questões eleitorais
Camille Lichotti piauí_242 05 Nov 2026
33 min de leitura
Ouvir essa matéria
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
A campanha começou mal. Semanas antes da convenção do Partido dos Trabalhadores para a eleição de 2026, agentes da Polícia Federal arrombaram a porta do apartamento do senador Jaques Wagner, candidato à reeleição, em Salvador. A polícia investigava a relação dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e pivô da maior fraude da história bancária do país. O senador recebeu um apartamento de 2,45 milhões de Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Master. Logo chegou à imprensa uma imagem dos 55 mil dólares, 33 mil euros e 13 relógios de luxo apreendidos nos endereços do senador, o que também incluía um quarto de hotel, em Brasília, onde ele costuma ficar.
Depois que os policiais saíram, Jaques Wagner se reuniu com advogados e assessores em seu gabinete, na capital baiana, para avaliar a resposta. A campanha queria fazer uma coletiva de imprensa, mas no começo da tarde o senador decidiu dar uma entrevista exclusiva, com a condição de ser presencial e realizada por um jornalista baiano. Na entrevista à Band TV, falou com tranquilidade, negou ter favorecido o Banco Master, disse que encontrou Vorcaro duas vezes e que Augusto Lima comprou o apartamento de 2,45 milhões para que ele, Wagner, reunisse os recursos necessários para recomprá-lo depois para sua filha. Sobre o dinheiro apreendido, disse que havia adquirido os dólares em viagens internacionais e recebido parte dele do Senado, na forma de diárias em missões oficiais.
“O presidente Lula me ligou para se solidarizar comigo, dizer que mantém absoluta confiança”, contou ele ao vivo. “A gente se conhece há 48 anos e, portanto, ele sabe qual é o meu jeito de agir.” Na ligação, que ocorrera minutos antes de Wagner entrar no ar, Lula informara que o amigo continuaria na liderança do governo no Senado. “Fique firme, essa é uma tentativa de desestabilizar você, mas conte com a minha confiança”, dissera Lula, segundo o relato do senador.
Encerrada a entrevista de 20 minutos, Wagner ainda permaneceu outros 20 no estúdio da Band para uma conversa informal com a equipe da emissora. Reforçou que estava confiante, que sofrera algo parecido em 2018 e compartilhou detalhes da busca e apreensão da PF. Rindo, confidenciou que, quando policiais entraram em seu quarto naquela manhã, ele estava completamente nu. Mas Lula não ficou de bom humor. Estava irritado por ter sido citado publicamente na trama do Banco Master, mesmo que de maneira lateral, tão perto do início da campanha. Àquela altura, o presidente tinha conseguido abrir uma pequena vantagem em relação a seu adversário Flávio Bolsonaro.
Estavam em jogo quase cinquenta anos de amizade e uma eleição decisiva. Wagner precisava do apoio total do presidente para garantir sua própria reeleição. O presidente Lula, por sua vez, não podia queimar o amigo porque precisava que Wagner se mantivesse em sua cadeira no Senado, que foi um dos principais focos da campanha. Lula também precisava do palanque forte na Bahia para obter o maior número de votos possível no seu principal reduto, que também é o quarto maior colégio eleitoral do país, e compensar a perda em outros estados.
Na mesma noite da entrevista, o presidente combinou de encontrar Wagner em Brasília na semana seguinte, no dia 24 de junho. No encontro, decidiu que Wagner deixaria, sim, a liderança do Senado. O objetivo era estancar a crise, mas Flávio Bolsonaro já tinha publicado um vídeo com cortes da entrevista, na tentativa de colar o escândalo do Banco Master em Lula – contra quem não há nenhuma denúncia relacionada ao caso. “Amizade que atravessou décadas, escândalos e tribunais”, dizia o locutor do vídeo com uma trilha sonora de suspense. “Entendeu o recado? O homem-forte do PT não está pedindo apoio [de Lula na entrevista], ele está lembrando o chefe do risco de o teto desabar.”
Uma semana depois do afastamento de Wagner da liderança, Lula esteve na Bahia. Citou o senador de passagem num comício, junto com os nomes de outros candidatos do PT: Rui Costa, que também concorria ao Senado, e Jerônimo Rodrigues, candidato à reeleição para o governo da Bahia. “Nem todo irmão é um amigo, mas todo amigo é um irmão. E essas pessoas, ao longo da vida, têm me ajudado a fazer o que eu faço, a ser o que eu sou.” Flávio Bolsonaro, ele próprio enrolado no escândalo do Master, publicou um novo vídeo na mesma data. “Nos últimos dezoito anos, onde Lula está, Jaques está junto. Tem muito mistério ainda. E uma certeza: sempre que aparece uma corrupção, Lula e PT estão juntos. Tem alguma dúvida de que Jaques e Lula são a mesma coisa?”
“Eu quero falar”, Rui Costa repetiu aos aliados quando as notícias do Master começaram a se multiplicar. Estava convencido a subir o tom e gravar vídeos para as redes sociais atacando o adversário Antonio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, candidato do União Brasil ao governo baiano, por seu envolvimento no caso Master. Sabia-se desde março que uma empresa de ACM Neto havia recebido 3,6 milhões de reais do banco. O número fora atualizado para 5,4 milhões em abril. Em agosto, numa proposta de delação premiada, João Carlos Mansur, o ex-dono da Reag, empresa que operava para o Master, acusou ACM Neto de aplicar recursos em consignados do banco. Mais do que isso: no dia 10 de setembro, o portal UOL revelou que ACM Neto e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, trabalhavam para que institutos de previdência investissem no Master – e levaram 10% do valor. A reportagem teve como base a delação de Daniel Vorcaro, que acabou sendo rejeitada.
