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DUAS MENINAS

Uma viagem à Índia para buscar minhas filhas gestadas numa barriga de aluguel
Imagem Duas meninas

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Chego à Índia por Ahmedabad, capital do estado de Gujarat. O voo que saiu de Dubai aterrissa às quatro e meia da madrugada. Sou surpreendida pelo saguão vazio do aeroporto: estava preparada para encontrar muita gente, em todos os lugares. Lá fora, na escuridão, dá para ver um amontoado de tecidos, montes de sacos de roupas, praticamente grudados na enorme parede de vidro. Só consigo espiar o horizonte acima da montanha de panos, e não vejo ninguém. Espero pela bagagem e penso que sair de lá pode ser minha primeira grande aventura, já que não anotei o telefone do guia contratado, o sr. Uday. Mas me garantiram que não tem erro, ele vai me encontrar.

Assim que as portas automáticas se abrem, os sacos de pano começam a se mexer. São pessoas, centenas, que estavam agachadas ou dormindo no chão, e agora, acordadas, colam a cara no vidro. O sr. Uday estará entre eles? No país todo, o acesso ao aeroporto só é permitido a quem tem cartão de embarque; familiares e amigos dos passageiros ficam do lado de fora. Já é começo de inverno aqui e faz 18 graus, muito frio para os indianos. De repente, um senhor de gorro preto acena em minha direção, segurando um celular. “Ribeiro, Ribeiro?” É a primeira vez que me chamam assim. Ele insiste: “Ribeiro, Ribeiro, eu vim buscar você.” É o sr. Uday, intuindo que eu seja eu. Ele iria se tornar uma personagem marcante da minha estadia.

Joga minhas malas enormes no bagageiro de seu carro pequeno, estacionado bem longe, e depois dá um chute com a sola do pé para acomodar tudo. “No problem, no problem”, ele repete. Seu inglês tem um sotaque carregado e sua voz fica mais aguda e alta quando está nervoso. Demorei a entender que ele estava revoltado com o preço da cebola (onion), não com o sindicato dos caminhoneiros (union). O sr. Uday fala sem parar e tem o estranho costume de rir muito quando dá uma notícia ruim. Por exemplo, sabe que fiz reserva no hotel para um mês, e diz: “Não desfaça as malas, o seu quarto vai estar ocupado no dia 27, hahaha.”

Meu destino é a cidade de Anand, a cerca de 90 quilômetros ao sul de Ahmedabad. Sento na frente, no banco do passageiro, boto o cinto. Ele não, a luz do painel do carro fica piscando o alerta. Ignora também as marcas das faixas. “No problem, no problem”, ele diz. Durante o percurso, assoa o nariz e enxuga o rosto o tempo todo com uma toalha. A mesma que usa pra limpar o celular, quando eu o peço emprestado para avisar meu marido que cheguei.

Em termos indianos, Anand é uma cidade pequena, de vocação rural – mas tem 200 mil habitantes, número igual ou maior de cachorros vira-latas que andam em bandos, além de vacas, burrinhos do tamanho de bezerro recém-nascido e pombos, muitos pombos. Como em toda a Índia, o trânsito é orientado pelas buzinas, não existe sinalização. Coladas nos ônibus, nos triciclos chamados de tuk-tuks e nos riquixás, as mesmas placas: Please blow horn – Por favor, aperte a buzina. A região de Anand é uma importante bacia leiteira e tem várias universidades. Nos anos recentes, tornou-se mais conhecida por causa das clínicas de fertilização humana, como essa da dra. Nayana Patel, de quem eu vim atrás.

No dia seguinte à minha chegada, acordo com o telefone tocando às 11h30. É a recepcionista do hotel. “O sr. Uday está aqui embaixo esperando.” Eu tinha marcado com ele às 15h30, uma vez que havia feito o check-in quase às sete da manhã, depois de uma noite inteira de viagem sem pregar o olho. Ele iria me levar até Vanita e seu barrigão de oito meses, que hospeda meus dois bebês desde o começo de abril. Peço para a recepcionista botá-lo na linha. “Algum problema?”, pergunto. “Não, mas você tem que vir comigo. Suas crianças estão um pouquinho nascidas.” A frase em inglês foi: Your children are a little bit born. Bato o telefone, troco de roupa e desço as escadas voando, desorientada. Não aviso ninguém. Anand está oito horas e meia à frente de São Paulo; Sérgio – meu marido e pai das “crianças um pouquinho nascidas” – deve estar dormindo.

Tomamos o rumo da clínica da dra. Patel. Vou martelando as mesmas perguntas. “O que aconteceu? São meninos, meninas, um de cada?” Minha voz treme, minhas mãos estão geladas, sinto um buraco no estômago. Ele repete a resposta, como um mantra: “Está quase chegando, está quase chegando.”

