carta de Buenos Aires

O ETERNO NAUFRÁGIO

Impressões da crise argentina depois de um ano em Nova York
Imagem O eterno naufrágio

35 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Volto à Argentina depois de um ano no exterior. Um ano é muito tempo na Argentina. E ao mesmo tempo não é nada. Como escreveu V. S. Naipaul no ensaio “Argentina and the ghost of Eva Perón, 1972–1991”: “Talvez muito pouco do que acontece na Argentina seja notícia, porque não há movimento para a frente: nunca se resolve nada. A nação parece jogar um jogo consigo mesma, e a vida política é como a vida de uma comunidade de formigas ou de uma tribo da selva africana: cheia de acontecimentos, cheia de crise e de mortes, mas a vida é puramente cíclica, e o ano sempre termina como começa.”

É a noite de 6 de agosto, faz uma semana que o mundo está discutindo o novo default do país, o calote da dívida, e o governo nega que ele exista. O dólar blue (paralelo) está nas alturas, cotado a 12,80 pesos – estava a 8,90 pesos quando saí, no final de agosto de 2013 – e a inflação anual beira os 40%. O governo diz que está tudo bem, que estão exagerando; a oposição alerta que caminhamos para o colapso total. Ontem, Estela de Carlotto, líder das Avós da Praça de Maio, encontrou Guido, o filho de sua filha assassinada num campo clandestino em 1978. Guido tinha poucas horas de vida quando foi roubado; hoje tem 36 anos. Meio país chora de alegria por ela, por sua filha morta, pela criança perdida e pelo homem recuperado. Uma quadrilha de ladrões entrou na casa do jornalista Bobby Flores. Não dá para viver assim.

Ou seja, a costumeira dose diária de drama que alimenta os argentinos.

Nos Estados Unidos, de onde venho, fala-se da iminência de outra catástrofe econômica, lá, no fim do continente, ou talvez do mundo. Correspondentes e colunistas escrevem sobre a Argentina com a condescendência que se dedica a casos perdidos. Há alguns meses, o país foi capa da revista The Economist, com o título: “A tragédia da Argentina: um século de decadência.” A proprietária do apartamento que alugamos no Harlem, professora de economia, me olhou compreensiva quando lhe disse que queríamos renovar o contrato por mais um ano. “Claro, a situação lá está tão ruim.” Aos olhos dela, somos exilados econômicos. O New York Times citou uma senhora de classe média de Buenos Aires que garantia que a Argentina “nunca” tinha estado pior. Um colunista do mesmo jornal dizia que a Argentina “está prestes a se tornar uma Venezuela”.

O que ninguém entende, protestam os colunistas, é como isso pôde acontecer num país com tamanha riqueza natural, com gente tão inteligente e sensual. Muitos evocam a triste frase do Nobel de Economia Paul Samuelson: “Economicamente, há quatro categorias de países: os naturalmente muito ricos, que por isso são ricos; os naturalmente pobres, que por isso são pobres; os naturalmente pobres, que são muito ricos (caso único: Japão); e os naturalmente muito ricos, que, no entanto, são pobres (caso único: Argentina).”

A melhor coisa de voltar para a Argentina é que aqui ninguém nos pede explicações.

A primeira recomendação de nossos amigos quando anunciamos que estaríamos em Buenos Aires em agosto foi: “Tragam dólares.” Se você tem dólares, o choque não é tão forte quando se depara com a conta do café com leite e croissant que um ano atrás custavam 30 pesos, porque os 50 pesos que custam hoje passam a ser divididos por oito, ou por dez, ou por quinze. O problema é por quanto dividir, exatamente. Ou, dito de outro modo, quantos pesos vale 1 dólar.

O chamado dólar oficial – isto é, segundo a cotação fixada pelo governo – equivale, no momento em que escrevo, a 8,38 pesos. Daqui a alguns dias, quando você estiver lendo este artigo, certamente valerá um pouco mais. Quando saímos, há um ano, valia meros 5 pesos.

dólar blue, isto é, o dólar comprado e vendido ilegalmente nas chamadas cuevas do mercado paralelo (todo cidadão de classe média tem seu cuevero de confiança), chegou há poucos dias a exatos 15 pesos. Quando saímos, valia 8,90.

Também existe o dólar cartão ou turista, que requer uma explicação. Para manter seu modelo exportador com alto consumo interno, o governo impôs um controle quase absoluto sobre o mercado de câmbio, conhecido como “cepo”. O governo afirma que todo mundo pode comprar ou vender dólares livremente, mas na realidade é quase impossível conseguir dólares pelo câmbio oficial. Para comprá-los, é preciso um certificado da Receita atestando que o nível de renda da pessoa permite que ela disponha da quantia necessária para fazer a transação; em outras palavras, cada pessoa pode comprar uma determinada cota de dólares. E ainda que, na maioria dos casos, a cota seja muito baixa, é quase impossível adquirir os dólares – há sempre algum pretexto, algum percalço, uma certa demora.

Para não deixar a classe média totalmente descontente e à mercê do mercado de câmbio clandestino, o governo ofereceu uma alternativa. Se a pessoa viaja ao exterior, pode utilizar seu cartão de crédito argentino, que cobra em pesos e cota o dólar pelo câmbio oficial (8,38 pesos). Mas, para que os cofres oficiais não arquem com todo o ônus, o governo fixou sobre essas operações um imposto de 20%, depois reajustado para 35%. Em teoria, a pessoa pode pedir o reembolso desse imposto no fim do ano fiscal. Na prática, nunca vai conseguir. E assim o sistema gerou esse terceiro tipo de dólar, o turista, com valor 35% acima do oficial: enquanto escrevo, equivale a 11,38 pesos.

Ainda temos, com um valor tão relativo e variável que não tem sentido procurar suas cotações, o dólar bolsa, o dólar poupança, o dólar imobiliário (média entre o oficial e o blue, serve para determinar o preço das propriedades). Há vários tipos de dólar para exportação, segundo o percentual de impostos aplicados pelo governo: dólar soja (35%), dólar girassol (32%), dólar milho (20%)…; há o dólar indústria e o dólar carne, que também variam conforme os impostos. Quando o blue chegou a 10 pesos, em maio de 2013, foi chamado, fugazmente, de dólar Messi.

