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EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO SHOWROOM PASSADO

O programa America’s Next Top Model, visto décadas depois
Imagem Eu sei o que vocês fizeram no <i>showroom</i> passado

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A série documental sobre os bastidores do programa America’s Next Top Model, Choque de Realidade (Netflix), deixa de cabelo em pé quem se dedica a vê-la, por reunir o melhor do pior das áreas em que a atração navega: a televisão, os reality shows e o mundo da moda. Também nos coloca diante de nossas próprias perversidades: como audiência, questionando até onde fomos também responsáveis pelo baixo nível a que se chegou; como agentes, para quem atua em alguma das pontas da indústria. 

A franquia original americana foi ao ar entre 2003 e 2018, exibida durante 24 temporadas compostas por 322 episódios, vista por mais de 100 milhões de pessoas, transmitida em 180 países e ganhando versões em outros tantos, como Alemanha e México. Por aqui, o Brazil’s Next Top Model foi apresentado pela Sony originalmente entre 2007 e 2009, e teve em seu júri esta que vos escreve.

Quem espera ver os bafos imagináveis por trás da produção de qualquer programa de televisão ou as intrigas possíveis em uma competição de modelos em busca da fama se depara com casos escabrosos em que as concorrentes são o lado mais fraco dessa corda toda. Vulnerabilizadas, para dizer o mínimo, as meninas são expostas até mesmo a situações de assédio e abuso, emocional e físico. Assim, assistir aos três episódios da série não é propriamente divertido. É tenso. Mas por que, à época, assistir ao original não era? Afinal, não faz tanto tempo assim que o programa estava no ar. Por que era aceitável que aquilo acontecesse? 

Choque de Realidade é dirigido por Mor Loushy e Daniel Sivan (de Caçada Humana: Osama Bin Laden, de 2025). São eles que conseguem extrair de seus protagonistas respostas que tentam explicar ou justificar os absurdos que aconteceram, à luz dos dias de hoje. Ouvem das participantes suas dores e também as revivem. O principal mérito do programa é provocar essas reflexões, sobretudo a partir dos depoimentos da modelo Tyra Banks, criadora, produtora-executiva e apresentadora do America’s Next Top Model, e dos executivos por trás dele. Melhoramos, de lá para cá, como sociedade, como espetáculo? Como mercado? 

Em algum momento, uma das produtoras culpa o apetite do público pelo sensacionalismo. Já Tyra passa pano para si mesma dizendo que não sabia de muita coisa (difícil acreditar, já que ela era a dona de tudo). Um dos casos é uma sessão fotográfica em que a modelo se dizia desconfortável com um figurante que tocava seu corpo inapropriadamente, chegando a pedir para interromper o trabalho – o que não ocorreu. “Hoje entendemos que as mulheres precisam ser protegidas”, diz Tyra, em um único pedido de desculpas, ao longo de suas entrevistas. Mais arrependimentos ela não parece ter. 

Algumas das falas da apresentadora são quase delusionais, dissimuladas. Logo nos primeiros minutos do documentário, ela atribui a dissonância de seus atos com qualquer parâmetro razoável às pessoas que, na pandemia, passaram a maratonar tudo o que estivesse disponível na internet até admitir: “Eu estava numa bolha, vivendo em minha própria cabeça”, resume, tentando explicar por que foi feito um ensaio fotográfico em que as modelos eram caracterizadas com traços, roupas e a pele pintada de outras etnias, black face, brown face. Não satisfeita, tampouco preocupada com as críticas recebidas, ela repetiria a ideia algumas temporadas depois. 

A série começa colocando em contexto o momento profissional da apresentadora e da moda do início dos anos 2000. Nascida em 1973, tendo iniciado sua trajetória aos 15 anos, em Los Angeles, Tyra conta das muitas portas fechadas que encontrou sendo uma jovem modelo negra fora dos padrões eurocêntricos vigentes, de corpos magérrimos. Segundo ela, nos anos 1990, em suas primeiras temporadas em Paris (o cenário mais importante da moda internacional), foi rejeitada na seleção dos desfiles por seu nariz e sua boca, e por suas curvas.

