memórias literárias

AMAMOS TANTO JULIO

Para seus leitores, Cortázar não era apenas um grande escritor, mas um amigo
CRÉDITO: ROBERTO GIMENO_DIVULGAÇÃO_1974 - Cristina Peri Rossi e Julio Cortázar em 1974: “Gosto de conversar com mulheres”, dizia ele. “Os homens são sérios demais, racionais demais. As mulheres falam o idioma da emoção”
CRÉDITO: ROBERTO GIMENO_DIVULGAÇÃO_1974 - Cristina Peri Rossi e Julio Cortázar em 1974: “Gosto de conversar com mulheres”, dizia ele. “Os homens são sérios demais, racionais demais. As mulheres falam o idioma da emoção”

15 min de leitura

Ouvir essa matéria

0:00 0:00

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Não fui ao enterro de Julio Cortázar. Não apareço na foto. Nas inúmeras fotos feitas depois de sua morte, numa manhã chuvosa de fevereiro de 1984. (Quantas vezes, Julio, recordamos juntos aqueles versos de César Vallejo: Morrerei em Paris com aguaceiro, num dia do qual já me recordo.) Não quis partilhar da duvidosa cumplicidade dos precariamente vivos, dos sobreviventes. Abomino a morte e os rituais fúnebres. Havia também outra razão profunda: eu me negava a aceitar que Julio fosse mortal, e preferia recordá-lo vivo, eternamente jovem (brincávamos, às vezes, sobre seu aspecto juvenil, como Dorian Gray. “Só que eu não vou acordar um dia transformado num idoso decrépito e asqueroso”, você dizia, sorridente e convencido), sadio, viajante, às vezes um pouco melancólico (“literatura é coisa de melancólicos”: anotei isso num guardanapo do café La Puñalada, de Barcelona. Ele respondeu, embaixo, e me devolveu o guardanapo: “Quem não é um pouco melancólico às seis da tarde de outono, numa rua de Paris ou Barcelona, de Buenos Aires ou Montevidéu?”) e sempre lúdico. Além disso, com o exílio havia me acostumado a aceitar a morte dos entes queridos à distância, por uma breve chamada telefônica ou um obituário que saltava de uma carta aparentemente trivial. De uma coisa estava absolutamente certa já havia alguns meses: não queria ver Julio morto, num caixão. Não queria que essa memória inoportuna interrompesse nosso diálogo interior, nossa maneira de conversar às vezes à distância. “O amor é uma questão de palavras”, escrevi, durante meu segundo exílio, o parisiense, em 1974, frase que provavelmente teria agradado a Lacan se ele fosse leitor das jovens escritoras latino-americanas; eu, nessa época, tampouco lia Lacan, embora depois o tenha citado. Cita-se parcialmente. Até nossos inimigos são capazes de dizer algumas verdades. Atribui-se ao generalíssimo Francisco Franco a frase: “Quem não conhece sua história está fadado a repeti-la.” Possivelmente morreu sem saber que citava seu odiado Karl Marx[1]. Costumamos coincidir em algumas coisas com nossos inimigos. Julio Cortázar, conversando: “Às vezes as vítimas elegem obscuramente seus carrascos.” Você não ficaria nada surpreso, Julio, ao ler a notícia de uma mulher que procurou, nos serviços eróticos da internet, nos Estados Unidos, um homem que a matasse enquanto faziam amor, e teve êxito. Então, provavelmente, teríamos recordado outra vez Marguerite Duras e seu romance Moderato cantabile, levado ao cinema por um diretor de quem nós dois gostávamos muito, embora os críticos cinematográficos nem tanto: Peter Brook. Lembraríamos de Marguerite porque era seu o admirável roteiro, os intérpretes eram ninguém menos que Jean-Paul Belmondo e Jeanne Moreau, além da música, tão importante em todo o filme, de um dos nossos compositores favoritos: Erik Satie, as Gymnopédies. E, se tivesse chegado a ler no jornal – hábito este que, no seu caso, era mais um vício – a notícia da americana que buscou, nos serviços eróticos da internet, um homem que a torturasse durante o sexo até a morte, teria me olhado com cumplicidade e dito: “Você é que devia escrever essa história”, porque as histórias têm dono, têm destinatários, as histórias e a realidade se misturam, você dizia: “Ninguém pode saber onde acaba a realidade e começa a fantasia”, limite, fronteira que você gostava tanto de cruzar nos seus contos, “mas na vida é preciso ter cuidado – dizia –, para não acabar como Tito Monterroso”. “Co­mo acabou Tito Monterroso?”, poderia perguntar um leitor, um admirador ingênuo. Então, com muita seriedade, Julio lhe responderia: “O Tito terminou escrevendo: ‘Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá’, conto que ninguém entende. E o primeiro a não entender sou eu.” E o leitor ou o admirador ingênuo ficava sem saber de quem Julio estava zombando, se de Tito[2], dele ou do dinossauro. Sem contar que os dinossauros eram os animais favoritos de Cortázar – preciso dizer que são também os meus? Coincidência que nos valeu sonoras gargalhadas e numerosos envios, de diferentes partes do mundo, de livros, maquetes, bichos infláveis ou qualquer outra informação sobre dinossauros –, muito antes de Spielberg os descobrir. 

