frente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque (Acoi) desde 2017. Hoje a entidade representa 98 empresas.
Da infância na Vila Taperebá, ela também se lembra de ver helicópteros das empresas petrolíferas sobrevoando a região enquanto brincava com as outras crianças. “Naquela época já se falava dessa bacia de petróleo. A gente não dava importância porque não sabia nada de nada.”
O primeiro poço na costa do Amapá foi perfurado em janeiro de 1970 e não encontraram nem óleo, nem gás. Mesmo assim, as expedições e pesquisas continuaram nos anos seguintes, e representantes das petrolíferas chegaram a fazer contato com indígenas isolados da região. Em dezembro de 1978, uma nova perfuração detectou pela primeira vez a existência de petróleo na área, mas em quantidade “subcomercial”.
O primeiro bloco de perfuração na Foz do Amazonas foi ofertado na primeira licitação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 1999. O leilão realizado pelo governo Fernando Henrique Cardoso ocorreu na esteira da privatização da exploração de petróleo no país, até então monopolizada pela Petrobras. O único bloco disponível acabou arrematado por um consórcio de cinco empresas: BP Energy do Brasil, Esso, Petrobras, Shell e British-Borneo Oil & Gas. Na época, a Foz do Amazonas estava longe dos holofotes – a estrela do leilão era a Bacia de Campos. O interesse aumentou conforme surgiam novas descobertas geológicas. A indústria pressionou pela abertura de novas áreas exploratórias depois do frisson causado pelo pré-sal na década de 2010.
O bloco de exploração FZA-M-59, a 175 km da costa da cidade de Oiapoque, foi cedido inicialmente a um consórcio entre a empresa britânica BP e a Petrobras, em maio de 2013, no 11° leilão da ANP. No ano seguinte, o Ibama iniciou o processo de licenciamento ambiental, a pedido da BP, majoritária no consórcio. O trâmite se arrastou por anos, com sucessivos pedidos de esclarecimento e complementação feitos pelo Ibama.
A BP, ao lado da Petrobras, uniu esforços com a Queiroz Galvão Exploração e Produção (que passou a se chamar Enauta em 2019 e hoje integra a Brava Energia) e a francesa Total E&P do Brasil – duas outras petrolíferas com concessão de blocos na Foz do Amazonas – para obter um diagnóstico ambiental conjunto, evitando que o Ibama tivesse que analisar o pedido de licenciamento de cada uma das empresas. Mas a estratégia não deu certo. Em 2018, o Ibama negou o licenciamento a cinco blocos da Total, que recorreu da decisão, sem sucesso. A empresa então abandonou o consórcio. A BP ainda corria para cumprir as exigências de seu processo no Ibama, construindo uma base de proteção à fauna, quando também resolveu abandonar a operação, em abril de 2021. Vendeu a titularidade do bloco FZA-M-59 para a Petrobras (a estatal informou que o valor da transação é confidencial). A partir de então, o cenário mudou.
Em maio de 2023, o Ibama voltou a negar a licença para perfuração do bloco porque a estatal não demonstrara ter capacidade de responder a um eventual vazamento de óleo, entre outras inconsistências técnicas. O instituto também destacou que a falta da Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), que nunca havia sido realizada na região, era um empecilho para a sua análise. Em resposta ao resultado negativo, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) para emitir um parecer em favor da empresa. A AGU atendeu o pedido.
A Petrobras entrou com recurso e o Ibama aceitou reconsiderar a decisão, desde que recebesse documentos complementares. Em fevereiro de 2025, um parecer assinado por 29 analistas ambientais do Ibama recomendou novamente que o órgão recusasse a licença do bloco FZA-M-59, alertando que, mais uma vez, a estatal não comprovara estar aparelhada para enfrentar um acidente – o que colocaria em risco o maior complexo de mangues do mundo, além de recifes de coral, animais, a Foz do Rio Amazonas, a população do Amapá e a da Guiana Francesa. Com a máquina pública pressionando a favor da licença e tentando contornar as resistências do Ibama, a licença para a campanha exploratória acabou sendo finalmente concedida no dia 20 de outubro de 2025. Ela serve para aferir se, de fato, existe petróleo em escala comercial.
A ex-presidente do Ibama Suely Araújo, que negou o licenciamento para a Total, avalia que os problemas identificados no processo da empresa francesa em 2018 se repetiram no material entregue pela Petrobras, especialmente no que diz respeito à capacidade de lidar com um eventual vazamento de óleo. “A modelagem não tem a precisão necessária para uma operação tão arriscada”, diz ela. “Na região existem correntes marítimas fortíssimas. Ninguém questiona a capacidade da Petrobras em termos de tecnologia. Mas ela não tem experiência de exploração com essas correntes. Nem a Petrobras nem ninguém.”
