questões epistolares
O Respondedor de Cartas piauí_241 08 Out 2026
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Dezembro de 2006. Em dezembro de 2006, Hugo Chávez foi reeleito presidente da Venezuela. O sul-coreano Ban Ki-moon foi nomeado para o comando da ONU. O ditador chileno Augusto Pinochet morreu de ataque cardíaco. O iraquiano Saddam Hussein foi executado. O Congresso brasileiro dobrou o salário dos parlamentares, que ultrapassou 24 mil reais. O Supremo vetou o aumento salarial dos parlamentares. O Brasil estava em pleno apagão aéreo. O Internacional venceu o Mundial de Clubes contra o Barcelona. A sonda Surveyor, da Nasa, encontrou indícios de água em Marte.
Mas fato nenhum teria impacto maior, na história da humanidade, do que aquele publicado na edição número 3 da revista piauí, justamente em dezembro de 2006. Estava lá, na seção de cartas. “Nem entretenimento, nem informação, nem cultura, nem nada”, escreveu a leitora Camila Tebet, em seu desabafo. “Histórias descabidas, descontextualizadas, sem sentido, sem interesse. [...] À época em que vivemos, gastar tanto papel assim, mesmo que seja reciclado, para não falar nada, é no mínimo desperdício.” A reclamação até podia ser justa, mas estava incorreta. Fez-se necessário, assim, a publicação de uma breve nota, de forma a desfazer a injustiça contida na missiva: “E o pior é que o papel nem é reciclado.”
Nascia, ali, este Respondedor de Cartas.
Nos vinte anos que se seguiram, caberia ao Respondedor a leitura de mais de 2 700 cartas, para as quais seriam escritas mais de 600 respostas. A função me obrigaria a enfrentar toda sorte de comentário (acusações de viés político, denúncias de erros ortográficos) sobre toda sorte de assunto (o mensalão, o Banco Master, a ausência de qualquer time que não o Botafogo nas páginas da publicação). Para algumas demandas, como a de Paulo Edgard Gasparini Viana (“Gostaria que a piauí não deixasse de lado as questões da natureza, abordando temas relacionados aos rios, às praias, às árvores, às aves, às estrelas, às cachoeiras”), eu teria resposta à altura: “Prezado Paulo Edgard, fizemos a reportagem sobre Carlinhos Cachoeira neste número especialmente para você.”
Grandes poderes vêm com grandes responsabilidades. A minha responsabilidade, ao longo desses vinte anos, foi dupla. Esforcei-me para ser um ouvido atento ao leitor, acolhendo reclamações e respondendo, quando possível, dentro dos princípios da ética e da imparcialidade que norteiam o bom jornalismo. Esforcei-me, também, para fazer do espaço das cartas a voz editorial que sempre faltou à piauí (que outra publicação, em sã consciência, não presenteia o leitor, mensalmente, com um editorial de uma página inteira?1).
Foi essa missão dupla, aliada ao acúmulo da prática, que me forneceu o estofo necessário para responder à pergunta trazida pelo leitor Dani Lindenbaum em julho de 2024: “Tanto assunto por aí, coisas interessantes, e abro a revista com uma matéria sobre Valdemar Costa Neto??!!! É por essas e outras que perco a vontade de comprar a piauí. Vocês são melhores que isso, né? Ou não?”
Li a carta. Reli. Esbocei uma resposta, vi que ela era boa e fi-la ser publicada. A resposta era: “Não.”
A revista piauí nasceu não em dezembro, mas em outubro de 2006. As primeiras cartas – seis, nenhuma delas digna de resposta – foram publicadas na edição seguinte, a de novembro. Passou-se outro mês até que o leitor fosse apresentado à minha pena.
Desde então, precisei estar a par de todo e qualquer assunto publicado neste magazine. Foram inúmeras as cartas quando da publicação de uma reportagem sobre o caseiro Francenildo dos Santos Costa, responsável acidental pela queda de Antonio Palocci do Ministério da Fazenda no governo Lula 2. Ou sobre a disputa internacional pela guarda de Sean Goldman, filho de um modelo nascido nos Estados Unidos e neto de uma família de advogados do Brasil. Ou sobre as memórias do economista Persio Arida, um dos criadores do Plano Real, que contou como foi torturado durante a ditadura militar. Ou sobre a ruptura de uma barragem de rejeitos da Vale na cidade de Mariana. Ou sobre os perfis de Ricardo Teixeira, Dilma Rousseff, Nelson Jobim, Marcius Melhem, Paulo Guedes, Virginia Fonseca, Jair Bolsonaro, Daniel Vorcaro...
Nome nenhum, no entanto, mexeria mais com os brios do leitor do que o do cartunista francês Marcel Gotlib, figura onipresente nos anos iniciais da revista.
