Um intruso na paisagem carioca
Jornalista conta como enfrentou a beleza e o cinismo do Rio
“O Rio destinou os lugares naturais mais bonitos para os ricos e poderosos, que hoje entendem essa paisagem como algo que pertencesse a todos, sem distinção de classe e de raça. Mas, com isso, dissimulam cinicamente o seu próprio privilégio de viver ali, diante do mar, diante do Cristo, diante do Morro Dois Irmãos, desfrutando de belas ruas e belas praias.”
Assim, Danilo Marques conta, na edição deste mês da piauí sobre o impacto que lhe causou o contraste entre a vida confortável e cercada de beleza da Zona Sul do Rio – que ele só passou a frequentar na juventude – com a cidade onde nasceu e cresceu, São João de Meriti, na Baixada Fluminense, a 40 minutos da capital.
“A Baixada Fluminense reúne treze municípios, com os quais o Rio tem uma relação parecida com aquela que os Estados Unidos estabeleceram com a periferia latino-americana: um misto de exploração e desprezo”, ele diz, descrevendo desta maneira sua cidade-natal: “Não há o que fazer em São João de Meriti. O município tem prefeitos reacionários, políticos inúteis e igrejas neopentecostais às pencas. Não tem hospitais, nem boas escolas, públicas ou particulares. Não existe planejamento urbano. É também uma cidade sem muitas árvores. O asfalto das ruas é precário, e os viadutos espantam com sua cor de fumaça. As bocas de fumo são o que há de mais cosmopolita por lá.”
As diferenças entre São João de Meriti e a Zona Sul carioca causam um choque em Danilo Marques, que precisa pegar dois ônibus e o metrô para ir de um lugar ao outro: “Quando chegamos em Ipanema ou Leblon, parece que, num passe de mágica, fomos transportados do Terceiro Mundo dos subúrbios para outro lugar: o Sol ilumina as ruas arborizadas e as fachadas dos restaurantes e lojas elegantes, pessoas bem-vestidas trafegam com seus cães, as crianças parecem sempre em férias, jovens passam em bicicletas caras, enquanto os entregadores voam em suas magrelas desconjuntadas e as babás sempre uniformizadas levam os bebês para um passeio na praça. Alguns passos mais, e estamos nas praias cheias de turistas flanando pelo calçadão ou estendidos na areia, sob os guarda-sóis coloridos, servidos pelos funcionários maltrapilhos dos quiosques.”
Os conflitos se ampliaram quando ele passou a frequentar a faculdade de jornalismo da UFRJ, na Urca, perto do Pão de Açúcar. “Passei a alimentar um forte ressentimento em relação ao Rio, ao me dar conta de que na verdade era um intruso na paisagem da cidade, tanto do ponto de vista geográfico quanto racial”, ele escreve. “Músicas como Menino do Rio, de Caetano Veloso, Do Leme ao Pontal, do Tim Maia, Aquele abraço, do Gil, Samba do avião, de Tom Jobim, começaram a me causar ojeriza. Eu estava me tornando um sujeito amargo, em vez de uma pessoa que poderia aproveitar as mudanças que estavam ocorrendo em minha vida. Não foram poucas as vezes que chorei no vagão abarrotado na volta para casa.”
Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.
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