Não fui ao enterro de Julio. Não apareço na foto. Eu sabia – naquela manhã fria e chuvosa de fevereiro, quando Aurora Bernárdez me telefonou em Barcelona para confirmar que Julio tinha morrido – que ele e eu seguiríamos conversando de alguma forma, nos comunicando por meio de símbolos ou sinais a interpretar. (Quantas vezes citamos juntos o famoso verso de Baudelaire: La nature est un temple divin;[3] na selva de símbolos e de signos, o homem, sozinho, vai decifrando.) Eu acompanhei muito de perto a sua doença. (Isso que os maus jornalistas chamam de “a evolução da doença”.) Julio não tinha câncer. Até as pessoas mais próximas ou aquelas que estiveram com ele acreditam que foi câncer. Nunca existiu esse diagnóstico, muito pelo contrário. (Lamento contradizê-lo, Mario Muchnik. No belo capítulo que dedica a ele em seu livro Lo peor no son los autores[4], você recorre à versão mais difundida, a do câncer. Não é de estranhar. A doença que acometeu Julio ainda não estava diagnosticada, não tinha nome específico, chamava-se: perda das defesas imunológicas. A mesma que levara Carol Dunlop, a segunda esposa de Julio Cortázar, um tempo antes. Era caracterizada por um quadro de aumento desmesurado dos glóbulos brancos, manchas na pele, diarreias, cansaço, infecções oportunistas, e culminava com a morte. Em novembro de 1983, em Barcelona, Julio, muito preocupado com sua doença, me mostrou uma placa negra na língua: o sarcoma de Kaposi. Ele padecia, então, de um vírus que desconcertava os médicos e não tinha tratamento específico. Nenhum médico sabia, tampouco, como se transmitia ou como se contraía. Alarmada, pedi que Julio consultasse o excelente médico e poeta barcelonês Javier Lentini. Éramos muito amigos, e eu confiava plenamente nele. Fomos vê-lo, Julio e eu, com os exames nas mãos. Javier Lentini era um homem excepcional: generoso, entusiasta, solidário, sempre disposto a ajudar a quem lhe pedisse. Escrevia na revista Jano, uma revista para médicos, mas se ocupava da seção cultural, que era, sem dúvida, excelente. Colecionador de pintura, grande amante da poesia, fundou, financiou e dirigiu Hora de Poesía, única publicação em Barcelona dedicada exclusivamente ao gênero, que durou vários anos, até a morte de seu criador, e na qual foram publicados quase todos os poetas da Europa e da América Latina, em sua língua ou traduzidos. Javier conhecia bem a obra de Julio Cortázar, o admirava como escritor e como pessoa e já havia me pedido, muitas vezes, que apresentasse os dois, em alguma das viagens que costumava fazer a Barcelona. Estavam destinados a se conhecer e a estimar-­se mutuamente, de modo que a consulta médica, exaustiva, se prolongou então num jantar na bela casa de Javier, na Rua Balmes, onde estavam suas coleções de arte e de instrumentos de cirurgia. Javier Lentini confirmou que os exames de sangue de Julio e outras provas descartavam a existência de um câncer, e atribuiu a doença a um vírus raro não identificado. Aprovou a atuação de seus colegas franceses, mas se mostrou completamente desconcertado diante da doença. Faltava uma pista objetiva cuja importância só foi possível estimar de maneira retrospectiva: dois anos antes de contrair a doença, Julio Cortázar recebeu uma transfusão massiva de sangue, num hospital do Sul da França, onde passava férias de verão com sua nova esposa, Carol Dunlop. A transfusão foi realizada devido a uma hemorragia estomacal. “Sou um novo homem”, me escreveu então. “Trocaram todo o meu sangue.” Alguns anos depois de sua morte, o ministro da Saúde da França renunciou, depois do escândalo do sangue contaminado com Aids[5]. Curiosamente, Carol morreu – antes de Julio – também por causa de uma raríssima doença não identificada, um vírus desconhecido que provocou a perda de suas defesas imunológicas e a aparição de infecções oportunistas. É verdade que ela era muito mais jovem que Julio, mas no seu caso a doença progrediu muito rapidamente, pois tivera um rim extraído anos antes, na juventude. Javier Lentini já não está aqui para confirmar um diagnóstico que hoje seria muito mais fácil, mas lembro de uma conversa que tive com ele, no final de 1987, na casa da escritora e amiga Ana María Moix. Eu me recuperava, então, de uma cirurgia, e ambos recordamos Julio cheios de emoção. Eu lhe disse: “Acho que agora os médicos poderiam diagnosticar com exatidão a doença que o matou.” Javier, com sua ternura habitual, me respondeu: “Poderíamos diagnosticar, Cristina, mas não curar. O nome não tem importância, o que importa é se podemos curar. E não teríamos conseguido curá-lo.”)