Renato Alarcão, maio de 2007: “Os quadrinhos do Gotlib são a coisa mais insuportavelmente sem graça e entediante que já vi. São um apêndice da revista, destoa de todo o resto. Por favor, não torturem mais seus leitores com aquela coisa sem graça.”
Ricardo Sales, outubro de 2008: “Início de mês, vou todo pimpão até a banca buscar a minha piauí. Rápida olhada na capa, nas matérias em destaque e já pulo para as últimas páginas para ver se estamos finalmente livres do Gotlib. Nada, lá está ele mais uma vez. Bastilha nele!”
Paulo Sergio de Azeredo Coutinho, novembro de 2008: “Gotlib emprestou dinheiro para criar esse mensário? É caso de alguém importante daí? Está chantageando vocês? É um figurão disfarçado do governo? Que fato terrível possibilita sua permanência na publicação?”
Em janeiro de 2009, a piauí cedeu aos apelos, trocando os desenhos de Gotlib pelos do cartunista americano Robert Crumb. “Tudo bem: concordo que o espaço outrora ocupado pelo cartunista francês Marcel Gotlib poderia ser mais bem aproveitado. Mas, por favor: tirem o casal Crumb daí! Pensei que nada poderia ser pior do que o Gotlib: ledo engano... Que porcaria!”, escreveu o leitor Angelo Paz. “Sinceramente, esperava mais de vossas senhorias... Gostaria inclusive de sugerir um substituto à altura do casal Crumb. Vossas senhorias poderiam pôr em seu lugar um ‘portfólio’ do José Sarney, uma coletânea das melhores telas do senador maranhense, entremeadas de textos extraídos de suas melhores obras literárias.”
A sugestão foi parcialmente acatada, com a troca de Crumb não por Sarney, mas, de novo, pelo próprio Gotlib.
Lucas Cotrim, setembro de 2010: “Ao perceber que havia Gotlib na piauí_47 (agosto 2010) prometi a mim mesmo não ler as páginas 76 e 77. Lida a revista, já ia guardá-la quando sucumbi e acabei lendo as duas páginas mencionadas. Mania de não guardar a revista de forma incompleta. Agora não tenho adjetivos pra qualificar como me senti: pasmo, bestificado, irado, aturdido... É ruim demais esse Gotlib.”
Bernardo Menezes, julho de 2011: “Li de uma só vez a piauí_56, de maio, excelente. Como nada é perfeito, deparei-me novamente com o Gotlib. Gostaria de saber quanto ele paga de jabá, já que pretendo iniciar uma campanha para arrecadar fundos e oferecer o dobro para retirá-lo definitivamente da revista.”
A voz do leitor seria ouvida, mais uma vez. Gotlib jamais voltaria às páginas da piauí. Salvo pela edição de número 60, publicada em setembro de 2011. E pela 124, de janeiro de 2017. E pela 125, do mês seguinte. E pela 128, de maio daquele ano. E pela...
Há leitores que escrevem com raiva. E há leitores que escrevem para fazer pedidos. “Sou o assinante mais longevo dessa magnífica revista?”, perguntou João Batista Nonohay, em junho de 2019. “Se não estou enganado, iniciei minha trajetória na de número 2. Penso que um automóvel já deixei por aí. Quem poderia ter um feito melhor? Aguardo meu pinguim.” O pinguim, no caso, não era o animal, mas a estatueta de geladeira desenhada pelo cartunista Angeli para a edição inaugural da piauí, que acabou por tornar-se um mascote instantâneo da revista.
“Se você fosse assinante desde o primeiro número, não receberia um pinguim, mas o tal automóvel que deixou por aí”, respondi ao leitor, com generosidade. “Já assinante desde o segundo número merece toda a nossa gratidão. Isso vale muito.” O critério de repartição dos pinguins é um tema sério, que deveria ter suas regras cravadas no Manual de Redação da piauí. Na falta de um texto-base, o assunto acaba sendo julgado caso a caso, por este juiz que vos escreve.
Em julho de 2009, por exemplo, decidi pela procedência do pedido feito pelo leitor Wilson Santana Soares. “Uma pessoa que eu simplesmente amo, e que adora a revista de vocês, ganhou um pinguim da piauí”, escreveu ele. “Acidentalmente, quebrei a bendita peça e por conta disso nosso namoro quase acabou. Gostaria de saber se existe a possibilidade de vocês me enviarem, até o Dia dos Namorados, um pinguim substituto.” O pinguim-cupido foi mandado pelo correio, para solidificar um amor inquebrantável.
Também proferi sentença favorável, em dezembro de 2015, para a leitora Anna Schunemann, que admitiu ter “uma história de amor e ódio” com a revista (o que não a impediu de pedir um pinguim caso passasse no vestibular). “Nem precisa passar no vestibular, Anna”, respondi. “Tem jogo se você passar no Yázigi, na aula de capoeira, no curso de tricô, de datilografia, de flauta boliviana, na seletiva de concurso de ioiô. Aliás, dane-se: pinguim a caminho. Pode vagabundear.”
