ficção

AS COISAS NOS SEUS DEVIDOS LUGARES

Hoje você não consegue dizer o meu nome, nem o seu. E no entanto é comum que eu chegue na sua casa e te encontre serena
Ilustração: Caio Borges
Ilustração: Caio Borges

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O texto abaixo faz parte do romance Antes que apague, da escritora Natalia Timerman, a ser lançado no fim de maio pela Companhia das Letras.



Começo a escrever sem saber se, no final, você estará viva.

Às vezes essa dúvida — você estará viva? — dura menos que a escrita de um livro. Dura um ano, uma semana, um dia. Como quando seu ouvido começa a sangrar até formar uma poça dentro da sua orelha, até escorrer pelo seu pescoço, e te acompanho na ambulância ao hospital sentindo minha apreensão e a sua, pois você já não entende o que está ao redor, não faz mais diferença se você está no sofá confortável e agora sujo da sua casa ou numa sala de emergência. A ambulância segue seu trajeto barulhento e eu seguro a sua mão gelada, trancada há tanto tempo no formato de segurar alguma coisa. Seis anos? Sete? É difícil estipular a contagem de coisa tão insidiosa: quando nos damos conta, você já perdeu algo de você, e os objetos ao seu redor continuam a existir, o museu dos seus restos. Suas roupas de sair, sua agenda, seu telefone celular, quando foi que o Elói cancelou a linha? Sua carteira de identidade. A você ela não diz mais nada, no entanto eu a entrego à atendente para abrir sua ficha enquanto a médica afere seus sinais vitais.

E mais uma vez o corredor do mesmo hospital, aonde você chega a cada vez um pouco pior, e a nossa esperança de que você continue viva — minha e do Elói — é sempre um pouco mais triste. Você ainda é você? Pressão 100 por 56, pulso de 78. A atendente digita o seu nome, mas quando a médica te chama, embora escute, você não reage — Alice, pedra, sopro, mãe. Tanto faz. Só palavras que não te dizem mais nada.

As placas do hospital me guiam pelo piso frio do corredor de volta à sala de emergência. Oscilo entre o seu rosto e os movimentos do técnico de enfermagem para puncionar sua veia e coletar sangue. Ele finca a agulha na pele branca e fina do seu braço, mas como não flui sangue algum, ele depois tateia com a ponta dos dedos e faz uma segunda tentativa. É impossível que sua expressão de dor, tão verdadeira, se torne frase, ritmo, pontuação. Na terceira tentativa, também infrutífera, você, que já não fala, grita, e aí ele vai sugerir à médica que tentem puncionar a artéria em vez da veia. Não posso, não devo me servir disso para escrever, como se fosse um jeito de escapar da sua dor, da minha, de fugir.

Fugir. Caio na tarde distante, eu tinha o quê, dezessete anos?, quando sua casa era também a minha, antes de você se casar de novo, antes de me pedir que não voltasse a morar com você. Estávamos no meu quarto, que hoje é o seu, onde hoje fica sua cama hospitalar, eu, deitada, lendo, você recém‑chegada — as pernas tão firmes. Você, se deparando com minha cara enfiada num livro, lançou no ar a acusação: você foge da vida para os livros.

Eu lia deitada na cama do que é hoje seu quarto, onde você dorme ao lado da cuidadora de plantão (cama hospitalar, suporte da nutrição enteral, cilindro de oxigênio como alienígenas no que foi há décadas o planeta da minha adolescência — as luvas de enfermagem, seringas, remédios onde ficavam os cadernos de estudo e porta‑retratos e cds). Se um cômodo fosse capaz de sobrepor tempos, de guardar os sons de cada um deles, escutaríamos as nossas conversas, alguns gritos, o seu gemido incoerente; escutaríamos o silêncio riscado pelo barulho do lápis nas páginas, os meus livros, as horas de prazer e de concentração que você entendia como desperdício. Você foge da vida para os livros.

Escrevo estas palavras para escapar ao seu vaticínio. Nunca foi fuga, mãe. É o que preciso provar a você e a mim, apertando na sala de emergência a sua mão rígida que involuntariamente me aperta de volta. Escrevo a fuga da fuga, enquanto sua artéria é enfim puncionada e você, agora sem dor, volta a deixar os olhos boiarem no entorno.

