diário
piauí_piui 08 Out 2026
12 min de leitura
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Em um mundo com 195 países e mais de 8 bilhões de habitantes, infelizmente nem todos vivem em paz. Há 65 conflitos armados no planeta, segundo a contagem mais recente do Instituto de Pesquisa de Paz de Oslo. Alguns são noticiados o tempo todo. De muitos outros, porém, quase não ouvimos falar.
Nessas disputas, todo mundo perde. Mesmo o lado mais forte do embate costuma gastar quantias imensas de dinheiro e sacrificar a vida de seus militares no front. No ano passado, mais de 150 mil pessoas morreram em conflitos armados envolvendo o Exército de ao menos um país (alguns deles são confrontos internos, e os militares enfrentam grupos armados da própria nação).
Mesmo em meio a todas as dificuldades, a população é obrigada a lidar com essa situação. As escolas fazem de tudo para manter as aulas, os comerciantes tentam seguir vendendo seus produtos, os hospitais precisam atender às pessoas doentes. Apesar de toda a dor e de todas as preocupações, bebês continuam nascendo, crianças seguem brincando, casais namoram – todo mundo vai tocando seu cotidiano como pode, à espera da chegada da paz.
A piuí entrevistou três meninas e um menino em quatro desses países, e eles contam como tem sido sua rotina. Eles não falam apenas dos conflitos, mas também de suas preferências e brincadeiras. O relato mais triste é o de Alaa, moradora da região palestina, que perdeu o pai, a mãe e dois irmãos quando sua casa foi bombardeada. Na história dos outros três entrevistados, também existem perdas, a começar pela liberdade.
Desde a Segunda Guerra Mundial, que acabou em 1945, o Brasil não entra oficialmente em uma guerra – ainda que muitos moradores convivam diariamente com situações de violência urbana como tiroteios, em áreas dominadas por criminosos. Saber o que acontece dentro e fora do nosso país é importante para entender o tempo em que vivemos. Existem grandes avanços na tecnologia e na medicina, mas milhões sofrem com conflitos que só espalham dor e destruição.
“SONHO EM SAIR DO IRÃ E VIRAR CANTORA DE K-POP”
Luna, 11 anos, Teerã (Irã)
No dia 28 de fevereiro deste ano, Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, país localizado no Oriente Médio. Entre outros motivos, as nações aliadas querem impedir o governo iraniano de continuar seu programa de energia nuclear, por temerem o desenvolvimento de uma bomba atômica, mas o Irã diz que faz as pesquisas com finalidades pacíficas, como gerar energia. A fase mais intensa dos bombardeios durou até abril, mas as tentativas de um acordo de paz definitivo entre os envolvidos ainda não deram certo.
“Eu fazia uma prova de matemática quando a guerra começou. Estava difícil, e eu não sabia responder absolutamente nada. Então, quando ouvi aqueles trovões e o professor pediu para a gente deixar a prova e sair da sala, fiquei feliz, sem saber o que viria depois. Eu ainda estava aliviada por ter me livrado da prova quando reparei que uns colegas estavam chorando. Os barulhos eram fortes e dava para ver uma fumaça preta pela janela. O professor avisou que estávamos sofrendo um bombardeio e iríamos todos ser liberados para casa. A gente deveria deixar a sala imediatamente e ir para o pátio da escola.
A essa altura, já estávamos todos aos prantos, eu também. Nós saímos da sala, mas reparei que um dos meus colegas ficou para trás, chorando. Não sei como tiraram ele de lá. A escola nem precisou ligar para os nossos pais. Todos deixaram o que estavam fazendo e foram às pressas nos buscar.
Eu voltei para casa com a minha mãe. Os meus pais são separados. O meu quarto é o meu lugar preferido nas duas casas. É onde eu costumo me sentir melhor, mais segura. Mas, nos dias seguintes, eu sentia muito, muito medo. O tempo todo eu ouvia os barulhos de bombas, mísseis, jatos e drones. Os dias eram escuros por causa da fumaça. A noite ficava clara com os incêndios provocados pelos bombardeios.
