anais da política

A CONEXÃO MINEIRA

Como andam o processo e os personagens do valerioduto que beneficiou o tucano Eduardo Azeredo em 1998 e serviu de laboratório para o mensalão do PT
Imagem A conexão mineira

31 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

“Por que esse assunto agora? Por que querer falar dessa história às vésperas do julgamento?” Estávamos na Câmara Federal, em Brasília, e o deputado Eduardo Brandão de Azeredo, do Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, não escondia seu incômodo com a aproximação entre o escândalo do mensalão e a chamada “conexão mineira”. “É injusto querer misturar as duas coisas. Uma não tem nada a ver com a outra”, insistiu.

Quem juntou uma coisa à outra foi o procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, hoje aposentado. Autor da denúncia do mensalão do Partido dos Trabalhadores, ele acusou Azeredo de ter desviado verbas de estatais para financiar sua campanha à reeleição ao governo de Minas, em 1998, forjando uma engrenagem que seria reproduzida pelo PT cinco anos mais tarde. Para ele, a experiência mineira foi “a origem e o laboratório” do mensalão, e Azeredo teria sido “um dos principais mentores e o principal beneficiário do esquema”.

Em 89 páginas, a denúncia descreve como o mesmo operador (Marcos Valério de Souza), as mesmas empresas (suas agências de publicidade), o mesmo banco (Rural), o mesmo artifício (empréstimos fictícios) e até o mesmo marqueteiro (Duda Mendonça) agiram na campanha de Azeredo, na qual, segundo as investigações, também houve farta distribuição de dinheiro a parlamentares. Os autos ainda somam ingredientes que apimentam a história: documentos falsificados, papéis apócrifos, brigas, chantagens e coerção de testemunhas.

As diferenças entre um caso e outro são jurídicas. Os 38 réus do mensalão estão sendo julgados no Supremo, ainda que apenas três deles tenham mandato parlamentar e, portanto, direito a foro privilegiado. Na conexão mineira, só Azeredo e o seu então candidato a vice-governador, Clésio Andrade – hoje senador pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB –, respondem ao processo junto ao tribunal. O caso foi desmembrado e os outros treze acusados prestam contas à Justiça Estadual de Belo Horizonte.

Entre eles, Marcos Valério e seus sócios, dirigentes de estatais mineiras e integrantes daquilo que o procurador Antonio Fernando de Souza chamou de “a cúpula do estado de Minas Gerais”. A figura de proa é Walfrido dos Mares Guia. Ministro de Relações Institucionais de Luiz Inácio Lula da Silva, Mares Guia coordenava a campanha eleitoral dos tucanos em Minas quando se montou a “conexão”.

Às nove e meia da manhã, Eduardo Azeredo era um dos poucos parlamentares presentes na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara, da qual é presidente. Apesar de a reunião ter sido marcada para as nove, havia menos de dez pessoas no local.

Aos 63 anos, Azeredo construiu uma carreira tépida como seu temperamento. Filho de Renato Azeredo, um político de renome no âmbito das Alterosas, ele entrou tarde na vida pública. Fez carreira como executivo de empresas de informática, como a IBM, até assumir a Prefeitura de Belo Horizonte, em 1990, sem ter recebido um só voto: era vice-prefeito e o titular, Pimenta da Veiga, deixara o cargo para disputar o Palácio da Liberdade.

Em 1994, Azeredo derrotou o favorito Hélio Costa e foi eleito governador, na onda do Plano Real. Sua gestão foi marcada pela privatização maciça de estatais mineiras, greves de professores e da polícia. Foi derrotado ao tentar a reeleição em 1998. Candidato ao Senado em 2002,  teve a maior votação para o cargo da história de Minas. Abriu mão da reeleição para ceder a vaga ao ex-governador Aécio Neves, tornando-se deputado em 2010.

Azeredo tem cabelos brancos e ralos – com alguns fios sempre arrepiados – e barba bem aparada. Fala baixo, sempre de maneira respeitosa, quase tímida, como se o interlocutor estivesse fazendo o favor de escutá-lo. Seus pares de partido e Parlamento o definem como “ponderado”, “controlado”, “sério” e “correto”.

“Não houve mensalão em Minas Gerais”, disse Azeredo. “É absurdo comparar o que houve com o PT – que pagou deputados em troca de apoio político, numa ação pós-campanha – com o que ocorreu durante minha campanha”, afirmou. “Ali, foi um procedimento de prestação de contas da coligação que me apoiou. Foi uma prestação de contas, como outras que tiveram problemas”, disse.

Foi com a quebra dos sigilos fiscais e bancários das agências de publicidade de Marcos Valério – durante a investigação do mensalão do PT na Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios, em 2005 – que a conexão mineira veio à tona. Verificou-se uma intensa movimentação financeira entre as contas da campanha e as agências de publicidade, além de 57 ligações telefônicas entre os números de Azeredo e Valério.

Desde então, o ex-governador passou a usar a mesma tese de defesa dos envolvidos no mensalão: se delito houve, foi unicamente o de ter deixado de declarar parte dos recursos arrecadados. Ou seja, caixa dois, o que configuraria crime eleitoral. Como o fato ocorreu há quase catorze anos, o crime já estaria prescrito.

“A imprensa, você me desculpe, tem culpa no exagero que virou tudo isso”, disse Azeredo, sempre polido. “Como eu era presidente do partido, achavam que noticiar esse caso seria uma maneira de compensar, de parecer mais neutro: acusam o PT, mas também o PSDB.”

