vultos das artes
Ana Beatriz Marin, do Rio de Janeiro Mar 2026 08h30
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Marcello Melo tinha 24 anos quando pisou pela primeira vez no Vidigal, comunidade localizada entre os bairros do Leblon e de São Conrado, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Fora até lá visitar uma casa para alugar, já que cogitava se mudar da favela Vila Zenith, em Austin, Nova Iguaçu, onde morava com a mulher e os dois filhos mais velhos (hoje são quatro, os dois últimos de relações posteriores). Na época, ele trabalhava como laboratorista no laboratório de fotografia do Departamento de Artes da Pontifícia Universidade Católica (PUC), na Gávea, onde chegou a iniciar o curso de Desenho Industrial. O Vidigal, muito mais próximo dali, foi indicação de um colega de trabalho.
“‘Pô, favela, mano.’ Eu não dizia isso pra ele, mas pensava. Suburbano tem pavor de favela. Só que esse cara era tão maneiro, que pensei: ‘Vou lá dar uma moral pra ele.’ Quando cheguei aqui, a casa era uma ‘quiti’ [quitinete]. Você entrava de frente e saía de costas, não dava pra virar”, brinca. “O fogão e a geladeira eram na sala, do lado da minha cama, mas tinha uma janela que dava direto pro horizonte. Eu via o sol nascendo. A segunda vez que subi o Vidigal foi com toda a minha mudança e ali [na casa] fiquei vinte anos”, completou ele, que segue na comunidade, mas em outra casa.
Foi no Vidigal que Melo conheceu, em 1996, o Nós do Morro, do qual hoje é diretor-executivo. O grupo de teatro havia surgido dez anos antes, por iniciativa do ator, preparador de elenco e diretor de palco Guti Fraga. Além de Melo, a diretoria é composta também pelo ator Babu Santana, a atriz, cineasta e roteirista Luciana Bezerra e a atriz Sabrina Rosa. Juntos, eles estão organizando o aniversário de 40 anos do grupo. A ideia é apresentar um espetáculo inédito, remontar o infantil É proibido brincar (encenado pela primeira vez em 1998), organizar palestras, festivais de esquetes e de cinema e dar uma grande festa.
Como toda efeméride, o momento sugere planejar o futuro e olhar para o passado. Guti Fraga – nascido Gotschalk da Silva Fraga em Alto Garças, no interior de Mato Grosso –, conta que criou o grupo de teatro ao identificar em alguns moradores da comunidade um potencial artístico que merecia ser desenvolvido. Ele morava no Vidigal desde meados dos anos 1970, havia cursado jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro e frequentado a Escola de Teatro Martins Pena.
Um ano antes de fundar o Nós do Morro, no verão de 1985, Fraga viajou a Nova York à convite da atriz Marília Pêra para ser o diretor de cena do espetáculo Brincando Em Cima Daquilo, no Festival Latino Americano, em Nova York (EUA). Durante a viagem conheceu bairros como Brooklyn e Soho para ver o que, artisticamente, estava sendo feito. “Nova York transformou minha vida.”
No avião de volta ao Brasil, conversou com o iluminador Fred Pinheiro (falecido em 2010) sobre a ideia de criar um projeto artístico na comunidade e o convidou para participar da empreitada. Ele aceitou. Fraga largou o emprego ao lado da atriz para se dedicar exclusivamente ao projeto. “Tem coisas na vida que às vezes você não escolhe; é escolhido. E a arte tem esse poder, né?”
Naquela época o Vidigal vivia repleto de arte e movimentos culturais. Atores, atrizes, músicos, artistas plásticos, fotógrafos, cineastas…todos eram chamados pelos locais de “o pessoal dos prédios”. Era uma referência ao lugar onde moravam, o Pedra Bonita, conjunto residencial erguido no início dos anos 1970 na subida da favela com financiamento do extinto Banco Nacional da Habitação (BNH). Fraga também residia lá, assim como a cantora Gal Costa, o cantor e compositor Sérgio Ricardo e muitos outros artistas e técnicos de teatro, tevê e cinema.
Os grupos se misturavam em encontros frequentes regados a música, conversas e cerveja. Foi em um desses convescotes, no bar Bar-raco (que não existe mais), que Fraga convidou Luiz Paulo Corrêa e Castro, então estudante de jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF) e de Letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), para participar do Nós do Morro. Fred Pinheiro, que já sabia da história, também aderiu à empreitada oficialmente. O núcleo fundador teve ainda a presença do cenógrafo Fernando Mello da Costa, outro morador do Pedra Bonita, e que faleceu em 2019.