Em casa, eu e minha mãe pusemos fita adesiva em todas as janelas para os vidros não se estraçalharem em cima da gente se uma bomba caísse perto. Também arrastamos todos os móveis pesados contra as janelas para elas não abrirem. A casa ficou muito feia.
Teerã é uma cidade muito grande. Tem tantos carros e motos que não posso descer para brincar na rua, por isso fico muito no meu tablet. Gosto de jogar Roblox e ver vídeos de K-pop. Blackpink é a minha banda preferida. Eu sonho em sair do Irã e virar uma cantora de K-pop na Coreia do Sul. Acho que só vou sentir falta das minhas amigas e do café que tem aqui perto de casa. Às vezes eu vou com a minha mãe. Ela toma cappuccino, e eu sempre peço um suco diferente.
Os Estados Unidos e Israel vieram aqui acabar com o regime, mas tudo continua igual. A guerra, para mim, foram bombas, mísseis, jatos e drones para nada. Eu fico triste quando vejo na televisão que pessoas que não têm nada a ver com a guerra morrem. No início eu chorava muito, todos os dias. Até que, um dia, parei de chorar.
Aos poucos, a vida foi voltando ao normal. As aulas voltaram, mas pela internet. Aula online é chata. Sinto muita falta das minhas amigas. O que me faz mais feliz hoje é não ouvir barulho de bombas.”
Depoimento para Clara Becker, feito por trocas de áudios e videochamada. As conversas foram em francês.
“HOJE TUDO FICOU CARO”
Pierre, 11 anos, Kalemie (República Democrática do Congo)
O conflito na República Democrática do Congo, país que fica na região central da África, ganhou força em 2025 quando grupos armados, especialmente o M23, conquistaram áreas importantes no país, rico em minerais valiosos e raros como o coltan, importante para a fabricação de celulares e outros aparelhos eletrônicos. O país todo é afetado, e milhões de congoleses deixaram suas casas.
“Gosto de ler, mas o que eu mais leio é a Bíblia, já que na minha casa não tem livros. Aqui, somos seis pessoas, incluindo meu pai e minha mãe. O lugar onde eu passo mais tempo é a sala, assistindo à tevê. Vejo desenhos como Os Simpsons, e acompanho futebol. Meu jogo preferido é Real Madrid x Barcelona e sou fã de Lionel Messi, Lamine Yamal, Pedri, Ferran Torres, Vinicius Júnior, Kylian Mbappé e Jude Bellingham. Entre os goleiros, o Thibaut Courtois. O meu sonho é ser jogador de futebol.
Neste ano, a seleção congolesa se saiu bem na Copa do Mundo e acho que precisamos incentivá-los. Eles chegaram bem longe [pela primeira vez, passaram da fase de grupos] e tenho muito orgulho disso.
Dos jogadores congoleses, meus preferidos são Yoane Wissa, Cédric Bakambu, Samuel Moutoussamy e Théo Bongonda.
Eu tenho uma bola, mas só jogo futebol em casa, com meu irmão mais novo.
Minha escola fica a 5 minutos de casa, e vou para lá de moto. É um prédio azul e preto, e mais de mil crianças estudam lá.
Eu estudo porque, se eu me dedicar, no futuro vou ter um trabalho, e uma vida melhor. Em Kalemie, a minha cidade, tem um grande problema de desemprego.
A guerra provoca a morte de muita gente e desestabiliza a vida de todo mundo. Tem pessoas que fogem de Kalemie para procurar outro lugar pra viver.
Hoje tudo ficou mais caro. A vida não é como antes; quando as pessoas que estavam em Kalemie iam para Goma e Bukavu, compravam coisas por lá e traziam pra gente. Mas agora essa rota de comércio não existe mais, nós vivemos de produtos trazidos de Burundi e da Tanzânia. Faltam roupas, remédios, açúcar e todo tipo de alimentos.
Todos nós temos medo da guerra. Na escola, não comentamos sobre a invasão do M23, porque as crianças ficaram traumatizadas. Não gostamos de falar disso na frente das pessoas.”
Depoimento para Pedro Borges, por videochamada. Eles falaram em francês, com a ajuda de um amigo da família do menino.