Sentado na cabeceira de uma mesa de reuniões deserta, ele mantinha a cabeça baixa, olhando exclusivamente para os dedos das duas mãos, aproximando-os e afastando-os, como se levassem pequenas descargas elétricas. “Eu acho que na denúncia contra o PT também houve exageros”, prosseguiu, e citou o caso do deputado João Magno, denunciado por lavagem de dinheiro no mensalão por receber 426 mil reais de Marcos Valério. “Eu assino embaixo da moral dele. Está óbvio que ele recebeu ajuda para pagar dívidas de campanha”, falou.

Foi quando a Câmara rejeitou a cassação do petista mineiro João Magno que sua colega de partido Angela Guadagnin colou os dois braços junto ao corpo e começou a se balançar de um lado para o outro. A famosa “dança da pizza” lhe custou a reeleição. “Não querendo defender o Lula, mas ele também não é responsável por tudo que aconteceu na sua campanha”, completou Azeredo. “Um candidato ao Executivo não tem condição de prestar atenção em cada passo dado”, disse.

A SMP&B era a maior agência de publicidade de Minas Gerais em 1996. Tinha contratos com o governo estadual e com estatais gigantes, como a Usiminas, mas amargava uma dívida de 12 milhões de reais em caixa. Nos meios políticos e empresariais de Belo Horizonte corriam comentários de que o descompasso se devia, de um lado, à má administração da empresa e, de outro, aos arroubos megalômanos de seus donos, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach.

Naquele ano, à beira de declarar falência, Paz foi procurado em seu escritório por um desconhecido. Era um jovem articulado, de jeito subserviente, mas dono de uma capacidade de persuasão invejável. O sujeito disse ter a solução para os problemas financeiros da empresa. Ele se chamava Marcos Valério de Souza.

Conforme os proprietários da SMP&B disseram em juízo, Valério não era nem nunca havia sido do ramo da propaganda. Tinha como antecedentes uma ascensão meteórica no Banco do Estado de Minas Gerais, o Bemge, então estadual, e um percurso nebuloso no mercado financeiro. Em determinado momento, disse-me um ex-amigo dele, Marcos Valério manteve uma sala própria no prédio da Assembleia Legislativa, em Belo Horizonte, sem que jamais alguém soubesse o que ele fazia ali.

No livro O Operador: Como (e a Mando de Quem) Marcos Valério Irrigou os Cofres do PSDB e do PT, o jornalista Lucas Figueiredo, também ele mineiro, revelou facetas intrigantes da personalidade de Valério: de como inventou por anos a fio, até para sua mulher, Renilda, que era funcionário do Banco Central; de como preenchia cadastros dizendo que morava em bairros de ricaços, e não no seu, de classe média; de como era obcecado em obter um diploma universitário, o que nunca conseguiu. Um sujeito munido de uma disciplina espartana, que sabia ouvir, convencer, obedecer e se calar em nome do sonho de subir na vida.

O ex-deputado Roberto Jefferson, delator do mensalão e também réu no processo, o descreveu assim: “Um carequinha falante, que fala de dinheiro como se fosse uma coisa que caísse do céu.” O plano dele para salvar a SMP&B era ousado e meticuloso, mas os publicitários mineiros pareciam incrédulos. Ficaram de se falar dali a alguns dias.

Enquanto esperava, Marcos Valério agiu. À Justiça, ele disse ter conhecido o então presidente da Confederação Nacional do Transporte, Clésio Andrade, quando ambos faziam cooper na lagoa da Pampulha. Abordou o empresário, apresentou-se como representante dos donos da SMP&B e revelou ter uma proposta irrecusável: Andrade entraria como sócio da massa falida da empresa, que se recuperaria em breve. Seria como se um desconhecido de bermuda e tênis parasse Eike Batista no calçadão de Ipanema e o convencesse a lhe ceder milhões para recuperar a Pluna, a companhia aérea uruguaia que entrou recentemente em falência.

O inverossímil aconteceu. Clésio Andrade se tornou sócio majoritário da SMP&B e, pela intermediação do negócio, Marcos Valério, neófito no ramo, ficou com 10% das ações e o cargo de diretor-financeiro da empresa. Mas de outra empresa.

Apesar de ter os mesmos donos, o mesmo portfólio de clientes e a mesma proposta de trabalho, a agência se transmutara, tal qual uma fênix. A estratégia de Valério foi declarar a morte da SMP&B Publicidade – e assim enterrar suas dívidas – e fazer nascer das cinzas a SMP&B Comunicação, de ficha limpíssima. Estariam assim credenciados para prosseguir no mercado e principalmente se embrenhar em uma nova seara: a das campanhas políticas.

O processo de liquidação da antiga empresa foi controverso. Parte das dívidas foi quitada com a venda de uma fazenda de Clésio Andrade, oferecida como pagamento numa transação nebulosa junto ao Credireal – o banco que era administrado pelo governo do estado, ou seja, pela gestão de Eduardo Azeredo. Segundo investigação do Ministério Público, o valor das terras era cinco vezes menor do que o devido ao banco, que, estranhamente, nunca reclamou do prejuízo.

“A grande sacada de Marcos Valério foi vislumbrar o que ele podia fazer com uma agência de publicidade na mão, a dois anos de uma eleição”, disse-me, numa tarde recente, em seu gabinete em Belo Horizonte, o deputado estadual  do PMDB Sávio Souza Cruz, a voz mais forte da oposição no estado. “A agência já tinha credibilidade, já tinha contratos com o governo e com as empresas do estado, que eram suas maiores clientes. Bastou ele amarrar o pacote”, falou.

