CRIANÇAS DE CORAL – NIGREDO/COIVARA III (2024-2025) – 33 x 25 cm: Esta obra faz parte de uma série em que Antonio Obá usa carvão sobre tela para retratar meninos ou meninas cantando. Ele buscou as fotos na internet e criou leves distorções em cada uma. “Não é uma simples reprodução”, diz. “Eu distorço principalmente a boca e os olhos, áreas de maior expressividade, para que as crianças pareçam cantar, mas também gritar ou chorar”
Um artista em diálogo com as próprias origens
Antonio Obá conta como uma visita a um vilarejo de Goiás mudou sua carreira
Foi em Olhos d’Água, distrito de Alexânia, em Goiás, que Antonio Obá se deparou com os elementos que o transformariam num dos principais artistas contemporâneos do país. Ele visitou o lugarejo pela primeira vez em junho de 2013, quando atravessava um período de hesitação criativa.
Numa noite, já perto da madrugada, caminhou do centrinho local para a pousada onde se hospedara. Durante o percurso, um cheiro o paralisou por um instante. “Eu não conseguia nomeá-lo. Não era um cheiro específico”, diz.
Mal o artista se avizinhou da pousada, a quietude imperou. “Eu ouvia apenas o som dos meus passos sobre o cascalho.” Estava tudo escuro nos arredores. Talvez a energia elétrica tivesse acabado. “No quintal do hotelzinho, em meio ao breu, me lembrei do medo que sentia da escuridão na infância.” Não havia mais ninguém na pousada. Nem o proprietário do estabelecimento deu as caras naquela noite. Do modesto hotel, avistava-se um “ponto turístico” singular: o pequeno cemitério do povoado.
O cheiro paralisante, a escuridão profunda e o silêncio impactaram Obá de tal modo que, desde então, ele procura reproduzir a atmosfera da viagem em suas criações, escreve Tatiane de Assis na edição deste mês da piauí. Somente hoje o artista negro de 42 anos consegue identificar o aroma misterioso: “Era cheiro de roça, de interior.”
A partir do passeio a Olhos d’Água, Obá confirmou a imensa necessidade de conceber trabalhos que lhe fizessem mais sentido e resolveu se embrenhar de novo no seio familiar. “Eu precisava entender como as relações no microespaço moldaram a minha trajetória e, em especial, os meus traumas e papéis dentro de casa.”
Suas obras ganharam, assim, um caráter autorreferente, “mas não autobiográfico”, e começaram a dialogar com a história brasileira, sempre tão marcada pelo agrário, e com questões ligadas à negritude, ao racismo, à religiosidade católica e aos cultos de matriz africana.
Todas as criações do artista – das pinturas e esculturas aos vídeos, performances e instalações – partem do desenho. Obá desenha desde criança. É um ato cotidiano, como mirar o horizonte do Planalto Central. Com um tio materno, ele aprendeu a tocar violão. Dos pais goianos, guarda principalmente a memória de que trabalhavam pesado. Olivio Vicente de Paula, que agora tem 71 anos, chegou a entregar botijões de gás. Já Maria das Graças de Paula, hoje com 75 anos, engrossava o orçamento doméstico fazendo unhas e cozinhando para fora, tarefa em que o marido a auxiliava. A rotina dura, no entanto, nunca impediu a dupla de celebrar as conquistas dos dois filhos.
Quando Obá, o caçula, estava no ensino fundamental e ganhou um concurso para bolar a logomarca dos jogos estudantis, o casal compareceu à premiação. A mãe, “muito empolgada”, destoava do garoto, mais discreto. “Pareço acanhado, mas na verdade ‘sou tímido e espalhafatoso’”, afirma o artista, citando um verso da música Vaca profana, de Caetano Veloso.
Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem e ver um portfólio com dez pinturas de Antonio Obá neste link.
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