Acordo em casa, nossa casa portenha, pela primeira vez depois do que parece ser muito tempo. É um duplex antigo, com vitrais e escada de mármore, pé-direito altíssimo, muita luz e silêncio, num dos melhores bairros de Buenos Aires (um dos mais seguros, mais bem servidos, central e ao mesmo tempo residencial), que meu marido e eu reformamos e transformamos em nosso lar há dezesseis anos, praticamente o tempo em que estamos juntos.

Saímos e achamos que tudo está melhor. Já não há tantos pedintes nas ruas – ainda que o mendigo que vive na esquina continue lá, com a mesma roupa preta, o mesmo frasco de álcool com que desinfeta a calçada em que dorme, o mesmo fogareiro onde esquenta uma sopa que nunca entendi de onde vem; já não há tanto cocô de cachorro para pisar e vemos muitos vizinhos munidos de saquinhos para recolher os excrementos; a luz é diáfana, tem uma beleza, uma qualidade diferente da do hemisfério Norte. Gabriel, meu marido, está eufórico – sua família foi forçada ao exílio na última ditadura militar, e desde então voltar para o país tem para ele uma conotação muito diferente da que tem para mim, que nunca fui obrigada a deixar a Argentina. Penso que essa euforia não deve durar muito.

Fala-se em recessão, mas, assim como em anos anteriores, percebe-se um consumismo desenfreado, sobretudo no meu bairro. É difícil conseguir lugar em cafés e restaurantes de La Recoleta, Palermo, Puerto Madero, os redutos das classes média e média-alta. No fim de semana prolongado de 17 de agosto, meus pais vêm nos visitar e passamos duas horas zanzando de carro, à procura de uma vaga para estacionar. Voltamos para casa derrotados. Na terça-feira, a garçonete de um restaurante de San Isidro, um subúrbio particularmente privilegiado, pede desculpas por sua lentidão; o fim de semana prolongado a deixou exausta – foram tantos clientes que, fato inédito, tiveram de fechar as portas e distribuir senhas ao pessoal que esperava do lado de fora.

Ninguém poupa, todos gastam. Com o atual nível de inflação, que sentido pode ter agarrar-se ao dinheiro? O que hoje se compra por 6 pesos logo se comprará por 10. Essa é uma lição que os argentinos aprenderam anos atrás, mas que se reatualiza para o benefício de novas gerações.

Durante a última ditadura militar (1976–83), quando começou o reinado da especulação financeira e foi cunhada a infame frase “Quem aposta no dólar perde”, desmentida repetidas vezes, as empregadas domésticas viraram especialistas em depósitos a prazo fixo e mercado cambial, taxas de juros e letras de câmbio, porque da decisão de depositar o salário durante uma semana, ou 72 horas, ou 48, ou até por um dia, dependia o sucesso ou o fracasso do combate cotidiano contra a inflação. Em 1989, o ano da hiperinflação, a corrida não era pelas taxas de juros ou pelo dólar, mas por chegar à caixa do supermercado antes que os preços, alterados de hora em hora, aumentassem.

É por isso que, em Buenos Aires, economia e política são temas de conversa tão comuns como o tempo ou o futebol. De repente nos vemos discutindo uma reforma das normas do Banco Central, um decreto do Ministério de Economia sobre restrições bancárias, as variações do “risco país”.

Jorge Luis Borges queria viver num lugar como a Suíça, onde “ninguém sabe o nome do presidente”, mas na Argentina precisamos saber todas essas coisas, e outras mais, para tomar as decisões básicas da vida, como vender ou comprar uma propriedade, abandonar ou manter um emprego, viajar ou não de férias, correr para o banco para retirar as economias, gastar, assumir uma dívida, planejar o casamento ou o nascimento de um filho, comer num restaurante ou ficar em casa.

Quando a discussão se torna pública, a realidade tende a nos ultrapassar. Todo mundo sabe que as coisas estão muito mais caras do que no ano passado, ou que há seis meses, ou que há um mês. Mas por que a inflação está tão alta e como acabar com ela é matéria de debate sem fim: equivale a questionar toda a política econômica do governo, a escolher um “modelo” em detrimento de outro, a optar entre o “neoliberalismo” e o “populismo”, conforme os inimigos de cada um. (Na Argentina, toda pessoa é definida, antes de mais nada, por seus inimigos.)

Nesse clima, não há acordo nem sequer sobre qual é o nível de inflação. Anos atrás, para manipular os índices, os Kirchner intervieram no até então respeitado Indec, órgão estatal responsável pelas estatísticas. Foi em defesa do interesse nacional, argumentaram: era preciso enganar o Fundo Monetário Internacional (FMI), que ajustava conforme o índice de inflação parte dos juros da dívida externa que acabava de ser renegociada; se o Indec dizia que a inflação era menor, então o pagamento era menor e vencia-se o imperialismo. Mas a manipulação das estatísticas continuou depois que o governo pagou toda a dívida que tinha com o FMI. Então começou a contaminar outros índices, como o da pobreza. Atualmente, para conhecer o índice real, é preciso recorrer a consultorias privadas, e a maioria delas calcula que a inflação deste ano chegará a 40%.

O tema que hoje está no centro dos mais acalorados debates é o default, ou calote da dívida. Como não é o primeiro, nem o maior, e tampouco existe consenso de que tenha de fato acontecido ou venha a acontecer, não é vivido aqui com a mesma dramaticidade com que é apresentado no exterior. Quer dizer: ninguém pensa, nem de longe, que o país está para acabar. O governo nega a existência do calote; a oposição diz platitudes como “toda dívida deve ser paga”; outros, mais radicais, opinam que o país está em default há uma década e meia. Muitos acham que fazemos muito bem em não pagar nada a esse bando de especuladores.

