questões cinematográficas
Jan 2011 14h07
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Frederic Jameson atribui os rumores de que Alexander Kluge “teria retomado o antigo projeto de Eisenstein” às “mesmas pessoas que acreditam que Eisenstein chegou a escrever um roteiro preliminar do filme sobre ‘O capital’”, quando, na verdade, apenas a primeira das três partes do documentário de nove horas – “Notícias da Antiguidade ideológica” – demonstra essa intenção. Com base nas “Notas para um filme sobre ‘O capital’” – publicadas em “October: The First Decade”. Cambridge: MA, 1987, Jay Leyda e Annette Michelson (ed.) –, Jameson afirma que Eisenstein apenas “rabiscou cerca de vinte páginas de anotações em um período de seis meses”, na mesma época em que “estava muito entusiasmado com o ‘Ulisses’, de Joyce”. O documentário de Kluge, adverte Jameson, é parecido “com as anotações de Eisenstein”.
“Notícias da Antiguidade ideológica”, nas palavras de Jameson, “tem seus momentos amalucados ou mesmo idiotas: dois atores lendo em uníssono, um para o outro, a prosa incompreensível de Marx; um professor da antiga Alemanha oriental explicando o que é ‘liquidez’ para um aluno recalcitrante; e até um tipo de peça satírica na qual o (cansativo) comediante Helge Schneider, equipado com perucas, barbas falsas e todo tipo de parafernália circense, atua em uma variedade de papéis inspirados por Marx. […]
Enquanto isso, num nível menos jocoso, assistimos a uma série interminável de entrevistas – Enzensberger, Sloterdijk, Dietmar Dath, Negt e outras autoridades – nas quais as testemunhas respondem às provocações, perguntas e comentários de Kluge. Assistimos a um trecho curto do estranho projeto de Werner Schroeter, no qual ‘Tristão e Isolda’ de Wagner é encenado como uma retomada da cena do conflito na ponte [sic] de ‘Encouraçado Potemkin’ […]. Tudo isso entrecortado por diversos trechos de filmes e fotografias, a maioria delas do período do cinema mudo, enquanto efeitos tipográficos dramáticos e coloridos com textos de Marx e Freud deixam claro que os intertítulos do cinema mudo podiam ser eletrizantes.[…]
Espectadores desacostumados com esse tipo de prática podem muito bem ver nisso tudo uma inacreditável miscelânea. Mas também podem acabar por aprender a navegar nesse prodigioso local de escavação: não se trata ainda de um verdadeiro museu, organizado profissionalmente, mas de uma incrível confusão, com todos os tipos de pessoas, amadores e especialistas, perambulando em diversos estados e atividades, alguns enxugando a testa ou comendo um sanduíche, outros deitados no chão, enquanto outros ainda organizam diversos itens em caixas sobre mesas protegidas por uma tenda, ou cochilando, talvez conversando, todos passando por uma trilha estreita, tomando cuidado para não pisar nas provas do crime. É nosso primeiro contato com a Antiguidade ideológica.”
Jameson comenta ainda as anotações de Eisenstein para o que supostamente seria seu filme seguinte, depois de “Outubro”, e, segundo ele, a irrelevância da relação com Joyce para esse projeto.
Segundo alguns autores, escreve Jameson, para filmar “O capital”, Eisenstein teria imaginado “um enredo da ordem do ‘um dia na vida de Bloom’, de Joyce”, além de “um segundo ‘enredo’, o da reprodução social e das ‘virtudes domésticas’ da mulher de um trabalhador alemão’:
‘durante todo o filme a esposa cozinha uma sopa para o marido que retorna’, transformando o ‘homem’ num trabalhador”, anota Eisenstein.
Embora ele escreva que ‘Joyce pode ser útil para meus propósitos’, Jameson assinala que “o que se segue é completamente diferente da fórmula ‘um dia na vida de’, pois Eisenstein adiciona: ‘de um prato de sopa aos navios britânicos afundados pela Inglaterra.’ O equívoco dos comentadores derivaria do esquecimento de que em “Ulisses” há capítulos de estilo diferente de ‘um dia na vida de’, como o escrito à maneira de um catecismo escolástico, citado por Eisenstein.
Segundo Jameson, “as sequências cômicas” de “Notícias da Antiguidade ideológica”, podem levar à conclusão de que “Marx, e com ele o marxismo, estão superados”. Por outro lado, escreve,
“o conceito de Antiguidade pode ter a função de nos colocar numa nova relação com a tradição marxista e com o próprio Marx – assim como com Eisenstein. Marx não é nem contemporâneo nem antiquado: ele é um clássico, e toda a tradição marxista e comunista, mais ou menos igual em duração à era de ouro de Atenas, é justamente a era de ouro da esquerda europeia, para a qual se retorna constantemente, com resultados espantosamente complexos, produtivos e contraditórios.” […]
[ este é o penúltimo post sobre esse assunto. ]
[Os trechos citados, todos sem autorização de Frederic Jameson, estão em “Filmar ‘O capital?’”, “Crítica marxista” nº 30 – 2010, pp.67-74]