Mas Rui Costa foi dissuadido pela equipe de comunicação, que temia a exposição de Jaques Wagner – e, por extensão, de toda a chapa do PT – como efeito rebote. A piauí teve acesso ao histórico de conversas de Daniel Vorcaro com Augusto Lima, seu ex-sócio na Bahia. Em 2019, numa dos diálogos, Vorcaro se refere a Jaques Wagner como “nosso galego”. “Mais uma missão para nosso galego guerreiro”, escreveu ele, depois de enviar o link de uma Medida Provisória que seria votada no Congresso. “Guerra é guerra!”, respondeu Augusto Lima. Foi na gestão do próprio Rui Costa no governo da Bahia que Augusto Lima obteve um grande presente: o direito de operar o Credicesta, modalidade de cartão consignado voltada para servidores baianos, que se transformou na alavanca do Master para se ramificar nacionalmente.
No começo, havia um acordo tácito entre as duas campanhas rivais de não usar o caso Master em debates ou materiais de campanha. Para quem acompanhava os programas eleitorais por rádio e tevê, era como se o escândalo não existisse. Mas, na reta final, as alfinetadas começaram a aparecer. Jerônimo Rodrigues, quando provocado, subia o tom contra ACM Neto, sobretudo depois que saiu a notícia de que ele, Rodrigues, usara um helicóptero de Augusto Lima, sócio de Vorcaro durante a campanha. A mesma aeronave fora usada por Jaques Wagner para ir com sua mulher à Ilha da Paixão, segundo a PF.
Na penúltima semana de horário eleitoral, saíram as primeiras chamadas expondo as relações do senador com o banqueiro. Wagner planejou gravar um vídeo antecipando sua defesa antes de o UOL publicar uma matéria, em 25 de setembro deste ano, segundo a qual Vorcaro admitia pagamento de 3 milhões por mês ao “grupo de Jaques Wagner” – acusação contida numa proposta de delação que, por falta de provas, não foi aceita. O senador diz que foi vítima de vazamentos seletivos que buscavam enfraquecer a chapa. Mas, de novo, Wagner foi dissuadido pela equipe, segundo a qual não valia a pena se expor. Dados de pesquisa interna da campanha indicavam que cerca de 40% da população baiana sequer sabia dos envolvimentos no caso Master. Outros 30% diziam que isso não mudaria o voto. Era melhor deixar tudo como estava.
Para piorar, as pesquisas, uma atrás da outra, mostravam ACM Neto numericamente à frente de Jerônimo Rodrigues. Em julho, ele estava com 49,2% de intenção de voto ante os 37,5% do incumbente. Em agosto, segundo outro instituto, era 48,5% contra 40,1%. Em setembro, a distância entre os dois continuou oscilando entre 1 a 4 pontos percentuais, a depender da pesquisa, quase sempre com vantagem de ACM Neto. No seu QG de campanha, havia otimismo. Afinal, na costura política feita previamente, ACM Neto conseguira neutralizar as outras duas candidaturas de direita que rivalizaram com ele na eleição passada, em 2022. Sem um terceiro candidato competitivo nesse campo, a previsão era de que a disputa seria liquidada em primeiro turno.
No final da manhã de sábado, 26 de setembro, o governador Jerônimo Rodrigues, 61 anos, fazia campanha na cidade de Santo Antônio de Jesus, a cento e poucos km de Salvador. Estava na caçamba de uma picape, acenando para o povo em volta. “Essa é a minha pesquisa eleitoral adequada”, me disse. Agitando uma bandeira do MDB, partido aliado, ele entrou na rua principal da cidade, a caminho de uma pequena igreja instalada numa praça circular. O carro de som, à frente, repetia os jingles em ritmo de axé music. “É 13, é 13, é 13, é 13, pegou, pegou pressão”, repetia um refrão. Jaques Wagner, ao lado do governador, acenava para o séquito de apoiadores que carregavam bandeiras e faziam passos de dança ensaiados.
Ali, naquele município de 103 mil habitantes do Recôncavo Baiano, o PT perdera a eleição para o governo estadual em 2022. Era preciso recuperar o espaço perdido. Durante o desfile dos candidatos, um jovem passou colando adesivos do PT em quem observava da calçada. Algumas pessoas arrancavam o adesivo das roupas, outras se esquivavam e riam. Trabalhadores saíram das lojas para filmar o cortejo e acenavam para o governador. Na praça da cidade, outros comiam e jogavam cartas sem desviar o olhar. Um senhor com adesivo de ACM Neto se esgoelava: “Eu tô com pena do PT! Vão ser 2 milhões [de votos] de diferença!” Era exagero de militantes, mas Jerônimo Rodrigues chegara à eleição com 56% de aprovação, um índice razoável, mas que torna a reeleição uma disputa acirrada.
Depois de 30 minutos de procissão sem discurso, Wagner imediatamente desceu da picape e entrou no carro que o levaria à cidade seguinte, Piritiba, depois Miguel Calmon e Jacobina. Seguiu viagem na frente, sem esperar Jerônimo Rodrigues. O governador, sorridente, cumprimentava os poucos apoiadores que o seguiram até o final. Ele é conhecido pela simpatia e simplicidade no trato com os eleitores e aliados. Às vezes, passa dias inteiros nas cidades do interior, visitando o comércio local. Para reforçar a imagem carismática, durante a campanha, o governador publicou um vídeo no qual aparecia entrando, todo sorridente, na casa de uma apoiadora para tomar banho e se trocar entre uma agenda e outra.