É graças ao único default aceito incondicionalmente como verdadeiro que temos essa casa onde acordamos hoje. Declarado por um presidente que durou uma semana no cargo, perante um Parlamento que recebeu a notícia com uma ovação, ocorreu em dezembro de 2001. A dívida externa, de 144 bilhões de dólares, ou 153% do PIB da época, era impagável, e o país quebrou.

Na época, nós também éramos devedores. Em 1996, com um crédito bancário, havíamos adquirido a casa para onde voltamos nesta viagem. Foram anos dourados – era possível conseguir empréstimo para comprar uma casa, porque os bancos nacionais tomavam empréstimos no exterior (havia dinheiro fácil no mercado mundial) e os ofereciam na Argentina a taxas que nos Estados Unidos seriam consideradas usurárias, com a cláusula explícita de que a dívida era contraída e seria paga em dólares, e apenas em dólares. Não temíamos o futuro (na Argentina o futuro é, no máximo, o mês em que se vive) e 1 dólar equivalia, segundo a Lei de Conversibilidade impulsionada pelo governo de Carlos Menem, a 1 peso argentino – uma fantasia que era sustentada com a venda das empresas estatais e contraindo mais dívidas.

Em 2002, o fim dessa fantasia causou uma crise política, econômica e social que deixou metade do país abaixo da linha da pobreza – ou seja, 19 milhões de pessoas não ganhavam o suficiente para pagar a cesta básica de alimentos e serviço, como luz e transporte. Quando aconteceu a inevitável desvalorização, o dólar passou a valer 4 pesos. Nossa dívida em dólares com o banco teria sido impagável… se o governo não tivesse decidido, como todos prevíamos, que as dívidas seriam “pesificadas”. Em outras palavras, nossa dívida, em vez de aumentar, foi reduzida a um quarto do que era. Nesse mesmo período, um amigo nosso depositou numa conta os dólares que tinha poupado. Por causa da crise, ficou sem nada: o governo impôs um congelamento bancário, o corralito, para evitar o saque em massa. O amigo não podia retirar nem usar suas economias. Ele tinha duas opções: aceitar bônus futuros ou quitar uma dívida hipotecária no mesmo banco. Em outras palavras, ou esperava anos ou pagava nossa dívida. Pagou a nossa dívida, e depois o ressarcimos em prestações. E foi assim que viramos proprietários.

Eduardo Duhalde (2002–03), presidente transitório que sucedeu o breve presidente do default, começou uma renegociação que acabou sendo fechada por Néstor Kirchner. O acordo firmado com 93% dos credores previa que a Argentina pagaria só 30% da dívida existente. Em outras palavras, ofereceu-lhes trocar seus bônus incobráveis e sem valor por outros que valiam 70% menos.

Só 7% dos credores se negaram a assinar o acordo. E então apareceram os “fundos abutres”, que compram dívidas de países e empresas quebrados a 20% ou 30% do seu valor nominal, e depois recorrem a organismos internacionais ou tribunais locais para pleitear mais. Os abutres fizeram seu ninho num tribunal de Nova York e, depois de alguns golpes de efeito – por exemplo, fazer com que o governo de Gana, como garantia de pagamento, detivesse uma fragata onde viajavam cadetes da Marinha argentina –, conseguiram um êxito maior: em junho deste ano, o juiz Thomas Griesa mandou a Argentina pagar a esses fundos 100% do valor dos bônus em seu poder.

Acontece que o acordo da Argentina com seus credores, firmado em 2003, estabeleceu que o país não poderia oferecer a ninguém um acerto melhor; se o fizesse, o convênio perderia a validade, e a Argentina teria de pagar o total do que devia em 2001. Essa cláusula vale até dezembro deste ano. Por isso a Argentina pediu tempo para negociar.

Para pressionar o governo, o juiz Griesa ordenou aos bancos que retivessem o dinheiro depositado regularmente pelo governo para pagamentos aos credores que aceitaram o acordo. E daí resulta o que alguns consideram um default, e outros não: a Argentina quer pagar seus credores, depositou o dinheiro referente ao pagamento, mas o juiz impede que ele seja feito.

Começou então uma batalha judicial com repercussões internacionais. Pela primeira vez o governo de Cristina Kirchner foi respaldado pelo FMI e muitos governos veem com preocupação a possibilidade de um juiz bloquear negociações financeiras internacionais. Em 9 de setembro, quando já estávamos de volta a Nova York, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou por maioria a criação de um marco jurídico internacional que protegerá as “reestruturações de dívidas soberanas”. Em nossos últimos dias em Buenos Aires, o governo deu seu próprio golpe de efeito: ofereceu a seus credores pagar-lhes na Argentina, eludindo a jurisdição de Griesa, e começou uma nova discussão sobre a possibilidade, ou não, de isso ser feito conforme as condições do contrato.

Os homens de negócios tremem e urram, mas boa parte da população vê com simpatia essas fintas do governo; a popularidade da presidente, que vinha em queda abrupta, começou a subir.

Sempre amei nossa casa. Mas desta vez só vejo seus defeitos: o que está velho, o que está sujo, o que está gasto. Vou falar sobre os consertos com Fernando, o porteiro, que também atua como pintor e encanador do prédio. Estamos procurando um inquilino; vamos ficar só três semanas, depois voltamos a Nova York, para passar mais um ano lá. Fernando fica feliz por nós: “É um bom ano para ficar longe daqui.”

Trata-se de um mal-entendido, desses bem argentinos, com que uns querem dizer uma coisa, e outros escutam outra.

Este será o último ano da longa década kirchnerista, o período que começou em 2003 com o governo de Néstor Kirchner (morto em 2010), seguido por dois períodos de Cristina, sua mulher, hoje sua viúva, que, segundo a Constituição, está impedida de se candidatar a um terceiro mandato. Foi uma década de mudanças dramáticas para o país, que saiu de uma das piores crises econômicas de sua história para crescer a taxas de até 9% ao ano; duplicou sua classe média de 9,3 para 18,6 milhões de pessoas, 45% de sua população, segundo o Banco Mundial; promulgou a lei do casamento gay antes de Nova York; revogou as leis de impunidade que protegiam os militares da última ditadura que haviam torturado e assassinado; iniciou uma série de julgamentos históricos. Ao mesmo tempo, o governo revelou amadorismo no enfrentamento de várias crises, em especial a grande “crise do campo” de 2008, que foi produzida mais por ele mesmo do que por seus inimigos, e que ele acabou perdendo, quando poderia facilmente ter ganhado, ou pelo menos evitado; incentivou o processo de polarização e enfrentamento com constantes arengas; reforçou o velho sistema político clientelista e corrupto; e na economia não construiu nada permanente, apenas recorreu à velha fórmula de viver do produto das exportações aproveitando uma fase de bons preços internacionais, sobretudo da soja, e usar o bônus para subsidiar o consumo.

