questões hereditárias
Pedro Moro,* de Santa Maria (RS) Abr 2026 14h28
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A cena se passou na sala de espera de um hospital em Barretos, um pequeno município de São Paulo, famoso por sediar o maior rodeio da América Latina. O ano era 2018, quando Jair Bolsonaro – agora preso por organização criminosa armada, abolição violenta do Estado de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado – chegou ao poder pela primeira vez.
Naquela tarde, os pacientes aguardavam seus nomes serem chamados no telão para que fossem encaminhados às consultas, exames ou qualquer outro procedimento. Entre os que aguardavam, um jovem de 17 anos viu seu nome piscando na tela: Leonardo Henrique Bolsonaro Keller. “Na hora, levantei meio constrangido e fui.”
Ao circular pelo consultório, Leonardo, hoje com 24 anos, percebeu olhares e cochichos. “Todo mundo começou a comentar”, recorda. Não houve ofensas ou gracinhas, mas ele percebeu ali uma atenção que não costumava receber, e que o acompanha desde então, mesmo sem nunca ter se encontrado ou ser próximo de Jair Bolsonaro.
Imagine, leitor, ter um sobrenome que do dia para a noite começa a ser suficiente para despertar ira e paixões. Vocês provavelmente não sabem o que é passar por isso.
Nessa experiência, Leonardo tem a companhia de quarenta moradores de Taiúva, cidade com 6 mil habitantes no nordeste paulista, que têm o mesmo sobrenome do ex-presidente. É a maior fração reunida dos 241 Bolsonaros do Brasil, segundo o Censo de 2022.
Apesar disso, a cidade não foi lar, nem berço de Jair Messias Bolsonaro. O ex-presidente nasceu em Glicério, um município de São Paulo, a cerca de três horas de Taiúva.
Depois que Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão, o primogênito Flávio Bolsonaro iniciou sua pré-campanha à Presidência da República. Viralizou um vídeo em que o Zero Um dança seu jingle, que pede logo no início: “Abre passagem que o homem chegou, o legado tá vivo.” A certa altura, a letra propõe: “Esquece o passado, foca no que vem.”
Um levantamento do Datafolha de 11 de abril indica que 46% dos eleitores não votariam no senador, índice praticamente idêntico ao registrado por Lula, com 48%.
Apesar de Flávio ter sua própria capivara, aliados apostam em chamá-lo apenas de Flávio, distanciando o candidato da rejeição do pai. Diferentes jornais e portais embarcaram nessa, e o sobrenome do Zero Um sumiu de muitas manchetes.
O taiuvense Leonardo Bolsonaro, que está longe de ser bolsonarista (se diz politicamente neutro), foi mais firme. Manteve o nome completo nas redes sociais, mesmo no auge da crise sanitária, quando estudava enfermagem e via o vírus se espalhar junto com falas absurdas do ex-presidente. “Era ‘gripezinha’, ‘resfriadinho’, ‘não sou coveiro’. Eu me sentia envergonhado”, conta ele.
Ainda morando com o pai, o irmão e a mãe, Leonardo, um jovem abertamente gay, diz que não enfrentou desavenças com a família por assuntos de política. “Temos ótimas relações, mas falamos de outros assuntos.” Diferente do filho, Mônica Cristina Bolsonaro Keller elogia o governo do ex-capitão. “Foi um excelente presidente”, diz, sem pontuar um destaque positivo. “De cabeça, não vou saber te dizer.”
Mônica ressalta o que o filho disse: a família não fala muito sobre política. Na última eleição presidencial, o máximo que fez foi exibir um adesivo com o rosto de Jair Bolsonaro no carro. “Nós não mexemos com esse tipo de coisa. A gente da minha família é mais reservada, não gosta.” Mesmo assim, Mônica reafirma, em tom de orgulho, que todo mundo da família, e da cidade de Taiúva, “é Bolsonaro”. O filho dela não é todo mundo, mas não está só – a votação no ex-capitão no segundo turno em Taiúva caiu de 79,25% dos votos válidos em 2018 para 66,54% em 2022.
