questões religiosas

VIA-SACRA

Histórias de fé numa típica rua do Brasil
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Uma longa via corta Ilhéus de norte a sul. Numa ponta, o fim da cidade e o início da estrada que leva aos destinos turísticos do norte, como Itacaré e Maraú; na ponta oposta, em direção ao sul, o centro comercial e o aeroporto. Trata-se essencialmente de uma mesma artéria de vários quilômetros e muitos nomes, que mudam conforme ajuntamentos pobres vão cedendo lugar a bairros mais prósperos. Nela, pode-se estar na avenida Proclamação (quase erma), rua da Linha (sobrados de laje sem acabamento), avenida Ubaitaba (pequena classe média), avenida Antônio Carlos Magalhães (grades, muros), rua Tiradentes (comércio popular).

Quem vier do norte, seguindo em direção à outra ponta, no sul, talvez veja, à direita de quem acaba de entrar na cidade, um sobrado azul-turquesa, não muito maior do que os da vizinhança. A fachada possui duas portas metálicas de rolo, como as de uma padaria. Da rua, é possível ver o alpendre no andar de cima, atravessado por um varal cheio de roupas coloridas. Na fachada, pintado à mão, lê-se “Igreja Pentecostal Assembleia de Deus”.

Não é uma edificação imponente, e é provável que o viajante não registre sua existência. O mesmo vale para a Igreja Evangélica Redenção em Cristo, pouco adiante. Ou para a Igreja Pentecostal Unção Divina, ainda mais à frente. São todas casas pobres, sem pompa ou ornamento. O que se nota é o acúmulo, a sucessão de templos e igrejas que se espalham por toda a via, às vezes dois ou três por quarteirão, numa conformação cada vez mais típica da paisagem urbana brasileira. Quem chegar ao fim do trajeto terá passado por 36 templos de devoção, cada qual lutando para sobreviver à crescente concorrência pela alma das gentes.

Uma descrição da Ilhéus dos anos 20, quando a cidade viveu o grande apogeu do cacau, diz assim:

Abriam-se ruas para os lados do mar e dos morros, nasciam jardins e praças, construíam-se casas, sobrados, palacetes. Bares, cabarés, cinemas, colégios. Terra de pouca religião, [Ilhéus] orgulhara-se no entanto com a promoção a diocese e recebera entre festas inesquecíveis o primeiro bispo. Fazendeiros, exportadores, banqueiros, comerciantes, todos deram dinheiro para a construção do colégio das freiras, destinado às moças ilheenses, e do palácio diocesano, ambos no Alto da Conquista. Naqueles anos Ilhéus começara a ser conhecida nos estados da Bahia e de Sergipe como a Rainha do Sul. A cultura do cacau dominava todo o sul do estado da Bahia, não havia lavoura mais lucrativa, as fortunas cresciam, crescia Ilhéus, capital do cacau.

Isso foi antes. Hoje é assim: pouco cacau, que só nos últimos anos acena com um retorno, depois de ter sido dizimado por uma praga; empobrecimento, em relação ao passado. Ilhéus é uma terra atrás de emprego e de uma nova vocação. Sobrevive como polo turístico, servindo principalmente de ponto de difusão para as praias ao norte e ao sul, da pequena agricultura e do fato de ser o centro comercial da região.

No caminho de quem avança pela cidade, desde o norte: Assembleia de Deus Remanescente, Deus é Amor, Assembleia de Deus Raiz de Davi, Igreja Casa da Bênção de Deus, Igreja Batista Santa Geração.

Exatos mil metros depois do sobrado azul-turquesa com varal de roupa, chega-se à Assembleia de Deus – Ministério Restauração. A voz tímida do presbítero Assis é projetada por um microfone ligado a seis alto-falantes e alcança até quem anda pela calçada oposta. “Assim como eu cheguei na porta de uma congregação pela primeira vez, visivelmente embriagado, e aceitei a provocação do pastor, eu repasso para vocês: quem quer fazer uma aliança com o senhor Jesus, levante suas mãos.” As treze mulheres e os três homens espalhados pelas cadeiras de plástico branco reagem imediatamente. Uma moça, de cabelos longos presos numa trança, exclama: “Aleluia! Glória a Deus.”

O relógio na parede marca quatro da tarde, mas o sol segue impiedoso em Ilhéus. Um pouco antes de começarem o círculo de oração daquela sexta-feira, os fiéis haviam deliberado sobre a conveniência de baixar uma das folhas da porta de aço, de modo a se protegerem da luz. Concordaram que uma porta aberta bastaria para acolher os interessados.

Antonio Carlos Nunes de Assis, o presbítero Assis, é um homem magro, moreno e de aparência cansada. Aos 55 anos, seus cabelos começam a rarear. Vestia por fora da calça uma camisa verde dois números maior do que o indicado, e calçava tênis. Terno e gravata, só nos cultos de domingo à noite. Os fiéis também vestiam roupas de dia a dia – bermudas e chinelos de dedo. Vários seguravam Bíblias de capas coloridas ou estampadas. “Se tem alguém aqui que ainda não é cristão, observe verdadeiramente as maravilhas que Deus tem para nós. Alguém aqui ainda não é servo do Senhor?”, prosseguiu Assis. Sentada no fundo da igreja, uma mulher foi cutucada por uma colega e, acanhada, fez um sinal. Uma missionária da igreja pegou-a pela mão e a levou até o altar. “A senhora quer aceitar Deus no seu coração, irmã?”, perguntou, com o microfone que tomara do presbítero. “Fazer o bem nessa terra, fazer a diferença?”