Hoje na coordenação de políticas públicas do Observatório do Clima – uma rede de entidades ambientais –, Suely Araújo vê a licença do bloco FZA-M-59 como uma “porteira” que a Petrobras queria abrir para destravar a exploração de petróleo em toda a Margem Equatorial, que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte. Ao longo da Margem Equatorial, 69 blocos estão em fase de estudo, 33 deles operados pela estatal. “Se o Ibama já aceitou a exploração em um parecer, qual argumento terá para negar as outras?”, questiona Araújo. Ela não se lembra, entre as mais de mil licenças ambientais que assinou, de alguma na qual tenha havido interferência da AGU no processo de licenciamento.
A pressão pública pela liberação foi capitaneada pelo presidente Lula e pela atual presidente da Petrobras, Magda Chambriard, sob o argumento de que a perfuração aconteceria de forma “extremamente segura”, sem risco de danos ambientais por acidente.
O primeiro acidente ocorreu menos de dois meses depois do início da operação, em 4 de janeiro de 2026. Houve vazamento de 18 mil litros de fluido de perfuração, e o trabalho teve de ser interrompido para reparos. A Petrobras afirmou que o acidente teve baixo risco ambiental. O Ibama aplicou uma multa de 2,5 milhões de reais pela descarga do fluido no mar, já que qualquer tipo de substância química pode afetar o frágil ecossistema que existe ali.
Em 2024, a diretora de Exploração e Produção da estatal, Sylvia dos Anjos, havia dito que a existência de recifes de coral na Amazônia é fake news científica. A Petrobras não comentou a declaração da diretora, mas afirmou, em nota, que realizou inspeção no entorno do poço e não encontrou corais. Os analistas ambientais, por outro lado, argumentam que o mar não respeita o limite quadrangular desenhado para o bloco FZA-M-59. O Grande Sistema de Recifes da Amazônia se estende por 9,5 mil km² da costa, segundo um texto publicado na revista Science Advances em 2016. Pode ser até maior e mais diverso do que se sabe, como indicam dados analisados em outro artigo, publicado em 2018 na Frontiers in Marine Science. Já em 2022, em nova publicação desta mesma revista, 21 pesquisadores compilaram as principais informações sobre o sistema recifal, indicaram os impactos da exploração de petróleo e ressaltaram a “baixa qualidade” dos estudos de impacto ambiental realizados nos processos de licenciamento brasileiros.
Quando o Ibama concedeu a licença à Petrobras, em outubro passado, um grupo de funcionários da estatal hospedados em Oiapoque organizou um churrasco no terraço de um hotel para comemorar a decisão. Eles haviam começado a chegar à cidade tão logo a empresa assumiu o processo de licença ambiental, em 2021. A partir de 2023, conforme os estudos avançavam, a presença dos servidores e de funcionários das subsidiárias foi se intensificando. A orientação da Petrobras era que eles não usassem uniforme em público e evitassem contato com a população, para não gerar especulações, e também com a imprensa.
Mas foi quase impossível que passassem despercebidos. De quinze em quinze dias, desembarcavam dezenas de novos funcionários, lotando os hotéis. Aos poucos, os forasteiros se integraram à cidade e hoje já circulam notícias de que alguns deles estão investindo em imóveis em Oiapoque.
A Petrobras anunciou que até março deste ano concluiria seu trabalho de verificar se há petróleo em escala comercial na região. Mas em junho passado ainda não havia apresentado suas conclusões. A estatal diz que a perfuração está prevista para terminar em agosto. As expectativas são altas porque a multinacional Exxon Mobil Corporation descobriu uma reserva de quase 11 bilhões de barris de petróleo na costa da Guiana (a antiga Guiana Britânica), que faz fronteira com os estados de Roraima e Pará, também na Região Norte.
A Guiana, que tem características geológicas semelhantes às do Amapá e da Guiana Francesa, já chegou a produzir 900 mil barris por dia, quantidade igual à extraída em Omã, no Oriente Médio. Em 2024, o país sul-americano teve o maior crescimento de Produto Interno Bruto (PIB) no mundo. Isso é mais que suficiente para fazer brilhar os olhos de qualquer gestor público e da população que pode se beneficiar diretamente da exploração petrolífera. Não foi diferente em Oiapoque, que ocupa posição estratégica para a operação da Petrobras.
A euforia na cidade e no estado chegou ao auge no dia 7 de novembro passado, menos de um mês depois da concessão da licença para a Petrobras. Nesse dia, o governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), fez uma apresentação para os empresários de Oiapoque ao lado de Wagner Fernandes, servidor da equipe logística da Petrobras na cidade. Os dois exibiram mapas, gráficos e números para mostrar que a “era do petróleo” estava próxima e que os moradores precisavam se preparar para ela. “O Oiapoque está no centro das atenções do mundo, porque a soberania do Brasil vai sair do Oiapoque”, afirmou Fernandes na ocasião.
