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Um jornal de opinião

    Fernando Henrique Cardoso, Fernando Gasparian e Mário Soares (ex-primeiro-ministro de Portugal) Foto: acervo pessoal

vultos da república

Um jornal de opinião

Biografia do empresário e editor Fernando Gasparian conta a criação de uma das mais atuantes publicações da imprensa durante a ditadura

Márcio Pinheiro | 24 mar 2026_09h11
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A L&PM Editores publica em abril a biografia Um homem chamado Opinião, de Márcio Pinheiro, sobre a trajetória de Fernando Gasparian (1930-2006). Empresário da indústria têxtil, depois do golpe militar de 1964 foi perseguido e asfixiado economicamente pelo governo devido a suas posições liberais e acabou se exilando na Inglaterra. De volta ao Brasil no início da década de 1970, criou o semanário Opinião, que entre 1972 e 1977 seria um dos principais e mais ousados veículos da imprensa a enfrentar a ditadura e sua censura, como descreve o trecho a seguir do livro, cujo prefácio é do escritor Marcelo Rubens Paiva.

 

 

A comparação com o Pasquim – mais representativo e bem-sucedido editorialmente entre os sı́mbolos da imprensa alternativa – é tão óbvia quanto natural. Porém, ao contrário do irmão mais velho e mais escrachado, o jornal Opinião, desde o seu lançamento, veio para ocupar uma faixa própria, deixando bem claro o que o aproximava e o que o distanciava dos demais jornais.

Sem a porralouquice do Pasquim e sem o ranço esquerdista e sectário de muitos outros semanários alternativos da época, o Opinião era um jornal sóbrio como Fernando Gasparian, seu dono. Afrontava a ditadura de maneira séria e incisiva, sem fazer deboches ou ironias. Desde a primeira edição, em novembro de 1972, até a última, 232 semanas depois, em abril de 1977, o Opinião nunca deixou de servir como uma frente plural e vanguardista em defesa da democracia, dos direitos humanos e da troca de ideias.

A maior identificação entre os representantes da imprensa alternativa estava no combate à ditadura. Opinião, assim como tantas publicações nascidas naquela época, era uma voz que surgia para engrossar os protestos da oposição. O momento, ainda que perigoso, exigia uma reação como aquela. E Fernando Gasparian teve sensibilidade para perceber e audácia para agir.

A criação do Opinião estava afinada com o pensamento de seu comandante, à época já um veterano da polı́tica e da vida empresarial brasileira. Do alto dos seus 42 anos, ele não apenas era um quadro intelectual como trazia consigo a capacidade de compreender as mais diferentes conjunturas (inclusive e principalmente as econômico-empresariais) e de traduzir essa compreensão com uma lógica argumentação polı́tica e cultural.

Quase vinte anos depois, em 1991, o jornalista Bernardo Kucinski recordaria em seu livro Jornalistas e revolucionários – nos tempos da imprensa alternativa a gênese do jornal. Sete anos mais novo do que Gasparian, Kucinski se aproximou do empresário quando se mudou para a Inglaterra, assim como Gasparian, no inı́cio dos anos 1970. O jornalista começara a ser visado pelos órgãos de repressão, depois de ter sido um dos autores de uma reportagem que traçava um mapeamento da tortura no Brasil. Em Londres, Kucinski passou a atuar como produtor da BBC e foi um dos primeiros interlocutores de Gasparian nas conversas sobre a criação de um possı́vel novo jornal.

Sobre Fernando Gasparian, Kucinski iria, anos mais tarde, opinar e traçar um rápido perfil do empresário, destacando que: “Ele era dono de uma dúzia de grandes empresas e vivia intensamente a polı́tica”, “admirava intelectuais notáveis” e “atuara na esfera pública como um articulador e porta-voz da chamada burguesia, um grupo reduzido de empresários dos setores têxtil, metalúrgico e mineral aliados do governo populista de João Goulart e alijados do poder pelo Golpe de 64”.

Gasparian, vale reforçar, pelos dias imediatamente seguintes ao golpe havia sido destituı́do dos cargos públicos que ocupava em entidades empresariais e, já naquele começo da década de 1970, após o bloqueio econômico por parte do governo, teve que se desfazer da América Fabril. Dessa maneira, de abril de 1964, quando ocorreu o golpe, até os primeiros anos da década seguinte, Gasparian e outros empresários com posições idênticas foram alijados da vida pública. A ditadura empenhou-se em cortar os canais de comunicação e de destruir esse setor da burguesia. “Os brasileiros que formaram sua consciência durante a República, entre 1946 e 1964, gravitaram em torno de uma indispensável burguesia nacional”, escreveria anos mais tarde, em 2006, o jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto. “E se havia o burguês progressista, seu nome era o do paulista Fernando Gasparian.”

Assim, o empresário sabia se fazer presente na vida intelectual. Um exemplo ocorreu quando ele esteve na escadaria do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1968, se solidarizando com o pessoal de teatro e cinema quando da greve geral dos teatros contra a censura. Ou ainda quando patrocinou, em outubro do mesmo ano, o 1º Concurso Nacional de Piano. A competição oferecia o terceiro maior prêmio da época, atrás apenas dos concedidos pelo Estado da Guanabara e pela Loteria Federal, que se confirmou, convenhamos, em um belo lance de publicidade para um empresário “subversivo”.

Além disso, enquanto empresário do setor têxtil, Gasparian inseriu a América Fabril no novo contexto da moda brasileira, que adquiriu relevância cultural e mercadológica notável a partir de meados dos anos 1960. As participações da empresa na Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit) passaram a contar com grande produção artı́stica e cultural, além de convidados especiais, como a modelo alemã Verushcka. Em um dos desfiles, dirigido por Flávio Rangel, as modelos, numa atitude ousada para o perı́odo, entraram na passarela carregando cartazes com dizeres como “Viva a Liberdade”.

Havia ainda um outro complemento: o profundo vı́nculo que sempre uniu Fernando Gasparian aos intelectuais. O apreço pela cultura, demonstrado por Gasparian, bem como as amizades daı́ advindas, se estenderiam ao longo da vida. Para o empresário, sempre esteve claro que cultura, polı́tica – e mesmo negócios – poderiam andar de mãos dadas. Todas essas caracterı́sticas permitiam que Gasparian se tornasse um dos grandes aglutinadores de forças na oposição à ditadura.

Somado a esse passado de lutas, Fernando Gasparian chegava ao começo da década de 1970 interessado em dar um formato jornalı́stico aos seus anseios. Conforme Kucinski relembraria, a esse processo da formulação do semanário seria acrescentada a participação do comitê central da Ação Popular (AP): “O mais influente jornal de toda a imprensa alternativa dos anos 70, o semanário Opinião, surgiu no apogeu do regime autoritário, em outubro de 1972, bancado por um empresário, produzido por jornalistas profissionais, protagonizado principalmente por intelectuais e secretamente instruı́do pelo comitê central da Ação Popular”, resumiu.

O mesmo Kucinski amplificou a importância da AP, dizendo que a direção do grupo, desde 1970, decidira pela necessidade de um jornal não partidário, de ampla base de apoio nas forças antiditadura, com o mesmo objetivo de estimular uma frente de oposição ao regime, como pré-condição para o desencadeamento de uma “guerra popular prolongada”.

Naquele começo dos anos 1970, a AP já tinha quase uma década de atuação. Criada em junho de 1962 – a partir de um congresso em Belo Horizonte, resultado da atuação dos militantes estudantis da Juventude Universitária Católica (JUC) e de outras agremiações da Ação Católica Brasileira –, a AP defendia um “socialismo humanista” e se destacava por quadros polı́ticos na liderança estudantil. Figuras como o sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, o “irmão do Henfil”, que seria o coordenador do grupo entre 1963 e 1965, José Serra, Haroldo Lima e Duarte Brasil Pereira, além de nomes mais maduros como Plı́nio de Arruda Sampaio, este último intimamente ligado a Gasparian.

Hegemônica no movimento estudantil, a AP elegeu todos os presidentes da União Nacional dos Estudantes (UNE) até pelo menos o golpe militar de 1964. Porém, depois disso, a organização teve suas mais destacadas lideranças jogadas na clandestinidade ou exiladas, até que em 1971 houve um racha que deu origem a uma facção, a Ação Popular Marxista-Leninista (APML), liderada por Duarte Brasil Pereira, Haroldo Lima, Aldo Arantes e José Renato Rabelo. Esse setor acabaria por ficar mais próximo ao PCdoB.

Ainda que sabida por alguns dos envolvidos, a articulação entre parte do corpo editorial do Opinião com a AP trazia embutida algumas decisões clandestinas. “Na redação do jornal só eu sabia que o Raimundo Pereira tinha encontros regulares com Carlos Azevedo, ligado ao PCdoB, e que ele era o contato do partido”, revelaria anos depois a Kucinski, o artista gráfico Elifas Andreato, que garantiria ainda que Gasparian não tinha a menor suspeita dos contatos secretos feitos com AP/PCdoB.