“Aquelas pessoas que se dizem católicas, na verdade, estão tentando enganar a si mesmas”, explicou Assis à jovem, após retomar o microfone. “Porque o católico bebe cachaça na porta da Igreja do Bonfim, e diz ‘Glória a Deus’. O verdadeiro cristão só tem a vontade de servir ao Senhor e vir para a igreja.” Em seus testemunhos, o pastor gosta de ressaltar que, antes da conversão, se dizia católico não praticante. Por quatorze anos, chegou mesmo a frequentar o candomblé. Policial reformado, matou muita gente, bandidos e inocentes, “porque, como minha avó dizia, quem anda com porcos farelos come”. A pressão no trabalho o levava ao álcool, “para comemorar, quando conseguia cumprir a missão; e, quando não conseguia, para chorar as mágoas”. Colecionava punições na corporação por má conduta.

Assis se converteu na Assembleia de Deus em 1999, chegou a ser batizado numa imersão no rio, mas acabou se afastando da igreja. “Eu só voltei aos pés do Senhor dez anos depois, quando entrei para a reserva da polícia.” Uma amiga de sua esposa convidou o casal para conhecer a Ministério Restauração, dissidência da Assembleia de Deus tradicional, e os dois se identificaram. “A diferença da nossa congregação para a de um assembleiano primitivo é o desenvolvimento do culto. O deles é mais morno, aqui é pentecostal, é mais avivado”, explicou Assis.

Em 1910, a Primeira Igreja Batista do Pará abriu as portas para dois missionários suecos que haviam se desentendido com as lideranças de uma congregação americana. Operosos, Gunnar Vingren e Daniel Berg não demoraram a formar grupos de oração e vigília, e suas barulhentas reuniões começavam a incomodar os demais fiéis que preferiam orar em silêncio. As reclamações de que os cerca de quinze frequentadores estariam formando uma seita levou o pastor a expulsá-los da congregação. Nascia ali a maior igreja evangélica do Brasil, a Assembleia de Deus.

Desde sua origem, a Assembleia se diferenciou da Batista pelo culto mais vibrante e impetuoso, justificado pela presença inspiradora do Espírito Santo, que se manifesta diretamente à congregação por meio de fiéis por Ele tocados. Ao culto mais expansivo e solto, os missionários suecos opuseram a sobriedade das vestimentas, observada ainda hoje em dia – terno e gravata para os homens, e saia abaixo do joelho para as mulheres, que devem também manter os cabelos longos e não usar maquiagem.

Com mais de setenta congregações em Ilhéus, ligadas ou não à sede, a Assembleia de Deus herdou muitas diretrizes da Batista que a originou – dentre as quais, a ênfase na multiplicação da Palavra. Diferentemente das demais protestantes históricas que chegaram ao Brasil no século XIX, como a Luterana, a Presbiteriana, a Anglicana e a Metodista, a Batista enfatizava a catequese a partir de uma linguagem popular. Cada novo membro se tornava imediatamente um evangelista, sem que a igreja se preocupasse demasiadamente com o rigor de sua formação teológica. Tamanho pragmatismo doutrinário implicou o desprestígio da igreja entre os protestantes históricos, que os chamavam de “sapateiros inspirados”. Os sapateiros inspirados multiplicaram-se. O número de igrejas batistas no Brasil saltou de oito, em 1889, para 83 em 1907. Na Assembleia, a expansão foi ainda maior.

O pastor Hugo Noival Santana, presidente da Assembleia de Deus em Ilhéus – o templo sede, por assim dizer –, se refere ao grande número de assembleias de Deus espalhadas pela cidade. “É impossível controlar todas as igrejas que usam este nome, não tem como pedir patente, controlar quem segue ou não as mesmas diretrizes”, explicou. Ele entende que, se as igrejas se desvincularam da sede e agregaram algum aposto ao nome (Assembleia de Deus – Ministério Restauração), é porque existe alguma diferença na doutrina. “Mas é impossível fiscalizar ou tentar fechar as portas dessas outras centenas de denominações. Os fiéis que estão lá não têm nada a ver com isso, e estão querendo ouvir a Palavra.”

Como na maioria das igrejas evangélicas, também na Ministério Restauração existe mobilidade dentro da hierarquia eclesiástica. Ao se converter, o fiel fica sob a observação da comunidade; se cumprir todas as normas, eventualmente poderá ser elevado a diácono, o mais baixo cargo da hierarquia. Contam pontos não apenas a frequência nos cultos e nos círculos de oração, como também a participação nos testemunhos, o fervor e a vida familiar. Infidelidade, agressão à esposa e aos filhos ou consumo de álcool são considerados transgressões, e o postulante poderá sofrer punição (uma possibilidade é a suspensão temporária nos cultos) caso seja denunciado por alguém da comunidade, ou mesmo se ele próprio confessar a falta. Se estiver empenhado em progredir dentro da igreja, o fiel precisará convencer os demais de que é um exemplo de fé e comportamento. Presbítero, poderá conduzir círculos de oração e até trechos do culto; avançará a evangelista e, por fim, a pastor. (Na maioria das igrejas evangélicas, mulheres não podem ser pastoras – começam como diaconisas e podem chegar a missionárias, um cargo de relevância durante os cultos.)