Tal decisão, feita a título de incentivo às novas gerações, foi alvo de um agravo no mês seguinte. “Li somente as cartas da edição 111, e não gostei de saber que uma moça de São Paulo, moça essa que vai tentar passar no vestibular e que teve uma relação complicada de amor e ódio com a revista, ganharia um pinguim”, escreveu o leitor Aguinaldo Dutra, de Minas Gerais. “Pois bem: já passei em três vestibulares e tenho com a revista, desde seu primeiro número, uma relação de puro amor. Também quero um pinguim.” Três vestibulares não são um. Puro amor não é amor e ódio. O pedido foi ignorado.
Critérios são critérios. Em setembro de 2015, Rodrigo Holanda Pimentel escreveu uma longa carta – a sua terceira – com elogios à redação. “No programa Fantástico quem faz três gols na rodada pede música. Na piauí ganho um pinguim?”, perguntou. Expliquei-lhe que a lógica adotada pelo Fantástico é a de “três gols numa só partida, não em três partidas diferentes”, lembrando que isso “até o Vasco faz”. Ficou estabelecido que o pinguim chegaria quando Pimentel emplacasse três cartas numa só edição. Nunca o fez.
A ausência de uma súmula vinculante que pacificasse o tema acabou gerando uma espécie de Ação Direta de Inconstitucionalidade por parte do leitor Pedro Felipe de Camargo, em fevereiro de 2016. “Quem decide quem deve ganhar [os pinguins]?”, perguntou. “O Moro? É por sorteio? Se for, será tipo quermesse, com números escritos em folhas de caderno? Precisa ser tão honesto quanto o Lula para poder concorrer?” Camargo então enumerou os atributos que, a seu ver, o cacifavam para a guarda. Lembrou que: tinha o DVD do filme Os pinguins do papai; que assistira a Madagascar só por causa dos pinguins; que já vira oito vezes A marcha dos pinguins; que só comprava na loja Ponto Frio; que só lia livros da Penguin; e que só tomava cerveja Antarctica, cujo símbolo são dois pinguins. “Quase, Pedro”, precisei responder. “Pena você ter se esquecido de mencionar que o Pinguim é teu arqui-inimigo predileto do Batman. Temos critérios, somos rigorosos.”
Revistas e jornais são organismos vivos, que nascem, crescem e, eventualmente (depois de comprados pelo Nelson Tanure) morrem. Nesse processo, costumam passar por importantes modificações gráficas. A piauí de hoje não é a mesma de vinte anos atrás.
A primeira mudança ocorreu em novembro de 2007, quando a capitular (a letra em negrito que abre cada trecho da reportagem) passou a ocupar três linhas, ante as duas que ocupava anteriormente. Em março de 2012, nova mudança significativa, desta vez no espaço entre as linhas, que cresceu de 11,339 pontos para 12 pontos. Nada disso, no entanto, aplacou o desconforto do leitor Marcos Leite de Souza, que em julho daquele ano enviou um apelo à redação: “Depois de passar uma hora lendo os magníficos textos da piauí, coisa que faço há anos com muito prazer, tenho que passar o resto do dia descansando a vista por causa das letras microscópicas. Assim vou acabar perdendo o emprego por culpa de vocês. Por favor, aumentem o tamanho das letras! Eu pago as páginas a mais.” O pedido de Souza foi prontamente atendido na edição 232, publicada catorze anos depois. Desde então, a letra cresceu de 10,5 para 12,5 pontos. A conta das páginas a mais já foi enviada ao endereço de Souza.
A piauí passou também por importantes mudanças editoriais. Quando criada, em outubro de 2006, Merval Pereira não era colunista da revista. Mas hoje, passados vinte anos, continua não sendo. A revista, aliás, nunca teve colunistas. Duas únicas seções estão presentes desde a primeira edição: despedida e esquina – essa, motivo de uma longa controvérsia epistolar.
Em janeiro de 2010, a leitora Jacqueline Farid escreveu à redação perguntando por que os textos da seção não eram assinados. “Justamente para não saciar a curiosidade do leitor. E reforçar a fruição da leitura pelo texto, e não pela assinatura”, respondi, ao abordar uma reclamação que não era inédita. Antes, em março de 2007, Helio Loureiro Serafino já havia protestado: “Confesso que não gosto dessa história de os artigos da seção Esquina não serem assinados. Isso impede que eu goste ou desgoste dos mesmos, sem lê-los. Não é loucura, não, é puro preconceito mesmo! Tenho receio de gostar de uma matéria de quem não gosto.” Dois meses depois, mais uma carta indignada, essa do leitor Paulo Azeredo: “A seção Esquina sem seus autores não é legal. É para lhes pagar menos?” Em abril de 2009, a revolta coube a Carlos de Souza: “Não entendo por que não assinam os deliciosos textos de abertura. Só os bambambãs é que assinam suas matérias? Que frescura é essa?”