Porém, antes disso, Fernando Gasparian já se movimentava por outros caminhos. Nos primeiros anos da década de 1970, enquanto se dividia entre funções na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, e em Oxford, na Inglaterra, mantinha constantes articulações. Nos Estados Unidos, apresentou seu projeto aos amigos Paulo Francis, Plı́nio de Arruda Sampaio e Roberto Garcia. Dos três, ele recebeu apoio e boas contribuições. Em uma ida à França, Gasparian se encontrou e também discutiu os planos da elaboração do jornal com outros amigos: Fernando Henrique Cardoso, Luciano Martins e Celso Furtado. E por eles também foi encorajado a seguir adiante.

O mesmo Luciano Martins, com a colaboração de Violeta Arraes – uma referência para os exilados brasileiros em Paris – entrou em contato com o fundador do Le Monde, Hubert Beuve-Méry, e conseguiu dele a autorização para reproduzir uma parte do jornal francês no novo semanário. O noticiário seria editado sob a forma de um caderno especial a ser encartado no jornal. Enquanto isso, nos Estados Unidos, Roberto Garcia colocou Gasparian em conversas com o senador Edward Kennedy e, desse modo, tornou possı́vel a permissão para o direito de publicação de material veiculado pelo Washington Post.

Respaldado e confiante, Gasparian regressou ao Brasil. Conforme lembrou em entrevista concedida à Vani Moreira Kenski, em 1990, para O fascı́nio do Opinião, tese de doutorado defendida na Universidade Estadual de Campinas, Gasparian se deu conta: “Quando eu voltei, o brigadeiro [João Paulo] Burnier [chefe militar que pretendia usar o Para-Sar – os paraquedistas da FAB – em uma série de atentados, um dos quais seria a explosão do gasômetro do Rio de Janeiro, e posteriormente acusar os opositores do regime pelos crimes] tinha implicância comigo. Então, o Waldir Pires foi me buscar no aeroporto para ver se acontecia alguma coisa.” Precavido, Gasparian lembrou que tratou de dar ampla divulgação ao seu retorno. “Eu havia colocado uma notı́cia nos jornais dizendo que estava voltando, que ia fazer uma pesquisa para a Universidade de Oxford, e ia ficar apenas uma semana. A Fundação Getúlio Vargas me deu até uma sala.”

Talvez sem saber, Gasparian agia igual a Chico Buarque, que também retornara de seu exı́lio em Roma por aquela época e aqui chegou seguindo à risca um conselho que o velho amigo Vinicius de Moraes lhe dera antes de ele embarcar, para não correr o risco de “desaparecer”: “Quando voltar, volte fazendo barulho.”

Gasparian fez barulho. E do Brasil não mais se afastou.

 

A criação do jornal Opinião sintetizava pelo menos dois movimentos: o de fortalecer uma frente ampla de oposições que afrontasse a ditadura – essa Frente Ampla que inspirava Gasparian vinha do movimento, criado em 1966, com Carlos Lacerda à frente e que procurara dois antigos adversários, Juscelino Kubitschek e João Goulart – e o de reabilitar uma burguesia empresarial que havia ficado alijada das discussões polı́ticas.

“Esteve aqui a ‘burguesia nacional’ em pessoa e me propôs fazer um semanário em bases inglesas – um dono que paga e acha dinheiro e um editor que edita – no Brasil. Todas as ideias foram discutidas rapidamente com ele”, escreveu o jornalista Raimundo Pereira em carta enviada em 1972 a Bernardo Kucinski em que falava sobre seu primeiro encontro com Gasparian. Ainda duvidando das intenções de Gasparian, Raimundo seguia em seu relato questionando Kucinski sobre o caráter do empresário: “É uma pessoa honesta, decente, com a qual se possa embarcar numa canoa dessas por um mar de trevas e tempestades?”

Como a carta-resposta jamais foi divulgada, conclui-se que a resposta de Kucinski tenha sido positiva. Gasparian seria o empresário que definiria as grandes linhas que o jornal deveria seguir e passaria a dedicar maior atenção aos aspectos financeiros e polı́ticos, a fim de garantir a viabilidade do projeto. Ainda assim, Raimundo, não satisfeito, seguiu investigando o possı́vel futuro patrão. Para isso, chegou a enviar o jornalista Luiz Paulo Costa, do jornal Valeparaibano, de São José dos Campos, para que fosse a Pau Grande e visitasse a vila operária onde ainda moravam os demitidos da América Fabril. Kucinski garante que esse relato, favorável a Gasparian, foi decisivo para o encaminhamento da proposta e também para o convencimento de Raimundo da seriedade do projeto bancado pelo empresário. Raimundo, então, integrou-se ao projeto.

Porém, a adesão por parte de Raimundo não foi imediata. Por quase um mês, ele e Fernando Gasparian divergiram em torno da forma de propriedade do novo jornal. Raimundo e seu grupo insistiram em ter participações nas ações. Gasparian discordou e sustentou que a empresa devia ter um só proprietário. No caso, ele.

Gasparian sabia o que defendia, até porque ele tinha conhecimento da desastrada experiência do Pasquim, provavelmente revelada pelo seu amigo Millôr Fernandes e confirmada por ele próprio logo adiante. Com o Pasquim em dificuldades, Millôr, ao assumir o comando do hebdomadário, pedira ajuda a Gasparian, que concordou em auxiliar o amigo. Nessas negociações, é muito provável que Millôr tenha contado a Gasparian sobre o imenso descalabro administrativo então existente no Pasquim e que era simbolizado pelo fato de que cada um que saı́a do jornal levava a sua cota. Era justamente essa situação que Gasparian agora com o Opinião pretendia evitar.

Em 1990, Fernando Gasparian – ao recordar os fatos com base em sua experiência prévia – seria ainda mais explı́cito na defesa de sua posição: “Eu voltei e peguei o Pasquim que estava financeiramente muito mal. Ajudei a tomar conta do Pasquim para ver como era a economia de um jornal desse tipo. Peguei as dı́vidas, parcelei em 24 meses, avalizei pessoalmente e o pessoal topou. O Pasquim foi um aprendizado para saber como fazer com um jornal, quanto custava”, conta. E, logo a seguir, Gasparian resumia seu pensamento com relação ao novo semanário: “Já com o Opinião, eu não quis que o jornal tivesse sócio, não como no Le Monde – em que todo mundo é sócio; não, nesse tinha que ser só uma pessoa.” E, por fim, ironizou: “O Pasquim dava lucro, mas o pessoal, intelectual, assinava papel em branco pensando que era autógrafo e era promissória.”

Outra divergência entre Gasparian e Raimundo se daria com relação ao nome. Gasparian era incisivo na defesa de Opinião, mas Raimundo sugeria que o jornal se chamasse Assunto, tı́tulo que ele defendia para um projeto seu desde que se desligara da Veja. Gasparian detalharia, em entrevista concedida em 1991 a Bernardo Kucinski, que Raimundo argumentava que “no jornalismo moderno existem assuntos e não opiniões”. Gasparian não se convenceu. Prevaleceu a sua vontade.

Por fim, um terceiro descompasso entre os dois residia na presença dos cientistas sociais, dos artistas e dos intelectuais. Era clara a opção de Gasparian de se aproximar da vida acadêmica e dar voz às universidades. Era uma categoria que estava calada desde os expurgos promovidos pela ditadura. Além disso, Gasparian era próximo de nomes como Fernando Henrique Cardoso, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Francisco Weffort, Maria da Conceição Tavares, Celso Furtado, Luciano Martins, Hélio Jaguaribe e Paul Singer.

Já Raimundo defendia uma outra linha editorial, com uma menor participação de intelectuais e que valorizasse o material produzido pelos jornalistas. “Raimundo não conseguia entender o papel dos artistas e intelectuais, ele combatia a ideia do jornal com esse formato, dizendo que os intelectuais eram ‘vaselina’ e comprometidos demais”, revelou Elifas Andreato. “Ele não tolerava artistas e intelectuais, desdenhava-os e fazia chacotas, que a redação aceitava.”

Mas, entre idas e vindas, Gasparian e Raimundo se acertaram. Arestas aparadas, o número zero foi apresentado aos leitores em uma segunda-feira, dia 23 de outubro de 1972.

No alto, ao lado do nome Opinião, uma rápida definição: “Um novo semanário nacional.” Logo ao lado, de maneira explı́cita, o editorial detalhava os propósitos da nova publicação: “Um jornal que não defende interesses pessoais, não pertence a nenhum partido, não é porta-voz de qualquer ideologia e se recusa a aceitar um volume de publicidade que ultrapasse a 20% de sua receita. Esses são os princı́pios básicos de Opinião, semanário que começa a circular no próximo dia 6 de novembro.”