Escrevo para você, mãe; contra você. Também por você.


Esta madrugada sonhei de novo com ela, a mãe sem doença, a mãe que eu acreditava conhecer. Um sonho que acontece duas vezes já é um sonho recorrente. Ela estava bem, ia a um restaurante conosco e nos surpreendia ao falar, alegre como conseguia ser. De repente se levantava, contornava a mesa, vinha até mim e sussurrava alguma coisa incompreensível. Eu pedia a ela que repetisse, mas ela colocava o indicador sobre os próprios lábios como se me pedisse segredo, eu insistia, explicava que não tinha ouvido, implorando que ela me contasse de novo. Acordo no quarto escuro, os medos intactos debaixo da cama. A sensação de alívio e conforto por ela estar bem se mistura ao terror de não ter podido compreendê‑la a tempo.

Nas noites da infância, um peteleco me expulsava do sonho. De olhos escancarados, eu me enfiava na sua cama e conseguia voltar a dormir entre vocês. O seu cheiro grudava nas suas camisolas, que tanto eu quanto a Bel roubávamos e usávamos sem lavar. Quando você se dava conta da diminuição no volume de roupas da sua gaveta de pijamas, manifestava uma irritação sutil conosco, suas filhas mulheres (os dois meninos não roubavam suas camisolas); fingia não entender que não importava o tecido, o corte, a cor. Era o cheiro leve de terra doce, guardado nas suas dobras escondidas de mãe, que me botava para dormir de novo, junto da respiração calma, ritmada, na madrugada. Até que, de dia, eu abria os olhos, assustada por ter acordado e aliviada por ter dormido, já sem ninguém ao meu lado — justo eu, madrugadora, sempre a primeira a despertar em todas as casas onde vivi.

Escrevo para você, a mãe do sonho desta madrugada, sorridente, pirilampa, exibindo saúde e ostentando segredos. Escrevo também para a mãe que você é hoje, muda, desmemoriada, amarrada com força à existência crua. Escrevo para a mãe que não conheço e para a mulher que nunca conheci. Mãe? Que nó te ata aqui? O furo da gastrostomia que te alimenta na pele branca e agora flácida do seu abdome, a inquietação desesperada que te toma às vezes e à qual você, sem alternativa, se agarra, como se quanto mais dor sentisse, mais você se visse presa à vida.


Sigo o rastro da sua memória, tento escrever a história do seu esquecimento. Mas eu mesma tenho dificuldade de me lembrar de datas, só alguns poucos marcos têm firmeza para me situar na minha história, que me ajudaria a encontrar a sua. O nascimento dos meus filhos, os meus relacionamentos amorosos, os livros que publiquei.

Se soubesse ainda de alguma coisa, se conseguisse reter qualquer imagem, você se lembraria da primeira vez que viu meu nome na capa de um livro. Não foi a única, mas nas ocasiões seguintes aquilo — meu nome na capa — já não tinha nenhum significado para você. Era 2017, uma noite de terça, fazia calor, eu suava; você e o Elói seguiram firmes na fila de autógrafos. A demência já havia começado, mas ainda parecia distante, quase uma fantasia. Numa das fotos do jantar do lançamento, flagro seu olhar julgador, agudo, capaz de contestar o mundo, mas era para o cardápio que você olhava, procurando, talvez, alguma comida kosher. Esse olhar de apreensão era sua marca desde a nossa infância, a minha e a dos meus três irmãos que, hoje sei, constituíram sua tentativa de redenção. Você chegou no horário, a tempo da conversa que marcou o lançamento, diferente do que acontecera na celebração do meu primeiro casamento, oito anos antes dessa noite. Já seria o Alzheimer, de que eu então jamais suspeitaria? O seu atraso me parecia uma forma bastante óbvia de protesto, uma afronta — a noiva, pronta, precisar esperar chegar a mãe, que errara o endereço, para entrar em sua própria cerimônia. Não passou pela minha cabeça que já ali poderia ser um problema de cognição.