Durante décadas, empreiteiras e bancos fomentaram os caixas dois nas campanhas eleitorais por intermédio de correntistas fantasmas e mesmo de dinheiro vivo. Valendo-se de uma agência de publicidade, a fórmula de Marcos Valério parecia representar uma novidade insuspeita nas transações promíscuas entre a política e o poder privado.

“Como se medem gastos em publicidade durante uma campanha?”, perguntou Sávio Souza Cruz. “Como se audita o número de panfletos, santinhos e cartazes, a pintura de muros, a publicidade indireta ou sei lá mais o quê? É muito difícil. Então, era a maneira ideal para fazer o dinheiro transitar”, completou. Foi assim, com o nome limpo na praça e o caminho livre para novos contratos com o governo, que a SMP&B deslanchou. Em pouco tempo, passou a atuar em âmbito federal e também comprou sua principal concorrente em Minas – a DNA Publicidade.

Menos de dois anos depois, em 1998, Clésio Andrade – o mesmo que havia comprado uma empresa falida depois de ser abordado por um desconhecido durante o cooper – afastou-se do negócio para se lançar em uma empreitada correlata: concorrer como vice na chapa de Azeredo à reeleição para o governo de Minas. Com sua saída, Marcos Valério dobrou suas cotas nas agências de publicidade.

A SMP&B tinha já havia dez anos a conta do Enduro Internacional da Independência, uma prova de motociclismo por trilhas históricas de Minas Gerais. Cuidava de imprimir camisetas, fôlderes, cartazes e divulgar o evento na mídia. Faltando dois meses para as eleições, o secretário de Comunicação do governo Azeredo, Eduardo Guedes, enviou ofícios a três estatais – a mineradora Comig; a Copasa, de saneamento; e o banco Bemge. Ordenava que as empresas repassassem verbas diretamente à SMP&B para patrocinar a prova com o intuito de “incrementar o turismo” na região.

Era a primeira vez que recursos dessas empresas eram destinados a algo do gênero. Nos anos anteriores, sempre que houve apoio do governo, o dinheiro havia saído da Secretaria de Comunicação, jamais das estatais. Os valores também estavam fora do padrão de doações. Na ocasião, o Banco do Brasil, por exemplo, pôs 50 mil reais no evento. A Petrobras, 157 mil reais. Comig e Copasa contribuíram, cada uma, com 1,5 milhão de reais.

Um relatório da Polícia Federal chamou atenção para um detalhe intrigante: o Bemge foi privatizado apenas doze dias depois de ter doado 500 mil reais ao Enduro. Por que razão um banco que seria vendido em menos de duas semanas se interessaria em empenhar tanto dinheiro para explorar sua marca? Além disso, a transferência do patrocínio se deu praticamente às vésperas da competição, quando não haveria mais tempo hábil para usar a verba na organização do evento.

Depois que os ofícios de Guedes foram enviados, houve ainda um aditamento para incluir outras duas provas esportivas – o Iron Biker e o Mundial de Supercross – no guarda-chuva dos recursos. A acusação entendeu a pulverização dos destinatários como uma manobra para não despertar suspeitas sobre os altos valores em jogo.

O fato foi que 3,5 milhões de reais saíram dos cofres públicos para a agência de Marcos Valério. De acordo com o Ministério Público Federal, os diretores das estatais eram amigos pessoais de Azeredo ou participaram de sua campanha eleitoral – caso do presidente da Copasa, Ruy Lage, que se desincompatibilizou do cargo durante um período para trabalhar pela reeleição do governador.

As notas fiscais emitidas pelas estatais foram preenchidas em nome da empresa nova, a SMP&B Comunicação, ainda que a licitação para explorar o evento tivesse sido ganha pela empresa velha, que havia sido desativada. “Não houve um estudo, uma nova avaliação ou nova licitação. Era outra empresa, outra pessoa jurídica, mas simplesmente mandaram o dinheiro”, comentou o deputado Sávio Souza Cruz.

Na mesma época, o tesoureiro da campanha, Cláudio Mourão, com quem Azeredo mantinha uma relação de amizade havia mais de uma década, bateu às portas da agência de publicidade de Marcos Valério.

Oministro Joaquim Barbosa, do Supremo, relator dos processos do mensalão do PT e da conexão mineira, chamou Mourão de “Delúbio Soares do mensalão mineiro”. Assim como o tesoureiro petista, foi Mourão quem procurou os sócios da SMP&B para pedir empréstimos. Argumentou que as despesas da campanha estavam elevadas e era preciso levantar rapidamente uma grande soma para resolver a eleição no primeiro turno.

Nos autos do processo, Marcos Valério afirmou ter concordado em tomar empréstimos que totalizaram 11 milhões de reais para “ajudar na campanha de Azeredo” em nome da “grande amizade que tinha com seu vice, Clésio Andrade”. Um dos sócios, Ramon Hollerbach, deu outra explicação: “Havia o interesse da empresa de reforçar o relacionamento com o governo de Minas Gerais.” A instituição bancária escolhida foi, como no caso do mensalão do PT, o Banco Rural.

O primeiro empréstimo foi de 2 milhões de reais. Dias depois, houve outro, de 9 milhões de reais. Como garantia, a empresa de Valério apresentou notas promissórias e contratos com o governo de Minas Gerais – o que, segundo a denúncia, só seria possível com o aval das autoridades estaduais.

A poucos dias das eleições, as agências de Marcos Valério haviam recebido 3,5 milhões de reais pelo patrocínio do Enduro e emprestado 11 milhões de reais para a campanha tucana. Na mesma época, a Cemig, uma quarta estatal, pagou 1,6 milhão de reais por folhetos e uma revista produzidos pela agência de Valério a respeito do uso de energia.