Já chegando ao final do período, como é habitual, o país começa a cair em sua cíclica crise econômica. O futuro político é uma grande incerteza, que pesa sobre todo o resto. Cristina Kirchner não pode se candidatar, e o kirchnerismo não tem candidato com chances de vitória para sucedê-la. A oposição é uma entidade amorfa e sem rumo, que ainda não achou um líder plausível e só se define por seu antikirchnerismo, num país profundamente dividido por uma reedição do tradicional peronismo – antiperonismo dos anos 50, que já se imaginava superado, mas que, como tantas outras coisas, volta a se repetir. É como um galinheiro de frangos recém-decapitados correndo em todas as direções.

Depois de ter derrotado o governo nas eleições legislativas de junho de 2009 (o próprio Kirchner perdeu, como candidato a deputado), no auge do maior conflito político dos últimos dez anos, fruto de uma tentativa do governo de aumentar os impostos sobre as exportações de soja e outros grãos, a oposição não precisou mais do que um verão para provar sua incapacidade de administrar o país. As rusgas públicas entre seus dirigentes, a sórdida vontade de aparecer de cada um de seus caciques, o desatino ao opinar sobre qualquer assunto (seu único critério parecia dizer exatamente o contrário do que dizia o governo) e a inesperada morte de Néstor Kirchner resultaram na reeleição de Cristina Kirchner por fantásticos 54% dos votos em 2011. O segundo colocado obteve menos de 17%.

Na Argentina, cada novo presidente começa do zero, como se a continuação de uma política anterior fosse um defeito. “Cada presidente chega ao poder para refundar a nação. Nosso sistema político se baseia em mostrar que você está aqui para lutar contra uma herança maldita”, explicou-me faz alguns anos Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete de Néstor Kirchner durante todo o seu governo e no primeiro ano do governo de Cristina.

Um amigo, Martín Abregú, vice-presidente global da Fundação Ford, residente em Nova York e também de passagem por Buenos Aires, comenta que se encontrou com um deputado da oposição, ex-membro da equipe econômica do falecido Raúl Alfonsín, primeiro presidente de nossa atual democracia (1983–89). Quando Abregú perguntou ao deputado como via a situação do país, este respondeu: “Estamos afundando na velocidade prevista.”

Como quase todos os meus vizinhos, embora seja empregado deles, o porteiro Fernando também integra as massas do antikirchnerismo, que atravessa toda a sociedade, mas é mais forte da classe média para cima, e acredita que, sem importar quem o ocupe, o próximo governo será melhor. “Pelo menos”, argumenta, “que seja alguém que não nos diga que está tudo bem.”

Saio. Na porta do prédio, encontro Elena, uma vizinha. Quando comento que estamos para voltar a Nova York, ela me dá um abraço de alegria: “Este país é monstruoso.”

São as figuras retóricas em que nos reconhecemos. No início de abril de 2008, Buenos Aires foi coberta por uma densa fumaça negra que mal deixava enxergar poucos metros à frente. Fazendeiros do norte da província tinham começado a queimar o mato para adaptar os terrenos úmidos à criação de gado, mas uma forte seca fez com que o fogo fugisse do controle. Durante duas semanas vivemos imersos em uma nuvem tóxica. O governo determinou a interdição de ruas e rodovias, proibiu a circulação de carros, ônibus e aviões; as salas dos hospitais se encheram de casos de asma, alergia, edemas de pálpebras, conjuntivite. (Também a realidade costuma ser hiperbólica na Argentina.) Uma tarde, encontramos na porta do elevador um vizinho, conhecido ensaísta. Era impossível não falar do clima. Embora fossem os fazendeiros que haviam iniciado o fogo, nosso amigo, furioso antikirchnerista, culpou o casal presidencial: “São os Macbeth. Shakespeare tinha razão. A natureza é seu espelho.”

Não vale a pena explicar a Elena ou a quem quer que seja que nossa decisão de partir não é política – ninguém nos escuta, e quem escuta não acredita.

Claro que a outra metade da Argentina pensa diferente. Ou deveria pensar. E não é só uma porcentagem significativa dos pobres, que recebem subsídios que lhes permitem evitar a miséria. Esta foi uma boa década para artistas, intelectuais e jornalistas alinhados ao kirchnerismo – o governo destinou recursos significativos para a educação, a cultura e o jornalismo governistas.

Mas eles também são vítimas da incerteza. “Estamos muito bem”, explicou-nos um amigo escritor que trabalha na tevê e no teatro públicos, “mas pode ser que tudo acabe daqui a um ano. E depois, o que vai acontecer?”

“Durante anos, nunca tive nada; não tinha casa própria, estava sempre duro. Esta é a minha fase de acumulação”, confessou-me com inesperada franqueza um jornalista que ao longo desses anos comandou um controverso programa da tevê pública que se dedica a combater o jornalismo antikirchnerista. Sobre outros colegas que integram redações financiadas exclusivamente com recursos oficiais, uma amiga editora comentou, erguendo uma sobrancelha: “Para onde eles vão quando isso acabar?”

Há no kirchnerismo uma urgência por tomar medidas antes que tudo acabe, aproveitar o último ano, não só num sentido individual (ainda que nesse sentido também), mas para efetuar as derradeiras mudanças, aprovar leis ou criar instituições, finalizar processos judiciais ou destruir inimigos. Há uma grande ansiedade.

Nossos amigos kirchneristas se mostram tão felizes com nossa partida quanto nossos amigos antikirchneristas.