Antonio Assis foi convidado a ser diácono após quatro meses de culto, presbítero depois de um ano, e segue empenhado na missão. “Se eu te disser que não almejo ser pastor, estarei mentindo. A ascensão nos é dada por Deus, mas ninguém está imune a levar uma rasteira do demônio”, diz. Tem orgulho de seus dotes missionários: “Logo que cheguei, o pastor me colocou como professor da escola dominical, disse que eu falava bem, que cantava bem os hinos da Harpa” – sorriu, citando os hinos que embalam os cultos.

Aposentado, o presbítero Assis se dedica exclusivamente à igreja, mas não é remunerado pelo tanto que faz. Seu pastor, Joselito Pereira dos Santos, é dono de uma loja de autopeças, nunca deixou de trabalhar como eletricista de automóveis, e tira dali seus proventos. O pastor Joselito prefere não revelar quanto arrecada com dízimos e ofertas, mas diz que, por ora, prefere reinvestir toda a receita na própria igreja – o que obriga Assis a esperar pelo tempo das vacas gordas.

Fundador da Ministério Restauração de Ilhéus, pastor Joselito contou que era usuário de maconha e cocaína. Convertido por um amigo, sentiu logo que tinha o dom da pregação. Começou espalhando a boa-nova a um grupo de vizinhos na garagem de casa – assim como nos start-ups de tecnologia, a garagem é um lócus importante nas histórias de origem do mundo evangélico –, e o movimento foi crescendo. Certo dia, foi convidado por um colega a conhecer o culto da Assembleia, e de pronto se identificou com a expressão mais entusiasmada do culto, a qual, segundo ele, “deixa o Espírito Santo fluir”, em contraste à maior contenção da Igreja Batista. “Num estádio de futebol, quando sai um gol, um grita, outro xinga, outro chora. Na igreja, cada um tem a sua forma de adorar a Deus.”

Ao final do círculo de oração daquela sexta-feira, a missionária convocou os fiéis a formarem uma roda em frente ao altar, e pediu que todos fechassem os olhos. Fez uma oração de agradecimento, durante a qual a moça que acabara de se converter chorou copiosamente. Uma jovem foi tomada pelo Espírito Santo e começou a articular palavras incompreensíveis, como se saídas de um idioma arcano, há muito desaparecido. Glossolalia, ou falar em línguas estranhas, é um acontecimento comum em algumas igrejas evangélicas conhecidas por pentecostais, de Pentecostes, a antiga festa judaica de celebração da colheita. Naquele dia, como se lê no Novo Testamento, com Cristo já tendo ascendido aos Céus, os apóstolos se reuniram para orar numa casa em Jerusalém. “E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.”

A iconografia católica mostra os apóstolos num cenáculo, suas cabeças encimadas pela chama do Espírito Santo. Assim ungidos com o dom das línguas, sairão pelo mundo para espalhar o Evangelho, num trabalho de conversão que corresponde, também, ao erguimento do edifício que preservará a verdadeira interpretação da Palavra. Pentecostes é uma alegoria da construção da Igreja.

Na Assembleia de Deus – Ministério Restauração, a jovem ajudava a construir a sua. Logo ela se soltou da roda e passou a sapatear por trás dos demais, pronunciando fonemas extraordinários. “Aleshmana, alelá, hamanishna. Aleiasmãnislalalala, Rrramatúia! Glória! Aleluia!” Tomando o microfone das mãos da missionária, puxou, em português, a canção Espírito Santo, sucesso da cantora gospel Fernanda Brum. Era um espetáculo de soltura e devaneio, uma entrega a qualquer coisa de desmedida. Intercalando o compreensível com o estranho, a jovem deu testemunho de uma graça que, segundo disse, lhe fora concedida por Deus. Vinham sons misteriosos, e logo a tradução: a operadora de celular acabara de lhe dar um aparelho novo, já que o dela havia se quebrado.

Assembleia de Deus Heróis da Fé. Igreja Família da Graça. Igreja Batista Luz do Iguape. Igreja Cristã Maranata.

Trezentos e cinquenta metros adiante da Assembleia de Deus – Ministério Restauração, chega-se a outra igrejinha, também amarela e ainda menor. É a Igreja Metodista Wesleyana, como se lê na fachada. O Wesley que a batiza é uma referência a John Wesley, fundador, na Inglaterra do século XVIII, da Igreja Metodista. Apesar da diferença no tempo e no espaço, o nascimento do metodismo como dissidência da Igreja Anglicana não difere tanto da origem da Assembleia de Deus pelo rompimento com a Igreja Batista. Juntamente com seu irmão Charles e o colega George Whitefield, Wesley passou a organizar pequenos grupos de oração entre fiéis anglicanos. Os encontros, exaltados, eram marcados por lágrimas, agitações convulsivas, e gritos de dor e alegria. Com a morte de Wesley, o movimento, que se intitulava Avivamento da Igreja Anglicana, acabou se cindindo da igreja-mãe e se tornou uma das principais igrejas evangélicas do Brasil.

Em solo brasileiro, vieram outras cisões. A dissidência Wesleyana nasceu em 1967, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, e tem características pentecostais, como os hinos contemporâneos e o culto mais solto. A congregação de Ilhéus foi fundada em 2010, numa casa alugada que é pouco maior do que uma garagem para dois carros. Uma cortina de plástico com estampa de flores azuis estava estendida ao fundo do altar, e o pastor se espremia entre a bandinha (bateria, baixo e teclado) e os fiéis. No culto de domingo à noite, a congregação era mais numerosa do que as cinquenta cadeiras brancas dispostas no salão, e os que chegavam mais tarde se derramavam pela calçada.