Antes de sua doença (uma das poucas que teve ao longo da vida), Julio costumava me dizer, sorrindo: “Sou imortal”, frase que me deixava com os nervos à flor da pele. Não era apreensivo e a suportou com estoica galhardia, com elegância, só um pouco irritado pela inoperância dos médicos. Era um homem otimista que nunca se abateu, nem diante da morte de Carol, nem diante da própria enfermidade. (“Sou bem-talhado para a felicidade”, disse para mim, uma romântica que jamais acreditou que a felicidade fosse mais que uma palavra de uso inapropriado.) Me irritava quando ele dizia, sorridente, “Sou imortal”, embora compreendesse a que se referia. Não era, obviamente, uma crença metafísica, nem religiosa: Julio era racional demais, lúcido demais para isso. Tratava-se da convicção de que a morte era outra etapa, diferente da vida, da qual, às vezes, nos chegavam fragmentos obscuros, auras, estranhas comunicações. Não era uma ideia, era uma espécie de pressentimento, para um homem que combinava, com muita harmonia, a filosofia do Iluminismo e a da modernidade com o gosto pelo inconsciente, o acaso, os sonhos e os símbolos; para um escritor que transgrediu os limites do realismo e da razão.

Naquela triste e chuvosa manhã de fevereiro, em Paris, Julio já não precisava de mim – ainda que eu precisasse muito dele –, tampouco de Aurora Bernárdez, sua primeira esposa, a mulher que cuidou dele durante os últimos meses e a quem ele nomeou responsável por seu espólio literário. Eu imaginava que muitíssima gente – amigos e nem tanto – estaria lá, numa cerimônia que ele teria desejado a mais íntima e modesta possível. Imaginava também a dor de seus numerosos leitores do mundo inteiro, aqueles que tinham descoberto em seus textos não apenas um grande escritor, mas também um amigo, um semelhante. É possível admirar muito um escritor, mas não, necessariamente, amá-lo. Julio sempre despertou carinho e cumplicidade em seus leitores e leitoras, porque “sou um poeta, vivo como escrevo” (do ato I de La bohéme, de Puccini. Tínhamos escutado essa peça em muitas versões: Renata Tebaldi, Victoria de los Ángeles, Maria Callas, Montserrat Caballé, e a quase inencontrável versão de Claudia Muzio. Na fuga para o exílio, perdi o único disco que tinha dessa soprano, uma das minhas favoritas. Julio o encontrou, uma vez, em Londres, e me deu de presente. Decidimos que era a melhor Mimì de toda a história da ópera). O olfato dos leitores costuma ser muito apurado: descobrem quando há entre a vida e a obra uma coincidência de valores éticos. 