Um economista que trabalhou na SMP&B à época dos fatos disse em juízo que os 3,5 milhões de reais das estatais mineiras jamais entraram na contabilidade da empresa. Um laudo do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal mostrou que o valor repassado pela agência de publicidade aos organizadores do Enduro foi de 98 900 reais.

Segundo o ministro Joaquim Barbosa, o modus operandi adotado por Marcos Valério ao se envolver com petistas e tucanos foi misturar dinheiro limpo com dinheiro sujo em suas contas. Funcionava assim: a SMP&B pegava um empréstimo junto ao Banco Rural e, ao mesmo tempo, era paga por serviços de publicidade que seriam feitos para estatais mineiras. O dinheiro entrava nas contas, misturava-se com a contabilidade normal da empresa e era usado para quitar os empréstimos.

No caso, os 11 milhões tomados do Rural foram renegociados e o banco aceitou apenas 2 milhões de reais como pagamento. Mais ou menos na mesma época, a SMP&B foi contratada pelo Rural para fazer um “plano estratégico de comunicação”, pelo preço de 8,5 milhões de reais. E o assunto foi esquecido.

Como ocupava a cadeira principal do Palácio da Liberdade, Azeredo era o dono do cofre e da caneta do estado. “Ele foi o mandatário e beneficiário direto dos crimes. Tudo ocorreu para favorecê-lo”, diz o procurador Antonio Fernando de Souza na denúncia.

Durante todo o processo, Marcos Valério afirmou nunca ter trabalhado na campanha do tucano. Mas os autos trazem vários  testemunhos confirmando sua presença frequente em reuniões no comitê eleitoral. A denúncia crava que a participação de sua empresa na campanha se deu “exclusivamente para cometer atos ilícitos”.

Apesar de favorito, Eduardo Azeredo perdeu a eleição no segundo turno para o ex-presidente Itamar Franco, então no PMDB, por pouco mais de 1 milhão de votos. As agências de Marcos Valério tiveram seus contratos cancelados, conforme lembrou Henrique Hargreaves, amigo antigo de Itamar, que assumiu a Secretaria de Governo. “Cancelamos tudo”, contou-me. “O Itamar achava que não precisava gastar dinheiro fazendo propaganda de coisa do governo, era um trem complicado.”

Ainda assim, a SMP&B se manteve em alta. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a agência ganhou as contas dos ministérios do Trabalho e dos Esportes, além da estatal Eletronorte. Também foi contratada por prefeituras do PSDB e pelo governo de Goiás, sob a batuta do tucano Marconi Perillo, ora implicado com o contraventor Carlos Cachoeira e a Construtora Delta. A empresa voltaria a ter as principais contas do governo de Minas, em 2002, com a eleição de Aécio Neves. No ano seguinte, Marcos Valério foi apresentado a Delúbio Soares pelo deputado do PT mineiro Virgílio Guimarães, de quem era amigo de infância. Esse encontro mudou definitivamente os rumos de sua até então profícua carreira como operador de campanhas eleitorais.

O tesoureiro Cláudio Mourão e o candidato Eduardo Azeredo haviam se desentendido por causa de dinheiro no final da campanha. Por suas contas, Mourão dizia ter uma dívida de 1,5 milhão de reais, contraída em nome de empresas de sua família, do que Azeredo duvidava. Durante quatro anos, Mourão se manteve calado sobre o assunto, mas em 2002, quando Azeredo se candidatou ao Senado, ele foi cobrar a fatura.

Montou-se então o que o procurador Antonio Fernando de Souza chamou de “operação abafa” para “acalmar Mourão” e evitar que o esquema articulado em 1998 se tornasse público. Um de seus artífices foi Walfrido dos Mares Guia, personagem central na engrenagem política mineira.

Aos 69 anos, ele é um dos mais ricos e bem-sucedidos empresários do estado. Engenheiro químico e ex-professor de matemática, fundou a rede de escolas e cursinhos Pitágoras, que tem mais de 400 mil alunos. Cria do ex-governador Hélio Garcia, Mares Guia era um quadro importante do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB de Roberto Jefferson, antes de se filiar ao Partido Socialista Brasileiro em 2009.

Mares Guia foi levado para o governo Lula na cota de Ciro Gomes, para dirigir o Ministério do Turismo e, mais tarde, o de Relações Institucionais, substituindo Tarso Genro. Tornou-se amigo pessoal do ex-presidente, que, durante o recente tratamento para curar o câncer na laringe, chegou a se hospedar em sua fazenda.  Os dois conversam com muita frequência.

Mares Guia era o vice-governador na gestão de Azeredo. Na campanha da reeleição, deixou o espaço para Clésio Andrade, então no PFL, e saiu candidato a deputado federal. Nesse troca-troca, foi figura essencial na organização da campanha do PSDB.

Nas investigações da conexão mineira, a PF apreendeu folhas manuscritas com fontes de arrecadação e custos da campanha de Azeredo – nomes de empreiteiras, siglas, abreviações, números e valores. A caligrafia foi periciada e o próprio Mares Guia depois reconheceu sua autoria. Num dos papéis, sem data, havia anotações de gastos: 500 mil reais para “JM” e 1 milhão para “HG”. À PF, ele disse que eram referências à então senadora Júnia Marise, do PDT, que tentava a reeleição, mas perdeu para José Alencar, e a Hélio Garcia, do PTB, também candidato ao Senado.