Na picape, a candidata à deputada federal Conceição Gonzalez, do PDT, que estava ao seu lado e acabou não se elegendo, fez um apelo no fim do evento: “A gente quer fazer um Hospital da Criança aqui em Santo Antônio, me ajuda a fazer.” Mas Rodrigues desfez o sorriso, demonstrando incômodo com a proposta que, aparentemente, tomou como uma cobrança. “Eu já tô cheio de coisa aqui [para resolver]”, disse, descendo do carro. Perguntei sobre o caso Master, que vinha pressionando os petistas. Rodrigues me deu uma resposta protocolar, antes de entrar em outro carro: “Eu espero que o STF seja muito justo para que abra tudo que tem de errado e espero que o Brasil faça uma reforma no Judiciário.”
A essa altura, a campanha petista havia conquistado uma expressiva rede de apoio, reunindo 363 dos 417 municípios da Bahia. Mas a campanha de ACM Neto contava com um trunfo próprio da política – a traição. Tinham a esperança de que alguns desses prefeitos mudariam de lado na hora H, somando-se ao apoio de grandes cidades, como Feira de Santana e Vitória da Conquista, que vinha dando vantagem eleitoral para ACM Neto, além da própria capital, Salvador.
As dificuldades não eram desprezíveis. Como aconteceu em outras regiões do país, também no Nordeste, e inclusive na Bahia, o PT sofria o desgaste de tantos anos no poder. E, pela primeira vez na história, o partido decidiu disputar a eleição na Bahia com uma chapa em que os dois senadores e o governador pertenciam ao PT.
Eis que, computados os votos, o PT venceu com glória. Entre os senadores, Rui Costa ficou em primeiro lugar, com 30,07% dos votos, seguido por Jaques Wagner, com 27,65%. Jerônimo Rodrigues ganhou no primeiro turno, com 55,8% dos votos. O PT baiano ainda fez a maior bancada de deputados estaduais – 14 entre os 63 eleitos – e a maior bancada de deputados federais, elegendo 7 dos 39.
A traição dos prefeitos que ACM Neto esperava, de fato, aconteceu – só que no sentido contrário. Às vésperas do pleito, Jerônimo Rodrigues gravou um vídeo com o prefeito de Araçás, no nordeste do estado, Agamenon Coelho (União Brasil). Mesmo integrando a chapa do opositor, ele participou da caminhada na cidade ao lado do petista. “Araçás, o compromisso que eu aprendi é que gratidão se paga com gratidão”, disse o governador. Ele abriu vantagem sobre o adversário pela primeira vez na véspera do pleito, quando a Quaest apontou, levando em conta os votos válidos, 52% das intenções de voto para Jerônimo Rodrigues, um aumento de quatro pontos percentuais. Venceu com 1 milhão de votos a mais.
O PT da Bahia se considera um partido “de chegada”, aquela legenda que parece fazer uma campanha morna, mas, na hora das urnas, ganha impulso e entusiasmo. Uma das razões para isso está no fato de que as campanhas do PT baiano tendem a começar desorganizadas. Com tanta gente envolvida, de diferentes correntes internas, até as decisões mais simples são tumultuadas pela burocracia partidária. E é na reta final que a militância “pega pressão”, como se ouve no jingle de campanha, e a máquina despeja sua potência máxima nas cidades do interior.
O cientista político Cloves Luiz Pereira Oliveira, professor da Universidade Federal da Bahia e conselheiro da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), também atribui o desempenho da reta final a características do eleitor petista no estado, que mora longe dos grandes centros de mobilização, é menos escolarizado e com renda de até 2 salários mínimos. “Esse eleitor é oriundo principalmente das pequenas cidades com menos de 50 mil habitantes”, explica ele. “Nesses locais, o voto é decidido no último minuto.”
Das 417 cidades baianas, a capital representa 17% dos votos. Mais de 60% do eleitorado está disperso em 400 municípios com menos de 100 mil habitantes. Além disso, o estado é tão grande que, para atravessá-lo no sentido Leste-Oeste, é preciso uma viagem de 12 a 15 horas de estrada. Por isso, as prefeituras são muito dependentes de transferências orçamentárias e da relação com a máquina estadual para a entrega de obras e investimentos. Na história democrática da Bahia, nunca um candidato a governador se elegeu sem apoio do governo estadual ou da Presidência da República.
Com a eleição de Jerônimo Rodrigues, o PT caminha agora para governar a Bahia por 24 anos ininterruptos. É a segunda hegemonia mais longeva do período democrático, perdendo apenas para o PSDB em São Paulo (28 anos). Esse resultado não se explica apenas pela força quase mítica da figura de Lula na Bahia e a avaliação dos governos: tem a ver com a construção de uma hegemonia que começou vinte anos atrás, em 2006, quando os mesmos protagonistas desta eleição aprenderam a manejar a política baiana.
O PT opera na estrutura herdada de Antônio Carlos Magalhães, o avô de ACM Neto, cuja atuação marcante na política baiana resultou na criação do “carlismo”. Ou seja: o PT trabalha em aliança com a elite política local – que é pulverizada, territorialista e alinhada ao governo, segundo a análise de Cloves Oliveira, da UFBA. “Grupos de oposição sucumbem à força gravitacional do governo”, diz ele. “Esse é o princípio básico do poder político baiano. É a mesma ideia de grupo hegemônico [como foi o carlismo], embora com políticas públicas diferentes.” Somado à memória das ações para o desenvolvimento regional, sobretudo nos primeiros mandatos de Lula – a Bahia é o estado com maior número de beneficiários do Bolsa Família –, esse cenário torna improvável o surgimento de ondas de mudança política e a consequente queda do governo de situação.
Na corrida presidencial disputada voto a voto, Lula – considerado o fator decisivo da eleição baiana – não estava em condições de carregar ninguém nas costas. Ele precisava mais da chapa estadual do que o inverso. Na eleição de 2022, Lula conseguiu uma vantagem de 3,8 milhões de votos sobre Jair Bolsonaro. O plano, agora, era ampliar para 5 milhões, mas, no primeiro turno a margem havia caído para 3,2 milhões. (No segundo turno, voltou aos mesmos 3,8 milhões de votos de 2022).