Na Índia, os médicos são legalmente impedidos de revelar o sexo dos bebês. Mesmo que esteja evidente no ultrassom, são obrigados a dizer que não sabem. Os exames mensais que recebi por e-mail trazem uma observação: “Eu, dr. Fulano, garanto que não vi nem revelei o sexo do(s) bebê(s).” Quem quebrar a regra perde a licença médica. Nas camadas mais pobres da população, é comum o aborto de bebês meninas, daí a criação da lei nacional. As famílias mais ricas adornam e exibem suas filhas quase como um troféu: é uma maneira de mostrar que as meninas não dependem de um bom casamento para levar uma vida confortável.

Na clínica, me encaminham a uma salinha, onde uma indiana muito simpática me dá os parabéns. “Nasceram?”, pergunto. Ela sorri e sai da sala, pedindo um minuto. Entra uma segunda mocinha, que me oferece água. Eu recuso e pergunto de novo: “Nasceram?” Ela repete a cena – dá um sorriso e sai da sala. Quando entra a terceira, boto o braço na porta, impedindo que ela escape. Com ar ameaçador, insisto: “Nasceram?” Ela diz que sim. “Duas meninas muito saudáveis.”

Tudo começou no Réveillon de 2012 para 2013, quando pela primeira vez uma promessa minha de Ano-Novo foi cumprida à risca: dar um basta nas tentativas de engravidar. Em outro Réveillon, de 2005 para 2006, o plano tinha sido o oposto: vamos ter um filho. Sérgio e eu havíamos nos mudado para Washington naquele ano. Combinamos de fazer o pré-natal lá e o parto aqui. Foram quatro os anos em Washington e já estávamos em São Paulo havia três, sem filhos. Sete anos no purgatório da infertilidade. Sete anos com direito a aborto espontâneo, inseminações artificiais, fertilização in vitro e quatro médicos especialistas. Foi o último deles, meu ginecologista e confidente até hoje, quem me contou que na Índia havia clínicas como a da dra. Patel, nas quais mulheres que atuam como barrigas de aluguel ficam juntas em uma casa – escolhem entre passar os nove meses ou apenas o último período –, com alimentação controlada, fazendo todos os exames durante a gestação e, se quiserem, cursos de culinária, inglês, tricô e costura.

Na primeira semana de janeiro de 2013, entramos na fila da adoção. No final daquele mês, Patrícia Campos Mello, repórter especial da Folha, iria à Índia investigar assuntos de economia, e eu soube que ela estava à procura de mais alguma matéria, a fim de aproveitar melhor a viagem. Movida por curiosidade pessoal, mas certa de que o assunto tinha interesse abrangente, sugeri a pauta e ela foi atrás. Quando Patrícia voltou ao Brasil, corri à mesa dela com uma única questão: “Dá para encarar?” Ela disse que sim, que tinha saído daqui pensando numa matéria de denúncia contra a exploração de mulheres pobres, mas que ao chegar lá mudou de ideia. “Você teria coragem?”, perguntei. “Lógico”, ela respondeu. “Então me passa o endereço.”

Meu primeiro e-mail à dra. Nayana Patel mais parecia uma carta desesperada. Ela me respondeu de maneira prática, em menos de 24 horas. Sim, poderia me ajudar. Havia uma lista de espera, mas, como eu tinha sido recomendada pela Patrícia, ela poderia me encaixar na época das minhas férias. Para começar o tratamento, preparar a “barriga” e transferir os embriões produzidos, o custo inicial seria de 8 500 dólares. Se o resultado fosse positivo, os outros pagamentos seriam feitos no terceiro e no sexto mês de gravidez, num total de 45 mil dólares. Se a gravidez não vingasse, para começar de novo seriam outros 8 500 dólares. Em caso de gêmeos, o total ficaria em 51 500 dólares.-

A clínica dela e do marido é a mais conhecida da Índia: a médica já foi entrevistada na tevê pela apresentadora norte-americana mais conhecida, Oprah Winfrey, e apareceu com destaque numa reportagem da revista Forbes. Diz que propiciou o nascimento de 700 bebês, em mais de 500 gestações – os clientes vieram do mundo todo, sobretudo do Japão, da Austrália, do Canadá e dos Estados Unidos.

Eu já tinha ouvido falar de barrigas de aluguel durante os dez anos que moramos entre os Estados Unidos e São Paulo. Não era um assunto de todos os dias, mas volta e meia uma dessas atrizes de Hollywood aparecia com um bebê nascido de outra mulher. Nicole Kidman teve sua segunda filha biológica assim, Sarah Jessica Parker teve gêmeas assim. E, nas conversas com obstetras norte-americanos, esta é uma opção que se apresenta a qualquer casal que sofra para engravidar, assim como entre nós os especialistas brasileiros propõem a adoção.

Em alguns estados americanos, bem como na Índia, é permitido comercializar a hospedagem de uma gestação. Também permitem a prática Tailândia, Ucrânia, Rússia, Nepal, Polônia, México e Geórgia. Outros países a proíbem terminantemente, como é o caso da França, Alemanha, Itália, Espanha, Bulgária e Portugal. No Reino Unido, na Irlanda, na Dinamarca e na Bélgica, ela é permitida, desde que o pagamento à mãe de aluguel seja mínimo, suficiente apenas para as despesas básicas. Ou seja, ninguém pode viver disso.