O governador sugeriu que os empresários colocassem, por ora, o francês de lado (a língua do país vizinho) e aprendessem inglês para facilitar a relação com investidores internacionais, que já se mostravam interessados no petróleo amapaense. Orientou a classe empresarial da cidade a “refinar o paladar” e apostar em empreendimentos mais sofisticados, como charcutarias, espaços com bons vinhos e produtos da melhor qualidade possível para satisfazer o público que Oiapoque receberá no futuro.
“Dizem que isso aqui vai explodir de dinheiro”, comenta Lilma Campos, a dona da pousada e presidente da associação de empresários, que participou do encontro com o governador. Os mais empolgados falam que Oiapoque vai se transformar em uma nova Dubai. Como marco da futura era de progresso, foi inaugurado no fim do ano passado o primeiro prédio com elevador da cidade. A fachada do edifício é na cor salmão. No térreo funcionam uma loja de roupas e uma perfumaria. Os três andares acima abrigam um hotel.
Apesar de ter apenas 30 mil habitantes, Oiapoque é conhecida por contar com muitos hotéis e pousadas (segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amapá são 26), ocupados principalmente pelos franco-guianeses e forasteiros atraídos pela fronteira. A demanda por quartos agora é ainda maior. Em dezembro passado, praticamente todos estavam lotados. Foram reservados pela Petrobras com meses de antecedência.
As ruas principais da cidade, mais próximas ao rio, têm asfalto irregular e estão repletas de canteiros de obras de futuros prédios, que receberam investimentos de empresários locais, além de franco-guianeses, franceses e até chineses. Campos diz que a chegada da Petrobras deu “uma injeção de dinamismo” na classe empresarial. Ela vê nesse impulso a única chance de erguer ali uma cidade “de Primeiro Mundo mesmo”, com todas as coisas que Oiapoque não tem: transporte público, asfalto em todas as ruas, escolas e creches que não sejam adaptações de casas abandonadas, coleta de esgoto, Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), cinema e uma praça bem planejada. “Eu sou pelo desenvolvimento”, diz ela. “Não quero jamais viver na caverna, mana. Já saí de lá.”
Para dar à população oiapoquense a dimensão da dinheirama que o petróleo poderá trazer, os políticos da cidade recorrem a uma estimativa de pagamento de royalties feita pelo economista Adriano Pires, analista de setor energético do canal por assinatura CNN Brasil. Defensor da exploração na Bacia da Foz do Amazonas, Pires trabalhou como assessor da Agência Nacional de Petróleo e em 2022 foi chamado por Jair Bolsonaro para comandar a Petrobras, convite que recusou em meio a uma investigação de conflito de interesse. Em suas contas, ele prevê uma produção de 1,1 milhão de barris de petróleo por dia na Foz do Amazonas. Essa projeção, que Pires diz conservadora, resultaria no pagamento de royalties no valor de 3,4 bilhões de dólares (cerca de 16 bilhões de reais) por mês, a serem divididos entre a União, o estado do Amapá e os municípios produtores, que teriam direito a 6 bilhões de reais por mês.
Por causa da localização de Oiapoque – o município mais próximo do bloco exploratório –, vereadores e deputados estão convencidos de que a cidade terá um orçamento mensal bilionário – alguma coisa na casa de 1 bilhão mensal, segundo cálculos ainda muito precários. Seja como for, será uma enxurrada de dinheiro sem precedentes para a cidade, cujo orçamento atual é de 12 milhões de reais por mês, em média. Repasses do governo federal e emendas parlamentares são os meios de sustento atuais da prefeitura, que até dezembro passado nunca tinha recolhido IPTU (a maioria dos terrenos pertenceu à União até 2022, e só em 2025 as propriedades começaram a ser regularizadas).
Todos esses números do petróleo são hipotéticos. Antes, será preciso confirmar a existência de reservas, saber o tamanho delas e a escala de produção correspondente. Além disso, a exploração da Foz do Amazonas ocorrerá sob o regime de concessão, em que os royalties pagos são menores do que no regime de partilha que vigora nas bacias do pré-sal, no litoral do Sudeste, beneficiando cidades como Macaé e Maricá, no Rio de Janeiro, e Santos e São Sebastião, no estado de São Paulo. O Supremo Tribunal Federal (STF) também está julgando uma ação que redefine as regras de pagamento e divisão de royalties em todo o país para diminuir a fatia dos municípios.
Resta saber quem vai pilotar o tal orçamento bilionário. “A Petrobras pode vir e injetar milhões e trilhões”, pondera Lilma Campos. “Mas, se Oiapoque não acertar num bom gestor, nós não vamos passar disso que temos hoje aqui.”