“De todos, eu era o único nascido no Vidigal e que não trabalhava com teatro”, diz Castro, que começou no grupo como ator. “Fui sendo desviado, né? Era péssimo. Desde o começo já tinha falado que a minha não era subir no palco, mas podia ajudar com os textos.”
As reuniões aconteciam no Centro Comunitário Padre Leeb, comandado pelo padre austríaco Humberto Leeb. Após o pedido de Fraga, o religioso deixou que o grupo utilizasse o espaço para ensaiar. Não demorou muito, a capela se transformou em teatro, e a sacristia, em camarim. Foi sob as bênçãos do clérigo que o grupo estreou em 1987 a peça Encontros. A montagem teve a participação de quase vinte atores escolhidos por Fraga, e o texto foi escrito a partir de improvisações de cenas sobre o dia a dia dos moradores do Vidigal. Os bailes funk do Clube Águia, primeiros beijos, gravidez precoce e a descoberta do sexo foram alguns dos temas abordados. O objetivo, segundo Castro, era criar identificação entre a arte e a realidade local.
“Ele [Leeb] aceitou com muito custo. Construímos lá um espaço cênico, com palco, coxia… Tinha cabine de luz, os camarins, um teatro mesmo, com todas as especificações. Claro, guardadas as devidas proporções, mas funcionava. Ficamos quatro ou cinco meses em cartaz, sempre com a casa cheia”, relembra Castro. “Como o público não era acostumado a ir ao teatro, Guti dava orientações antes de cada apresentação, como não levantar e não falar durante a peça.”
Nos bastidores, latas de leite em pó adaptadas faziam as vezes de refletores. A mesa de iluminação funcionava com vários interruptores, de modo que bastava acender e apagar as luzes, de acordo com o que a cena pedia. Já para fazer os figurinos, a trupe precisou aprender a usar linhas e agulhas. Faltava dinheiro, mas não criatividade. “Viramos uma família. Nunca foi simplesmente fazer aula de teatro”, diz Guti.
Entusiasmados, passaram a alternar a montagem de textos consagrados com autorais. Assim, seguiram-se Torturas de um coração ou em boca fechada não entra mosquito (1987), de Ariano Suassuna; Os dois ou o inglês maquinista (1988), de Martins Pena; Biroska (1989), escrita por Castro; e Hoje é dia de rock (1990), de José Vicente. Em Biroska, mais uma vez a realidade do Vidigal é retratada: o protagonista Neguinho acredita ter ganhado no jogo do bicho e, só após pagar cerveja para toda a comunidade, descobre ter sido vítima de trote.
O Nós do Morro ocupou o Centro Comunitário Padre Leeb até 1990, quando o local foi desativado. Após breve período na Escola Municipal Prefeito Djalma Maranhão, mudaram-se para os fundos da Escola Municipal Almirante Tamandaré, cedido pela então diretora Márcia Cunha por intermédio da pedagoga Zezé Silva, recém-integrada ao grupo. Lá, concebiam o Show das Sete, programa de auditório em que valia cantar, dançar, tocar instrumentos, dublar e contar piada. “Foi um dos momentos mais importantes, porque juntávamos seiscentas pessoas na plateia”, relembra Guti.
Foi um momento de busca pela profissionalização, marcado também pela inauguração do Teatro do Vidigal. O espaço fora concebido atrás da escola onde encenavam o programa de auditório, embaixo de pilotis, onde guardavam pertences da equipe. Após algumas reformas bancadas com o dinheiro arrecadado no espetáculo, doações de artistas, como a cineasta e roteirista Rosane Svartman, e ajuda de comerciantes locais, que doavam cimento, tijolo e areia, o novo teatro com cerca de oitenta lugares foi inaugurado com a peça Machadiando – Três histórias de Machado de Assis, em 1996.
O espetáculo dirigido por Fraga deu ao Nós do Morro o seu primeiro Prêmio Shell de Teatro na Categoria Especial, no ano seguinte. Dali em diante, as peças começariam a ganhar o circuito profissional, indo além do Vidigal. A primeira montagem fora do comunidade foi Abalou – Um musical funk, em 1997, escrito por Castro. Exibida na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, a história retratava brigas e paqueras nos bailes em meio à chegada de espíritos de moradores do morro já mortos, que retornam ao plano terreno para reclamar do barulho. O espetáculo venceu na Categoria Especial do Prêmio Coca-Cola de Teatro Jovem no mesmo ano.