Além disso, foram anexadas ao processo duas correspondências assinadas por Zilmar Fernandes, sócia do marqueteiro Duda Mendonça, endereçadas ao “Prezado Sr. Walfrido” com a proposta de pagamento “oficial” e “real”.
O valor declarado seria de 700 mil reais, mas o marqueteiro recebeu 4,5 milhões de reais, depositados em uma conta de sua empresa. Todas essas provas são consideradas importantes pela acusação porque, além de documentar o caixa dois, atestam a participação central de Mares Guia na campanha, o que ele sempre negou.

À Justiça, Eduardo Azeredo contou  que procurou Mares Guia em 2002 para “ajudar a resolver o problema com o Mourão”. Em seu depoimento, o ex-tesoureiro disse ter sido contatado por Mares Guia e depois por Marcos Valério, que depositou 700 mil reais em sua conta bancária.

Na mesma época, uma empresa chamada Samos fez um empréstimo num banco e repassou 500 mil reais para Marcos Valério. O banco era o Rural; o dono da empresa, Mares Guia; e um dos avalistas, Eduardo Azeredo. “Foi um empréstimo para o meu amigo Azeredo, que não precisava nem ser pago. Não vejo problema”, argumentaria depois Mares Guia. Segundo a denúncia, mais uma vez se constatou uma triangulação de recursos desviados em proveito de Azeredo.

O tempo passou e as pendências com Mourão pareciam resolvidas. No começo de 2005, porém, Azeredo foi informado que seu ex-tesoureiro havia entrado com uma ação no Supremo Tribunal Federal: cobrava-lhe outros 3,5 milhões de reais, referentes ainda às dívidas da campanha de 1998.

Na ocasião, Mourão contratou um conhecido lobista mineiro chamado Nilton Monteiro. Ele fez chegar às mãos da Polícia Federal duas folhas de papel autenticadas em cartório, que ficaram conhecidas como “Lista Cláudio Mourão”. Ali se descreve em detalhes cada passo torto no financiamento da campanha de reeleição de Azeredo. Há nomes, valores de doações ilegais e recibos de pagamentos. São listadas ao todo 179 pessoas, entre políticos e prestadores de serviço da campanha, remuneradas pelas empresas de Marcos Valério. Assim como Delúbio Soares, Mourão indicava as pessoas que deveriam receber dinheiro.

Durante a campanha, dizia o papel, houve dezenas de saques, transferências bancárias e depósitos diretos, parte deles comprovados nas investigações policiais. Como no caso do mensalão, os beneficiários afirmaram ter recebido os recursos como ajuda financeira para quitar débitos de campanha ou como pagamento de consultorias para o partido.

Também foi a primeira vez que o nome de Aécio Neves – na ocasião, governador de Minas – apareceu na história. Ele é citado como destinatário de um repasse de 110 mil reais – o que sempre negou. (Aécio não respondeu ao pedido de entrevista para esta reportagem.)

De acordo com o rol coligido por Cláudio Mourão, a campanha de Azeredo arrecadou 100 milhões de reais,
90 milhões dos quais por meio de caixa dois. Mais da metade do total foi movimentada pelas agências de Marcos Valério, 24 milhões de reais couberam a Mares Guia, 4,5 milhões foram para o marqueteiro Duda Mendonça e outros 4,5 milhões, direto para a conta de Eduardo Azeredo. Nesse caso, foi anexado um recibo com a assinatura do governador para provar que o dinheiro lhe havia sido passado por Marcos Valério. Ao Tribunal Regional Eleitoral, a coligação PSDB-PFL declarou ter gasto tão somente 8,5 milhões de reais na campanha de 1998.

Azeredo sustenta nunca ter tido qualquer vínculo com Marcos Valério, a quem foi apresentado por seu vice, Clésio Andrade, e que “jamais” participou de qualquer reunião ou ato para discutir dinheiro. Considera a “Lista Cláudio Mourão” uma “peça espúria, fabricada por um conhecido lobista mineiro a mando de um deputado do PT”. O lobista é Nilton Monteiro. O deputado petista não foi nomeado.

À Justiça, Mourão deu outra versão. Disse que a lista foi uma montagem feita pelo lobista, a quem dera uma procuração registrada em cartório para que o representasse nas tratativas sobre os penduricalhos da campanha de 1998. No entanto, perícias da PF descartaram haver montagem e confirmaram suas rubricas no documento.

Como a de líderes do PT no processo do mensalão, a defesa de Azeredo jogou toda a culpa no tesoureiro, alegando que ele tinha total autonomia para manejar os fundos e operar a arrecadação da campanha. Advogados do tucano sustentam não haver um saque, um empréstimo que indique a participação ou anuência de Eduardo Azeredo sobre o que ocorria durante a campanha eleitoral. “O presidente da República responderia por erros ou crimes praticados pelos dirigentes da Petrobras ou do Banco do Brasil?”, escreveu na peça de defesa o advogado José Gerardo Grossi, fazendo alusão aos responsáveis pelas estatais mineiras.

Em uma noite fria no final de junho, José Serra, candidato à Prefeitura de São Paulo, chegou à festa dos 70 anos do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope, num dos salões da Sala São Paulo, no Centro da cidade. Acompanhado do prefeito Gilberto Kassab, era seguido por uma equipe de filmagem, assessores e seguranças. Atravessou o salão, cumprimentou os presentes, posou para fotos. Depois de vinte minutos, retirou-se para outro compromisso. A caminho do carro, comentou o que também já foi rotulado de “mensalão mineiro”: “O Azeredo é um cara íntegro. É daquele tipo que não faz nada errado, não olha nem para o lado quando passa uma mulher bonita.”