No Brasil, a lei é no mínimo questionável. Proíbe-se a comercialização da barriga de aluguel, mas é permitido que alguém “empreste” o útero, desde que não receba dinheiro. Além disso, até bem recentemente um casal só podia recorrer a esse expediente se tivesse um parentesco de primeiro ou segundo grau com a mulher que aceita engravidar. Ou seja, mães podem ser hospedeiras de embriões de filhas, e vice-versa, assim como irmãs, primas e tias entre si. Fiquei imaginando como seria minha festa de Natal nesse cenário…

Mas a legislação do país está mudando. Já é possível conseguir uma autorização para que mulheres sem parentesco emprestem a barriga, desde que não ganhem nada por isso. O bebê é registrado em nome da mãe de aluguel e depois ocorre a transferência legal para os pais biológicos. Se a gestante é casada, a certidão pode trazer o nome do marido como pai do bebê. Ultimamente, porém, algumas decisões judiciais têm facilitado o registro de bebês gerados por barriga de aluguel, e pais biológicos têm conseguido registrar seus filhos com o nome deles, sem menção à gestante. De várias pessoas a quem contamos como tivemos nossas filhas, ouvimos a mesma pergunta: “Vocês não tiveram medo de que a indiana não quisesse entregar as meninas?” Não existe tal hipótese onde a “locação de útero” é regulamentada por lei: os pais seríamos nós, desde sempre.

E eu só queria ter um filho, ou uma filha, e não mudar uma lei. Não era assim que eu estava disposta a enfrentar o meu problema. Mas também não dispunha dos 100 mil dólares do preço inicial que exige um tratamento nos Estados Unidos, país que conheço bem, e onde saberia me virar melhor. Na Tailândia, soube depois, o valor gira em torno de 52 mil dólares. Na Ucrânia, na Geórgia e no México, fica entre 40 e 50 mil dólares.

Não fizemos pesquisa de preço: a clínica da dra. Nayana seria a única tentativa que faríamos fora do Brasil. Como já havíamos nos inscrito na fila da adoção, mesmo se a experiência por lá não desse certo, tínhamos certeza de que dentro de alguns meses, ou anos, teríamos um bebê no colo.

Na Índia, a barriga de aluguel foi legalizada em 2002 e movimenta 1 bilhão de dólares por ano. O custo relativamente baixo, aliado à alta tecnologia disponível, fica ainda mais atraente pela legislação do país. A mãe de aluguel não tem nenhum direito sobre o bebê e seu nome não aparece na certidão. A criança é reconhecida com a nacionalidade dos pais biológicos.

Fizemos apenas uma tentativa, com dois únicos embriões. E seguimos de férias. Primeiro Paris, depois Istambul, num grupo de quarenta pessoas convidadas por um amigo querido, que queria comemorar seus 50 anos. O último dia da viagem, 13 de abril, era a data marcada para o teste de gravidez de Vanita, a indiana de 28 anos que seria nosso “útero de substituição” – mediquês polido para barriga de aluguel. Acordamos no hotel em frente ao Bósforo, no lado asiático da maior cidade da Turquia, e fomos os dois checar os e-mails. Nada. O fuso horário entre Istambul e Anand é de apenas duas horas e meia, dava para telefonar, no problem. A dra. Nayana atendeu e foi logo me dando os parabéns. “O resultado do exame de gravidez de Vanita foi positivo. Vocês estão esperando um bebê.” Sem saber o que fazer com a notícia, chamamos para o quarto o meu melhor amigo e a minha irmã, que também participavam da viagem. Ninguém tinha certeza do que comemorar, o que contar para os outros, o que manter em segredo. Decidimos esperar as tais doze primeiras semanas de praxe.

Descemos para a última noitada turca. Em homenagem ao amigo que nos convidou, um de nós cantou, outro declamou um poema, uma puxou uma dança de roda. A cada gesto, de qualquer pessoa, eu intimamente agradecia a deixa para poder demonstrar minha emoção e chorava. Primeiro de alívio, depois de aflição, de alegria, de medo. Fiquei a noite inteira com a mesma taça de champanhe na mão, me sentindo bêbada e fingindo um pouco, para justificar a falta de assunto e de apetite, além do olho vermelho e borrado.

De volta a Paris, passamos muitas horas encarando as ripas de madeira escura no teto do quarto do hotel. Três dias depois da notícia, chegou um exame de confirmação. O número do hormônio da gravidez tinha dobrado. Mandei uma mensagem para a dra. Patel: “Podem ser dois bebês?” “O número está bom”, ela respondeu. Era o primeiro dos muitos e-mails sem respostas objetivas que eu receberia nos próximos sete meses e meio.