O telefone da minha casa começou a tocar, naquela cruel manhã de inverno, com demasiada frequência: sim, já sabia que Julio tinha morrido, não, não pensava em ir ao enterro, não ia explicar por quê, sim, obrigada por se solidarizar com minha dor, frase retórica, não há como ser solidário com a dor de ninguém. À noite, decidi sair de casa, para não ouvir mais o telefone. Pedi a uma amiga que me levasse para dar uma volta de carro por Barcelona. Voltei à meia-noite (a hora dos vampiros, lembra, Julio?), tomei um sonífero e adormeci. Pouco depois, uma explosão violenta e o tremor da cama me despertaram sobressaltada, sem saber o que acontecia. Fui direto à janela que dava para a rua, já que o barulho tinha vindo de lá, e observei que na calçada havia cacos de vidro, pedaços de parede e um homem, caído, que tentava se levantar com a perna destroçada. Vários vizinhos também assomaram a suas respectivas varandas e, de longe, ouviu-se uma sirene de polícia. Desci. A entrada do edifício onde eu alugava um apartamento estava desfeita: o grupo independentista catalão Terra Lliure tinha colocado uma bomba na empresa elétrica vizinha. A onda de choque do artefato destruiu fachadas, rebentou vidros e feriu gravemente um pobre homem que passava por ali, a caminho do trabalho, de madrugada. Não dormi mais essa noite. Estava muito nervosa. A morte de Julio, o atentado terrorista que me fazia recordar os piores tempos vividos em Montevidéu, antes de me exilar, me deixaram acordada, como se, de repente, houvesse se desencadeado uma estranha conspiração. Não havia relação aparente entre um fato e outro, mas minha cabeça (como a sua, Julio) encontrava, no acaso, cifras, mistérios, linguagens criptografadas a desvendar. Passei a manhã inquieta, desassossegada. Ao meio-dia, decidi descer a um café próximo, onde me conheciam bem, pois costumava ler o jornal e escrever um pouco ali todas as manhãs. Fui com uma amiga. O dono do bar comentou algo sobre um escritor francês, disse, que acreditava ter visto uma vez comigo, numa mesa, e que acabara de morrer. Na mesma hora, senti a imperiosa necessidade de abandonar o café e voltar para casa. Havia uma sensação estranha de perigo, de risco. Não tive paciência para esperar o elevador e decidi subir a pé os oito andares até o meu apartamento. Quando cheguei, percebi que o batente da porta havia sido forçado por ladrões, mas que não tinham conseguido entrar, e que fugiram, provavelmente ao escutarem meus passos. Respirei, aliviada: de repente, o medo desapareceu. Lembrei de um dos assuntos favoritos de Cortázar: ele dizia que os cronópios tinham um anjo da guarda. Os cronópios não apenas se reconheciam entre si, por mais distante que vivessem ou houvessem nascido, como, além disso, quando um cronópio morria, se transformava no anjo da guarda de outro cronópio. Essa afirmação, querido leitor, querida leitora, você não encontrará em nenhum livro que tenha sido publicado sobre Julio Cortázar. Porque a maioria dos livros publicados durante sua vida ou depois de sua morte foram escritos por homens, jornalistas, professores universitários, toda essa gente solene e muito racional a quem ele tratava com cortesia, é claro, mas que não chegavam às entranhas do seu coração (“as fibras do coração”, uma das primeiras metáforas escritas em língua castelhana, no Cantar de mio Cid). “Gosto de conversar com mulheres”, dizia Julio com frequência, ainda mais em seus últimos anos. “Os homens são sérios demais, racionais demais. As mulheres falam o idioma da emoção, isso que, ao menos para os homens da minha geração, nos custa tanto compreender.”

Naquela manhã, instintivamente, ergui a cabeça e pisquei para Julio, o Grande Cronópio, caso estivesse ali, me protegendo. 

