teatro

UMA NOITE EM CINCO ATOS (FRAGMENTO)

Dois poetas atravessam a cidade escura
Imagem Uma noite em cinco atos (fragmento)

7 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Do lado de fora da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, no centro de São Paulo, o poeta Zé Paulo Paes (1926-1998), manco de uma perna, caminha ao lado de Álvares de Azevedo (1831-1852), um rapaz branquelo, de uns 20 anos, que traz um lenço preto no pescoço e capa sobre os ombros. É noite. Pela primeira vez, Álvares de Azevedo se vê diante da “sinfonia do século” de que lhe falou Zé Paulo – a cidade imensa, ruidosa, inclassificável. As empenas dos edifícios se projetam para o alto, fantasmagóricas.

Álvares Que cidade é essa? Podíamos estar no México, na Dinamarca… Podíamos estar em qualquer parte.

Zé Paulo Mas não estamos. Estamos no centro de São Paulo, no antigo largo do Capim. Ou largo do Curso Jurídico. Você o conheceu bem. E o que você vê lá embaixo não é mais o ribeirão do Anhangabaú, nem do Chá, é uma avenida com ônibus, túneis e carros.

Álvares (espantado com a altura dos edifícios Mas por que essas formas?

Zé Paulo É a cidade que o século XX construiu.

Álvares E onde estão os cavalos?

Zé Paulo Os cavalos?… Foram tragados pelo homem.

Álvares Não sei se me agradaria viver aqui…

Zé Paulo Não tem escolha.

Álvares Para você talvez não, mas eu posso me retirar a qualquer momento…

Zé Paulo Você acha?

Álvares Não?

Zé Paulo Não sei. Por experiência própria, digo que um poeta não tem muitas escolhas na vida.

Álvares Agora está falando como poeta.

Zé Paulo Então talvez eu esteja equivocado.

Álvares Não há graça nenhuma nisso. (Pausa. Álvares lança os olhos ao redor.) E o que tem aí dentro?

Zé Paulo Firmas, cofres, comércios, contrabandos, esconderijos… e escritórios de advocacia.

Álvares (tomado por súbito interesse E como é passar o dia aí dentro?

Zé Paulo Triste.

Álvares E as noites?

Zé Paulo Podem ter a sua graça.
Zé Paulo dá um passo à frente, dirige-se ao público e passa a recitar o início de “Noite na repartição”, de Drummond:
Papel,

respiro-te na noite de meu quarto,

no sabão passas a meu corpo, na água te bebo.

Até quando, sim, até quando

te provarei por única ambrosia?

Eu te amo e tu me destróis,

abraço-te e me rasgas,

beijo-te, amo-te, detesto-te, preciso de ti, papel, papel, papel!

Álvares (caindo em si Então era nisso que eu me transformaria se não fosse poeta? Um bacharel, um escrivão, um notário, um tabelião… Ainda bem que a Poesia entrega à Morte os melhores filhos… (pára, hesita, tenta se lembrar de alguns versos) Eu deixo a vida… como deixa o… deserto… (olha em volta; repete) Eu deixo a vida como deixa… o pó… Não, o poente… o poento… pesadelo… (esquece, se angustia)… Não lembro… Não lembro do poema…

Zé Paulo Calma, Álvares…

Álvares Eu não lembro!

Zé Paulo Calma!

Álvares (gritando Mas eu não lembro!

Zé Paulo (também gritando Calma! O poema se chama “Lembrança de morrer”… Está em qualquer antologia escolar. É só ler e decorar outra vez.

Álvares Você disse lembrança de morrer? Lembrança de morrer? Mas então estou morto mesmo! Droga! A morte me tirou a memória… (pausa) Quer saber de uma coisa?

Zé Paulo O quê?

Álvares A morte é uma merda! Com ela, não me tornei nem uma coisa nem outra. Nem poeta nem bacharel em direito…

Zé Paulo Tudo bem. Você escapou dessa.

Álvares (baixinho Pra melhor?

Zé Paulo (impaciente, agarra Álvares pelo braço e passa a conduzi-lo Sim, pra melhor, pra melhor…

Álvares Aonde vamos?

Zé Paulo Sair por aí. Você precisa mudar de ares, respirar um pouco, se acostumar com a cidade para…

Álvares Para?

Zé Paulo Nada. Só se distrair um pouco…

Álvares Fausto e Mefistófeles também se distraíram como nós…

Zé Paulo Eu, pelo menos, não cheguei a vender a minha alma.

Álvares É que já não a compram como antigamente.