Se o petróleo é por enquanto uma fantasia em Oiapoque, os impasses políticos na cidade são bem concretos – e atingiram o ápice no dia 16 de dezembro passado. Naquela manhã, o então prefeito Breno Almeida (PP) e seu vice foram afastados do cargo depois de o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AP) cassar os mandatos por compra de votos e abuso de poder. Às 15h32, o presidente da Câmara Municipal de Oiapoque, Guido Mecânico (Pedro Guido Nascimento de Castro), do União Brasil, deu dois toques numa campainha de mesa, igual àquelas usadas em recepções e cozinhas, para abrir a sessão legislativa destinada a empossá-lo como prefeito interino até a realização de novas eleições.
Guido Mecânico entrou sorrindo no plenário, instalado no térreo de um sobrado comercial alugado, pois a Câmara não tem sede própria. Usava uma blusa cinza de gola alta por baixo de um blazer preto e calças jeans. O cabelo tingido com luzes loiras e besuntado de gel estava penteado para o lado. Ele fez a leitura do texto regimental na velocidade dos leiloeiros de gado e logo passou a palavra ao “homem do petróleo”, o vereador Tiago da Universidade (Tiago Vieira Araújo), da Rede, responsável pela Comissão de Petróleo criada em agosto de 2025, para que lesse o requerimento de posse.
Além de congratular e elogiar o novo prefeito, todos os vereadores fizeram referência à nova era do petróleo na cidade. Um deles chamou Oiapoque de “a menina dos olhos do Brasil”. Outro ressaltou o papel estratégico que o município terá para o país daqui para a frente. Guido Mecânico ouviu os colegas com satisfação. Ao notar que um pedaço de linha saltava do pulso do seu paletó, ergueu o braço e a cortou com os dentes.
Ele foi econômico em seu discurso de despedida do cargo de vereador, lançando promessas sobre sua nova e interina função de prefeito. “Prometo fazer um trabalho para o nosso município. Não é fácil, eu sei que é difícil. Para quem está do lado de fora é muito fácil jogar pedra”, disse. “É verdade”, alguém concordou na plateia. Cerca de cinquenta pessoas assistiam à sessão, enquanto uma lâmpada branca piscava sem parar no teto, embora ainda não fosse noite.
Ao efetivamente tomar posse como prefeito, Guido Mecânico improvisou palavras por uns 5 minutos. “A gente vai ter que tomar um rumo no nosso município para a permanência da Petrobras”, declarou. Não entrou em detalhes, mas provavelmente se referia à infraestrutura necessária para integrar uma cadeia de produção altamente qualificada. “Não vou me prolongar muito porque temos que começar a trabalhar. É trabalho.”
À frente da Comissão de Petróleo da Câmara de Vereadores, Tiago da Universidade viajou a Macaé e Maricá, no Rio de Janeiro, para estudar os erros e acertos das cidades que ganharam na loteria do petróleo. Como se sabe pelos exemplos de cidades, metrópoles e mesmo países inteiros, os royalties do petróleo estão longe de ser uma garantia de desenvolvimento social. A recorrência dos maus exemplos levou ao que os estudiosos chamam de “paradoxo da abundância”. Ou seja: a exuberância de recursos naturais pode levar não ao paraíso, mas ao inferno. O exemplo mais próximo do Brasil – e de Oiapoque – é a Venezuela, um dos maiores produtores de petróleo do mundo e, no entanto, um país que anda para trás.
No caso dos municípios do Brasil, um levantamento feito pela Agência Pública analisou as quinze cidades campeãs em receitas petrolíferas entre 1999 e 2024. O estudo mostrou que, apesar dos orçamentos turbinados, 46% da população dessas cidades estão cadastradas no CadÚnico – o cadastro do governo para famílias de baixa renda –, uma proporção semelhante à média brasileira. Nove dos quinze municípios analisados estão entre os que mais têm pessoas cadastradas no CadÚnico em seus respectivos estados. É o caso de São João da Barra, também no Rio de Janeiro, onde 70% dos moradores vivem em situação de vulnerabilidade social. A maioria apresenta índices socioeconômicos medianos ou baixos.
Na capixaba Presidente Kennedy, que nos últimos 25 anos recebeu a maior quantia de royalties per capita do Brasil – 390 mil reais por habitante –, a Agência Pública constatou falta de saneamento básico, queixas sobre atendimento médico e educação pública deficiente. Mais da metade da população da cidade está cadastrada no CadÚnico.
Mesmo nos municípios que conseguiram algum avanço, o petróleo não foi a chave para resolver graves problemas sociais. Maricá faz um bom uso dos recursos públicos ao financiar transporte público gratuito, programas de transferência de renda e até uma universidade local. Entretanto, apenas 12,5% da população tem coleta de esgoto. É um dos piores índices do estado do Rio de Janeiro.