E estas são as pessoas que gostam de nós.

Paolo Menghini é um dos muitos líderes involuntários dos incontáveis grupos de vítimas que o país criou. Nós nos encontramos faz um ano, antes da minha partida, quando ainda não havia começado o processo pela morte de Lucas, seu filho. A circunstância em que ele morreu, a colisão de um trem, foi a matéria do meu último livro publicado na Argentina.

Às 8h33 de 22 de fevereiro de 2012, um trem suburbano com cerca de 2 mil passageiros bateu em cheio contra a estação Once, uma das mais populosas de Buenos Aires. A dianteira do segundo vagão se incrustou na traseira do primeiro, amassando a estrutura de aço como uma folha de papel. Cerca de 100 passageiros ficaram presos durante cinco horas. Os socorristas tiveram que serrar o metal e despejar litros de vaselina para deslizar os corpos para fora. Foram 51 mortos e 795 feridos. Dois dias depois da colisão, descobriram o último dos corpos resgatados: Lucas Menghini, de 20 anos, o filho de Menghini. Sua família o procurou por 56 horas. O resgate tardio causou escândalo, indignação, uma sensação coletiva de abandono. Foi assim que ele, um jornalista de 40 anos que trabalhava na ilha de edição do canal de tevê aberta estatal, se transformou em figura pública, “o pai do Lucas” – o vitimismo é um dos valores públicos e privados mais importantes da Argentina.

O julgamento oral e público da “Tragédia do Once” começou em 18 de março deste ano. Os acusados são o maquinista do trem, que nos últimos metros de seu percurso deixou de acionar o freio; os empresários privados que, ignorando as advertências sobre o risco iminente de um desastre, desviaram o dinheiro que deviam ter aplicado na manutenção – e melhoria – de vetustos trens e trilhos; e os funcionários públicos que, coniventes com os empresários, respaldaram o descaso.

O processo, à razão de duas audiências por semana, deve demorar pelo menos mais um ano, segundo os cálculos atuais, porque um dos três juízes do tribunal tem de cuidar, nessa mesma sala, de outro caso notório: a morte pela polícia de 39 pessoas, em 20 de dezembro de 2001, dia em que Fernando de la Rúa renunciou à Presidência, logo depois de ter decretado estado de sítio no país. De início, contou Menghini, muitos dos familiares consideraram injusto terem de aguardar tanto, quando já haviam esperado mais de dois anos. Mas depois perceberam que “era melhor assim”. Se as audiências semanais fossem mais frequentes, com seus relatos de testemunhas, sobreviventes e acusados revivendo a tragédia, seria impossível suportá-las.

É algo que já haviam sentido os familiares e sobreviventes da chamada “Tragédia de Cromagnon”, um incêndio na discoteca República de Cromagnon, localizada a um quarteirão da estação do Once, que deixou 194 mortos e 1 432 feridos na noite de 30 de dezembro de 2004. Nesse caso, o julgamento demorou um ano e terminou com uma série de condenações, depois revistas diversas vezes, e que ainda rendem manchetes. “Eles [os familiares dos mortos na Cromagnon] tinham quatro audiências por semana”, lembra Menghini, “e isso acabou com eles. Já são 23 pais mortos.”

Menghini se preparou durante meses com sessões de psicoterapia. Em setembro de 2013, os médicos lhe diagnosticaram uma hemocromatose: seu fígado tinha deixado de absorver ferro e estava no limite da cirrose. Os tratamentos o deixaram anêmico. Mais perto do julgamento, Menghini bateu o carro. “Estava com a cabeça longe”, explica, envergonhado.

Agora vai a uma audiência a cada quinze dias.

Belén Rodríguez Cardozo é uma bioquímica que dirige o Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), outra invenção extraordinária e tristemente argentina.

Além de contabilizar milhares de “desaparecidos” e sobreviventes de campos de tortura, e provocar um profundo trauma coletivo, nossa última ditadura militar “apropriou-se” de centenas de pessoas. Separadas violentamente dos pais biológicos nos primeiros dias ou meses de vida, com identidades forjadas, essas pessoas cresceram em famílias estranhas, sem conhecer sua origem. O procedimento era o seguinte: os militares sequestravam uma mulher grávida, ou que tinha um bebê, ou que engravidava em cativeiro; esperavam a criança nascer, apropriavam-se dela, matavam a mãe e entregavam o bebê para adoção com certidão de nascimento falsa.

Ainda na ditadura, as avós dessas crianças fundaram uma organização, Avós da Praça de Maio, para tentar encontrá-las. Sua busca levou ao desenvolvimento científico de um “índice de abuelidad”: para rastrear os bebês “apropriados”, a informação genética dos avós poderia servir de base para se inferir à dos pais ausentes; adaptando-se os cálculos matemáticos e estatísticos da fórmula usada para determinar a paternidade, era possível estabelecer a probabilidade de uma criança ser neta de determinados avós. Essa descoberta esteve na origem do BNDG, e as avós conseguiram que o presidente Alfonsín apoiasse sua criação por lei, em 1987. O banco armazena as amostras, ainda parciais, de parentes das crianças desaparecidas, o mapa genético familiar com que se compara o sangue de todas as crianças – depois jovens, hoje adultos – em cuja história há algum indício apontando que possam ter sido “apropriadas”. Com o tempo, o banco, que se instalou no setor de imunologia de um hospital público de Buenos Aires, também se encarregou de cuidar de outros casos de identificação por DNA: paternidade, estupros e outros cenários forenses. Hoje conserva 20 500 amostras.

Em 2009, Belén, que integrava a equipe de bioquímicos desde 2006, assumiu a direção do banco. Técnica, sem ambições políticas, idealista, completamente entregue a um trabalho do qual se orgulhava, sentia como sua a causa das avós e mantinha um bom relacionamento com a presidente da organização, Estela de Carlotto. Sempre que um exame de DNA dava positivo e “aparecia” um neto perdido, ela chorava de alegria.