O clamor popular acabou levando a direção a abrir mão de seus princípios editoriais: em março de 2012, as esquinas passaram a ter dono. Como consequência, os leitores começaram a escrever para pedir que elas voltassem a não ser assinadas. “Esquina agora tem nome? E quem é que vai acreditar em mim quando eu digo que sou eu quem a escreve?”, reclamou, Jonathas Soler, em abril daquele ano. Em julho, foi a vez de Carlos Rolim: “Faço coro a incontáveis leitores (não vou contar...) que reclamam do empobrecimento da revista ao passar a identificar os autores das matérias da seção Esquina. Gastávamos (represento, nesta missiva, a minha família de seis leitores), bons momentos nos divertindo na pesquisa e especulação sobre quem teria sido o autor deste ou daquele texto. Vocês acabaram com nossa brincadeira, a única seção que nos ofertava algo parecido à enigmística. Favor providenciar outra.”
Faço uma réplica tardia, em causa própria: a seção de cartas também tem sua dose de enigma. Ou a família de Carlos Rolim sabe quem é o Respondedor de Cartas?
Grandes poderes vêm com grandes responsabilidades – e com grandes renúncias. Peter Parker não podia revelar a Mary Jane que ele era o Homem-Aranha. Clark Kent não podia contar a Lois Lane que era ele o Super-Homem. Na redação da piauí, ninguém sabe quem é o Respondedor de Cartas. Trata-se de um homem? Uma mulher? Um estagiário? Um editor? Seria o Respondedor uma só pessoa? Ou seria ele, à Shakespeare, um nome por trás de vários?
Sigmund Freud cravou que o Respondedor precisa ser opaco, de forma a não criar uma autocensura naquele que escreve a carta. Jacques Lacan foi além, postulando que a relação epistolar simplesmente não existe: o que há, na melhor das hipóteses, é uma união incompleta entre o desejo do missivista em ver sua carta respondida e o desejo do Respondedor em contemplar o remetente. Nessa dinâmica, o Respondedor será bem-sucedido se – e apenas se – aceitar o carma de sua invisibilidade. Foi essa invisibilidade, cultivada ao longo dos últimos vinte anos, que legou à piauí o privilégio de ser insultada por todos os lados do espectro político.
James William Goodwin Jr., setembro de 2007: “É impressão minha, ou vocês assumiram o papel de ‘ninho dos tucanos’?”
Vicente Pessôa, setembro de 2008: “Nos contatos com as primeiras edições, a maior semelhança era o formato. Mas nas últimas, culminando na de agosto, a piauí está cada vez mais Caros Amigos. Era só o que faltava: mais uma publicação esquerdista mascarada de imparcial.”
Henrique Perazzi de Aquino, maio de 2016: “A piauí tenta se passar por imparcial, mas o máximo que consegue é ficar em cima do muro. No mais, é um escrachado reduto de direitistas empedernidos.”
Marcel Leda Noronha Macêdo, em outubro de 2016, reclamou da “falta de equilíbrio” da repórter Consuelo Dieguez ao fazer um perfil do então deputado federal Jair Bolsonaro. “Todas as pessoas consultadas ou ouvidas são pública e notoriamente de esquerda (André Singer, Eduardo Giannetti e Daniel Aarão Reis Filho). Curioso que a jornalista não tenha ouvido ninguém que não siga a cartilha esquerdista/socialista/comunista/marxista/progressista, como, por exemplo, Olavo de Carvalho ou Luiz Felipe Pondé.” Curioso mesmo. Consuelo Dieguez tampouco ouviu Joel Pinheiro da Fonseca, Leandro Narloch, Guilherme Fiuza, Rodrigo Constantino e Augusto Nunes. É mole?
Como porta-voz da revista, o Respondedor de Cartas ocupa a trincheira que divide a redação do mundo lá fora. Nesse posto, tão trágico quanto heroico, precisa estar pronto para ser alvejado em nome de uma causa maior. O que ele não pode permitir, sob hipótese alguma, é que as críticas atinjam quem dá alma à revista: o reportariado.
Qual Kevin Costner em O guarda-costas, sempre fiz questão de me colocar entre Consuelo Dieguez e qualquer missiva que pudesse importuná-la. Assim foi em junho de 2014, quando Victor José de Souza Teodoro perguntou, admirado, como a repórter elaborava seus perfis. Fui seco e claro: “De um de seus três palácios em Jaipur, onde continua a bebericar drinques coloridos enfeitados com guarda-chuvinha, Consuelo manda avisar, de forma algo seca, que não seria capaz de renegociar praticamente a cada mês os termos de seu contrato bilionário caso revelasse os segredos de sua profissão.”