Os aspectos jurídicos que envolvem esse tipo de fertilização são extremamente minuciosos. Antes que qualquer material humano seja coletado, o casal que contrata os serviços da dra. Nayana passa pelo escritório de um advogado, ao lado da clínica. Lá, assina diversos documentos e precisa prever situações sobre as quais, imagino, a maioria dos casais que engravidam não precisa pensar antecipadamente. O que acontece com o bebê se o casal se separar? E se um dos dois morrer? E se os dois morrerem? E se a criança tiver algum defeito físico? E se o problema for diagnosticado antes do nascimento?

Como ninguém sabia que estávamos planejando essa gravidez “atípica”, colocamos nossos pais, à revelia deles, como os responsáveis pela criança em caso de morte do casal. Até aí, tudo bem. Essa era a parte fácil. A difícil, relativa aos problemas congênitos, resolvi internamente refletindo que cada momento tinha sua carga dramática, e a daquele dia era assinar os papéis. Nunca mais pensei nisso: durante os meses de gestação fui tomada pela certeza de que nada de ruim aconteceria, que a gravidez é um processo feito para dar certo, aprimorado ao longo da existência humana.

Estou num quarto imenso do hospital Zydus, de frente para a avenida mais movimentada de Anand. É a continuação da estrada principal que desemboca na cidade e tem tráfego intenso de caminhões, carros, tuk-tuks e motos que carregam de uma a cinco pessoas, muitas crianças.

Minhas filhas nasceram cinco semanas antes do previsto, com quase 2 quilos cada uma. E três dias antes de eu conhecê-las. O parto aconteceu no dia 15 de novembro, enquanto eu voava de São Paulo para Dubai, escala obrigatória do voo. Quando as vejo pela primeira vez, elas estão na unidade de prematuros, enroladas num pano azul. São do tamanho do meu antebraço. Uma é bem branquinha e careca, a outra é mais morena, com bastante cabelo, preto e liso. As enfermeiras as acham idênticas e as diferenciam pela marquinha de nascença que uma delas, a moreninha, tem na testa. No hospital, elas são identificadas como “Daughter of Tete Ribeiro A” e “Daughter of Tete Ribeiro B”. A menina B, a branquelinha, já está no quarto comigo desde ontem, quando me informaram que, como eu não tinha filhos, não era muito seguro liberar as duas de uma vez. Precisavam ficar de olho em mim, ter a certeza de que as minipacientes estariam em boas mãos, de que eu sabia o que estava fazendo.

Chamo a que está comigo de Cecilia. Ela está toda melecada, os indianos não dão banho em prematuros, acreditam que a placenta proteja a pele. Mas as plaquinhas na cabeça cheiram mal, e de madrugada limpo tudo com óleo e uma escovinha. Ela perdeu 200 gramas e precisa recuperar o peso para tomar as primeiras vacinas. Quase não tem fome, mas as enfermeiras entram de hora em hora para empurrar um pouco de leite goelinha abaixo. Ela mal abre o olho, e eu mal fecho o meu. Hipnotizada, fico olhando para a bichinha miúda, magrinha, magrinha, sobrando nas três camadas de roupa de recém-nascido.

Sérgio já chegou. Saiu de São Paulo assim que dei a notícia e desembarcou ontem de madrugada em Anand. Veio direto para o hospital, com a roupa do voo. Providenciaram um uniforme de enfermeiro a meu pedido – achei que seria mais higiênico para o contato inicial com as filhas. Ele anda de um lado para o outro vestindo um pijama azul com o logotipo do Zydus no bolso esquerdo da camisa. Quando as enfermeiras entram e perguntam: “Ele é o pai?”, não hesito e confirmo que sim, ele é o pai. Mas quando me perguntam se eu sou a mãe, respondo que sim, torcendo para ninguém reparar na minha insegurança. Nas primeiras fotos que o Sérgio fez isso fica explícito: estou sentada na cama, de pernas cruzadas, olhando a Cecilinha enrolada numa manta, sem encostar nela. O Sérgio logo se revela o fotógrafo oficial da nossa jornada, é dele a maioria das fotos das nossas filhas. Eu faço uma ou outra, só quando uma imagem me parece muito imperdível, o celular está à mão e eu não tenho nada urgente para fazer (como xixi, por exemplo). A combinação é raríssima, e é assim até hoje.

Lá na Índia, meu sentimento de inadequação é consumido pelo cansaço, e em dois dias passo de bicho acuado a predador enfurecido. E as imagens seguintes revelam a transformação. Durmo na cama de hospital com a menininha grudada em minha barriga, eu de roupa e sapato, já que dias e noites não fazem muito sentido quando o intervalo entre as mamadas é tão curto (e quando o café da manhã tem cara de jantar, como é o caso do cardápio do hospital).

Sou aprovada no primeiro teste da maternidade, pois no dia seguinte liberam também a moreninha para ficar no quarto com a gente. Mais magrinha que a Cecilia, tem os olhos alertas, como quem já quer saber das novidades do mundo. Ainda não nos decidimos pelo nome dela, estamos entre Nina e Rita. Elas quase não se mexem, dormem enroladinhas num cobertor, cada uma no seu, dividindo o mesmo bercinho de acrílico, alto e com rodinhas, onde está escrito “Daughter of Teta (sic) Ribeiro B” – foi nele que me trouxeram Cecilia. Parecem indiferentes ao incessante buzinaço lá de fora.