O editorial do número zero prosseguia em sua apresentação, agora com a definição clara de qual seria o papel do semanário naquele perı́odo. “O jornal não pretende se limitar a um simples relato dos fatos da semana. ‘Deveremos analisar, criticar e interpretar esses fatos para o leitor com a maior honestidade e seriedade possı́vel’, diz o editorialista.”

Na sequência, o editorial detalhava quem estaria no comando da publicação – “Opinião pertence à Editoria Inúbia, de Fernando Gasparian, um dos mais conhecidos industriais brasileiros” – e recordava fatos recentes da história do publisher: “Em 1970, Gasparian afastou-se de suas atividades empresariais para dedicar-se exclusivamente à vida universitária. Formou-se então professor (visiting fellow) na Universidade de Oxford e agora vai dedicar-se também a Opinião.” O parágrafo se encerrava explicando quem estaria ao lado de Gasparian no comando da redação: “O editor-chefe é Raimundo Rodrigues Pereira, ex-editor de Veja e de Realidade.

 

Pernambucano de Exu, onde nasceu em 1940, Raimundo Pereira esteve no lançamento e nos primeiros números da revista Veja, em 1968. À época, ele testemunhou que, logo depois de um grande sucesso inicial, a revista entrou em decadência, caindo de uma tiragem de 700 mil exemplares para 70 mil, números irrisórios para um projeto daquela envergadura. Porém, como editor de uma série de oito fascı́culos encartados na revista sobre a conquista da Lua – o grande tema jornalı́stico de 1969 –, Raimundo conseguiu ressuscitar a publicação. Assuntos cientı́ficos não eram ásperos suficientemente para ele, que já havia sido aprovado duas vezes no rigoroso vestibular do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Raimundo foi um aplicado aluno da instituição até ser expulso logo depois do Golpe de 64.

Na Veja, Raimundo se destacaria em outras áreas, além daquelas ligadas aos assuntos espaciais. Promovido de imediato a editor de Brasil, ele seria o responsável pela cobertura polı́tica e, em agosto de 1969, teria sua prova de fogo.

O Brasil, então, enfrentava uma das maiores crises polı́ticas ocorridas pós-golpe. Costa e Silva, muito doente, foi afastado do poder. Seu vice-presidente, o civil Pedro Aleixo, foi proibido de assumir. Em seu lugar tomou posse uma junta militar composta pelos ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica – os “três patetas” como definiria o lı́der da oposição Ulysses Guimarães. A disputa nos corredores do Palácio do Planalto e nos quartéis só seria amenizada quase dois meses depois, com a escolha e a posse de um novo presidente, o general Emı́lio Garrastazu Médici. Acompanhando o desenrolar de todos os acontecimentos, Raimundo não apenas comandou uma equipe na Veja como foi o responsável por muitas das capas que a revista deu sobre o assunto. Em resumo: ele se saiu bem na tarefa – e a revista sobreviveu.

Porém, mesmo com todo esse reconhecimento interno e externo, Raimundo não duraria muito como editor da Veja. Autor de uma reportagem que ridicularizava o então poderoso ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, Raimundo causou desconforto ao governo. O próprio ministro atingido escreveu uma carta à revista, que, pressionada, cedeu e publicou a queixa como direito de resposta em páginas editoriais e não na seção de cartas como seria de praxe. Incomodado com a interferência, Raimundo pediu para mudar de editoria – foi para a de artes e espetáculos, mais amena – e, pouco depois, pediu demissão.

 

As marcas de ousadia e de inovação propostas pelo Opinião continuariam sendo detalhadas no texto do editorial de apresentação, inclusive com a garantia de que a publicação pretendia ser plural e abrangente: “Opinião propõe-se a atingir uma cópia não revisada ampla faixa de leitores. A despeito desse tom de seriedade – que poderia sugerir uma publicação dirigida apenas a intelectuais – suas 24 páginas serão divididas em três editorias – assuntos nacionais, assuntos internacionais e tendências & cultura – cada uma delas abrangendo um variado campo de interesses.” A parte relativa a assuntos nacionais em Opinião dividia-se basicamente em editorias de polı́tica, economia, educação e cultura em geral. O semanário apresentava ainda seções nomeadas como “Cena Brasileira” e “Gente Brasileira”, em que retratava cenários e indivı́duos que raramente ocupavam as páginas dos demais jornais. Opinião também se antecipou à grande imprensa em relação a temáticas como ambientalismo, violência policial e defesa do consumidor, chegando a provocar uma CPI a respeito de abusos no mercado farmacêutico.

Mas a grande novidade e o imenso diferencial oferecidos pelo Opinião seriam revelados mais adiante, no mesmo editorial: “Em quatro páginas editadas no Brasil e encartadas no meio do jornal aparecerá a edição brasileira do Le Monde, seleção de artigos do diário francês que é considerado um dos melhores do mundo. Outros convênios internacionais garantem o que os editores julgam ser ‘os melhores artigos da imprensa liberal’ dos Estados Unidos e Inglaterra. Opinião tem a exclusividade dos direitos de The New Statesman, um dos mais respeitados semanários ingleses, e de The New York Review of Books, a mais importante publicação intelectual de lı́ngua inglesa. O jornal reproduz ainda material de The Guardian, de Londres, e The Washington Post.

Dessa maneira, o Opinião não apenas abria uma janela para que os leitores brasileiros ficassem mais bem informados com o que acontecia na Europa e nos Estados Unidos, como também o semanário se mostrava conectado com a enorme massa de exilados brasileiros que se encontrava obrigada a viver longe do paı́s. “Entre os brasileiros no exterior, principalmente entre os exilados, o jornal causava grande euforia. As notı́cias eram lidas e discutidas em grupo, pelos estudantes brasileiros na França”, recordaria Fernando Gasparian anos mais tarde.

Por fim, o texto de abertura do jornal seguia sua apresentação mostrando todo o otimismo de seu comandante: “Fernando Gasparian acredita que o Opinião é uma publicação para durar cem anos.”

Para Kucinski, ao apoiar-se nos mais prestigiosos jornais do mundo ocidental, o projeto do Opinião procurava constranger a censura e o aparelho repressivo. “Qualquer violência contra o jornal teria repercussões internacionais”, escreveu ele. “Como preocupação adicional, a direção do jornal soube se cercar e trouxe nomes de prestı́gio internacional para escreverem ou serem entrevistados.”

Em carta enviada a Paulo Francis, com cópia para Bernardo Kucinski, Raimundo permanecia atrelado ao que acreditava ser o ideal para o jornal desde o inı́cio do projeto e repetia sua crença. Para ele, em que pese ainda houvesse algumas discordâncias, o Opinião tinha muitas ideias básicas “nas quais acredito profundamente: ser um jornal independente, não filiado a qualquer esquema polı́tico-partidário, nem a qualquer grupo, turma ou igrejinha”. Raimundo havia escolhido Francis como interlocutor pelo fato de ver o jornalista como “um dos autores da ideia do Opinião”, provavelmente pela proximidade que Francis tinha com Gasparian.

Tamanha confiança dos que se envolveram no projeto se traduzia na proposta de que o jornal, depois de um investimento inicial – de aproximadamente 300 mil cruzeiros, o equivalente a 50 mil dólares –, deveria se tornar autossustentável através de suas vendas.

A perspectiva de sucesso era tão grande que o mesmo editorial vinha acompanhado de cálculos que detalhavam a tiragem (de 25 mil exemplares) e também quanto seria o pagamento dos colaboradores (200 cruzeiros) e dos editores (entre 500 e 600 cruzeiros por semana). “Todo o dinheiro ganho no jornal será reinvestido nele”, assegurava Gasparian, explicando que os salários correspondiam exatamente às possibilidades do jornal que para ser independente politicamente deveria ser autossuficiente financeiramente. “Se eu tivesse que manter o jornal dando prejuı́zo sempre, ele não seria independente de mim como quero que seja.”

Vale lembrar que em outubro de 1972, quando o número zero de Opinião foi apresentado, o Brasil vivia sob o governo de Médici, o menos preparado e o mais sanguinário dos militares que se revezaram no poder durante a ditadura brasileira. A mesma ditadura que ainda dava sinais de força com a consolidação de uma linha-dura no núcleo do poder.

Assim, acompanhando essa percepção, a ilustração principal do número zero foi uma caricatura do lı́der integralista Plı́nio Salgado, que ocupava quase metade da página. Sı́mbolo do pensamento da direita brasileira, o já veterano criador do Partido de Representação Popular (PRP) era um dos ideólogos do regime, prestigiado entre os militares por escrever compêndios de Educação Moral e Cı́vica.