Lula esteve em Salvador para pegar pressão na última semana de campanha do primeiro turno, em 29 de setembro. Percorreu o trajeto Ondina-Barra – o mesmo feito pelos trios elétricos no Carnaval – junto a uma multidão vermelha que ocupou os 3 km da via. Segundo o PT, mais de 200 mil pessoas compareceram.
Em cima de um trio elétrico, o presidente falou por 40 minutos. “Quem fez o Samu? Quem criou o Farmácia Popular? O Minha Casa, Minha Vida? A transposição do Rio São Francisco?”, Lula perguntou, listando programas que mudaram a vida de milhões de baianos, principalmente no interior e na zona rural do estado. “Quem ajudou a Bahia com o programa Água para Todos [lançado oficialmente em 2011, na gestão Dilma Rousseff]? Quem mais fez universidade na história do país? Quem fez mais institutos federais? Quem criou o Pé-de-Meia? Quem fez mais Pronampe [Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte] na história? Quem aumentou o salário mínimo todo ano acima da inflação? Quem criou o Gás do Povo? Quem fez o programa Luz para Todos?” A cada pergunta, a multidão respondia, em uníssono: “Lu-la!”
Ele lembrou que, na sua primeira campanha à Presidência, em 1989, escolhera fazer ali, no Farol da Barra, seu primeiro comício. “Desde aquele período, vocês foram maravilhosos comigo”, declarou. “Em outra encarnação eu nasci baiano.”
A Bahia se tornou uma fortaleza eleitoral que sobreviveu às crises do antipetismo e ao avanço da extrema direita. O estado rende votações expressivas desde a primeira eleição de Lula, em 2002, quando ele obteve mais de 65% dos votos no segundo turno. De 2006 a 2022, em toda eleição presidencial o partido conquistou vitória no estado com mais de 60%.
Carioca de Cascadura, Jaques Wagner chegou à Bahia aos 23 anos, em 1974, fugindo da perseguição da ditadura militar no Rio de Janeiro. Trabalhou no polo petroquímico de Camaçari, foi dirigente do movimento sindical petroleiro, fundou o PT no estado e tornou-se amigo de Lula. Tentou ser prefeito de Camaçari e perdeu. Tentou virar governador em 2002, aproveitando a onda lulista, e perdeu novamente.
Naquele ano, quem venceu foi Paulo Souto, do antigo PFL, herdeiro do grupo político de Antônio Carlos Magalhães, o avô. ACM governou a Bahia por três mandatos, os dois primeiros no período da ditadura militar, e inaugurou o movimento carlista, que praticamente dominou o estado nas décadas seguintes. “A Bahia era avessa à tradição de esquerda e até ao MDB. Havia resistência principalmente no interior”, explica o professor de ciência política da UFBA, Paulo Fábio Dantas Neto, que também é autor do livro Tradição, autocracia e carisma: a política de Antonio Carlos Magalhães na modernização da Bahia (1954-1974). “A Arena [posteriormente o PFL] ganhava exatamente onde o PT ganha hoje.”
Wagner era ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República do primeiro governo Lula quando decidiu se candidatar novamente ao governo, em 2006. Lula foi contra. Disse que o amigo perderia de novo. Mas Wagner tinha outra leitura. Na Bahia, testemunhara o enfraquecimento do carlismo, causado pela divisão interna do grupo e pelo sentimento de mudança que o primeiro mandato de Lula havia proporcionado. Àquela altura, o governo federal já tinha entregado o Programa Luz para Todos, o Bolsa Família e os programas do Fome Zero.
Wagner procurou o MDB de Geddel Vieira Lima para um acordo. O emedebista embarcou na campanha e trouxe consigo mais de cem prefeitos do interior. Por meio dos novos aliados, o petista se aproximou do empresariado baiano. No dia da eleição de 2006, às 10 da manhã, o radialista e ex-prefeito de Salvador Mário Kertész, recebeu uma pesquisa do Ibope que indicava a reeleição do governador Paulo Souto em primeiro turno, 16 pontos percentuais à frente do petista. Quem ganhou no primeiro turno foi Wagner, com 52,9% dos votos. “Ele não confessa, mas também não esperava essa vitória”, lembra Kertész, que é amigo do senador. “Tanto que ele nem tinha ideia dos nomes que iriam trabalhar com ele no governo.”
Seu primeiro mandato foi marcado pelas entregas dos primeiros programas sociais do governo Lula, alguns deles voltados especialmente para o Nordeste – algo sem precedentes no país. O governo estava dividido entre emedebistas e antigos colegas de sindicato até que o MDB decidiu romper com Jaques Wagner e lançar candidato próprio em 2010. Na briga por espaço no poder, o governador não cedeu: retirou todas as indicações do partido e saiu em busca de um novo vice para sua reeleição.
Wagner sabia que, para garantir a longevidade do partido no estado, não poderia renunciar a um aliado forte com capilaridade no interior da Bahia – coisa que o PT, ainda muito concentrado na capital, não tinha. Ele decidiu fazer uma aliança com um carlista ortodoxo: Otto Alencar (então PP, hoje no PSD), ex-governador que estava no Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia, indicado pelo próprio Antônio Carlos Magalhães. Wagner se reelegeu com 64% dos votos, mais de 3 milhões à frente do segundo colocado. Até hoje Otto Alencar é o maior aliado dos petistas no estado e seu partido continua sendo a força fisiológica por trás do PT. O PSD tem 115 prefeituras – o maior número no estado –, que correspondem a 27% dos municípios. O PT tem cinquenta.