Em Maricá, Tiago da Universidade obteve uma lista dos vinte cursos mais importantes para a cadeia produtiva do petróleo. O plano é inaugurá-los no Senai em Oiapoque e preparar os trabalhadores locais, evitando assim o que ocorreu em Macaé, onde a população não conseguiu se inserir na cadeia produtiva do petróleo. O mais comum nessas cidades petrorrentistas é a mão de obra especializada vir de fora, enquanto aos moradores são destinadas vagas precarizadas. O vereador também compartilhou com os colegas na Câmara Municipal a ideia de aplicar os eventuais royalties em um fundo de investimento, seguindo a experiência maricaense, já que os recursos petrolíferos são finitos. Na Procuradoria-Geral da cidade do Rio, ele foi aconselhado a atualizar o código tributário de sua cidade. “A gente precisa superar a fase do amadorismo”, afirma o vereador.
Oiapoque ainda não conta com um efetivo corpo administrativo. Além disso, todos os procedimentos burocráticos são realizados em suportes físicos, com papel e carimbo, porque a prefeitura não tem um sistema digitalizado para fiscalizar os gastos. Há uma longa lista de reformas que precisam ser feitas para não acontecer com o dinheiro do petróleo o que ocorreu com a privatização da Companhia de Água e Esgoto do Amapá (Caesa). Pouco mais de 40 milhões de reais recebidos pela Prefeitura de Oiapoque evaporaram sem que fosse feita qualquer prestação de contas. “A cidade vive à bangu [no improviso]”, me diz o vereador Bruno do Areal (Tiago Bruno Gadelha de Sousa), do Solidariedade, no plenário da Câmara. “Não tem planejamento. Cada um faz o que quer do jeito que quer.” Como seu nome já indica, Bruno do Areal é dono de uma empresa que faz extração de minério.
Sentado ao lado, Tiago da Universidade se esforçava para suavizar o discurso do colega. “A gente sabe que é um processo de construção. Estamos correndo contra o tempo para ter pelo menos uma base”, afirma. “Temos várias divergências políticas, mas para essa pauta todo mundo está de mãos dadas.” Como exercia a vereança na condição de suplente, Tiago da Universidade perdeu o mandato quando a vereadora titular reassumiu o posto.
Em 12 de abril passado, ocorreu a acirrada eleição suplementar, na qual se confrontaram Guido Mecânico e Inácio Maciel (PDT). Tiago da Universidade pretende se candidatar para manter a condição de “homem do petróleo” na política oiapoquense. Disse que sofreu represália por atuar na campanha de Maciel, apoiado pelo senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) e o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes (PDT-AP). Delegado de polícia e ex-deputado estadual, Maciel é comprometido com a defesa da exploração de petróleo na costa do Amapá. Na disputa pelo controle da Prefeitura de Oiapoque, que sonha em se tornar uma máquina administrativa bilionária, Maciel usou o discurso de modernização. Venceu a eleição com 49,5% dos votos – 509 a mais que Guido Mecânico, apoiado pelo senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
A entrada da aldeia Manga, a maior do povo Karipuna, fica a 5 minutos da sede do município de Oiapoque. O trajeto pode demorar mais que isso nos períodos de chuva, quando caminhonetes e carros atolam antes mesmo de alcançarem o pé da aldeia. Numa tarde chuvosa de dezembro passado, a lama respingava até o teto do veículo. Logo depois do atoleiro, um grupo de homens, mulheres e crianças seguia pela estrada carregando, debaixo de chuva, as cestas básicas que haviam acabado de chegar de barco, pelo Rio Curipi.
Essas doações hoje sustentam a comunidade indígena, que antes era próspera. Toda casa tinha roças de mandioca que serviam para a alimentação das famílias e como fonte de renda. “A gente abastecia 65% do município de Oiapoque e parte da Guiana Francesa com farinha de mandioca”, conta o cacique Wagner Karipuna na varanda de sua casa, localizada no ponto mais alto da aldeia. “Era a melhor farinha da região.” Toda a plantação foi dizimada pelo fungo vassoura-de-bruxa em 2023.
Além disso, os indígenas não podem mais caçar porque o barulho dos helicópteros e aviões espantaram os animais. Esse problema foi citado em um parecer de técnicos do Ibama que recomendou a rejeição da licença em 2024. Eles argumentam que a Petrobras não realizou o Estudo de Componente Indígena (ECI) nem o Quilombola (ECQ), desconsiderando, entre outros pontos, as consequências do tráfego de aeronaves sobre as terras indígenas. A Petrobras alegou que os impactos do ruído sobre as comunidades não são causados diretamente pela atividade de perfuração, mas sim pela operação do aeroporto – cuja licença ambiental não é de sua responsabilidade. A empresa se recusou a apresentar análises e ações de mitigação propostas pelos técnicos com base em parecer da AGU, elaborado a pedido da própria Petrobras.