Vestindo terno e gravata pretos sobre uma camisa vermelha, o pastor Edevaldo Silva Santiago prega sem misericórdia com as cordas vocais. Pula e gesticula com tanto vigor que usa Perfex em vez de lenço para enxugar o suor. Os fiéis acompanham o entusiasmo com socos no ar e gritos de “Aleluia”. O pastor recorre à parábola de Deus e o alpinista. Não é uma parábola canônica, e o fiel perderá tempo tentando encontrá-la nos Evangelhos. Antes, circula em apresentação de PowerPoint pela internet: ao escalar uma montanha, um alpinista escorregou, caiu escuridão abaixo e ficou pendurado pela corda. Ouviu então a voz de Deus, que lhe ordenava: “Corta a corda.” Temeroso e sem fé, o alpinista não obedeceu. Dias mais tarde, os amigos o encontraram. Estava morto, suspenso há apenas 2 metros do chão.

“Quantas vezes a gente não está com o cordão ligado a algo, e Deus falando: ‘Filho, corta a corda’?”, pergunta o pastor. De súbito, começa a gritar “CORTA A CORDA, CORTA A CORDA!”, ao que os fiéis devolvem, em coro, “Aleluia!” e “Glória a Deus”. “Corta a corda do passado, o passado não serve mais! Corta a corda daquela paixão antiga que tá impedindo você de crescer na presença de Deus! Tem alguma coisa que tá te prendendo. Você não consegue vencer, porque você continua fisgado: CORTE-A-CORDA-ESTA-NOITE-EM-NOME-DE-JESUS”, exorta o pastor, circulando com dificuldade pela igreja abarrotada de jovens, que vibram como num show de rock. Sem pausa para respiro, a missionária faz sinal para que a banda comece a tocar. Ela mesma puxa o sucesso gospel Ele não Desiste de Você, de Marquinhos Gomes, que já foi regravado por cantores seculares como o pagodeiro Péricles, do extinto Exaltasamba. A adesão é geral.

No dia seguinte, a igreja agora vazia, o pastor Edevaldo contou sua história. Um pouco rouco dos excessos da véspera, explicou que fora convidado pela primeira vez a um culto por um colega de trabalho. Ajudantes de pedreiro, os dois trabalhavam na construção de uma agência bancária em Itabuna, cidade próxima a Ilhéus. Na volta de uma folga, Edevaldo comentou que estava de ressaca, pois havia bebido demais depois de uma partida de futebol. Percebendo que ali havia alguém a ser salvo, o colega o levou à Igreja Wesleyana de Itabuna. Edevaldo Santiago conta que ali mesmo sentiu o chamado. “Desde o primeiro dia eu soube que queria ser pastor. Naquela noite eu sonhei que pregava para uma igreja lotada”, lembrou-se.

A quem pretende subir na hierarquia, a Igreja Wesleyana exige algum estudo teológico mais formal. Com dois anos de conversão, Edevaldo se matriculou num curso da Assembleia de Deus de Itabuna. Como a Metodista não oferecia curso na cidade, era aceitável que seus aspirantes a pastores seguissem o da Assembleia, contanto que soubessem distinguir as diferenças doutrinárias e se ativessem aos da confissão metodista. Edevaldo trabalhava como ajudante de pedreiro durante o dia, e à noite estudava. Formou-se em um ano e começou a acompanhar pastores em alguns cultos, até ser chamado para estabelecer congregações em cidades pelo interior da Bahia, como Buerarema, Gandu e Eunápolis. À época, conseguira um emprego de vigilante no Ministério Público de Itabuna, mas pediu para ser demitido para seguir o chamado da igreja. Antes de chegar a Ilhéus, sua última parada havia sido Palmas, no Tocantins, onde permaneceu três anos.

“Nesse tempo todo em que fiquei no Tocantins, nunca precisei expulsar o demônio do corpo de um fiel”, contou. “Aqui na Bahia, isso acontece direto. É a presença ainda muito forte do candomblé.” O pastor narrou episódios de possessão demoníaca ocorridos ali mesmo, como a vez em que um fiel se arrastara feito uma cobra até o altar, ou a menina que gritava e revirava os olhos. “Eu tentei contê-la, e ela me arremessou longe”, lembrou o pastor, garantindo ter dado conta da situação.

Quando a comunidade se estabeleceu em Ilhéus, ainda sem pastor, ele foi chamado a organizar a nova sede. “A gente trocou o forro do teto, colocou ventiladores, comprou essas cadeiras boas, pintou.” Julga que seu tempo na construção civil lhe conferiu sensibilidade para as questões técnicas e estéticas dos templos, tanto assim que é sempre chamado a dar sugestões no estabelecimento de igrejas iniciantes. Edevaldo Santiago sonha alto, gostaria de comprar o imóvel alugado por 630 reais por mês, abrir novas congregações em outros bairros. Mas o orçamento apertado ainda não dá margem para ousadias: entre os dízimos e oferendas dos fiéis, a igreja tem recolhido em média 1 500 reais por mês. Deste valor precisa sair o aluguel, seu salário e eventuais caridades da igreja, como a cesta básica que oferece a uma família necessitada.