Um dia, pouco depois de assumir sua função, Belén leu num site da internet que o governo de Cristina Kirchner, com o apoio de Estela, estava preparando uma reforma legal que levaria o BNDG para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva, passando a se dedicar exclusivamente à identificação das vítimas do terrorismo de Estado dos anos 70. Os milhares de casos de investigação de paternidade por teste de DNA, de estupros etc., não seriam mais da sua alçada. No entender de Belén, o BNDG deveria ser um banco nacional independente, com amplas atribuições, e o projeto de reforma conspira contra seu espírito e credibilidade: se passar a depender do governo, como garantir sua neutralidade? Assim, empurrada pelas circunstâncias para a arena pública, iniciou uma cruzada contra a nova lei, que já estava tramitando na Câmara dos Deputados. Pediu a Estela: “Os casos das avós são prioridade, mas me deixe cuidar dos outros também. A nação não é formada só pelos casos de lesa-humanidade e pelas avós.” Estela replicou que sua atitude a desapontava, e as duas romperam.

Belén nunca obteve a nomeação definitiva como diretora do banco nem o salário correspondente; continuou recebendo como bioquímica do hospital. Estela, que sempre teve outros candidatos para a direção da entidade, conseguiu que o novo projeto virasse lei em 2009.

Conheci Belén em 2010, quando eu preparava um livro sobre a guerra declarada entre o governo Kirchner e o conglomerado de comunicação Clarín, o maior conflito político e público da última década na Argentina. Em sua decisão de destruir o Grupo Clarín, o governo, forte aliado das avós, incentivou a retomada de uma antiga investigação sobre a identidade dos dois filhos adotivos de Ernestina Herrera de Noble, proprietária do Clarín, que se suspeitava terem sido apropriados durante a ditadura. Belén ficou sob fogo cruzado nessa guerra, sofrendo pressões dos dois lados, e também de Estela, em momentos delicados da investigação, mas conseguiu preservar sua independência. Estela, que durante trinta anos mantivera sua organização acima de qualquer suspeita, agora a aproximara tanto do governo que a tornava vulnerável a ataques políticos – os Kirchner, por seu lado, foram os únicos presidentes a pôr o Estado a serviço de sua causa –, e o “caso Noble” ameaçava comprometer seu prestígio. Mas Estela não tinha dúvidas, e seus advogados pressionavam Belén violentamente. Por fim as investigações foram realizadas, mas não foi possível provar que os filhos de Herrera de Noble fossem filhos de “desaparecidos” (o DNA deles não coincidia com nenhum mapa genético registrado no BNDG).

Na véspera da minha chegada a Buenos Aires, durante uma escala de 48 horas no Rio de Janeiro, recebi a notícia de que Guido, o bebê roubado de Laura Carlotto, assassinada em 1978, havia sido identificado. Encontraram o neto de Estela. Era uma notícia tão comovente, tão extraordinariamente simbólica, que provocou uma avalanche de mensagens nas redes sociais e nos sites de notícias, uma infinidade de correntes de e-mail e mensagens de celular em que milhares de argentinos expressaram sua alegria; muitos confessaram ter sucumbido a acessos de choro. Também fiquei com um nó na garganta por vários dias.

Por que tanta emoção por esse neto em particular, o 114º a ser “recobrado”? Porque Estela, uma das fundadoras de Avós de Maio e sua principal figura pública no início da democracia, dedicou sua vida a essa causa, negociando com governos e juízes, imaginando soluções quando parecia não haver nenhuma, lutando contra uma parte da sociedade que continua negando (ou apoiando) o que aconteceu na ditadura, suportando seu luto pessoal e o peso de devolver os netos a mais de uma centena de avós sem nunca, até agora, rever o seu próprio. Velha e frágil, parecia condenada a deixar este mundo sem encontrá-lo.

Coube a Belén, que ainda resistia na diretoria do BNDG, identificar o neto de Estela. Estivemos juntas duas semanas depois, em sua sala, num dia de greve geral em que, apesar da paralisação, ela estava trabalhando. No local, nós duas e dois guardas. Nada tinha mudado, ela me disse. A guerra com Estela continuava, mais encarniçada do que nunca; já tinham escolhido sua sucessora, estavam terminando de preparar o prédio para onde mudariam o órgão, e ela liderava uma feroz campanha pública para impedir a mudança.

Mas antes de terminar essa explicação, ela me contou, com lágrimas nos olhos, como Guido foi encontrado. Em 24 de julho, um homem de 36 anos chamado Ignacio, grisalho, tinha ido ao banco deixar uma amostra de sangue para que seu DNA fosse comparado ao de milhares de parentes de netos perdidos. Acabara de saber que seus pais não eram os biológicos e, pela data de sua adoção, cabia a pesquisa. Era músico e tinha tocado muitas vezes em atos públicos das Avós da Praça de Maio, nos quais se pedia a todos os presentes que, se tivessem alguma dúvida sobre sua identidade, procurassem o BNDG para fornecer uma amostra. Ignacio deixou seu sangue. “A cara desse rapaz não me é estranha”, comentou Belén com um de seus laboratoristas. Mas não conseguia localizá-lo em nenhum contexto. Uma semana depois, numa sexta-feira à tarde, ela estava analisando os resultados do exame no sequenciador de DNA: um gráfico de linhas onduladas contendo a informação genética que Ignacio herdara do pai, a informação do cromossomo Y (o lado materno costuma ser feito depois, porque “o cromossomo Y sai mais rápido”). O olho treinado de Belén reconheceu a imagem; tinha processado um DNA com o mesmo cromossomo alguns anos atrás. De fato, lá estava: Ignacio era filho de Walmir Oscar Montoya, desaparecido em 1977.

Belén sabia que Montoya havia sido identificado, durante uma investigação de 2006, como provável pai do filho de Laura Carlotto, sua companheira na clandestinidade da guerrilha. Os pais de Montoya, que ignoravam se o filho morto havia ou não tido um filho, deixaram uma amostra de seu sangue no banco, caso a hipótese se provasse verdadeira.