Assim também foi em julho de 2017, quando um leitor chamado José Dieguez disse não ser parente de Consuelo, ainda que tenha sugerido que ela recebesse um “substancioso aumento” após a publicação de um texto sobre a ministra Cármen Lúcia, do STF. “José, suponho que você seja familiarizado com o coeficiente de Gini”, respondi, lembrando o índice que mede o grau de desigualdade na distribuição de renda numa determinada população. “Pois bem, para perplexidade da ONU, do Banco Mundial e especialmente nossa, o Gini da redação é próximo de 1 – leia-se: máxima concentração, máxima desigualdade. A explicação é uma só: Consuelo Dieguez. O holerite dela é de tal monta que pouco sobra para os outros repórteres. Muitos vivem de lhe prestar pequenos serviços, como lavar a sua Mercedes ou passar graxa nas pás do helicóptero com o qual ela se desloca de Búzios para a redação. O economista francês Thomas Piketty vem utilizando o conceito de ‘coeficiente de Consuelo’ para designar esse triste estado de coisas.”
Em julho de 2019, quando Ariel Tiago Stürmer estranhou uma breve ausência de Consuelo nas páginas da revista, precisei explicar-lhe que ela descansava “em Bali num resort tão exclusivo que nem em Bali fica”. Dois anos depois, em julho de 2021, Leila Costa Pereira quis saber se os personagens bem-nascidos de uma reportagem de Consuelo Dieguez tinham, com ela, alguma relação de vizinhança. “Consuelo não tem vizinhos”, esclareci. “Nossa repórter jet-setter mora num castelo encarapitado nas escarpas nevadas de Monte Carlo. A propriedade é tão grande que a casa mais próxima fica noutro fuso horário.”
Há quem use a seção de cartas para comentar as reportagens. E há quem a use para depositar as idiossincrasias. Em agosto de 2007, a capa da piauí mostrava a releitura de uma iconografia comunista de um aperto de mãos entre Mao Tsé-tung e Josef Stálin. No mês seguinte, a revista recebeu uma reprimenda do leitor Jesus Leong: “A capa da piauí_11 mostra Stálin um pouquinho mais alto que Mao. Na vida real, o líder chinês tinha 1,80 metro de altura, enquanto sua contraparte soviética, mero 1,65 metro!”
Em fevereiro de 2012, a reprimenda foi do leitor Carlos Cristiano Rego, também por uma questão de ordem matemática: “Aponto uma frase que não está 100% precisa na matéria sobre o uso de celulares dentro de aeronaves (Neura nas alturas, piauí_64, janeiro). O texto registra que hoje o país teria ‘mais celulares do que bípedes’. Entendo que a palavra ‘bípede’ referia-se ao particular grupo dos seres humanos, mas... Hoje o Brasil conta com um rebanho de mais de 1 bilhão de galináceos criados em granjas, bem como outros milhões de aves silvestres. Aves são bípedes.” Logo, concluiu o leitor, “ainda não temos ‘mais celulares do que bípedes no Brasil’...”.
Alguns, mais dedicados, fazem levantamentos científicos. O de Luisa Pessoa, de dezembro de 2009, dizia respeito às páginas com publicidade: “Edição de novembro de 2006 (72 páginas): aproximadamente 18 páginas inteiras de propaganda, o equivalente a 25% da revista. Preço que pagamos para ler as propagandas: 1,97 real. Novembro de 2007 (82 páginas): aproximadamente 23 páginas inteiras de propaganda, o equivalente a 28% da revista. Preço para ler as propagandas: 2,21 reais.” A conta prosseguia pelos anos seguintes, mostrando que a edição de novembro de 2009 tinha 35 de suas 80 páginas ocupadas por alguma publicidade. “Vocês não acham que estão começando a exagerar nas propagandas?” (Quase ouço o editor-chefe deste mensário suspirando: “Ah, que saudade desse tempo em que as propagandas pagavam quase metade do salário de Consuelo Dieguez!”)
Há leitores com preocupações nutricionais. A de Flávio Silva, por exemplo, era sobre a ingestão calórica do ex-governador por São Paulo, Paulo Maluf: “Maluf saboreia ‘um comportado prato de salada com batata cozida’ e diz que come pouca carne porque proteína o ‘engorda’”, escreveu Silva, citando trechos de um texto publicado em outubro de 2007. “Pelo jeito, não sabe que a batata, rica em amido, engorda mais que alimentos proteicos.” Já o leitor Paulo Madureira apontou uma omissão nutricional num texto sobre o Leite Moça: “A reportagem O leite que condensa o Brasil (piauí_182, novembro) é bem interessante do ponto de vista histórico, mas faltou dizer que mais da metade dele é açúcar.” Respondi com uma breve nota na edição de janeiro de 2022: “Mais da metade dele é açúcar. (Pronto, agora está dito.)”