Naquele dia mesmo, Edevaldo havia telefonado para o superintendente distrital da Igreja Metodista Wesleyana – no caso, o pastor de Itabuna – pedindo para que interviesse junto ao bispo na questão de seu salário. “Eu tenho uma família, minha esposa e meus filhos, e a gente anda passando uma certa dificuldade. Ilhéus é uma cidade turística, é tudo mais caro”, repetiu o pastor, visivelmente embaraçado. Num culto há poucos dias, Edevaldo pediu que os fiéis o indicassem, caso soubessem de algum emprego. “Um diácono me disse que o hotel onde ele trabalha está precisando de um jardineiro. Tudo por amor à obra.”

É possível verificar o salto no número de evangélicos na Bahia comparando-se o censo de 1940 com os de 2000 e 2010. No primeiro, 98,9% dos 3 918 112 baianos se declaravam católicos, enquanto os evangélicos pouco passavam de 30 mil. Sessenta anos depois, a população triplicara, enquanto o número de católicos caíra para 74% da população. No mesmo período, os evangélicos cresceram quase cinquenta vezes. Passados outros dez anos, o censo de 2010
registrou um pequeno aumento populacional no estado. Pela primeira vez, porém, o número absoluto de católicos sofreu uma queda real: 500 mil fiéis a menos desde a virada do milênio. Esse declínio casou com um aumento de quase 70% daqueles que se dizem evangélicos. Em Ilhéus, esse movimento é ainda mais pronunciado. Das 184 236 pessoas registradas no censo de 2010, os católicos formavam 52,5% da população, enquanto os evangélicos já chegavam a 24,5%.

Igreja Cristã Nova Vida. Igreja Nações para Cristo. Assembleia de Deus Luz é o Caminho. Templo de Adoração ao Deus de Israel.

Quem deixa a Wesleyana para trás e segue na mesma direção, encontrará, 500 metros à frente, uma imensa construção. A cobertura metálica em arcos lembra a arquitetura de quadras poliesportivas, mas a inscrição no muro diz “Igreja Batista Memorial”. “Todo mundo fala que parece um ginásio”, concordou o pastor Abraão Barbosa da Silva, numa manhã de terça-feira. O antigo templo já não acomodava o número crescente de fiéis, e a igreja vivia um momento de prosperidade. “A receita foi aumentando, e quando chegamos a 90 mil reais decidimos que era hora de investir num espaço maior.”

O antigo templo ainda está a duas quadras dali, entre a nova instalação e a Igreja Metodista Wesleyana. A igrejinha azul de esquina, com uma torre, lembra uma capela católica. A primeira ideia da congregação foi tentar comprar o imóvel ao lado e fazer uma obra de ampliação, mas não conseguiram fechar o negócio. “Deus sempre guarda algo melhor do que nós pensávamos”, disse o pastor Abraão. Alguns meses depois, um imenso terreno baldio da Shell foi posto à venda por 115 mil reais. “Algumas pessoas na congregação acharam que era muito grande, mas prevaleceu a ideia de que a gente tem que pensar grande mesmo, para atrair mais gente”, disse o pastor.

Para quitar o valor do terreno e erguer o templo, a igreja tomou dinheiro emprestado com alguns fiéis e recebeu doações de outras congregações batistas. Depois de tirar mais de 200 caçambas de lixo do terreno, iniciou-se a obra. O projeto arquitetônico é assinado por Udo Landenberger, filho de uma missionária gaúcha radicada em Ilhéus. “Cada decisão na Igreja Batista é votada, e sempre há quem discorde. Mas a maioria aprovou o projeto, que é mesmo muito bonito. É um cartão de visitas para o Udo, ele tem sido muito procurado”, contou o pastor Abraão.

Nove anos após o início das obras, a igreja ainda não está completamente acabada. As cadeiras brancas de plástico serão substituídas por outras almofadadas, e o piso de concreto receberá uma cobertura mais elegante. O templo antigo foi vendido para outra igreja batista, a Missionária, de linha renovada pentecostal. “A gente teve um certo receio de que alguns fiéis quisessem ficar lá por já terem uma relação com o templo. Ainda mais porque a maior parte deles passa ali na frente pra vir pro culto aqui”, contou o pastor. O temor se mostrou improcedente.

Uma das características mais prezadas pelos batistas é a autonomia de cada igreja. Não se exerce controle sobre a fundação de novos templos, os quais podem, sem problema, apor “Batista” ao nome. Independentes, cabe a cada nova igreja se filiar ou não a uma das duas convenções: a Batista Brasileira, mais tradicional, ou a Batista Nacional, de linha mais pentecostal. “Mas tudo isso em linhas gerais, já que existe essa independência”, explicou o pastor Abraão.

A origem da Igreja Batista é nebulosa. A versão mais aceita pelos historiadores é a de que ela nasceu no Movimento Separatista Inglês no século XVII. O pastor de Cambridge John Smyth, insatisfeito com as diretrizes da Igreja Anglicana – que não teria se distanciado suficientemente dos ritos católicos –, abraçou o puritanismo, mas não se deu por convencido. Exilado em Amsterdã, fundou a Igreja Batista, em 1609. Os batistas recebem o nome da cerimônia característica de batismo por imersão em rios e lagos. No templo da Memorial de Ilhéus foi construído um tanque-batistério, usado por questões de praticidade e privacidade. Atendendo a pedidos de fiéis, o pastor Abraão já realizou batismos em rios e em piscinas de clubes.