Segundo Serra, chamar de “mensalão” o que houve em Minas Gerais é um “falso carimbo”. “Não teve compra de voto, dinheiro para comprar apoio político, nada. O que houve foi uma coisa errada – isso teve, sim –, que não foi nem bolada por ele, foi bolada por gente em quem ele confiou, que estava com ele e que nem era do nosso partido”, disse. Antes de descer as escadas do estacionamento, Serra reclamou da temperatura baixa e da correria: “Numa campanha, você tem que delegar funções. E, às vezes, você erra. Por isso, eu tomo muito cuidado. Você tem que ficar no controle o tempo todo porque senão, já viu.”

Um dos testemunhos considerados chave pela acusação da conexão mineira é o de Vera Lúcia Mourão de Carvalho Veloso, prima de Cláudio Mourão, que trabalhou nas campanhas de Azeredo de 1994 e 1998. Em um depoimento de quatro horas à Polícia Federal, ela disse que foi “abandonada” pelo primo, pelos amigos, “por todos”, e afirmou ter sido “ameaçada caso abrisse a boca”. Segundo ela, Azeredo sabia de cada decisão financeira tomada em sua campanha. Semanalmente, ela contou, ele se reunia com Mourão, Marcos Valério, Mares Guia e Clésio Andrade para tratar do fluxo do dinheiro arrecadado. Os encontros eram testemunhados por ela e por outra ex-tesoureira de Azeredo, Denise Landim, que negou o fato à Justiça. “Sou considerada a pessoa que sabe do relacionamento de todos com Marcos Valério, por isso me ameaçaram”, disse Vera Lúcia à polícia.

À Comissão Parlamentar de Inquérito do Mensalão, Marcos Valério disse que Azeredo sabia de tudo o que se passava na sua campanha, inclusive a respeito da arrecadação, dos empréstimos no Rural e da divisão das somas amealhadas. Ao ser indagado sobre a equivalência entre o mensalão petista e a conexão mineira dos tucanos, explicou: “Em mãos diferentes e em situações diferentes, eles são similares, sim.”

O Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, chegou a pedir a cassação do mandato de Azeredo. Na sala das comissões na Câmara, ele rememorou o caso. Contou ter recebido apoio de colegas e de alguns correligionários: “Não foi aquele apooooio, mas foi importante. Dentro do partido, também tive. O Sérgio Guerra, o Serra, esses me apoiaram. Mas ficou faltando uma pessoa.”

Perguntei se ele se referia ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Azeredo tombou a cabeça para o lado, revirou os olhos e mordeu o lábio inferior como se estivesse dizendo que a afirmação era minha. À época, a única declaração de Fernando Henrique sobre o caso foi: “Quem tiver culpa no cartório, que pague.” Meses depois da revelação da conexão mineira, ao ser instado a comentar o assunto, Aécio Neves também foi lacônico: “É um percalço da vida.”

Depois da revelação do esquema, Azeredo deixou a presidência do PSDB, mas não se afastou do Senado. As denúncias também abateram Mares Guia, que pediu demissão do Ministério responsável pela articulação política do governo Lula no final de 2007. “O pior é ficar repetindo que eu fiz 57 ligações para o Marcos Valério sem dizer que isso foi em um período de cinco anos!”, lamentou Azeredo. “Isso dá o quê? Uma por mês? E não contar que apenas duas delas se completaram”, prosseguiu, olhando o relógio para conferir o horário da reunião na comissão, que ainda não começara. Sobre o conteúdo das conversas, disse que não se lembrava.

Em dezembro de 2009, o Supremo Tribunal Federal decidia se aceitaria ou não a denúncia contra Eduardo Azeredo. Na sala de sua casa, em companhia da família e de uma assessora, ele assistia à sessão pela TV Justiça. Quando o ministro Joaquim Barbosa mencionou o recibo de 4,5 milhões de reais para a SMP&B com sua assinatura, Azeredo levou as mãos à cabeça e soltou um palavrão.

O recibo, um dos anexos da “Lista Cláudio Mourão”, havia sido ignorado tanto pela denúncia da Procuradoria quanto nas investigações da Polícia Federal, que o consideraram irrelevante. Para Joaquim Barbosa, era uma prova cabal da estreita ligação entre Azeredo e as empresas de Marcos Valério. O papel continha um erro de gramática primário: falava em “saudar” a dívida de 4,5 milhões de reais com Marcos Valério. Duas perícias haviam concluído que se tratava de um documento autêntico.

No plenário do Supremo, o ministro José Antônio Dias Toffoli, ex-advogado do PT, saiu em defesa de Azeredo dizendo que as informações reunidas por Mourão cheiravam a chantagem. “Essa lista é produto para outras finalidades”, disse Toffoli. “Para mim, é indiferente se o recibo é verdadeiro ou falso. O fato de o denunciado ter assinado um recibo por intermédio de seu coordenador de campanha não é elemento suficiente para abrir ação”, argumentou. Joaquim Barbosa ficou irritado com as considerações do colega. Disse que Toffoli “parecia não ter lido os autos”.

Azeredo se lembrou do episódio. Contou ter entrado com uma ação contra Nilton Monteiro, o lobista que havia aparecido com os papéis, e comentou que era absurdo acreditar que ele assinaria um recibo de caixa dois. “Eu fico imaginando como se sente um cidadão comum. Se eu, mesmo sendo um senador, me vi numa situação absolutamente kafkiana, como deve se sentir alguém que não tem foro, não tem advogado, não tem nada?”, perguntou. Por cinco votos a três, Azeredo foi denunciado por peculato (roubo de dinheiro público) e lavagem de dinheiro. Em maio passado, um terceiro laudo considerou “inconclusiva” a veracidade da sua assinatura no recibo de 4,5 milhões de reais, o que abriu uma brecha para sua defesa.