Ao final do editorial, depois de apresentações pessoais mais detalhadas de Gasparian e de Raimundo, o texto ainda ressaltava o currı́culo de outros colaboradores, como Antônio Carlos Ferreira (o secretário de redação), Elifas Andreato (o responsável pelo planejamento gráfico) e os editores Arlindo Mungioli, Mário Alberto de Almeida (também, como Raimundo, formado em fı́sica), Marcos Gomes e Flávio Pinheiro. O grupo de redatores, que teria como base a sede do jornal, localizada em uma casa na Rua Abade Ramos, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, teria ainda o reforço dos correspondentes nacionais e estrangeiros, com repórteres estabelecidos em Brası́lia (Julio César Montenegro), Milão (Vanna Brocca), Washington (Roberto Garcia), Nova York (o já consagrado Paulo Francis), além de dois em Paris (José Bessa e Luciano Martins), um para a América Latina (Alberto Carbone) e mais um para Londres (o já citado Bernardo Kucinski; talvez não por coincidência, assim como Raimundo e Mário Alberto, também formado em fı́sica). “Opinião terá ainda um grupo produtor de matérias: são escritores, economistas, jornalistas e outros intelectuais brasileiros que já se comprometeram a escrever para o jornal. Alguns dos mais conhecidos: Antonio Callado, Millôr Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Otto Maria Carpeaux, Celso Furtado, Chico de Oliveira, Hélio Jaguaribe, Lauro de Oliveira Lima e Oscar Niemeyer.”

Por fim, completavam o elenco da redação Sérgio Augusto e Jean-Claude Bernardet, já então dois respeitados nomes ligados à crı́tica cinematográfica, o primeiro com base no Rio de Janeiro, o outro em São Paulo. Inclusive a primeira colaboração de Sérgio Augusto para o Opinião foi o texto Ajuste de contas, publicado na edição nº 10 e que tratava sobre a relação do público carioca com o cinema. Na análise, o jornalista abordou a reaproximação dos espectadores com a crı́tica e a importância da realização dos festivais de cinema. O autor ainda atacou a polı́tica pouco inteligente de distribuidores e exibidores no que dizia respeito aos filmes apresentados e, com relação à censura, cobrou uma alteração fundamental na superadı́ssima e ridı́cula legislação cinematográfica então em vigor. “Não faz sentido uma censura tão retrógrada quanto a nossa.”

Antes de Sérgio Augusto, outro ex-integrante do Pasquim. Millôr Fernandes já colaborara com o Opinião. Próximo de Gasparian há muitos anos, Millôr aceitou o chamado de Gasparian e escreveu para o novo jornal o artigo Já que pediram a minha modesta opinião, publicado na edição 2.

Logo no inı́cio de seu texto, Millôr alertava, de maneira irônica, sobre os tipos de opinião que ele encontrava por aı́: “O negócio é tomar cuidado com A OPINIÃO (assim mesmo com maiúsculas) pois ela pode ser explícita, implı́cita, pública, corrente, ı́ntima (“Não vai ficar zangada, não, mas acho que teu marido…”), inabalável (“A mim ninguém me convence, meu filho”), convicta, dogmática, escolástica, arraigada (“Aprendi desde cedo que…”), sóbria, imparcial, desapaixonada, compartilhada, adotada (“Faço minhas as suas palavras”), segura, positiva, imposta (todos os slogans), suspeita (“É um homem simpaticı́ssimo apesar do dinheiro”), descuidada, merecedora de crédito (“Agora vai dar sua opinião o presidente do banco”), aceitável, estabelecida (Instituto brasileiro de Opinião Pública), consagrada (“Deus é o maior”), satisfatória (“Parece que é só no duodeno”), provável, convincente ou impressionante.” Depois de elencar todos estes exemplos, Millôr arrematava, ensinando: “Também já que escrevo por coincidência, num jornal chamado OPINIÃO (novamente usando maiúsculas), lembro que não devemos confundir opinião com queixa, o que faria deste jornal, que pretende ser uma tribuna, um muro das lamentações.”

Além do talento de quem escrevia, um dos diferenciais do novo jornal estava na atenção dada à editoria de arte. Com Andreato à frente, a seção seria composta por Cássio Loredano e Diter Stein. Um aspecto se destacava. “As páginas de Opinião serão ilustradas principalmente com desenhos – na maioria das vezes rostos. Embora não tenhamos nada contra a fotografia, não temos dinheiro para montar uma equipe de fotógrafos própria e nem temos interesse em publicar as mesmas fotos que todo mundo já publicou”, explicava Antônio Carlos Ferreira.

Em um primeiro momento, três caricaturistas se destacavam: o uruguaio Hermenegildo Sábat, o argentino Luis Trimano e o brasileiro Cássio Loredano. A eles se juntariam outros nomes como Rubens Grilo, Alcy e os irmãos Paulo e Chico Caruso. Os desenhos veiculados nas primeiras páginas do Opinião – “pouco convencionais dentro da grande imprensa”, como garantia Luciano Martins – passaram a ser uma das marcas registradas do jornal. A qualidade das peças gráficas foi decisiva para atrair novos leitores e confirmar o sucesso da publicação.

Industrialmente, o Opinião entraria no mercado jornalı́stico trazendo alguns avanços, como, por exemplo, um papel de qualidade superior ao que era usado pelo Pasquim. Os jornais – em formato tabloide, com 24 páginas e diagramação requintada – chegariam ao público sempre às segundas-feiras, competindo diretamente com a revista Veja.

“O Opinião juntou uma quantidade de recursos muito grande, principalmente humanos, trazendo para o debate grandes intelectuais, além colaboradores daqui e do exterior”, resumiu Raimundo Pereira em entrevista concedida ao canal Resistir É Preciso, no YouTube, em julho de 2010. A certeza de sucesso era tão grande que, certa vez, Raimundo saiu às ruas, mostrou um exemplar a alguém que passava e perguntou o que ele achava daquela publicação. “Ele pegou o jornal, olhou e disse: ‘Deve ser bom. Tem o Paulo Francis!’”

 

Como o número zero teve como caracterı́stica central os aspectos da polı́tica brasileira, os editores optaram por privilegiar, na edição seguinte, a polı́tica internacional. Quando a edição inaugural do jornal chegou às bancas, na primeira semana de novembro de 1972, a crise envolvendo os Estados Unidos e o Vietnã dominava o noticiário. Assim, a manchete do número inaugural trazia uma charge do presidente Richard Nixon e um artigo do jornalista australiano Wilfred Burchett. Ele era apresentado como o repórter que entrevistou Henri Kissinger, os líderes chineses Mao Tsé-Tung e Chu En-lai, e os vietnamitas Ho Chi Minh, Phạm Văn Đồng, Nguyễn Hữu Thọ e se propunha a explicar “por que Nixon adiou a paz”.

A primeira página ainda era ocupada por outros temas ligados à polı́tica internacional, como “eleições americanas e corrupção”, “Allende se esconde atrás dos fuzis”, “Paulo Francis ouvindo o homem da CIA”, a “pesquisa sobre a vida sexual na França” e “Jorge Luis Borges: obra e caráter”. A única exceção, com um tema vinculado ao Brasil, nada tinha a ver com polı́tica. Era o texto Hermeto toca violão e porco e tratava sobre os novos delı́rios musicais do instrumentista alagoano.

Na mesma edição inaugural, o Opinião também fazia um convite a alguns dos principais jornalistas brasileiros para que eles respondessem à seguinte pergunta: Qual a função da imprensa brasileira hoje?

Participaram da enquete diretores de redação de publicações como O Estado de S. Paulo (Ruy Mesquita), O Globo (Evandro Carlos de Andrade), das revistas Manchete (Justino Martins), Exame (José Roberto Guzzo) e Veja (Mino Carta), da semiclandestina Rolling Stone (Luiz Carlos Maciel), além de colunistas, como os conservadores Tristão de Athayde (Jornal do Brasil) e Gustavo Corção (O Estado de S. Paulo). Entre longas respostas e avaliações, Millôr Fernandes (então diretor do Pasquim) destacou-se pelo poder de sı́ntese de sua resposta tão afinada com aqueles tempos sombrios: “Ocultar a notı́cia.”

 

Desde seu começo, o Opinião teve como um dos principais alvos das crı́ticas nos textos e, especialmente, nas caricaturas a figura do ministro Delfim Netto. Naquele perı́odo entre os anos de 1972 e 1973, Delfim seguia como o titular do poderoso Ministério da Fazenda.

Tamanha visibilidade da figura e do cargo fariam de Delfim Netto a autoridade do governo que maior destaque recebia da imprensa – para o bem e para o mal. No caso do Opinião, a imagem apresentada de Delfim – contrariando a tendência gráfica do jornal, que predominantemente apresentava “máscaras”, caricaturas de rostos apenas – explorava sua gordura e barriga, ressaltando o que deveria ser uma figura grotesca.

Entre todas as caricaturas representando o ministro, uma merece destaque. É a que foi apresentada na edição nº 4, em uma reportagem sobre a distribuição de renda no Brasil. A figura mostra Delfim Netto, meio Macunaı́ma, pés no chão e de fraldas, abraçado a um punhado de cédulas. Agarrado ao seu corpo, escalando-o pelo seu lado esquerdo, encontram-se dezenas de esqueletos, mãos estendidas para cima, tentando alcançar o dinheiro retido. Delfim era o resumo perfeito de tudo o que o Opinião pretendia combater.

