questões supremas
Breno Pires, Ana Clara Costa e João Batista Jr. 10 Set 2026
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Há sete meses, o Supremo Tribunal Federal recebeu um relatório de 196 páginas sobre as relações do ministro Dias Toffoli com o banqueiro Daniel Vorcaro. O relatório, assinado por quatro delegados da Polícia Federal, foi entregue ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, e submetido à análise de todos os membros da corte. Em reunião sigilosa, os ministros concluíram que o relatório era imprestável – “um nada jurídico”, na expressão de um ministro, ou “um lixo jurídico”, no dizer de outro. Resolveram engavetá-lo e poupar Toffoli. O relatório foi então mantido em sigilo. Mesmo o ministro André Mendonça, que na semana passada divulgou um relatório semelhante sobre as relações promíscuas de Alexandre de Moraes com Vorcaro, concordou em proteger Toffoli e manter o documento em segredo. Agora, a piauí teve acesso à íntegra do relatório, cujo conteúdo traz as seguintes revelações:
- A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que Toffoli seja “beneficiário final” ou “proprietário de fato” de um dos “ativos” de um fundo de investimentos chamado Arleen. O Arleen, um dos sócios do resort Tayayá de Toffoli, recebeu 35 milhões de reais de Daniel Vorcaro e transferiu a totalidade dos seus ativos para uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, conhecido paraíso fiscal no Caribe.
- Vorcaro tratava os depósitos no fundo Arleen como um compromisso inadiável. Em uma ocasião, quando soube que o depósito não fora realizado, mandou fazer o pagamento com urgência e entrou em contato com Toffoli. Em mensagem trocada com seu cunhado, Vorcaro disse que o atraso lhe deixou em “situação ruim”.
- O relatório sobre Toffoli descreve que o ministro mudou seu voto num caso em que se discutiam os precatórios de uma usina do setor sucroalcooleiro. A investigação pede “aprofundamento analítico” para checar a suspeita de que Daniel Vorcaro tenha influenciado Toffoli a mudar o voto. O Master tinha em seu balanço mais de 10 bilhões de reais em precatórios do setor sucroalcooleiro.
- Os dois relatórios tratam de fatos idênticos, mas com ênfase diferente. No documento sobre Toffoli, consta apenas que Moraes ajudou a organizar a pândega de Londres, na qual houve uma degustação de uísque ao custo de 3,3 milhões de reais. No documento sobre Moraes, porém, o assunto ganha grande proeminência.
- Cotejados, os dois relatórios sugerem que o ministro André Mendonça, relator do caso Master, aplicou pesos e medidas diferentes para casos similares. Deu publicidade ao documento sobre Alexandre de Moraes, mas manteve sigilo sobre o documento que tratava de Dias Toffoli. A diferença reforça a acusação governista de que o ministro, em vez de agir no melhor interesse das investigações, tem sido seletivo nos vazamentos, divulgando uma coisa e escondendo outra.
- O ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, Fábio Faria, era um faz-tudo de luxo de Vorcaro. Trabalhava como lobista, ajudante, intermediário e até se ocupava de organizar festas com poucos homens e muitas mulheres – “só menina nova”, como ressalta Vorcaro, ao comentar sobre uma festa no Madame Satã, clube paulista, com a presença de “suíças”.
A seguir, leia as reportagens que detalham os pontos acima mencionados.

O ministro, o banqueiro e o fundo
Polícia Federal suspeita que Toffoli tenha dinheiro de Vorcaro em paraíso fiscal. Leia aqui.
Documentos da Polícia Federal descrevem relações de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com Vorcaro, mas André Mendonça trouxe a público só um deles. Leia aqui.

A festa das “suíças” de Vorcaro
Celular vetado, “novinhas” e proporção de 120 mulheres para 20 homens. Leia aqui.