Poucos meses depois de sua morte, a Universidade de Valência organizou uma homenagem a Julio Cortázar, a primeira, acho, feita na Espanha. Entre os convidados estávamos Mario Muchnik e eu. O ato foi realizado na Llotja, mas o público ultrapassava muito a lotação, de modo que foi necessário instalar alto-falantes na rua para que todos pudessem escutar. Mario seria o primeiro a falar. Os funcionários haviam ajustado bem os microfones, revisado várias vezes as instalações elétricas. Tínhamos imaginado uma homenagem alegre e carinhosa, nada solene, sem dissertações, nem protocolo, nem erudição. Uma reunião de amigos para recordar o amigo que já não estava, ou estava de outra maneira. Eu tinha levado alguns discos de tangos cantados por Susana Rinaldi, pois sabia que Julio, onde quer que estivesse, ia gostar muitíssimo de escutar La Tana cantando Sur ou Che bandoneón. Mas parecia que Julio ainda não estava muito de acordo com a homenagem. Porque, quando Mario quis falar, uma cascata de estalos inesperados e ensurdecedores brotou dos microfones e alto-falantes perfeitamente ajustados. Os organizadores, nervosos, quiseram consertar o defeito de imediato. Não havia defeito algum, de modo que Mario podia começar a falar sem problema. Inútil: assim que ele abriu a boca, outra vez os estalos e ruídos de protesto saltaram dos aparelhos. Durante um bom tempo, como num filme de comédia, os técnicos procuravam ajustar os aparelhos, Mario sorria e olhava para o teto, na direção onde presumivelmente Julio poderia estar gargalhando, mas, quando abria a boca, os sons ininteligíveis se repetiam. Então eu, que estava no palco perto de Mario, levantei a voz:

– Olhe, Julio – disse –, não pense que se trata de um ato solene. Somos todos amigos e vamos dar risada, ouvir tango e passar um tempo com você. 

Falei sem microfone. Mario, que me escutou, dirigiu-se então ao aparelho, e desta vez, sem nenhum inconveniente, pôde falar. Pôde recordar o amigo. E eu pude fazer soar no toca-­discos os compassos inconfundíveis de Sur, na voz de Tana Rinaldi, que cada vez canta melhor.

Não tenha medo, Julio, este livro tampouco é solene. É parte de nossas conversas, de nossos passeios, desses que fizemos por Paris ou Barcelona, das coisas que fizemos ou dissemos, dos sonhos e desejos que tivemos. Em vez de literatura comparada – comparar, por exemplo, A queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, a quem você traduziu, com o seu conto, Casa tomada, ou a linguagem coloquial de Adán Buenosayres, de Leopoldo Marechal, com o linguajar de alguns personagens de O jogo da amarelinha –, haverá dinossauros, caleidoscópios, a casa de Aurora em Deià, Maiorca, com seus crepúsculos apocalípticos, e o passeio na orla de Barcelona (“Não sei pescar, mas gostaria”, você disse. No calçadão, havia uma fila indefinida de homens pacientes, com o anzol na água e o olhar perdido. “Eles jogam o anzol para pensar em outra coisa”, respondi. “Então, melhor ainda. Porque estranho seria acreditar que se está onde se está, ou que se vê o que existe”, você acrescentou, um pouco melancólico).


Trecho do livro Julio Cortázar e Cris, a ser lançado neste mês pela Editora 34. Tradução de Diuliane de Castilhos.


[1] Essa frase é atribuída, com variações, a diversos autores. No entanto, o registro original é do filósofo espanhol George Santayana em seu livro The life of reason, de 1905: Those who cannot remember the past are condemned to repeat it (Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo). (Nota da edição)

[2] Augusto Monterroso (1921-2003), escritor hondurenho, nacionalizado guatemalteco e exilado no México, é conhecido especialmente por suas narrativas breves e microcontos. O dinossauro, citado na fala de Cortázar, é considerado por muitos o microconto mais famoso da literatura. (Nota da tradutora)

[3] “A natureza é um templo divino”: possível referência ao primeiro verso de Correspondências, poema de As flores do mal (1857), de Charles Baudelaire: La Nature est un temple où de vivants piliers/Laissent parfois sortir de confuses paroles (A natureza é um templo onde vivos pilares/Deixam por vezes escapar palavras confusas). (N. T.)

[4] Lo peor no son los autores (O pior não são os autores). ed. Del Taller de Mario Muchnik: Madri, 1999. (Nota da autora)

[5] Durante os anos 1980, mais de 4 mil pessoas foram contagiadas com o vírus HIV em transfusões com sangue contaminado na França. O governo francês teria tomado conhecimento do risco só a partir de meados de 1985, e mesmo assim a distribuição dos produtos contaminados continuou por alguns meses, até o escândalo vir à tona. Em 1999, a Corte de Justiça absolveu o ex-primeiro-ministro Laurent Fabius e a ex-ministra Georgina Dufoix, acusados de homicídio involuntário. O ex-secretário da Saúde Edmond Herve foi considerado responsável por imprudência, mas dispensado do cumprimento da pena mínima. (N. T.) 


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É escritora, poeta e tradutora uruguaia. Publicou A insubmissa (Bazar do Tempo), entre outros livros.