Na última semana de julho, dias antes do julgamento do mensalão, surgiu uma nova lista com o nome de tucanos, aliados e empresários que teriam se beneficiado de verbas do valerioduto, num total de 104 milhões de reais. A revista Carta Capital, que publicou a relação, destacou na capa o ministro do STF Gilmar Mendes, a quem teriam sido destinados – sabe-se lá a troco de quê – 185 mil reais, o que ele evidentemente negou.

Na Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Minas, na qual corre o processo contra integrantes da conexão tucana, a lista já era conhecida desde março. Havia chegado às mãos do promotor João Medeiros através do lobista Nilton Monteiro, pouco antes de este ser preso em outro caso de estelionato. “É um documento duvidoso, com erros de português, rubricas xerocadas e que nada tem a ver com nossa investigação aqui, que apura o desvio nas estatais”, disse Medeiros. “Há umas duas semanas, vieram dois advogados ligados ao Nilton Monteiro querendo saber se eu tinha juntado essa lista aos autos. Eu disse que não e nem estava pensando em fazê-lo”, afirmou.

Eram dez da manhã e Azeredo resolveu conferir o movimento no plenário da comissão. Saiu da sala por alguns instantes e voltou com o ar desolado. “Não tem quórum ainda”, disse. Comentou ter visto a deputada Luiza Erundina dando autógrafos no corredor das comissões. Na véspera, ela renunciara ao cargo de vice na chapa do petista Fernando Haddad depois que Lula apareceu ao lado do seu candidato a prefeito confraternizando com o novo aliado Paulo Maluf.

A cena estimulou Azeredo: “É isso aí. O PT era vestal. Essa coisa Demóstenes, de ser o dono da ética e da verdade. É por isso que o tombo é maior”, disse. “No mesmo ano eu declaro 8,5 milhões de reais na campanha em Minas e o Lula declara 3 milhões na campanha para presidente. E o pai do caixa dois sou eu”, ironizou.

O telefone tocou. Um deputado reclamava, do outro lado da linha, da leniência  da comissão para decidir sobre o caso de uma rádio de sua propriedade. Azeredo respondia de modo monossilábico e paciente. Ao desligar o telefone, retomou o assunto. “Eu acho tudo uma grande hipocrisia, em geral”, disse, em tom de desabafo. “Exagero e hipocrisia. Pegam um caso desses e transformam em escândalo nacional, enquanto os verdadeiros corruptos seguem a vida normalmente”, falou.

Pedi que explicasse melhor. Azeredo mencionou a dificuldade de se encontrarem novos rostos dispostos a entrar na política. “Você vai ao interior, vai atrás dos melhores quadros e eles não querem nem te ouvir. Política virou sinônimo de coisa errada”, comentou. “E aí você olha no plenário e vê que quem  está te apontando o dedo é o mais corrupto de todos. E fica por isso mesmo”, falou. “Pergunta no PT o que acham de mim. Pergunta no PSDB. Eu vivo de salário, não tenho vida de rico.”

Durante meses, a Divisão de Repressão a Crimes Financeiros da Polícia Federal ficou empenhada em destrinchar o caminho percorrido pelo dinheiro movimentado nas contas bancárias de Marcos Valério. As 179 páginas do relatório do delegado Luiz Flávio Zampronha, que também investigou o mensalão do PT, basearam-se em dezenas de laudos, quebras de sigilo de movimentações bancárias, fiscais e telefônicas, além de uma centena de depoimentos.

Na conexão mineira, argumentou Zampronha, foi observado o “ciclo completo do procedimento ilícito”, incluindo  o pagamento dos empréstimos com verbas estatais. “O empréstimo de 2 milhões para a campanha de Azeredo foi pago com recursos da Copasa”, escreveu o delegado.

Quando o relatório veio a público, o procurador-geral Antonio Fernando de Souza disse que o documento da PF seria ignorado porque era muito opinativo. “Não vou me basear no relatório, vou me basear nos autos. Quando a polícia federal dá opinião no relatório, ele deixa de ser relatório”, afirmou.

Em uma tarde recente, no café de um centro comercial de Brasília, um dos policiais federais que participou da investigação falou sobre o assunto, com o compromisso de que sua identidade fosse preservada. Para ele, a briga de egos e vaidades entre os procuradores da República e a PF comprometeu a qualidade das denúncias do mensalão e da conexão mineira. No caso petista, a denúncia foi oferecida antes de o relatório da PF ficar pronto. “Ficou fraca. Na parte da origem do dinheiro, por exemplo, vai ler lá. Não tem”, disse o policial.

O que houve nos dois casos, segundo ele, foi crime de corrupção. “Não foi caixa dois. Foram dois esquemas para dominar a máquina pública, subtrair dinheiro público, usar isso para fim pessoal. É grave”, falou. “Ficar batendo na tecla do mensalão só fragiliza a acusação e dá força para os advogados de defesa se saírem bem.”

A certa altura de seu relatório sobre o caso tucano, o delegado Zampronha recomenda que sejam aprofundadas as investigações sobre um personagem que ele descreve como “o elo entre Eduardo Azeredo e o Banco Rural”: João Heraldo Lima, ex-secretário de Fazenda de Azeredo, ex-diretor do Banco BMG e do Credireal e atual presidente do Banco Rural. Com pós-doutorado em economia pela New School for Social Research, de Nova York, fama de gênio e ligação umbilical com os políticos mineiros, ele foi excluído da denúncia.