Seria possível? Teria encontrado o neto de Estela? Era sexta-feira, já quase noite, e Belén estava sozinha. Guardou a informação em local seguro e foi embora para casa. Passou a noite em claro, disse, tão temerosa do impacto que a notícia teria, se verdadeira, que não comentou nada, nem com o marido. No dia seguinte voltou ao banco. Fez os cálculos, comparando a informação hereditária material com o perfil genético de Estela, e obteve um resultado de 99,89%.

“Meu Deus.”

Na segunda-feira, logo cedo, Belén telefonou para o assessor legal do banco e pediu que marcasse uma entrevista urgente com a juíza María Romilda Servini de Cubría, que cuidava da investigação do paradeiro do neto de Estela. Não podia lhe dizer do que se tratava – na Argentina, nenhum funcionário confia na privacidade das linhas telefônicas. A juíza a recebeu em seu gabinete; tinha uma unidade policial a postos, caso se tratasse de uma operação para obter o DNA de um militar recalcitrante ou se o governo tivesse mandado revistar o BNDG e fosse necessário defender as amostras.

“Doutora, encontramos outro neto”, anunciou Belén. “Quem é?”, perguntou a juíza. “É Guido.” Servini de Cubría, contou Belén, desabou numa poltrona, estendeu os braços para o alto, exclamou “Meu Deus!” e caiu em prantos. “E se a Estela tiver uma síncope?”

Ligou para Estela no viva-voz e pediu que fosse vê-la imediatamente. Estela alegou problemas de agenda, mas, quando a juíza se mostrou firme, disse que iria. Belén tentou se retirar, suas pernas tremiam, mas a juíza mandou que ficasse. “Não quero”, protestou Belén, lembrando seu conflito com Estela. “Não”, insistiu a juíza. “Ela vai ter que olhar na tua cara e ver quem está devolvendo o neto dela.”

Estela, de 84 anos, entrou sozinha, caminhando com a ajuda de uma bengala. Quando viu Belén, disse a Servini de Cubría, com expressão de desagrado: “Nós temos nossas diferenças.” “Ela é a diretora do banco”, replicou a juíza. O documento com o resultado do DNA tremia nas mãos de Belén. “Encontramos outro neto”, anunciou Servini. “Que bom! Quem é?”, perguntou Estela.

“É o Guido.”

“Seu rosto se encheu de luz, não sei explicar de outro modo”, Belén me contou. “Suas rugas sumiram. ‘Meu neto? Meu neto?’, repetia. ‘Meu Deus, meu Deus! Vou poder abraçar meu neto.’”

“Como ele é?”, Estela perguntou de repente a Belén, a quem não tinha dirigido a palavra até então. “É igualzinho a você”, respondeu ela, e lhe estendeu a foto que tinham tirado dele, segundo a praxe, ao extrair a amostra de sangue. “Vou olhar esta foto para sempre”, disse Estela. “Me devolveram parte da minha filha.”

Saiu da sala com a bengala pendurada no braço.

Antes de se retirar, olhou para ela e disse: “Belén, não tenho como te agradecer.” “Não tem nada que me agradecer. Eu vou continuar ao lado de vocês”, respondeu a outra.

No dia seguinte, estavam de volta a seus postos de combate, Estela lutando pela transferência do BNDG, Belén resistindo.

De sua trincheira forçada, ela se despediu de mim com os olhos cheios de lágrimas: “Nunca pensei que justo eu encontraria o Guido.”

A maior preocupação dos argentinos, conforme indicam todas as pesquisas, é o crime, que atingiu uma nova dimensão de violência. Fala-se disso com medo, com ódio, às vezes com resignação.

Na noite seguinte à nossa chegada, uma quadrilha de sete mascarados invadiu a casa do jornalista Bobby Flores. Sua mulher estava deitada e os filhos, de 4 e 9 anos, jogavam videogame. Os ladrões amarraram a mulher e ameaçaram esfaqueá-la; encheram o carro dela com todo o dinheiro, os eletrônicos e os discos que encontraram na casa, e fugiram.

A cunhada de um amigo meu acaba de passar por uma situação parecida. Ela mal havia se mudado de um subúrbio de Buenos Aires, Olivos, onde os assaltos eram frequentes, para uma área mais segura de outro subúrbio, Martínez. Um dia, quando estava examinando o reparo feito na calçada de sua nova casa, seis homens, em dois carros, pararam a seu lado. Foi cercada por três, e um deles tentou arrastá-la para dentro da casa, onde estava seu filho de 12 anos. A mulher deu uma dentada no braço do homem que a segurava e só deixou de mordê-lo quando ele apanhou um martelo que estava na calçada e acertou um golpe na sua cabeça. Ela perdeu dois dentes na mordida. Um vizinho escutou os gritos e chamou a polícia, que chegou quando os frustrados assaltantes já haviam ido embora.

Nas últimas estatísticas da OEA sobre a insegurança no continente, veiculadas em 2012, a Argentina ocupa o topo do ranking em número de roubos, com 973 casos para cada 100 mil habitantes. E essas estatísticas são anteriores ao perceptível aumento da violência, que recentemente levou Martín Insaurralde, um dos candidatos do kirchnerismo à sucessão de Cristina, a declarar que se mudou de Lomas de Zamora, um município da Grande Buenos Aires do qual ele havia sido prefeito, “por causa da insegurança”; sua namorada, acrescentou, “morava em Palermo e já estava bem assustada com o problema”. O governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, também kirchnerista, declarou: “Vivemos momentos dramáticos, com muito sangue derramado e muita violência. Estamos cercados por delinquentes dispostos a tudo.”

Mas nenhum líder, nem no governo nem na oposição, parece ter soluções ou propostas para enfrentar a questão.

Em seu livro sobre a Argentina, V. S. Naipaul escreveu: “Quando o jargão transforma os temas em abstrações (‘A tortura só vai desaparecer na Argentina’, disse o trotskista, ‘com um governo dos trabalhadores e a queda da burguesia’), e quando o jargão acaba competindo com o jargão, as pessoas não têm causas. Só têm inimigos; só os inimigos são reais. Esse tem sido o pesadelo da América do Sul desde sua ruptura com o império espanhol.”