Essas mesmas curvas (e a beleza única) a colocaram em capas de revistas e no então estimado elenco de modelos da marca de lingerie Victoria’s Secret. Vestidas com asas de anjo usadas como costeiros, capas esvoaçantes, calcinhas e sutiãs de gosto para lá de duvidoso, desfilar para a marca era símbolo de status comercial e até de reconhecimento. Tyra entrou em 1996 para esse grupo, publicizado então como um olimpo na carreira de uma modelo, da qual nem Gisele Bündchen nem Naomi Campbell escaparam. Também não gerava tanto assunto que elas fossem objetificadas e padronizadas, e demorou mais umas boas duas décadas para que o culto por esse formato de desfile-show, performático e cafona, se transformasse em cancelamento. Tyra fez nove desfiles para eles, até sua aposentadoria das passarelas em 2005, quando decidiu focar exclusivamente em suas atividades na tevê. Conforme declarou, achava que caso permanecesse nas passarelas não seria respeitada como apresentadora e empresária.

Ela sabia que seu sucesso inspiraria outras jovens negras a ingressar num mercado ainda muito mais fechado e menos diverso do que o de hoje. E um belo dia, ela diz, teve a ideia de criar um programa para mostrar o que era preciso para ser modelo, e que ele representasse não apenas meninas brancas ou super magras. E essa seria sua vingança. Daqui, ficamos tentando entender como toda essa boa intenção se transformou em comportamento tóxico, contradição que até mesmo uma das concorrentes chega a explicitar.

Lá em 1992, a MTV havia lançado seu The Real World, juntando pessoas comuns e diferentes vivendo juntas, com as câmeras registrando tudo, transformando para sempre o modo de se fazer televisão. American Idol estreou em 2002 para descobrir talentos a partir de audições abertas, construção de personagens, empatia com o público e a força dos jurados, em especial Simon Cowell, com seu estilo de crítica direto e ácido. Tyra queria todos esses ingredientes reunidos, só que tendo como pano de fundo a moda e o ponto de vista das modelos, que ela conhecia bastante bem.

Procurou então o produtor Ken Mok, que já fazia um reality de boy bands. Criaram em conjunto o formato das meninas confinadas e dos desafios que se assemelhavam a trabalhos de moda. O núcleo duro do elenco deveria ser uma atração à parte, composto inicialmente pelo especialista em catwalk Miss J. Alexander e o maquiador Jay Manuel, seus (então) amigos de longa data.

Encontrou mais portas fechadas, até que só restou a da UPN (United Paramount Network). A emissora não estava lá muito bem das pernas e, sem ter nada a perder, resolveu embarcar no projeto. Logo nos primeiros episódios, foram ao ar cenas como as das modelos se preparando com uma depilação à brasileira, e do outing de uma participante lésbica recebendo muxoxos preconceituosos de outras meninas na casa (ela conta que nunca foi consultada sobre como sua vida pessoal seria abordada no programa). 

A “regra de ouro” do America’s Next Top Model era que tudo o que acontecesse seria gravado e que tudo o que fosse gravado iria ao ar, como se o programa fosse um documentário comprometido com a suprema verdade. Assim, o programa mostrou sem ressalvas as cenas em que uma das modelos bebe demais numa festa e, visivelmente inconsciente, desacordada, faz sexo com o um motorista da vespa que a transportou horas antes pelas ruas de Milão – parte do episódio em que o grupo vai participar in loco da temporada de desfiles na cidade.

Em suas três temporadas, a versão brasileira passou bem longe disso. Não raro, a apresentadora Fernanda Motta terminava chorando junto com a modelo eliminada, e o diretor de cena Carlos Pazetto tinha abordagem afetuosa e quase paternal no dia a dia das provas. Os profissionais envolvidos eram pessoas do mercado, e todos tínhamos o sonho (ou a ilusão?) de projetar a vencedora ou alguma concorrente forte para o mercado. A mais bem-sucedida nesse sentido foi Malana Jorge, que participou de desfiles e eventos do calendário da moda no país e hoje segue trabalhando como modelo na Itália. Algumas passagens não envelheceram bem, como quando um dos jurados mede com uma fita métrica o quadril de uma participante (procedimento comum em agências). Na bancada, eu fazia o papel da editora exigente (o meu mesmo), mas nada parecido com as grosserias da Janice Dickinson na versão americana. 