Vanita tem muito leite, que as bebês tomam com muito mais facilidade do que o em pó. O marido dela nos visita três vezes por dia para deixar a produção de leite materno. A partir do terceiro dia, passa a trazer Aarav, o filhinho deles de 5 anos. Sandip, o marido, tem 20 e poucos anos e fala um pouquinho de inglês. Nossa comunicação é truncada mas afetuosa. Ele me diz que a mulher quer conhecer as meninas. Vanita deu à luz sedada, fez uma cesariana, e as recém-nascidas vieram direto para o hospital, sem passar por ela, que segue internada na clínica da dra. Patel até se recuperar da cirurgia. Algumas mães que recorrem a esse tratamento não querem nenhum contato de seus bebês com a barriga de aluguel, e a clínica espera que cada uma se manifeste e diga se quer ou não conhecer a barriga. Como não fui informada do protocolo, ou pelo menos não me lembro dele, demoro a me manifestar, atordoada pelas novidades. Só depois de dez dias pergunto a Sandip quando podemos apresentar as bebês à sua mulher. Ele deixa claro que estava esperando que eu fizesse o primeiro movimento, e depois me arrependo por meses de ter demorado tanto a propor o encontro. É a primeira culpa que sinto na condição de mãe.

Após cinco dias no hospital, nos transferimos para o hotel. Acabamos chamando a morena de Rita, com a condição de sempre nos referirmos a elas como “Rita e Cecilia”, e não o contrário, para evitar a cacofonia. Elas agora mamam de duas em duas horas e atingiram a marca de 2 quilos cada uma na última pesagem. A pediatra do hospital, dra. Biraj, havia nos perguntado se queríamos seguir a agenda de vacinas indiana ou americana. Ponderando que o Brasil seria mais parecido com a Índia, escolhemos a deles. A diferença é a vacina de pólio, que os americanos já não tomam mais.

Elas são vacinadas no mesmo dia contra pólio, BCG e hepatite B. A primeira é uma gotinha pingada na boca, as outras duas são injetadas, uma em cada coxa. A médica me pede para conter o bracinho da Rita enquanto ela aplica a primeira vacina, com uma agulha que me parece enorme e grossa em relação à perna de 3 centímetros de diâmetro, se tanto. A bichinha berrou, me olhando no olho, chocada com a dor e a traição. Chorei junto enquanto ela levava a segunda picada e então pedi socorro – saí correndo com ela, deixando a segunda para trás, com o pai. Pelo menos uma delas não teria essa lembrança de mim. Ou, na verdade, pelo menos eu não teria essa lembrança. O leite continua chegando três vezes por dia, religiosamente. Já estabelecemos uma comunicação sem palavras com Sandip, Aarav, para quem dou sempre um bombom, e o amigo deles, motorista do tuk-tuk que os traz. Às vezes o motorista vem sozinho e precisa esperar uns minutinhos enquanto esterilizamos o pote que ele deve levar de volta. Ele tira o sapato, senta na cama onde as meninas dormem, cutuca as unhas do pé com a mão e pede o controle da tevê.

O inverno inaugura a temporada de casamentos por aqui. Como não chove de outubro a março e as temperaturas são amenas, entre 20 e 30 graus, o clima é perfeito para festas ao ar livre. O hotel Madhuban, onde estamos, é especializado em casamentos. Os noivos muito ricos reservam todos os quartos por dois ou três dias, com um ano de antecedência. Durante as comemorações, os hóspedes que eventualmente estiverem por lá são obrigados a procurar outro pouso.

Já ocorreram alguns casamentos no hotel desde que chegamos do hospital – as bebês estão com duas semanas – e ninguém nos expulsou até hoje. “Os noivos não eram tão ricos”, me explicou o sr. Uday. Dei uma espiada numa das festas. Indianas pobres, vestidas com sáris, trabalhavam segurando uns postes para iluminar o espaço, uma das cenas mais chocantes que testemunhei. Elas ficavam paradas, como postes mesmo, a noite inteira, sem dar um pio, sem tomar uma água, sustentando a iluminação extra da festa. A música ficava por conta de uma bandinha de homens uniformizados. O sujeito que puxa o canto se mantém no escuro, não é nem o líder da banda nem a estrela, é quase um roadie, o cara indispensável mas invisível. “Mas amanhã quem vai casar é o rei do diamante de Mumbai”, continuou o solícito sr. Uday. O casamento terá mil convidados, numa festa que vai se estender por um dia e duas noites. Durante os preparativos, consigo ver um pouco da decoração, toda de rosas e cristais. O noivo vai chegar numa carruagem enfeitada de pedras, puxada por dois cavalos brancos, um Cinderelo.

