questões cinematográficas

“ULISSES” – EFEITO TERAPÊUTICO (III)

Antes de dirigir seu primeiro filme, Eisenstein foi aprendiz de Esfir Shub, tendo trabalhado com ela na condensação das duas partes de “Dr.Mabuse”, dirigido por Fritz Lang.
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V.V.Ivánov, professor da Universidade MGU (Moscou) e da Ucla (Los Angeles), trata do interesse de Eisenstein por Joyce em “Dos Diários de Serguei Eisenstein e outros ensaios”, publicado originalmente em 1976, e editado no Brasil em 2009. 



Como o título indica, a fonte do autor são os diários de Eisenstein, nos quais as referências nem sempre são fáceis de entender:



“[…] se a lírica reproduz, a par das imagens, o próprio curso íntimo da lógica interna dos sentimentos, Joyce então já a dá como cópia da fisiologia da formação das emoções e cópia da embriologia da formação dos pensamentos.”



O próprio V.V.Ivánov não esclarece o quereria isso quer dizer.



Muitos especialistas, segundo Eisenstein, teriam deixado de estudar a importância psicológica do método de Joyce ao escrever “Ulisses”, para fazer brincadeiras, tentando “adivinhar as alusões espalhadas pelo romance, decifrar o conteúdo das associações e fazer o levantamento das neuroses que atormentavam o pobre Mr.Bloom.”



Para Eisenstein, devendo haver correspondência entre sintaxe e estrutura, o monólogo interior de Joyce é admirável, pois transmite “a marcha do movimento da consciência”. 



“Joyce é grande por haver tirado do processo da marcha interior do pensamento e trazido para o primeiro plano outra estrutura da marcha dos conteúdos que fluem no monólogo interior.[…]



[…] a força principal, está precisamente não no lado racional do texto, mas, pelo contrário, no irracional. Não apenas no que as palavras significam, mas no modo como estão dispostas. Não no sentido da palavra, extraído por meio de todas as análises debaixo do deslocamento no qual o apresenta Joyce, mas na natureza do deslocamento com que foi elaborada a palavra, e no cálculo do efeito produzido precisamente por tal deslocamento e não outro.”



Segundo V.V.Ivánov, foi a “análise do método de Joyce” que levou Eisenstein “à experiência de transmissão do monólogo interior com os meios do cinema no roteiro de ‘Uma Tragédia Americana’” – adaptação do romance de Theodore Dreiser escrita por Eisenstein em 1930, nos Estados Unidos.



Enquanto trabalhava no roteiro, encontrou Erich von Stroheim que depois de um brinde teria gritado: “Eisenstein, deixe este lugar antes que seja tarde demais. Eles estão explorando você espiritual e materialmente, mas nunca deixarão você fazer um filme!”



É pouco provável que esse episódio tenha ocorrido exatamente nesses termos. Mas tanto Stroheim quanto Eisenstein foram de fato abandonados por Hollywood.



Foi o produtor David Selznick (1902-1965) quem deu o golpe de misericórdia no projeto de “Uma Tragédia Americana”. Em seu parecer, escreveu que a leitura do roteiro foi 



“uma experiência memorável; o roteiro mais comovente que jamais li… Quando acabei, estava tão deprimido que queria pegar a garrafa de bourbon. Como entretenimento não acredito que tenha uma chance em cem…Se queremos fazer ‘Uma Tragédia Americana’ como uma experiência gloriosa, e tão somente para o progresso da arte (o que seguramente não penso ser o negócio desta organização), então façamos com direção de [John] Cromwell, e cortemos trezentos ou quatrocentos mil dólares do prejuízo. […] Sugiro que tenhamos a coragem de não fazer esse filme e aguentemos qualquer protesto que for feito por não apoiarmos o artista Eisenstein (o que prova ser com esse roteiro) com um milhão ou mais do dinheiro dos acionistas.”



Um ano depois do roteiro de Eisenstein ter sido recusado, Joseph von Sternberg dirigiu “Uma Tragédia Americana” (1931), a partir da adaptação de Samuel Hoffenstein (1890-1947), poeta que se tornou roteirista em Hollywood, tendo escrito, entre muitos outros, “O Médico e o Monstro”(1932) e “Laura”(1944). Sternberg dirigiu “Uma Tragédia Americana”, nas suas próprias palavras, “cumprindo uma tarefa”. O filme, dirigido ao público feminino, diluiu a crítica social do romance e foi rejeitado por seu autor, Theodore Dreiser. 



Em 1951, George Stevens dirigiu “Um Lugar ao Sol”, também baseado no romance de Theodore Dreiser, com roteiro de Michael Wilson (1914-1978) e Harry Brown (1917-1986), premiado com o Oscar de melhor roteiro adaptado no ano seguinte. O filme, incluido por um crítico na época em uma lista de “épicos Freud-Marx”, foi liberado para exibição com cortes impostos por conselhos de censura estaduais. [continua]



[Embora sem uso sistemático de aspas, além do livro de V.V.Ivánov, o texto acima é baseado na biografia de Eisenstein escrita por Oksana Bulgakowa, “Sergei Eisenstein – A Biography. San Francisco: PotemkinPress, 2001. Outras fontes foram os volumes 5 e 7, “Grand Design” e “The Fifties”, da “History of the American Cinema”, Charles Harpole (ed.), além da entrevista de Josef von Sternberg a Peter Bogdanovich em “Who the Devil Made It”. New York: Alfred Knopf, 1997.]


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