O aeródromo de Oiapoque, no meio da floresta, foi reformado e ampliado pela Petrobras a partir de 2022, assim que a estatal chegou ao município para preparar a operação da Foz do Amazonas, muito antes de obter a licença exploratória. A estatal prevê um aumento de 3.000% no tráfego do aeroporto em consequência da exploração de petróleo. Em 2025, a Azul Linhas Aéreas Brasileiras começou a operar voos comerciais fretados, por enquanto exclusivos para funcionários da Petrobras. Quando a petrolífera realiza simulações de atuação em casos de emergência, os helicópteros se multiplicam. Com isso, a presença dos pássaros diminuiu bastante na aldeia Manga. A Petrobras informou à piauí que modificou as rotas de voos depois de receber reclamações dos indígenas. Não foi suficiente para diminuir os impactos, segundo duas lideranças indígenas.
Para piorar, o preço dos alimentos disparou no Oiapoque. Nos restaurantes mais centrais, um prato de peixe grelhado, com arroz, salada, batata e farofa, chega a 120 reais. O aluguel de um apartamento pequeno hoje pode custar 2 mil reais por mês. Jovens indígenas das aldeias mais distantes, que moravam em Oiapoque para fazer graduação num campus transfronteiriço da Universidade Federal do Amapá, tiveram que abandonar o curso por não conseguirem se sustentar na cidade.
Existem 67 aldeias no Oiapoque, divididas entre três povos, além do Karipuna: Palikur, Galibi Kali’na e Galibi-Marworno. A área do município concentra 71% de toda a população indígena do estado do Amapá, e só na aldeia Manga vivem 409 famílias, num total de cerca de mil habitantes. “A mudança chegou, né?”, diz o cacique Karipuna, com o cotovelo apoiado na mesa da varanda. “A gente sabe que não vai evitar. É muita gente querendo: presidente, senador, governador, deputado, prefeito, vereador.” Ele estava entre os indígenas que organizaram um protesto na COP30 contra a exploração na Margem Equatorial. Alguns foram impedidos de entrar numa das áreas onde circulavam os negociadores e as delegações.
A Petrobras se reuniu apenas uma vez com o Conselho de Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque (CCPIO), numa conversa intermediada pelo governador Clécio Luís. Nada ficou resolvido, mas foi mencionada uma compensação financeira às comunidades. Segundo a Petrobras, 0,5% do valor investido na fase de exploração será destinado às Unidades de Conservação. O cacique Karipuna diz que, em caso de vazamento de óleo, o primeiro rio afetado seria o Uaçá – que não chegou a ser atingido pelo vazamento dos 18 mil litros de fluido. É do Uaçá que os indígenas de sua aldeia tiram a única fonte de alimentação que sobrou, os peixes. Acompanhado de outros caciques, ele testemunhou as consequências nefastas da exploração do petróleo para comunidades tradicionais ao visitar o Equador e a Colômbia, onde a população indígena sofre com o odor do óleo e o aumento da ocorrência de cânceres.
Por isso, Karipuna e os outros caciques estão determinados a exigir que as compensações sejam feitas conforme suas próprias regras. “A gente não é contra o progresso, mas o progresso tem que nos consultar”, afirma. Os caciques planejam aplicar o dinheiro em um fundo controlado pelos próprios indígenas, sem a interferência de ONGs ou institutos. “Nós queremos fazer o balancete”, diz. “Hoje temos gente capacitada para isso, indígenas formados em várias áreas. Se a Petrobras ficar por cem anos, nós queremos ser compensados por cem anos. Se vier para ficar duzentos, vamos querer duzentos anos. E tudo registrado em documento, nada de combinar na conversa. Não é só fazer um colégio aqui, um hospital, e abandonar.”
A preocupação das lideranças é, acima de tudo, perder partes de suas terras, já ameaçadas pela Lei do Marco Temporal (segundo a qual os indígenas do país só terão direito aos territórios que ocupavam em 1988, e não antes). Karipuna relatou que pessoas estranhas passaram a circular por sua comunidade, inclusive durante a madrugada. Quando confrontadas, elas dizem estar apenas visitando ou que entraram ali por engano – apesar de haver uma grande placa com o nome da aldeia na entrada e a informação de que o território é demarcado. “Estão sondando”, conclui o cacique.
Quando indagado sobre a mudança mais impactante trazida pela notícia do petróleo, ele apoia a cabeça na mão direita, cerra os olhos e começa a chorar. Fecha os punhos e bate na cabeça três vezes. Depois de um longo silêncio, pede desculpas e levanta-se para buscar um copo d’água. “Eu fico emocionado nessa questão porque nós, como lideranças indígenas, estamos com medo de ir à cidade”, ele continua, ao voltar para varanda. “Ouvimos coisa ruim contra a gente, até ameaça de morte.” Os indígenas estão sendo acusados de impedir o desenvolvimento de Oiapoque em razão das ressalvas que levantam à exploração de petróleo.