“SINTO FALTA DA MINHA FAMÍLIA”
Alaa, 10 anos, Cidade de Gaza (Palestina)
Em outubro de 2023, grupos terroristas (que usam violência e espalham medo para impor suas ideias ou seus objetivos políticos) palestinos atacaram o país vizinho Israel, mataram cerca de 1,2 mil pessoas e fizeram mais de 200 reféns. Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, reagiu atacando não apenas os terroristas, mas matando civis em toda a Faixa de Gaza, um dos territórios da Palestina, inclusive crianças: foram mais de 73 mil mortos, segundo a ONU. As cidades foram devastadas. Um acordo de cessar-fogo em outubro de 2025 reduziu bastante a intensidade dos ataques. Agora, a população tenta reconstruir sua vida.
“Minha casa era grande, com paredes de verdade. Tinha um quarto rosa, só para mim e minha irmã, a Aisha. Nosso teto era de concreto. Vivíamos eu, meu pai, minha mãe, minha irmã e meu irmãozinho. A gente era feliz, e minha mãe fazia minhas comidas favoritas: carne e frango.
Eu estudava em uma escola de verdade, com paredes, mesas e janelas. Passava seis horas por dia lá. Tinha até uma quadra, onde eu brincava no recreio. Mas aí a guerra chegou. E tudo isso acabou. Hoje eu olho para trás e me pergunto como a vida pode ter piorado tanto. Mas eu agradeço a Deus por tudo. É isso o que a gente tem que dizer nessas horas.
A guerra chegou num dia normal. Quando eu acordei de manhã, ela já tinha começado. Foi a minha mãe que me disse que as escolas tinham fechado. As coisas foram piorando dia a dia. No começo, ficamos todos dentro de casa, sem ir nem ao mercado. Ficamos todos juntos, isolados. Brincávamos de Stop. Mas as coisas foram piorando. O som das bombas chegava cada vez mais perto. As ambulâncias passavam em frente à nossa casa sem parar.
Então, em uma noite, as coisas pioraram. Eu tinha a sensação de que a qualquer momento uma bomba podia cair em cima da nossa casa. Ninguém chegava nem perto da porta.
Meu pai pediu que todos nós rezássemos juntos. Foi justamente nesse momento que os ataques aumentaram, tudo ficou iluminado ao nosso redor. Nossa casa foi bombardeada.
Depois disso, eu não sei exatamente o que aconteceu. Estava tudo escuro. Eu não conseguia enxergar nada.
Quando recuperei a consciência, estava caída debaixo de algumas árvores, com muitos cacos de vidro embaixo de mim. Eu tinha sido arremessada da minha casa até a porta da casa dos vizinhos. Meu rosto e meus braços estavam queimados. Então comecei a gritar, mas ninguém respondia. Até que o tio Jihad respondeu e me levou para o hospital.
No hospital a situação era muito difícil. Eu não conseguia ver nada, então só podia entender o que estava acontecendo pelo que ouvia. Fiquei naquele hospital lotado de feridos.
Era essa a situação no hospital.
Fiquei muito ferida e não consegui receber todo o tratamento de que precisava. Minhas pernas estavam muito machucadas.
Eu estava ainda no hospital quando me contaram que toda a minha família tinha morrido. Minha tia me disse: “Que você encontre todos eles no Paraíso.”
Hoje eu vivo com a minha tia, minha avó e mais quatro primos. Moramos todos numa barraca. É pequena, não tem paredes, é feita de lona. No verão é muito quente. Nós cozinhamos à lenha agora. É difícil, mas a gente se vira.
Todo dia eu acordo ainda sonolenta. Vou ao banheiro, lavo o rosto e escovo os dentes. Depois, rezo a Salat al-Fajr [a reza do amanhecer]. Assim que me sinto acordada, saio para pegar pão e, depois, vou à mesquita, aos cursos e, às vezes, ao acampamento de verão. Então, estudo e reviso alguns trechos do Alcorão. Quando termino, brinco um pouquinho, mexo no celular ou no notebook e brinco com miçangas.
Eu também estudo. Não é uma escola de verdade. É uma barraca de lona. É apertada, com muitas crianças, com algumas cadeiras, uma lousa e nada mais. Só tenho quatro matérias: biologia, inglês, matemática e árabe. Lá não tem nem recreio; são só duas horas por dia.