Em oito folhas de papel, o escritório do advogado Márcio Thomaz Bastos produziu uma peça chamada “Análise comparativa Mensalão PSDB e Mensalão PT”, que pretende usar durante o julgamento no Supremo. Ex-ministro da Justiça do governo Lula, Thomaz Bastos defende o ex-vice-presidente do Rural José Roberto Salgado.

Sua tese é que os dois casos foram tratados de maneira desigual, sobretudo no que diz respeito à decisão do desmembramento do processo. Além disso, o mensalão estourou em junho de 2005 e, nove meses depois, a denúncia foi apresentada contra os “quarenta integrantes da quadrilha” do PT. Apesar de ter sido descoberto na mesma época, o esquema mineiro, mais antigo, só foi denunciado 29 meses depois.

Em uma tarde de junho, em Brasília, um dos jovens procuradores da República que rascunhou as minutas das denúncias dos casos envolvendo o PT e o PSDB deu sua versão. “Aprendemos no mensalão do PT que julgar muita gente junto complica demais”, disse. “Então, ficou claro para todos, sobretudo para o ministro Joaquim Barbosa, que era preciso separar os foros”, afirmou. Segundo ele, o fato de a denúncia do mensalão petista ter ficado pronta em menos de um ano é “motivo de orgulho, não de contestação”.

Entre os que querem ver o caso esclarecido o mais breve possível, paira a sensação de que o processo da conexão mineira se arrasta de propósito. Só a perícia no recibo de 4,5 milhões de reais com a assinatura de Azeredo demorou mais de um ano para ficar pronta. Foi o mesmo tempo que a Justiça mineira levou para localizar duas testemunhas-chave contra o ex-governador.

“O que ocorre aqui em Minas é um escândalo”, disse o deputado estadual Sávio Souza Cruz. “Os fatos são de catorze anos atrás e o trâmite se dá a passos de tartaruga. O caso do PT aconteceu há sete anos e já está sendo julgado. Aqui tudo corre devagar com o propósito de prescrição dos crimes. E ninguém fala nada.”

“Estamos diante do mensalão que deu certo. Todos os envolvidos estão superbem”, disse-me o jornalista Lucas Figueiredo, durante um almoço em junho, no restaurante A Favorita, em Belo Horizonte. “Um exemplo está ali”, completou, apontando discretamente com o queixo para a mesa ao lado.

Ainda no couvert, Cristiano Paz, ex-sócio de Marcos Valério, contava uma história engraçada a João Heraldo Lima, o “elo” entre o Rural e Azeredo, segundo o delegado Zampronha. “Existe um dito aqui que pode parecer folclórico, mas que é muito verdadeiro: em Minas, tudo é possível, menos o escândalo”, disse Figueiredo. Eu ouviria a mesma frase outra dezena de vezes, pronunciada por pessoas diferentes em ocasiões distintas.

Cristiano Paz abriu uma nova agência de publicidade, a Filadélfia Comunicação, que tem como clientes shopping centers e o Inhotim – Instituto de Arte Contemporânea, de seu irmão Bernardo Paz.

Ramon Hollerbach é consultor independente na área de propaganda e marketing.

Marcos Valério arrendou por 6 milhões de reais uma fazenda com haras para a criação de cavalos da raça manga-larga. “Ele está trabalhando, ganhando dinheiro. Continua discreto e operando. Fez muitos amigos, entre políticos, pessoas nos bancos, e não traiu nenhum deles. Isso não tem preço”, disse-me um conhecido dele, em Belo Horizonte.

Walfrido Mares Guia é o coordenador de campanha da reeleição de Márcio Lacerda, do PSB, à Prefeitura de Belo Horizonte. Em novembro, quando completa 70 anos, a prescrição de seus crimes se reduzirá à metade, o que deve livrá-lo das acusações.

Clésio Andrade é senador da República pelo PMDB.

O Banco Rural, que aparece no relatório da PF como “uma instituição voltada para a prática de delitos, principalmente de lavagem de dinheiro, sendo imperioso que suas atividades sejam suspensas pelo Poder Judiciário”, continua no mercado. Teve recentemente um expressivo crescimento operacional, sobretudo no Norte e Nordeste.

O ex-tesoureiro Cláudio Mourão montou uma bem-sucedida consultoria para empresas na área de siderurgia.

Às onze da manhã, quinze deputados haviam aparecido na comissão na Câmara. Sem o número suficiente de presentes, a sessão foi cancelada. “Tá vendo como é? Você faz tudo certo, chega cedo, quer mudar as coisas, fazer as coisas direito. E o que acontece? Nada!”, disse Azeredo.

Espontaneamente, voltou a falar sobre a conexão mineira. “Só para encerrar este assunto: tem gente que acha que todo dinheiro fora da contabilidade oficial da campanha é sujo. Isso é simplório”, disse. “Às vezes, a pessoa não quer aparecer, não quer se indispor com o outro candidato. Chega um cara e diz que quer pagar o seu correio na campanha. Você não aceita?”

Ele caminhou em direção à janela e se virou subitamente como se tivesse esquecido de mencionar um último detalhe. “Isso é um debate que as pessoas têm que encarar e dar a ele a dimensão correta. É errado? É. Pelas leis de hoje é. Mas é errado como o quê? Uma infração de trânsito?”, indagou. “Todo mundo está sujeito a isso e eu quero alguém que venha me dizer que não está. Por que isso pegou em mim? Porque eu confiei, eu terceirizei, eu deleguei. Eu realmente não sabia o que estava acontecendo.”

Tanto na Justiça de Belo Horizonte quanto no STF, o processo do mensalão mineiro ainda está na fase de oitiva de testemunhas, sem qualquer previsão para ser julgado. As acusações contra Azeredo prescrevem em 2014.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017