O primeiro choque que se tem ao voltar a Buenos Aires é com o nível de agressividade. Todo mundo se comporta como se fosse seu inimigo, até (e principalmente) as pessoas que não conhecemos. Na noite em que desembarcamos no aeroporto de Ezeiza, na fila da alfândega, vários lugares atrás de nós, havia uma família com três filhos, um deles um bebê de poucos meses. Estavam visivelmente cansados. Gabriel tentou ajudar: “Vocês podem evitar essa fila passando por aquele guichê, que é para famílias com bebês”, disse à mãe. A mulher franziu a boca numa expressão de desagrado e virou o rosto, deixando bem claro que ele não tinha nada que se meter.

Em Buenos Aires, quando, sem querer, você cruza os olhos com outra pessoa, é comum encontrar no olhar do outro uma expressão dura, desafiante, que se traduz como um “Que foi?!”, como se os dois estivessem no pátio de uma prisão. Quando um pedestre tenta atravessar a rua, os carros aceleram com ódio para apressá-lo. É comum ser insultado ou empurrado a troco de nada.

Caminho pelo Centro com meu filho de 3 anos no carrinho e, ao chegar à esquina da rua Riobamba com a avenida Corrientes, me deparo com um caos de carros e de pessoas; os semáforos estão quebrados, e o trânsito do meio-dia complica a travessia da avenida. Depois de esperar por alguns minutos, sem que os motoristas façam o menor gesto para nos dar passagem, uma mulher loira, de 50 e tantos anos, postada ao meu lado, sugere: “Enfia o carrinho que eles param.” Não consigo disfarçar minha irritação: “Quer que eu arrisque a vida do meu filho só para você poder atravessar?” “Não, claro que não”, responde, me fuzilando com os olhos.

No supermercado, uma mulher pede licença a um homem que, em pé ao lado do filho, numa fila que vai do começo do corredor da seção de laticínios até o caixa rápido, bloqueia a passagem. “Com licença”, diz ela, com voz amável. O homem parece não ouvi-la. “Com licença”, insiste a mulher. Nada. “Cooom liceeençaaa”, ergue um pouco a voz. Então o homem se vira e, num tom grosseiro, berra: “Não sabe pedir por favor?” A mulher, atônita, replica: “Mas com licença já é por favor.” “Não!”, grita o homem. “Você tem que dizer por favor.” E não arreda pé de onde está.

Faz algum tempo, antes de me mudar para Nova York, fui comprar pão na padaria da esquina e, ao apertar o passo para atravessar a rua, alcancei uma mulher da minha idade que também estava atravessando; a mulher estacou, me olhou com ódio e gritou: “Vai, passa na frente, piranha.”

Essa violência acaba se tornando normal quando estamos imersos na cidade, mas quando se toma distância ocorre um choque. O filho de 10 anos de uma amiga que mora em Massachusetts perguntou à mãe durante uma visita a Buenos Aires: “Por que as pessoas estão tão bravas?” Faço essa mesma pergunta ao meu amigo Abel Gilbert, escritor, jornalista e músico. Abel acha que no fundo desse ódio, desse conflito, há frustração.

Tentar fazer alguma coisa na Argentina, afirma, é como empurrar uma pedra até o topo de uma montanha para vê-la rolar ladeira abaixo, e tornar a empurrá-la até o topo e tornar a vê-la rolar. “É o mito de Sísifo o tempo todo.”

Nesse ano que passamos fora, Abel mostrou no Centro de Experimentação do Teatro Colón sua última obra, mescla de música clássica, rock e folclore. Apresentar-se no Colón, uma das grandes casas de ópera do mundo, não é pouca coisa, e eu o cumprimento pelo feito. Mas Abel me conta que ainda não viu nem 1 peso do que deveria ter recebido do governo da cidade, que administra o teatro. “De lá para cá, já houve duas desvalorizações. Quando eu receber, como vou pagar as pessoas que trabalharam na montagem?” Além do mais, ter chegado ao Colón não significa um passo à frente: porque na Argentina não há acumulação, não existe a lógica de que fazer algo bom resulta numa recompensa. Sempre se volta ao início.

“O Teatro Colón é a mentira da Argentina”, argumenta Abel. “É ser o que não podemos ser. Temos esse grande teatro, um dos melhores do mundo, mas não temos orquestra sinfônica nem quarteto de cordas. Não temos indústria de partituras. A estrutura do Colón engole todo o orçamento. É como a ópera de Manaus.”

Como tudo sempre parece impossível, continua, “impera a cultura do rancor. Quem tem sucesso é odiado por todos. O grau de crueldade é tremendo. Há uma lógica segundo a qual existe uma coisa esperando por mim e alguém empenhado em tirá-la de mim. Este país é autofágico”.

Essa fantasia do grande destino não realizado, da excepcionalidade argentina, é fonte permanente de insatisfação. Surgida com a maciça imigração europeia do final do século XIX e início do XX, essa fantasia supõe que a Argentina seja um país europeu ancorado na América Latina, um país que era rico e promissor como os Estados Unidos, e que no entanto fracassou. Nas palavras de Abel: “A Argentina é um país totalmente inconformado com sua própria condição. O problema é a aspiração. ‘Devíamos ser Paris, devíamos ser Nova York.’ É a velha ilusão argentina. Mas por que não deveríamos ser Buenos Aires? Se isto aqui fosse La Paz, não teríamos esse problema.”

Nada atenta mais contra a fantasia dos argentinos do que encontrar outros argentinos quando se está no Primeiro Mundo – quer dizer, onde o argentino merece estar. Por exemplo, quando cruzamos com um casal de argentinos no Central Park, quase sempre os dois fingem não ser argentinos – ficam em silêncio ou falam em inglês, num inútil teatro de que não haja nenhuma identificação.

Nada pior do que cruzar com outro argentino. É como andar relaxado e feliz na própria imaginação e de repente chocar-se contra o espelho da realidade.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Graciela Mochkofsky, jornalista argentina, é autora de Pecado Original: Clarín, los Kirchner y la Lucha por el Poder, pela Planeta