Perto da minha casa também não tem mais praça, um lugar bom para as crianças brincarem. Só tem destroços e barracas. Então eu não brinco mais na rua. Só brinco quando minhas primas vêm aqui, e então brincamos de amarelinha, por exemplo. Mas a maior parte do tempo eu estou sozinha. Fico vendo desenhos e filmes sobre os profetas.
O meu maior sonho é que a minha família voltasse. Mas isso é impossível. Espero encontrá-los no Paraíso. Tento me conformar pensando nisso. Quando eu encontrar os meus pais, vou dizer a eles que cresci. Quando eles partiram, eu tinha 7 anos e meio, e agora já tenho 10. Vou contar que memorizei o Alcorão inteiro e que eles poderão se orgulhar de mim.
Quando eu crescer, eu quero me tornar médica, porque eu não recebi o tratamento que precisava. Quero ajudar as crianças que não puderam ser bem tratadas. E quero ficar aqui, em Gaza mesmo. Esta é a minha cidade. Não vou embora.”
Depoimento para Yan Boechat, com a presença da produtora Amal Alwadiya e tradução de Yara Osman.
“PASSAMOS MUITAS NOITES EM ABRIGOS”
Veronika, 12 anos, Kiev (Ucrânia)
Em 24 de fevereiro de 2022, o presidente Vladimir Putin mandou o Exército da Rússia invadir a Ucrânia, seu país vizinho na Europa. Putin diz que parte do território ucraniano deveria pertencer à Rússia (e quase nenhum país do mundo concorda com ele). Desde então, ao menos 550 mil pessoas morreram, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Algumas cidades foram destruídas. A capital Kiev sofreu inúmeros ataques e alguns prédios desabaram, mas o Exército ucraniano conseguiu evitar que ela fosse invadida pelos inimigos.
“O borscht, uma sopa de beterraba, é parte importante da herança culinária da Ucrânia, e eu adoro. Existem dezenas de receitas em diferentes regiões do país, mas os principais ingredientes costumam ser beterraba, cenoura, batata, tomate e caldo de carne. Também temos o varenyky, um tipo de pastelzinho cozido na água, recheado com batata, queijo ou até cereja. Gosto também de comer lanches do McDonald’s, sushi e purê de batata com carne, entre outras coisas.
Na música, curto as canções ucranianas, mas também as de artistas que cantam em inglês, como Shawn Mendes e Dua Lipa. E K-pop! O BTS é popular aqui, mas me agradam mais outros grupos, como o Stray Kids. Sou tão ligada em música asiática que, na Copa do Mundo, torci pela Coreia do Sul e pelo Japão.
Eu gostava de cantar e estudei piano por dois anos, mas parei de tocar. Comecei a jogar vôlei com meus amigos, mas temos que ficar perto do abrigo, porque há muitos alertas aéreos para nos proteger de bombas e mísseis.
Os abrigos são geralmente porões de prédios, onde cabem umas cinquenta pessoas, e estações de metrô, onde podem ficar entre 500 e 1 mil. Eles têm água, banheiro, tomadas, acesso à internet e bancos onde você pode dormir. Em maio de 2023, dormi todas as noites no metrô. Às vezes, as aulas são interrompidas ou canceladas, porque todos precisam descer para o abrigo da escola, onde não tem aulas – os alunos só se sentam e esperam o alerta de mísseis passar.
Às vezes é difícil dormir, porque o barulho da explosão é muito alto e você não sabe se haverá outro alerta ou não. Então você fica o dia todo com sono.
Quando essa guerra acabar, eu quero levar uma vida normal e tranquila, sem alertas, sem nenhuma preocupação. Simplesmente vamos dar uma volta em algum lugar, caminhar por aí. Você poderá então visitar a cidade e vai ver: Kiev, a minha cidade, é muito bonita.”
Depoimento para Daniel Bergamasco por meio de videochamada. Ela falou em ucraniano, mas sua mãe ajudou a traduzir a conversa para o inglês e também a lembrar de alguns detalhes.