Graças à influente dra. Nayana, nos acomodam na casa de hóspedes do dono do hotel, a uns dez minutos de lá. Um sobrado agradável, numa rua sem saída e pavimentada. Planejo cozinhar um macarrão na cozinha enorme, comeremos na mesa redonda da copa. Será a primeira experiência como uma família normal, e estou feliz com a perspectiva. Irei ao mercado, farei as compras e deixarei a tevê da sala ligada num filme, com o som baixinho, enquanto espero o ponto da massa, de vez em quando espiando as bebês que dormem no sofá, uma de cada lado do pai. Mas, chegando lá, os planos vão por água abaixo. Primeiro, uma surpresa: os banheiros têm privada, mas não descarga. Após o uso, cada um enche o balde que fica no chuveiro e despeja água no vaso. Depois, o outro hóspede da casa não acha a menor graça na turma que apareceu de repente. Finalmente, o caseiro, muito simpático, fica meio sem lugar quando a gente senta no sofá da sala – cama dele, descubro depois – para dar mamadeira para as duas.

Pronto, fim da lua de mel doméstica. À noite assistimos na tevê Quem Quer Ser um Milionário, e dessa vez reparo com certa gastura nas cenas que evidenciam a falta de limpeza das pessoas e dos lugares. Quando vi a primeira vez, num cinema independente em Washington, foi a violência que me marcou.

Durante a temporada indiana, tenho dois probleminhas crônicos. Uma dor de estômago que vai e volta sem piedade, e uma alergia na região dos olhos, que ficam vermelhos e coçam, deixando a pele machucada, grossa, ressecada. Mas nenhum dos dois tira minha alegria. Adoro tudo: a comida, o sotaque, o hotel, o fato de estarmos juntos e sozinhos no começo da vida das nossas filhas.

Desde que começaram minhas tentativas de engravidar, foram muitas as minhas alterações de humor, causadas tanto pela ansiedade quanto pelos hormônios injetados, engolidos em forma de pílulas ou colados na pele, e outras violências do tipo. Certa vez, quando ainda morávamos em Washington, briguei com uma garota no trânsito por uma vaga de estacionamento. Estávamos numa ladeira e saímos no braço. Ela levou a pior, tropeçou e caiu de costas, com as pernas para cima. O namorado dela largou o carro e veio correndo, gritando “FBI!!! FBI!!!”. Voltei para o nosso carro alugado e decidimos devolvê-lo. Passamos o resto do fim de semana com medo de ouvir alguém bater à nossa porta, mas não aconteceu nada. Quando espiei o papel de locação do automóvel, vi que a mocinha que nos atendeu havia se confundido ao ler a carta de habilitação, brasileira. No lugar do nome do motorista, escreveu Saul Paul, sua versão para a cidade que expediu o documento. Estávamos salvos.

Noutra ocasião, já no Brasil, tomei o celular da mão de um garoto de uns 10 anos que estava ao meu lado no cinema e não parava de falar. Atirei o aparelho na tela. Saí correndo, desci as escadas rolantes a mil por hora e lá de cima vi uma turma de uns oito meninos que mal batiam no meu ombro, apontando para o segurança: “É aquela ali!” Na época, eu trabalhava na tevê, no programa Saia Justa, e passei umas boas semanas convencendo a cabeleireira e o maquiador a testarem novos visuais, com medo de ter meu rosto reconhecido.

Rita e Cecilia completaram quinze dias e receberam visitas e presentes: dois ursinhos, dois brinquedinhos de corda e uns periquitinhos movidos a pilha que cantam quando alguém bate palma ou aperta um botão. Foram oferecidos por Vanita, Sandip, Aarav e o motorista. Sandip armou o brinquedo com os periquitos e me ensinou como funciona, enquanto Vanita conhecia as meninas que cresceram na sua barriga.

Num quarto de hotel é difícil experimentar ou proporcionar um ambiente reservado: se eu quisesse deixá-la a sós com as bebês, seria preciso me trancar no banheiro. Vanita não fala nada de inglês, nossa comunicação se dá por sorrisos, gestos e aquela balançadinha de cabeça que os indianos fazem e que até agora não sei se significa sim ou talvez. (Tento imitar na frente do espelho, mas meu pescoço não tem a manha necessária.)

Depois de pegar as meninas no colo, uma de cada vez, Vanita sentou na cama, cruzou as pernas e acomodou as bebês no triângulo formado embaixo do ventre. Rita gostou da posição, dormiu na hora; Cecilia, que quase nunca abre os olhos, olhou muito para ela. Sem querer interferir, me dediquei a entender como funcionava o brinquedo de periquitos. Eu e o menino Aarav éramos os mais sem graça no encontro, não sabíamos direito o que fazer com as mãos. Resolvi o problema dele dando dois bombons, em vez de um. Passei três ou quatro camadas de creme nas mãos, precisava de uma ação qualquer. Na hora de dar banho nas meninas, Ritinha quase saiu voando quando tirei a roupa dela, de tão besuntadas que tinham ficado minhas mãos.