Com o sucesso teatral, o Nós do Morro passou a investir também no cinema, por iniciativa de Fraga, Svartman e Vinicius Reis, que foram os primeiros professores. Outro entusiasta foi Cacá Diegues, diretor de Xica da Silva (1976) e Bye Bye Brasil (1979), entre outros. O cineasta conheceu o projeto por meio de Svartman, roteirista de Drão, um dos quatro episódios que compõem o filme Veja essa canção (1994), dirigido por ele. Parte do elenco é formado por atores do Nós do Morro. “Foi a primeira vez que trabalhamos com eles”, lembra Renata Almeida Magalhães, viúva do diretor, morto em fevereiro do ano passado, e atual presidente da Academia Brasileira de Cinema. “O Cacá, antes de tudo, era um apaixonado pelo Brasil e pelo cinema. Sempre teve essa relação de muito respeito com as favelas, as entendia como um lugar de produção cultural.”
Foi por intermédio de Diegues que o jovem Gustavo Melo, então com 18 anos, conheceu o projeto. Ele, que vivia em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio, foi o primeiro morador de fora do Vidigal a entrar no grupo. Ao ver uma entrevista com Diegues na tevê explicando o que era o coletivo, Gustavo Melo resolveu procurá-lo para entender a iniciativa. Sem esperanças, mandou um fax ao cineasta imaginando que jamais seria respondido. Para sua surpresa, Diegues não só respondeu, como aceitou encontrá-lo para falar do grupo teatral. “Foi uma adrenalina de felicidade”, relembrou. “Ele queria fazer cinema, mas não morava no Vidigal. É uma coisa muito bacana, é como se o Cacá achasse uma turma para o Gustavo”, afirmou Magalhães.
Gustavo Melo, que entrou como aluno, foi o responsável pelo roteiro e pela direção do primeiro curta-metragem do Nós do Morro: O jeito brasileiro de ser português (2001), filmado em Brás de Pina, e viabilizado por meio de edital da RioFilme. No mesmo período, o projeto ganha uma nova sede: um casarão da Rua Doutor Olinto Magalhães, 54. O local foi cedido ao grupo pela mulher do proprietário, que havia morrido. Diz-se que era um pintor italiano que falsificava quadros e foi preso, deixando a casa, que servia de ateliê, abandonada. Com dívida de IPTU, o espaço foi leiloado, arrematado por uma ONG e cedido ao grupo em regime de comodato.
É também o momento no qual passa a haver uma discussão interna sobre como obter um grande patrocínio, algo inédito até então. Decidiram que a estratégia seria buscar apoio em editais demonstrando não apenas a capacidade artística do coletivo, mas seu impacto social em uma comunidade carioca. Deu certo. Em 2001, o grupo ganha o patrocínio da Petrobras. Com aporte inicial de pouco mais de 1 milhão de reais, eles reformaram o Teatro do Vidigal, cuja laje, desde a inauguração, era empenada, e as colunas, tortas. Quando chovia, molhava tudo dentro, impossibilitando a apresentação de espetáculos.
O patrocínio da estatal ocorreu meses antes de outro episódio fundamental na história do grupo, quando jovens atores integraram o elenco de Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Katia Lund. Lund havia conhecido Fraga no fim dos anos 1990, quando dirigiu, ao lado de Breno Silveira, o clipe da música Minha Alma (A paz que eu não quero), de O Rappa, com participação de membros do Nós do Morro. Convidado para coordenar a pré-seleção e a preparação do elenco, Guti reuniu jovens do projeto durante três meses de testes na Fundição Progresso.
“Eu não falava quem eram Fernando Meirelles e Katia Lund. Trabalhava normalmente, dando aula. Dizia: ‘Galera, olha aqui, um amigo meu veio me dar uma força.’ Ninguém tinha noção de que eles eram diretores. O elenco foi escolhido dessa forma”, relembrou Guti, para quem o filme foi um divisor de águas. Isso porque, devido ao fenômeno mundial que se tornou, Cidade de Deus alavancou a carreira de vários integrantes do Nós do Morro, como Roberta Rodrigues, os irmãos Jonathan e Phellipe Haagensen e Thiago Martins, que nos anos seguintes estrelaram novelas da TV Globo.
O trabalho deu enorme visibilidade ao grupo, fazendo crescer imensamente a procura por novos alunos. Com o boom provocado pelo longa e a verba da Petrobras, o projeto chegou a ter cerca de 800 alunos e 18 turmas. Em turnos de manhã, tarde e noite, crianças, adolescentes e adultos passaram a ter, além de aulas de teatro e cinema, classes de dança, voz, história do cinema e do teatro, literatura, circo e capoeira, entre outras.