Se Delfim Netto encarnava o mal, havia uma contraposição aos desenhos que tinham o ministro como inspiração. Longe de ser um jornal carrancudo, o Opinião sabia também demonstrar simpatia com certos personagens. A maior dessas demonstrações se refletiu em capas como a do nº 22, que teve Ulysses Guimarães como personagem central. Vani Moreira Kenski, em O fascı́nio do Opinião, também percebeu que o presidente do MDB e maior lı́der da oposição não sofria com “as deformações que o jornal costumava empregar no desenho das lideranças”. Com relação ao caso especı́fico da primeira página da edição citada, Vani prossegue relatando: “A Ulysses é reservado um retrato e até uma moldura antiga, clássica, ovalada. Seu rosto, de perfil, é totalmente pontilhado, destacando sua calvı́cie e esparsos cabelos brancos.” E conclui: “O destaque, porém, é para a posição em que o polı́tico é retratado, quase de costas para o leitor, a sombra de seu terno servindo de fundo para a chamada da reportagem, ‘O partido de oposição (em letras romanas clássicas) à procura de um candidato?’” Não por acaso, Fernando Gasparian era próximo e admirava a conduta polı́tica de Ulysses.

Outro exemplo de simpatia por parte do jornal é a capa da edição de número 23, que tem a figura sorridente de dom Paulo Evaristo Arns como destaque. Essa primeira página teria um simbolismo ainda maior, pois seria a última edição do jornal em que a censura ainda foi feita na redação. Na semana seguinte, o jornal publicaria o que seria o seu número 24 (não há numeração indicativa nem na capa, tampouco nas páginas internas), inaugurando a fase em que os censores começam a agir com maior intensidade.

 

A caracterı́stica de produto refinado e voltado a uma elite intelectual fez com que o Opinião, como desejava Gasparian e frisava Kucinski, “nascesse como se já tivesse cem anos de tradição”. Esse aspecto poderia ser simbolizado – por exemplo – pelo fato de o semanário ter uma seção dedicada ao xadrez.

Assim, aliando a proposta sofisticada ao aprofundamento do debate das ideias, o Opinião descobria um espaço único. Ao mesmo tempo em que dava voz aos intelectuais – em especial aos que haviam sido expurgados das universidades – e que abria espaço para as grandes reportagens – com nomes de alto quilate cultural, como Sérgio Augusto, Tárik de Souza, Ana Maria Bahiana e Aguinaldo Silva –, o jornal ocupava uma função que não poderia ser desempenhada por nenhum outro órgão. Como, por exemplo, o Pasquim.

Com um cardápio tão amplo de interesses jornalı́sticos e de colaboradores, o Opinião soube ocupar nichos especı́ficos e pouco explorados. O maior deles residia na capacidade de Fernando Gasparian aglutinar intelectuais do Brasil e do exterior em torno de uma ideia. Gasparian foi pioneiro ao perceber que a academia era uma usina de onde poderia surgir uma ideia de Brasil e que não conseguia divulgar suas propostas. Segundo Kucinski em seu livro lançado em 1991, “o Pasquim, anárquico e satı́rico, não era uma alternativa” e outra publicação, Politika, ligado ao jornalista e ex-deputado federal Sebastião Nery, “refletia um nacionalismo antigo e uma oposição idiossincrática”.

Outra virtude do Opinião, dentro dessa mesma proposta de elevar a régua, foi a de formar um novo tipo de leitor: um indivı́duo de formação universitária, com interesses artı́sticos/intelectuais e que soubesse valorizar a originalidade do jornal, que ficava em um meio-termo entre os excessos da imprensa alternativa e o conservadorismo dos jornalões, como O Estado de S. Paulo, o Jornal do Brasil e a Folha de S.Paulo.

Assim, desde seu primeiro número, o Opinião atraiu a atenção por exigir um certo grau de formação para ser lido. As teses e ideias defendidas pelo semanário vão conquistar um público formado por estudantes e profissionais recém-formados pelas universidades. Ficava claro que essas pessoas sentiam a necessidade de uma publicação mais crı́tica e que trouxesse análises mais elaboradas. Na definição de Fernando Henrique Cardoso, “o Opinião foi uma espécie de universidade para esses estudantes que não tinham o que ler e nem uma orientação maior, em termos ideológicos, na própria universidade”. Em pouco tempo, o jornal se tornou leitura obrigatória e muitas das discussões polı́ticas e econômicas passaram a ser pautadas pelo jornal.

A boa receptividade que o Opinião teve entre jornalistas, universitários e intelectuais foi instantânea e se traduziu em números. Se antes de seu lançamento seus diretores projetavam que o jornal alcançasse uma tiragem entre 20 mil e 25 mil exemplares em poucos meses, o semanário já estava tirando mais de 30 mil, mantendo-se por bom tempo em uma faixa acima dos 29 mil. No auge, a circulação atingiu um máximo de 38 mil exemplares. “A título de comparação, a Veja, que ainda não tinha um sistema de assinaturas, vendia em banca uma média de 42 mil exemplares.”

 

Desde o inı́cio, o grande adversário que o Opinião teria pela frente seria a censura. A perseguição era tão forte que o jornal passou a ser visado mesmo sem ter chegado às bancas. No segundo semestre de 1972, ainda antes do lançamento, Fernando Gasparian foi chamado a depor na Polı́cia Federal no Rio de Janeiro e recebeu uma advertência do chefe do Serviço de Censura, major Braga. “O senhor vai publicar um jornal. Espero que dê tudo certo. Eu quero avisar ao senhor que aqui no Brasil não existe censura prévia, a não ser por problemas morais. O senhor pode publicar o que quiser. Mas eu queria sugerir que o senhor colaborasse para evitar problemas.”

Dessa maneira, diante desse recado explı́cito, ficou claro para Fernando Gasparian e seus editores que o maior inimigo a ser enfrentado seria a censura prévia. Assim, logo a seguir, no mesmo encontro, o major Braga mostrou a Gasparian uma lista com 210 itens, que, segundo o militar, a imprensa em geral obedecia: alguns por imposição de censura prévia, outros porque se autocensuravam.

O diretor do Opinião leu algumas das orientações e resolveu testar a repressão pedindo autorização para levar uma cópia dessa lista para que pudesse analisá-la e definir como usá-la em seu jornal. “O senhor não pode levar essa lista porque ela é secreta”, respondeu o major. Gasparian então argumentou que seria impossı́vel saber o que era ou não permitido: “Quero conhecer as regras do jogo”, disse o empresário. “Ora, não diga isso”, despistou o major com a maior desfaçatez. “Não há regra nenhuma, afinal a imprensa é livre.”

Do que conseguiu levar na memória, Gasparian saiu de lá com alguns trechos em mente: não era permitido fazer campanha sistemática contra o AI-5, era permitido fazer crı́ticas ao governo, mas não ao regime, e eram proibidas crı́ticas ao sistema habitacional, à Bolsa de Valores e ao sistema financeiro. Na linha menos polı́tica e mais comportamental, o documento proibia ainda exaltar as atividades universitárias, fazer apologia do “homossexualismo” e do amor livre e se envolver em temas que apontassem divergências na Igreja.

Pressionado por essas regras, o Opinião precisava andar em uma linha tênue: não podia deixar de publicar textos e reportagens que fossem crı́ticos ao governo, mas também não podia cair na provocação barata, algo que pudesse dar elementos aos censores para que agissem.

Gasparian, por exemplo, tinha excessivo cuidado com o uso de palavrões e de linguagem chula. “Será melancólico se o jornal passar a ser censurado por um motivo desse tipo”, escreveu o diretor em um bilhete que ficou guardado por Raimundo Pereira.

E havia ainda um outro componente, tão ou mais perverso do que a censura oficial: a autocensura. Assim, há registro de um acordo entre Gasparian e Raimundo de que a autocensura deveria ser evitada e que a melhor maneira para que isso acontecesse seria a noção de que todo material a ser publicado deveria ser editado com zelo e discrição.

Kucinski ressalta que o Opinião, nas primeiras edições, tratou temas ligados à repressão polı́tica com comedimento. Um exemplo: a morte de Aurora Maria Nascimento Furtado, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) – organização de luta armada de esquerda no Brasil, formada em agosto de 1968, a partir de uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro –, seria divulgada seguindo o relato oficial – uma tentativa de fuga – quando na verdade, Aurora foi torturada na Invernada da Olaria (delegacia policial no Rio de Janeiro que se notabilizou nos anos 1960 e 1970 pela brutalidade com que eram tratados os indivíduos detidos em suas dependências: espancamentos, tortura, extorsões e assassinatos; também muitas execuções se davam por afogamento nos rios da Guarda e Guandu).

O Opinião teve um mı́nimo alı́vio por parte da censura oficial apenas no inı́cio: somente nos primeiros oito números. Então a situação mudaria.