Zé Paulo Ah, e como compram, Álvares! Você não imagina…

Álvares Você que diz que também é poeta, certamente é bacharel…

Zé Paulo Não. Posso ter tido muitos defeitos, mas bacharel em direito nunca fui… Fiz um curso técnico de química. Depois passei o resto da vida fabricando pequenos venenos.

Álvares Como? Então é possível ser poeta sem ser bacharel em leis?

Zé Paulo Nesse ponto, o país progrediu muito.

Álvares Não consigo acreditar. Recita-me um de teus venenos.

Zé Paulo Não sei recitar.

Álvares Como!?

Zé Paulo Não sei recitar. Pra mim o poema é como medicina, só uso quando necessário.

Álvares E você não está doente agora?

Zé Paulo Não. A sua companhia me faz bem. Até de minha perna esqueci… (pausa) Posso lhe perguntar uma coisa: como é do lado de lá?

Álvares Do lado de lá?

Zé Paulo É.

Álvares (olhando em volta e afetando conhecimento Não muito diferente.

Zé Paulo Não muito diferente?

Álvares Não.

Pausa.

Zé Paulo Mas o que você fez esses anos todos?

Álvares Andei pelos corredores, fumei um tanto, cuspi pra cima… e estudei um pouco.

Zé Paulo Estudou? Que tipo de coisa?

Álvares (hesitante Não sei, acho que… botânica! Quando fecho os olhos só vejo bulbos e raízes.

Zé Paulo Bulbos e raízes?… Faz sentido. E havia bichos?

Álvares Baratas, camundongos… No começo muitos, depois não mais…

Zé Paulo E era tudo escuro o tempo todo?

Álvares Não, havia o dia e a noite… Havia muitas outras coisas. Não consigo me lembrar dos detalhes…

Zé Paulo Do conhecimento só fica aquilo que se usa.

Álvares Como?

Zé Paulo Só fica aquilo que se usa.

Álvares Não entendo… Isso soa como desculpa esfarrapada.

Zé Paulo Pode ser um farrapo, mas não é uma desculpa.

Álvares Não lembro sequer dos meus versos…

Zé Paulo Tanto melhor.

Álvares Por quê?

Zé Paulo Porque quando voltar a se lembrar, eles lhe parecerão novos.

Álvares Não tem graça.

Zé Paulo Desculpe, Álvares, não tenho muita paciência para explicar as coisas. É outro dos vícios que adquiri com a poesia moderna… Olhe que coincidência. Viemos dar justamente aqui… Lembra-se?

Álvares O largo do Piques!

Zé Paulo O largo da Memória!
Ambos circulam a pirâmide de granito do Piques. Cada um murmura, conversando ao mesmo tempo consigo e com o outro.


Álvares Deste eu me lembro.

Zé Paulo A pedra não tem culpa do que lhe fazem.

Álvares Não traz nenhuma inscrição. O chafariz não está mais…

Zé Paulo Tivemos muitos problemas com a água…

Álvares Ou mudaram-no de lugar…

Zé Paulo Por aqui as coisas sempre mudam dos lugares.

Álvares (olhando em volta Pelo visto para pior…

Zé Paulo O humor, quando não vem cedo na vida, vem tarde.

Álvares Uma frase e tanto.

Zé Paulo Levei anos para pô-la em prática. Quando eu era moço, achava que a poesia era toda séria.

Álvares Ah, só na fachada…

Zé Paulo Você está falando sério?

Álvares Nem um pouco.

Silêncio.

Álvares Você vem muito por aqui?

Zé Paulo Não, faz tempo que não venho ao centro. A perna…

Álvares Pena…

Zé Paulo Nem tanto. Eu tenho outros divertimentos.

Álvares Secretos?

Zé Paulo E públicos.

Álvares Como, por exemplo…

Zé Paulo Traduzir.

Álvares Traduzir?

Zé Paulo É. Traduzo o que é secreto no público e a ação pública na privada.

Álvares Bobagem. Você é uma vítima dos trocadilhos… Já que gosta tanto de jogar, me diga: se este é o centro, o que há na borda?

Zé Paulo Outros bairros, outras barras, muitas borras.

Álvares Lá vem você de novo.

Zé Paulo Não, Álvares, aqui você é que é o novo e eu sou o velho… Mas eu gostaria de lhe mostrar alguém mais velho do que eu, alguém que mora na Barra Funda… (Tomando Álvares pelo braço) Vamos! O metrô fecha à meia-noite.

Os dois partem ao encontro de Mário de Andrade.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Escritor e artista plástico, é autor do livro de poemas Em Trânsito (Companhia das Letras) e da novela Lívia e o Cemitério Africano (Editora 34), entre outros