O leite que Vanita manda às vezes chega quase quente no potinho, trazido dentro de um saco plástico no tuk-tuk aberto. Uma enfermeira brasileira que me ajuda com as meninas acha que seria melhor jogar tudo fora. No Brasil, ela me diz, os pediatras ensinam que leite materno tem que ser refrigerado assim que é tirado do peito, ou corre o risco de estragar. Por mensagem de celular, peço o parecer de dois médicos brasileiros, e ambos me aconselham a descartar o leite materno e ficar com a fórmula em pó, que inclusive faria os bebês ganharem peso mais rápido. Decido descartar esses palpites à distância. E, quando chega a encomenda, minhas filhas tomam mamadeiras de leite materno na temperatura ambiente, seja ela qual for.

Abri uma conta no Instagram para postar fotos das meninas aos amigos e familiares. Para não parecer completamente monotemática, incluo imagens da Índia em que vivíamos, muito reduzida e particular. Quando vou à cidade com o sr. Uday, em geral para comprar fraldas, leite em pó ou roupas de bebê, peço que ele pare o carro a cada cena que julgo curiosa. Ainda não consegui nenhuma foto boa das vacas na rua. Ele não gosta desse assunto, me corta sempre com a mesma frase: “Don’t worry about the cows”, Não se preocupe com as vacas. Com o tempo entendo que não é para eu não sentir pena das vacas, mas sim para ignorar o fato: o guia se envergonha das coisas que revelam a pobreza do país.

O sr. Uday tem 56 anos e fala cinco dialetos locais, além de hindi e inglês. É cristão, bem como Vanita e o marido, num país de maioria hindu. Foi colega de escola do dr. Hitesh Patel, o médico responsável pela clínica, casado com a dra. Nayana. Foi por causa da amizade de anos que ele se tornou o braço direito da dra. Nayana. Transporta visitantes e pacientes do aeroporto para a cidade e vice-versa. Arranja também quartos de hotel, acompanha as mulheres para comprar tecidos, ajuda os visitantes a se desembaraçar da enorme burocracia que envolve ter filhos fora do país e repatriá-los. Logo na primeira noite, no trajeto entre o aeroporto de Ahmedabad e o hotel, ensino ao sr. Uday uma superstição de adolescência, que nem sei de onde vem. Toda vez que a gente cruza um trilho de trem dentro do carro, todos tiram os pés do chão e encostam as mãos no teto. Ele se diverte com a ideia. Ao passarmos por um cruzamento ferroviário, repete o gesto, acompanhado da expressão “Jesus, Jesus”, característica sua.

Eu já estava no país havia pelo menos três semanas quando pedi que ele nos levasse a uma loja de sáris. No caminho, ele se referiu a mim diversas vezes como “Ribeiro”. Provoquei: “Sr. Uday, nós nos conhecemos há tanto tempo e o senhor ainda não decorou o meu nome?” “Seu nome é mulher do Sérgio. Suas filhas se chamam filhas do Sérgio.” Ele me explica que um homem, ao conhecer a família de um amigo, não se dirige a nenhum dos membros pelo nome, e sim pela relação com o amigo oficial. Quando percebe minha indignação, elucida que acontece o mesmo com as mulheres. Se eu tiver uma amiga indiana, por exemplo a dra. Biraj, pediatra das bebês, e vier a conhecer o marido dela, ele será para sempre “o marido da dra. Biraj”.

Ele também me conta que sonhava se casar com uma mulher de nome Grace. Quando conheceu a esposa, que tinha outro nome, passou a tratá-la por Grace. Pergunto se ele deixaria que ela mudasse o nome dele e ele nega peremptoriamente. Mas insiste que não é por machismo, e sim porque tem um nome bonito e importante: diz que Uday quer dizer “nascer do sol”, portanto nenhum dia começa sem ele: “Até o Saddam Hussein tinha um filho chamado Uday, para você ter uma ideia.”

Mudamos de hotel e de cidade em 10 de dezembro, quando três grandes casamentos consecutivos iam nos expulsar do Madhuban por quase uma semana seguida. Vamos para Nadiad, uma cidade mais turística, onde Gandhi dormiu uma noite em sua “Marcha do Sal”, entre março e abril de 1930.

Na véspera, na consulta semanal com a pediatra, recebi a notícia pela qual ansiava em todas as minhas insônias indianas: Rita e Cecilia, pesando 3 quilos cada uma, estão fit to fly – prontas para voar. Era o que faltava de uma longa lista para a gente poder voltar para casa. A legislação indiana e a brasileira têm um encaixe perfeito para esse caso. Legalmente, Rita e Cecilia não são cidadãs indianas; são brasileiras, filhas minhas e de Sérgio, que nasceram em Anand, como tantos outros bebês brasileiros que nascem durante uma temporada dos pais fora do país. Se nossa vontade fosse fingir que elas tinham saído da minha barriga, era só inventar uma boa desculpa para ter ido a uma cidadezinha rural no interior de Gujarat aos sete meses e meio de gestação. Nunca pensamos nessa possibilidade.