Enquanto essa oitava edição estava sendo produzida, Gasparian recebeu um comunicado do major Braga. O documento informava que a partir da edição seguinte, o jornal passaria a ter uma “revisão prévia”. Gasparian foi então chamado a comparecer diante do major para receber instruções. Afinal, o diretor não aceitara seus “conselhos” e o jornal publicara “coisas inconvenientes”.

Preocupado, Gasparian perguntou se aquilo era uma intimação ou um convite. E ouviu o recado curto e grosso dado pelo oficial: “O senhor vem aqui que é melhor para o senhor.”

Fernando Gasparian foi e recebeu a comunicação de que o jornal passaria a ter um censor na redação, uma senhora chamada Marina, que havia sido censora no tempo do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), da ditadura de Getúlio Vargas, e que iria, segundo o major, realizar seu trabalho dentro das regras gerais.

Até então, aquelas primeiras edições haviam sido uma espécie de teste da censura com o Opinião. Como se estivessem apenas observando em silêncio, os censores deixaram passar, com relativa liberdade, os primeiros números. Quando viram que a situação ficara fora de controle, resolveram pressionar.

O que ocorreu a partir da edição número 9, de janeiro de 1973, com a atuação da censura teve, de bom, apenas uma conclusão: o jornal estava ganhando prestı́gio e – melhor – sendo lido!

Dona Marina, a primeira censora, era uma figura suave. Raimundo Pereira relataria que muitas vezes ela, ao ler uma entrevista que poderia ser censurada, argumentava: “Traz a outra para ver se eu deixo passar!” E sugeria, enquanto conversava com Raimundo e servia chá para os dois: “Corta isso, repõe aquilo…”

Esse tipo de convı́vio pacı́fico e de censura negociada durou pouco e logo foi substituı́da por uma dupla de censores, também um pouco sensı́vel a certa capacidade de convencimento. Um dos editores do jornal lembraria anos depois que, muitas vezes, eles ganhavam dos censores no cansaço. Com sono, às três, quatro da manhã, os agentes deixavam passar muita coisa para abreviar as discussões e eles serem liberados das tarefas.

A ação dos censores era responsável não apenas por episódios truculentos como também por momentos risı́veis pelos seus aspectos ridı́culos. Sérgio Augusto recorda que certa vez, na redação, atendeu um telefonema e, depois de uma rápida conversa, gritou: “Puta que pariu, censuraram o xadrez!” Sérgio Augusto fazia referência à coluna de xadrez, reproduzida do jornal inglês The Guardian e considerada a melhor em seu estilo no mundo. O editor, então, lembra o motivo: “O texto começava assim: as pretas avançam… derrubar o rei… uma linguagem cifrada, metáfora… Resultado, eles censuraram!”

A censura ao Opinião, em sua primeira fase, foi – digamos assim – branda. Para driblar os censores, a equipe do jornal selecionava quase sempre os textos retirados das publicações estrangeiras que, por exemplo, tivessem algum vı́nculo com assuntos ligados à realidade brasileira. Fernando Gasparian reforçava a ordem: “Era preciso pegar o Le Monde e privilegiar aquele material que acentuasse os assuntos que a gente queria discutir aqui dentro.” A receita não era infalı́vel. “Às vezes passava, mas não era certo.”

Essa fase durou pouco. Logo adiante, o Opinião, já então sofrendo com uma censura mais dura e constante, se veria diante do seu primeiro grande problema: duas edições, as de número 22 e 23, seriam as primeiras vı́timas dos novos tempos. Os dois números teriam ainda uma importância bem maior. Primeiro pelos personagens homenageados com a capa – no caso, o deputado Ulysses Guimarães e dom Paulo Evaristo Arns – e depois pelo conteúdo explosivo.

 

Em 1973, o estudante Alexandre Vannucchi Leme, 22 anos, estava no quarto ano de geologia na USP. Ótimo aluno, Vannucchi foi o primeiro colocado no vestibular. Em paralelo à atuação estudantil, ele era militante do grupo clandestino ALN. Seu apelido entre os amigos de faculdade era Minhoca.

“O Minhoca caiu” é a primeira frase de Cale-se, livro do jornalista Caio Túlio Costa, lançado em novembro de 2003, e que recupera aqueles agitados dias entre março e abril de 1973, quando “cair” significava ser preso pela polı́cia polı́tica da ditadura, mantido incomunicável, provavelmente torturado e, algumas vezes, assassinado. Naquele perı́odo, dezenas de estudantes da Universidade de São Paulo caı́ram, foram torturados e um morreu supliciado, Alexandre Vannucchi Leme.

De acordo com documentos revelados anos mais tarde pela Comissão da Verdade, Alexandre foi visto pela última vez na USP, em 15 de março de 1973, quando assistia às aulas. Ele foi preso pelos agentes do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, em 16 de março de 1973, por volta das 11 horas. Após receberem um telefonema anônimo dizendo que seu filho estava no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), os pais começaram a procurar por Alexandre. Ao chegarem ao departamento, eles foram informados de que ali não havia nenhum registro. Eles procuraram ainda no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), no Detran e no DOI-Codi. Todas as buscas sem sucesso. Só uma semana depois do desaparecimento, em 23 de março de 1973, os órgãos de segurança divulgaram a morte do estudante. A explicação apresentada era a de que Alexandre fora atropelado ao tentar fugir da prisão na Rua Bresser, em São Paulo, quando era levado ao Hospital das Clı́nicas.

Ninguém acreditou nessa versão.

Uma assembleia no Instituto de Geologia, no mesmo dia em que a notı́cia foi divulgada, aprovou a proposta de realização de uma missa de sétimo dia. Também ficou decidido que haveria a formação de uma comissão para apurar as circunstâncias da morte de Alexandre e das prisões de outros estudantes. Foi definido ainda que os estudantes iriam decretar que estavam de luto e que pretendiam organizar uma paralisação simbólica de protesto com as demais faculdades da USP. O ato foi realizado e contou com a adesão imediata de mais de três dezenas de centros acadêmicos (18 da USP, três da PUC-SP e seis da PUC-Rio, além de outros do interior de São Paulo).

O jornal O Estado de S. Paulo acompanhou os acontecimentos, repercutiu a mobilização e publicou, em 29 de março, a nota de falecimento de Alexandre elaborada pelos colegas do curso de geologia e o convite para a missa de sétimo dia. A mobilização estava consolidada.

No dia seguinte, dom Paulo Evaristo Arns celebrou a missa em intenção de Alexandre na Catedral da Sé. Calculou-se que mais de 5 mil pessoas – entre estudantes, polı́ticos, artistas, advogados e lideranças sindicais – participaram da cerimônia. Houve protestos contra a tortura e manifestações de repúdio à versão oficial da morte.

O Opinião foi obrigado a ficar em silêncio. Raimundo Pereira lembraria, anos depois, que o jornal não pôde publicar que a missa de dom Paulo era em homenagem a Alexandre Vannucchi Leme.

A solução encontrada pelo jornal foi dar a notı́cia em partes. No primeiro texto, no alto de uma página ı́mpar, o tı́tulo dizia apenas: “Missa para um estudante morto.” Somente no final do texto, no último parágrafo, era possı́vel decifrar a mensagem e o personagem a qual o artigo fazia referência: “Entre os milhares de fiéis, um casal participava comovido da missa. A mulher, vestida de preto, chorava em companhia de duas filhas. Era a mãe do estudante da Universidade de São Paulo em memória de quem estava sendo celebrada a missa de sétimo dia na Catedral da Sé. Após a cerimônia, o casal foi abraçado pelo cardeal Evaristo Arns e pelo bispo dom José Machado Campos.”

Na sequência da mesma página, logo abaixo, outro texto, com o tı́tulo “Nota oficial sobre a morte do estudante Vannucchi”, dava alguns poucos detalhes. Muito provavelmente por ação da censura, a explicação ficava restrita à versão oficial. E dizia: “Em um comunicado divulgado no último sábado, dia 31 de março, à tarde, o secretário de Segurança de São Paulo, general Sérvulo Mota Lima, deu a versão oficial dos fatos que culminaram com a morte de Alexandre Vannucchi Leme, estudante do 4º ano de geologia da USP, tendo em vista a agitação reinante no meio estudantil. O comunicado respondia a um ofı́cio enviado ao secretário pelo reitor da USP, professor Miguel Reale.” De novidade, apenas a insistência dos órgãos oficiais em sustentar a versão do atropelamento, inclusive com a indicação de um culpado, o motorista João Cascov, que dirigia o caminhão Mercedes-Benz, placa NT 1903.

Os tempos eram tão estranhos e perigosos que o Opinião, para os órgãos de repressão, merecia desconfiança até de quem simplesmente andasse com um exemplar do jornal embaixo do braço. No mesmo livro Cale-se é narrado o episódio em que dois alunos foram detidos, no mesmo dia da missa de dom Paulo para Vannucchi Leme. Abordados pela polícia, os dois foram enviados no bagageiro de uma Veraneio e levados para uma delegacia. Depois de feitas algumas verificações, um deles foi solto. O outro, não. O motivo, segundo documento datilografado pelo escrivão, era que o detido tinha em seu poder o jornal Opinião e que ali havia um artigo que “deixou os policiais em dúvida”. Dúvida do quê? O termo de declaração não esclarece.