Nos seus gestos, procuro a mãe que foi. A que me levava para a aula de dança, a que ria, a que testemunhava minha caligrafia se firmar. A que notava nossas roupas se tornarem pequenas para o nosso tamanho, a que nos aplaudiu quando o boletim veio repleto de notas boas, a que me repreendeu quando contrariei uma ordem médica para participar de um jogo de futebol. Suas mãos hoje tão magras, duras, estranhas, que antes nos fotografavam, que fotografavam o mundo: seus movimentos, agora automáticos, não são mais gestos.

Tenho guardadas numa caixa fotos em preto e branco de seus tempos de fotógrafa, depois de você se formar na faculdade de comunicação. Algumas fotos suas também: sua beleza imediata, magnética, reluzente. Os lábios grossos, os olhos pretos, expressivos, o cabelo abundante, liso e escuro que escorria e foi mudando de comprimento e de cor ao longo da vida. Você continuou sendo bonita em cada época de um jeito. Mas a beleza agora vem sendo lavada, destroçada, arruinada pela atrocidade do Alzheimer. A beleza não te diz mais respeito.

Você trabalhou como fotógrafa em revistas antes de ter filhos, então parou para cuidar de mim e dos meus irmãos, como acontecia com muitas mulheres de classe média na transição entre as décadas de 1970 e 1980. Conto para você a sua trajetória, e em cada olhar seu para a câmera de cada foto, de cada época, o olhar sempre tão firme, te vejo perguntar: por quê? Os muitos namorados, o casamento e os filhos, o curso de tradução; o judaísmo, o divórcio, o segundo casamento. É esse o fio da sua vida?

Nenhuma descrição se fixa, as imagens e as palavras não conseguem corresponder umas às outras, ou sou eu a incapaz de te enxergar e então de te escrever. As pernas grossas como depois vieram a ser as minhas, a cintura fina, a voz — como descrever sua voz?

Uma voz que sorri, suave, mas que tem bemóis. A apreensão, a irritação. Você se enfurnava no escritório da nossa casa para terminar a tradução de algum texto médico — você fez um curso de tradução técnica quando já tínhamos crescido um pouco e voltou a trabalhar, você se dedicava com afinco. Perto dos prazos, os papéis ficavam espalhados pela escrivaninha e a sua voz era estridente, cansada, impaciente, uma voz que, ao se enunciar, deixava claro que preferia estar calada. Como a que meus filhos devem perceber em mim quando estou trabalhando demais. A sua foto comigo e meus irmãos na sua casa de depois do divórcio, você a única a sorrir, e nós sisudos em seu entorno: a felicidade, para você, não era feita de realizações, era um conforto sutil, ou só a ausência de violência.

Uma lembrança solta: a tarde em que você me levava de carro para algum lugar, só nós duas, e começou a tocar no rádio uma música que nos emocionou. Você me explicou — e eu entendi como um conceito, algo que deveria constar nos livros — que algumas canções tocam no coração. Ficou evidente para a criança que eu era: o coração como instrumento da música, não do corpo. Que música era essa? Para onde estávamos indo?


Fomos, os quatro filhos e o pai, passar um sábado longe de casa. Você precisava estudar, o exame para o curso de formação em tradução técnica estava próximo, você pediu um momento de tranquilidade e silêncio. Na sua ausência, cabíamos todos confortavelmente no carro. Henrique se sentou na frente; Bel, Álvaro e eu atrás, mas naquela época nem se usava cinto de segurança, era comum nos amontoarmos os quatro no banco traseiro e às vezes alguém até ia no porta‑malas da Caravan cinza. No fim daquele sábado, no caminho de volta para casa, o porta-malas estava disputado: trazíamos ali uma cachorrinha. Meu pai teve a brilhante ideia de nos levar a uma feira de adoção de cães e gatos e voltamos com uma cadela, uma husky siberiana pela qual nos apaixonamos os quatro, talvez os cinco, imediatamente. Os seis.