Aos 62 anos, ele lembra uma versão de bigodes do ator Carlos Vereza. A fala ligeira e o jeito reservado indicam que não é baiano. Paraibano de Campina Grande, nasceu em uma família batista. “Minha avó, pernambucana de Bezerros, já era batista. Ela sofreu muita perseguição, atiravam pedra na casa dela.” Sentindo a vocação desde a infância, tentou seguir outra profissão, mas Deus impôs Sua vontade. Com a esposa grávida do segundo filho, foi demitido de uma empresa onde trabalhava como secretário, e se desesperou. Um amigo de infância, pastor, convenceu-o a entrar para o seminário: “Você recebeu o chamado, Deus está fechando portas para te abrir outra maior.”

O curso de teologia da Igreja Batista, no Recife, lhe ofereceu alojamento familiar e emprego administrativo na congregação durante os quatro anos de curso. Serviu por treze anos como pastor auxiliar na capital pernambucana até ser indicado para presidir a Igreja Batista Memorial de Ilhéus. Depois de passar por uma banca pastoral e se submeter a dez dias de experiência diante da nova congregação, foi aceito pela comunidade, que o consagrou pastor em 1995.

No domingo daquela semana, Abraão da Silva não pregou na Igreja Memorial. Como era o dia do pastor, o culto girou em torno de homenagens a ele. Uma missionária conduziu a cerimônia à moda de uma apresentadora de programa de auditório, começando com uma saudação aos visitantes: “Sejam bem-vindos em nome de Jesus, voltem sempre, tragam mais gente.” Ela chamava ao altar cantores e fiéis que ofereciam testemunhos edificantes sobre o pastor. As letras das canções, em estilo gospel melódico, eram projetadas em legendas de fotos de paisagens, como num videokê, para que os fiéis pudessem acompanhar. Em pé, as cerca de 200 pessoas – que não ocupavam metade da lotação total do templo – cantavam e dançavam. A maioria das mulheres trajava vestido de festa, e os homens, calça social e camisa. Uma moça traduzia em linguagem de sinais as letras das canções para três fiéis surdos, que a acompanhavam também dançando.

O mote das homenagens era “Pastor: atleta espiritual”, e as fiéis subiam ao palco para ler a descrição de cada esporte praticado por ele, como “Tiro ao alvo: o pastor não pode errar o alvo, que é Jesus Cristo”. Na parede, eram projetadas fotomontagens de atletas com o rosto de Abraão da Silva. Todos riam. A congregação era uma festa.

Igreja Pentecostal Missão de Jesus. Assembleia de Deus Fraternal. Igreja Batista Lírio dos Vales. Comunidade Cristã Unida do Brasil.

Deixando a Batista Memorial, a via passa a costear o mar. À esquerda de quem segue em sentido ao aeroporto, é possível ver o calçadão da praia, a fileira de coqueiros e as jangadas coloridas dos pescadores, o lugar-comum da Bahia. As casas já não parecem pertencer a famílias de classe média baixa, agora são maiores, com muros e pequenos jardins. Chega-se assim a uma igrejinha de fachada de pedra adornada por uma enorme cruz branca. É a católica Nossa Senhora de Fátima, uma das treze paróquias de Ilhéus.

Num fim de tarde de sábado, um grupo de 55 mulheres e seis homens assistiam a uma missa, acompanhando disciplinadamente o folheto “O Domingo”, publicação da Editora Paulus, de distribuição nacional. Se confissões cristãs fossem danças de salão, o culto pentecostal seria o twist, e a missa católica, o minueto. Formal, a liturgia é conduzida pelo padre, que orienta todos acerca daquilo que a maioria já conhece: “Em pé, por favor”, “Vamos, de joelhos, celebrar o corpo e o sangue de Cristo”, “Podem se sentar”. Até mesmo as missas da Renovação Carismática, corrente católica surgida nos anos 60 em reação ao pentecostalismo evangélico, não fogem à estrutura do Rito Romano. Assim
exige o Vaticano.

Aos 65 anos, Gilberto Reis se considera um padre tradicional. Nascido na caatinga baiana, numa comunidade próxima de Jequié, sentiu a vocação já na infância, quando brincava de missa com os irmãos. Com muito esforço seu e dos pais, concluiu a escola e começou o seminário ainda adolescente. “Mas naquela época eu pensava que padre não podia ter pecado, essas coisas medievais, e acabei desistindo”, contou na manhã de domingo em sua casa, enquanto preparava seu café. Para não precisar madrugar, celebra a missa das 7 horas em jejum, e só depois faz a primeira refeição. O dom da pregação o levou ao magistério; lecionou história, português e educação moral e cívica – até ser estimulado por uma freira a investir na vocação.

Concluído o seminário e já ordenado, padre Gil seguiu para Roma, onde fez mestrado e doutorado, passou seis meses na Sorbonne e só voltou ao Brasil em 1988. Dirigiu o curso de teologia em Itabuna até 2000, quando se aposentou para se dedicar exclusivamente ao trabalho pastoral. Além da Capela Nossa Senhora de Fátima, é também responsável por rezar a missa na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, no mesmo terreno da casa paroquial, no Alto da Boa Vista. A casa de três quartos é decorada com pôsteres de Jesus Cristo, Nossa Senhora e do papa Francisco (“Adoro! Coleciono as homilias diárias dele!”). Padre Gil tinha esperança de vê-lo durante a Jornada Mundial da Juventude, em julho, no Rio, mas foi pego de surpresa pelo avanço da doença de seu pai. “Mas vou acompanhar pela televisão, com certeza”, disse. Uma estante guarda os bibelôs de anjos que ganhou dos fiéis. Num eclético presépio forrado de papel-pedra, que toma quase metade da sala, é difícil encontrar a manjedoura do menino Jesus em meio à quantidade de lampadinhas, anjinhos, sapos, cavalos e uma plêiade de bonecos.