 

A provocação feita pelo Opinião com a publicação dos dois textos sobre Vannucchi Leme trouxe a censura ainda mais para dentro da redação. Assim, a partir de abril de 1973, por determinação do ministro Alfredo Buzaid, os editores do Opinião passaram a ser obrigados a enviar o material que pretendiam ver impresso para que fosse avaliado e liberado (ou não) pela Polı́cia Federal.

De maneira elegante, Fernando Gasparian tentou argumentar enviando uma carta ao delegado regional da Polı́cia Federal apresentando seus propósitos. A razão argumentada pelo diretor às autoridades se baseava na demora e trazia como fundamento os prejuı́zos industriais e comerciais que tal decisão acarretava. De nada adiantou o protesto.

Para agravar a situação, Gasparian resolveu enfrentar os censores e descumpriu a determinação de só mandar o material para a gráfica depois que estivesse liberado pela censura. Buscando um meio-termo, o diretor, tão logo recebeu a edição impressa, tomou a precaução de enviar um exemplar à Polı́cia Federal, explicando as razões da impressão.

O encarregado de levar a edição foi o jornalista Tárik de Souza. Ele chegou à delegacia carregando um exemplar e uma carta explicando as razões. Nenhuma argumentação foi aceita. A edição de número 24 foi totalmente apreendida, e Tárik, o portador da carta, foi imediatamente preso – mais tarde o próprio Gasparian e também Raimundo Pereira seriam detidos. Raimundo foi preso na redação e Gasparian na gráfica.

Levados à mesma delegacia, eles sabiam que estavam no mesmo ambiente, mas, durante todo aquele perı́odo, os três ficaram incomunicáveis. Os três também foram interrogados separadamente durante a madrugada. “Ninguém sabia o que poderia ter acontecido com o outro”, recorda Tárik de Souza, acrescentando que, na manhã seguinte, todos foram liberados em momentos diferentes. “A primeira coisa que fiz quando saı́ à rua foi ligar de um orelhão para saber se Gasparian e Raimundo também haviam sido soltos.”

O episódio da prisão de Gasparian, Raimundo e Tárik foi o responsável por um grande abalo na estrutura do jornal. O medo havia entrado para dentro da redação. Até então, a única crise ocorrera em janeiro daquele ano, quando houve a saı́da de dois editores, Mário de Almeida, do Rio de Janeiro, e Arlindo Mungioli, da sucursal de São Paulo. O primeiro aceitou um convite para trabalhar na revista Veja. A causa dos dois pedidos de demissão, conforme versão de Mungioli, foi a interferência excessiva de Raimundo Pereira, “com quem não dá para trabalhar”, e os salários, que andavam muito abaixo do mercado.

 

“Você vai me perguntar se eu era jornalista?”, questiona Tárik de Souza. “Não, eu era militante”, explica ele, para logo em seguida detalhar seu posicionamento. “Escrever no Opinião foi uma das maneiras que eu encontrei para enfrentar a ditadura.”

De Raimundo Pereira, o jornalista já era próximo desde os tempos de Veja. Em 1968, Tárik, então estudante de jornalismo, foi aprovado no concurso promovido pela Editora Abril que daria origem a um curso que, por sua vez, revelaria os primeiros profissionais que integrariam a redação da nova revista. Além das relações jornalı́sticas, os dois se aproximariam por uma razão peculiar: Raimundo era de Exu, a mesma cidade onde nasceu Luiz Gonzaga, uma das obsessões musicais de Tárik.

Agora, naquele inı́cio dos anos 1970, Raimundo – já fora dea Veja – e Tárik, ainda ligado à revista, se reencontrariam na redação do Opinião, no Rio de Janeiro. “Eu e meu amigo Elifas Andreato – um irmão que a vida me deu – saíamos de São Paulo às sextas-feiras à noite, viajávamos de madrugada num Galaxie preto que o Elifas dirigia e nos apresentávamos na manhã seguinte na redação”, lembra Tárik. “E como eu era um militante polı́tico essa era uma tarefa polı́tica.”

Além de Tárik de Souza, outro nome importante do jornalismo que se juntou ao time de colaboradores do Opinião logo no início foi Aguinaldo Silva. Hoje consagrado como um dos maiores autores de novela do Brasil – responsável por sucessos de audiência como Senhora do destino e Três graças – Aguinaldo, à época, era conhecido apenas em cı́rculos restritos, como as ruas da Lapa e de Santa Tereza, onde vivia, e as redações de jornais como a de O Globo, onde era subeditor de Polı́cia.

Foi essa experiência que Aguinaldo – também já autor de meia dúzia de livros – levou para o jornal. “Minha entrada se deu de maneira improvável”, conta Aguinaldo. “Eu estava na redação de O Globo, o telefone tocou e era o Raimundo – a quem eu não conhecia pessoalmente, mas já admirava como jornalista – me convidando para colaborar com o jornal”, explica. “Claro que aceitei.”

Aguinaldo, assim como Raimundo, também era pernambucano, e tinha na memória as lutas políticas em seu estado ocorridas durante o golpe e a deposição de Miguel Arraes. Porém, ao Opinião, ele trouxe um tipo de jornalismo com uma nova abordagem, mais centrado nos aspectos da violência urbana e na crítica social do que na análise política.

Seus dois primeiros textos foram sobre personagens que ele conhecia bem. Um sobre Madame Satã, o mı́tico malandro da Lapa, homossexual e bom de briga. O segundo sobre Nelson Duarte, policial civil e um dos chamados “Doze Homens de Ouro”, grupo formado pelo secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luı́s França, para “limpar” a cidade e eliminar criminosos, travestis e moradores de rua.

Colaborando com o Opinião, Aguinaldo desempenhava, no mı́nimo, uma dupla função. A primeira era a de salvar do ostracismo um material que com certeza não seria publicado em um grande jornal como O Globo. A apuração iria direto para a lixeira. “Na única vez em que consegui emplacar algo nessa linha mais violenta, tratando o caso de dois meninos de rua que haviam sido torturados e mortos, não deu certo”, lembra Aguinaldo. “No dia seguinte, vi um exemplar do jornal na mesa do editor e rabiscado em cima com a assinatura do editor-chefe: ‘Sinal de perda de controle.’” Impedido de utilizar onde trabalhava o material que considerava importante, Aguinaldo encontrou no Opinião a válvula de escape. Agora, ele podia dar ao novo veı́culo uma proximidade com a voz das ruas, trazendo para a redação uma narrativa mais crua e violenta.

O Opinião, lógico, também ganhava com isso. Temas policiais sempre caem no gosto do leitor. E, além disso, noticiar esses fatos era ainda uma maneira de resistir, de afrontar o governo. Em resumo, de fazer polı́tica. “A capa sobre o Nelson Duarte foi o meu cartão de apresentação”, considera Aguinaldo, ressaltando como o público parecia interessado em saber mais sobre aquele homem que tinha um quadro semanal no programa de Flávio Cavalcanti e que exibia suas qualidades como sendo o “inimigo número 1 dos traficantes e viciados” até ser denunciado e processado por extorquir com demasiada frequência tanto uns quanto outros. “Denunciar isso também era um gesto polı́tico”, conclui Aguinaldo.

As pautas e textos de Aguinaldo não passaram despercebidos pela censura. O jornalista lembra que embora nunca tenha sido diretamente ameaçado, ele começou a se sentir perseguido. “Várias vezes eu percebi um mesmo carro estacionado em ruas próximas aos locais onde eu morava ou trabalhava”, conta Aguinaldo. “Num primeiro momento cheguei a pensar que era paranoia minha, mas logo depois cheguei à conclusão de que era verdade.”

 

Depois de sofrer uma perseguição intensa com relação às pautas e às reportagens, o Opinião passou a ser atingido em dois aspectos muito sensı́veis: nas caricaturas e nos textos dos intelectuais ligados à academia. Com a censura pressionando, o resultado foi imediato: a vendagem caiu. Porém, a violência dos atos cometidos repercutiu amplamente nos meios polı́ticos e também nos outros paı́ses. Cada arbitrariedade praticada contra o jornal era denunciada pelo Opinião no Brasil e no exterior, através dos jornais e revistas com quem a redação tinha contatos.

Indignado e incansável, Fernando Gasparian não desistia de enfrentar a censura prévia ao mesmo tempo em que buscava uma saı́da legal. A solução encontrada por ele, a partir daquele momento, foi apelar à mais alta instância: o Supremo Tribunal Federal. O diretor acreditava que a censura não tinha respaldo legal e, para defender essa tese, constituiu como seu procurador Adauto Lucio Cardoso.