O professor da UFBA Cloves Oliveira coordenou um grupo de observação naquela eleição de 2010, contratado pelo think tank Inter-American Dialogue, e acompanhou a base de operação da campanha de Wagner, coordenada pelo marqueteiro que começava a despontar nacionalmente, Sidônio Palmeira. Àquela altura, o PT tinha avanços concretos para exibir, e Wagner, a terceira campanha mais rica do país. O que mais impressionou Oliveira foi a capacidade logística de construção de núcleos da campanha em todas as regiões do estado e a qualidade dos publicitários. Ele lembra de uma peça de campanha que falava sobre o Programa Um Milhão de Cisternas. O vídeo mostrava um homem do sertão baiano retirando e bebendo a água do reservatório. “Isso com uma estética cinematográfica que captava o prazer de beber água”, lembra o cientista político. “Eles tiveram uma leitura e interpretação brilhantes do que funciona em termos de discurso político na Bahia.”
Depois de neutralizar a oposição, Jaques Wagner ficou conhecido como um sujeito bom de voto e de negociação. Ganhou mais prestígio dentro do partido e chegou a ser cotado para suceder a Lula na Presidência. Alguns diziam até que ele lembrava a figura de Lula, por causa da barba e da voz rouca. O presidente, porém, descartou a escolha por avaliar que o amigo não tinha o perfil necessário. “Ele é ótimo”, comentou Lula com um aliado. “O único problema é que não gosta de trabalhar.” Wagner, por sua vez, sempre negou interesse na candidatura presidencial. “Eu até me refluí, fiquei indo pouco a Brasília”, ele disse em entrevista ao Roda Viva, em 2010. “O pessoal queria que eu ficasse dando entrevista para a imprensa. Eu dizia: não vou porque meu nome vai ser nacionalizado e eu sei da responsabilidade que eu tenho com a Bahia. Eu estava substituindo trinta anos de poder.”
No segundo mandato, Wagner trabalhou para fazer seu sucessor. Lula decidiu que o escolhido seria José Sérgio Gabrielli, secretário de Planejamento de Wagner e ex-presidente da Petrobras, mas Wagner tinha outros planos. Gabrielli procurou o radialista Mário Kertész para defender seu próprio nome. “O PT não é um partido carlista, em que o governador escolhe quem ele quer. Vai ter prévia eleitoral e eu vou disputar”, disse Gabrielli, segundo Kertész.
Não houve prévia. Jaques Wagner pediu para ser entrevistado na Rádio Metrópole numa segunda-feira e anunciou sua decisão ao vivo, sem combinar com ninguém. Lula ficou profundamente irritado. Kertész lembra de um almoço que teve com o amigo logo depois da decisão. Wagner atendeu a uma chamada de Lula no viva-voz. “Esse galego não tá me obedecendo”, disse Lula, conforme a lembrança do radialista. “Eu quero é José Sérgio Gabrielli”. Não adiantou. O candidato à sua sucessão seria Rui Costa, seu secretário da Casa Civil e parceiro de movimento sindical. Rui Costa tinha se mostrado um gestor firme e um negociador duro, totalmente alinhado ao governador. Não tinha o jogo de cintura de Wagner, mas fechava e cumpria os acordos de entregas para os prefeitos. “Ele precisava de alguém que pudesse lidar com a dureza da política baiana”, resume o cientista político Dantas Neto, da UFBA.
Apesar das credenciais, Rui Costa era um desconhecido do eleitorado baiano. Uma pesquisa feita no fim de 2013 mostrava que ele tinha 5% das intenções de voto. Em entrevista ao portal Bahia Notícias em dezembro daquele ano, ele minimizou a baixa popularidade: “Eu tenho um universo a conquistar.”
A campanha para eleger Rui Costa estava empacada. No início, a ordem era focar na imagem de gestor e na história do sujeito simples que nasceu na periferia de Salvador, filho de trabalhadores, e venceu na vida. Mas as pesquisas internas da campanha indicavam que ele poderia perder a eleição, mesmo com apoio da máquina. A rejeição era tal que, no centro de distribuição de material de campanha da capital, nenhum militante queria pegar as placas com o rosto de Rui Costa.
A equipe estava em desespero. Wagner, porém, aparentava tranquilidade e dizia que aquela eleição já era “fatura liquidada” – ele estava mais preocupado com a reeleição de Dilma Rousseff. A virada ocorreu quando a comunicação mudou de tom. A equipe baiana se inspirou na estratégia de campanha nacional de Dilma, que focava no número 13 para reforçar o voto como continuidade do governo Lula. Na Bahia, fizeram um jingle que repetia insistentemente o número. “Isso é muito forte aqui, quem está na capital não enxerga”, contou um integrante da campanha na época, que pediu para não ter o nome divulgado. No tracking dos petistas, Rui ultrapassou o oponente na metade da campanha. Venceu no primeiro turno, com 54% dos votos, pouco menos do que Wagner recebera em 2010.
Existe uma piada entre os políticos da Bahia segundo a qual só é possível ver a cor dos dentes de Rui Costa durante campanhas eleitorais. Certa vez, um prefeito da região do Vale do Jiquiriçá saiu contrariado de uma reunião com Costa. “Ele deu mais do que eu pedi, mas não é carinhoso. Jaques Wagner me enrolava, mas pelo menos eu saía feliz”, reclamou. Durante seu mandato, Costa continuou investindo em uma estratégia de comunicação pessoal para compensar a falta de carisma. Consistia em saber, de forma matemática, o que as pessoas queriam ouvir.