Há leitores que escrevem para defender suas bandeiras. A de Letycia Janot, então diretora da ong Igtiba, era sobre a valorização da água potável: “A esquina Cremosa como um brie me causou enorme espanto”, apontou, sobre um texto publicado em setembro de 2012. “O sommelier de águas conhece pouco sobre a legislação da água tratada no Brasil. E se esqueceu de que cada vez que pisa em um restaurante está de fato consumindo a água de torneira. Toda a comida dos restaurantes é preparada com essa água, assim como o gelo das bebidas, o café e muitas vezes os sucos.” Depois dessa introdução mais ampla, de forma a apresentar o problema, seguiu ao ponto que mais a machucava: “A forma grotesca como se referiu à água da Sabesp vai na contramão de tudo o que é defendido por nossa ONG.” A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo nunca escreveu para agradecer pela defesa apaixonada.
Há quem escreva só para ver o próprio nome na revista. “Desisti de ter um comentário publicado na Veja, então estou tentando a piauí”, admitiu Mário Lourenço Evangelista Júnior, em junho de 2017. E há quem escreva para reclamar de como seu nome foi publicado na revista. Foi o caso do leitor Filipe Cerolim, em abril de 2009:
“Quando recebemos um nome que na maior parte das vezes carregamos por toda a vida, nossos pais, ao nos batizar, escolhem o nome de acordo com critérios decididos por eles: livros, artistas, significado, homenagem ou qualquer outro motivo que lhes agrade mais. Esses nomes podem agradar ou podem fazer com que o filho vire motivo de chacota e acabe mudando de nome no futuro, ou até mesmo trazer danos psicológicos. Um estudo britânico, realizado pela Abbey Banking, mostra que os ingleses têm a crença de que a escolha certa do nome é crucial para que a criança tenha um futuro promissor. A pesquisa ainda afirma que um casal demora em média 45 horas para achar o nome ideal para seu filho e um entre três casais acredita que o nome certo pode dar confiança a esta criança. Em um país em que a maior personagem da televisão se chama Maria da Graça Xuxa Meneghel, o rei do futebol é mais conhecido como Pelé do que Edson Arantes do Nascimento e o nosso atual presidente fez questão de colocar no nome seu apelido, Luiz Inácio Lula da Silva, o nome faz diferença? Mandei uma carta para a piauí no mês passado e fiquei feliz por ver que ela foi publicada. Informei duas vezes no e-mail que meu nome era Filipe, mas ainda assim a revista publicou Felipe.”
A raiva era justificada. Só me coube escrever uma breve nota pesarosa: “Mil perdões, Felipe.”
Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto. Erico Verissimo e Jorge Amado. Não faltam, no Brasil, exemplos marcantes de boa troca epistolar. Carlos Drummond de Andrade enviava cartas a escritores, intelectuais e a um sem-número de desconhecidos que o alcançavam por meio dos correios. Foi por meio de uma carta que Michel Temer comunicou Dilma Rousseff do seu intuito de traí-la. Verba volant, scripta manent: as palavras voam, os escritos permanecem.
Franz Kafka escreveu Carta ao pai. Rainer Maria Rilke escreveu Cartas a um jovem poeta. E Dirceu Luiz Natal escreveu 114 cartas à piauí. A primeira, de junho de 2011, versava sobre o longo texto de memórias assinado pelo economista Persio Arida. A segunda, publicada em outubro do mesmo ano, resumia uma reportagem sobre o então ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Tomou gosto pela coisa, nunca mais parou.
Em 2012, Natal escreveu seis vezes à revista, elogiando matérias que tratavam de assuntos tão díspares quanto o jogo do bicho e a descoberta de petróleo na camada do pré-sal. Em 2013, foram sete. Nos dois anos seguintes, manteve a média de seis cartas. Em 2016, subiu para oito – número que viria a se repetir em 2017. Em 2018, atingiu a casa dos dois dígitos: dez cartas em doze edições – uma espetacular média de aproveitamento de 83%. Aconteceu então o inevitável: o missivista passou de autor a tema das cartas.
“Gente, só uma dúvida: esse leitor Dirceu Luiz Natal é contratado pela piauí para resenhar os principais artigos da revista? Porque todo mês ele aparece na seção de cartas fazendo um resumo da edição anterior – e, não raro, também faz algum comentário aleatório e coxinha no final”, escreveu Jéssica Barbosa de Araújo, em janeiro de 2018. Seu comentário foi complementado pelo de Ruy Mozzato, no mês seguinte: “Muito interessante a observação da Jéssica Barbosa de Araújo. Ela deve ser como eu, que sempre começo a ler a piauí pelas cartas. Fui verificar, e realmente o leitor Dirceu Luiz Natal deve ter uma ligação muito forte com a direção. Ele conseguiu colocar suas cartas nas edições 133, 134 e 135 (não procurei anteriores). Há algum tempo também escrevi para a piauí (em 10 de abril); comecei dizendo: ‘Sou leitor há anos. Quando chega a revista, a primeira leitura (que mais me diverte) é a seção de cartas (as dos leitores e as notas da Redação).’ Não tive o prazer de ver minha carta publicada. Devia ter pedido para o Dirceu me ajudar.”