De lá, também saíram nomes hoje consagrados na teledramaturgia, como Marcello Melo Júnior (filho do diretor-executivo), Juan Paiva, Renan Monteiro – eles interpretaram três dos quatro filhos do coronel José Inocêncio (Marcos Palmeira) na segunda versão da novela Renascer, exibida pela Rede Globo em 2024 –, Mary Sheila de Paula, as irmãs Sabrina e Cíntia Rosa, Jonathan Azevedo e Samuel Melo, entre outros. Nos bastidores, um dos destaques é o cinegrafista e diretor de fotografia Arthur Sherman, que tem no currículo trabalhos importantes como a gravação do DVD da turnê de Caetano Veloso e Maria Bethânia (2025); o longa Kasa Branca (2024), de Luciano Vidigal; e temporadas dos programas Que História é Essa, Porchat? (2025); e Tempero de Família (2018 a 2024), entre outros.
A bonança propiciada pelo patrocínio estatal arrefece a partir de 2009, quando a Petrobras passou a viabilizar os aportes a partir de projetos específicos, por meio da Lei de incentivo à Cultura (Rouanet). Com isso, a verba, que ultrapassava 1 milhão de reais em contratos renovados anualmente, foi reduzida pela metade e viabilizada apenas à produção de espetáculos – sem incluir, por exemplo, a manutenção da sede ou do Teatro Vidigal.
Em nota, a Petrobras informou à piauí que o patrocínio ao Nós do Morro ocorreu de 2001 a 2016. Já o Nós do Morro alega que a subvenção aconteceu até 2014, e que, em 2016, recebeu uma verba específica para a montagem do espetáculo Bataclan, em comemoração aos trinta anos do coletivo. De todo modo, a duradoura parceria permitiu, entre outras coisas, a criação da Companhia De Teatro Nós do Morro e a realização de espetáculos com mais estrutura, como Noites do Vidigal (2002) – vencedor do prêmio Shell na categoria Música – Sonho de uma noite de verão – Uma intromissão do Nós do Morro no mundo de Shakespeare (2004); Os dois cavalheiros de Verona (2006); Machado a 3×4 (2008); e Nós do Morro – Domando a Megera (2014).
Entre os fundadores, o sentimento é de gratidão. “Eles realmente nos possibilitaram fazer coisas que não teríamos feito nunca com os editais normais que rolam por aí”, afirmou Castro.
Com o fim do patrocínio, o grupo voltou a viver de editais e parcerias temporárias. Ou seja: vacas magras e incertezas no horizonte. O momento mais difícil foi em 2020, devido à pandemia. “Nesse período, secou completamente [a entrada de dinheiro]. Temos alguns amigos que bancaram a parte estrutural, o mínimo para a casa continuar aberta. Mas chegamos ao ponto de pensar em fechar mesmo”, conta Marcello Melo.
Segundo ele, em 2022, quando assumiu a direção executiva, havia um total de 218 mil reais em dívidas: gastos com contador, advogado e IPTU atrasados, do casarão onde fica a sede, e de um terreno nas proximidades. “O sonho é construir ali um teatro, um cinema, algumas ‘quitis’, onde a gente possa receber pessoas e fazer residência artística, e um salão de festas, pois gostamos muito de festejar. Fizemos alguns projetos, mas, por enquanto, estão só no papel”, diz ele, que afirma ter quitado todos os passivos.
Em agosto de 2024 o grupo foi contemplado em 30 mil reais por um edital da Secretaria Municipal de Cultura para manutenção do teatro. Utilizaram o dinheiro para trocar a parte elétrica e substituir as telhas de amianto do telhado por outras galvanizadas.
No mesmo período receberam 400 mil reais por meio de uma emenda parlamentar de autoria do deputado federal Chico Alencar (Psol-RJ). “Parte da emenda bancou nossa estrutura por seis meses. Estendemos esse dinheiro o máximo possível. Utilizamos para pagar, por exemplo, funcionários e professores”, diz Marcello Melo. A piauí apurou com a equipe do deputado que mais uma emenda, no mesmo valor, foi concedida no início do ano, mas o dinheiro ainda não foi liberado – a expectativa é de que isso ocorra até dezembro.
“Esse talvez tenha sido um grande problema do Nós do Morro ao longo do tempo. Desde que foi criado, foram muitas pessoas com cabeça de artista e poucos com cabeça de empreendedor. E para manter um projeto desse, tem que ter gente com cabeça voltada para traçar estratégias de captação. Sempre ficamos muito presos à Petrobras. Foi o que nos matou. Quando a estatal saiu, ficamos no limbo”, comentou Castro.