A Bahia tem 27 territórios de identidade diferentes. Em cada região, a cultura, os hábitos e as formas de comunicação são diferentes. Cada uma conta com comunicadores ou influenciadores próprios. Em algumas cidades, só se ouve rádio. Em outras, o veículo mais importante é a tevê. A equipe de Rui Costa mapeou os interesses e costumes específicos para decidir como o governador deveria se posicionar em diferentes entrevistas, a depender da região. Os temas com maior probabilidade de adesão eram incorporados na propaganda do governo e na campanha eleitoral. Em algumas áreas, por exemplo, era mais indicado falar de turismo ou construção de estradas. Em outras, o apoio à cultura. A equipe também monitorava quais atributos eram mais valorizados pelos eleitores de determinada região – firmeza, gestão, simpatia – para definir o formato da comunicação.
Com essa radiografia em mãos, Rui Costa se reelegeu com 75,5% dos votos em 2018 – a maior vitória política da história da Bahia – mesmo com o PT em frangalhos na maior parte do Brasil. Por causa do resultado, o governador conquistou a simpatia de Lula, preso em abril daquele ano. Mas a estratégia de comunicação personalista acabou tornando a figura do governador maior que a do partido no estado. Isso fez com que algumas alas do PT baiano, mais ligadas a Jaques Wagner, rejeitassem a figura de Rui Costa. Até hoje ele tem dificuldade dentro do partido e não conseguiu se consolidar como uma liderança interna. A força dele, avaliam os aliados, vem da política tradicional que ele pratica – e consegue reverter em votos.
O mandato de Rui Costa foi marcado pelos 23 bilhões de reais em investimentos públicos – o segundo maior volume do país, atrás apenas de São Paulo. Segundo dados oficiais, Costa recuperou mais de 8 mil km de rodovias. Construiu 23 policlínicas regionais espalhadas pelo estado e ajustou as contas da Bahia com parcerias público-privadas. No início, Costa entregou obras vinculadas ao Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC). Depois, sem apoio e recursos dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, como havia nos mandatos do PT, os investimentos foram bancados pelo próprio estado. Costa deixou o governo com 2,2 mil leitos de UTI (eram trezentos em 2006). Foi em seu mandato, com expansão financeira e privatizações, que o governo vendeu a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), junto com a operação do Credicesta, para Augusto Lima, o sócio de Daniel Vorcaro.
Nesse período, Jaques Wagner ocupou o cargo de ministro da Defesa e de secretário da Casa Civil do governo Dilma Rousseff. Depois do impeachment, ele voltou à Bahia para ser secretário de Desenvolvimento Econômico de Rui Costa em 2017 e terminou o ano de 2018 investigado pela Polícia Federal. (As provas que apontavam superfaturamento em obras no estado foram anuladas posteriormente.)
Alguns ainda alimentavam a esperança de que Wagner fosse o candidato do PT à Presidência da República. Mas com apenas 2% de intenção de votos e a PF no cangote, ele preferiu disputar o Senado em 2018, na chapa vitoriosa de Rui Costa, e garantir foro privilegiado. Venceu a disputa e ajudou na eleição do então aliado e hoje bolsonarista Angelo Coronel (PSD à época, hoje no Republicanos) para a segunda vaga.
No final de 2019, em entrevista à revista Veja, o próprio Rui Costa colocou-se à disposição para ser o candidato do PT à Presidência em 2022. (Na época Lula ainda estava preso e Fernando Haddad havia perdido a eleição meses antes.) A declaração de Costa gerou indignação no partido. Ele, que já não era benquisto no diretório baiano, ganhou também a inimizade da cúpula nacional. Para Kertész, porém, a implicância é de outra natureza. “É porque o PT da Bahia cresceu. Elege governador, elege senador”, avalia ele, evocando o racha entre os representantes do estado e os de São Paulo. “Todos se tratam muito bem, mas não falta casca de banana.”
Para a eleição de 2022, o presidente Lula montou uma chapa poderosa na Bahia. Para fortalecer seu retorno às urnas depois do governo Bolsonaro, ele queria Jaques Wagner concorrendo ao governo do estado, e Rui Costa, ao Senado. Costa gostou da ideia. Wagner, não. Aos amigos, Wagner disse que queria renovar a política. Aos aliados, disse que tinha problemas familiares para resolver. Sugeriu que o candidato a governador fosse Otto Alencar, que também declinou da proposta em uma reunião no Instituto Lula, em São Paulo, em fevereiro daquele ano, porque estava com problemas de saúde e preferia se reeleger senador.
Fora isso, Jaques Wagner vetou a candidatura de Rui Costa ao Senado. Além de ela atrapalhar a negociação com Otto Alencar, havia outro problema: se Costa concorresse, precisaria abandonar o cargo antes da eleição e deixá-lo nas mãos do vice, João Leão (Progressistas), que já estava montando uma equipe paralela. Essa movimentação acendeu um alerta no PT baiano. Num domingo à noite, Wagner ligou novamente para o jornalista Mário Kertész, pedindo para ser entrevistado no dia seguinte. Anunciou, ao vivo, que Rui Costa cumpriria o mandato até o final e que iria escolher um nome para o governo entre três opções. Uma delas estava com problemas na Justiça Eleitoral e poderia perder o mandato posteriormente. A outra não tinha viabilidade para crescer nas pesquisas. Dias depois, novamente na Rádio Metrópole, Wagner anunciou o candidato: Jerônimo Rodrigues, secretário de Educação de Rui Costa.
Engenheiro agrônomo e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, Rodrigues nunca havia disputado uma eleição na vida e aparecia com 4% das intenções de voto nas pesquisas iniciais. O que explica a escolha? “Falta de opção e desespero”, nas palavras de um aliado petista que acompanhou a montagem da chapa. “Mas qualquer um ali ganharia. Era só apertar 13.” O nome agradou ao PT. Apresentado como um legítimo representante do povo, Rodrigues é filho de um vaqueiro e uma costureira. Já tinha ocupado o cargo de secretário executivo adjunto do Ministério do Desenvolvimento Agrário durante o governo Dilma, por indicação de Wagner.