Quem acompanha realities em exibição nos dias de hoje se depara com a realidade crua, e o modelo pay per view proporciona transmissões em tempo real, acompanhados pelas insones redes sociais. A diferença é que na edição original do America’s Next Top Model as meninas eram muito novas ou despreparadas, não tinham repertório para lidar com tubarões da audiência e realmente acreditavam que iriam se tornar supermodelos, caso vencessem o programa. Por isso, não mediam esforços e, com raras exceções, aceitavam as condições e se submetiam a tratamentos desiguais, vexatórios e abusivos. Bizarros também. Uma participante é convencida de que tem que extrair dentes para ficar mais bonita; enquanto outra, com os dentes separados, é pressionada a aceitar que feche seu diastema para poder seguir no programa.

Em algum momento, o plot da atração que servia para mostrar as dificuldades, dramas e desafios da vida das modelos, o que atraiu a atenção do mundo num primeiro momento, deu lugar à exploração do desconforto de garotas bonitas na televisão. “Algumas ideias foram péssimas e francamente muito erradas”, diz, hoje, o fotógrafo Nigel Barker, que ingressou no corpo de jurados do America’s Next Top Model. “À época, ninguém enxergava isso.” Ou fingia não enxergar. 

Conforme as temporadas foram se sucedendo, surgiu a necessidade de reinventar o programa, explica no documentário uma produtora da UPN. Os programas de referência eram Fear Factor (competição exibida a partir de 2001, em que participantes enfrentam provas extremas — físicas, psicológicas e muitas vezes repulsivas — para testar seus limites, vencer seus medos e ganhar o programa) e Survivor, que começou a ser exibido no ano 2000, com pessoas isoladas em um ambiente inóspito que precisavam sobreviver com poucos recursos, jogando estrategicamente para eliminar os outros e sair com o prêmio no bolso.

As ideias das provas cada vez mais se distanciavam do cotidiano de uma modelo, profissão que, até dar muito certo, é uma das mais desafiadoras dessa competitiva indústria. As meninas têm de lidar com a constante rejeição e aprovação dos outros; passam dificuldades longe de casa, da família, em idiomas que não dominam, em cidades que não conhecem, com pessoas em quem não podem confiar. Tudo isso com pouca idade e experiência, tendo que se manter equilibradas, lindas e magras. 

A pressão sobre seu peso e suas medidas segue como denominador comum entre diferentes tempos e seus padrões de beleza vigentes, de seus lugares de origem ou onde elas trabalham, ambientes que tanto o programa gringo quanto o brasileiro refletem com veracidade. Os sentimentos de inadequação e de vergonha costumam acompanhar o body-shaming, promovido e exibido pela televisão, em inglês e em português. Será que hoje esses comportamentos seriam tolerados pelo tribunal da internet?

A obsessão pela magreza se atualizou e se ampliou, passa pela passarela (até a do samba), pelos editoriais de moda e pelas revistas, pela cobrança nossa de cada dia, nos tapetes vermelhos da vida e das redes sociais, acomete gente normal e quem não tem nada a ver com a moda, na era da semaglutida e das arenas digitais, onde nos degladiamos diariamente por likes e dopamina.

Tyra perde a linha de vez em uma gravação, reagindo contra uma modelo, aos berros, o que também foi exibido. Tanto antes quanto hoje, a cena é bem despropositada. A apresentadora vai se distanciando cada vez mais do que realmente acontece nos ambientes profissionais de moda, e também do seu núcleo duro: à certa altura, demite seus fiéis escudeiros de bancada e, depois, acaba também demitida. A audiência queria novidade. Panis et circenses.

Depois disso, e no terceiro episódio do documentário, ficamos sabendo que nem vencer o programa era garantia de sucesso no mundo fashion: as concorrentes não eram bem-vistas no mercado das modelos justamente porque tinham passado pelo America’s Next Top Model, fenômeno visto também na franquia brasileira. Por isso, ficamos contentes em acompanhar os exitosos casos de exceção como o da modelo plus-size Whitney Thompson; o de Winnie Harlow, que quebrou paradigmas com sua beleza e seu vitiligo, ou mesmo ver que algumas das participantes que nos comovem com suas histórias hoje conseguiram se reinventar em outras profissões. A união dos três jurados também é uma excelente parte do filme (economizo em spoilers).

E o que aconteceu com Tyra? Fez em 2024 uma participação especial na volta do desfile da Victoria’s Secret, onde foi tratada como estrela, e nos conta que é a feliz proprietária de uma sorveteria na Austrália. Mas avisa: vem aí a 25ª temporada. Cenas dos próximos capítulos.


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É jornalista, curadora e gerente de comunicação e design do MAM Rio. Autora de Babado Forte (Mandarim) e A Moda (Publifolha)