A escolha de Gasparian foi precisa e impactante. Jurista, ex-deputado federal pela UDN, ex-presidente da Câmara dos Deputados, voz liberal respeitada na polı́tica brasileira, Adauto Lucio Cardoso fora também ministro do STF e marcara com destaque sua passagem pelo tribunal. Em 1971, quando o STF julgou constitucional a Lei da Censura Prévia (Decreto-lei nº 1.077), editada pelo Governo Médici, o ministro, revoltado, manifestou sua indignada repulsa diante daquela decisão, despiu sua capa, atirou-a ao chão e abandonou acintosamente o recinto.

Agora, com Adauto como aliado, Fernando Gasparian também sentiu a necessidade de costurar uma rede de apoios. Acreditando no sucesso de sua empreitada, Gasparian procurou Ruy Mesquita, diretor do jornal O Estado de S. Paulo, e a ele pediu que se juntasse ao processo. Ruy Mesquita não aderiu. Sua argumentação era de que “era perigoso naquele momento uma ação desse tipo”. Curiosamente, a desculpa arranjada por Mesquita se amparava no fato de que a tese havia chance de ganhar “e que a vitória criaria uma confrontação perigosa dos jornais com o governo”.

Mesmo sozinho, Gasparian seguiu adiante. Assim, em maio de 1973, o mandado de segurança foi impetrado apenas pelo Opinião. O julgamento realizou-se no plenário do Tribunal Federal de Recursos, com a sala de sessões lotada. Estavam presentes deputados e senadores do MDB, jornalistas – muitos deles ligados às agências internacionais –, professores e advogados.

A vitória foi apertadı́ssima – seis votos contra cinco – e inútil.

Apesar do grande número de jornalistas presentes ao julgamento, nenhum jornal brasileiro publicou qualquer notı́cia sobre a vitória do Opinião contra a censura. E quando a redação ainda comemorava, Gasparian recebeu um telefonema da Polı́cia Federal. Do outro lado da linha, alguém avisava: “Olha aı́, vocês não publiquem o jornal sem censura porque nós temos ordem de apreender.” Gasparian respondeu que, neste caso, pediria a intervenção federal no Rio de Janeiro, porque havia uma decisão do Tribunal Federal de Recursos que precisava ser cumprida.

No dia seguinte, o presidente Médici, orientado por alguns ministros, baixou o decreto especı́fico em que legalizava a censura prévia em Opinião. A base para a decisão governamental estava no AI-5. O gesto de coragem de Gasparian ao afrontar a ditadura causou especial irritação no ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, que chegou a pedir a Médici que fechasse a Editora Inúbia. A justificativa apresentada por Buzaid era a de que a editora faria parte de uma articulação internacional que tinha por objetivo patrocinar a subversão da ordem pública e – medo maior dos militares! – implantar uma ditadura comunista no Brasil.

Logo a seguir, para piorar a situação, a ditadura fez mais um movimento para tentar estrangular o jornal, anunciando que seria possı́vel, em breve, suspender a censura prévia em grandes órgãos, como O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde. Mas tal medida não deveria beneficiar os representantes da imprensa alternativa.

À medida que o ano de 1973 aproximava-se de seu fim, mais um ataque à liberdade de imprensa iria ocorrer. Os cortes feitos pela Polı́cia Federal na edição de número 55 do Opinião foi tão intensa que Gasparian optou por suspender o jornal e fazer uma nova denúncia pública. O diretor, então, enviou uma carta de protesto a Buzaid – com cópia para todos os assinantes e à imprensa estrangeira – protestando contra “os graves atentados à liberdade e à lei”. A denúncia se amparava na certeza de que a arbitrariedade podia ser comprovada pelos números: das 348 laudas submetidas à censura, praticamente a metade (170) havia sofrido alguma espécie de corte. Na versão de Kucinski, publicada em seu livro Jornalistas e revolucionários, Gasparian, em um primeiro momento, parecia propenso a usar esse gesto como uma explicação para sua decisão de fechar o jornal, mas foi impedido pela redação.

 

Durante muito tempo, um dos maiores problemas do Opinião não estava na edição, mas no fechamento das páginas. Enquanto a censura era na própria redação, o fechamento se iniciava na quinta-feira. Mas, de maneira geral, o expediente começava, para valer, na sexta-feira, e ia até sábado, quase sempre noite adentro. Raimundo contaria: “Quando surgiam problemas na gráfica, ou com a censura, nós ficávamos dois dias seguidos, sem descanso. Chegamos a ficar 53 horas fechando uma única edição do jornal.” Como esse problema não tinha solução, a redação era obrigada a adiar a chegada do jornal às bancas.

Como as publicações semanais quase sempre guardam alguma relação com a atualidade dos fatos, é praxe que os semanários circulem, preferencialmente, às segundas-feiras. O Opinião era assim e saı́a regularmente na segunda-feira. Porém, naqueles meses do primeiro semestre de 1973, a direção foi informada de que os policiais haviam decidido que só teriam condições de examinar o jornal nas terças-feiras. Para que isso fosse possı́vel, a edição tinha que ser fechada às segundas. Censuradas, as matérias eram devolvidas na quarta. Como precisavam ser cortadas e remanejadas – antes de diagramadas, montadas e impressas – o processo tomava pelo menos mais dois dias. A solução foi que o Opinião tivesse sua data de publicação trocada para sexta-feira e, mesmo assim, os riscos de atraso eram permanentes.

Fernando Gasparian tentou ainda negociar, solicitando que a leitura dos censores fosse feita nas quintas. Recebeu como resposta que seu pedido era impossı́vel: aquele era o dia do Pasquim.

A estrutura de trabalho na redação do Opinião, dessa maneira, precisou ser alterada – e isso significava acréscimo de despesas. Foi contratada uma pessoa em Brası́lia que teria a função de transmitir por telefone o que havia sido deliberado pela censura. A fortuna gasta em ligações interurbanas foi imensa. Além disso, a troca do dia em que o jornal chegava às bancas afetou a procura por parte dos leitores. As vendas, novamente, caı́ram.

Um retrato do clima de perseguição registrado durante esses meses pode ser avaliado pelo comportamento de um general, no caso Antônio Bandeira, ex-comandante da 4ª Divisão do Exército, sediada em Minas Gerais, e que de maio de 1973 a março de 1974, ocupou o cargo de diretor da Polı́cia Federal e assinou 110 proibições da censura – uma média de uma a cada 72 horas. Ao ser perguntado por Fernando Gasparian qual o critério que utilizava para executar suas tarefas, o general foi objetivo: “Minha ordem é a seguinte: na dúvida, corta.”

José Antonio Pinheiro Machado conta que deputados ligados ao governo chegaram a sinalizar que se o Opinião voltasse a fazer um requerimento pedindo que a censura fosse feita de forma diferente talvez esse pedido fosse atendido. Fernando Gasparian recusou a oferta. Ele argumentava que um requerimento nesse sentido implicava, de certa forma, na aceitação da censura. “Nós não ı́amos requerer nada à censura. Não podı́amos. A censura era uma coisa que nós não aceitávamos mesmo. Você não pode negociar com esse tipo de gente.”

À medida que o governo Médici se aproximava de seus últimos dias, a censura passava por um processo crescente de agravamento. Se no inı́cio a redação recebia as “recomendações” para que não publicasse isso ou aquilo até chegar à exigência de que todo o material fosse enviado à Brası́lia para censura prévia, o final do governo foi marcado por atos ainda mais discricionários. Certa vez, numa reportagem sobre o lançamento de um disco, havia a informação que determinada composições era de autoria de Francis Hime e de Chico Buarque. Os censores cortaram o nome de Chico Buarque.

Com relação a assuntos internacionais, a perseguição também era implacável. O Opinião foi proibido de publicar qualquer material sobre o golpe no Chile, que derrubou o presidente eleito Salvador Allende e colocou em seu lugar o general Augusto Pinochet. A censura cortava tudo. Até mesmo artigos do insuspeito Wall Street Journal.

De bom nesse perı́odo – ou melhor, razoável –, apenas uma sinalização que houve por parte do novo indicado à presidência. O general Ernesto Geisel e seus principais assessores, à frente de um escritório polı́tico na Candelária, no Rio de Janeiro, passaram a organizar encontros periódicos com polı́ticos e empresários. A intenção era demonstrar que o novo governante pretendia dar um tom nacionalista ao seu governo e que entre as principais medidas a serem adotadas estava o fim da censura. Os donos de jornais começaram a receber emissários com essa informação, e Raimundo Pereira – segundo relato de Kucinski – ouviu do próprio Heitor de Aquino Ferreira, secretário particular de Geisel, o seguinte recado: “Piorar não vai.”

Porém, a notı́cia que teria tudo para serenar os ânimos aumentou ainda mais a linha que separava Gasparian de Raimundo. O primeiro apostava na abertura, acreditava em algumas das intenções do novo governo e via com bons olhos o futuro que se apresentava. Já Raimundo mostrava-se cético e não escondia de ninguém a sua avaliação: nada iria mudar.