Karipuna conta que, certa vez, estava fazendo compras na cidade e foi xingado por uma pessoa. “Eles falam: ‘Olha, os indígenas agora querem estar aqui na cidade dependendo da gente, mas não deixam entrar na aldeia deles.’ Falam que vão me pegar na porta da minha casa.” Em outro episódio, foi hostilizado por um grupo de homens dentro do ônibus a caminho de Macapá. Ele e o presidente do CCPIO, Gilberto Iaparrá, que o acompanhava, foram xingados durante toda a viagem, que pode durar até dez horas por causa dos atoleiros. Karipuna quis revidar, mas foi dissuadido pelo colega. Antes da promessa do petróleo, ele nunca havia passado por situação semelhante. “Tivemos que engolir.”
O Amapá é o estado mais preservado do país em termos ambientais, com 95% de vegetação nativa e 73% do território sob proteção. Oiapoque é ainda mais preservado: 96% do município é formado por parques nacionais, terras indígenas e áreas de preservação integral. Mas esse cenário está mudando com a corrida do petróleo. Em um ano, Oiapoque ganhou sete novos bairros, ocupados por migrantes de outras cidades do Amapá e de estados do Nordeste.
O bairro Independência é um dos que se expandem em direção à Ponte Binacional, que liga Oiapoque a Saint-Georges-de-l’Oyapock, do outro lado do rio. As novas construções avançam também rumo à floresta em torno, e a estrada de 7 km que atravessa o bairro agora divide a área em duas: de um lado, as árvores que ainda estão em pé; do outro, a terra nua para construção das casas. O único fiscal ambiental que monitora essa devastação foi ameaçado diversas vezes pelos moradores.
As poucas casas de madeira são precárias. Algumas não têm sequer parede: são envolvidas por lonas ou sacos plásticos. O bairro não tem energia elétrica e, como o resto da cidade, é desprovido de coleta de esgoto (todos precisam usar fossa séptica). Também não há água encanada no bairro Inconfidência, situação semelhante à de 62% de toda população de Oiapoque, segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico.
Em dezembro passado, alguns tocos de árvores recém-queimados ainda fumegavam. Francisco de Oliveira, de 48 anos, tinha acabado de dividir um dos troncos derrubados em grossas estacas de madeira para cercar um novo lote. Ele faz o serviço de limpeza dos lotes, retirando qualquer resquício de floresta. Para isso recebe de 300 a 600 reais, a depender do tamanho da área a ser devastada. Ele conta que faz esse tipo de trabalho desde que se entende por gente. Natural do Maranhão, Oliveira se mudou para Oiapoque há dez anos para ficar próximo da mãe, que já havia migrado. Atualmente, mora em outro bairro recém-ocupado, Belo Monte.
Oliveira não está interessado no petróleo, porque acha que isso não vai mudar a realidade das pessoas que, como ele, não conseguiram terminar o ensino fundamental. “Vai circular mais dinheiro, mas esse negócio de emprego, eu acho que não vai ter”, diz. “Para as pessoas que já têm formação e emprego bom é outra história.” Ele está mais interessado em ir embora dali, apesar das promessas de um futuro de fartura. Quer voltar ao Maranhão para trabalhar em um campo de garimpo ilegal, atividade que já exerceu anos atrás. “Lá qualquer pouquinho de ouro já dá um dinheiro.”
Oiapoque, por ser situada na fronteira, nunca foi um lugar pacato. Antes da expectativa do petróleo, era uma cidade de passagem – não um ímã para novos moradores. Agora, a circulação de carros aumentou, a ponto de ter sido necessário instalar os primeiros semáforos na cidade, o que começou a ser feito no ano passado. O município nunca contou com planejamento urbano e não dispõe de assistência social para atender a população que agora se instala em ocupações precárias. Em dois anos, o número de matrículas nas escolas públicas saltou de 4 mil para 6 mil.
Tudo isso preocupa Hortência Pinheiro, de 31 anos, recepcionista da Associação Comercial e Industrial. Sua mãe, dona de uma loja de material de construção, embarcou na euforia e construiu, em 2025, três quitinetes no terreno ao lado de sua casa – todas já alugadas para recém-chegados. Pretende construir mais três. Hortência Pinheiro, por seu lado, permanece hesitante. “O governador fala que a gente precisa se preparar, mas nem sabemos direito para quê. Tudo que eles vendem é tão grandioso.”
Ela assistiu à palestra que o governador organizou para os empresários em novembro. “As pessoas vibravam”, lembra. “Eu pensei assim: ‘Meu Deus, será que eu estou louca por pensar diferente de todo mundo aqui?’ Parece que tudo que eu acredito está em jogo agora.” Embora trabalhe como recepcionista, Pinheiro formou-se em gestão ambiental e é vice-presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente da cidade, criado para receber os futuros recursos de compensação da exploração de petróleo. Por isso, o que mais a preocupa é justamente a questão ambiental.