Você, mesmo que precisasse de tempo sozinha para estudar, de manhãs e tardes livres de obrigações domésticas e da organização da rotina dos filhos, nos recebeu no corredor sem saber se ria ou chorava, incrédula, magoada, mas também feliz diante daquela filhote malhada em branco e preto com um olho azul e outro castanho. Mesmo com a prova logo adiante, era primordialmente você quem limpava o xixi, levava a cadelinha para passear e tentava ensinar os limites da casa.


Foi tão rápido. É sempre tão atropeladamente rápido quando reprisamos os fatos; o tempo é um vulto que tentamos flagrar mas já passou. O ar parado na sala da sua casa; as plantas vigorosas na varanda, que seu olhar agora mal alcança; o presente, que é o que te resta, sentada no sofá para onde te levam de cadeira de rodas. Hoje você não consegue dizer o meu nome, nem o seu. E no entanto é comum que eu chegue na sua casa e te encontre serena. Sentada no sofá, as pernas cruzadas de dona do recinto, o tapete agora imundo, os sofás manchados, no mesmo lugar, os quadros desalinhados depois que, num gesto impulsivo, o Elói vendeu a preço de banana os mais valiosos. Se eu me distraísse e não fixasse o olhar no seu rosto, se não reparasse no abaulamento da sua roupa provocado pela fralda, se não me detivesse na roupa desconjuntada, tão diferente daquela que você teria escolhido — elegante, sempre combinando, as cores alegres, até mesmo das saias, que você passou a usar com exclusividade conforme foi ficando mais religiosa —, poderia até achar que você está bem. Não veria o pescoço frouxo, com dificuldade de sustentar a cabeça; não veria o olhar perdido, ou a língua se mexendo continuamente por conta da discinesia tardia, termo que aprendi como psiquiatra e nunca imaginei que serviria a você, efeito colateral incomum nas enfermarias de quando eu era residente, vitimando alguns esquizofrênicos pelo uso prolongado de antipsicóticos, jamais a uma pessoa que usou risperidona por um ano e meio para controlar a agitação pela demência, jamais a você.

Começou com uma atrapalhação discreta, cotidiana, você se dizendo mais distraída, sem conseguir se lembrar de compromissos ou de onde tinha deixado objetos. Primeiro eu não dei muita importância, e você insistiu, continuou se queixando. Semanas. Meses. Eu supus que você apresentava de repente um déficit de atenção nunca diagnosticado, te prescrevi Ritalina para ver se melhorava, e disse, culpada, que nunca mais te faria receita nenhuma, eu não poderia exercer esse papel. Foi assim com a Ritalina e com os tantos pedidos de antibiótico para infecção urinária. Eu me irritava, me sentia cúmplice de uma contravenção, em parte porque sou sua filha, não sua médica, em parte porque havia algo que eu não conseguia (me recusava a) compreender. E também porque me sentia explorada. Você é que deveria cuidar de mim; você, mãe, fonte primordial do cuidado: em algum lugar profundo meu, talvez no nível das células, eu acreditava que uma mãe precisa dar, dar, dar. Até quando a mãe sou eu, e eu sentia intimamente que você tinha obrigação de me ajudar na lida cotidiana com meus filhos, como se a vida da avó, o tempo da avó, valesse menos que o da filha que virou mãe; como se cada indisponibilidade por um compromisso ou outro fosse uma ofensa; como se eu nunca tivesse virado mãe de verdade, por nunca ter deixado de ser, sobretudo, filha.

Que futuro errado é esse, eu penso enquanto seguro sua mão e chamo por você com a voz muito alta, como se o seu problema fosse surdez, e não um cérebro corroído, como se esse grito cotidiano, equivalente em outro polo à mudança de voz das pessoas ao falarem com um bebê, pudesse corrigir de repente o diagnóstico, que sempre me pareceu um equívoco, como se pudesse te assustar e nos acordar desse pesadelo, te fazer de repente voltar, enfim me ver, dizer meu nome, ah, sim, te reconheço, eu sou sua mãe, e as coisas todas estariam de novo em seus devidos lugares.


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É escritora, psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia e doutoranda em literatura pela USP. É autora de Copo vazio e As pequenas chances (ambos da Todavia), entre outros livros