Quando falou à piauí em março por chamada de vídeo, Mônica logo apontou a câmera do celular para um pequeno retrato em sua estante. Na foto, estava seu pai, Lucio Bolsonaro. “Ele se parece com o Bolsonaro, não parece?” Nascido em Taiúva em outubro de 1932, Lucio é filho de José Bolsonaro e Vitoria Bovo. O avô de Lucio, Luigi, nasceu em Anguillara Veneta, na Itália, e imigrou para o Brasil por volta de 1900. Depois de um tempo, se estabeleceu em Taiúva, onde viveu até o fim da vida. Mesmo conhecendo uma pequena parte da história familiar, Mônica não sabe onde a sua árvore genealógica se desencontra com a do ex-presidente.
Jair Bolsonaro nunca visitou Taiúva, mas seu irmão Renato Antônio Bolsonaro esteve lá em agosto de 2022. Ele já disputou ao menos nove eleições – ganhou em 1996, para vereador de Praia Grande – e hoje é pré-candidato a deputado federal pelo PL no estado de São Paulo. Ele já foi condenado por fazer propaganda eleitoral negativa nas eleições municipais de 2024. Antes, em 2016, foi acusado de ser funcionário fantasma quando atuava como secretário parlamentar no gabinete do deputado estadual André do Prado (PL), hoje presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo – mas o Ministério Público arquivou o caso, após explicações da defesa.
Procurado pela piauí, Renato disse que iria encontrar um horário para a entrevista. Por mensagem, escrevi: “Obrigado, fico no aguardo.” Ele respondeu: “Ta ok.” Depois disso, não retornou mais, apesar das cinco tentativas de contato.
A visita do político a Taiúva, na época, foi planejada pelo taiuvense Marcos Antonio Borsonaro (sim, com R), um apoiador declarado do ex-presidente e do irmão. Em sua descrição biográfica no Instagram, diz ser um “Bolsonaro raiz”.
Em agosto de 2025, quando o ministro Alexandre de Moraes decretou a prisão domiciliar do ex-presidente, Marcos publicou um vídeo nas redes pedindo por anistia dos presos políticos e reclamando do ministro do STF. Na gravação, Marcos aparece em uma pequena carreata. Enquanto a mulher que está filmando grita “Fora, Xandão!”, ele desponta em uma van branca: “É isso aí, vamos tirar esse cara daí. Tá atrapalhando o nosso país.” Naquele dia, compartilhou outros dois vídeos, um em que aparece ao lado de compatriotas que participaram da carreata em Jaboticabal, e outro em que Renato Bolsonaro aparece na Avenida Paulista em meio às manifestações que urgiam por anistia.
O político, aliás, é muito presente na rede de Marcos. Dos 104 posts que fez no Instagram, ao menos 30 estampam o nome ou o rosto de Renato. O vídeo mais recente publicado mostra um corte da participação de Renato no TubaCast. Na gravação, entre várias críticas, ele deslegitima a luta pelo fim da escala 6x1.
Animado com a ascensão de Jair Bolsonaro no cenário político, Marcos aproveitou para lançar o próprio projeto político. Aos 58 anos, lançou-se em 2020 candidato à prefeitura de Jaboticabal pelo antigo PSL com o nome Marcos Bolsonaro, apagando o R do seu sobrenome original. Ficou em quinto e último lugar, com 4,01% dos votos. A piauí entrou em contato com Marcos, que, depois de topar combinar uma entrevista, nunca mais respondeu.
Nelson Gimenez, presidente do PL em Jaboticabal, fala de Marcos com meias palavras. “Ele tem esse viés de direita, assim como outras pessoas aqui da cidade”, diz ele, que considera o correligionário pouco participativo das atividades da agremiação. “Precisamos mais de coesão entre nós enquanto partido e ele enquanto integrante.” Em outro momento, assopra: “Marcão é show de bola.”
Nas plataformas digitais do PL de Jaboticabal, dá para ver que Marcos tem bem menos destaque que o “Lula do Bem”. Trata-se do médico Célio Morais, de 70 anos, hoje vereador pelo partido na cidade. A população o considera “sósia” do presidente Lula, mas ele é de direita – por isso, “do bem”. O próximo passo é tentar a Câmara dos Deputados. “O PL intitulou ele de ‘Lula do bem’ para trazer essa vertente, o cara dos dez dedos e tal”, conta Nelsinho.
*Pedro Moro não tem parentes famosos.