Mas elas precisam de passaporte e visto para sair da Índia – documentos que só podem ser obtidos em Nova Delhi, com apoio do consulado brasileiro. Os delas foram providenciados há dez dias, pelo Sérgio, que acabou sendo enganado pelo despachante. O custo para obter vários carimbos em diversas repartições, tarefa aparentemente impossível de ser levada a cabo por um estrangeiro, tinha sido pré-combinado com um contato do sr. Uday: 3 mil rupias (cerca de 110 reais). Chegando à capital indiana, Sérgio foi informado que deveria desembolsar 30 mil. Quando soube do acontecido, o sr. Uday ficou furioso e garantiu que o tal despachante entregaria os papéis carimbados no dia seguinte, junto com o troco do golpe. Vieram só os papéis.

Fomos a Anand nos despedir de Vanita e sua família. Decidimos fazer uma foto, todos juntos, na porta do hospital Zydus, em frente a uma árvore florida, mas um segurança disse que era proibido. Então eles nos acompanharam ao hotel em Nadiad, a meia hora dali, em busca de um bom cenário. Vanita, Aarav, Rita, Cecilia, Sérgio e eu nos instalamos no carro do sr. Uday; Sandip foi na moto emprestada de um amigo. Ouvi a voz de Vanita pela primeira vez, enquanto ela conversava em hindi com o sr. Uday. No hotel, fizemos vários cliques no jardim, e então, prometendo manter contato por e-mail, nos despedimos, com abraços constrangidos e apertos de mão entre os de sexo diferente. Vanita deu vários beijinhos nas cabecinhas das bebês.

Vanita e Sandip parecem muito apaixonados um pelo outro. Dizem que optaram por entrar nesse processo depois que ela viu uma amiga fazer o mesmo. Para ser uma barriga de aluguel na clínica da dra. Nayana, as mulheres têm que ser casadas e já ter tido pelo menos um filho. E podem fazer o procedimento no máximo três vezes. Vanita, Sandip e Aarav não têm ninguém no mundo a não ser um ao outro. O pai de Sandip morreu quando ele era pequeno. Sua mãe se casou de novo, mas o marido dela não aceitou o filho; o menino foi entregue ao avô materno, que morreu em seguida. Sandip morava na mesma vila que Vanita, uma garota bonita e disputada, cuja família tinha um noivo prontinho, esperando por ela. Quando Vanita decidiu se casar com Sandip – e não com o noivo arranjado – foi deserdada pelos pais. Em seguida engravidou e não pôde mais trabalhar, pois não tem quem cuide do filho. Disse que vai guardar para os estudos do menino o dinheiro que ganhou como barriga de aluguel. Mas não quer repetir a experiência, me conta Sandip. Se for para passar por outra gravidez, será para dar um irmãozinho ou irmãzinha a Aarav, que vem cobrando.

Na última noite na Índia, sexta-feira 13 de dezembro, o sr. Uday chega para nos levar ao aeroporto de Dubai uma hora antes do combinado, às 22h30. Liga da recepção dizendo que preferiu se adiantar com medo de pegar no sono, mas que era para a gente não ter pressa, que saíssemos na hora que quiséssemos. Minutos depois bate à nossa porta, agindo do modo oposto ao que havia combinado. Vestia o mesmo gorro preto que usava quando foi me buscar em Ahmedabad, temendo o frio da madrugada.

Corremos. O carro fica entupido de coisas e de gente. Sérgio senta na frente, com as passagens e os passaportes de todos nós. Eu me acomodo no banco de trás, com as meninas no colo, cada uma enfiada em uma tira de pano, o sling. Elas são miudinhas e afundam no negócio, é preciso segurar no braço, o sling serve como um cobertorzinho.

O sr. Uday puxa conversa, se diz preocupado com o fato de não ter visto o Sérgio fazer nenhum exercício durante o mês na Índia. Insistiu: “You have to be fit, Sérgio.” Testou-nos perguntando o que era melhor, pedalar ou andar, e então se antecipou com seu veredito: “Bicycling is the best exercise!” Como o Sérgio não engata nenhuma conversa com ele, o sr. Uday improvisa, indagando sobre nosso ritual de Natal. Conta que o deles tem ceia, missa e cantoria. Para encurtar o assunto, Sérgio diz que a gente faz mais ou menos a mesma coisa. Então o sr. Uday propõe que eles cantem juntos, e começa a entoar Noite Feliz em hindi, com uma voz bem mais grave da que usa no dia a dia. Dorme em paz, ó, Jesus.

Na entrada do aeroporto, ele para o carro o mais perto que pode, mas ainda longe do portão principal. Saltamos no meio daquele mar de gente com a cara colada no vidro, levando nos braços a família que viemos encontrar.


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Teté Ribeiro, editora da revista Serafina, da Folha de S.Paulo, é autora de Divas Abandonadas, lançado pela editora Jaboticaba.