Rui Costa trabalhou pela reeleição de Rodrigues, porque foi quem mais se envolveu em entregas e nos convênios com prefeituras do interior. Tanto que a chapa concorrente entrou com uma ação no Tribunal Regional Eleitoral porque o então governador aparecia em mais de 60% do tempo de propaganda eleitoral de Rodrigues (o máximo permitido pela legislação para aparição de apoiadores é 25%).
Como prêmio de consolação por ter sido preterido no Senado, Costa foi alçado ao cargo de ministro da Casa Civil de Lula, onde estreitou relações e se tornou um quadro de confiança do presidente. Ele comanda a pasta com a mesma rigidez que demonstrou no governo baiano, focando mais na entrega de resultados que na articulação política. “De vez em quando eu falo para o Rui: você é minha Dilma de calças”, disse Lula, em 2023, numa entrevista à TV 247. Costa gosta de ostentar o posto e reforçar que é o “filtro” de Lula. Os documentos que o presidente assina e sua agenda passam por ele.
No auge do seu poder, Rui Costa indicou a própria mulher, Aline Peixoto, enfermeira de formação, para uma vaga de conselheira no Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia, em março de 2023. A notícia foi uma bomba no PT local. À boca miúda, seus rivais comentavam que nem Antônio Carlos Magalhães tivera essa ousadia.
Os votos que Rui Costa tinha conseguido em 2018, porém, não migraram automaticamente para Jerônimo Rodrigues em 2022. Apesar de dividir o palanque com Lula, ele também não conseguiu amealhar toda a votação do presidente, escolhido por 69,7% do eleitorado no primeiro turno. Jerônimo Rodrigues teve 49,45% dos votos válidos e a eleição foi decidida no segundo turno. Alguns atribuíram o resultado às divergências internas na campanha causadas pela briga entre o grupo de Rui Costa e o de Jaques Wagner. Os dois dividiam a articulação política com os prefeitos e discordaram de alguns arranjos. Um deles foi a indicação de Geraldo Júnior para vice-governador depois que Wagner reatou laços com o MDB. Começou ali a disputa por espaço e influência nos rumos do mandato seguinte.
Depois que Jerônimo Rodrigues venceu o segundo turno com 52,7% dos votos e se tornou o primeiro governador autodeclarado indígena do país, seu governo foi partilhado entre os dois maiores líderes baianos, que indicaram secretários e cargos. Uma das indicações de Jaques Wagner, por exemplo, foi o enteado Eduardo Sodré à pasta do Meio Ambiente. Sodré é investigado por suspeita de ser articulador do Banco Master na Bahia e de receber repasses financeiros por meio de uma empresa de fachada.
Conversas de Daniel Vorcaro com Augusto Lima obtidas pela piauí também mostram que o dono do Master tinha acesso ao governo de Jerônimo Rodrigues. Numa delas, em dezembro de 2023, Vorcaro reclamou que a Polícia Militar estava “enchendo de novo”, nas palavras dele, em razão de reclamações sobre sua festa de Réveillon em Porto Seguro, no litoral baiano. Em 10 minutos, Augusto colocou Vorcaro em contato com o secretário em exercício da Casa Civil de Jerônimo Rodrigues, Carlos Mello, para resolver o problema com a polícia.
Além da força da máquina, das alianças municipais e do retorno de Lula, o PT contou com uma série de erros cometidos pelo adversário ACM Neto em 2022. Para começar, ele usou o jingle “ACM, meu amor”, o mesmo utilizado na década de 1990 nas campanhas do avô – uma figura que ainda hoje desperta, entre os baianos, sentimentos que vão do amor ao ódio. Na visão dele, porém, o sobrenome era uma espécie de grife. Durante as peças do horário eleitoral, ACM Neto aparecia sem aliados fortes e focou na autoexaltação e na vitória como concretização de um projeto político-familiar. “Confesso a vocês que eu sempre, a minha vida inteira, sonhei com esse dia”, ele disse no lançamento de sua candidatura, em agosto de 2022. “Eu estou aqui porque eu me preparei a vida toda para esse momento.” Para completar, ACM Neto se declarou pardo e virou chacota nacional. (Em 2026, numa formidável pirueta racial, ele voltou a se declarar branco.)
Ainda assim, o Datafolha do último dia antes do primeiro turno de 2022 apontava que ACM Neto venceria com 51% dos votos no primeiro turno. Ele teve 40,8% e, no segundo turno, não passou de 47,2%. Os petistas, mais uma vez, venceram, mas enfrentaram ali a eleição mais acirrada do que haviam previsto.
Em 2026, ACM Neto recalculou a rota. Contratou o marqueteiro João Santana, o mesmo que trabalhou nas campanhas de Lula em 2006 e Dilma Rousseff em 2010 e 2014. Hoje inimigo dos petistas, Santana despachou no QG de ACM Neto durante toda a campanha.
O foco passou a ser o ataque ao primeiro mandato de Jerônimo sem nacionalizar a disputa, já que não havia possibilidade de confrontar Lula no estado. ACM Neto dizia apoiar Ronaldo Caiado, mas que o eleitor era livre para escolher. Já no começo da campanha surgiram materiais apócrifos, influenciadores e até prefeitos defendendo o voto Lula-ACM Neto. Na tradicional e movimentada Avenida Sete de Setembro, em Salvador, era comum ver ambulantes vendendo camisetas divididas com estampas de Lula e ACM Neto ou adesivos com a estrela do PT e outro com o número 44. Boa parte do tempo de campanha do PT foi destinado a apontar ACM Neto como anti-Lula. (Ele acabou declarando apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno.)