Café com leite na mão, padre Gil se disse preocupado com a expansão das “igrejinhas de fundo de quintal, em que qualquer um põe um alto-falante na garagem e se diz pastor”. Não escondeu a mágoa ao contar de um casal de jovens que fez a primeira comunhão e a crisma com ele e, de repente, sumiu das missas. “Quando perguntei por eles, me falaram que tinham virado evangélicos. Quase caí para trás”, disse, entristecido. Tempos depois, encontrou o casal na feira e foi até eles para dar a bênção. Constrangidos, aceitaram-na, mas informaram que haviam se convertido, e agora eram crentes. “Perguntei: ‘Então vocês nunca foram crentes antes?’.” Perplexo, padre Gil não consegue entender a necessidade que certos fiéis sentem em pular de igreja em igreja.

“Desde sempre, no Brasil, tem gente que frequenta tanto a Igreja Católica quanto o candomblé, a umbanda, o espiritismo. A Igreja não vai influir na liberdade dos frequentadores. Tem toda a história desse povo, não dá pra tirar o sangue”, ponderou, passando manteiga numa torrada. Lembrou-se do babalorixá Pai Carlinhos, muito seu amigo. “Outro dia ele me contou que antigamente tirava até 6 mil por mês com trabalhos. Hoje em dia, como os evangélicos veem o candomblé como o demônio, ele não chega a tirar mil reais.”

Não existe nenhum terreiro de candomblé na avenida que corta Ilhéus de norte a sul. O padre Gil não hesitou em indicar uma fiel de sua igreja que frequenta as festas do terreiro mais antigo de Ilhéus, o Matamba Tombenci Neto. Numa manhã de segunda-feira, Marinho Rodrigues, filho da mãe de santo Hilsa Mukalê, apresentou o terreiro centenário e falou sobre o que descreve como perseguição de certos evangélicos contra os seguidores do candomblé. Em dias de festa de santo, conta, um grupo de crentes, de microfone na mão, passa a tarde em frente ao terreiro invectivando contra o demônio. “A nossa religião não é proselitista. Eu nunca vou sair na rua tentando trazer alguém aqui pra dentro do terreiro”, diz Marinho. “O que me assusta é essa intolerância.”

Recentemente, um episódio provocou um racha em sua família. Uma tia sua, mãe de santo também, era casada com um católico, que não seguia o candomblé, mas respeitava sua crença. Da união, nasceram sete filhos – dos quais apenas dois seguiram o candomblé, tendo os outros cinco se tornado evangélicos. Quando o tio de Marinho morreu, a família se dividiu: de um lado, os que desejavam um rito fúnebre dentro do candomblé, como a viúva; de outro, os filhos crentes, que não aceitavam sequer uma vela na cerimônia. A mãe acabou cedendo. Porém, durante o enterro do marido, em pleno cemitério, foi tomada por seu santo protetor. “Meus primos e outros companheiros deles da igreja se jogaram em cima da minha tia, dizendo que ela estava possuída pelo demônio, foi horrível”, relembrou Marinho.

Em sua homilia de sábado na Capela Nossa Senhora de Fátima, padre Gil falou sobre a importância do amor e da empatia. “Tem gente que não é católico, não é crente, mas tem o coração cheio de amor. O templo não salva, quem salva somos nós, com a energia de Deus. Seja ele Deus, Tupã, Krishna. Conheço muitos que se dizem ateus, mas têm Deus no coração, fazem trabalhos com os meninos de rua. Eu acredito no homem”, pregou, olhando para um grupo de fiéis mais velho e mais branco do que o das igrejas evangélicas. Das 61 pessoas naquela tarde, só três senhoras eram negras.

Antes de benzer a todos e encerrar a missa, padre Gil fez um apelo: “O pessoal aqui do lado está querendo demolir este templo. Vocês, que têm acesso a Twitter, a Facebook, vamos tentar salvar a nossa igreja.” Não era uma metáfora. A Nossa Senhora de Fátima nasceu como capela da casa de saúde vizinha, uma instituição de caridade dirigida por senhoras. Em 2007, a obra decretou falência e o imóvel foi arrematado num leilão pela empresa Comercial Recôncavo de Combustível Ltda., que pretende reativar o hospital. Na primeira semana de junho, o padre Gilberto Reis recebeu uma notificação judicial pedindo a desocupação do imóvel em até trinta dias. O advogado Soleval Planeta, que é paroquiano e abraçou a causa, diz que se trata de má-fé dos empresários. “O terreno arrematado no leilão não engloba a área da igreja”, garantiu.

Igreja Batista Celebrai. Igreja Messiânica Mundial do Brasil. Assembleia de Deus da Missão Shekinah. Igreja do Evangelho Quadrangular. Igreja Internacional da Graça de Deus. Igreja Mundial do Poder de Deus.