Instigado, Natal achou por bem esclarecer a situação, na mesma edição 137, de fevereiro. “Meu primeiro contato com a piauí foi a edição 55, de abril de 2011, quando da publicação de trecho das memórias do Persio Arida sob o título Rakudianai. Por ter participado da ALN (Ação Libertadora Nacional), sob a liderança de Carlos Marighella, interessei-me pelo relato e as reflexões de um militante de outra organização revolucionária, que também optara pela luta armada contra a ditadura.” Natal passou, então, a assinar a revista, comentando certos assuntos “sistematicamente, através das cartas [...], como procedo normalmente com todas as publicações que assino”. Terminava sua explicação com republicanismo: “Aproveito a oportunidade oferecida por essas pequenas janelas para o pleno exercício da cidadania.”
No ano seguinte, Natal diminuiu o número de cartas para sete. Foi uma medida arriscada, já que ele vinha contando com a competição cada vez mais acirrada de outro leitor, Adilson Roberto Gonçalves. Em 2020, o jogo virou. Natal publicou apenas cinco cartas, ao passo que Gonçalves emplacou impressionantes onze. Em 2021, retomou a ponta, publicando oito, contra sete de Gonçalves. Em 2022, nova vitória por pontos corridos: onze cartas de Natal contra nove de Gonçalves. (No intuito de facilitar o entendimento de um tema tão basilar, a piauí abre aqui uma exceção editorial: pela primeira vez, em seus vinte anos de história, insere um gráfico em uma reportagem. E resolvi desenhá-lo incluindo também os números de Djalma Rosa, terceiro missivista contumaz. Deliciem-se).

Em 2023, Dirceu Luiz Natal gabaritou, publicando cartas em todas as edições. Falou de: Ricardo Stuckert; Getúlio Vargas, Jânio de Freitas, Jair Bolsonaro, Lula, Arthur Lira e Celso Amorim; Chacrinha, Hélio Oiticica, Zé Celso Martinez Corrêa, Graciliano Ramos e Otto Maria Carpeaux; do golpe militar de 1964, da quebra das lojas Americanas e do crescimento da ultradireita na Europa. Talvez esgotado pelo excesso, no ano seguinte publicou apenas quatro, ficando atrás não só de Gonçalves, com nove, mas também de Djalma Rosa, com oito cartas publicadas. No ano passado, voltou à ponta com nove. Houve um pedido, por parte do leitor Paulo Fernando Teixeira, para que seu nome constasse no expediente da revista.
O campeonato de 2026 segue em aberto.
O caminhar de uma revista é um termômetro, também, do caminhar de um país. A piauí nasceu num período de certa tranquilidade política. Com o passar dos anos – sobretudo a partir dos governos Temer e Bolsonaro –, as capas, antes artísticas, deram lugar a sátiras, quase sempre assinadas pela ilustradora russa Nadia Khuzina. O excesso mexeu com os brios do leitorado.
“A artista Nadia Khuzina é ótima, mas acho que são dela oito entre dez das últimas capas da revista. Começa a cansar”, escreveu José Eduardo Gonçalves, em agosto de 2017. “Nada contra a Nadia Khuzina – pelo contrário, tenho até amigos que curtem –, mas acho que sua cota de capas da piauí já foi estourada há algum tempo”, acrescentou Ítalo Alves, dois meses depois. “De novo uma capa da Nadia Khuzina?”, complementou, na mesma edição, Guilherme Nunho. “A oitava seguida, para ser mais exato.” Diante de tanta revolta, me restou recorrer aos fatos: “Nosso implacável Departamento de Checagem avisa que a Nadia assinou seis capas seguidas até setembro, e não oito.”
A piauí também refletiu mudanças no país ao aderir ao novo padrão ortográfico em outubro de 2009. A rendição se deu após uma chuva de cartas reclamando dos “pingüins” com trema, das “idéias” com acento e da “auto estima” inabalável da revista, escrita sempre em separado. “Exauridos pelo combate, cheios de cicatrizes e circunflexos de guerra, rendemo-nos às regras da nova ortografia a partir desta edição”, precisei comunicar. “Derrotados, ao menos nos poupamos de ter de explicar, a cada mês, por que consideramos a reforma uma cretinice colossal.”