“Quando eu mostro a segurança pública de Goiás, é para humilhar Jerônimo. Quando eu mostro a situação da saúde pública de São Paulo, é para humilhar Jerônimo”, disse ACM Neto em junho deste ano. Do lado petista, a declaração foi usada como exemplo de arrogância do adversário, explorada em vídeos nas redes sociais como perseguição ao governador. ACM Neto se desculpou pela declaração. A fragilidade da personalidade política de Rodrigues e sua dificuldade oratória, em vez de desvantagens, tornaram-se vantagens: sinais de um representante autêntico do povo em seu embate contra a elite política e econômica.
A campanha de ACM Neto apostava que a vontade de mudança política que chegara aos grandes centros da Bahia se expandiria em direção ao interior. Ele até conseguiu ampliar sua base de apoio, mas o PT intensificou a presença nas pequenas cidades na reta final quando, nas palavras de um integrante da campanha, “entra em cena a emoção e a força do partido”. Em vídeos e entrevistas, os petistas reforçaram o voto casado no “time de Lula”, que facilitava a votação. Começava assim um dos jingles da campanha: “A Bahia mudou, em cada canto está tão diferente. Lula deu a trajetória, junto a gente fez história, junto a gente segue em frente. Wagner abriu caminho, Rui chegou e acelerou. Foi obra para todo lado, capital e interior.”
Quatro dias antes da eleição, foi publicada a notícia de que, segundo a PF, ACM Neto é líder de uma organização criminosa que desviou recursos públicos por meio de contratos superfaturados. Ele nega.
ACM Neto atribuiu a derrota em primeiro turno a “mentiras, ataques e falsidades de uma eleição”. “Foi resultado do uso da máquina”, disse ele em entrevista coletiva. Para o cientista político Dantas Neto, da UFBA, derrotar o esquema político tão consolidado exige mais habilidade política. “Jaques Wagner de vinte anos atrás teve uma desenvoltura que eu não vejo em ACM Neto.”
Na noite da eleição, os petistas mal tiveram tempo de comemorar a vitória da chapa na Bahia. Na segunda-feira, Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues já estavam em reunião com o presidente Lula e outros eleitos do Nordeste para discutir a campanha para o segundo turno na região. Falou-se da necessidade de Lula dar mais entrevistas às rádios do Nordeste, focar no ataque ao adversário e mudar seu posicionamento nas redes sociais. A ordem era não esmorecer diante da primeira derrota. Era preciso, segundo eles, apostar na emoção para mobilizar o eleitor sem cair na armadilha de apontar para o passado.
Entre os políticos reunidos, a principal insatisfação – nunca compartilhada diretamente com Lula – recaiu sobre a atuação da primeira-dama, Janja, cuja influência se estendeu às decisões da campanha. Em Brasília, a conversa terminou com um acordo: dali em diante, as urnas do Nordeste deveriam pesar mais nas decisões. Naquela mesma semana, Rui Costa entrou para a coordenação de agenda do presidente. Camilo Santana, do Ceará, foi escolhido para a coordenação política. Rafael Fonteles, governador reeleito no Piauí, ficou com a comunicação.
Depois de uma série de reuniões, Jaques Wagner saiu na frente e fez um chamamento aos prefeitos. “A gente sabe como a gente sofreu nos quatro anos do governo do pai do Flávio. Vai ser perseguição à Bahia. O pai dele é a demonstração disso. Eles tiraram dinheiro do metrô e da estrada de Ilhéus-Itabuna.” Também falou para aqueles que apoiaram ACM Neto. “O palanque político acabou, agora é hora de pensar na Bahia.” Uma semana depois, no dia 13 de outubro, o governo federal aprovou um auxílio financeiro de 3 bilhões de reais para a construção da ponte que liga Salvador à Ilha de Itaparica – promessa que remonta ao primeiro governo de Jaques Wagner nos anos 2000.
No fim da manhã de 25 de outubro, com a votação do segundo turno em curso, o senador eleito Rui Costa denunciou a redução da frota de ônibus em Salvador. Ele esteve em pelo menos três garagens de ônibus na capital baiana, filmou os veículos parados e acusou a prefeitura, comandada por Bruno Reis (União Brasil), aliado de ACM Neto, de cometer crime eleitoral. Costa deu entrevistas pedindo a prisão imediata do prefeito e do secretário de Mobilidade, Pablo Souza. Às 13h15, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia atendeu à solicitação da campanha de Lula e determinou o restabelecimento da frota e a prisão do secretário, que estava em Paris naquele dia. O PT também identificou redução no transporte coletivo em Feira de Santana e Lauro de Freitas – ambas comandadas por prefeitos do União Brasil.
Mesmo com os problemas de deslocamento, depois da intensa mobilização que tomou ruas e redes sociais, a Bahia foi o estado que apresentou a maior queda de abstenção do primeiro para o segundo turno: caiu de 19,9% para 16,7%. A campanha esperava crescer 3 pontos percentuais no segundo turno. Cresceu 5. Lula obteve 71,3% dos votos no estado.
Há preocupação sobre o futuro do PT baiano sem a figura de Lula, já que ele disputou sua última eleição neste ano. Para alguns, o partido não conseguiu se descolar da imagem do presidente e vai precisar fazer novos arranjos políticos para evitar o desgaste que começou a despontar nas disputas estaduais. “Eu acho que o PT vai ser um partido que ainda terá muitos votos [na Bahia], mas não vai ser o dominante”, avalia o radialista Mário Kertész. “Não vejo nenhuma liderança, fora essa turma que já está aí, que possa assumir isso.” “O PT está encerrando um ciclo”, me disse um aliado do partido que pediu para não ser identificado. “Talvez a Bahia ainda consiga resistir por mais uma temporada se aparecer um candidato forte, com votação expressiva.”
Rui Costa já é o pré-candidato ao governo para a eleição de 2030.