Dali a pouquinho se chega ao Centro de Ilhéus, onde a via muda de nome praticamente a cada quarteirão. Osvaldo Cruz, Visconde de Mauá, Coronel Berilo e, finalmente, Tiradentes, no ponto alto do comércio popular: camelôs, pastelarias, lojas de sapato e de celular. Entre uma loja de roupas e a “Bahiacred – a sua loja de empréstimos” se destaca um imóvel com o inconfundível letreiro “Jesus Cristo é o Senhor”, da Igreja Universal do Reino de Deus.

O prédio já abrigou um dos únicos cinemas de Ilhéus, o Vitória Palace. Passados os dias áureos da economia cacaueira, a sala mudou de nome para Cine Brasil. Nos seus últimos anos, não era incomum encontrar ratos circulando entre as poltronas.

Hoje, de cada lado da escadaria que leva ao primeiro piso, por onde se entra, existe a mesma faixa “PARE DE SOFRER!”, acompanhada do anúncio dos cultos. Domingo: Terapia de família. Segunda: Prosperidade. Terça: Descarrego. Quarta: Novo nascimento. Quinta: Terapia do amor. Sexta: Libertação. Sábado: Causas impossíveis. Todos os dias. 7h – 10h – 12h – 15h e 19h.

Na prática, a grade não é tão rígida, e os cultos não se pautam pelo letreiro. Na quinta-feira à noite, um pastor jovem, musculoso e de terno justo subiu ao altar com vinte minutos de atraso. Puxava uma canção que ninguém parecia conhecer e, para estimular a plateia, declamava cada verso antes de cantá-lo. Só 43 pessoas haviam aparecido. Como o templo acomoda mais de 500, o pastor pediu que todos se reunissem na frente. “Que as forças do mal sejam vencidas, peça para Deus vencer as forças do diabo, diga: eu não aceito o mal na minha vida, eu não aceito o mal nos meus caminhos, eu não aceito o mal na minha casa, na minha família, eu não aceito o mal na minha mente, atuando nos meus pensamentos, que esse espírito seja amarrado, seja extirpado. Nós vamos amarrar o diabo agora, o espírito maligno que tem agido sobre a sua vida. Diga: diabo, seja amarrado agora!”

Ia e vinha pelo palco, ia e vinha, ia e vinha, as palavras lhe saindo da boca com sofreguidão. As pessoas pareciam mergulhadas num transe coletivo, repetindo o que ouviam, obedecendo. “Queria que agora vocês fechassem os olhos e pensassem em tudo aquilo que está amarrando as suas vidas”, propôs o pastor. Como todos os fiéis acudissem, aproveitou para resolver alguma questão mais premente. Discretamente, acenou a uma missionária de olhos abertos, que de pronto lhe trouxe o celular. Com um ou dois toques na tela touch, desincumbiu-se do problema, devolveu o telefone e retomou a pregação. “Podem abrir os olhos.”

Quem havia trazido o dízimo naquele dia?, perguntou, indicando a urna da coleta. Enquanto alguns se manifestavam, pediu para que suas missionárias distribuíssem “o protetor”. Era uma touca cirúrgica, e todos a receberam. “Tirem o protetor do saquinho”, explicou. “Na sexta-feira que vem, eu quero que vocês tragam uma oferta neste saquinho. Digam: ‘Graças a Deus.’” Quanto ao protetor, pediu a todos que o vestissem ali mesmo. O diabo entra pela cabeça, ensinou.

Não demorou muito para que o diabo voltasse a ser mencionado. O demônio deseja pisar nos fiéis, e é necessário reagir, lembrou o pastor. Ordenou que pisassem bem forte no diabo, e foi obedecido. A seu comando, as missionárias passaram pela plateia distribuindo o desenho de um pé. Nele, o fiel deveria escrever o nome da pessoa ou da coisa que estava tentando pisá-lo. “Semana que vem, quero que vocês coloquem esse papel dentro do sapato e venham pisando até aqui. Embrulhado nesse papel, vocês vão fazer uma oferta de 50 ou 100 reais”, demandou. Em seguida, afetou a voz aguda de quem reclama: “Pastor, eu não tenho condições”, e ameaçou: “O diabo vai pisar em você! Quem tem uma nota de 100? De 50? E quer doar agora?” Três pessoas se levantaram e depositaram as cédulas na urna.

O pastor da Igreja Universal do Reino de Deus não quis receber a repórter, nem mesmo revelou o nome, alegando não ter autorização para falar com a imprensa.

Seguindo adiante, chega-se a uma ponte, e depois dela, por fim, avista-se a placa para o aeroporto.

O aeroporto de Ilhéus leva o nome do homem que deu espessura literária à cidade e ensinou parte do mundo a conhecer o Brasil desde a Bahia. Jorge Amado viveu ali de 1 aos 18 anos, e retratou a sociedade cacaueira que o rodeou. O trecho em itálico no começo desta reportagem é uma compilação de trechos do mais famoso de seus romances do ciclo do cacau, Gabriela, Cravo e Canela, lançado em 1958. Antes, Jorge Amado já havia ambientado três romances na cidade: Cacau, Terras do sem Fim e São Jorge dos Ilhéus. Depois de Gabriela, Ilhéus ainda serviria de cenário para Tocaia Grande e A Descoberta da América pelos Turcos. O primeiro livro é de 1933; o último, de 1994. Professor titular de literatura brasileira da Universidade de São Paulo, Antonio Dimas não se lembra de nenhum personagem evangélico na obra de Jorge Amado. “Certamente, não existe nenhum com saliência narrativa.”


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Foi repórter da revista por doze anos, e fundou a rádio piauí. É diretora de criação da Rádio Novelo.