Mas houve uma decisão editorial, ocorrida em junho de 2020, que espelhou não só mudanças no país, mas no mundo. Foi naquele mês, sem que ninguém percebesse, que o número de fax da revista deixou de existir. Sim, ele sempre esteve ali, no expediente, bem ao lado da seção de cartas, desde outubro de 2006. No princípio, atendia apenas por 3511-7430, com DDD do Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, frutificou, passando a contar com uma filial em São Paulo – trajetória comum no jornalismo. Isso até o dia em que foi silenciado, num mundo em que as cartas manuscritas (houve casos) eram substituídas, cada vez mais, por e-mails e comentários nas redes sociais.
Veio das redes sociais, por exemplo, o comentário do leitor Bruno Castro, que revoltou-se com a capa de fevereiro de 2020, que trazia uma ilustração de Jair Bolsonaro com o uniforme do Flamengo. “O sujeito tem foto com camisa de 542 times (dos quatro do Rio inclusive, já se declarou botafoguense), mas aí botam a do Flamengo pra render mais.” O coro foi endossado pelo leitor Murillo Monteiro: “Tinha que ser a camisa do Palmeiras. Meu Flamengo não merece isso.”
Dada a seriedade do tema, precisei fazer uso, neste caso, de uma resposta com certo grau de aprofundamento e erudição: “Uma tradição já consolidada da hermenêutica clássica não deixa dúvidas quanto à potência transfiguradora das cores rubro-negras. São João Damasceno, em seu florilégio Sacra parallela, dedica três capítulos ao mantellum sacris. Numa passagem que muitos exegetas consideram o momento mais alto de toda a Patrística, o Damasceno afirma o caráter inescapável do manto sagrado. Vesti-lo é render-se: fortuna fatalis, sina ineludível. Quatrocentos anos mais tarde, São Bernardo de Claraval retomará a ideia, transformando-a na semente da qual brotará boa parte da melhor escolástica. Quem não se lembra do parágrafo notável de seu Comentário ao Cântico dos Cânticos que se encerra com o dito fatal Flamengo tempore, Flamengo semper? Resumo: vestiu a camisa, dançou, neném.”
Responder cartas é estar aberto a absorver a raiva alheia. Assim foi em agosto de 2008, um mês depois que a piauí publicou um texto elogioso ao disco Só entre nós, do empresário – e então revelação do canto – Roberto Justus. “Sinceramente, não deu para entender o artigo sobre Roberto Justus, tecendo loas e mais loas ao cd do novo mago do mundo dos negócios. O texto é tendencioso, eivado de puxa-saquismo e não está à altura de uma revista do porte da piauí”, escreveu o leitor Hermano de Melo, acrescentando que Justus era apenas “mais um picareta dentre os muitos que se apresentam hoje na mídia brasileira”. Nesse caso, fui sucinto, dizendo apenas que “não compartilhamos a opinião do estimado leitor”.
Por coincidência, a seara musical me levou a lidar com situação parecida um ano depois, quando a piauí decidiu destacar, na capa, que a edição de julho de 2009 trazia um diferencial em relação às demais publicações encontradas na banca: “Exclusivo! Nenhuma linha sobre Michael Jackson.” A frase, que tinha o óbvio intuito de não decepcionar o leitor que comprasse a revista em busca de um texto sobre a morte do astro pop, acabou provocando o efeito adverso daquele esperado:
“O New York Times, a Newsweek, a Time, as últimas com edições especiais, noticiaram com ênfase, sensibilidade e propriedade a perda de um artista emblemático de nossa época. A revista piauí, supostamente tão afinada com as questões culturais, achou o tema indigno de suas páginas”, escreveu a leitora Cecília Medrado. “Depois disso, para mim, também se tornou indignidade a leitura da revista.” O leitor Euclides Dourado foi enfático: “A segunda morte do astro foi cometida pelo jornalismo literário.”
Por vezes, os ataques ficam pessoais. Fernando Marques se revoltou por ter uma de suas cartas editadas: “Escrevi para vocês noutra ocasião. O jornalista que copidesca as cartas, Flaubert da Vila Madalena, resolveu mexer no textículo como se o leitor, abaixo assinado, fosse funcionário do veículo. Não sou. Deixe os textos assinados como estão, ô Alencar do Largo do Arouche!” Victor José de Souza Teodoro foi ainda mais duro em sua reivindicação: “Acabem com a seção de cartas. É a porção mais mal aproveitada da revista. E imagino que a Suzano Papel e Celulose ainda não esteja lhes dando de graça o pólen soft de cada mês. Usem o espaço para propaganda, para cartuns, para poemas. Ou mesmo para nada, criando, nas páginas agora em branco, uma seção de rascunhos. Os leitores mais enfurecidos poderiam deixar ali sua cota de descontentamento mensal com a revista.”
Grandes poderes vêm com grandes responsabilidades. Respirei fundo, absorvi o ataque e acolhi (em parte) a sugestão do leitor: “Fica decretado que, a partir do mês que vem, a revista terá apenas páginas em branco seguidas de uma seção de cartas.”
Uma pena que o diretor não tenha concordado.