“São quarenta anos fazendo o trabalho do Estado dentro de uma comunidade. Somos um grupo precursor de favela, de teatro. Mas a cada ano parece que estamos começando de novo. Não temos a mínima estabilidade de falar: ‘Cara, temos cinco anos garantidos aqui.’ É um grande sonho também”, lamentou Melo.
Atualmente, o projeto atende cerca de noventa alunos, divididos em quatro turmas: duas de adulto, a partir dos 18 anos, uma de adolescente, com jovens entre 13 e 17 anos e uma infantil com crianças entre 8 e 12 anos. Castro dá aula de literatura, a produtora cinematográfica Luciana Bezerra e Gustavo Melo comandam uma oficina de roteiro e o italiano Alessio Slossel, de edição. As duas últimas, financiadas pela ONG alemã Nord-Süd-Brücken, têm previsão de término no final deste ano.
Luciana e Gustavo, que foram casados por doze anos, roteirizaram e dirigiram A festa de Léo, primeiro longa-metragem do Nós do Morro. Exibido em 2023 no Festival do Rio e no circuito comercial no ano seguinte, a película demorou uma década para ficar pronta. Coproduzido pela Globo Filmes, o filme narra as desventuras de Rita, que, no dia do aniversário de 12 anos de seu filho, Léo, descobre que o pai do menino roubou o dinheiro da festa para pagar dívidas.
O longa se passa no Vidigal e ganhou as estatuetas de Melhor Atriz (Cíntia Rosa) e Menção Honrosa no Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, o FESTin. “Pra mim, é mais do que um filme; é uma comemoração. É a certeza de que a gente veio até aqui e não desistiu”, celebra Luciana, que, aos 13 anos, desejava entrar para o Nós do Morro, seguindo os passos da irmã Marta, mas só conseguiu aos 17.
“Minha mãe não queria. Era ainda um olhar assim: ‘Artista é tudo doido. Vocês precisam procurar segurança.’ Tudo aquilo não era comigo. Via a tensão com minha irmã, que já tinha 17 ou 18 anos. Mas estava doida pra me jogar”, diz.
O ator, cineasta e roteirista Luciano Vidigal é outro que também tem motivos para comemorar. Em 2024, seu longa Kasa Branca ganhou diferentes prêmios em mostras de cinema pelo Brasil, com destaque para os quatro conquistados do Festival do Rio: Direção, Fotografia (Arthur Sherman), Trilha Sonora e Ator Coadjuvante (Diego Francisco). Em 2025, o filme entrou em cartaz nos cinemas e também na shortlist do Oscar, concorrendo a uma vaga para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional, vencida por O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
A narrativa de Kasa Branca é centrada em Dé (Big Jaum), jovem da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense, que se desdobra para aproveitar os últimos dias de vida da avó, diagnosticada com Alzheimer. Para isso, conta com a ajuda dos dois melhores amigos. O objetivo, segundo Luciano, era apresentar uma narrativa que fugisse de clichês. “A favela exala afeto, poesia e potência. Senti durante muito tempo que infelizmente a gente tinha um lugar muito de estereótipo. Quis subverter isso”, afirma.
A obra tem participações de Guti Fraga e do ator Otávio Müller, para quem a mãe de Luciano trabalhou como empregada doméstica no final dos anos 1980, e que serviu de inspiração para que ele, aos 11 anos, decidisse seguir a carreira artística. O ator Babu Santana, um dos rostos mais conhecidos do coletivo, interpreta o pai distante de Dé. O personagem é levemente inspirado na relação de Luciano com seu próprio pai, que saiu de casa quando ele tinha 12 anos, e faleceu em 2024. “Pude viver os últimos momentos da vida com ele. Lembro que, no caixão, quando o estava enterrando, pensei: ‘Cara, eu só queria o teu amor. Você não me deu.’ Ficou essa ausência.”
Luciano supriu a carência paterna com a ajuda do Nós do Morro. “Teve uma reunião de pais na minha escola e minha mãe não pôde ir. O Guti foi. Ele cuidava mesmo”, relembrou. Com olhos marejados, o idealizador do coletivo completou: “É o que eu falei para você no início: às vezes, você não escolhe, é escolhido. Não me arrependo de nada da minha vida. O meu envolvimento com a arte sempre foi muito forte. Eu me sinto vitorioso.”