Pinheiro acredita que a exploração de petróleo representa um risco altíssimo para a preservação do meio ambiente e para quem depende diretamente dele. Na recepção da associação, ela busca atrás de si um mapa com todas as aldeias indígenas no município. “Essa costa todinha vive em perfeito equilíbrio”, explica, apontando o Parque Nacional do Cabo Orange, onde se concentram os manguezais tão importantes para proteção dos ecossistemas amazônicos. “A exploração de petróleo vai acontecer aqui”, diz ela, movendo o dedo alguns centímetros na direção do mar. Um acidente com vazamento de óleo poderia facilmente extinguir os manguezais e causar um impacto sem precedentes. “Como vai ficar a situação dos pescadores? Eu não consigo apoiar isso, eu não consigo achar legal.”
Mas Pinheiro tem medo de compartilhar de maneira mais veemente sua opinião em público. Quase sussurrando, ela diz: “Tem momentos em que é melhor ficar neutra. Quando alguém fala contra o petróleo aqui, as pessoas respondem com muita violência.” Depois de corrigir a postura, a recepcionista volta a se expressar no tom de voz anterior: “Mas os empresários estão com muita esperança. Economicamente, a gente está muito esperançosa aqui na associação. Não podemos torcer contra, né?”
Em maio de 2025, ela foi hostilizada ao voltar de uma conferência nacional. Carregava uma bandeira contra a exploração de petróleo quando foi abordada por uma ativista defensora da empreitada na Foz do Amazonas. “Só não fui agredida porque seguraram ela”, conta Pinheiro. “Eu não quero me colocar em risco. O Brasil mata seus ambientalistas.”
No dia 17 de dezembro, os indígenas planejavam fechar a BR-156 logo de manhã, bloqueando a única saída terrestre de Oiapoque em protesto contra o marco temporal. A barraca de Valdilene Capucho da Silva, de 49 anos, já estava montada à beira do rio, antes do amanhecer e de os garimpeiros começarem a embalar seus mantimentos para cruzar a ponte, rumo à Guiana Francesa.
Val, como é conhecida, vende na rua o café da manhã completo: suco, fruta batida com leite, café, bolos, salgados. Em uma chapa esquenta o pão e faz misto-quente. Ela ri das alcunhas grandiosas que andam atribuindo a Oiapoque: “Nova Dubai”, “centro do mundo”, “menina dos olhos do Brasil” e outras. “Isso só vai servir para deixar os ricos mais ricos. O que vai continuar sustentando a cidade é isso aqui”, diz, apontando para um francês alto que pagava o pão na chapa com uma nota de 200 reais.
Enquanto ela falava sobre os problemas que a prefeitura precisa resolver antes de pensar em petróleo, uma picape preta estacionou na calçada. Dela saltou Manoel “Galinha” do Espírito Santo Madureira de Vilhena, de 70 anos, um dos clientes mais assíduos da vendedora. Ele ganhou esse apelido por causa de um acidente espetacular na BR-156. Na época em que trabalhava como caminhoneiro, seu veículo tombou na estrada a caminho de Oiapoque, e as centenas de galinhas que transportava se libertaram das caixas tombadas na estrada, espalhando-se por todo lado. Hoje, Vilhena é um dos empresários mais ricos da cidade. Mas ele não entra em detalhes sobre seus negócios, e as pessoas em Oiapoque não costumam fazer muitas perguntas.
Usando chapéu de caubói e colar de ouro com um grande crucifixo, ele estava no carro ao lado de seu filho, Viktor Campos, que também carregava um crucifixo. Os dois pediram café à vendedora. Indagados sobre o que pensavam da nova economia do petróleo em Oiapoque, eles não estavam muito informados a respeito, mas disseram ter percebido que a economia da cidade está aquecendo. Preferiram falar de outro assunto. Com apenas 15 anos, Viktor Campos é dono do prédio que ostenta o primeiro elevador da cidade. Foi um presente de seu pai. Orgulhoso, Vilhena sorria, ouvindo o rapaz se gabar por ter um dos edifícios mais modernos de Oiapoque. Apesar de ser ainda um adolescente, ele sabe muito bem o que quer ser no futuro: “Eu quero ficar rico.”[1]
[1] Em fevereiro de 2026, dois meses depois do café da manhã, Manoel “Galinha” Vilhena foi preso pela Polícia Federal ao sair de uma agência bancária da cidade com 400 mil reais em espécie, dinheiro cuja origem ele não foi capaz de comprovar. O empresário foi liberado depois de pagar fiança e responde ao processo em liberdade.